O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 31
--Sim, homem! Não sei como diabo descobriu uma cousa grave...
--O que? Acredite...
--O que eu tambem descobri, seu maganão! Que o Conselheiro tem duas travesseirinhas na cama, tendo só uma cabeça... Disse-m'o ella!--E rindo muito, dizendo-lhe _adeus_! _adeus!_ desceu rapidamente a rua do Alecrim. O Conselheiro ficou immovel, no largo, de braços cruzados, como petrificado.--Que infeliz senhora! Que funesta paixão!--murmurou emfim. E acariciou o bigode, com satisfação.
Como tinha de passar a limpo o _Necrologio_ apressou-se a entrar em casa. Abancou com uma manta sobre os joelhos; bem depressa as responsabilidades de prosador distrahiram-no das preoccupações d'homem; e até às onze horas a sua bella letra cursiva e burocratica desenrolou-se nobremente sobre uma larga folha de papel inglez, no silencio do seu _Sanctus Sanctorum_. Terminava quando a porta rangeu, e a Adelaide, com um chale forte pelos hombros, veio dizer, n'uma voz constipada:
--Então hoje não se faz néné?
--Não tardo, minha Adelaide, não tardo!
E releu baixo, enlevado. Pareceu-lhe então que o final não era commovente: queria terminar por uma exclamação dolorosa, prolongada como um _ai!_ Meditou, com os cotovêlos sobre a mesa, a cabeça entre os dedos muito abertos: Adelaide então, chegando-se devagar, passou-lhe a mão pela calva: aquelle dôce roçar amoroso fez de certo saltar a idéa como uma faisca, porque tomou rapidamente a penna, e acrescentou:
--«Chorai! Chorai! Em quanto a mim, a dôr suffoca-me!»
Esfregou as mãos com orgulho. Repetiu alto n'um tom plangente:
--«Chorai, Chorai, em quanto a mim, a dôr suffoca-me!»--E passando o braço concupiscente pela cinta da Adelaide, exclamou:
--Está de fazer sensação, minha Adelaide!
Ergueu-se. Tinha terminado o seu dia. Fôra bem preenchido e digno: da manhã certificára-se com regosijo no _Diario do Governo_, que a familia real «passava sem novidade»; cumprira o dever d'amigo, acompanhando Luiza aos Prazeres n'uma carruagem da Companhia; a alta das inscripções assegurava-lhe a paz da sua patria; compozera uma prosa notavel; a sua Adelaide amava-o! E de certo se deliciou na certeza d'estas felicidades, que contrastavam tanto com as imagens sepulchraes que a sua penna revolvera, porque Adelaide ouviu-o murmurar:
--A vida é um bem inestimavel!--E acrescentar como bom cidadão:--Sobretudo n'esta era de grande prosperidade publica!
E entrou no quarto com a cabeça erecta, o peito cheio, os passos firmes, erguendo alto o castiçal.
A sua Adelaide seguia-o, bocejando; estava cançada da constipação e--de uma hora de ternuras, que tivera á tardinha, com o louro e meigo Arnaldo, caixeiro da _Loja da America_.
Áquella hora dous homens desciam d'uma carruagem á porta do Hotel Central: um trazia uma _ulster_ de xadrez, o outro uma longa pelliça. Um omnibus quasi ao mesmo tempo parou, carregado de bagagens.
Um criado allemão, que conversava em baixo com o porteiro, reconheceu-os logo, e tirando o côco:
--Oh snr. D. Bazilio! Oh snr. visconde!
O visconde Reynaldo, que batia os pés nas lages, rosnou de dentro da sua pelliça:
--É verdade, aqui estamos outra vez na possilga!
Mas áquella hora?
--A que horas queria vossê que chegassemos? Ás horas da tabella, talvez! Doze horas d'atrazo, essa bagatella! Em Portugal é quasi nada...
--Houve algum transtorno?--perguntava o criado com solicitude, seguindo-os pela escada.
E Reynaldo, pisando com um pé nervoso o esparto do corredor:
--O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! Abjecto paiz!...--E desabafava a sua cólera com o criado: tel-a-hia desabafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da bilis:--Ha um anno que a minha oração é esta: Meu Deus, manda-lhe outra vez o terromoto! Pois todos os dias leio os telegrammas a vêr se o terromoto chegou... e nada! Algum ministro que cahe, ou algum barão que surge. E de terremoto nada! O Omnipotente faz ouvidos de mercador ás minhas preces... Protege o paiz! Tão bom é um como outro!--E sorria, vagamente reconhecido a uma nação, cujos defeitos lhe forneciam tantas pilherias.
Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou--que não havia senão um salão e uma alcova com duas camas, no terceiro andar--a cólera de Reynaldo não conheceu restricções:
--Então havemos de dormir no mesmo quarto? Vossê pensa que o snr. D. Bazilio é meu amante, seu devasso? Está tudo cheio? Mas quem diabo se lembra de vir a Portugal? Estrangeiros? É justamente o que me espanta!--E encolhendo os hombros com rancôr.--É o clima, é o clima que os attrahe! O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima pestifero. Não ha nada mais reles de que um bom clima!...
