O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 9
--E diz que lhe faça ámanhã ao almoço um bocado de presunto frito, do salgado. Quer picantes!
E com muito escarneo:
--Sempre a gente vê cousas! Quer picantes!
Á meia noite a casa estava adormecida e apagada. Fóra, o céo ennegrecera mais; relampejou, e um trovão secco estalou, rolou.
Luiza abriu os olhos estremunhada; começára a cahir uma chuva grossa e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento escutando as goteiras que cantavam sobre o lagedo; a alcova abafava, descobriu-se; o somno tinha fugido, e de costas, o olhar fixo na vaga claridade que vinha de fóra da lamparina, seguia o tic-tac do relogio. Espreguiçou-se, e uma certa idéa, uma certa visão foi-se formando no seu cerebro, completando-se, tão nitida, quasi tão visivel, que se revirou na cama devagar, estirou os braços, lançou-os em roda do travesseiro, adiantando os beiços seccos--para beijar uns cabellos negros onde reluziam fios brancos.
Sebastião tinha dormido mal. Acordou ás seis horas e desceu ao quintal em chinellas. Uma porta envidraçada da sala de jantar abria para um terraçosinho, largo apenas para tres cadeiras de ferro pintado e alguns vasos de cravos; d'alli, quatro degraus de pedra desciam para o quintal; era uma horta ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de flôres, saladas muito regadas, pés de roseiras junto dos muros, um poço e um tanque debaixo d'uma parreirita, e arvores; terminava por outro terraço assombreado d'uma tilia, com um parapeito para uma rua baixa e solitaria; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um sitio recolhido, d'uma paz aldeã. Muitas vezes Sebastião, de madrugada, ia para alli fumar o seu cigarro.
Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o céo arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas velhas e, aqui e além, uma nuvemzinha algodoada, mollemente enrolada, côr de leite; a folhagem tinha um verde lavado, a agua do tanque uma crystallinidade fria; passaros chilreavam de leve, com vôos rapidos.
Sebastião estava debruçado para a rua, quando a ponteira d'uma bengala, passos vagarosos cortaram o silencio fresco. Era um visinho de Jorge, o Cunha Rosado, o doente d'intestinos; arrastava-se, curvado, abafado n'um cachenez e n'um paletot côr de pinhão, com a barba grisalha desmazelada, a crescer.
--Já a pé, visinho!--disse Sebastião.
O outro parou, ergueu a cabeça lentamente.
--Oh Sebastião!--disse com uma voz plangente--Ando a passear os meus leites, homem!
--A pé?
--Ao principio ia na burrita até fóra de portas, mas diz que me fazia bem o passeiosito a pé...
Encolheu os hombros com um gesto triste de duvida, de desconsolação.
--E como vai isso?--perguntou Sebastião, muito debruçado para a rua, com affecto.
O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beiços brancos:
--A desfazer-se!
Sebastião tossiu, embaraçado, sem achar uma consolação.
Mas o doente, com as duas mãos apoiadas á bengala, uma subita radiação d'interesse no olhar amortecido:
--Ó Sebastião, um rapaz alto, que eu tenho visto todos estes dias entrar para casa do Jorge, é o Bazilio de Brito, pois não é? O primo da mulher? o filho do João de Brito?
--É, sim, porque?
O Cunha fez: _Ah! ah!_ com uma grande satisfação.
--Bem dizia eu!--exclamou.--Bem dizia eu! E aquella teimosa que não! que não!...
E então explicou com uma tagarellice subita, e cansaços de voz:
--O meu quarto é para a rua, e todos os dias, como eu estou quasi sempre pela janella para espairecer... tenho visto aquelle rapaz, a modo estrangeirado, entrar para lá... todos os dias! Este é o Bazilio de Brito! disse eu. Mas minha mulher que não! que não!... Que diabo, homem! Eu tinha quasi a certeza... Não conheço eu outra cousa!... Até elle esteve para casar com a D. Luiza. Oh! Eu sei essa historia na ponta dos dedos... Morava ella na rua da Magdalena!...
Sebastião disse vagamente:
--Pois é, é o Brito...
--Bem dizia eu!
Ficou um momento immovel, fitando o chão, e refazendo uma voz dolente:
--Pois, vou-me arrastando até casa.
