O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 8
Não havia considerações que o impedissem de cumprir o seu dever--declarou.--Cumpril-o-hia! Elle era uma pessoa inutil, a snr.^a D. Luiza bem o sabia.--Mas se necessitar alguma cousa, uma informação, uma apresentação nas regiões officiaes, licença para visitar algum estabelecimento publico, creia que me tem ás suas ordens!
E conservando na sua mão a mão de Bazilio:
--Rua do Ferregial de Cima numero tres, terceiro. O modesto tugurio d'um ermita.
Tornou a curvar-se diante de Luiza:
--E quando escrever ao nosso viajante, que faço sinceros votos pela prosperidade dos seus emprehendimentos. Por quem é! Criado de v. exc.^a!
E direito, grave, sahiu.
--Este ao menos é limpo--resmungou Bazilio, com o charuto ao canto da bocca.
Sentára-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luiza aproximou-se:
--Canta alguma cousa, Bazilio!
Bazilio pôz-se então a olhar muito para ella.
Luiza córou, sorriu; através da fazenda clara e transparente do vestido, entrevia-se a brancura macia e lactea do collo e dos braços; e nos seus olhos, na côr quente do rosto havia uma animação e como uma vitalidade amorosa.
Bazilio disse-lhe, baixo:
--Estás hoje nos teus dias felizes, Luiza.
O olhar d'elle, tão avido, perturbava-a; insistiu:
--Canta alguma cousa.
O seu seio arfava.
--Canta tu--murmurou Bazilio.
E devagarinho, tomou-lhe a mão. As duas palmas um pouco humidas, um pouco tremulas, uniram-se.
A campainha, fóra, tocou. Luiza desprendeu a mão bruscamente.
--É alguem--disse agitada.
Vozes baixas fallavam á cancella.
Bazilio teve um movimento d'hombros contrariado, foi buscar o chapéo.
--Vaes-te?--exclamou ella toda desconsolada.
--Pudera! Não posso estar só comtigo um momento!
A cancella fechou-se com ruido.
--Não é ninguem, foi-se--disse Luiza.
Estavam de pé, no meio da sala.
--Não te vás! Bazilio!
Os seus olhos profundos tinham uma supplicação dôce. Bazilio pousou o chapéo sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso.
--E para que queres tu estar só commigo?--disse ella.--Que tem que venha gente?--E arrependeu-se logo d'aquellas palavras.
Mas Bazilio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço sobre os hombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-a na testa, nos olhos, nos cabellos, vorazmente.
Ella soltou-se a tremer, escarlate.
--Perdôa-me--exclamou elle logo, com um impeto apaixonado.--Perdôa-me. Foi sem pensar. Mas é porque te adoro, Luiza!
Tomou-lhe as mãos com dominio, quasi com direito.
--Não. Has-de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a vêr estou doudo por ti, como d'antes, a mesma cousa. Nunca deixei de me morrer por ti. Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te vêr rica, feliz. Não te podia levar para o Brazil. Era matar-te, meu amor! Tu imaginas lá o que aquillo é! Foi por isso que te escrevi aquella carta, mas o que eu soffri, as lagrimas que chorei!
Luiza escutava-o immovel, a cabeça baixa, o olhar esquecido; aquella voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a, vencia-a; as mãos de Bazilio penetravam com o seu calor febril a substancia das suas; e, tomada d'uma lassidão, sentia-se como adormecer.
--Falla, responde!--disse elle anciosamente, sacudindo-lhe as mãos, procurando o seu olhar avidamente.
--Que queres que te diga?--murmurou ella.
A sua voz tinha um tom abstracto, mal acordado.
E desprendendo-se devagar, voltando o rosto:
--Fallemos n'outras cousas!
Elle balbuciava com os braços estendidos:
--Luiza! Luiza!
--Não, Bazilio, não!
E na sua voz havia o arrastado d'uma lamentação, com a molleza d'uma caricia.
Elle então não hesitou, prendeu-a nos braços.
Luiza ficou inerte, os beiços brancos, os olhos cerrados--e Bazilio, pousando-lhe a mão sobre a testa, inclinou-lhe a cabeça para traz, beijou-lhe as palpebras devagar, a face, os labios depois muito profundamente; os beiços d'ella entreabriram-se, os seus joelhos dobraram-se.
Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado, afastou o rosto, exclamou afflicta:
--Deixa-me, deixa-me!
Viera-lhe uma força nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as mãos abertas pela testa, pelos cabellos:
--Oh meu Deus! É horrivel!--murmurou.--Deixa-me! É horrivel!
Elle adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luiza recuava, dizia:
--Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me!
Elle então tranquillisou-a com a voz subitamente serena e humilde. Não percebia. Porque se zangava? Que tinha um beijo? Elle não pedia mais. Que tinha ella imaginado, então? Adorava-a, de certo, mas puramente.
--Juro-t'o!--disse com força, batendo no peito.
Fel-a sentar no sophá, sentou-se ao pé d'ella. Fallou-lhe muito sensatamente:--Via as circumstancias, e resignar-se-hia. Seria como uma amizade d'irmãos, nada mais.
Ella escutava-o, esquecida.
De certo, dizia elle, aquella paixão era uma tortura immensa. Mas era forte, dominar-se-hia. Só queria vir vêl-a, fallar-lhe. Seria um sentimento ideal.--E os seus olhos devoravam-na.
Voltou-lhe a mão, curvou-se, pôz-lhe um beijo cheio na palma. Ella estremeceu, ergueu-se logo:
--Não! Vai-te!
--Bem, adeus.
Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a sêda do chapéo:
--Bem, adeus--repetiu melancolicamente.
--Adeus.
Bazilio disse então com muita ternura:
--Estás zangada?
--Não!
--Escuta--murmurou, adiantando-se.
Luiza bateu com o pé.
--Oh que homem! Deixa-me! Ámanhã. Adeus. Vai-te! Ámanhã!
--Ámanhã!--disse elle, baixinho.
E sahiu rapidamente.
Luiza entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho ficou surprehendida: nunca se vira tão linda! Deu alguns passos calada.
Juliana arrumava roupa branca n'um gavetão do guarda-vestidos.
--Quem tocou ha bocado?--perguntou Luiza.
--Foi o snr. Sebastião. Não quiz entrar; disse que voltava.
Tinha dito, com effeito, «que voltava». Mas começava quasi a envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontral-a sempre «com uma visita»!
Logo no primeiro dia ficára muito surprehendido quando Juliana lhe disse: «Está com um sujeito! Um rapaz novo que já cá esteve hontem!» Quem seria? Conhecia todos os amigos da casa... Seria algum empregado da secretaria ou algum proprietario de minas, o filho do Alonso, talvez, um negocio de Jorge de certo...
Depois no domingo, á noite, trazia-lhe a partitura de _Romeu e Julieta_, de Gounod, que ella desejava tanto ouvir, e quando Juliana lhe disse da varanda «que tinha sahido com D. Felicidade de carruagem», ficou muito embaraçado com o grosso volume debaixo do braço, coçando devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do enthusiasmo de D. Felicidade pelo theatro de D. Maria. Mas irem sós, n'aquelle calor de julho, ao theatro! Emfim, era possivel. Foi a D. Maria.
O theatro, quasi vazio, estava lugubre; aqui e além, n'algum camarote, uma familia feia perfilava-se, com cabellos negrissimos carregados de postiços, gozando soturnamente a sua noite de domingo: na platéa, á larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam com um ar encalmado e farto, limpando a espaços, com lenços de sêda, o suor dos pescoços; na geral, gente de trabalho arregalava olhos negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente; bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarella, um velhote condecorado fallava a uma magrita de cabellos riçados, sem cessar, com o tom diluido de uma agua gordurosa e morna que escorre.
Sebastião sahiu. Onde estariam? Soube-o na manhã seguinte.--Descia o Moinho de Vento, e um visinho, o Netto, que subia curvado sob o seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o bruscamente, para lhe dizer:
--Ó amigo Sebastião, ouça cá. Vi hontem á noite no Passeio a D. Luiza com um rapaz que eu conheço. Mas d'onde conheço eu aquella cara? Quem diabo é?
Sebastião encolheu os hombros.
--Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheço-o. N'outro dia vi-o entrar para lá. Vossê não sabe?
Não sabia.
--Eu conheço aquella cara. Tenho estado a vêr se me recordo...--Passava a mão pela testa.--Eu conheço aquella cara! Elle é de Lisboa. De Lisboa é elle!
