O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Part 6

Chapter 63,829 wordsPublic domain

Um conto de reis! Juliana, de noite, em quanto a velha gemia no seu antigo leito de pau santo, via o conto de reis á claridade morbida que dava a lamparina, reluzir em pilhas de ouro inesgotavel e prodigioso. Que faria com o dinheiro? E, á cabeceira da doente, com um cobertor pelos hombros, os olhos dilatados e fixos, planeava: poria uma loja de capellista! Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras felicidades: um conto de reis era um dote, poderia casar, teria um homem!

Estavam acabadas as canceiras. Ia jantar, emfim, o _seu_ jantar! Mandar, emfim, a _sua_ criada! A _sua_ criada! Via-se a chamal-a, a dizer-lhe, de cima para baixo:--Faça, vá, despeje, sáia!--Tinha contracções no estomago, de alegria. Havia de ser boa ama. Mas que lhe andassem direitas! Desmazelos, más respostas, não havia de soffrer a criadas!--E, impellida por aquellas imaginações, arrastava subtilmente as chinellas pelo quarto, fallando só.--Não, desmazelos, não havia de soffrer! Mantel-as bem, de certo, porque quem trabalha precisa metter p'ra dentro! Mas havia de lh'o tirar do corpo. Ah! lá isso, haviam de lhe andar direitas...--A velha tinha então um gemido mais afflicto.

--É agora!--pensava--Morre!

E o seu olhar ancioso ia logo para a gaveta da commoda, onde estava de certo o dinheiro, os papeis. Mas não! a velha queria beber, ou voltar-se...

--Como se sente?--perguntava Juliana, com uma voz plangente.

--Melhor, Juliana, melhor--murmurava.

Suppunha-se sempre melhor.

--Mas a senhora tem estado desinquieta!--dizia Juliana, despeitada da melhora.

--Não--suspirava--dormi bem!

--Isso não tem dormido... Tenho-a ouvido gemer! Tem estado toda a noite a gemer!

Queria argumentar com ella, convencel-a que estava peor! Convencer-se a si mesma que o allivio era ephemero, que ia morrer depressa! E todas as manhãs seguia o dr. Pinto até á porta, com os braços cruzados, a face triste:

--Então, snr. doutor, não ha esperança?

--Está por dias!

Queria saber os dias: dous? cinco?

--Sim, snr.^a Juliana--dizia o velho, calçando as suas luvas pretas--uns dias, sete, oito.

--Oito dias!

E como a felicidade se aproximava, já tinha de olho tres pares de botinas que vira na vidraça do Manoel Lourenço!

A velha, emfim, morreu. Nem a mencionava no testamento!

Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados d'ella com a tia Virginia, pagou-lhe um quarto no hospital, e prometteu tomal-a para criada de dentro. A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar.

Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, começava a queixar-se mais do coração. Vinha desilludida de tudo, tinha ás vezes vontade de morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus _ais_. Luiza achava-a funebre.

Quiz despedil-a ao fim de duas semanas. Jorge não consentiu, estava em divida com ella, dizia. Mas Luiza não podia disfarçar a sua antipathia;--e Juliana começou a detestal-a: poz-lhe logo um nome:--a _piorrinha_! depois, d'ahi a semanas viu vir os estofadores: renovava-se a mobilia da sala! A tia Virginia deixára tres contos de reis a Jorge,--e ella, ella que durante um anno fôra a enfermeira, humilde como um cão e fixa como uma sombra, aturando o monstrengo, tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das canceiras! Julgava-se vagamente roubada. Começou a odiar a casa.

Tinha para isso muitas razões, dizia: dormia n'um cubiculo abafado; ao jantar não lhe davam vinho, nem sobremesa; o serviço dos engommados era pesado; Jorge e Luiza tomavam banho todos os dias, e era um trabalhão encher, despejar todas as manhãs as largas bacias de folha: achava despropositada aquella mania de se pôrem a chafurdar todos os dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos, e nunca vira semelhante desproposito! A unica vantagem--dizia ella á tia Victoria--era não haver pequenos; tinha horror a crianças! Além d'isso achava que o bairro era saudavel; e como tinha a cozinheira «na mão», não é verdade? havia aquelle regalo dos caldinhos, de algum prato melhor de vez em quando! Por isso ficava; senão, não era ella!

