O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 4
--Que estão vossês aqui a conspirar? Vou-me safar, que é tarde! Até á volta, meu velho, hein? Tambem ia comtigo tomar ar, respirar, vêr campos, mas...
E sorriu com amargura.--_Addio! Addio!_
Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraçal-o outra vez. Se quizesse alguma cousa do Alemtejo!...
Julião carregou o chapéo na cabeça:
--Dá cá outro charuto, por despedida! Dá cá dous!
--Leva a caixa! Eu em viagem só fumo cachimbo. Leva a caixa, homem!
Embrulhou-lh'a n'um _Diario de Noticias_; Julião metteu-a debaixo do braço, e descendo os degraus:
--Cuidado com as sezões, e descobre uma mina d'ouro!
Jorge e Sebastião entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano, torcia as guias do bigodinho, e Luiza começava uma valsa de Strauss--o _Danubio Azul_.
Jorge disse, rindo, estendendo os braços:
--Uma valsa, D. Felicidade?
Ella voltou-se, com um sorriso. E porque não? Em nova era fallada! Citou logo a valsa que dançára com o sr. D. Fernando, no tempo da Regencia, nas Necessidades. Era uma valsa linda, d'essa época: _A Perola d'Ophir_.
Estava sentada ao pé do conselheiro, no sophá. E como retomando um dialogo mais querido--continuou, baixo para elle, com uma voz meiga:
--Pois creia, acho-o com optimas côres.
O conselheiro enrolava vagarosamente o seu lenço de sêda da India.
--Na estação calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade?
--Ai! Estou outra, conselheiro! Muito boas digestões, muito livre de gazes... Estou outra!
--Deus o queira, minha senhora, Deus o queira--disse o conselheiro, esfregando lentamente as mãos.
Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pôz-se a dizer:
--Espero que esse interesse seja verdadeiro...
Córou. O corpete flaccido do vestido de sêda preta enchia-se-lhe com o arfar do peito.
O conselheiro recahiu lentamente no sophá,--e com as mãos nos joelhos:
--D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero...
Ella levantou para elle seus olhos pisados, d'onde sahiam revelações de paixão e supplicas de felicidade:
--E eu, conselheiro!...
Deu um grande suspiro, pôz o leque sobre o rosto.
O conselheiro ergueu-se seccamente. E com a cabeça alta, as mãos atraz das costas, foi ao piano, perguntou a Luiza curvando-se:
--É alguma canção do Tyrol, D. Luiza?
--Uma valsa de Strauss--murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de pés, ao ouvido.
--Ah! Muita fama! Grande author!
Tirou então o relogio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solemnidade:
--Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alemtejo! O clima é nocivo, a estação traiçoeira!
E apertou-o nos braços com uma pressão commovida.
D. Felicidade punha a sua manta de renda negra.
--Já, D. Felicidade?--disse Luiza.
Ella explicou-lhe, ao ouvido:
--Já, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas bajes e tenho estado!... E aquelle homem, aquelle gêlo! O snr. Ernesto vem para os meus sitios, hein?
--Como um fuso, minha senhora!
Tinha vestido o seu paletot d'alpaca clara, fumava chupando, com as faces encovadas, por uma boquilha enorme, onde uma Venus se torcia sobre o dorso d'um leão domado.
--Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hein? Adeus. Quando fôr a _Honra e Paixão_ cá mando um camarote á prima Luiza. Adeus! Saudinha!
Iam a sahir. Mas o conselheiro, á porta, voltando-se subitamente, com as abas do paletot deitadas para traz, a mão pomposamente apoiada no castão de prata da bengala que representava uma cabeça de mouro, disse, com gravidade:
--Esquecia-me, Jorge! Tanto em Evora, como em Beja, visite os governadores civis! E eu lhe digo porquê: deve-lh'o como primeiros funccionarios do districto, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas peregrinações scientificas!
E curvando-se profundamente:
--_Al rivedere_, como se diz em Italia.
Sebastião tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco Luiza foi abrir as janellas; a noite estava quente e immovel, de luar.
