O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 7
D. Felicidade quiz então saber as horas. Começava a enfastiar-se. Tinha esperado encontrar o conselheiro: por elle, para lhe parecer bem, fizera o sacrificio de se apertar; Accacio não vinha, os gazes começavam a affrontal-a; e o despeito d'aquella ausencia augmentava-lhe a tortura da digestão. Na sua cadeira, com o corpo molle, ia seguindo a multidão que girava incessantemente, n'uma nevoa empoeirada.
Mas a musica, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruido de cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do _Fausto_. Aquillo reanimou-a. Era um _pot-pourri_ da opera,--e não havia musica de que gostasse mais. Estaria para a abertura de S. Carlos, o snr. Bazilio?
Bazilio disse, com uma intenção, voltando-se para Luiza:
--Não sei, minha senhora, depende...
Luiza olhava, calada. A multidão crescera. Nas ruas lateraes mais espaçosas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das arvores, os acanhados, as pessoas de luto, os que tinham o fato coçado. Toda a burguezia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor formado pela filas cerradas das cadeiras do asylo: e alli se movia entalada, com a lentidão espessa d'uma massa mal derretida, arrastando os pés, raspando o macadam, n'um amarfanhamento plebeu, a garganta secca, os braços molles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente, para cima e para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor grosso, sem alegria e sem bonhomia, no arrebanhamento passivo que agrada ás raças mandrionas: no meio da abundancia das luzes e das festividades da musica, um tedio morno circulava, penetrava como uma nevoa: a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e nos rostos que passavam sob os candieiros, nas zonas mais directas de luz, viam-se desconsolações de fadiga e aborrecimentos de dia santo.
Defronte as casas da rua Occidental tinham na sua fachada o reflexo claro das luzes do Passeio; algumas janellas estavam abertas; as cortinas de fazenda escura destacavam sobre a claridade interior dos candieiros. Luiza sentia como uma saudade de outras noites de verão, de serões recolhidos. Onde? Não se lembrava. O movimento então retrahia-a; e encontrava em face, fitando-a n'uma attitude lugubre, o sujeito da pera longa. Debaixo do véo sentia a poeira arder-lhe nos olhos: em redor d'ella gente bocejava.
D. Felicidade propoz uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar; as filas das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de faces a que a luz do gaz dava o mesmo tom amarellado olhavam de um modo fixo e cançado, n'um abatimento de pasmaceira. Aquelle aspecto irritou Bazilio, e como era difficil andar lembrou--«que se fossem d'aquella semsaboria».
Sahiram. Em quanto elle ia comprar os bilhetes, D. Felicidade, deixando-se quasi cahir n'um banco sob a folhagem d'um chorão, exclamou afflicta:
--Ai filha! Estou que arrebento!
Passava a mão no estomago, tinha a face envelhecida.
--E o conselheiro, que me dizes? Olha que já é pouca sorte! Hoje que eu vim ao Passeio...
Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso:
--É muito sympathico, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro fidalgo. Que elles conhecem-se, filha!
Declarou-se muito fatigada, apenas sahiram o portão. Era melhor tomarem um trem.
Bazilio achava preferivel subirem a pé até ao largo do Loreto. A noite estava tão agradavel! E o andar fazia bem á snr.^a D. Felicidade!
Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve; mas D. Felicidade receava a frialdade, Luiza tinha vergonha. Pelas portas do café abertas, viam-se sobre as mesas jornaes enxovalhados; e algum raro individuo, de calça branca, tomava placidamente o seu sorvete de morango.
No Rocio, sob as arvores, passeava-se: pelos bancos, gente immovel parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos passavam, com o chapéo na mão, abanando-se, o collete desabotoado; a cada canto se apregoava agua fresca «do Arsenal»; em torno do largo, carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céo abafava,--e na noite escura, a columna da estatua de D. Pedro tinha o tom baço e pallido de uma vela de estearina colossal e apagada.
Bazilio, ao pé de Luiza, ia calado. Que horror de cidade!--pensava--Que tristeza! E lembrava-lhe Paris, de verão: subia, á noite, no seu phaeton, os Campos Elyseos devagar: centenares de victorias descem, sobem rapidamente, com um trote discreto e alegre; e as lanternas fazem em toda a avenida um movimento jovial de pontos de luz; vultos brancos e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas, balançadas nas molas macias; o ar em redor tem uma doçura avelludada, e os castanheiros espalham um aroma subtil. Dos dous lados, d'entre os arvoredos, saltam as claridades violentas dos cafés cantantes, cheios do _brouhaha_ das multidões alegres, dos _brios_ impulsivos das orchestras; os restaurantes flammejam; ha uma intensidade de vida amorosa e feliz; e, para além, sahe das janellas dos palacetes, através dos _stores_ de sêda, a luz sobria e velada das existencias ricas. Ah! se lá estivesse!--Mas ao passar junto dos candieiros olhava de lado para Luiza: o seu perfil fino sob o véo branco tinha uma grande doçura; o vestido prendia bem a curva do seu peito; e havia no seu andar uma lassidão que lhe quebrava a linha da cinta de um modo languido e promettedor.
Veio-lhe uma certa idéa, começou a dizer: Que pena que não houvesse em toda a Lisboa um restaurante, onde se podesse ir tomar uma aza de perdiz e beber uma garrafa de _champagne frappée_!
Luiza não respondeu. Devia ser delicioso--pensava.--Mas D. Felicidade exclamou:
--Perdiz, a esta hora!
--Perdiz ou outra qualquer cousa.
--Fosse o que fosse, era para estourar! Credo!
Subiam pela rua Nova do Carmo. Os candieiros davam uma luz mortiça: as altas casas dos dous lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra; e a patrulha muito armada, descia passo a passo, sem ruido, sinistra e subtil.
Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de loteria; a sua voz aguda e chorosa promettia a fortuna, muitos contos de reis. D. Felicidade ainda parou, com uma tentação... Mas uma troça de rapazes bebedos que descia de chapéo na nuca, fallando alto, aos tropeções, assustou muito as duas senhoras. Luiza encolheu-se logo contra Bazilio, D. Felicidade enfiada agarrou-lhe anciosamente o braço, quiz-se metter n'uma carruagem; e até ao Loreto foi explicando o seu medo aos borrachos, com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem largar o braço de Bazilio. Da fileira de tipoias, ao lado das grades da praça de Camões, um cocheiro lançou logo a sua caleche descoberta, de pé na almofada, apanhando confusamente as rédeas, com grandes chicotadas na parelha, muito excitado, gritando:
--Prompto, meu amo, prompto!
Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem então passou, rondou,--e Luiza desesperada reconheceu os olhos acarneirados do sujeito da pera.
Entraram para a caleche. Luiza ainda se voltou para vêr Bazilio immovel no largo, com o seu chapéo na mão: depois accommodou-se, pôz os pésinhos no outro assento e balançada pelo trote largo viu passar, calada, as casas apagadas da rua de S. Roque, as arvores de S. Pedro de Alcantara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento, os jardins adormecidos da Patriarchal. A noite estava immovel, de um calor molle: e desejava, sem saber porque, rolar assim sempre, infinitamente, entre ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino, sem cuidados, para alguma cousa de feliz que não distinguia bem! Um grupo defronte da Escóla ia tocando o _Fado do Vimioso_; aquelles sons entraram-lhe na alma como um vento dôce, que fazia agitar brandamente muitas sensibilidades passadas: suspirou baixo.
--Um suspirosinho que vai para o Alemtejo--disse D. Felicidade, tocando-lhe o braço.
Luiza sentiu todo o sangue abrazar-lhe o rosto. Davam onze horas quando entrou em casa.
Juliana veio alumiar.--O chá estava prompto, quando a senhora quizesse...
Luiza subiu d'ahi a pouco com um largo roupão branco, muito fatigada, estendeu-se na _voltaire_; sentia vir-lhe uma somnolencia, a cabeça pendia-lhe, cerrava as palpebras... E Juliana tardava tanto com o chá! Chamou-a. Onde estava? credo!