E não cessou d'invectivar o seu paiz, em quanto o criado á pressa, sorrindo servilmente, punha sobre a jardineira pratos, fiambre, um frango frio e Bourgogne.
Reynaldo vinha vender a ultima propriedade, e acompanhára Bazilio que voltava a terminar «o seccante negocio da borracha». E não cessava de rosnar soturnamente de dentro da pelliça:
--Aqui estamos! Aqui estamos no chiqueiro!
Bazilio não respondia. Desde que chegára a Santa Apolonia, recordações do _Paraiso_, da casa de Luiza, de todo aquelle romance do verão passado, começavam a voltar, a attrahil-o, com um encanto picante. Fôra encostar-se á vidraça. Uma lua fria, livida, corria agora entre grossas nuvens côr de chumbo: ás vezes uma grande malha luminosa cahia sobre a agua, faiscava: depois tudo escurecia: vagas mastreações desenhavam-se na obscuridade diffusa: e algum fanal de navio tremeluzia friamente.
--Que fará ella a esta hora?--pensava Bazilio.--Naturalmente, deitava-se... Mal sabia que elle estava alli, n'um quarto do Hotel Central...
Cearam.
Bazilio levou a garrafinha de cognac para a cabeceira da cama: e com a cara coberta de pó d'arroz, os folhos da sua camisa de dormir abertos sobre o peito, muito estendido, soprando o fumo do charuto, gozava uma lassidão confortavel.
--E ámanhã estou-te d'aqui a vêr--disse Reynaldo.--Vaes-te logo metter com a prima!
Bazilio sorriu, o seu olhar errou um pouco pelo tecto; certas recordações das bellezas d'ella, do seu temperamento amoroso, trouxeram-lhe uma vaga voluptuosidade: espreguiçou-se.--Que diabo!--disse--é uma linda rapariga! Vale immenso a pena!--Bebeu mais um calice de cognac, e d'ahi a pouco dormia profundamente. Era meia noite.
Áquella hora Jorge acordava, e sentado n'uma cadeira, immovel, com soluços cançados que ainda o sacudiam, pensava n'ella. Sebastião, no seu quarto, chorava baixo. Julião, no Posto Medico, estendido n'um sophá, lia a _Revista dos Dous Mundos_. Leopoldina dançava n'uma _soirée_ da Cunha. Os outros dormiam. E o vento frio que varria as nuvens e agitava o gaz dos candieiros ia fazer ramalhar tristemente uma arvore sobre a sepultura de Luiza.
D'ahi a dous dias pela manhã Bazilio, no Rocio, procurava, com o olhar em redor, um _coupé_ decente. Mas o Pintéos, avistando-o de longe, lançou logo a parelha. Cá está o Pintéos, meu amo! Parecia encantado de tornar a vêr o snr. D. Bazilinho, e apenas elle lhe disse:
--Lá acima, á Patriarchal, ó Pintéos!
--A casa da senhora? Prompto, meu amo.--E endireitando-se na almofada, bateu.
Quando a tipoia parou á porta de Jorge--o Paula sahiu para a rua, a estanqueira correu de dentro do balcão, a criada do doutor debruçou-se logo na janella. E immoveis arregalavam os olhos.
Bazilio tocára a campainha, um pouco nervoso: esperou, arremessou o charuto, tornou a puxar o cordão com força.
--As janellas estão trancadas, meu amo--disse o Pintéos.
Bazilio recuou ao meio da rua: as portadas verdes estavam fechadas, a casa tinha um aspecto mudo.
Bazilio dirigiu-se ao Paula:
--Os senhores que alli moram, estão p'ra fóra?
--Já não moram--disse o Paula soturnamente, passando a mão sobre o bigode.
Bazilio fixou-o, surprehendido d'aquella entonação funebre.
--Onde vivem agora então?
O Paula escarrou, e cravando em Bazilio um olhar desolado:
--V. s.^a é o parente?
Bazilio disse sorrindo:
--Sou o parente, sou.
--Então não sabe?
--O quê, homem de Deus?
O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabeça:
--Pois sinto dizer-lh'o. A senhora morreu.
--Que senhora?--perguntou Bazilio. E fez-se muito branco.
--A senhora! A senhora D. Luiza, a mulher do snr. Carvalho, o Engenheiro... E o snr. Jorge está em casa do snr. Sebastião. Alli ao fim da rua. Se v. s.^a lá quer ir...
--Não!--fez Bazilio com um gesto rapido da mão. Os beiços tremiam-lhe um pouco.--Mas que foi?
--Uma febre! Rapou-a em dous dias!
Bazilio dirigiu-se ao _coupé_ devagar, com a cabeça baixa. Olhou mais uma vez para a casa; fechou com força a portinhola. O Pintéos _bateu_ p'ra a Baixa.
O Paula então aproximou-se do estanque:
--Não lhe fez muita móssa! Fidalgos! Canalha!--murmurou.
A estanqueira disse lamentosamente:
--Pois eu não sou parenta, e todas as noites lhe rezo dous padre-nossos por alma...
--E eu!--suspirou a carvoeira.
--Ha-de-lhe isso servir de muito!--rosnou o Paula, afastando-se.
Estava ultimamente mais amargo. Vendia pouco. Aquellas mortes na rua traziam-no desconfiado da vida. Cada dia detestava mais os padres! e todas as noites lia a _Nação_ que lhe emprestava o Azevedo, repastando-se com rancor d'artigos devotos, que o exasperavam, o impelliam para o atheismo; e o descontentamento das cousas publicas inclinava-o para a communa. Como elle dizia, achava tudo uma _porcaria_.
Foi de certo sob este sentimento que, voltando á porta do estanque, disse ás visinhas com um ar lugubre:
--Sabem o que isto é? Sabem o que tudo isto é?--Fazia um gesto que abrangia o universo. Fitou-as d'um modo irado, e rosnou esta palavra suprema:
--Um monte d'estrume!
Ao descer a rua do Alecrim, Bazilio viu o visconde Reynaldo á porta do hotel _Street_. Mandou parar o Pintéos, e saltando do _coupé_:
--Sabes?
--O quê?
--Minha prima morreu.
O visconde Reynaldo murmurou polidamente:
--Coitada!...
E foram descendo a rua, de braço dado, até ao Aterro. O dia estava glorioso; um friosinho subtil errava; no ar luminoso, leve, trespassado de sol, as casas, os galhos das arvores, os mastros das faluas, as mastreações dos navios tinham uma nitidez muito desenhada; os sons sobresahiam com uma tonalidade cantada e alegre; o rio reluzia como um metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos de fumo que tomavam a côr do leite; e ao fundo as collinas faziam na pulverisação da luz uma sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam.
E os dous passeando devagar, iam fallando de Luiza.
O visconde Reynaldo, delicado, lamentava a pobre senhora, coitada, que se tinha deixado morrer por um tempo tão lindo!--Mas em resumo, sempre achára aquella ligação absurda...
Porque emfim fossem francos: que tinha ella? Não queria dizer mal «da pobre senhora que estava n'aquelle horror dos Prazeres», mas a verdade é que não era uma amante _chic_; andava em tipoias de praça; usava meias de tear; casára com um reles individuo de secretaria; vivia numa casinhola, não possuia relações decentes; jogava naturalmente o quino, e andava por casa de sepatos d'ourello; não tinha espirito, não tinha _toilette_... que diabo! Era um trambolho!
--Para um ou dous meses que eu estivesse em Lisboa...--resmungou Bazilio com a cabeça baixa.
--Sim, p'ra isso talvez. Como hygiene!--disse Reynaldo com desdem.
E continuaram calados, devagar. Riram-se muito d'um sujeito que passava governando atarantadamente dous cavallos pretos:--Que phaeton! Que arreios! Que estylo! Só em Lisboa!...
Ao fundo do Aterro voltaram; e o visconde Reynaldo passando os dedos pelas suiças:
--De modo que estás sem mulher...
Bazilio teve um sorriso resignado. E, depois d'um silencio, dando um forte raspão no chão com a bengala:
--Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine!
E foram tomar Xerez á _Taverna Ingleza_.
Setembro 1876--Setembro 1877.
FIM
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+----------+-------------------------+---------------------------+ | | Original | Correcção | +----------+-------------------------+---------------------------+ |#pág. 84 | Luzia | Luiza | |#pág. 130 | arrebitanto | arrebitando | |#pág. 155 | com ha-de d'estar? | como ha-de d'estar? | |#pág. 190 | pé dos portas | pé das portas | |#pág. 194 | enternciam-no | enterneciam-no | |#pág. 209 | Lepoldina | Leopoldina | |#pág. 215 | lacas | lascas | |#pág. 263 | concialibulo | conciliabulo | |#pág. 267 | Luzinha | Luizinha | |#pág. 316 | dsesperadamente | desesperadamente | |#pág. 328 | eperança | esperança | |#pág. 333 | batendo-lho | batendo-lhe | |#pág. 337 | de de pé | de pé | |#pág. 404 | Leolpodina | Leopoldina | |#pág. 404 | prodigiosomente | prodigiosamente | |#pág. 425 | Sabastião | Sebastião | |#pág. 427 | engmomados | engommados | |#pág. 430 | Leolpodina | Leopoldina | |#pág. 456 | apparer | apparecer | |#pág. 457 | Julão | Julião | |#pág. 457 | ao ouvindo | ao ouvido | |#pág. 472 | cousá | cousa | |#pág. 477 | as palavra | as palavras | |#pág. 482 | quizessse | quizesse | |#pág. 494 | voltou dizer | voltou a dizer | |#pág. 507 | apaixonado | apaixonada | |#pág. 512 | d'aqulla | d'aquella | |#pág. 521 | susurrro | susurro | |#pág. 558 | illsuões | illusões | +----------+-------------------------+---------------------------+
Não existem os capítulo XI e XIV nesta obra: Não havendo interrupção na paginação respeitámos a ordem da obra original.
A página 525 surge no original como 425. Corrigimos para 525 para manter a ordem (após verificação que não se tratava de uma página fora de sítio).
End of Project Gutenberg's O Primo Bazilio, by José Maria Eça de Queirós