Sebastião pozera-se ao piano, e com a cabeça curvada, corria devagar o teclado.
Tocava admiravelmente, com uma comprehensão muito fina da musica. Outr'ora, compozera mesmo uma _Meditação_, duas _Valsas_, uma _Ballada_: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de reminiscencias, sem estylo.--Da cachimonia não me sahe nada--costumava elle dizer com bonhomia, batendo na testa, sorrindo--mas lá com os dedos!...
Pôz-se a tocar um _Nocturno_ de Choppin. Jorge sentára-se no sophá ao pé de Luiza.
--Já tens prompto o teu farnelzinho!--disse-lhe ella.
--Bastam umas bolachas, filha. O que quero é o cantil com _cognac_.
--E não te esqueças de mandar um telegramma logo que chegues!
--Pudera!
--Tu d'aqui a quinze dias, vens!
--Talvez...
Ella teve um gesto amuado.
--Ah, bem! Se não vieres, vou ter comtigo! A culpa é tua.
E olhando em redor:
--Que só que vou ficar!
Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste:
--Pst, Sebastião! A _malaguenha_, faz favor?
Sebastião começou a tocar a _malaguenha_. Aquella melodia calida, muito arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em Malaga, ou em Granada, não sabia: era sob as laranjeiras, mil estrellinhas luzem; a noite é quente, o ar cheira bem; por baixo d'um lampeão suspenso a um ramo, um cantador sentado na tripeça mourisca faz gemer a guitarra; em redor as mulheres com os seus corpetes de velludilho encarnado batem as mãos em cadencia: e ao largo dorme uma Andaluzia de romance e de zarzuela, quente e sensual, onde tudo são braços brancos que se abrem para o amor, capas romanticas que roçam as paredes, sombrias viellas onde luz o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem Santissima cantando as horas...
--Muito bem, Sebastião! Gracias!
Elle sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o seu chapéo desabado:
--Então ámanhã ás sete? Cá estou, e vou-te acompanhar até ao Barreiro.
Bom Sebastião!
Foram debruçar-se na varanda para o vêr sahir. A noite fazia um silencio alto, d'uma melancolia placida; o gaz dos candieiros parecia mortiço; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca, tinha um tom quente e dôce; a luz punha nas fachadas brancas claridades vivas, e nas pedras da calçada faiscações vidradas; uma clara-boia reluzia, a distancia, como uma velha lamina de prata; nada se movia; e instinctivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam a lua branca, muito séria.
--Que linda noite!
A porta bateu, e Sebastião de baixo, na sombra:
--Dá vontade de passear, hein?
--Linda!
Ficaram á varanda preguiçosamente, olhando, detidos pela tranquillidade, pela luz. Puzeram-se a fallar baixo da jornada. Áquella hora onde estaria elle? Já em Evora, n'um quarto d'estalagem, passeando monotonamente sobre um chão de tijolo. Mas voltaria breve; esperava fazer um bom negocio com o Paco, o hespanhol das minas de Portel, trazer talvez alguns centos de mil reis, e teriam então a doçura do mez de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Bussaco, trepar aos altos, beber a agua fresca das rochas, sob a espessura humida das folhagens: irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na arêa, no bom ar cheio d'azote, vendo o mar unido, d'um azul metallico e faiscante, o mar do verão, com algum fumo de paquete que passa para o Sul ao longe muito adelgaçado. Faziam outros planos com os hombros muito chegados: uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E Jorge disse:
--Se houvesse um pequerrucho, já não ficavas tão só!
Ella suspirou. Tambem o desejava tanto! Chamar-se-hia Carlos Eduardo. E via-o no seu berço dormindo, ou no collo, nú, agarrando com a mãosinha o dedo do pé, mamando a ponta rosada do seu peito... Um estremecimento d'um deleite infinito correu-lhe no corpo. Passou o braço pela cinta de Jorge. Um dia seria, teria um filho de certo! E não comprehendia o seu filho homem nem Jorge velho: via-os ambos do mesmo modo: um sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito, da maminha, ou gatinhando e palrando, louro e côr de rosa. E a vida apparecia-lhe infindavel, d'uma doçura igual, atravessada do mesmo enternecimento amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os cobria.