Suspirou. E arregalando os olhos:
--Quem me dera a sua saude, Sebastião!
E dizendo adeus, com um gesto da mão calçada de luva de casimira escura, afastou-se, curvado, rente do muro, conchegando com o braço ao ventre, o seu largo paletot côr de pinhão.
Sebastião entrou preoccupado. Todo o mundo começava a reparar, hein! Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas, tres horas! Uma visinhança tão chegada, tão maligna!...
Ao começo da tarde sahiu. Teve vontade de procurar Luiza; mas sem saber porque, sentia um grande acanhamento; como que receava encontral-a differente ou com outra expressão... E subia a rua devagar, sob o seu guarda-sol, hesitando, quando um coupé que descia a trote largo veio parar á porta de Luiza.
Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto, com um bigode levantado, trazia uma flôr no peito; devia ser o primo Bazilio, pensou. O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando as pernas, pôz-se a enrolar o cigarro.
Ao ruido do trem o Paula postou-se logo á porta, de boné carregado, as mãos enterradas no bolso, com olhares de revés: a carvoeira defronte, immunda, disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar com um pasmo lôrpa na face oleosa; a criada do doutor abriu precipitadamente a vidraça. Então o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante de sol, entrou no estanque; d'ahi a um momento appareceu á porta, com a estanqueira, de carão viuvo; e cochichavam, cravavam olhares perfidos nas varandas de Luiza, no coupé! O Paula, d'alli, arrastando as chinellas de tapete, foi segredar com a carvoeira, provocou-lhe uma risada que lhe sacudia a massa do seio; e foi emfim estacar á sua porta entre um retrato de D. João VI e duas velhas cadeiras de couro, assobiando com jubilo. No silencio da rua ouvia-se n'um piano, a compasso de estudo, a _Oração d'uma virgem_.
Sebastião ao passar olhou machinalmente para as janellas de Luiza.
--Rico calor, snr. Sebastião!--observou o Paula curvando-se--É um regalo estar á fresca!
Luiza e Bazilio estavam muito tranquillos, muito felizes na sala, com as portadas meio cerradas, n'uma penumbra dôce. Luiza tinha apparecido de roupão branco, muito fresca, com um bom cheiro de agua d'alfazema.
--Eu venho assim mesmo--disse ella.--Não faço ceremonias.
Mas assim é que ella estava linda! Assim é que a queria sempre!--exclamava Bazilio muito contente, como se aquelle roupão de manhã fosse já uma promessa da sua nudez.
Vinha muito tranquillo, affectava um tom de parente. Não a inquietou com palavras vehementes, nem com gestos desejosos: fallou-lhe do calor, d'uma _zarzuela_ que vira na vespera, de velhos amigos que encontrára, e disse-lhe apenas que tinha sonhado com ella.
O que? Que estavam longe, n'uma terra distante, que devia ser a Italia, tantas as estatuas que havia nas praças, tantas as fontes sonoras que cantavam nas bacias de marmore; era n'um jardim antigo, sobre um terraço classico; flôres raras transbordavam de vasos florentinos; pousando sobre as balaustradas esculpidas, pavões abriam as caudas; e ella arrastava devagar sobre as lages quadradas a cauda longa do seu vestido de velludo azul. De resto, dizia, era um terraço como o de S. Donato, a _villa_ do principe Demidoff,--porque lembrava sempre as suas intimidades illustres, e não se descuidava de fazer reluzir a gloria das suas viagens.
E ella, tinha sonhado?
Luiza córou.--Não, tinha tido muito medo da trovoada. Tinha ouvido a trovoada, elle?
--Estava a cear no Gremio, quando trovejou.
--Costumas cear?
Elle teve um sorriso infeliz.--Cear! se se podia chamar cear ir ao Gremio rilhar um bife corneo e tragar um Collares peçonhento!
E fitando-a:
--Por tua causa, ingrata!
Por sua causa?
--Por quem, então? Porque vim eu a Lisboa? Porque deixei Paris?
--Por causa dos teus negocios...
Elle encarou-a severamente:
--Obrigado--disse, curvando-se até ao chão.
E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu charuto.
Veio sentar-se bruscamente ao pé d'ella.--Não, realmente era injusta. Se estava em Lisboa, era por ella. Só por ella!
