O que fazem mulheres: Romance philosophico

Chapter 2

Chapter 23,864 wordsPublic domain

Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a sem-cerimonia de um visitante habitual. Apertou-lhe a mão, beijando-a ao estylo da França, cousa que elle vira fazer a quatro ou cinco viajantes distinctos do Porto, que tinham conhecido, em Pariz, a «mesa-redonda» dos hoteis onde estiveram. Ahi vão á pressa dois traços d'este Ricardo de Sá. É um bacharel formado em direito, filho de outro bacharel que faz requerimentos, em quanto o filho, reservado para a magistratura, destino em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro com letra ingleza, e timbra em comprar no _Moré_ os mais anilados _enveloppes_, e o melhor papel-setim de fimbria dourada.

Lê, e empresta os romances aos namoros; commenta-os na margem das paginas, e addiciona-lhes appendices manuscriptos de lavra sua, quando a catastrophe merece ser corrigida.

Além d'isto, o bacharel tem tres bengalinhas, que reveza, todas muito bonitas, com os punhos de massa de marfim, formando uma o grupo das graças, outra o das musas, e a mais embrincada é uma Suzana a saír do banho, espreitada pelo olho lascivo dos arreitados juizes de Israel. Ricardo de Sá consome as manhãs, que principiam para elle ás onze horas, dividindo os cabellos em delgados fasciculos, e lustrando cada um d'elles com um cylindro de cera. Aguça, quanto possivel, as guias do bigode, encerando-as, e enverniza a pera com um oleo contido no decimo nono frasco da terceira serie. Depois, o laço da gravata, e a collocação symetrica do pseudo camapheu é obra de fôlego que lhe dá tempo de assobiar dois actos do _Trovador_, a aria valida do _Rigoletto_, e o acto final da _Lucia_. De seguida, a compostura airosa das lapellas do fraque, a ultima demão de escova, e o aprumo do chapéo onde não ha um fio erriçado, tolhem muitas vezes a saída do peralta, que se encontra com a terrina da sopa do jantar.

O bacharel nutre-se de ar puro, e d'alguns escropulos de carne de boi. O pae, homem roliço e respeitador das immunidades do estomago, suppõe que seu filho desbarata a pequena mezada nas casas de pasto, e não se assusta da inappetencia.

Ricardo crê que o seu estomago destacou tecidos para o coração, reservando para o funccionalismo alimenticio um estomago-miniatura, o _quantum satis_ das compleições sylphidicas. Convicto da excrecencia espiritual, crê-se dotado de fluidos nêrveos, magnetismo, electricidade, etherisação. Julga-se em fim anestesico, espasmodico, dynamico, em fim tudo o mais que não se entende.

Não ama as mulheres, pranteia-as como victimas do seu poder fascinante. Algumas vezes, tem a piedade de as não encarar para as não abysmar. Outras, exerce a crueza da experiencia, fitando-as com o olho carregado de electricidade, fala-lhes com um timbre magnetico que elle sabe, e, não ha que vêr, o somnambulismo é prompto, a attracção é irresistivel como a da cobra-cascavel do Canadá apoz o tangedor da flauta.

Crê tudo isto o bacharel, e ha velhacos que lh'o ouvem com a sisudeza da crença, e lhe não receitam um curativo de causticos.

D. Ludovina Pimenta é uma das suas somnambulas, e a menos victima de todas. Ricardo distingue-a, impondo-se a obrigação cavalheirosa de corresponder-lhe quanto em si cabe para que a infeliz desilludida não tente contra a existencia. Vae ve-la todos os dias, conversa litteratura com a mãe, toma uma chavena de chá sem assucar, e despede-se ás onze horas, dizendo que vae esperar no seu quarto a hora da inspiração matinal para continuar a sua obra intitulada: O SECULO PERANTE A SCIENCIA.

É o que podemos esquadrinhar ácerca do bacharel Ricardo de Sá.

Os homens assim não se pintam; a zombaria não os enxerga na profundeza da sua toleima... são o Rubicon do folhetim, a desesperação da comedia desde Aristophanes até Molière.

O original anda por ahi. Tenho-lhe assestado tres vezes a machina photographica, de rosto; sahiu-me sempre aquillo.

[3] Perdoem-lhe a mentira pela intenção boa com que a diz...

II

«Ludovina fica hoje no quarto--disse D. Angelica, respondendo á pergunta admirada do bacharel.

--Doente?

--Sim, passageiramente doente; mas é tão debil a pequena, tão melindrosa...

--É um corpo que não póde com o espirito... Eu comprehendo o que são esses desfallecimentos d'alma. A filha de v. ex.ª tem uma organisação muito semelhante á minha. As minhas enfermidades são sempre quebrantos, estherismos, lethargia, procedentes das fadigas intellectuaes, ou dos anceios do coração. Compleições infelizes, não acha, minha senhora?

--Oh! infelicissimas, de certo...

--Se, todavia, v. ex.ª tivesse a bondade de dizer a sua filha que fizesse um esforço para me vir contar os seus padecimentos, talvez que uma medicina toda espiritual...

--A curasse?... talvez...

--Sorriso de incredulidade, não é assim? V. ex.ª é sobejamente espirituosa para desconhecer a influencia que exerce uma alma sobre outra, quando as correntes magneticas...

--Não lhe dá treguas a sua paixão magnetica, sr. Sá!... A Ludovinasinha queixa-se de enxaqueca... Eu voto, d'esta vez, por medicamentos caseiros... Talvez que uns sinapismos...--proseguiu ella, rindo, sem ferir o orgão maniaco do bacharel--dispensem uma descarga electrica.

--V. ex.ª não quiz entender-me, ou eu tenho sido confuso na exposição das minhas convicções.

--É clarissimo sempre, sr. Sá; mas desconfio da inefficacia da sua vontade sobre a enxaqueca de Ludovina. E depois, convém-nos que ella esteja doente por um quarto de hora. Vamos falar a respeito d'ella.

--Tenho razões para suspeitar que minha filha não é indifferente a v. s.ª.

--De certo, não.

--Póde dizer-me até que ponto me devo lisonjear com a affeição que Ludovina lhe merece?

--Voto á sr.ª D. Ludovina um sentimento profundamente respeitoso...

--Só?

--Uma affeição nobre e desinteressada...

--Amor?

--De certo... amor... reflectido, e bem intencionado...

--Uma paixão verdadeira, não é verdade?

--Quanto em mim cabe, minha senhora... quanto é possivel apaixonar-se um homem de vinte e oito annos, apalpado já pelas desillusões, e esterilisado tanto ou quanto pelos ventos contrarios dos revezes da alma...

D. Angelica fez um geito de quem ouvia chamar; ergueu-se com a mais destra simulação, dizendo:

--Minha filha tocou a campainha... As creadas não a ouvem de certo, eu volto já...

Ricardo de Sá fez mentalmente o seguinte monologo:

--D. Angelica vae propôr-me o casamento da filha. Eis-me entalado n'uma crise imprevista! Está explicado o enygma da carta que Ludovina me escreveu hoje. Receia que eu me esquive á proposta; e tem razão. Eu não caso. Esta mulher está abaixo dos meus calculos. Lisonjeia um amante, mas não póde satisfazer as complicadas necessidades de um marido... É horrorosa a minha posição!... Sei que faço uma victima... de certo a mato... Estudemos uma evasiva, não obstante...

O monologo continuava, quando Ludovina, conduzida machinalmente por sua mãe, se collocava atraz de uma vidraça da alcova immediata á sala.

D. Angelica era um assombro de esperteza. A leitora já admirou a eloquencia persuasiva com que ella abalou o coração da filha; já disse, de si para si, que, com tal mãe, não ha filha que rejeite o casamento de um brasileiro rico; já leu as paginas que ahi ficam á mãesinha para que ella saiba os argumentos com que se vence a desobediencia das filhas, em casos identicos. Pois, se gostou e admirou as palavras de D. Angelica, ha de tambem admirar-lhe as obras.

D. Angelica viu o mais secreto do animo do bacharel; previu o desenvolvimento da conversação, e quiz dar á filha o mais rude, mas tambem o mais proveitoso desengano.

--Nada era... ou era muito... Queria saber como v. s.ª estava--disse a matreira esposa do sr. Pimenta.

--E ella como está agora?

--Soffre bastante... Falei-lhe no seu magnetismo, e a tolinha córou... Era talvez o clarão da descarga electrica, seria?

--V. ex.ª sempre «fazendo espirito» com os axiomas da sciencia... Ha de convencer-se... A experiencia lhe apontará as evidencias...

--A mim? ora essa! Terá v. s.ª a infausta idéa de me magnetisar? Adormecer-me... isso é facil; bastam os livros que tratam da sciencia, não é precisa a acção... Não «faço mais espirito» como v. s.ª diz... Vamos á nossa pratica interrompida que é muito séria:

Disse o sr. Sá que minha filha lhe merecia um sentimento profundamente respeitador, uma affeição nobre e desinteressada, um amor reflectido e bem intencionado, e finalmente uma paixão, que não era bem uma paixão, por quanto desillusões, revezes, _et coetera_, lhe haviam... não me recordo...

--Esterilisado a alma...

--Foi isso... Em toda a sua resposta só ha de desagradavel essa esterilidade de alma; todavia, eu creio que tão boa alma ha de sempre florescer e fructificar, quando a cultura fôr confiada a uma mulher de bom coração, meiga, docil, maviosa, em fim, a uma que não inveje as boas qualidades de minha filha.

--De certo... assim o penso, minha senhora--balbuciou o bacharel, forçado pelo silencio interrogador de D. Angelica.

--Minha filha ama-o, sr. Sá. Ama-o delirantemente, perdidamente, quer ser sua ou da sepultura, não acceita admoestações nem esperanças tardias, quer unir-se ao esposo da sua alma, mas já, já, senão... diz que, mais tarde, será victima da sua paixão. Sabia v. s.ª que era tamanho o seu dominio n'aquella innocente alma?

--Sabia... desgraçadamente sabia.

--_Desgraçadamente!_... essa palavra faz tristeza! Pois nem sequer o orgulho de ser assim amado o alegra?

--Sim, minha senhora--tartamudeou o bacharel, afagando as guias do bigode--tenho orgulho de ser assim amado... _Desgraçadamente_ disse eu, porque me doem os soffrimentos da sr.ª D. Ludovina...

--Estando na sua vontade o mais facil e desejado remedio d'elles? é singular!

--Ainda assim... ha situações na vida...

--Sei o que quer dizer--atalhou a zombeteira senhora--ha situações em que quizeramos immediatamente felicitar as pessoas que soffrem por nossa causa. Isso é assim... Pois bem. Tratemos definitivamente da felicidade da nossa Ludovina. Minha filha, como v. s.ª sabe, não tem dote. É pobre, supposto que o fausto com que vive queira desmentir esta triste verdade. Em riquezas de espirito é millionaria. Nas do coração, sabemos nós o que ella é. A «fortuna» porém, é muitas vezes a inimiga da verdadeira felicidade, não é assim?

--De certo, minha senhora...

--V. s.ª tem uma habilitação, tem uma vasta intelligencia, sobram-lhe expedientes para grangear o sufficiente para duas almas venturosas; agouro a ambos uma felicidade duradoura. Entrego-lhe minha filha, na certeza de que nunca me será turvado o prazer d'este instante de expansão maternal pelo arrependimento da minha leviandade. Dê-me um abraço, que já começo a consideral'-o meu filho.

--Minha senhora--disse o enfiado bacharel, extendendo a mão a D. Angelica--eu estou cordealmente penhorado pela confiança que mereço a v. ex.ª. Cumpre, porém, reflectir n'um passo tão momentoso. Eu amo em extremo a sr.ª D. Ludovina, toda a minha ambição é identifica'-la ao meu destino sobre a terra, mas, minha senhora, eu não posso dispôr da parte de obediencia que devo a meu velho e respeitavel pae, sem consulta'-lo, porque dependo d'elle, em quanto não entrar na carreira da magistratura, e o cabedal dos meus estudos não me abona tanto quanto v. ex.ª imagina que póde proporcionar-me a intelligencia.

--Pensa mui judiciosamente--redarguiu D. Angelica formando com a prolongação dos beiços, e o abrimento dos olhos, um tregeito de mui sisuda approvação--e qual conjectura v. s.ª que seja a resposta de seu pae?

--Não sei, minha prezada senhora...

--Se fôr negativa?

--Se fôr negativa...

--Obedece?

--Como filho dependente; mas os dias da minha existencia serão poucos, e attribulados...

--Mas isso é horrivel, sr. Sá! Minha pobre filha succumbe... V. s.ª mata a mulher que mais o amou, a unica n'este mundo que o compreendeu, um anjo que não viu outro homem digno d'ella... Que diz a uma mãe consternada, sr. Sá?

--Minha senhora... a nossa posição é desgraçadissima.

«Remedeie-a, que póde. Se seu pae o não acceitar casado, tem a casa de sua mulher, onde será recebido como filho... Oh! que insensibilidade! o senhor não ama Ludovina!

--Se a não amo! Isso mata-me, snr.ª D. Angelica!

«V. s.ª é que mata uma santa, uma martyr...

--Segui'-la-hei na morte...

«Pois o melhor é viverem ambos!--disse D. Angelica, desafivelando a mascara da amargura, e abrindo o riso mais galhofeiro e fulminante que imaginardes, leitores phantasiosos--V. sr.ª tem sido logrado desapiedadamente, snr. Ricardo de Sá. Peço-lhe que viva muito tempo, porque uma pessoa como v. s.ª não deve morrer, em quanto a tristeza, que foge ao riso, andar por este mundo. Snr. Sá, é preciso dizer-lhe que minha filha ouviu esta nossa scena comica, e acredite que o magnetismo não operou a approximação. Eu comecei a falar-lhe em minha filha para pedir ao seu cavalheirismo que não a inquietasse, porque vae esposar um homem que seu pae lhe escolheu. V. s.ª alumiou-me o entendimento, deu-me um alegrão inapreciavel; e voltou as minhas idéas para o lado opposto. Fui buscar minha filha, para assistir ao espectaculo do coração de v. s.ª, e dei-lhe um bello espectaculo. Snr. Sá, a sua posição é desagradavel, e faz-me pena, por não dizer tedio. Um homem como v. s.ª nunca devera erguer os olhos para uma menina honesta.

D. Angelica retirou-se da sala, soberba como uma rainha na descida do throno.

O auctor possivel do SECULO PERANTE A SCIENCIA, emergindo do estupor momentaneo, procurou a bengalinha de Suzana a saír do banho, e caminhava atordoado para a porta, quando entravam Melchior Pimenta, e um sujeito desconhecido ao bacharel.

--Ólá, por cá, snr. Sá?

«É verdade, snr. Pimenta.

--Ninguem lhe falou?! estava sósinho?!

«Saiu da sala, n'este instante, a snr.ª D. Angelica.

--E Ludovina?

«Está de cama, creio eu.

--De cama!? ella ficou boa quando eu saí... Alguma dôr de cabeça...

«Creio que sim... Dá-me as suas ordens, snr. Pimenta?

--Saude, meu amigo, appareça á noite, que lhe quero dar o conhecimento d'este meu amigo, que será provavelmente o marido de minha filha...

«Sim?... estimo muito conhecer... Ás suas ordens, meus senhores.

Saíu; e o snr. João José Dias (que é o tal), franzindo a testa, disse ao pae da esposa promettida:

--Que diabo de cousa é isto? Cuidei que me picava o bom do homem com os galhos do bigode! Eu corto as orelhas ambas e duas, se aquillo não fôr um patarata!

«É um pobre diabo que lê novellas, e não é mau rapaz--respondeu o snr. Melchior, limpando o suor da testa.

--Novellas!... hum!--este _hum_ do snr. João José Dias é uma cousa semelhante a um grunhido roufenho; aquelle _hum_ é a these de uma dissertação que elle, em tempo opportuno, ha de fazer contra a leitura immoral dos romances--A sua filha lê novellas, snr. Melchior?--continuou elle pondo os olhos de esguelha, como molosso desconfiado.

«Entretem-se com a mãe, ás vezes, n'essa leitura; mas lê sómente as que a mãe já tem lido.

--Pois não faz bem. As novellas são a perdição das mulheres. Lá no Rio está aquillo mal de religião e virtude desde que pegaram a ler romances as moças. Em minha casa é sujidade que não entra. Eu já uma vez, para ver o que era aquillo, puz-me a lêr uma novella, chamada... chamada... era de um tal... d'um tal _Kocles_, ou _Koques_, e, meu amiguinho, era maroteira de ferver bicho.

A snr.ª D. Angelica interrompeu a parlenda acrimoniosa de João José contra os romances.

«Aqui t'o apresento--disse Melchior.

D. Angelica mirou-o de alto a baixo, e fez-lhe uma ligeira cortezia. No rosto expressivo da sympathica senhora, liam-se estas dolorosas palavras: _Minha pobre filha, que impressão vaes receber!_

III

João José Dias devia orçar pelos seus quarenta e cinco annos. Era de estatura menos que mean, adiposa, sem proeminencias angulares, essencialmente pansuda, porque João José tinha uma serie descendente de panças, desde a papeira côr de rosa até ás buchas das canellas ventrudas.

Nas faldas de uma testa estreita, chata, e rugosa, como um elytro da concha de um cágado, luziam os olhos pequenos e esverdinhados de João José. As palpebras tumidas e pillosas como a casca da fava, enviezavam-se para dentro, formando á raiz das pestanas um rebordo purpurino. O nariz, sem base nem ossos, nem cartilagens, devia ser a desesperação de Falopio e de Bichat: rompiam-lhe d'entre os olhos as ventas já formadas, com a ponta arregaçada e as azas convexas, dilatando-se até ás alturas dos ossos malares, entupidos nas bochechas gordurentas. Os beiços eram bicolores; nacarinos no centro, e rôxos para as extremidades quasi invisiveis sob os refegos relachados dos musculos limitrophes. João José tinha quatro dentes incisivos de brilhante esmalte, entalados nos outros quatro, formando de commum accordo as saliencias irregulares de um pedaço de crystal bruto. Os dentes laniares ou caninos tinham uma crusta de carie, e algumas luras chumbadas. Os vinte malares estavam no goso das suas funcções triturantes, com quanto amarellados de saes terreos, e regorgitamentos do bolo indigesto.

João José não tinha pescoço: as espaduas ladeavam-lhe os bocios da garganta, alteando-se ao nivel das orelhas escarlates, com bolbos da mesma côr, e não sei que excrescencias no lobulo, simulando pingentes de coral.

Disse-se que era todo barriga o homem, já que Buffon e Cuvier asseveram que é homem, feito á imagem e semelhança de... não ousamos escrever a blasphemia. O que se não sabe é que a barriga lhe marinhava peito acima, até levar de assalto o campo onde fôra pescoço.

As pernas de João José eram dois cepos, postos em peanha a uma esphera armilar. Tão curtas eram ellas, e tão desmesurados os pés, que me não seria difficultoso convencer-vos de que a natureza, em hora de travessura, fez da porção de materia, destinada para perna e pé, duas partes eguaes, juntou-as e o ponto de juncção denominou-o calcanhar.

As botas de João José tinham incriveis expansões de couro: eram um oceano de bezerro cortado de ilhas. Os joanetes do pé direito formavam um archipelago. No remanescente das milhas despovoadas, o pé era raso e chão como uma lousa de mercieiro.

Deram-se uns longes para auxiliar a phantasia de quem não conhece o snr. João José Dias. Para os que o viram, a pintura, vae tacanha e inhabil, aqui o confesso, envergonhado do meu descredito.

Vamos á biographia da pessoa, e veremos que boa alma se nichou n'este hediondo envolucro.

João foi cachôpo para o Brasil, e estreou-se n'uma loja de molhados, onde grangeou renome de rapaz videiro e possante. Abraçava uma talha de azeite de tres almudes, e aguentava com ella do armazem para a loja, sem impar. Levantava do sobrado para o balcão o peso das tres arrobas com os dentes. Punha a prumo meia pipa de cachaça, e levava á bôca, sem gemer, um barril de dois almudes, com o braço testo na aza. Isto constou na rua dos Pescadores, e, ao terceiro anno, João era alliciado por varios patrões, que disputavam o lanço.

Não pertencem á alma estes esclarecimentos, bem o sei; mas a alma de João José formou-se então. A probidade, a lisura, a honradez do boçal caixeiro nunca foram desmentidas pela gaveta do patrão. Os convites, feitos á sua cubiça de melhores ordenados, repelliu-os sempre, dizendo que nunca deixaria a casa onde comera o primeiro bocado de pão. O augmento de ordenado vinha sempre espontaneo dos patrões: podendo inculcar-se com as propostas dos vizinhos, nunca João José se queixou dos pequenos ganhos.

Os paes de João eram uns pobres fazendeiros de Celorico de Basto, que se desfizeram do unico cevado e de uma vitella para pagarem a passagem do rapaz. João não esqueceu estes sacrificios nem as lagrimas que vira no rosto da mãe, quando, em Miragaia, lhe deu um quartinho em ouro embrulhado em seis camadas de papel.

Os lucros dos tres primeiros annos foram quasi todos enviados a seus paes, e, d'ahi em diante, metade do ordenado vinha repartido em pequenas mesadas para os velhos, que lh'os devolviam em roupas brancas.

João José, morrendo um socio da casa, achou-se herdeiro da terça parte do negocio. Pudera então retirar-se com haveres sobejos para viver descançado na patria; mas, para obviar os desarranjos da liquidação, continuou na sociedade.

Veiu a Portugal em 1835, comprou no Minho a cerca de um convento, e, deixando o uso-fructo aos paes para que vivessem regalados, voltou ao Rio de Janeiro, onde achou fallida a sua casa commercial, e compromettida a compra que fizera na terra.

Tinha sido escandalosamente roubado o pobre homem.

Aconselharam-no que intentasse acção judiciaria contra os socios. Rejeitou o alvitre, dizendo que Deus os julgaria. Acceitou os enormes creditos que lhe offereceram, estabeleceu-se, e dentro de doze ou treze annos pagou as dividas de seus socios, e liquidou cem contos de réis fortes, entre os quaes, diz elle, e dizem todos os que o conheceram, não havia cinco réis adquiridos deshonrosamente.

Chegou a Portugal em 1848. O pae era morto e a mãe octogenaria estava entrevadinha, pedindo ao Senhor que a não remisse das penas d'este mundo sem ver seu filho.

João José Dias assistiu seis annos aos longos paroxismos de sua mãe, adoçados com as lagrimas da felicidade. Em 1854 finou-se a velha nos braços do filho, dizendo-lhe que fizesse feliz uma moça pobre, casando com ella já que Deus lhe déra a riqueza.

Passado o luto, o capitalista veiu ao Porto, e conheceu casualmente, na alfandega, Melchior Pimenta, que lhe fez um pequeno serviço na brevidade de uns despachos.

Alguns dias depois, encontrou o empregado da alfandega com uma formosa menina pelo braço, e perguntou-lhe se era sua filha. No dia immediato foi á praça, e colheu de alguns negociantes informações ácerca da filha de Melchior.

Todos á uma lhe disseram que a menina gosava de excellente opinião; mas tinha só o defeito de querer hombrear em luxo com as filhas dos negociantes mais abastados. Um dos informadores accrescentou que os tafetás, as rendas, e as pelliças da filha do empregado da alfandega não pagavam direitos.

Esta mordedura dos malevolos não magoou João José Dias.

Fez-se encontradiço com Melchior, e falou-lhe dos seus teres, e da tenção que tinha de mudar de estado, até para cumprir uma promessa que fizera a sua mãe. Disse-lhe Melchior que era acertada a resolução, e muito facil o realisa'-la. Replicou o brazileiro pedindo que lhe indicasse alguma menina honesta. Pimenta pediu tempo para pensar, e o capitalista, com a rude franqueza de uma boa alma, disse que a sua escolha estava feita. Averiguada a cousa, a escolhida era a filha do sr. Melchior Pimenta, que não cabia n'um sino.

--Isto é um modo de falar...--observou João José--Sem que sua filha dê o sim, nada feito. Eu sei que estou no calçado velho, e não trajo cá á moda dos janotas, como por ahi dizem. A sua filha é muito nova, e quererá um rapaz. Fale com ella, diga-lhe a verdade, eu irei lá se o senhor quizer; se ella quiz, muito bem; se não quiz, ficamos amiguinhos como d'antes.

--A minha filha é docil e ajuizada: ha-de querer o que eu quizer. Foi educada por uma mãe, que teve melhores principios que eu, e faz com que ella lhe obedeça, tractando-a como irmã. Posso dizer-lhe que minha filha será sua esposa; mas bom é que o senhor nos dê o prazer de frequentar a nossa casa, para conhecer o coração da minha Ludovina.

É este o resumo do grande dialogo que precedeu a apresentação do sr. João José Dias a D. Angelica.

* * * * *

Não querendo eu, nem por sombras, indispôr contra os meus fieis escriptos o imperio do Brazil, peço ao meu sisudo editor que faça estampar o seguinte epilogo d'este capitulo:

João José Dias adquiriu com exemplar probidade os seus bens de fortuna.

Foi bom filho.

Levou a honra commercial ao primor de embolsar credores roubados pelos socios que o roubaram a elle.

Foi trabalhador, quando precisava acreditar-se pelo trabalho; e foi-o tambem, na opulencia, como o ultimo dos seus servos.

Nunca teve escravos, comprados ou alugados: remiu alguns na decrepitude, e deu-lhes uma cama onde o ultimo instante da vida lhes fosse o primeiro de bem-estar.