O que fazem mulheres: Romance philosophico
Chapter 1
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OBRAS
DE
CAMILLO CASTELLO BRANCO
EDIÇÃO POPULAR
LVII
O QUE FAZEM MULHERES
VOLUMES PUBLICADOS
N.º 1--Coisas espantosas. N.º 2--As tres irmans. N.º 3--A engeitada. N.º 4--Doze casamentos felizes. N.º 5--O esqueleto. N.º 6--O bem e o mal. N.º 7--O senhor do Paço de Ninães. N.º 8--Anathema. N.º 9--A mulher fatal. N.º 10--Cavar em ruinas. N.os 11 e 12--Correspondencia epistolar. N.º 13--Divindade de Jesus. N.º 14--A doida do Candal. N.º 15--Duas horas de leitura. N.º 16--Fanny. N.os 17, 18 e 19--Novellas do Minho. N.os 20 e 21--Horas de paz. N.º 22--Agulha em palheiro. N.º 23--O olho de vidro. N.º 24--Annos de prosa. N.º 25--Os brilhantes do brasileiro. N.º 26--A bruxa do Monte-Cordova. N.º 27--Carlota Angela. N.º 28--Quatro horas innocentes. N.º 29--As virtudes antigas--Um poeta portuguez... rico! N.º 30--A filha do Doutor Negro. N.º 31--Estrellas propicias. N.º 32--A filha do regicida. N.os 33 e 34--O demonio do ouro. N.º 35--O regicida. N.º 36--A filha do arcediago. N.º 37--A neta do arcediago. N.º 38--Delictos da Mocidade. N.º 39--Onde está a felicidade? N.º 40--Um homem de brios. N.º 41--Memorias de Guilherme do Amaral. N.os 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa. N.os 45 e 46--Livro negro de padre Diniz. N.os 47 e 48--O judeu. N.º 49--Duas épocas da vida. N.º 50--Estrellas funestas. N.º 51--Lagrimas abençoadas. N.º 52--Lucta de gigantes. N.os 53 e 54--Memorias do carcere. N.º 55--Mysterios de Fafe. N.º 56--Coração, cabeça e estomago. N.º 57--O que fazem mulheres.
_CAMILLO CASTELLO BRANCO_
O QUE FAZEM
MULHERES
ROMANCE PHILOSOPHICO
QUARTA EDIÇÃO
1907 PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA Livraria editora e Officinas Typographica e de Encadernação Movidas a electricidade _Rua Augusta--44 a 54_ LISBOA
1907 OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO MOVIDAS A ELECTRICIDADE Da Parceria Antonio Maria Pereira _Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.º e 2.º andar_ LISBOA
A TODOS OS QUE LEREM
É uma historia que faz arripiar os cabellos.
Ha aqui bacamartes e pistolas, lagrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e demonios.
É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo!
Isto sim que é romance!
Não é romance; é um soalheiro, mas tragico, mas horrivel, soalheiro em que o sol esconde a cara.
Como da seva mesa de Thyestes Quando os filhos por mão de Atreu comia.
Escreve-se esta chronica em quanto as imagens dos algozes e victimas me cruzam por diante da phantasia, como bando de aves agoureiras, que espirram de pardieiro esboroado, se as acossa o archote de um phantasma.
Tenebroso e medonho! É uma dança macabra! um tripudio infernal! cousa só semelhante a uma novella pavorosa das que aterram um editor, e se perpetuam nas estantes, como espectros immoveis.
Ha ahi almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de asphalto?
Que venham para cá.
Aqui ha cebola para todos os olhos;
Broca para todas as almas;
Cadinhos de fundição metallurgica para todos os peitos.
Não se resiste a isto. Ha-de chorar toda a gente, ou eu vou contar aos peixes, como o padre Vieira, este miserando conto.
Os dias actuaes são melancolicos; a humanidade quer rir-se; muita gente, séria e sisuda, se compra um romance, é para dar treguas ás despoetisadas e pêcas realidades da vida.
Sei-o de mais. Eu tambem compro os livros dos meus amigos, para espairecer de meditações serumbaticas em que me anda trabalhado o espirito.
Sei quantos devo, e que favores impagaveis me deveria, leitor bilioso, se eu lhe encurtasse as horas com paginas galhofeiras, picarescas, salitrosas, travando bem á malagueta, nos beiços de toda a gente, afóra os seus.
Tenha paciencia: ha de chorar ainda que lhe custe.
Se respeita a sua sensibilidade, fique por aqui; não leia o resto, que está ahi adiante uma, ou duas são ellas, as scenas das que se não levam ao cabo, sem destillar em lagrimas todos os liquidos da economia animal.
Este romance foi escripto n'um subterraneo, ao bruxolear sinistro de uma lampada.
Alfredo de Vigny não diz que escreveu um drama, ás escuras, em vinte dias? E Frederico Soulié não se rodeava de esqueletos e esquifes?
E outros não se espertaram com todos os estimulos imaginaveis de terror? Menos o do subterraneo... este é meu, se me dão licença.
Pois foi lá que eu desentranhei do seio estes lobregos lamentos.
No fim de cada capitulo, vinha ao ar puro sorver alguns átomos de oxigenio, e todos me perguntavam se eu tinha pacto com o diabo.
Almas plebeias! não sabem o que é a fidalguia do talento, que tem alcaçar nos astros, e nos antros lobregos da terra; não entendem este fadario do «genio», que elles chamam «excentricidade», como se não houvesse um nome portuguez que dar a isto.
O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um caustico? Excruciaram-no, alguma vez, os flagellos da inspiração corrosiva, como duas onças de _sublimado_?
Se não sabe o que isto é, estude pharmacia, abra um expositor de chimica mineral, e verá.
Não cuidem que podem ler um romance, logo que soletram. Precisam-se mais conhecimentos para o ler que para o escrever. Ao auctor basta-lhe a inspiração, que é uma cousa que dispensa tudo, até o siso e a grammatica. O leitor, esse precisa mais alguma cousa: intelligencia;--e, se não bastar esta, valha-se da resignação.
Ora, está dito tudo.
Leiam isto, que é verdadeiro como o «Agiologio» de Ribadaneira, como as «Peregrinações» de Fernão Mendes, como todos os livros legados de geração a geração com o sinete da crença universal.
A ALGUNS DOS QUE LEREM
Não será uma acção meritoria amoldurar em fórmas verosimeis a virtude, que os pessimistas acoimam de impraticavel n'este mundo? Hão de só crer nas façanhas do crime, nas hyperboles da maldade humana, e negar as perfeições do espirito, descrêr o que ultrapassa as balisas de uma certa virtude convencional, que não custa dores a quem a usa?
Se os espanta as excellencias da mulher que vou debuxar, antes de m'as impugnarem, afiram-se pela natureza, interroguem-se, concentrem-se no arcano immaculado da sua consciencia. Se me rejeitam a verdade de Ludovina, se me dizem que a este inferno do mundo não podia baixar tal anjo, sabem o que é esse descrer? é apoucamento de alma para idear o bello; é o regelo do coração que rebate as imagens ainda aquecidas do halito puro da divindade.
Se a mulher assim fosse impossivel, o romancista que a inventou, seria mais que Deus.
CAPITULO AVULSO
PARA SER COLLOCADO ONDE O LEITOR QUIZER
Francisco Nunes...
Que nome tão peco e charro! _Francisco Nunes!_
Pois se o homem chamava-se assim!?
Deus sabe que tristezas eram as d'elle por causa deste _Nunes_. O rapaz tinha talento de mais para escrever folhetins lyricos, e outras cousas. Pois nunca escreveu por que não queria assignar-se _Nunes_.
Ha appellidos que parecem os epitaphios dos talentos.
Um escriptor _Nunes_ morre ao nascer.
Bem o sabia elle.
Houve em Portugal um escriptor chamado _Antonio José_. Se a inquisição o não queima, ninguem se lembrava hoje d'elle.
Francisco Nunes só poderia viver na memoria da posteridade, se S. Domingos fizesse o milagre de reaccender as fogueiras nos subterraneos do theatro de D. Maria.
Outros lá soffrem tractos agora, mas é em cima, no palco... Se, ao menos, Francisco Nunes escrevesse uma comedia...
Não escrevia nada; mas falava muito, e, quasi sempre, sósinho, em casa, e na rua. Não incommodava ninguem; era um anjo; tinha só a perversidade de chamar-se _Francisco Nunes_.
Elle ahi vae, faz agora tres annos, por uma rua do Porto, vizinha da de Cedofeita, falando só, e falando, ao que parece, enraivecido. Ninguem o escuta, se não eu, porque lhe vou na alheta, com subtis sapatos de borracha.
Esta rua, por um lado, tem raros edificios; pelo outro é marginada por um comprido muro de quintaes que pertencem ás casas da rua parallela.
Nunes, de tempo a tempo, sustem o monologo para puxar com sorvos sibilantes o vapor de um charuto. Depois, faz um tregeito iracundo, com o pé com sanha, e prorompe na imprecação interrompida, do seguinte theor:
«Arado pelo fogo do inferno seja o torrão maldito onde nasceu a folha d'este charuto!
«A chuva candente de Sodoma e Gomorrha tisne a folha do tojo e do carrasco que nascer no terreno que te produziu!
«Frieiras, gotta, paralysia, e morte tolham os dedos que te colheram!
«O sol, que te seccou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui!
«As mãos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se e mirrem-se como as das mumias de Memphis.
«E para vós, contractadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do contracto do tabaco, para vós o inferno illimitado, a região tenebrosa dos condemnados, onde ha o ranger dos dentes, e o sempiterno horror!
«Para vós, Borgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós, envenenadores impunes, o patibulo n'este mundo, d'onde fugiu espavorida a vergonha e a justiça; e as caudaes de sulphur em combustão eterna nas furnas tartareas, onde é de fé que dá urros medonhos um condemnado chamado _Nicot_, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudencia de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França.[1]
«Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, ennegrecem as substancias organicas, como o acido sulphurico.
«São amargos e causticos como o acido nitrico.
«Calcinam os beiços como o acido hydrochlorico.
«Queimam a laringe como o acido phosphorico.
«Laceram o esophago como o acetato de chumbo.
«Fulminam e despedaçam como o acido hydrocianico.»
Em quanto elle repuxava o vapor do incombustivel rôlo de erva-santa (que blasfemia! _santa!_) façamos tremendas reflexões:
Um «manual de chimica para uso dos leitores de romances» é instantemente reclamado. Sente-se na litteratura este vazio desde que a novella é um extendal da sciencia humana; e esta póde, sem immodestia, graduar-se assim.
Quando se escreviam bacamartes para as gerações soffredoras, que os lêram, o sabio repunha ahi em azedo vomito as indigestas massas, que ainda agora resistem ao dente roaz da carcoma e da ratazana, nos lotes esboroados das bibliothecas.
O in-folio era uma crença, uma religião, uma faculdade d'aquellas gordas almas, que resumavam pingue chorume por tres mil paginas em typo-breviario.
Não vos faz melancolia vêr a lombada d'esses enormes volumes aprumados n'uma estante? Não ha n'aquelle aspeito triste alguma cousa que vos faz crer que o in-folio chora pelo frade?
Agora não se escreve d'aquillo, posto que o saber humano seja mais vasto, e opulentado com as vigilias de dois seculos laboriosos. Reina o romancista, que é o successor do frade, na ordem das intelligencias productivas.
Ora, o romancista ha-de, por força de sua natureza scientifica, despejar no romance a sciencia que lhe traz intumecido o estomago intellectual; e o romance, assim, deixará de ser lido, se o conselho superior de instrucção publica não organisar os estudos de modo que as sciencias transcendentes, em consorcio com as da natureza physica, desbravem o espirito-charneca de muito leitor sandio, que não póde entender a iracundia chimica de Francisco Nunes.
O qual continuou assim:
«Ha cinco seculos que a raça proscripta de Israel soffreu em Pariz uma perseguição sanguinolenta. Morreram milhares de judeus entre labaredas, porque a calumnia, infamando a religião do Messias, disse que o povo judaico tentára envenenar as fontes e poços de França.
«E vós, judeus christianisados, caixas do tabaco, derramaes o veneno á luz do meio dia, abris as vossas tendas, vendeis pelo preço de vossas carroagens a droga homicida; mataes a mocidade de uma nação, que asfixia ás mãos dos velhos: a vós, que alimentaes o vicio alheio com o crime proprio, quem vos obriga a fumar um charuto de vintem?
«Portugal, tu queimavas os judeus industriosos, a quem deveste os melhores livros de sciencia, as obras primas da arte, os dinheiros extorquidos á pobre raça, que tão caros pagou os trinta dinheiros que Judas não comeu! Queimavas o povo inoffensivo, nação de cafres, e dás refrescos, e condecorações, e honrarias, e montes de ouro aos envenenadores publicos, aos sicarios de charuto, que te desentranham a alma n'um rôlo de fumo negro.
«Que é dos vestígios da civilisação christã? Que é da egide que protege o fraco dos affrontamentos do forte? Em que lapide está escripta a lei que assegura a vida do homem?
«A Roma pagã era o sanctuario da justiça. Ahi os propinadores de venenos eram clandestinos. A mão cruenta do verdugo ia arranca'-los ao segredo das suas fornalhas, e mandava-os de presente ao diabo. «Lucius Cornelius Sylla, a tua lei de supplicio para os empeçonhadores vale só de per si uma legislatura d'esta horda de togados rotos, que nos espremem da algibeira 1$960 réis diarios, por cabeça.
«Aqui, ha o morrer sem recurso de revista, o expirar em vomitos negros, o tossir rispido da bronchyte, as asthmas offegantes, o ronco profundo da pieira laringea, os deliquios da cabeça atordoada, a podridão dos dentes, as fendas carboniformes dos beiços, os abcessos pulmonares, as hemorrhagias de sangue apostemado:--ha tudo isto, debaixo d'este céo impassivel, na presença do codigo criminal, n'um paiz, onde trabalha a electricidade por arames, onde se comem _omelettes sucrées_ e _soufflées_, e d'onde se mandam rapazes para o extrangeiro estudar BENEFICENCIA «Mentira! Mentira e escarneo!
«Se quereis beneficiar este paiz, não mandeis lá fóra, oh parvos governadores da Barataria, não mandeis lá fóra estudar o processo do bem-fazer.
«Vêde-me este moço, que apenas tem vinte e dois annos, e já precoces sulcos da doença lhe enrugam a fronte. A cutis macilenta, onde deviam vicejar as rosas da adolescencia, adhere aos ossos desmedulados e cariados; uma tosse violenta lhe reteza os musculos do pescoço, expedindo das glandulas salivares um pus granuloso, pardo, e alcalino. As faculdades intellectuaes estão entorpecidas n'esse mancebo. Estimulando-se com cognac e absynto, esta especie de cretino, bestificado por uma enfermidade incuravel, apenas consegue dizer tres tolices ácerca de Donizetti, sentado n'um mocho de botiquim, encostando o corpo enervado á banca dos licores incitantes.
«Sabeis quem reduziu esse vegetal a tão quebrantado estiolamento?
«Foi o charuto!
«O contracto do tabaco empeçonhára a seiva d'esse moço, que os fados, menos poderosos que os caixas, talvez tivessem destinado para exercer o magisterio do folhetim, maximo esforço de intelligencia, n'uma época, e n'um paiz, cujo amor ás letras não vale a correspondencia de uma local bem poetica como a do baile do sr. fulano.
«Voltae para esse corpo achacadiço e apodrentado o vosso animo beneficente, Sanchos-Panças lerdos, pantalões administrativos!
«Chamae a juizo os vampiros que sugaram o soro d'esse sangue aguado que o faz tolhiço para tudo.
«Fazei a autopsia de um charuto como este--proseguia Francisco Nunes, parando e contemplando as nervuras negras do rôlo de folha, que semelhava uma rolha de cortiça queimada--e vereis que ha aqui dentro um talo de couve lombarda, uma carocha secca, uma folha de leituga, uma casca de bolota, e tres grãositos excrementicios de rato ou coelho.
«Horrivel, e sujamente infernal!
«Senhores deputados! não se mata assim impunemente um povo![2]
«As nações tyrannisadas, quando a oppressão requinta, erguem-se como um só homem, e fogem para o Aventino.