Fez uma voz meiga, perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho d'amor muito pequenino, assim...--Mostrava o comprimento da unha.
Riram.
--Assim, talvez.
E o peito de Luiza arfava.
Elle então examinou-lhe as unhas; admirou-lh'as e aconselhou-lhe o verniz que usam as _cocottes_, que lhes dá um lustre polido; ia-se apossando da sua mão, pôz-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou o dedo minimo, jurou que era muito dôce; arranjou-lhe com um contacto muito timido uns fios de cabello que se tinham soltado,--e, disse, tinha um pedido a fazer-lhe!
Olhava-a com uma supplicação.
--Que é?
--É que venhas commigo ao campo. Deve estar lindo no campo!
Ella não respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas molles do roupão.
--É muito simples--acrescentou elle.--Tu vaes-me encontrar a qualquer parte, longe d'aqui, está claro. Eu estou á espera de ti com uma carruagem, tu saltas para dentro e _fouette_, _cocher_!
Luiza hesitava.
--Não digas que não.
--Mas onde?
--Onde tu quizeres. A Paço d'Arcos, a Loires, a Queluz. Dize que sim.
A sua voz era muito urgente, quasi ajoelhára.
--Que tem? É um passeio d'amigos, d'irmãos.
--Não! isso não!
Bazilio zangou-se, chamou-lhe _beata_. Quiz sahir. Ella veio tirar-lhe o chapéo da mão, muito meiga, quasi vencida.
--Talvez, veremos--dizia.
--Dize que sim!--insistia.--Sê boa rapariga!
--Pois sim, ámanhã veremos, ámanhã fallaremos.
Mas no dia seguinte, muito habilmente, Bazilio não fallou no passeio, nem no campo. Não fallou tambem do seu amor, nem dos seus desejos. Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de Belot, _A mulher de fogo_. E sentando-se ao piano, disse-lhe canções de _café concerto_, muito picantes; imitava a rouquidão acre e canalha das cantoras; fel-a rir.
Depois fallou muito de Paris, contou-lhe a moderna chronica amorosa, anecdotas, paixões _chics_. Tudo se passava com duquezas, princezas, d'um modo dramatico e sensibilisador, ás vezes jovial, sempre cheio de delicias. E, de todas as mulheres de que fallava, dizia recostando-se: Era uma mulher distinctissima, tinha naturalmente o seu amante...
O adulterio apparecia assim um dever aristocratico. De resto a virtude parecia ser, pelo que elle contava, o defeito d'um espirito pequeno, ou a occupação reles d'um temperamento burguez...
E quando sahiu, disse, como recordando-se:
--Sabes que estou com minhas idéas de partir?...
Ella perguntou, um pouco descorada:
--Porque?
Bazilio disse, muito indifferente:
--Que diabo faço eu aqui?...
Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e como dominando-se:
--Adeus, meu amor...
E sahiu.
Quando n'essa tarde Luiza entrou na sala de jantar, levava os olhos vermelhos.
Foi ella no dia seguinte que fallou do campo. Queixou-se do contínuo calor, da _sécca_ de Lisboa. Como devia estar lindo em Cintra!
--És tu que não queres--acudiu elle. --Podiamos fazer um passeio adoravel.
Mas tinha medo, podiam vêr...
--O quê! N'um coupé fechado? Com os _stores_ descidos?
Mas então era peor que estar n'uma sala, era abafar n'uma bocêta!
Mas não! Iam a uma quinta. Podiam ir ás _Alegrias_, á quinta d'um amigo d'elle que estava em Londres. Só viviam lá os caseiros, era ao pé dos Olivaes, era lindo! Bellas ruas de loureiros, sombras adoraveis. Podiam levar gelo, champagne...
--Vem!--disse bruscamente, tomando-lhe as mãos.
Ella córou.--Talvez. No domingo veria.
Bazilio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se, humedeceram-se. Ella sentiu-se muito perturbada; desprendeu as mãos; foi abrir as vidraças ambas, dar á sala uma claridade larga como uma publicidade; sentou-se n'uma cadeira ao pé do piano, receando a penumbra, o sophá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse alguma cousa, porque já temia as palavras, tanto como os silencios! Bazilio cantou a _Medjé_, a melodia de Gounod, tão sensual e perturbadora. Aquellas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos d'uma noite electrica. E quando Bazilio sahiu, ficou sentada, quebrada, como depois d'um excesso.