--A que horas quer a senhora que a venha acordar?--disse a voz secca de Juliana.
Luiza voltou-se:
--Ás sete, já lhe disse ha pouco, creatura.
Fecharam a janella. Em torno das velas uma borboleta branca esvoaçava. Era bom agouro!
Jorge prendeu-a nos braços:
--Vai ficar sem o seu maridinho, hein?--disse tristemente.
Ela deixou pesar o corpo sobre as mãos d'elle cruzadas, olhou-o com um longo olhar que se ennevoava e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoço com o gesto lento, harmonioso e solemne dos braços, pousou-lhe na bocca um beijo grave e profundo. Um vago soluço levantou-lhe o peito.
--Jorge! Querido!--murmurou.
III
Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, Luiza vestia-se para ir a casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse, não havia de gostar, não! Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se tanto! De manhã, ainda tinha os arranjos, a costura, a _toilette_, algum romance... Mas de tarde!
Á hora em que Jorge costumava voltar do ministerio, a solidão parecia alargar-se em torno d'ella. Fazia-lhe tanta falta o _seu_ toque da campainha, os seus passos no corredor!...
Ao crepusculo, ao vêr cahir o dia, entristecia-se sem razão, cahia n'uma vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes, as cavatinas apaixonadas gemiam instinctivamente no teclado, sob os seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado dos seus braços molles. O que pensava em tolices então! E á noite, só, na larga cama franceza, sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores, palpites de viuvez.
Não estava acostumada, não podia estar só. Até se lembrára de chamar a tia Patrocinio, uma velha parenta pobre que vivia em Belem: ao menos era _alguem_: mas receou aborrecer-se mais ao pé da sua longa figura de viuva taciturna, sempre a fazer meia, com enormes oculos de tartaruga sobre um nariz d'aguia.
N'aquella manhã pensára em Leopoldina, toda contente d'ir tagarellar, rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em collete e saia branca: a camisinha decotada descobria os ombros alvos d'uma redondeza macia, o collo branco e tenro, azulado de vêasinhas finas; e os seus braços redondinhos, um pouco vermelhos no cotovêlo, descobriam por baixo, quando se erguiam prendendo as tranças, fiosinhos louros, frisando e fazendo ninho.
A sua pelle conservava ainda o rosado humido da agua fria: havia no quarto um cheiro agudo de vinagre de _toilette_: os transparentes de linho branco descidos davam uma luz baça, com tons de leite.
Ah! positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa! Que o que tinha graça era ir surprehendel-o a Evora, cahir-lhe no Tabaquinho, um dia, ás tres horas! E quando elle entrasse empoeirado e encalmado, de lunetas azues, atirar-se-lhe ao pescoço! E á tardinha, pelo braço d'elle, ainda quebrada da jornada, com um vestido fresco, ir vêr a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito. Os homens vinham ás portas das lojas. Quem seria? É de Lisboa. É a do Engenheiro.--E diante do toucador, apertando o corpete do vestido, sorria áquellas imaginações, e ao seu rosto, no espelho.
A porta do quarto rangeu devagarinho.
--Que é?
A voz de Juliana, plangente, disse:
--A senhora dá licença que eu vá logo ao medico?
--Vá, mas não se demore. Puxe-me essa saia atraz. Mais. O que é que vossê tem?
--Enjôos, minha senhora, peso no coração. Passei a noite em claro.
Estava mais amarella, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia um vestido de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabellos velhos.
--Pois sim, vá--disse Luiza.--Mas arranje tudo antes. E não se demore, hein ?
Juliana subiu logo á cozinha. Era no segundo andar, com duas janellas de sacada para as trazeiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do fogão.
--Diz que sim, snr.^a Joanna--disse á cozinheira--que podia ir. Vou-me vestir. Ella tambem está quasi prompta. Fica vossemecê com a casa por sua!