«Os envenenadores congregaram-se em conciliabulo de abutres, e crearam o charuto de vintem, a pitada do meio grosso, e o cigarro onde cresce o musgo como em parede velha. Cadafalso para os envenenadores!
«O conselho de saude, bandeado n'este tripudio de canibaes, forma o cortejo scientifico das parcas que nos arrebanham para a região dos suicidas. Morte ao conselho!
«Não ha typhos, nem cholera, nem febre amarella, senhores deputados! Ha charutos, ha o meio-grosso, e o cigarro. A epidemia não está nos canos, senhores; está n'estes canudos, por onde os contractadores cospem affronta e morte na face do povo!
«Que elles sejam malditos setenta vezes sete vezes, como se dizia no Oriente!
«Na hora do trespasse, a alma d'elles, tisnada pelo remorso, será negra como este charuto, d'onde eu sorvi um pus que me requeima os bofes... Vae-te, infame!»
E, assim rugindo, n'uma como inprecação do moribundo atormentado, arremessou o charuto por cima do muro para o quintal.
[1] É para espantar a memoria de Francisco Nunes, em crise de tamanha angustia! Aquella nesga de historia destoava da virulencia da apostrophe; mas foi dita com sanhudo entono.
[2] É ordinario este estylo; aqui não ha unidade; o impeto afrouxa, e descáe na vulgaridade tacanha do artigo de fundo. É defeito de todos os nossos oradores de inspiração: remontam-se; a gente está a ve'-los luctar com as aguias; e, quando mal se precata, vê-os cahir, a disputarem a presa do escaravelho que se rola no chão. Francisco Nunes tem lastimaveis desegualdades n'esta apostrophe.
I
--Ludovina, já pensaste a resposta que has-de dar a teu pae?
Pergunta que faz a sua filha uma senhora de nobre presença, quarenta annos, ainda frescal, chamada Angelica, e casada com o sr. Melchior Pimenta, empregado na alfandega do Porto.
Ludovina respondeu:
«Como hei-de eu responder, se ainda não vi o homem?
--É um homem como os outros;--replicou D. Angelica--são todos o mesmo, menina. Teu pae sabe o que faz. Um homem é quem melhor conhece outro homem. Se elle te disse que achou um bom marido, não póde enganar-se.
«Ora essa, mãe! E se eu antipathisar com elle?
--Deves casar, como se sympathisasses.
«Bravo!... e depois?
--E depois, virá a sympathia. Imaginas lá com que repugnancia eu casei? Casaram-me, deixei-me levar porque era uma creança, vivia na aldeia, e sonhava com os vestidos e os bailes, e os theatros do Porto. Depois, teu pae... teu pae adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e sem saber como, nem porque, contentei-me tanto com a minha sorte, que não invejava a de ninguem. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e chegar onde as mais ricas não podiam chegar. Via homens elegantes, reconhecia a differença que os fazia superiores a teu pae, e, comtudo, nunca me passou pela cabeça a loucura, a ingratidão, o crime da infidelidade.[3] Posso dizer que principiei a amar meu marido, quando as outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. Não ha homem nenhum que seja indigno da estima de uma mulher.
«Mas a mãe sabe que eu... amo outro homem.
--Eu não sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e entre namorar e amar está o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda romances e cartas entre as paginas... (não te inquietes, que sei tudo, e tudo pouco vale...) esse rapaz quem é? Um filho-familia, sem posição, sem modo de vida, que te ama, que será teu marido, se tu quizeres; que viverá das tuas sopas, se as tiveres para ti, que se envergonhará da sua dependencia, quando o amor obedecer á razão; que se enfastiará dos teus carinhos, se quizeres prende'-lo com elles a ti, ou ao berço de teu filho. Se quizesses exemplos, dava'-tos. Tens ouvido censurar duas ou tres amigas, que tens, casadas com homens ricos de cabellos brancos?
«Ainda hontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir pela «fortuna» de estupidas creaturas...
--Lêste? De quem era o folhetim? Se o auctor fôr rico, e tiver quarenta annos, o auctor é insuspeito, e, n'esse caso, digo-te que sujeites o teu destino á determinação do folhetim. Escreve uma carta ao auctor, e conta-lhe que és uma menina pobre, virtuosa, com excellentes joias de espirito. Offerece-lhe o teu coração, e promette que has-de levar-lhe a felicidade com a pobreza. Se elle te vier buscar, peso-te a ouro ao santo que fizer o milagre. Ora, se o folhetinista é um talento raro, um elegante de grande bigode e luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo offerecimento, prevenindo-o de que és tão pobre como elle. Se o folhetinista te vier pedir, é um dia de festa n'esta casa...
Aprende, creança. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam ahi ambições, que uma menina sem riqueza não satisfaz. Pois não os conheces tu, Ludovina? Não os vês no baile e no theatro namorando um dote como quem namora uma mulher? Não és tu a mesma que censuras a indignidade de certos homens, que recebem resignados todas as repulsas, e teimam sempre em esquadrinhar um dote, como se fizessem voto de casarem ricos, ainda á custa de vergonhas? Vê lá se entre os folhetinistas aspirantes ao casamento de especulação se te depara o nome que hontem lêste... Talvez ainda não reparasses em outra injustiça que se faz ás mulheres pobres, se a fortuna lhes dá maridos ricos. Não ha por ahi rapazes com grandes patrimonios? Recebem elles, por ventura, em casamento meninas virtuosas e pobres? Não. Procuram-nas ricas, e fiscalisam menos a vida honesta da noiva, que o numero de acções do banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que dizem d'isto? Sacrificam, talvez, a sua indignação ao amor do sexo: não dizem nada, e rebentam por outro lado em imprecações contra a mulher, que os elegantes ricos rejeitam, e os ricos sem elegancia procuram.
Olha, filha, se te não fosse penosa a experiencia, deixava-te casar por paixão, como se diz, com o primeiro moço pobre que te encantasse. Depois, quando saísses a passeio com teu marido, levarias um vestidinho de chita, por não poderes levar um de _glacé_. Os taes censores de folhetim ver-te-iam mal trajada, e diriam, no auge da sua pena: «pobre rapariga, fez um casamento infeliz!» Ao teu lado passaria uma das tuas amigas, ricamente vestida, pelo braço de um velho com quem a casaram as conveniencias. Os mesmos censores diriam: «Que mal empregada mulher em semelhante alarve!» Já vês que o estimulo da compaixão, que fizeste, era o teu vestido de chita; e o estimulo de inveja, que fez a tua amiga, era o vestido de seda.
«Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu coração?
--Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher que tem amigas com vestidos de seda. Hoje reina a opinião publica, Ludovina, não é a consciencia de cada um. O agente principal do espirito de uma mulher é a modista. Se ha casadas que envelhecem disputando ás netas a melhor eleição de um talhe de vestido, que farão as solteiras?
Basta de razões insignificantes, que devem humilhar a tua razão, Ludovina. Eu nunca embaracei esse ligeiro conhecimento que tens com o Ricardo de Sá, por saber que nunca seriam tardias as reflexões que te faço agora. Não pódes casar com esse homem sem desgostar teus paes, e grangear para ti o infortunio, e para elle o arrependimento. Se soubesses o que deve ser o arrependimento entre casados, a maior prova de amor que podias dar a esse rapaz, seria esquece'-lo. Tu sabes que vivemos do ordenado de teu pae: temos podido manter a decencia e o luxo até dos teus caprichos de formosa; porém, nada mais podemos. Se tivesses um grande dote, a primeira a diligenciar o teu casamento com Ricardo de Sá, seria eu. Assim, reprovo-o, opponho-me, e serei eu a encarregada de dizer a esse cavalheiro que a tua vontade não é livre, ou que a tua escolha foi outra.
«Não diga tal, mamã. Se casar com o homem que me destinam, a escolha não é minha. Deixem-me, ao menos, este desforço... Fique a responsabilidade da acção a quem me obriga.
--Pois teus paes acceitam a responsabilidade, Ludovina.
O dialogo rematára assim, quando se fez annunciar Ricardo de Sá.
D. Ludovina, com os olhos humedecidos, e desconcertado o semblante, disse á mãe que não podia ir á sala, e recolheu-se ao seu quarto. Foi D. Angelica receber a visita.