Sebastião tinha estado nos ultimos tres dias em Almada, na quinta do Rozegal, onde trazia obras. Voltára na segunda-feira cedo, e, pelas dez horas, sentado no poial da janella de jantar que abria para o terraçosinho, esperava o seu almoço, brincando com o _Rolim_--o seu gato, amigo e confidente da illustre Vicencia, nedio como um prelado, ingrato como um tyranno.
A manhã começava a aquecer; o quintal estava já cheio de sol; na agua do tanque, sob a parreira, claridades espelhadas e tremulas faiscavam. Nas duas gaiolas os canarios cantavam estridentemente.
A tia Joanna, que andava a arranjar a mesa do almoço muito calada, poz-se então a dizer com a sua vozinha arrastada e minhôta:
--Ora esteve ahi hontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palratorios, com umas tontices!...
--A respeito de quê, tia Joanna?--perguntou Sebastião.
--A respeito d'um rapaz, que diz que vai agora todos os dias a casa da Luizinha.
Sebastião ergueu-se logo:
--Que disse ella, tia Joanna?
A velha assentava a toalha devagar com a sua mão gorducha espalmada:
--Esteve ahi a palrar. Quem seria, quem não seria? Diz que é um perfeito rapaz. Vem todos os dias. Vem de trem, vai de trem... No sabbado que estivera até quasi á noitinha. E cantou-se na sala, diz que uma voz que nem no theatro...
Sebastião interrompeu-a, impaciente:
--É o primo, tia Joanna. Então quem havia de ser? É o primo que chegou do Brazil.
A tia Joanna teve um bom sorriso.
--Eu logo vi que era cousa de parente. Pois diz que é um perfeito rapaz! E todo janota!
E sahindo para a cozinha, devagar:
--Eu logo vi que era parente, logo disse!...
Sebastião almoçou inquieto. Positivamente a visinhança já se punha a mexericar, a commentar! Estava-se a armar um escandalo!--E, assustado, decidiu-se logo a ir consultar Julião.
Descia a rua de S. Roque para casa d'elle, quando o viu, que subia devagar pela sombra, com um rolo de papel debaixo do braço, uma calça branca enxovalhada, o ar suado.
--Ia a tua casa, homem!--disse Sebastião logo.
Julião estranhou a excitação desusada da sua voz.
Havia alguma novidade? Que era?
--Uma do diabo!--exclamou, baixo, Sebastião.
Estavam parados ao pé da confeitaria. Na vidraça, por traz d'elles, emprateleirava-se uma exposição de garrafas de malvasia com os seus letreiros muito coloridos, transparencias avermelhadas de gelatinas, amarellidões enjoativas de dôces d'ovos, e quéques d'um castanho escuro tendo espetados cravos tristes de papel branco ou côr de rosa. Velhas natas lividas amollentavam-se no ôco dos folhados; ladrilhos grossos de marmelada esbeiçavam-se ao calor; as empadinhas de marisco agglomeravam as suas crôstas resequidas. E no centro, muito proeminente n'uma travessa, enroscava-se uma lampreia d'ovos medonha e bojuda, com o ventre d'um amarello ascoroso, o dorso malhado d'arabescos d'assucar, a bocca escancarada: na sua cabeça grossa esbogalhavam-se dous horriveis olhos de chocolate; os seus dentes d'amendoa ferravam-se n'uma tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam.
--Vamos alli para o café--disse Julião.--Aqui na rua arde-se!
--Tenho estado apoquentado--ia dizendo Sebastião.--Muito apoquentado! Quero fallar-te.
No café o papel azul ferrete e as meias portas fechadas abatiam a aspera intensidade da luz, davam uma frescura calada.
Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua as fachadas muito caiadas brilhavam com uma radiação faiscante. Por traz do balcão, onde reluziam garrafas de crystal, um criado de jaquetão, estremunhado e esguedelhado, cabeceava de somno. Um passaro chilreava dentro; sentia-se o bater espaçado das bolas do bilhar através d'uma porta de baeta verde; ás vezes o pregão de um cangalheiro na rua sobresahia, e--todos estes sons, por momentos, se perdiam no ruido forte do descer d'um trem travado.