Tinha descido, pé ante pé, ao quarto de Luiza. E ahi tomando o vestido, as saias engommadas que ella despira e atirára para cima da _causeuse_, desdobrou-as, revirou-as, examinou-as, e com uma certa idéa, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente, com uma pontinha de suor e de agua de colonia. Quando a sentiu chamar, impacientar-se em cima, subiu, correndo.--Fôra abaixo dar uma arrumadella. Era o chá? Estava prompto...
E entrando com as torradas:
--Veio ahi o snr. Sebastião, haviam de ser nove horas...
--Que lhe disse?
--Que a senhora tinha sahido com a snr.^a D. Felicidade. Como não sabia, não disse para onde.
E acrescentou:
--Esteve a conversar commigo, o snr. Sebastião... Esteve a conversar mais de meia hora!...
Luiza recebeu, na manhã seguinte, da parte de Sebastião, um ramo de rosas, magenta-escuro, magnificas. Cultivava-as elle na quinta de Almada, e chamavam-se rosas _D. Sebastião_. Mandou-as pôr nos vasos da sala, e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e suffocante:
--Olhe--disse a Juliana--abra as janellas.
--Bem--pensou Juliana--temos cá o melro.
O _melro_ veio com effeito ás tres horas. Luiza estava na sala, ao piano.
--Está alli o sujeito do costume--foi dizer Juliana.
Luiza voltou-se corada, escandalisada da expressão:
--Ah! meu primo Bazilio? Mande entrar.
E chamando-a:
--Ouça, se vier o snr. Sebastião, ou alguem, que entre.
Era o primo! O _sujeito_, as suas visitas perderam de repente para ella todo o interesse picante. A sua malicia cheia, enfunada até ahi, cahiu, engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo!
Subiu á cozinha, devagar,--lograda.
--Temos grande novidade, snr.^a Joanna! O tal peralta é primo. Diz que é o primo Bazilio.
E com um risinho:
--É o Bazilio! Ora o Bazilio! Sahe-nos primo á ultima hora! O diabo tem graça!
--Então que havia de o homem ser senão parente?--observou Joanna.
Juliana não respondeu. Quiz saber se estava o ferro prompto, que tinha uma carga de roupa para passar! E sentou-se á janella, esperando. O céo baixo e pardo pesava, carregado de electricidade; ás vezes uma aragem subita e fina punha nas folhagens dos quintaes um arripio tremulo.
--É o primo!--reflectia ella.--E só vem então quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no ar quando elle sahe, e é roupa branca e mais roupa branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e olheiras! Boa bebeda! Tudo fica na familia!
Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia alli muito «para vêr e para escutar». E o ferro, estava prompto?
Mas a campainha, em baixo, tocou.
--Boa! isto agora é um fadario! Estamos na casa do despacho!
Desceu; e exclamou logo, vendo Julião com um livro debaixo do braço:
--Faz favor d'entrar, snr. Julião! A senhora está com o primo, mas diz que mandasse entrar!
Abriu a porta da sala bruscamente, de surpreza.
--Está aqui o snr. Julião--disse com satisfação.
Luiza apresentou os dous homens.
Bazilio ergueu-se do sophá languidamente, e, n'um relance, percorreu Julião desde a cabelleira desleixada até ás botas mal engraxadas, com um olhar quasi horrorisado.
--Que pulha!--pensou.
Luiza, muito fina, percebeu, e córou, envergonhada de Julião.
Aquelle homem de collarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano preto mal feito--que idéa daria a Bazilio das relações, dos amigos da casa! Sentia já o seu _chic_ diminuido. E instinctivamente, a sua physionomia tornou-se muito reservada,--como se semelhante visita a surprehendesse! semelhante _toilette_ a indignasse!
Julião percebeu o constrangimento d'ella, disse, já embaraçado, ageitando a luneta:
--Passei por aqui por acaso, entrei a saber se ha algumas noticias de Jorge...
--Obrigada. Sim, tem escripto. Está bem...
Bazilio, recostado no sophá, como um parente intimo, examinava a sua meia de sêda bordada de estrellinhas escarlates, e cofiava indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo minimo,--onde brilhavam, em dous grossos anneis d'ouro, uma saphira e um rubi.
A affectação da attitude, o reluzir das joias irritaram Julião.
Quiz mostrar tambem a sua intimidade, os seus direitos, disse:
--Eu não tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho estado muito occupado...
Luiza acudiu para desauthorisar logo aquella familiaridade:
--Eu tambem não me tenho achado bem. Não tenho recebido ninguem,--a não ser meu primo, naturalmente!
Julião sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpreza, d'indignação, ficou a balançar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como a calça era curta, via-se o elastico esfiado das botas velhas.
Houve um silencio difficil.
--Bonitas rosas!--disse emfim Bazilio, preguiçosamente.
--Muito bonitas!--respondeu Luiza.
Estava agora compadecida de Julião, procurava uma palavra; disse-lhe emfim muito precipitadamente:
--E que calor! É de morrer! Tem havido muitas doenças?
--Colerinas--respondeu Julião.--Por causa das frutas. Doenças de ventre.
Luiza baixou os olhos. Bazilio então começou a fallar da viscondessinha d'Azeias: tinha-a achado acabada; e que era feito da irmã, da grande?
Aquella conversação sobre fidalgas que elle não conhecia isolava mais Julião: sentia o suor humedecer-lhe o pescoço; procurava um dito, uma ironia, uma agudeza; e machinalmente abria e fechava o seu grosso livro de capa amarella.
--É algum romance?--perguntou-lhe Luiza.
--Não. É o tratado do dr. Lee sobre doenças d'utero.
Luiza fez-se escarlate: Julião tambem, furioso da palavra que lhe escapára. E Bazilio, depois de sorrir, perguntou por uma certa D. Raphaela Grijó, que costumava ir á rua da Magdalena, que usava luneta, e tinha um cunhado gago...
--Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado.
--Com o gago?
--Sim. Tem um filhito d'elle, gago tambem.
--Que conversação, em familia! E a D. Eugenia, a de Braga?
Julião, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta secca:
--Estou com pressa, não me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os meus recados, hein?
Abaixou bruscamente a cabeça a Bazilio. Mas não achava o chapéo, tinha rolado para debaixo d'uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro, topou violentamente contra a porta fechada, e sahiu emfim desesperado, desejando vingar-se, odiando Luiza, Jorge, o luxo, a vida,--transbordando agora d'ironias, de ditos, de réplicas. Devia-os ter achatado, o asno e a tola... E não lhe acudira nada!
Mas apenas elle tinha fechado a cancella, Bazilio pôz-se de pé, e cruzando os braços:
--Quem é este pulha?
Luiza córou muito, balbuciou:
--É um rapaz medico...
--É uma creatura impossivel, é uma especie d'estudante!
--Coitado, não tem muitos meios...
Mas não era necessario ter meios para escovar o casaco e limpar a caspa! Não devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se seu marido gostava d'elle, que o recebesse no escriptorio!...
Passeava pela sala, excitado, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves.
--São frescos os amigos da casa!...--continuou.--Que diabo! tu não foste educada assim. Nunca tiveste gente d'este genero na rua da Magdalena.
Não tivera: e pareceu-lhe que as ligações do casamento lhe tinham trazido um pouco o plebeismo das convivencias. Mas um respeito pelas opiniões, pelas sympathias de Jorge fez-lhe dizer:
--Diz que tem muito talento...
--Era melhor que tivesse botas.
Luiza, por cobardia, concordou.
--Tambem o acho exquisito!--disse.
--Horrivel, minha filha!
Aquella palavra fez-lhe bater o coração. Era assim que elle lhe chamava, outr'ora! Houve um momento de silencio:--e a campainha da porta retiniu fortemente.
Luiza ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastião! Bazilio achal-o-hia ainda mais reles! Mas Juliana veio dizer:
--O snr. conselheiro. Mando entrar?
--De certo--exclamou.
E a alta figura d'Accacio adiantou-se, com as bandas do casaco d'alpaca deitadas para traz, a calça branca muito engommada cahindo sobre sapatos de entrada abaixo, de laço.
Apenas Luiza lhe apresentou o primo Bazilio, disse logo, respeitoso:
--Já sabia que v. exc.^a tinha chegado, vi-o nas interessantes noticias do nosso _high-life_. E do nosso Jorge?
Jorge estava em Beja... Diz que se aborrece muito...
Bazilio, mais amavel, deixou cahir:
--Eu realmente não tenho a menor idéa do que se possa fazer em Beja. Deve ser horroroso!
O conselheiro, passando sobre o bigode a sua mão branca onde destacava o annel d'armas, observou:
--É todavia a capital do districto!
Mas se já em Lisboa se não podia fazer nada, e era a capital do reino!--E Bazilio puxava, todo recostado, o punho da camisa.--Morria-se positivamente de pasmaceira!
Luiza, muito contente da affabilidade de Bazilio, pôz-se a rir:
--Não digas isso diante do conselheiro. É um grande admirador de Lisboa.
Accacio curvou-se:
--Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora.
E com muita bonhomia:
--Conheço porém que não é para comparar aos Parizes, ás Londres, ás Madrids...
--De certo--fez Luiza.
E o conselheiro continuou com pompa:
--Lisboa porém tem bellezas sem igual! A entrada, ao que me dizem (eu nunca entrei a barra), é um panorama grandioso, rival das Constantinoplas e das Napoles. Digno da penna d'um Garrett ou d'um Lamartine! Proprio para inspirar um grande engenho!...
Luiza, receando citações ou apreciações litterarias, interrompeu-o, perguntou-lhe o que tinha feito? Tinham estado domingo no Passeio, ella e D. Felicidade, tinham esperado vêl-o, e nada!
Nunca ia ao Passeio, ao domingo--declarou.--Reconhecia que era muito agradavel, mas a multidão entontecia-o. Tinha notado,--e a sua voz tomou o tom espaçado d'uma revelação,--tinha notado que muita gente, n'um local, causa vertigens aos homens d'estudo. De resto queixou-se da sua saude e do peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro e usando as aguas de Vichy.
--Pódes fumar--disse Luiza de repente, sorrindo, a Bazilio.--Queres lume?
Ella mesmo lhe foi buscar um phosphoro, toda ligeira, feliz. Tinha um vestido claro, um pouco transparente, muito fresco. Os seus cabellos pareciam mais louros, a sua pelle mais fina.
Bazilio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado:
--O Passeio ao domingo é simplesmente idiota!...
O conselheiro reflectiu e respondeu:
--Não serei tão severo, snr. Brito!--Mas parecia-lhe que com effeito antigamente era uma diversão mais agradavel.--Em primeiro lugar--exclamou com muita convicção, endireitando-se--nada, mas nada, absolutamente nada póde substituir a charanga da Armada!--Além d'isso havia a questão dos preços... Ah! tinha estudado muito o assumpto! Os preços diminutos favoreciam a agglomeração das classes subalternas... Que longe do seu pensamento lançar desdouro n'essa parte da população... As suas idéas liberaes eram bem conhecidas.--Appéllo para a snr.^a D. Luiza!--disse.--Mas emfim, sempre era mais agradavel encontrar uma roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio. Talvez não acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas! N'esses dias, sim, ia vêr por fóra das grades. Não por economia! De certo não. Não era rico, mas podia fazer face a essa contribuição diminuta. Mas é que receava os accidentes! É que os receava muito! Contou a historia d'um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana de foguete furára o craneo.--E além d'isso nada mais facil que cahir uma fagulha accesa na cara, n'um paletot novo...--É conveniente ter prudencia--resumiu, compenetrado, limpando os beiços com o lenço de sêda da India muito enrolado.
Fallaram então da estação: muita gente fôra para Cintra: de resto, Lisboa no verão era tão seccante!... E o conselheiro declarou que Lisboa só era imponente, verdadeiramente imponente, quando estavam abertas as camaras e S. Carlos!
--Que estavas tu a tocar quando eu entrei?--perguntou Bazilio.
O conselheiro acudiu logo:
--Se estavam fazendo musica, por quem são... Sou um velho assignante de S. Carlos, ha dezoito annos...