Fazia no entanto o seu serviço, ninguem tinha nada que lhe dizer. O olho aberto sempre e o ouvido á escuta, já se vê! E como perdera a esperança de se estabelecer, não se sujeitava ao rigor de economisar: por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e satisfazia o seu vicio,--trazer o pé catita. O pé era o seu orgulho, a sua mania, a sua despeza. Tinha-o bonito e pequenino.

--Como poucos--dizia ella--não vai outro ao Passeio!

E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lançava-o muito para fóra. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Publico, e alli, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de sêda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, immovel, feliz,--a mostrar, a expôr o pé!

IV

Pelas tres horas da tarde, Juliana entrou na cozinha e atirou-se para uma cadeira, derreada. Não se tinha nas pernas de debilidade! Desde as duas horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. O peralta na vespera até deixára cinza de tabaco por cima das mesas! A negra é que as pagava. E que calor! Era de derreter! Ouf!

--O caldinho ha-de estar prompto, hein!--disse, adocicando a voz.--Tira-m'o, snr.^a Joanna, faz favor?

--Vossemecê hoje está com outra cara--notou a cozinheira.

--Ai! sinto-me outra, snr.^a Joanna! Pois olhe que adormeci com dia. Já luzia o dia!

--E eu!--Tinha tido cada sonho! Credo! Uma avantesma côr de fogo a passear-lhe por cima do corpo, e cada pancada na bocca do estomago, como quem pisava uvas n'um lagar!

--Enfartamento--disse sentenciosamente Juliana, e repetiu:

--Pois eu sinto-me outra. Ha mezes que me não sinto tão bem!

Sorria com os seus dentes amarellados. O caldo que Joanna deitava na malga branca, com um vapor cheiroso, cheio de hortaliça, dava-lhe uma alegria gulosa. Estendeu os pés, recostou-se, feliz, na boa sensação da tarde quente e luminosa, entrando largamente pelas duas janellas abertas.

O sol retirára-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro, plantas pobres encolhiam a sua folhagem chupada do calor: sobre uma táboa a um canto, n'uma velha panella bojuda, verdejava um pé de salsa muito tratado: o gato dormia sobre um esteirão: esfregões seccavam n'uma corda: e para além alargava-se o azul vivo como um metal candente, as arvores dos quintaes tinham tons ardentes do sol, os telhados pardos com as suas vegetações esguias coziam no calor, e pedaços de paredes caiadas despediam uma rebrilhação dura.

--Está de appetite, snr.^a Joanna, está de appetite!--dizia Juliana, remexendo o caldo devagarinho, com gula. A cozinheira de pé, com os braços cruzados sobre o seu peito abundante, regosijava-se:

--O que se quer é que esteja a gosto.

--Está a preceito.

Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras.--E a campainha da porta que já tinha tocado, tornou a tilintar discretamente.

Juliana não se mexeu. Bafos de aragem quente entravam: ouvia-se ferver a panella no fogão, e fóra o martellar incessante da forja: ás vezes o arrulhar triste de duas rôlas que viviam na varanda, n'uma gaiola de vime, punha na tarde abrazada uma sensação de suavidade.

A campainha retilintou, sacudida com impaciencia.

--Com a cabeça, burro!--disse Juliana.

Riram. Joanna fôra sentar-se á janella, n'uma cadeira baixa; estendia os seus grossos pés, calçados de chinellas de ourêlo; coçava-se devagarinho no sovaco, toda repousada.

A campainha retiniu violentamente.

--Fóra, besta!--rosnou Juliana, muito tranquilla.

Mas a voz irritada de Luiza chamou de baixo:

--Juliana!

--Que nem uma pessoa póde tomar a sustancia socegada! Raio de casa! Irra!

--Juliana!--gritou Luiza.

A cozinheira voltou-se, já assustada:

--A senhora zanga-se, snr.^a Juliana.

--Que a leve o diabo!

Limpou os beiços gordurosos ao avental, desceu furiosa.

--Vossê não ouve, mulher? Estão a bater ha uma hora!

Juliana arregalou os olhos espantada: Luiza tinha vestido o roupão novo de _foulard_ côr de castanho, com pintinhas amarellas!

--Temos novidade! Temol-a grossa!--pensou Juliana pelo corredor.

A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao peito, um embrulho debaixo do braço, estava o _sujeito do negocio das minas_!

--Aquelle sujeito de hontem!--veio dizer, toda pasmada.

--Mande entrar...

--Viva!--pensou.

Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de jubilo:

--Está cá o peralta de hontem! Está cá outra vez! Traz um embrulho!--Que lhe parece, snr.^a Joanna? Que lhe parece?

--Visitas...--disse a cozinheira.

Juliana teve um risinho secco. Sentou-se, acabou o seu caldo, á pressa.

Joanna indifferente cantarolava pela cozinha; o arrulhar das rôlas continuava langoroso e debil.

--Pois, senhores, isto vai rico!--disse Juliana.

Esteve um momento a limpar os dentes com a lingua, o olhar fixo, reflectindo. Sacudiu o avental, e desceu ao quarto de Luiza: o seu olhar esquadrinhador avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas da dispensa: podia subir, beber um trago de bom vinho, engulir dous ladrilhos de marmelada... Mas possuia-a uma curiosidade urgente, e, em bicos de pés, foi agachar-se á porta que dava para a sala, espreitou. O reposteiro estava corrido por dentro: podia apenas sentir a voz grossa e jovial do sujeito. Foi de volta, pelo corredor, á outra porta, ao pé da escada; poz o olho á fechadura, collou o ouvido á frincha. O reposteiro dentro estava tambem cerrado.

--Os diabos calafetaram-se!--pensou.

Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois que se fechava uma vidraça. Os olhos faiscavam-lhe. Uma risada de Luiza sobresahiu, em seguida um silencio; e as vozes recomeçaram n'um tom sereno e continuo. De repente o sujeito ergueu a falla, e entre as palavras que dizia, de pé de certo, passeando, Juliana ouviu claramente: _Tu, foste tu!_

--Oh que bebeda!

Um tlim-tlim timido da campainha, ao lado, assustou-a. Foi abrir. Era Sebastião, muito vermelho do sol, com as botas cheias de pó.

--Está?--perguntou, limpando a testa suada.

--Está com uma visita, snr. Sebastião!

E cerrando a porta sobre si, mais baixo:

--Um rapaz novo que já cá esteve hontem, um janota! Quer que vá dizer?

--Não, não, obrigado, adeus.

Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se á porta, a orelha contra a madeira, as mãos atraz das costas: mas a conversação, sem saliencia de vozes, tinha um rumor tranquillo e indistincto. Subiu á cozinha.

--Tratam-se por tu!--exclamou.--Tratam-se por tu, snr.^a Joanna!

E muita excitada:

--Isto vai á vela! Caspitè! assim é que eu gosto d'ellas!

O sujeito sahiu ás cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a porta, veio a correr; viu Luiza no patamar, debruçada no corrimão, dizendo para baixo, com muita intimidade:

--Bem, não falto. Adeus.

Ficou então tomada d'uma curiosidade que a alterava como uma febre. Toda a tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Luiza com olhares de lado. Mas Luiza, com um roupão de linho mais velho, parecia serena, muito indifferente.

--Que sonsa!

Aquella naturalidade despertava a sua bisbilhotice.

--Eu hei-de-t'apanhar, desavergonhada!--calculava.

Afigurou-se-lhe que Luiza tinha os olhos um pouco pisados! Estudava-lhe as posições, os tons de voz. Viu-a repetir o assado,--pensou logo:

--Abriu-lhe o appetite!

E quando Luiza ao fim do jantar se estendeu na _voltaire_ com um ar quebrado:

--Ficou derreada.

Luiza que nunca tomava café, quiz n'essa tarde «meia chavena, mas forte, muito forte».

--Quer café!--veio ella dizer á cozinheira, toda excitada.--Tudo á grande! E do forte. Quer do forte! Ora o diabo!

Estava furiosa.

--Todas o mesmo! Uma récua de cabras!

Ao outro dia era domingo. Logo pela manhã cedo, quando Juliana ia para a missa, Luiza chamou-a da porta do quarto, deu-lhe uma carta para levar a D. Felicidade. Ordinariamente mandava um recado;--e a curiosidade de Juliana accendeu-se logo diante d'aquelle sobrescripto fechado e lacrado com o sinete de Luiza, um L gothico dentro d'uma corôa de rosas.

--Tem resposta?

--Tem.

Quando voltou ás dez horas, com um bilhete de D. Felicidade, Luiza quiz saber se havia muito calor, se fazia poeira. Sobre a mesa estava um chapéo de palha escuro, que ella estivera a enfeitar com duas rosas de musgo.

Fazia um bocadinho de vento, mas p'ra a tarde abrandava, de certo. E pensou logo:--Temos passeata, vai ter com o gajo!

Mas durante todo o dia, Luiza em roupão não sahiu do seu quarto ou da sala, ora estendida na _causeuse_ lendo aos bocados, ora batendo distrahidamente no piano pedaços de valsas. Jantou ás quatro horas. A cozinheira sahiu, e Juliana pôz-se a passar a sua tarde á janella da sala de jantar. Tinha o vestido novo, as salas muito rijas de gomma, a cuia dos dias santos--e pousava solemnemente os cotovêlos n'um lenço, estendido sobre o peitoril da varanda. Defronte os passaros chilreavam na figueira brava. Dos dous lados do tabique que cercava o terreno vago, agachavam-se os tectos escuros das duas ruasitas parallelas: eram casas pobres onde viviam mulheres, que pela tarde, em chambre ou de garibaldi, os cabellos muito oleosos, faziam meia á janella, fallando aos homens, cantarolando com um tedio triste. Do outro lado do terreno, verduras de quintaes, muros brancos davam áquelle sitio um ar adormecido de villa pacata. Quasi ninguem passava. Havia um silencio fatigado; e só ás vezes o som distante d'um realejo, que tocava a _Norma_ ou a _Lucia_, punha uma melancolia na tarde.--E Juliana alli estava immovel, até que os tons quentes da tarde empallideciam, e os morcegos começavam a voar.

Pelas oito horas entrou no quarto de Luiza,--ficou pasmada de a vêr vestida toda de preto, de chapéo! Tinha accendido as serpentinas na parede, os castiçaes no toucador; e sentada á beira da _causeuse_ calçava as luvas devagar, com a face muito séria, um pouco esbatida de pó d'arroz, o olhar cheio de brilho.

--O vento abrandou?--disse.

--Está a noite muito bonita, minha senhora.

Um pouco antes das nove horas uma carruagem parou á porta. Era D. Felicidade, muito encalmada. Abafára todo o dia! E á noite nem uma aragem! Até tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, que n'um coupé, credo, morria-se!

Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. Onde iriam? onde iriam? D. Felicidade, amplamente sentada, de chapéo, tagarellava: uma indigestão que tivera na vespera com umas bajes; a cozinheira que a tinha querido «comer» em quatro vintens; uma visita que lhe fizera a condessa de Arruella...

Emfim, Luiza, disse, baixando o seu véo branco:

--Vamos, filha. Faz-se tarde.

Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que proposito, irem duas mulheres sós por ahi fóra, n'uma tipoia! E se uma criada então se demorava na rua mais meia hora, credo, que alarido! Que duas bebedas!

Foi á cozinha desabafar com a Joanna. Mas a rapariga estirada n'uma cadeira, dormitava.

Fôra com o seu Pedro ao Alto de S. João. E toda a tarde tinham passeado no cemiterio, muito juntos, admirando os jazigos, soletrando os epitaphios, beijocando-se nos recantos que os chorões escureciam, e regalando-se do ar dos cyprestes e das relvas dos mortos. Voltaram por casa da Serena, entraram a beberricar um quartilho no Espregueira... Tarde cheia! e estava derreada da soalheira, do pó, da admiração de tanto tumulo rico, do homem, e da pinguita de vinho.

O que ia, era refastelar-se para a cama!

--Credo, snr.^a Joanna, vossemecê está-se a fazer uma dorminhôca! Olha que mulher! Com pouco arrêa! Cruzes!

Desceu ao quarto de Luiza, apagou as luzes, abriu as janellas, arrastou a poltrona para a varanda,--e, repimpada, os braços cruzados, pôz-se a passar a noite.

O estanque ainda não se fechára, e a sua luzita lugubre como a estanqueira, estendia-se tristemente sobre a pedra miuda da rua; as janellas ao pé estavam abertas; por algumas, mal alumiadas, viam-se dentro serões melancolicos; n'outras, onde havia vultos immoveis, luzia ás vezes a ponta d'um cigarro; aqui, além tossia-se; e o moço do padeiro, no silencio quente da noite, harpejava baixinho a guitarra.

Juliana pozera um vestido de chita claro; dous sujeitos que estavam á porta do estanque riam, erguiam de vez em quando os olhos para a janella, para aquelle vulto branco de mulher: Juliana, então, gozou! Tomavam-na de certo pela senhora, pela do Engenheiro; faziam-lhe «olho», diziam brejeirices... Um tinha calça branca e chapéo alto, eram janotas... E com os pés muito estendidos, os braços cruzados, a cabeça de lado, saboreava, longamente, aquella consideração.

Passos fortes que subiam a rua, pararam á porta; a campainha retiniu de leve.

--Quem é?--perguntou muito impaciente.

--Está?--disse a voz grossa de Sebastião.

--Sahiu com a D. Felicidade, foram de carruagem.

--Ah!--fez elle.

E acrescentou:

--Muito bonita noite!

--D'appetite, snr. Sebastião! d'appetite!--exclamou alto.

E quando o viu descer a rua, gritou, affectadamente:

--Recados a Joanna! Não se esqueça!--mostrando-se intima, madama, com olho terno para os homens.

Áquella hora D. Felicidade e Luiza chegavam ao Passeio.

Era beneficio; já de fóra se sentia o _brouhaha_ lento e monotono, e via-se uma nevoa alta de poeira, amarellada e luminosa.

Entraram. Logo ao pé do tanque encontraram Bazilio. Fez-se muito surprehendido, exclamou:

--Que feliz acaso!

Luiza corou, apresentou-o a D. Felicidade.

A excellente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se d'elle, mas se não lhe dissessem talvez o não conhecesse! Estava muito mudado!

--Os trabalhos, minha senhora...--disse Bazilio curvando-se.

E acrescentou rindo, batendo com a bengala na pedra do tanque:

--E a velhice! Sobretudo a velhice!

Na agua escura e suja as luzes do gaz torciam-se até uma grande profundidade. As folhagens em redor estavam immoveis, no ar parado, com tons d'um verde livido e artificial. Entre os dous longos renques parallelos d'arvores mesquinhas, entremeadas de candieiros de gaz, apertava-se, n'um empoeiramento de macadam, uma multidão compacta e escura; e através do rumor grosso, as saliencias metallicas da musica faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa.

Tinham ficado parados, conversando.

Que calor, hein? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! que enchente!

E olhavam a gente que entrava: moços muito frisados, com calças côr de flôr d'alecrim, fumando ceremoniosamente os charutos do dia santo; um aspirante com a cinta espartilhada e o peito enchumaçado; duas meninas de cabello riçado, de movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um ecclesiastico côr de cidra, o ar molle, o cigarro na bocca, e lunetas defumadas; uma hespanhola com dous metros de saia branca muita rija, fazendo ruge-ruge na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão e bengalão, de chapéo na nuca, o olho avinhado; e Bazilio ria muito de dous pequenos que o pai conduzia com um ar hilare e compenetrado--vestidos d'azul claro, a cinta ligada n'uma facha escarlate, barretinas de lanceiro, botas á hungara, cretinos e somnambulos.

Um sujeito alto então passou rente d'elles, e voltando-se, revirou para Luiza dous grandes olhos langorosos e prateados: tinha uma pera longa e aguçada; trazia o collete decotado mostrando um bello peitilho, e fumava por urna boquilha enorme que representava um zuavo.

Luiza quiz-se sentar.

Um garoto de blusa, sujo como um esfregão, correu a arranjar cadeiras; e acommodaram-se ao pé d'uma familia acabrunhada e taciturna.

--Que fizeste tu hoje, Bazilio?--perguntou Luiza.

Tinha ido aos touros.

--E que tal? Gostaste?

--Uma semsaboria. Se não fosse pelo trambolhão do Peixinho tinha-se morrido de pasmaceira. Gado fraco, cavalleiros infelizes, nenhuma sorte! Touros em Hespanha! Isso sim!

D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto em Badajoz, quando estivera de visita em Elvas á tia Francisca de Noronha, e ia desmaiando. O sangue, as tripas dos cavallos... Pouh! É muito cruel!

Bazilio disse, com um sorriso:

--Que faria se visse os combates de gallos, minha senhora!

D. Felicidade tinha ouvido contar,--mas achava todos esses divertimentos barbaros, contra a religião.

E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda:

--P'ra mim não ha nada como uma boa noite de theatro! Nada!

--Mas aqui representam tão mal!--replicou Bazilio com uma voz desolada.--Tão mal, minha rica senhora!

D. Felicidade não respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado d'um brilho humido, saudava desesperadamente com a mão:

--Não me viu--disse desconsolada.

--Era o conselheiro?--perguntou Luiza.

--Não. Era a condessa d'Alviella. Não me viu! Vai muito á Encarnação, sou muito d'ella. É um anjo! Não me viu. Ia com o sogro.

Bazilio não tirava os olhos de Luiza. Sob o véo branco, á luz falsa do gaz, no ar ennevoado da poeira, o seu rosto tinha uma fórma alva e suave, onde os olhos que a noite escurecia punham uma expressão apaixonada; os cabellinhos louros, frisados, tornando a testa mais pequena, davam-lhe uma graça ameninada e amorosa; e as luvas _gris-perle_ faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante das mãos, que ella pousára no regaço, sustentando o leque, com uma fofa renda branca em torno dos seus pulsos finos.

--E tu, que fizeste hoje?--perguntou-lhe Bazilio.

Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo dia a lêr.

Tambem elle passára a manhã deitado no sophá a lêr a _Mulher de fogo_ de Belot. Tinha lido, ella?

--Não, que é?

--É um romance, uma novidade.

E acrescentou sorrindo:

--Talvez um pouco picante; não t'o aconselho!

D. Felicidade andava a lêr o _Rocambole_. Tanto lh'o tinham apregoado! Mas era uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se... E ia deixar, porque tinha percebido que a leitura lhe augmentava a indigestão.

--Soffre?--perguntou Bazilio, com um interesse bem educado.

D. Felicidade contou logo a sua dyspepsia. Bazilio aconselhou-lhe o uso do gelo.--De resto felicitava-a, porque as doenças d'estomago, ultimamente, tinham muito _chic_. Interessou-se pela d'ella, pediu pormenores.

D. Felicidade prodigalisou-os; e, fallando, via-se-lhe crescer no olhar, na voz a sua sympathia por Bazilio. Havia de usar o gelo!

--Com o vinho, já se sabe?

--Com o vinho, minha senhora!

--E olha que talvez!--exclamou D. Felicidade, batendo com o leque no braço de Luiza, já esperançada.

Luiza sorriu, ia responder--mas viu o sujeito pallido da pera longa que fitava n'ella os seus olhos langorosos, com obstinação. Voltou o rosto importunada. O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da pera.

Luiza sentia-se molle; o movimento rumoroso e monotono, a noite calida, a accumulação da gente, a sensação de verdura em redor davam ao seu corpo de mulher caseira um torpor agradavel, um bem estar d'inercia, envolviam-na n'uma doçura emolliente de banho morno. Olhava com um vago sorriso, o olhar frouxo; quasi tinha preguiça de mexer as mãos, d'abrir o leque.

Bazilio notou o seu silencio.--Tinha somno?

D. Felicidade sorriu com finura.

--Ora, vê-se sem o seu maridinho! Desde que o não tem está esta mona que se vê.

Luiza respondeu, olhando Bazilio instinctivamente:

--Que tolice! Até estes dias tenho andado bem alegre!

Mas D. Felicidade insistia:

--Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraçãosinho está no Alemtejo!

Luiza disse, com impaciencia:

--Não has-de querer que me ponha aos pulos e ás gargalhadas no Passeio.

--Está bem, não te enfureças!--exclamou D. Felicidade. E para Bazilio:--Que geniosinho, hein!

Bazilio pôz-se a rir.

--A prima Luiza antigamente era uma vibora. Agora não sei...

D. Felicidade acudiu:

--É uma pomba, coitada, é uma pomba! Não, lá isso, é uma pomba.

E envolvia-a n'um olhar maternal.

Mas a familia taciturna ergueu-se, sem ruido,--e as meninas adiante, os paes atraz, afastaram-se lugubremente, succumbidos.

Bazilio immediatamente apossou-se da cadeira ao pé de Luiza,--e vendo D. Felicidade a olhar distrahida:

--Estive para te ir vêr de manhã--disse baixinho a Luiza.

Ella ergueu a voz, muito naturalmente, com indifferença:

--E porque não foste? Tinhamos feito musica. Fizeste mal. Devias ter ido...