Defronte d'elles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas melenas grisalhas collavam-se a um craneo amarellado; o bigode tinha tons queimados do cigarro; e das noitadas ficára-lhe uma vermelhidão inflammada nas palpebras. De vez em quando erguia preguiçosamente a cabeça, atirava para o chão areado um jacto escuro de saliva, dava uma sacudidella triste ao jornal e tornava a fital-o com um olhar infeliz. Quando os dous entraram e pediram carapinhadas, abaixou-lhes gravemente a cabeça.
--Mas o que é então?--perguntou logo Julião.
Sebastião chegou-se mais para elle:
--É por causa lá da nossa gente. Por causa do primo--disse baixo.
E acrescentou:
--Tu vistel-o, hein?
A lembrança repentina da sua humilhação na sala de Luiza trouxe um rubor ás faces de Julião. Mas muito orgulhoso, disse seccamente:
--Vi.
--E então?
--Pareceu-me um asno!--exclamou, não se contendo.
--E um extravagante--disse com terror Sebastião--Não te pareceu, hein?
--Pareceu-me um asno--repetiu.--Umas maneiras, uma affectação, um alambicado, a olhar muito para as meias, umas meias ridiculas de mulher...
E com um certo sorriso azedado:
--Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas--disse, apontando para os botins mal engraxados--tenho muita honra n'ellas, são de quem trabalha...
Porque publicamente costumava gloriar-se d'uma pobreza, que intimamente não cessava de o humilhar.
E remexendo devagar a sua carapinhada:
--Uma besta!--resumiu.
--Tu sabes que elle foi namoro da Luiza?--disse Sebastião, baixo, como assustado da gravidade da confidencia.
E respondendo logo ao olhar surprehendido de Julião:
--Sim. Ninguem o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o ha pouco, ha mezes. Foi. Estiveram para casar. Depois o pai falliu, elle foi para o Brazil, e de lá escreveu a romper o casamento.
Julião sorriu, e encostando a cabeça á parede:
--Mas isso é o enredo da _Eugenia Grandet_, Sebastião! Estás-me a contar o romance de Balzac! Isso é a _Eugenia Grandet_!
Sebastião fitou-o espantado.
--Ora! não se póde fallar serio comtigo. Dou-te a minha palavra d'honra--acrescentou vivamente.
--Vá, Sebastião, vá, dize.
Houve um silencio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do tecto sujo do fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a mão sapuda, de tom pegajoso, cofiava amorosamente as rêpas. No bilhar vozes altercavam.
Sebastião então, como tomado d'uma resolução, disse bruscamente:
--E agora vai lá todos os dias, não sahe de lá!
Julião afastou-se na banqueta e encarou-o:
--Tu queres-me dar a entender alguma cousa, Sebastião?
E com uma vivacidade quasi jovial:
--O primo atira-se?
Aquella palavra escandalisou Sebastião.
--Ó Julião!--E severamente:--Com essas cousas não se brinca!
Julião encolheu os hombros.
--Mas está claro que se atira!--exclamou.--És de bom tempo ainda! Está claro que sim! Namorou-a solteira, agora quel-a casada!
--Falla baixo--acudiu Sebastião.
Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recahido na sua leitura funebre.
Julião baixou a voz:
--Mas é sempre assim, Sebastião. O primo Bazilio tem razão; quer o prazer sem a responsabilidade!
E quasi ao ouvido d'elle:
--É de graça, amigo Sebastião! É de graça! Tu não imaginas que influencia isto tem no sentimento!
Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilherias vinham-lhe com abundancia:
--Ha um marido que a veste, que a calça, que a alimenta, que a engomma, que a vela se está doente, que a atura se ella está nervosa, que tem todos os encargos, todos os tedios, todos os filhos, todos, todos os que vierem, sabes a lei... Por consequencia o primo não tem mais que chegar, bater ao ferrolho, encontra-a aceada, fresca, appetitosa á custa do marido, e...
Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfação, enrolando deliciosamente o cigarro, regosijando-se no escandalo.
--É optimo!--acrescentou.--Todos os primos raciocinam assim. Bazilio é primo, logo... Sabes o syllogismo, Sebastião! Sabes o syllogismo, menino!--gritou, dando-lhe uma palmada na perna.
--É o diabo--murmurou Sebastião cabisbaixo.
Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando:
--Mas tu suppões que uma rapariga de bem...
--Eu não supponho nada!--acudiu Julião.
--Falla baixo, homem!
--Eu não supponho nada--repetiu Julião baixinho.--Eu affirmo o que elle faz. Agora ella...
E acrescentou com seccura:
--Como é uma rapariga honesta...
--Se é!--exclamou Sebastião, batendo uma punhada na pedra da mesa.
--Prompto!--cantou arrastadamente o moço.
O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia ao balcão bocejando, e que os dous continuavam a remexer a sua carapinhada, encostou os cotovêlos á mesa, salivou para longe, e puxando o jornal deixou-lhe cahir em cima um olhar desolado.
Sebastião disse, então, com tristeza:
--A questão não é por ella. A questão é pela visinhança.
Ficaram um momento calados. A altercação de vozes no bilhar crescia.
--Mas--disse Julião, como sahindo d'uma reflexão--a visinhança? Como a visinhança?
--Sim, homem! Vêem entrar para lá o rapaz. Vem de tipoia, faz um escandalo na rua. Já se falla. Já vieram com mexericos á tia Joanna. Ha dias encontrei o Netto que reparou. O Cunha tambem. O homem dos trastes, em baixo, não se faz nada que elle não dê fé: são umas linguas de tremer. Ha dias ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem para entrar, e foram logo conciliabulos na rua, olhadellas para a janella, o diabo! Vai lá todos os dias. Sabem que o Jorge está no Alemtejo... Está duas e tres horas. É muito serio, é muito serio!
--Mas ella então é tola!
--Não vê o mal...
Julião encolheu os hombros, duvidando.
Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem herculeo, de bigode negro, muito escarlate, sahiu bruscamente, e parando, segurando a porta aberta, gritou para dentro:
--E fique sabendo que havia d'encontrar homem!
Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade.
O sujeito herculeo atirou a porta, furioso; atravessou o café resfolegando, apopletico; um rapaz chupado, de jaquetão de inverno e calça branca, seguia-o, com um ar gingado.
--O que eu devia fazer--exclamava o agigantado, brandindo o punho--era quebrar a cara áquelle pulha!
O rapaz chupado, dizia, com doçura e servilismo, bamboleando-se:
--Questões não servem para nada, sô Corrêa!
--É que sou muito prudente--berrou o herculeo.--É que me lembro que tenho mulher e filhos! Senão bebia-lhe o sangue!
E sahindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua.
O criado muito pallido, tremia dentro do balcão; e o sujeito calvo, que erguera a cabeça, teve um sorriso de tedio, e retomou tristemente o jornal.
Sebastião, então, disse reflectindo:
--Não te parece que seria bom avisal-a?
Julião encolheu os hombros, soltou uma baforada de fumo.
--Dize alguma cousa!--implorou Sebastião--Tu não ias fallar-lhe, hein?
--Eu?--exclamou Julião com um aspecto que repellia a idéa.--Eu! Estás doudo!
--Mas que te parece, emfim?
E a voz de Sebastião tinha quasi uma afflicção.
Julião hesitou:
--Vai, se queres. Dize-lhe que se tem reparado... Emfim, eu não sei, meu amigo!
E pôz-se a chupar o seu cigarro.
Aquelle mutismo affectou Sebastião. Disse com desconsolação:
--Homem, vim-te pedir um conselho...
--Mas que diabo queres tu?--E a voz de Julião irritava-se.--A culpa é d'ella. É d'ella!--insistiu, vendo o olhar de Sebastião.--É uma mulher de vinte e cinco annos, casada ha quatro, deve saber que se não recebe todos os dias um peralvilho, n'uma rua pequena, com a visinhança a postos! Se o faz, é porque lhe agrada.
--Ó Julião!--disse muito severamente Sebastião.
E dominando-se, com a voz commovida:
--Não tens razão, não tens razão!
Calou-se muito magoado.
Julião levantou-se.
--Amigo Sebastião, eu digo o que penso, tu fazes o que entendes.
Chamou o criado.
--Deixa--disse Sebastião precipitadamente, pagando.
Iam sahir. Mas então o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se para a porta, abriu-a, curvou-se, e estendeu a Sebastião um papel enxovalhado.
Sebastião, surprehendido, leu alto, machinalmente: