O que fazem mulheres: Romance philosophico
Chapter 10
Concertados assim, estava o typographo com a ultima pagina, quando eu fiz uma excursão ao Minho, e encontrei no Senhor do Monte o cavalheiro que me contára o contexto d'este romance, nos ultimos dias do mez de janeiro proximo passado.
A nossa conversação de algumas horas vae ser trasladada em paginas supplementares.
Antes, porém, de entrar n'essa tarefa que realmente me dóe, seja-me permitido verter uma lagrima no degrau do altar onde eu collocára Ludovina, onde ella se collocára, e de onde se me afigura que...
Não dou ansa a juizos temerarios do leitor. Leiam, e decidam se a virtude perfeita não é uma utopia impossivel n'um livro que tiver mais de duzentas paginas.
Cumpre dizer quem é a pessoa, destinada pela providencia dos romances a figurar n'este supplemento.
V. ex.as de certo a conhecem. Viram-na já muitas vezes no theatro, nos bailes, e na missa dos Congregados, na dos Clerigos, na do Carmo, em todas as missas classicas em que se vê tudo, e se ouve tudo, menos o padre e a missa.
Eu dou os signaes do homem.
Tem uma bella cabeça, uns bellos cabellos, uns bellos olhos... Já conheceram?
De vinte leitoras, dez estão na duvida. Se v. ex.ª é uma das dez perplexas, desperte as suas reminiscencias com os seguintes traços:
O nariz é a feição mais caracteristica d'este homem. Na base tem um promontorio, no centro uma protuberancia, na ponta uma recurva como o bico de um passaro. Chamam-se estes narizes _Bourbons_. Agora conheceram-no todas. Na escola dos physionomistas, este nariz tem significações espantosas. É um nariz que individualisa um homem; é um livro aberto; é o porta-voz dos segredos da alma; é em summa, uma biographia.
Foi o que me approximou d'este homem. Se a natureza lhe désse a elle um nariz vulgar, o leitor não se decidiria na leitura d'este romance. Vejam de onde eu tirei um livro! O nariz de Cyrano de Bergerac foi causa de vinte duellos de morte. Do nariz do meu amigo podem pender vinte volumes.
Fascinou-me, e fui eu que me offereci á sua amizade. Achei-o um homem raro, sabendo profundamente a vida de v. ex.as, quero dizer, todas as virtudes que v. ex.as escondem, todas as perfeições que a sociedade não vê, sem lh'as explicarem.
É provinciano o sr. Marcos Leite: dê-se-lhe este nome. Visita o Porto duas vezes cada anno, uma no carnaval, outra na estação do theatro italiano.
Consta que nunca teve namoro que o entretivesse nas duas estações. O nome da mulher, que adora, até á demencia, no carnaval, quasi sempre lhe esquece na Paschoa seguinte. Em compensação, as mulheres rejeitadas, quando o leão volta das suas selvas nataes, apenas dão fé que Marcos está no theatro das suas façanhas pelo estrupído extraordinario do cavallo, que elle atira em arremettidas e sacões pelas ruas mais sonoras da cidade eterna. A não serem as mulheres o que providencialmente são, Marcos Leite seria prea dos dentes do remorso, ha muito tempo. Não ha uma só das esquecidas damas, que lhe não incendiasse no mais intimo do peito um amor eterno... de tres semanas.
Algumas possuem cartas de uma paixão tão frenetica, que as exclamações de Werther, comparadas com ellas, são frias e chatas como um rol de roupa suja.
Foi, pois, este cavalheiro, respeitavel em todos os sentidos, que me contou o essencial da historia do barão de Celorico, accrescentando que tinha visto duas vezes de relance, n'uma grade d'um mosteiro do Minho, proximo ao seu solar, a figura celestial da baroneza, e a sympathica e ainda juvenil physionomia de D. Angelica.
Por essa occasião, lhe perguntei eu se traçava alguma rede á virtude heroica de Ludovina. Respondeu-me o narrador, que não ousava escalar uma fortaleza em cujo assalto era forçoso triumphar, ou morrer. Accrescentou, que, nem ainda cooperado por duas primas que tinha no tal convento, elle se animava a revelar a Ludovina uma affeição, que, desprezada, se tornaria em loucura furiosa.