E depois d'um silencio, fazendo girar o guarda-sol:
--E que ha de novo, Sebastião?
Tambem não sabia.
--Nem eu!
E bocejando muito:
--Isto está uma pasmaceira, homem!
N'essa tarde, ás quatro horas, Sebastião voltou a casa de Luiza. Estava com «o sujeito!» Ficou então preoccupado. De certo era algum negocio de Jorge; porque não comprehendia que ella fallasse, sentisse, vivesse, que não fosse no interesse da casa e para maior felicidade de Jorge. Mas devia ser grave então--para reclamar visitas, encontros, tantas relações. Tinham pois interesses importantes que elle não conhecia! E aquillo parecia-lhe uma ingratidão, e como uma diminuição d'amizade.
A tia Joanna tinha-o achado «macambusio».
Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Bazilio, o Bazilio de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido veio inquietal-o.
Sebastião não conhecia Bazilio pessoalmente, mas sabia a chronica da sua mocidade. Não havia n'ella certamente, nem escandalo excepcional, nem romance pungente. Bazilio tinha sido apenas um _pandigo_ e, como tal, passára methodicamente por todos os episodios classicos da estroinice lisboeta:--partidas de monte até de madrugada com ricaços do Alemtejo; uma tipoia despedaçada n'um sabbado de touros; ceias repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas _pégas_ applaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau e Collares nas tabernas fadistas; muita guitarra; sôcos bem jogados á face attonita d'um policia; e uma profusão de gemas d'ovos nas glorias do entrudo. As unicas mulheres mesmo que appareciam na sua historia, além das Lolas e das Carmens usuaes, eram a Pistelli, uma dançarina allemã cujas pernas tinham uma musculatura d'athleta, e a condessinha d'Alvim, uma douda, grande cavalleira, que se separára de seu marido depois de o ter chicotado, e que se vestia d'homem para bater ella mesmo em trem de praça do Rocio ao Dá-fundo. Mas isto bastava para que Sebastião o achasse um _debochado_, um _perdido_; ouvira que elle tinha ido para o Brazil para fugir aos credores; que enriquecera por acaso, n'uma especulação, no Paraguay; que mesmo na Bahia, com a corda na garganta, nunca fôra um trabalhador; e suppunha que a posse da fortuna para elle, seria apenas um desenvolvimento dos vicios. E este homem agora vinha vêr a Luizinha todos os dias, estava horas e horas, seguia-a ao Passeio...
Para que?... Era claro, para a desinquietar!
Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsolação d'estas idéas, quando uma voz encatarrhoada disse com respeito:
--Ó snr. Sebastião!
Era o Paula dos moveis.
--Viva, snr. João.
O Paula atirou para as pedras da rua um jacto escuro de saliva, e com as mãos cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom grave:
--Ó snr. Sebastião, ha doença cá por casa do snr. Engenheiro?
Sebastião todo surprehendido:
--Não. Porque?
O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou:
--É que tenho visto entrar para cá todos os dias um sujeito. Imaginei que fosse o medico.
E puxando o escarro:
--D'esses novos da hom[oe]opathia!
Sebastião tinha córado.
--Nada--disse.--É o primo de D. Luiza.
--Ah!--fez o Paula.--Pois pensei... Queira desculpar, snr. Sebastião.
E curvou-se, respeitosamente.
--Já temos fallatorio!--foi pensando Sebastião.
E entrou em casa, descontente.
Morava ao fundo da rua, n'um predio seu, de construcção antiga, com quintal.
Sebastião era só. Tinha uma fortuna pequena em inscripções, terras de lavoura para o lado do Seixal, e a quinta em Almada,--o Rozegal. As duas criadas eram muito antigas na casa. A Vicencia, a cozinheira, era uma preta de S. Thomé já do tempo da mamã. A tia Joanna, a governanta, servia-o havia trinta e cinco annos; chamava ainda a Sebastião o «menino»; tinha já as tontices d'uma criança, e recebia sempre os respeitos d'uma avó. Era do Porto, do _Poârto_, como ella dizia, porque nunca perdera o seu accento minhôto. Os amigos de Sebastião chamavam-lhe uma velha de comedia. Era baixinha e gorda, com um sorriso muito bondoso; tinha os cabellos alvos como uma estriga, atados no alto n'um rolinho com um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um vasto lenço branco muito aceado, traçado sobre o peito. E todo o dia passarinhava pela casa, com o seu passinho arrastado, fazendo tilintar os mólhos de chaves, resmungando proverbios, tomando rapé de uma caixa redonda, em cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte pensil do Porto.