Bazilio interrompeu-o:
--Toca?
--Toquei. Não o occulto. Em rapaz fui dado á flauta.
E acrescentou, com um gesto benevolo:
--Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luiza?
--Não! Uma musica muito conhecida, já antiga: a _Filha do Pescador_, de Meyerbeer! Tenho a letra traduzida.
Tinha cerrado as vidraças, sentára-se ao piano.
--O Sebastião é que toca isto bem, não é verdade, conselheiro?
--O nosso Sebastião--disse o conselheiro com authoridade--é um rival dos Thalbergs e dos Litz. Conhece o nosso Sebastião?--perguntou a Bazilio.
--Não, não conheço.
--Uma perola!
Bazilio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode.
--Tu ainda cantas?--perguntou-lhe Luiza, sorrindo.
--Quando estou só.
Mas o conselheiro pediu-lhe logo um «trecho». Bazilio ria. Tinha medo d'escandalisar um velho assignante de S. Carlos...
O conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente:
--Coragem, snr. Brito, coragem!
Luiza então preludiou.
E Bazilio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de barytono; as suas notas altas faziam a sala sonora. O conselheiro, direito na poltrona, escutava concentrado; a sua testa, franzida n'um vinco, parecia curvar-se sob uma responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas destacavam, com reflexos escuros, n'aquella physionomia de calvo, que o calor tornava mais pallida.
Bazilio dizia com uma melancolia grave a primeira phrase, tão larga, da canção:
Igual ao mar sombrio Meu coração profundo...
Um poeta, com uma dedicação obscura, traduzira a letra no _Almanach das Senhoras_. Luiza pela sua propria mão a tinha copiado nas entrelinhas da musica. E Bazilio debruçado sobre o papel sempre torcendo as pontas do bigode:
Tem tempestades, coleras, Mas perolas no fundo!
Os olhos largos de Luiza affirmavam-se para a musica--ou a espaços, com um movimento rapido, erguiam-se para Bazilio. Quando, na nota final, prolongada como a reclamação d'um amor supplicante, Bazilio soltou a voz d'um modo appellativo:
Vem! vem Pousar, ó dôce amada, Teu peito contra o meu...
os seus olhos fixaram-se n'ella com uma significação de tanto desejo, que o peito de Luiza arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado.
O conselheiro bateu as palmas.
--Uma voz admiravel!--exclamava--Uma voz admiravel!
Bazilio dizia-se envergonhado.
--Não, senhor, não, senhor!--protestou Accacio, levantando-se.--Um excellente orgão! Direi, o melhor orgão da nossa sociedade!
Bazilio riu. Uma vez que tinha successo, então ia dizer-lhes uma modinha brazileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter preludiado uma melodia muito balançada, d'um embalado tropical, cantou:
Sou negrinha, mas meu peito Sente mais que um peito branco.
E interrompendo-se:
--Isto fazia furor nas reuniões da Bahia quando eu parti.
Era a historia d'uma «negrinha» nascida na roça, e que contava, com lyrismos d'almanach, a sua paixão por um feitor branco.
Bazilio parodiava o tom sentimental d'alguma menina bahiana; e a sua voz tinha uma preciosidade comica, quando dizia o _ritornello_ choroso:
E a negra p'ra os mares Seus olhos alonga; No alto coqueiro Cantava a araponga.
O conselheiro achou «delicioso»; e, de pé na sala, lamentou a proposito da cantiga a condição dos escravos. Que lhe affirmavam amigos do Brazil que os negros eram muito bem tratados. Mas emfim a civilisação era a civilisação! E a escravatura era um estigma! Tinha todavia muita confiança no imperador...
--Monarcha de rara illustração...--acrescentou respeitosamente.
Foi buscar o seu chapéo, e collando-lhe as abas ao peito, curvando-se, jurou que--havia muito tempo não tinha passado uma manhã tão completa. De resto para elle nada havia como a boa conversação e a boa musica...
--Onde está v. exc.^a alojado, snr. Brito?
Pelo amor de Deus! Que não se incommodasse! Estava no Hotel Central.