Pareceu-me sensata a resposta de Marcos. Que homem conseguiria alvoroçar aquelle coração, que eu imaginava esmagado sob a pressão de uma virtude exaltada?
Decorreram quatro mezes, e, como disse no prefacio, fui, ha dias, surprehendido no Senhor do Monte por Marcos.
Conhecem aquelle saudosissimo arvoredo, que rumoreja na sumidade da serra, e aquella fresca alameda que está tapetando a entrada para a _mãe d'agua_? Foi alli que o encontrei, encostado á mesa de pedra, lendo LES REVERIES de Senancourt; leitura que eu aconselho a todas as pessoas que precisam idealisar um mundo medio entre o asquerosamente lôrpa em que vivemos, e o absurdamente inintelligivel que nos promettem as religiões.
Quando me viu, Marcos Leite correu a abraçar-me, exclamando:
«O meu coração tinha-te invocado. Abominaria quantos homens e mulheres me apparecessem aqui, menos tu, e ella...
--Temos ELLA!
«E tu vieste para este sitio com o coração vazio?!
--Graças a Deus, não, meu poeta. Trago tecidos, membranas, valvulas, ventriculos, veias, arterias, nervos, sangue, etc. O meu coração está funccionando com a mais physiologica das regularidades. Respiro desafogadamente, e completo a digestão de uns succulentos pedaços de boi, que triturei _sub tegmine fagi_.
«Se vens assim, melhor fôra que não viesses. Eu queria que me entendesses, como creio que me entendem, ha tres dias, estes rumores da floresta. Escuta! Vê tu se este ermo, se este sussurro, que parece o echo esvaido de um mundo remoto, não te está dizendo que o amor é a vida, que a esperança é a felicidade, que debaixo do céo ha só tres cousas grandiosas, o homem e a mulher um para o outro, e a soledade para ambos! Não digas alguma blasphemia! Esse sorriso offende, e é um sacrilegio aqui. Agradece ao Senhor que nos dá isto, esta fontinha, a fresquidão d'estas sombras, o murmurio d'estas arvores, o azul do céo, lá em baixo a melancolia poetica do valle, o som do campanario rural que repercute na alma...
Marcos Leite tinha razão. Não pude contrafazer, por mais tempo, a minha indole triste. Entrou-me a saudade no coração, aninhando-se no pequeno recinto não tomado ainda pela desesperança. Lancei os olhos ao livro em que lia Marcos, e recolhi á alma as seguintes linhas:
_La paix jointe aux lumières sera le partage d'un homme dans toute une province. Quant au contentement, on le cherche, on l'espère même; peut-être l'obtiendrait-on, si la mort ou la décrépitude ne survenaient auparavant... La vie était bonne, et on lui trouve encore des douceurs que la raison ne saurait méconnaître. Mais il importe que l'imagination, renonçant aux écarts, et servant elle-même d'asile contre les peines, anime seulement le repos que l'âme peut conserver quand elle est restée pure._
«Que é isto?--perguntei eu tomando de sobre a mesa um papel escripto a lapis.
--Versos, meu caro; linhas, é melhor dizer linhas. O coração mais poeta creio que é o menos metrificador.
«Póde saber-se que anjo te roçou a fronte com a aza?
--Não adivinhas quem eu poderei amar assim? Ha uma só mulher n'este mundo.
«A baroneza?
--Com que frialdade proferes esse nome! Chama-lhe antes Ludovina...
«Lê os versos.
Marcos declamou com as mais maviosas modulações do sentimento a seguinte poesia:
A LUDOVINA
Quem ha ahi que possa o calix De meus labios apartar? Quem, n'esta vida de penas, Poderá mudar as scenas Que ninguem pôde mudar?
Quem possue n'alma o segredo De salvar-me pelo amor? Quem me dará gotta de agua N'esta angustiosa fragua D'um deserto abrasador?
Se alguem existe na terra Que tanto possa, és tu só! Tu só, mulher, que eu adoro, Quando a Deus piedade imploro, E a ti peço amor e dó.
Se soubesses que tristeza Enlucta meu coração, Terias nobre vaidade, Em me dar felicidade Que eu busquei no mundo em vão.
Busquei-a em tudo na terra, Tudo na terra mentiu! Essa estrella carinhosa Que luz á infancia ditosa Para mim nunca luziu.