A cozinheira fez-se vermelha, poz-se a cantar, foi logo sacudir, estender na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos não deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada d'amarello, com um portal largo,--a loja de marceneiro do tio João Galho, onde trabalhava o Pedro, o seu amante. A pobre Joanna «babava-se» por ele. Era um rapazola pallido e afadistado; Joanna era minhota, de Avintes, de familia de lavrador, e aquella figura delgada de lisboeta anemico seduzia-a com uma violencia abrazada. Como não podia sahir á semana, mettia-o em casa, pela porta de traz, quando estava só; estendia então na varanda para dar signal o velho tapete desbotado, onde ainda se percebiam os paus de um veado.
Era uma rapariga muito forte, com peitos d'ama, o cabello como azeviche, todo lustroso do oleo de amendoas dôces. Tinha a testa curta de plebêa teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o olhar mais negro.
--Ai!--suspirou Juliana.--A snr.^a Joanna é que a leva!
A rapariga ficou escarlate.
Mas Juliana acudiu logo:
--Olha o mal! fosse eu! Boa! faz muito bem!
Juliana lisongeava sempre a cozinheira: dependia d'ella: Joanna dava-lhe caldinhos ás horas de debilidade, ou, quando ella estava mais adoentada, fazia-lhe um bife ás escondidas da senhora. Juliana tinha um grande medo de «cair em fraqueza», e a cada momento precisava tomar a «sustancia». De certo, como feia e solteirona detestava aquelle «escandalo do carpinteiro»; mas protegia-o, porque elle valia muitos regalos aos seus fracos de gulosa.
--Fosse eu!--repetiu--dava-lhe o melhor da panella! Se a gente ia a ter escrupulos por causa dos amos, boa! Olha quem! Vêem uma pessoa a morrer, e é como fosse um cão.
E com um risinho amargo:
--Diz que me não demorasse no medico. É como quem diz, cura-te depressa ou espicha depressa!
Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo:
--Todas o mesmo, uma récua!
Desceu, começou a varrer o corredor.--Toda a noite estivera doente: o quarto no sotão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de tijolo cozido, dava-lhe enjôos, faltas d'ar, desde o começo do verão: na vespera até vomitára! E já levantada ás seis horas, não descançára, limpando, engommando, despejando, com a pontada no lado e todo o estomago embrulhado!--Tinha escancarado a cancella, e com grandes ais, atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimão.
--A snr.^a D. Luiza está em casa?
Voltou-se. Nos ultimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe pareceu «estrangeirado». Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos resplandecia.
--A senhora vai sahir--disse ela olhando-o muito.--Faz favor de dizer quem é?
O individuo sorriu.
--Diga-lhe que é um sujeito para um negocio. Um negocio de minas.
Luiza, diante do toucador, já de chapéo, mettia n'uma casa do corpete dous botões de rosa de chá.
--Um negocio!--disse muito surprehendida--Deve ser algum recado para o snr. Jorge, de certo! Mande entrar. Que especie de homem é?
--Um janota!
Luiza desceu o véo branco, calçou devagar as luvas de _peau de suède_ claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e abriu a porta da sala. Mas quasi recuou, fez _ah!_ toda escarlate. Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Bazilio.
Houve um _shake-hands_ demorado, um pouco tremulo. Estavam ambos calados:--ella com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; elle fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas vieram logo, muito precipitadamente:--Quando tinha elle chegado? Se sabia que elle estava em Lisboa? Como soubera a morada d'ella?
Chegára na vespera no paquete de Bordeus. Perguntára no ministerio: disseram-lhe que Jorge estava no Alemtejo, deram-lhe a _adresse_...
--Como tu estás mudada, Santo Deus!
--Velha?
--Bonita!
--Ora!
E elle, que tinha feito? Demorava-se?
Foi abrir uma janella, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Elle no sophá muito languidamente; ella ao pé, pousada de leve á beira d'uma poltrona, toda nervosa.
Tinha deixado o _degredo_--disse elle.--Viera respirar um pouco á velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma. O ultimo anno passára-o em Paris. Vinha de lá, d'aquella aldeola de Paris!--Fallava devagar, recostado, com um ar intimo, estendendo sobre o tapete, commodamente, os seus sapatos de verniz.
Luiza olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabello preto annelado havia agora alguns fios brancos: mas o bigode pequeno tinha o antigo ar moço, orgulhoso e intrepido; os olhos, quando ria, a mesma doçura amollecida, banhada n'um fluido. Reparou na ferradura de perola da sua gravata de setim preto, nas pequeninas estrellas brancas bordadas nas suas meias de sêda. A Bahia não o vulgarisára. Voltava mais interessante!
--Mas tu, conta-me de ti--dizia elle com um sorriso, inclinado para ela.--És feliz, tens um pequerrucho...
--Não--exclamou Luiza rindo.--Não tenho! Quem te disse?
--Tinham-me dito. E teu marido demora-se?
--Tres, quatro semanas, creio.
Quatro semanas! Era uma viuvez! Offereceu-se logo para a vir vêr mais vezes, palrar um momento, pela manhã...
--Pudera não! És o unico parente, que tenho, agora...
Era verdade!... E a conversação tomou uma intimidade melancolica: fallaram da mãi de Luiza, a _tia Jójó_, como lhe chamava Bazilio. Luiza contou a sua morte, muito dôce, na poltrona, sem um ai...
--Onde está sepultada?--perguntou Bazilio com uma voz grave; e acrescentou, puxando o punho da camisa de chita:--Está no nosso jazigo?
--Está.
--Hei-de ir lá. Pobre tia Jójó!
Houve um silencio.
--Mas tu ias sahir!--disse Bazilio de repente, querendo erguer-se.
--Não!--exclamou--Não! Estava aborrecida, não tinha nada que fazer. Ia tomar ar. Não saio, já.
Elle ainda disse:
--Não te prendas...
--Que tolice! Ia a casa d'uma amiga passar um momento.
Tirou logo o chapéo; n'aquelle movimento os braços erguidos repuxaram o corpete justo, as fórmas do seio accusaram-se suavemente.
Bazilio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalçar as luvas:
--Era eu antigamente quem te calçava e descalçava as luvas... Lembras-te?... Ainda tenho esse privilegio exclusivo, creio eu...
Ella riu-se.
--De certo que não...
Bazilio disse então, lentamente, fitando o chão:
--Ah! Outros tempos!
E poz-se a fallar de Collares: a sua primeira idéa, mal chegára, tinha sido tomar uma tipoia e ir lá: queria vêr a quinta; ainda existiria o balouço debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramanchão de rosinhas brancas, ao pé do Cupido de gesso que tinha uma aza quebrada?...
Luiza ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brazileiro: sobre a estrada havia um mirante com um tecto chinez, ornado de bolas de vidro; e a velha casa morgada fôra reconstruida e mobilada pelo Gardé.
--A nossa pobre sala de bilhar, côr d'oca, com grinaldas de rosas!--disse Bazilio; e fitando-a:--Lembras-te das nossas partidas de bilhar?
Luiza, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos para elle, disse, sorrindo:
--Eramos duas crianças!
Bazilio encolheu tristemente os hombros, fitou as ramagens do tapete: parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida:
--Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo!
Ella via a sua cabeça bem feita, descahida n'aquella melancolia das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabellos brancos--que lhe dera a separação. Sentia tambem uma vaga saudade encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janella, como para dissipar na luz viva e forte aquella perturbação. Perguntou-lhe então pelas viagens, por Paris, por Constantinopla.
Fôra sempre o seu desejo viajar--dizia--ir ao Oriente. Quereria andar em caravanas, balouçada no dorso dos camêlos; e não teria medo, nem do deserto, nem das feras...
--Estás muito valente!--disse Bazilio.--Tu eras uma maricas, tinhas medo de tudo... Até da adega, na casa do papá, em Almada!
Ella córou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterranea que dava arripios! A candêa d'azeite pendurada na parede alumiava com uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de têas d'aranha, e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia alli ás vezes, pelos cantos, beijos furtados...
Quiz saber então o que tinha feito em Jerusalém, se era bonito.
Era curioso. Ia pela manhã um bocado ao Santo Sepulchro; depois d'almoço montava a cavallo... Não se estava mal no hotel, inglezas bonitas... Tinha algumas intimidades illustres...
Fallava d'ellas, devagar, traçando a perna: o seu amigo o patriarcha de Jerusalém, a sua velha amiga a princeza de La Tour d'Auvergne! Mas o melhor do dia era de tarde--dizia--no Jardim das Oliveiras, vendo defronte as muralhas do templo de Salomão, ao pé a aldêa escura de Bethania onde Martha fiava aos pés de Jesus, e mais longe, faiscando immovel sob o sol, o mar Morto! E alli passava sentado n'um banco, fumando tranquillamente o seu cachimbo!
Se tinha corrido perigos?
De certo. Uma tempestade de arêa no deserto de Petra! Horrivel! Mas que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua _toilette_:--uma manta de pelle de camêlo ás listras vermelhas e pretas, um punhal de Damasco n'uma cinta de Bagdad, e a lança comprida dos Beduinos.
--Devia-te ficar bem!
--Muito bem. Tenho photographias.
Prometteu dar-lhe uma, e acrescentou:
--Sabes que te trago presentes?
--Trazes?--E os seus olhos brilhavam.
O melhor era um rosario...
--Um rosario?
--Uma reliquia! Foi benzido primeiro pelo patriarcha de Jerusalém sobre o tumulo de Christo, depois pelo papa...
Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito aceado, já todo branquinho, vestido de branco, muito amavel!
--Tu d'antes não eras muito devota--disse.
--Não, não sou muito caturra n'essas cousas--respondeu rindo.
--Lembras-te da capella de nossa casa em Almada?
Tinham passado alli lindas tardes! Ao pé da velha capella morgada havia um adro todo cheio de altas hervas floridas,--e as papoulas, quando vinha a aragem, agitavam-se como azas vermelhas de borboletas pousadas...
--E a tilia, lembras-te, onde eu fazia gymnastica?
--Não fallemos no que lá vai!
Em que queria ella então que elle fallasse? Era a sua mocidade, o melhor que tivera na vida...
Ella sorriu, perguntou:
--E no Brazil?
Um horror! Até fizera a côrte a uma mulata.
--E porque te não casaste?...
Estava a mangar! Uma mulata!
--E de resto--acrescentou com a voz d'um arrependimento triste--já que me não casei quando devia,--encolheu os hombros melancolicamente--acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro.
Luiza fez-se escarlate. Houve um silencio.
--E qual é o outro presente, então, além do rosario?
--Ah! Luvas. Luvas de verão, de _peau de suède_, de oito botões. Luvas decentes. Vossês aqui usam umas luvitas de dous botões, a vêr-se o punho, um horror!
De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se vestiam peor! Era atroz! Não dizia por ella; até aquelle vestido tinha _chic_, era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror. Em Paris! Que deliciosas, que frescas as _toilettes_ d'aquelle verão! Oh! mas em Paris!... Tudo é superior! Por exemplo, desde que chegára ainda não pudera comer. Positivamente não podia comer!--Só em Paris se come--resumiu.
Luiza voltava entre os dedos o seu medalhão de ouro, preso ao pescoço por uma fita de velludo preto.
--E estiveste então um anno em Paris?
Um anno divino. Tinha um _appartamento_ lindissimo, que pertencera a lord Falmouth, rue Saint Florentin, tinha tres cavallos...
E recostando-se muito, com as mãos nos bolsos:
--Emfim, fazer este valle de lagrimas o mais confortavel possivel!... Dize cá, tens algum retrato n'esse medalhão?
--O retrato de meu marido.
--Ah! deixa vêr!
Luiza abriu o medalhão. Elle debruçou-se; tinha o rosto quasi sobre o peito d'ella. Luiza sentia o aroma fino que vinha de seus cabellos.
--Muito bem, muito bem!--fez Bazilio.
Ficaram calados.
--Que calor que está!--disse Luiza.--Abafa-se, hein!