Em toda a casa havia um tom caturra e dôce: na sala de visitas, quasi sempre fechada, o vasto canapé, as poltronas tinham o ar empertigado do tempo do snr. D. José I, e os estofos de damasco vermelho desbotado lembravam a pompa d'uma côrte decrepita; das paredes da casa de jantar pendiam as primeiras gravuras das batalhas de Napoleão, onde se vê invariavelmente, n'uma eminencia, o cavallo branco, para o qual galopa desenfreadamente do primeiro plano um hussard, brandido um sabre. Sebastião dormia os seus somnos de sete horas, sem sonhos, n'uma velha barra de pau preto torneado; e n'uma saleta escura, sobre uma commoda de fecharias de metal amarello, conservava-se, havia annos, o padroeiro da casa, S. Sebastião--que se torcia, cravado de settas, nas cordas que o atavam ao tronco, á luz d'uma lampada muito cuidada pela tia Joanna, sob os ruidos subtis dos ratos pelo forro.
A casa condizia com o dono. Sebastião tinha um genio antiquado. Era solitario e acanhado. Já no latim lhe chamavam o _pelludo_; punham-lhe rabos, roubavam-lhe impudentemente as merendas. Sebastião, que tinha a força d'um gymnasta, offerecia a resignação d'um martyr.
Foi sempre reprovado nos primeiros exames do lyceu. Era intelligente, mas uma pergunta, o reluzir dos oculos d'um professor, a grande lousa negra immobilisavam-o; ficava muito embezerrado, a face inchada e rubra, a coçar os joelhos, o olhar vazio.
Sua mãi, que era da aldêa e que fôra padeira, muito vaidosa agora das suas inscripções, da sua quinta, da sua mobilia de damasco, sempre vestida de sêda, carregada d'anneis, costumava dizer:
--Ora! tem que comer e beber! Estar a affligir a criança com estudos! Deixa lá, deixa lá!
A inclinação de Sebastião era pela musica. Sua mãi, por conselhos da mãi de Jorge, sua visinha e sua intima, tomou-lhe um mestre de piano; logo desde as primeiras lições, a que ella assistia com enfeites de velludo vermelho e cheia de joias, o velho professor Achilles Bentes, d'oculos redondos e cara de coruja, exclamou excitado com a sua voz nasal:
--Minha rica senhora! o seu menino é um genio! É um genio! Ha-de ser um Rossini! É puxar por elle! É puxar por elle!
Mas era justamente o que ella não queria, era puxar por elle, coitadinho! Por isso não foi um Rossini. E todavia o velho Bentes continuava a dizer, por habito:
--Ha-de ser um Rossini! Ha-de ser um Rossini!
Sómente em lugar de o gritar, brandindo papeis de musica, murmurava-o, com bocejos enormes de leão enfastiado.
Já então os dous rapazes visinhos, Jorge e Sebastião, eram intimos. Jorge mais vivo, mais inventivo, dominava-o. No quintal, a brincar, Sebastião era sempre o _cavallo_ nas imitações da diligencia, o _vencido_ nas guerras. Era Sebastião que carregava os pesos, que offerecia o dorso para Jorge trepar; nas merendas comia todo o pão, deixava a Jorge toda a fruta. Cresceram. E aquella amizade sempre igual, sem amúos, tornou-se na vida d'ambos um interesse essencial e permanente.
Quando a mãi de Jorge morreu, pensaram mesmo em viver juntos; habitariam a casa de Sebastião, mais larga e que tinha quintal; Jorge queria comprar um cavallo; mas conheceu Luiza no Passeio, e d'ahi a dous mezes passava quasi todo o seu dia na rua da Magdalena.
Todo aquelle plano jovial da _Sociedade Sebastião e Jorge_--chamavam-lhe assim, rindo--desabou, como um castello de cartas. Sebastião teve um grande pezar.