Infeliz desde creança, Nem me foi risonha a fé; Quando a terra nos maltrata, Caprichosa, acerba, e ingrata, Céo e esp'rança nada é.
Pois a ventura busquei-a No vivo anceio do amor. Era ardente a minha alma; Conquistei mais d'uma palma Á custa de muita dôr.
Mas estas palmas taes eram Que, postas no coração, Fundas raizes lançavam, E nas lagrimas medravam Com fructos de maldição.
Em ancias d'alma, a ventura Nos dons da sciencia busquei. Tudo mentira! A sciencia Era um signal de impotencia Da vã razão que invoquei...
Era um brado, um testemunho Do nada que o mundo é. Quanto a minha mente erguia Tudo por terra cahia, Só ficava Deus e a fé.
Lancei-me aos braços do Eterno Com o fervor de infeliz; Senti mais fundas as dôres, Mais agros os dissabores... O proprio Deus não me quiz!
Depois, no mundo, cercado, Só de angustias, divaguei De um abysmo a outro abysmo Pedindo ao louco cynismo O prazer que não achei.
Tristes correram meus annos Na infancia que em todos é Bella de crenças e amores, Terna de risos e flores, Santa de esperança e de fé.
Assim negra me era a vida Quando, ó luz d'alma, te vi Baixar do céo, onde, outr'ora, Te busquei mão redemptora Procurando amparo em ti.
Serás tu a mão piedosa, Que se estende entre escarcéos Ao perdido naufragado? Serás tu, ser adorado, Um premio vindo dos céos?
E eu mereço-te, que immenso Tem já sido o meu quinhão De torturas não sabidas, Com resignação soffridas Nos seios do coração.
Que ternura e amor e afagos Toda a vida te darei! Com que jubilo e delirio, Nova dôr, novo martyrio, De ti vindo, acceitarei!
Se na terra um céo desejas Como o céo que eu tanto quiz, Se d'um anjo a gloria queres, Serás anjo, se fizeres, Contra o destino, um feliz.
Faz que eu veja n'estas trevas Um relampago d'amor, Que eu não morra sem que diga: «Tive no mundo uma amiga, Que entendeu a minha dôr.
«Deu-me ella o estro grande Das memoraveis canções; Accendeu-me a extincta chamma Da inspiração que inflamma Regelados corações.
«Os segredos dos affectos Que mais puros Deus nos deu, Ensinou-m'os ella um dia Que d'entre archanjos descia Com linguagem do céo.
«Os mimosos pensamentos Que, de mim soberbo, leio, Inspirou-m'os, deu-m'os ella Recostando a fronte bella Sobre o meu ardente seio.
«Morta estava a phantasia Que o gêlo d'alma esfriou; Tinha o espirito dormente, Só no peito um fogo ardente, Quando o céo m'a deparou.
«Agora morro no gôso D'uma saudade immortal. Foi ditosa a minha sorte; Amei, vivi: venha a morte, Que morte ou vida é-me igual.
«Igual, sim, que o amor profundo, Como foi na terra o meu, Não expira, é sempre vivo, Sempre ardente, e progressivo Em perpetuo amor do céo.»
Assim, querida, meus labios, Já moribundos, dirão, Nas agonias supremas, Essas palavras extremas, Do meu ao teu coração.
Sabes quem é, n'este mundo, Quasi igual ao Redemptor? É quem diz: «Sou adorada Pela alma resgatada, Por mim, das ancias da dôr.»
«Por ora, vejo que supplicas amor--disse eu.--A tua poesia é um requerimento que póde ficar _esperado_ muito tempo no gabinete do despacho.
--Fala d'outra maneira... Eu soffro demais para te achar graça. Não é um requerimento esta poesia, meu amigo, é uma expansão de reconhecimento. O amor ditoso chega a entristecer. Tenho a segurança, a segurança que nos dá o coração, de que a alma de Ludovina me pertence.
«Por consequencia tens tudo... Enganei o publico...
--Como enganaste o publico?!
«Puz em romance a historia que me contaste, e disse que a baroneza era uma rocha inabalavel de virtude.
--E receias mentir?!
«Eu já sabia que me não acreditavam... Pois tenho pena, palavra de honra! A meiga imagem de Ludovina havia de ser sempre nova e pura na minha imaginação, como o eterno typo das duas formosuras enlaçadas, a do corpo e a da alma. Rasgava o romance, se elle não estivesse já no prelo, e o dinheiro d'elle transformado n'um cavallo. É tarde para reivindicar a minha honra de romancista ingenuo ou palerma, que anda n'este mundo a querer provar, que as onze mil virgens nunca de cá sahiram.
--Pois que esperavas tu de Ludovina?
«Que morresse abraçada á sua cruz, que désse o exemplo da esposa martyr, da filha sacrificada ao bom nome de sua mãe; que sahisse apenas da sua cella para redobrar de paciencia aos pés do altar; que nunca consentisse que corações degenerados como o teu, e o meu, concebessem a esperança de profana'-la.
--Estás a fazer a alta comedia, ou crês sinceramente que Ludovina degenera? Põe de parte a consciencia de romancista, e deixa fallar a do ente pensante e racional,--e se tu e eu somos indignos de aspirar ao amor da baroneza, crês que um outro, cahindo das nuvens determinadamente por ella, a absolveria do crime horrivel de ter coração?
«O coração de Ludovina estava cheio de sensações, que o faziam participante do amor divino. Que precisão tinha ella do amor dos homens? Estragou uma bella biographia, essa mulher. Talvez fosse unica, e apontada á posteridade como molde. Era uma virtude original; converteu-se em um vicio vulgar. A minha heroina fez bancarrota, falliu, e deixou-me em hypotheca a palavra que eu dei a paginas 170, pouco mais ou menos, de que eram solidos os fundos em virtude, e grandes os haveres em creditos d'esta mulher inimitavel, typica, e biblica, deixa-me dizer assim, porque ella merecia todos os epithetos levantados e grandiosos.
--Mas que fez a pobre senhora para descredito tamanho?
--O que fez?! é boa! auctorisou-te a canta'-la em quintilhas! Um homem de mais alma que tu és, vasaria a inspiração em versos endecasyllabos. Uma mulher assim amada em redondilha maior! É horrivel e immoral!
--Bem! Ainda agora te comprehendi. Estás zombando com ella e comigo, e não sei se com o publico, a quem prometteste uma virtude enfadonha e monotona, como deve ser o teu romance, se te não salvares com a rapida narração que te vou fazer da mais sublime virtude, da virtude por excellencia de Ludovina.
--Qual virtude?
--A de me receber dez cartas, escriptas com o sangue do coração, e... não me responder a nenhuma.
--Mas tu disseste-me ainda agora que tinhas a segurança de que a alma de Ludovina te pertence.
--E tenho.
--Não te respondendo ás tuas cartas? Não entendo.
--Não me respondeu a dez cartas...
--Bem.
--Mas eu escrevi-lhe vinte, e ella respondeu á ultima.
--Ah! isso então muda de figura... E a resposta foi tal que te deu a segurança de seres o proprietario do coração da baroneza!...
--Queres ver a resposta? Franqueza e confiança. Lê lá.
Era um bilhete que rezava assim:
«Tenho recebido por delicadeza as suas cartas. Basta dar-me v. ex.ª o nome de amiga para que eu as aprecie. Não me julgava na obrigação de responder. Hoje, porém, que v. ex.ª me lembra esse dever, peço perdão da falta, e castigo-me devolvendo-lhe as suas vinte cartas, de cuja posse sou indigna, porque não soube corresponder-lhe.
«Com verdadeira estima, attenciosa veneradora de v. ex.ª--_Ludovina Pimenta_.»
--Isto é lisongeiro!--disse eu sorrindo.--Com um documento d'estes, é indispensavel a posse que tomaste do coração da baroneza. Eu creio que podia ser assim o proprietario mais abastado do genero...
--Espera lá.. Ainda tenho outros titulos da propriedade. Já agora has-de examina'-los todos, e dizer-me no fim se os meus direitos serão litigiosos. Recebi as vinte cartas, e escrevi mais dez. Que dez cartas! Que estylo! que dez causticos para fazerem supurar um coração!
--Deixas ver a resposta?
--A resposta foram dez cartas.
--Incendiarias?
--Que duvida? Eram as minhas, lacradas, sem um vinco, direitinhas como foram!
--E teimaste?! Seria necessario muito despejo e indignidade!
--Não teimei: cahi doente, tive febre, assustei a minha familia, e fiz que me chorassem as minhas primas, companheiras conventuaes da baroneza. Ao nono dia de enfermidade, a medicina suspeitou que o sangue me refluía á cabeça. Correu que eu enlouqueceria, ou morreria. A baroneza mandou saber de mim duas vezes n'um dia.
--Oh! isso é muito! No dia immediato foste agradecer-lhe o cuidado...
--Não fui, não podia ir. O abalo, a certeza, de que era amado, exacerbou-me a febre, escaldou-me a imaginação a ponto de delirar. Durante um curto intervallo de tranquilidade de espirito, escrevi á baroneza uma duzia de linhas quando muito. Dava-lhe parte de que tinha a morte sentada á cabeceira do meu leito de agonias; dizia-lhe que pediria por ella ao Senhor, se a gloria celestial me fosse dada como premio do muito que soffrera, e da muita paciencia com que soffrera na terra os rigores de uma alma que não quiz comprehender-me; perdoava-lhe com a mais evangelica generosidade de moribundo, e emprazava-a para me restituir o coração na eternidade.
--Isso devia fundir em lagrimas de remorso a pobre senhora.
--Estás ludibriando a minha angustia?--interrogou Marcos Leite com ironico enfado.
--Não ludibrio a tua angustia, faço a apologia da tua astucia. Tu não tinhas febre, nem vias a morte á cabeceira do teu leito, fala a verdade.
«Tinha febre, palavra de honra, porque sou muito nervoso; e se me persuado que tenho uma ponta de febre, sinto-me logo em labaredas. Tenho tido vinte e tantos d'esses typhos, com as vinte e tantas mulheres que tu sabes. O que vale é ser rapida e segura a convalescença.
--Convalesceste depressa? Já vejo que o teu bilhete conseguiu...
«Um triumpho!
--Como um triumpho?!
«Uma gloria imprevista, um lance tão arrojado de venturas, que ainda agora me salta o coração no peito.
--Guarda os extases para o fim, e vamos ao ponto.
«Mandou-me visitar por um medico do Porto, que fôra de proposito medicar D. Angelica.
--Consiste n'isso o triumpho?!
«Que mais querias tu!
--Mais nada... A um doente a maior prova de estima que póde dar-se é mandar-lhe um medico.
«O peor foi dizer o doutor que a minha enfermidade era imaginaria. Mandou-me dar longos passeios a cavallo, e a pé, comer alimentos pouco volumosos e muito substanciaes, e dormir o maximo numero de horas que pudesse. Reflecti-lhe que sentia a morte no coração; a isto redarguiu, sorrindo, o medico matreiro, que verificando-se a morte d'esta viscera, entregasse ao estomago o exercicio das attribuições do coração. Não sei o que elle foi dizer á baroneza: é certo que os cuidados da parte d'ella não esfriaram, e eu, melhor avisado, entendi que não precisava morrer para ser amado. Logo que me ergui do leito...
--Da agonia, ou da dôr para variar...
«Nada de chacóta. D'aqui em diante fala-se serio. Logo que sahi fui ao convento. Era por uma bella tarde de maio. Soprava de leste uma viração suavissima, que, sacudindo as urnas das flôres, embalsamava a atmosphera de fragrantes aromas. No horisonte...
--Se me pudesses dispensar do idyllio!... Guarda as reminiscencias bucolicas para o inverno, quando estivermos ao fogão. Por mais que phantasies não deslumbras a realidade do bello espectaculo que nos está dando aqui a natureza em primeira mão. Descarna as descripções, e diz o que passaste no convento com a baroneza.
«Estás materialmente estupido, homem. Foi-se-te a poesia toda no fabrico dos romances. Vocês, os que trabalham no coração humano com o escalpello sanguinario da analyse, tornam-se áridos, brutaes, e famulentos de sensações rijas...
--É assim; todavia, prefiro a descripção da tarde de maio á catilinaria insolente que vaes disparar-me.
«Nem uma nem outra. Vou abreviar o conto, para que a inveja mais depressa te castigue. A baroneza mandou-me entrar n'uma grade, e appareceu sósinha. Era a primeira vez que me recebia a visita sem vir acompanhada das minhas primas ou de D. Angelica.
--Esse facto é profundamente significativo! Vou gosar o prazer de ouvir um dialogo de amorosas finezas, cortado de suspiros maviosos... Já principiam as disciplinas da inveja a verberar-me...
«Saberás tu o que se passou?!
--Se sei o que se passou!?
«Sim... dizes com tão ironica zombaria o prospecto do dialogo...
--Nada, não: é que me vou aquecendo ao teu enthusiasmo, e o estylo principia a aquecer tambem.
«Ahi vae lealmente, a scena final do definitivo triumpho. Eu tinha posto grandes esperanças na minha pallidez. Tres semanas de cama seriam capazes de fazer amarello um camarão cosido. A primeira decepção, que recebi ao entrar na grade, foi dizer-me a baroneza:
«Ninguem dirá que esteve doente, sr. Marcos! A vida socegada de tres semanas deu-lhe um colorido de saude, que d'antes não tinha.
--Como assim, sr.ª baroneza! Pois a minha pallidez...
«Está enganado; pelo contrario, está côr de rosa, acredite. Eu chamo as suas primas, e verá se ellas não dizem o mesmo.
--Não chame as minhas primas, sr.ª baroneza. Eu preciso que v. ex.ª me escute. Este é o momento solemne da vida ou morte. Hei-de hoje ouvir aqui a minha sentença. A pedra da sepultura já está erguida para mim; o seu braço suspendeu-a; o seu braço ha-de afastal-a de sobre o peito, que me esmaga, ou deixa'-la abafar o meu derradeiro gemido.
«Que linguagem, sr. Marcos!--disse ella--Pelo amor de Deus, faça-me a justiça de me não julgar creança. O infortunio emancipou-me. Não posso ser illudida, nem illudir-me. Tenho aquella dolorosa penetração que adquire o espirito á medida que a boa fé do coração se perde. Com que fim emprega tantos esforços baldados para inquietar-me?
--Eu queria fazer a sua felicidade pelo amor.
«A intenção é generosa, e eu não sou ingrata. Mil vezes agradecida, sr. Leite; mas o amor não póde dar-me felicidade. Imagino que elle possa ser a alegria de muitas almas puras e impuras; dou credito a tudo o que se diz de sublime e celeste ácerca d'esse sentimento, o mais mavioso de todos: mas sem coração essa flor não póde dar perfumes de uma hora. O meu coração desfez-se em lagrimas, cuja historia não é nova para o sr. Marcos Leite. Eu não o amo, não o posso amar, apenas lhe vejo todas as boas qualidades que se podem desejar n'um amigo. Quadra-lhe esta affeição? quer-me para sua amiga? está decidido a acceitar deveras este offerecimento que tantas vezes acceitou, e outras tantas desprezou?
--Desprezei?
«Sim; pois que outro nome se deve dar ás suas cartas escriptas com um fogo que me deslumbra sem me queimar, instantes depois que me promettia respeitar a minha posição, compadecer-se dos meus infortunios, e acolher-me á sua estima como uma alma quebrantada de enfermidades, que só os melindres d'uma verdadeira amizade podem suavisar? Não é meu amigo, sr. Marcos. O senhor imaginou que eu tinha uma fibra do coração capaz de sustentar o peso de alguma grande desgraça, e quiz parti'-la.
«Enganou-se; nem essa já tenho. Que mais quer que eu lhe diga?
--Mais alguma cousa: disse-me v. ex.ª que me não amava; agora diga que me despreza.
--Não posso. Sou sua amiga: não ha n'este mundo outro homem a quem eu possa dizer o mesmo. Sou para si, apesar da minha inutilidade, o mais que posso ser... Agora, se me dá licença, vou ao quarto de minha mãe, que está doente e só.»
O meu amigo Marcos Leite, fechando assim o dialogo com a esposa de João José Dias, fixou-me de um modo que parecia perguntar-me a razão porque eu me não ria.
--Esses triumphos são parecidos com as minhas derrotas--disse-lhe eu.
--É que tu não sabes nada do coração humano!--replicou o singular provinciano, com um sorriso, que poderia ser definido infatuamento tolo por quem não conhecesse a intelligencia clara de Marcos Leite.