O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 3
Havia cinco annos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se um pouco com aquella _chamma_. Luiza dizia: Ora! é uma caturrice d'ella! Viam-na córada e nutrida, e não suspeitavam que aquelle sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silencio, a ia devastando como uma doença e desmoralisando como um vicio. Todos os seus ardores até ahi tinham sido inutilisados. Amára um official de lanceiros que morrêra, e apenas conservava o seu daguerreotypo. Depois apaixonára-se muito occultamente por um rapaz padeiro, da visinhança, e vira-o casar. Dera-se então toda a um cão, o _Bilro_; uma criada despedida deu-lhe por vingança rolha cozida; o _Bilro_ rebentou, e tinha-o agora empalhado na sala de jantar. A pessoa do conselheiro viera de repente, um dia, pegar fogo áquelles desejos, sobrepostos como combustiveis antigos. Accacio tornára-se a sua _mania_: admirava a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos para a sua eloquencia, achava-o n'uma «linda posição». O conselheiro era a sua ambição e o seu vicio! Havia sobretudo n'elle uma belleza, cuja contemplação demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva. Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos homens, e aquelle appetite insatisfeito inflammára-se com a idade. Quando se punha a olhar para a calva do conselheiro, larga, redonda, polida, brilhante ás luzes, uma transpiração anciosa humedecia-lhe as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, avida de lhe deitar as mãos, palpal-a, sentir-lhe as fórmas, amassal-a, penetrar-se d'ella! Mas disfarçava, punha-se a fallar alto com um sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gottejava-lhe nas rôscas anafadas do pescoço. Ia para casa rezar estações, impunha-se penitencias de muitas corôas á Virgem; mas apenas as orações findavam, começava o temperamento a latejar. E a boa, a pobre D. Felicidade tinha agora pesadêlos lascivos, e as melancolias do hysterismo velho! A indifferença do conselheiro irritava-a mais: nenhum olhar, nenhum suspiro, nenhuma revelação amorosa o commovia! Era para com ella glacial e polido. Tinham-se ás vezes encontrado a sós, á parte, no vão favoravel d'uma janella, no isolamento mal alumiado d'um canto do sophá,--mas apenas ella fazia uma demonstração sentimental, elle erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico. Um dia ella julgára perceber que, por traz das suas lunetas escuras, o conselheiro lhe deitava de revés um olhar apreciador para a abundancia do seio; fôra mais clara, mais urgente, fallára em _paixão_, disse-lhe baixo: Accacio!... Mas elle com um gesto gelou-a--e de pé, grave:
--Minha senhora,
As neves que na fronte se accumulam Terminam por cahir no coração...
É inutil, minha senhora!
O martyrio de D. Felicidade era muito occulto, muito disfarçado; ninguem o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, ignoravam-lhe as torturas do desejo. E um dia Luiza ficou attonita, sentindo D. Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mão humida, e dizer-lhe baixo, os olhos cravados no conselheiro:
--Que regalo d'homem!
Fallava-se n'essa noite do Alemtejo, d'Evora e das suas riquezas, da capella dos ossos, quando o conselheiro entrou com o paletot no braço. Foi-o dobrar solicitamente n'uma cadeira a um canto, e no seu passo aprumado e official, veio apertar as mãos ambas de Luiza, dizendo-lhe com uma voz sonora, de _papo_:
--Minha boa snr.^a D. Luiza, de perfeita saude, não? O nosso Jorge tinha-m'o dito. Ainda bem! Ainda bem!
Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado n'um collarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até á calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabellos que d'uma orelha á outra lhe faziam collar por traz da nuca--e aquelle preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho á calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, cahido aos cantos da bocca. Era muito pallido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do craneo.
Fôra, outr'ora, director geral do ministerio do reino, e sempre que dizia--El-rei! erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviaes; não dizia _vomitar_, fazia um gesto indicativo e empregava _restituir_. Dizia sempre «o nosso Garrett, o nosso Herculano». Citava muito. Era author. E sem familia, n'um terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado com a criada, occupava-se d'economia politica: tinha composto os Elementos genericos da sciencia da riqueza e sua distribuição, _segundo os melhores authores_, e como sub-titulo: _Leituras do serão!_ Havia apenas mezes publicára a Relação de todos os ministros d'estado desde o grande marquez de pombal até nossos dias, com datas cuidadosamente averiguadas de seus nascimentos e obitos.
--Já esteve no Alemtejo, conselheiro?--perguntou-lhe Luiza.
--Nunca, minha senhora--e curvou-se.--Nunca! E tenho pena! sempre desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira ordem.
Tomou uma pitada d'uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e acrescentou com pompa:
--De resto, paiz de grande riqueza suina!
--Ó Jorge, averigua quanto é o partido da camara em Evora--disse Julião do canto do sophá.
O conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa:
--Devem ser seiscentos mil reis, snr. Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o nos meus apontamentos. Porquê, snr. Zuzarte, quer deixar Lisboa?
--Talvez!...
Todos desapprovaram.
--Ah! Lisboa sempre é Lisboa!--suspirou D. Felicidade.
--Cidade de marmore e de granito, na phrase sublime do nosso grande historiador!--disse solemnemente o conselheiro.
E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados.
D. Felicidade disse então:
--Quem não era capaz de deixar Lisboa, nem á mão de Deus Padre, era o conselheiro!
O conselheiro, voltando-se vagarosamente para ella, um pouco curvado, replicou:
--Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta d'alma!
--O conselheiro--lembrou Jorge--nasceu na rua de S. José.
--Numero setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada áquella em que viveu, até casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!
Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Accacio fôra o seu intimo. Eram visinhos. Accacio tocava então rebeca, e, como Geraldo tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo á Philarmonica da rua de S. José. Depois Accacio, quando entrou nas repartições do Estado, por escrupulo e por dignidade, abandonou a rebeca, os sentimentos ternos, os serões joviaes da Philarmonica. Entregou-se todo á estatistica. Mas conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquella amizade vigilante; fôra padrinho do seu casamento, vinha vêl-o todos os domingos, e, no dia de seus annos, mandava-lhe pontualmente, com uma carta de felicitações, uma lampreia d'ovos.
--Aqui nasci--repetiu, desdobrando o seu bello lenço de sêda da India--e aqui conto morrer.
E assoou-se discretamente.
--Isso ainda vem longe, conselheiro!
Elle disse, com uma melancolia grave:
--Não me arreceio d'_ella_, meu Jorge. Até já fiz construir, sem vacillar, no Alto de S. João, a minha ultima morada. Modesta, mas decente. É ao entrar, no arruamento á direita, n'um lugar abrigado, ao pé da choça dos Verissimos amigos.
--E já compoz o seu epitaphio, snr. conselheiro?--perguntou Julião, do canto, ironico.
--Não o quero, snr. Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios. Se os meus amigos, os meus patricios entenderem que eu fiz alguns serviços, teem outros meios para os commemorar; lá teem a imprensa, o communicado, o necrologio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero apenas sobre a lapide lisa, em letras negras, o meu nome--com a minha designação de conselheiro--a data do meu nascimento e a data do meu obito.
E com um tom demorado, de reflexão:
--Não me opponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores: _Orai por elle!_
Houve um silencio commovido, e á porta uma voz fina, disse:
--Dão licença?
--Oh Ernestinho!--exclamou Jorge.
Com um passo miudinho e rapido, Ernestinho veio abraçal-o pela cintura:
--Eu soube que tu que partias, primo Jorge... Como está, prima Luiza?
Era primo de Jorge. Pequenino, lymphatico, os seus membros franzinos, ainda quasi tenros, davam-lhe um aspecto debil de collegial; o buço, delgado, empastado em cêra-mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com grandes laços de fita; sobre o collete branco, a cadêa do relogio sustentava um medalhão enorme, d'ouro, com fructos e flôres esmaltadas em relevo. Vivia com uma actrizita do Gymnasio, uma magra, côr de melão, com o cabello muito riçado, o ar tisico,--e escrevia para o theatro. Tinha traducções, dous originaes n'um acto, uma comedia em _calembourgs_. Ultimamente trazia em ensaios nas Variedades uma obra consideravel, um drama em cinco actos, a _Honra e Paixão_. Era a sua estreia séria. E desde então, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos inchados de manuscriptos, com localistas, com actores, muito prodigo de cafés e de _cognacs_, o chapéo ao lado, descórado, e dizendo a todos: Esta vida, mata-me! Escrevia todavia por paixão entranhada pela Arte--porque era empregado na alfandega, com bom vencimento, e tinha quinhentos mil reis de renda das suas inscripções. A Arte mesmo, dizia, obrigava-o a desembolsos: para o acto do baile da _Honra e Paixão_ mandára fazer, á sua custa, botas de verniz para o _galan_, botas de verniz para o _pai-nobre_! O seu nome de familia era Ledesma.
Deram-lhe um lugar, e Luiza notou logo, pousando o bordado, que estava abatido! Queixou-se então das suas fadigas: os ensaios arrazavam-no, tinha turras com o empresario: na vespera, vira-se forçado a refazer todo o final d'um acto! todo!
--E tudo isto--acrescentou muito exaltado--porque é um pelintra, um parvo, e quer que se passe n'uma sala, o acto que se passava n'um abysmo!
--N'um quê?--perguntou surprehendida D. Felicidade.
O conselheiro, muito cortez, explicou:
--N'um abysmo, D. Felicidade, n'um despenhadeiro. Tambem se diz, em bom vernaculo, um _vortice_.--Citou: _N'um espumoso vortice se arroja..._
--N'um abysmo?--perguntaram.--Porquê?
O conselheiro quiz conhecer o _lance_.
Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo:--Era uma mulher casada. Em Cintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de Monte-Redondo. O marido arruinado, devia cem contos de reis ao jogo! Estava deshonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruinas acastelladas, onde habita o conde, deixa cahir o véo, conta-lhe a catastrophe. O conde lança o seu manto aos hombros, parte, chega no momento em que os beleguins vão levar o homem.--É uma scena muito commovente, dizia, é de noite, ao luar!--O conde desembuça-se, atira uma bolsa d'ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: Saciai-vos, abutres!...
--Bello final!--murmurou o conselheiro.
--Emfim--acrescentou Ernesto, resumindo--aqui ha um enredo complicado: o conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se, o marido descobre, arremessa todo o seu ouro aos pés do conde, e mata a esposa.
--Como?--perguntaram.
--Atira-a ao abysmo. É no quinto acto. O conde vê, corre, atira-se tambem. O marido cruza os braços, e dá uma gargalhada infernal. Foi assim que eu imaginei a cousa!
Calou-se, offegante: e, abanando-se com o lenço, rolava em redor os seus olhos langorosos, prateados como os d'um peixe morto.
--É uma obra de cunho, embatem-se grandes paixões!--disse o conselheiro, passando as mãos sobre a calva.--Os meus parabens, snr. Ledesma!
--Mas que quer o empresario?--perguntou Julião, que escutára de pé, attonito--que quer elle? Quer o abysmo n'um primeiro andar, mobilado pelo Gardé?
Ernestinho voltou-se, muito affectuosamente:
--Não, snr. Zuzarte,--a sua voz era quasi meiga--quer o desfecho n'uma sala. De modo que eu--e fazia um gesto resignado--a gente tem de condescender, tive d'escrever outro final. Passei a noite em claro. Tomei tres chavenas de café!...
O conselheiro acudiu, com a mão espalmada:
--Cuidado, snr. Ledesma, cuidado! Prudencia com esses excitantes! Por quem é, prudencia!
--A mim não me faz mal, snr. conselheiro--disse sorrindo.--Escrevi-o em tres horas! Venho de lh'o mostrar agora. Até o tenho aqui...
--Leia, snr. Ernesto, leia!--exclamou logo D. Felicidade.
Que lêsse! que lêsse! porque não lia?
Era uma massada!... Era um rascunho!... Emfim, como queriam!... E radiante desdobrou, no silencio, uma grande folha de papel azul pautado.
--Eu peço desculpa. Isto é um borrão. A cousa não está ainda com todos os FF e RR.--Fez então voz theatral:--Agatha!... É a mulher; isto aqui é a scena com o marido, o marido já sabe tudo...
AGATHA (cahindo de joelhos nos pés de Julio)
«Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a morte, que vêr, com esses desprezos, o coração rasgado fibra a fibra!»
JULIO
«E não me rasgaste tu tambem o coração? Tiveste tu piedade? Não. Retalhaste-m'o! Meu Deus, eu que a julgava pura, n'essas horas em que arrebatados...»
O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar de chavenas. Era Juliana, d'avental branco, com o chá.
--Que pena!--exclamou Luiza.--Depois do chá se lê. Depois do chá.
Ernesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso:
--Não vale a pena, prima Luiza!
--Ora essa! É lindo!--affirmou D. Felicidade.
Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoutos d'Oeiras, os bolos do Cócó.
--Aqui tem o seu chá fraco, conselheiro--dizia Luiza.--Sirva-se, Julião. As torradas ao snr. Julião! Mais assucar! Quem quer? Uma torrada, conselheiro?
--Estou amplamente servido, minha prezada senhora--replicou, curvando-se.
E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o dialogo opulento.
Mas, perguntaram, o que quer o empresario mais agora? Já tem a sala...
Ernestinho, de pé, excitado, com um bolo d'ovos na ponta dos dedos, explicou:
--O que o empresario quer é que o marido lhe perdôe...
Foi um espanto:
--Ora essa! É extraordinario! Porque?
--Então!--exclamou Ernestinho, encolhendo os hombros,--diz que o publico que não gosta! Que não são cousas cá para o nosso paiz.
--A fallar a verdade--disse o conselheiro--a fallar a verdade, snr. Ledesma, o nosso publico não é geralmente affecto a scenas de sangue.
--Mas não ha sangue, snr. conselheiro!--protestava Ernestinho, erguendo-se sobre os bicos dos sapatos--mas não ha sangue! É com um tiro. É com um tiro pelas costas, snr. conselheiro!
Luiza fez a D. Felicidade--_pst!_ e, n'um áparte, com um sorriso:
--D'esses bolinhos d'ovos. São muito frescos!
Ella respondeu, com uma voz lamentosa:
--Ai, filha, não!
E indicou o estomago, compungidamente.
No entanto o conselheiro aconselhava a Ernestinho a clemencia: tinha-lhe posto a mão no hombro paternalmente, e com uma voz persuasiva:
--Dá mais alegria á peça, snr. Ledesma. O espectador sahe mais alliviado! Deixe sahir o espectador alliviado!
--Mais um bolinho, conselheiro?
--Estou repleto, minha prezada senhora.
E, então, invocou a opinião de Jorge. Não lhe parecia que o bom Ernesto devia perdoar?
--Eu, conselheiro? De modo nenhum. Sou pela morte. Sou inteiramente pela morte! E exijo que a mates, Ernestinho!
D. Felicidade acudiu, toda bondosa:
--Deixe fallar, snr. Ledesma. Está a brincar. E elle então que é um coração d'anjo!
--Está enganada, D. Felicidade--disse Jorge, de pé, diante d'ella.--Fallo serio e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela morte. No abysmo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso lá consentir que, n'um caso d'esses, um primo meu, uma pessoa da minha familia, do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! Não! Mata-a! É um principio de familia. Mata-a quanto antes!
--Aqui tem um lapis, snr. Ledesma--gritou Julião, estendendo-lhe uma lapiseira.
O conselheiro, então, interveio, grave:
--Não--disse--não creio que o nosso Jorge falle serio. É muito instruido para ter idéas tão...
Hesitou, procurou o adjectivo. Juliana poz-se-lhe diante com uma bandeja, onde um macaco de prata se agachava comicamente, sob um vasto guarda-sol erriçado de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu:
--...Tão anti-civilisadoras.
--Pois está enganado, conselheiro, tenho-as--affirmou Jorge.--São as minhas idéas. E aqui tem, se em lugar de se tratar d'um final d'acto, fosse um caso da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me: sabes, encontrei minha mulher...
--Oh Jorge!--disseram, reprehensivamente.
--...Bem, supponhamos, se elle m'o viesse dizer, eu respondia-lhe o mesmo. Dou a minha palavra d'honra, que lhe respondia o mesmo: mata-a!
Protestaram. Chamaram-lhe _tigre_, _Othello_, _Barba-Azul_. Elle ria, enchendo muito socegadamente o seu cachimbo.
Luiza bordava, calada: a luz do candieiro, abatida pelo _abat-jour_, dava aos seus cabellos tons de um louro quente, resvalava sobre a sua testa branca como sobre um marfim muito polido.
--Que dizes tu a isto?--disse-lhe D. Felicidade.
Ella ergueu o rosto, risonha, encolheu os hombros...
E o conselheiro logo:
--A snr.^a D. Luiza diz com orgulho o que dizem as verdadeiras mães de familia:
Impurezas do mundo não me roçam Nem a fimbria da tunica sequer.
--Ora muito boas noites--disse, á porta, uma voz grossa.
Voltaram-se.
Ó Sebastião! Ó snr. Sebastião! ó Sebastiarrão!
Era elle, Sebastião, o grande Sebastião, o Sebastiarrão, Sebastião _tronco d'arvore_,--o intimo, o camarada, o _inseparavel_ de Jorge, desde o latim, na aula de frei Liborio, aos Paulistas.
Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chapéo molle desabado na mão. Começava a perder um pouco na frente, os seus cabellos castanhos e finos. Tinha a pelle muito branca, a barba alourada e curta.
Veio sentar-se ao pé de Luiza.
--Então d'onde vem? d'onde vem?
Vinha do Price. Rira muito com os palhaços. Houvera a brincadeira da pipa.
O seu rosto, em plena luz, tinha uma expressão honesta, simples, aberta: os olhos pequenos, azues d'um azul claro, d'uma suavidade séria, adoçavam-se muito quando sorria: e os beiços escarlates, sem pelliculas seccas, os dentes luzidios, revelavam uma vida saudavel e habitos castos. Fallava devagar, baixo, como se tivesse medo de se manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua chavena, e remexendo o assucar com a colhér direita, os olhos ainda a rir, um sorriso bom:
--A pipa tem muita graça. Muita graça!
Sorveu um gole de chá e depois d'um momento:
--E tu, maroto, sempre partes ámanhã? Não ha umas tentaçõesinhas d'ir por ahi fóra com elle, minha cara amiga?
Luiza sorriu. Tomára ella! Quem dera! Mas era uma jornada tão incommoda! Depois a casa não podia ficar só, não havia que fiar em criados...
--Está claro, está claro--disse elle.
Jorge, então, que abrira a porta do escriptorio, chamou-o:
--Ó Sebastião! Fazes favor?
Elle foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado: as abas do seu casaco mal feito tinham um comprimento ecclesiastico.
Entraram para o escriptorio.
Era uma saleta pequena, com uma estante alta e envidraçada, tendo em cima a estatueta de gesso, empoeirada e velha, d'uma bacchante em delirio. A mesa, com um antigo tinteiro de prata que fôra de seu avô, estava ao pé da janella: uma collecção empilhada de _Diarios do Governo_, branquejava a um canto: por cima da cadeira de marroquim escuro, pendia, n'um caixilho preto, uma larga photographia de Jorge: e sobre o quadro, duas espadas encruzadas reluziam. Uma porta, no fundo, coberta com um reposteiro de baeta escarlate, abria para o patamar.
--Sabes quem esteve ahi de tarde?--disse logo Jorge, accendendo o cachimbo--Aquella desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hein?
--E entrou?--perguntou Sebastião, baixo, correndo por dentro o pesado reposteiro de fazenda listrada.
--Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o que quiz! A Leopoldina, a _Pão e queijo_!
E arremessando o phosphoro violentamente:
--Quando penso que aquella desavergonhada vem a minha casa! Uma creatura que tem mais amantes que camisas, que anda pelo Dá-fundo em troças, que passeava nos bailes, este anno, de dominó, com um tenor! A mulher do Zagallão, um devasso que falsificou uma letra!
E quasi ao ouvido de Sebastião:
--Uma mulher que dormiu com o Mendonça dos callos! Aquelle sebento do Mendonça dos callos!
Teve um gesto furioso, exclamou:
--E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, abraça minha mulher, respira o meu ar!... Palavra d'honra, Sebastião, se a pilho--procurou mentalmente, com o olhar acceso, um castigo sufficiente--dou-lhe açoutes!
Sebastião disse devagar:
--E o peor é a visinhança.
--Está claro que é!--exclamou Jorge.--Toda essa gente ahi pela rua abaixo sabe quem ella é! Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os sitios. É a _Pão e queijo_! Todo o mundo conhece a _Pão e queijo_.
--Má visinhança--disse Sebastião.
--De tremer.
Mas então! estava acostumado á casa, era sua, tinha-a arranjado, era uma economia...
--Senão! Não parava aqui um dia!
Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavallados uns nos outros! Uma visinhança a postos, avida de mexericos! Qualquer bagatella, o trotar d'uma tipoia, e apparecia por traz de cada vidro um par d'olhos repolhudos a cocar! E era logo um badalar de linguas por ahi abaixo, e conciliabulos, e opiniões formadas! fulano é indecente, fulana é bebeda!
--É o diabo!--disse Sebastião.
--A Luiza é um anjo, coitada--dizia Jorge, passeando pela saleta--mas tem cousas em que é criança! Não vê o mal. É muito boa, deixa-se ir. Com este caso da Leopoldina, por exemplo; foram creadas de pequenas, eram amigas, não tem coragem agora para a pôr fóra. É acanhamento, é bondade. Elle comprehende-se! Mas emfim as leis da vida tem as suas exigencias!...
E depois d'uma pausa:
--Por isso, Sebastião, em quanto eu estiver fóra, se te constar que a Leopoldina vem por cá, avisa a Luiza! Porque ella é assim: esquece-se, não reflexiona. É necessario alguem que a advirta, que lhe diga:--Alto lá, isso não póde ser! Que então cahe logo em si, e é a primeira!... Vens por ahi, fazes-lhe companhia, fazes-lhe musica, e se vires que a Leopoldina apparece ao largo, tu logo:--Minha rica senhora, cuidado, olhe que isso não! Que ella, sentindo-se apoiada, tem decisão. Senão, acanha-se, deixa-a vir. Soffre com isso, mas não tem coragem de lhe dizer: Não te quero vêr, vai-te! Não tem coragem p'ra nada: começam as mãos a tremer-lhe, a seccar-se-lhe a bocca... É mulher, é muito mulher!... Não te esqueças, hein, Sebastião?
--Então havia de me esquecer, homem?
Sentiram então o piano na sala, e a voz de Luiza ergueu-se, fresca e clara, cantando a _Mandolinata_:
Amici, la notte é bella, La luna va spontari...
--Fica tão só, coitada!...--disse Jorge.
Deu alguns passos pelo escriptorio, fumando, com a cabeça baixa:
--Todo o casal bem organisado, Sebastião, deve ter dous filhos! Deve ter pelo menos um!...
Sebastião coçou a barba em silencio--e a voz de Luiza, elevando-se com um certo esforço aspero, nos _altos_ da melodia :
Di cà, di là, per la cità Andiami a transnottari...
Era uma tristeza secreta de Jorge--não ter um filho! Desejava-o tanto! Ainda em solteiro, nas vesperas do casamento, já sonhava aquella felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as suas perninhas vermelhas, cheias de rôscas, e os cabellos annelados, finos como fios de sêda; ou rapaz forte, entrando da escóla com os livros, alegre e d'olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos mestres: ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um vestido branco, as duas tranças cahidas, vindo pousar as mãos nos seus cabellos já grisalhos...
Vinha-lhe, ás vezes, um medo de morrer sem ter tido aquella felicidade completadora!
Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava, depois, no piano Luiza recomeçou a _Mandolinata_, com um _brio_ jovial.
A porta do escriptorio abriu-se, Julião entrou: