O que fazem mulheres: Romance philosophico

Chapter 11

Chapter 111,328 wordsPublic domain

Vaes agora ver que todos estes atalhos conduzem á estrada real da terra da promissão--proseguiu elle;--Josué está defronte das muralhas de Jericó. A trombeta da anniquillação vae soar. A virtude de Ludovina está abalada desde os alicerces, e desabará como todas as virtudes possiveis no romance, e impossiveis na vida qual ella é, e como bom é que ella seja para que este mundo se supporte desde o amanhecer até que o sol refresca a sua fronte abrasada nas aguas do oceano.. Deleitei-te com esta nesga de estylo? Até os olhos se te riem quando ouves tolices euphonicas!... Vou concluir.

--Já?!

--Achas que é cedo?

--Parece-me que o triumpho está muito longe ainda para concluires tão depressa.

--Lê esta carta, e prova-me que conheces alguma cousa do coração, dando como infallivel a minha victoria.

Comecei a lêr com ávida curiosidade a seguinte carta de Ludovina:

«Eu procurei este abrigo, cuidando que encontrava n'elle paz, esquecimento, anceios para Deus, balsamo de piedade para as chagas de minha mãe e minhas, o desejo suave de morrer com ella, e um acabar a vida melhor que o principio.

«Gosei alguns mezes, se não a realidade, ao menos a esperança d'estes bens. Por que infortunio estava confiada ao sr. Marcos a missão de inquietar-me até me affligir com a mortificação das suas instancias impertinentes, perdoe-me a clareza da idéa...?»

--Que amabilidade!--disse eu, interrompendo a leitura.

--Lê, e não commentes por ora.

Prosegui, lendo:

«Muito egoistas são os homens, santo Deus! Ha uma infeliz mulher, como eu, que impressiona um homem como o sr. Marcos. Sou procurada na minha solidão por v. s.ª que me offerece o seu amor. Respondo-lhe que o não posso acceitar, porque a infelicidade me tornou dura e insensivel aos prazeres dos affectos do coração. Conto-lhe a minha vida com aquelle desabafo e confidencia que fórma as amizades immorredouras. V. s.ª escuta-me, admira-me, lamenta-me, e faz-me acreditar que a minha dôr é para si tão respeitavel que não ousará mais despertar-me o desejo de alegrias impossiveis para mim. Apenas decorridas algumas horas, abro uma carta sua, em que espero encontrar a linguagem consoladora de um amigo, e leio um longo queixume contra a minha insensibilidade, e a ameaça de se matar, porque a sua mortificação é insupportavel.

«Egoismo, e tyrannia!

«Faltava-me a tortura da responsabilidade da sua vida, sr. Marcos! Quem me dera ser o que creio que se é no grande mundo, que eu não tive tempo de estudar! Lá, as mulheres experimentadas nas tempestades do coração, sabem, creio eu, que nenhum homem morre em naufragio. Eu tenho a innocencia de crêr que o mortifico, que o incommodo com a minha frieza, que o não satisfaço com o grande affecto de amiga que lhe dou.

«Que futuro me queria dar, sr. Marcos? Pois não conhece a minha posição? Não adivinha que vivo toda e exclusivamente no amor de minha mãe? Que entrei n'um caminho de amarguras voluntarias d'onde não posso desviar-me uma linha, sem converter em remorsos a consciencia das boas acções que pratiquei até hoje? Deixe-me tambem ser egoista das minhas virtudes, porque não tenho outro amparo que me sustente a coragem para soffrer o pouco de vida que me resta.

«Eu avalio o seu coração. Confesso que, ha tres annos, o encontrarmo-nos seria um designio da Providencia divina. Creio que seriamos felizes; que teriamos a bemaventurança na terra.

«Agora, porém, não ha futuro para nós, nenhum futuro, meu amigo.

«São as ultimas palavras que lhe dirige a sua sempre amiga _Ludovina_.

--Que esperas agora, Marcos?--perguntei eu.

--Espero que ella se compadeça da minha humildade.

--Humildade não entendo...

--Essa carta é um esforço extremo de quem se quer segurar á aresta do abysmo. A baroneza é mulher.

--Já sei.

--Cuidei que não sabias, e de certo não sabes o que é uma mulher.

--Então, já não aprendo.

--Vou-te ensinar o que são todas, definindo-te Ludovina.

--Escuto, sem respirar.

--A baroneza ama-me.

--Isso é bem positivo e claro? Vê lá...

--Tenho visto. Ama-me, e está sem forças para manter uma isenção contrafeita. A mulher, quando se sente enfraquecer, revolta-se contra o homem que a subjuga.

--E depois?

--Se esse homem acceita humildemente a revolta, é ella mesma a que se revolta contra si, incriminando-se de ingrata e insensivel.

--É pelos modos uma enfiada de revoltas, de _bernardas_ do coração...

--Estás hoje intractavel!!

--Estou intolerante com os absurdos. Esperas que ella te mande chamar á grade do mosteiro para assistires á queima d'esta carta na pyra do amor?

--Talvez... Tu és uma creança velha. Não sabes nada. Morres ignorante dos segredos do coração feminino... Que lastima!

--Não me chores, responde: tiveste o cuidado de avisa'-la que te vinhas suicidar nas florestas do Senhor do Monte? Meu caro Marcos, eu acredito que conheces todas as mulheres menos Ludovina. Ha um Waterloo para cada Napoleão d'estas conquistas incruentas. O teu é a baroneza de Celorico de Basto. Queres poupar-te a um desgosto de amor proprio? Esquece-a.

--E a omnipotencia da vontade o que é? Hei de triumphar, ou Ludovina é uma natureza superior á humanidade...

Sahi de Braga. O meu amigo ficou á espera da segunda «revolta» rimando a quarta poesia em quintilhas, e os primeiros duzentos versos de uma elegia que elle intitulava o seu epitaphio.

* * * * *

Um mez depois encontrei no Porto Marcos Leite.

--Então?--exclamei eu a custo, com as costellas apertadas n'um abraço homicida.

--A baroneza?

--Sim... diz-me alguma cousa da ultima «revolta».

--A baroneza... cahiu miseravelmente.

--Cahiu?!

--Não o sabias? que estupida espionagem tu trazes nas casas alheias!

--Venceste, pois. Marcos! Oh minha pobre Ludovina! onde eu te havia posto! O que dirá o publico! Despenhou-se aquelle anjo! Quando encontrarei eu outro para o throno que ficou vago?!

--E em que lodaçal ella cahiu!...

--Creio...

--Esse _creio_ é uma affronta...

--A ella...

--Querem ver o romancista com ciumes!...

--É compaixão d'ella, e de ti...

--De mim!--tornou elle soltando uma estridente risada--de mim! Pois cuidas que o lodaçal sou eu!? Restitue-me a minha innocencia na terrivel torpeza que ella praticou.

--Depressa... que fez ella?

--Cahiu nos braços asquerosos de...

--De quem!

--Do marido! Não te espantas da perversidade!? Estás corrupto!

--Por consequencia está coroada a virtude da minha heroina com o extremo supplicio.

--Pelo que ouço, denominas resignação o que no meu vocabulario equivale a baixeza de alma! São tantas as martyres que sorriem á sucapa da tua compaixão... Confessa que Ludovina não podia dar mais insignificante testemunho de um espirito menos de trivial. Entregar-se de novo a João José Dias!

--Cala-te, impio! não cuspas na face da martyr! Conta-me os promenores d'essa reconciliação. Palpita-me que a promoveu algum grande infortunio...

--Qual? adivinha lá...

--A morte de D. Angelica.

--Justamente: morreu ha tres semanas.

--Atormentada de saudades... pobre mulher!

--Creio que sim. Disseram-me minhas primas que lhe encontraram um retrato no seio, ainda embaciado pelo ultimo respiro que ella exhalou. Devia ser o retrato de Antonio de Almeida. Tambem me disseram que viram ajoelhar Ludovina ao pé do cadaver, e lhe ouviram dizer: «A sua memoria fica sem mancha, minha mãe!»

--Isso é triste, Marcos! Comprehendes tu a santidade d'essas palavras?

--Comprehendo; mas abomino a melancolia. O mundo acceita estes heroismos como exquisitices. Eu pertenço a este mundo, dei-lhe o que tinha de bom no coração, e quero ter grande partilha no cynismo que elle dá em paga.

--Não importa. Ludovina continua a ser um anjo, confessa.

--Parece-me que o seria, se não sahisse de ao pé do tumulo de sua mãe. Se João José Dias avilta uma creatura que é só humana, com o seu contacto, como ha-de elle sustentar as qualidades de um anjo?

--E se Ludovina acceita as torturas da convivencia com tal homem, como provocações á morte?

--Morrerá estupidamente. Será indigna d'um necrologio, e terá apenas uma magra local chamando os amigos do marido a assistirem-lhe aos funeraes.

* * * * *

Deixemos falar este homem sem alma, leitores!

Ludovina continua a ser a flôr da creação, o espelho de infelizes, o élo que prende a creatura ao Creador, o anjo que chora, esperando que os anjos a levem d'este desterro.

FIM

End of Project Gutenberg's O que fazem mulheres, by Camilo Castelo Branco