E era elle, depois, que fornecia os ramos de rosas que Jorge levava a Luiza, sem espinhos, com cuidados devotos embrulhados n'um papel de sêda. Era elle que tratava dos arranjos do «ninho», ia apressar os estofadores, discutir preços de roupas, vigiar o trabalho dos homens que pregavam os tapetes, conferenciar com a inculcadeira, cuidar dos papeis do casamento!
E á noite, fatigado como um procurador zeloso, tinha ainda de escutar com um sorriso as expansões felizes de Jorge, que passeava pelo quarto até ás duas horas da noite em mangas de camisa, namorado, loquaz, brandindo o cachimbo!
Depois do casamento Sebastião sentiu-se muito só. Foi a Portel visitar um tio, um velho exquisito, com um olhar de doudo, que passava a existencia combinando enxertos no pomar, e lendo, relendo o _Eurico_. Quando voltou, passado um mez, Jorge disse-lhe radioso:
--E sabes, hein? Isto agora é que é a tua casa! Aqui é que tu vives!
Mas nunca obteve de Sebastião que fosse a sua casa com uma inteira intimidade. Sebastião batia á porta, timidamente. Corava diante de Luiza; o antigo _pelludo_ de latim reapparecia. Jorge luctára para que elle cruzasse sem ceremonia as pernas, fumasse cachimbo diante d'ella, não lhe dissesse a todo o momento:--V. exc.^a, v. exc.^a--meio erguido na cadeira.
Nunca vinha jantar senão arrastado. Quando Jorge não estava, as suas visitas eram curtas, cheias de silencio. Julgava-se gebo, tinha medo de massar!
N'essa tarde, quando elle foi para a sala de jantar, a tia Joanna veio-lhe perguntar pela Luizinha.
Adorava-a, achava-a um _anjinho_, uma _açucena_.
--Como está ella? viu-a?
Sebastião corou, não quiz dizer, como na vespera, «que estava gente, que não tinha entrado»; e abaixando-se, pondo-se a brincar com as orelhas do _Trajano_, o seu velho perdigueiro:
--Está boa, tia Joanna, está boa. Então como ha-de d'estar? Está optima!
Áquella hora Luiza recebia uma carta de Jorge. Era de Portel, com muitas queixas sobre o calor, sobre as más estalagens, historias sobre o extraordinario parente de Sebastião,--saudades e mil beijos...
Não a esperava, e aquella folha de papel cheia d'uma letra miudinha, que lhe fazia reapparecer vivamente Jorge, a sua figura, o seu olhar, a sua ternura, deu-lhe uma sensação quasi dolorosa. Toda a vergonha dos seus desfallecimentos cobardes, sob os beijos de Bazilio, veio abrazar-lhe as faces. Que horror deixar-se abraçar, apertar! No sophá o que elle lhe dissera, com que olhos a devorára!... Recordava tudo,--a sua attitude, o calor das suas mãos, a tremura da sua voz... E machinalmente, pouco e pouco, ia-se esquecendo n'aquellas recordações, abandonando-se-lhe, até ficar perdida na deliciosa lassidão que ellas lhe davam, com o olhar languido, os braços frouxos. Mas a idéa de Jorge vinha então outra vez fustigal-a como uma chicotada. Erguia-se bruscamente, passeava pelo quarto toda nervosa, com uma vaga vontade de chorar...
--Ah! não! é horroroso, é horroroso!--dizia só, fallando alto.--É necessario acabar!
Resolveu não receber Bazilio, escrever-lhe, pedir-lhe que não voltasse, que partisse! Meditava mesmo as palavras; seria sêcca e fria, não diria _meu querido primo_, mas simplesmente _primo Bazilio_.
E que faria elle, quando recebesse a carta? Choraria, coitado!
Imaginava-o só, no seu quarto d'hotel, infeliz e pallido; e d'aqui, pelos declives da sensibilidade, passava á recordação da sua pessoa, da sua voz convincente, das turbações do seu olhar dominante, e a memoria demorava-se n'aquellas lembranças com uma sensação de felicidade, como a mão se esquece acariciando a plumagem dôce d'um passaro raro. Sacudia a cabeça com impaciencia, como se aquellas imaginações fossem os ferrões d'insectos importunos: esforçava-se por pensar só em Jorge; mas as idéas más voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraçada, sem saber o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que era!--E do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe uma indefinida indignação contra Jorge, contra Bazilio, contra os sentimentos, contra os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e soffrer. Que a não seccassem, Santo Deus!
Depois de jantar, á janella da sala, ficou a relêr a carta de Jorge. Pôz-se a recordar de proposito tudo o que a encantava n'elle, do seu corpo e das suas qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns de honra, outros de sentimento, para o amar, para o respeitar. Tudo era por elle estar fóra, na provincia! Se elle alli estivesse ao pé d'ella! Mas tão longe, e demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, contra sua vontade, a certeza d'aquella ausencia dava-lhe uma sensação de liberdade; a idéa de se poder mover á vontade nos desejos, nas curiosidades, enchia-lhe o peito d'um contentamente largo, como uma lufada de independencia.
Mas emfim, vamos, de que lhe servia estar livre, só?--E de repente tudo o que poderia fazer, sentir, possuir, lhe apparecia n'uma perspectiva longa que fulgurava: aquillo era como uma porta, subitamente aberta e fechada, que deixa entrever, n'um relance, alguma cousa de indefinido, de maravilhoso, que palpita e faisca.--Oh! estava douda, de certo!
Escureceu. Foi para a sala, abriu a janella; a noite estava quente e espessa, com um ar d'electricidade e de trovoada. Respirava mal, olhava para o céo, desejando alguma cousa fortemente, sem saber o quê.
O moço do padeiro em baixo, como sempre, tocava o fado; aquelles sons banaes entravam-lhe agora na alma, com a brandura d'um bafo quente e a melancolia de um gemido.
Encostou a cabeça á mão com uma lassidão. Mil pensamentosinhos corriam-lhe no cerebro como os pontos de luz que correm n'um papel que se queimou; lembrava-lhe sua mãi, o chapéo novo que lhe mandára madame François, o tempo que faria em Cintra, a doçura das noites quentes sob a escuridão das ramagens...
Fechou a janella, espreguiçou-se; e sentada na _causeuse_, no seu quarto, ficou alli, n'uma immobilidade, pensando em Jorge, em lhe escrever, em lhe pedir que viesse. Mas bem depressa aquelle scismar começou a quebrar-se a cada momento como uma tela que se esgaça em rasgões largos, e por traz apparecia logo com uma intensidade luminosa e forte a idéa do primo Bazilio.
As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado mais trigueiro; a melancolia da separação dera-lhe cabellos brancos. Tinha soffrido por ella!--dissera.--E no fim onde estava o mal? Elle jurára-lhe que aquelle amor era casto, passando-se todo na alma. Tinha vindo de Paris, o pobre rapaz, assim lh'o jurára, para a vêr, uma semana, quinze dias. E havia de dizer-lhe:--Não voltes, vai-te?
--Quando a senhora quizer o chá...--disse da porta do quarto Juliana.
Luiza deu um suspiro alto como acordando. Não; que trouxesse a lamparina, mais tarde.
Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu chá, á cozinha. O lume ia-se apagando, o candieiro de petroleo estendia nos cobres dos tachos reflexos avermelhados.
--Hoje houve cousa, snr.^a Joanna--disse Juliana sentando-se.--Está toda no ar! E é cada suspiro! Alli houve-a e grossa.
Joanna, do outro lado, com os cotovêlos na mesa e a face sobre os punhos, pestanejava de somno.
--A snr.^a Juliana, tambem, deita tudo para o mal--disse.
--É que era necessario ser tola, snr.^a Joanna!
Calou-se, cheirou o assucar; era um dos seus despeitos; gostava d'elle bem refinado--e aquelle assucar mascavado e grosso, que punha no chá um gosto de formigas, exasperava-a.
--Este é peor que o do mez passado! Para uma pobre de Christo tudo é bom!--rosnou muito amargamente.
E depois d'uma pausa repetiu:
--É que era necessario ser tola, snr.^a Joanna!
A cozinheira disse preguiçosamente:
--Cada um sabe de si...
--E Deus de todos--suspirou Juliana.
E ficaram caladas.
Luiza tocou a campainha em baixo.
--Que teremos nós agora? Está com as cocegas!
Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada:
--Quer mais agua! Olha a mania, pôr-se agora a chafurdar á meia noite! Sempre a gente as vê...
Foi encher o regador, e em quanto a agua da torneira cantava no fundo de lata: