O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Part 29

Chapter 293,710 wordsPublic domain

Ao passar na sala, diante do espelho oval, ficou pasmado do seu rosto manchado, envelhecido. Foi correr uma toalha molhada pela face, alisou o cabello: e ao entrar na alcova, ao vêl-a, com os seus grandes olhos dilatados onde a febre reluzia, teve de se agarrar á barra do leito, porque sentiu, em redor, as paredes oscillarem como lonas ao vento.

Mas sorriu-lhe:

--Como estás?

--Mal--murmurou ella debilmente.

Chamou-o para ao pé de si com um gesto muito fatigado.

Elle veio, sentou-se sem a olhar.

--Que tens?--disse ella chegando o rosto para elle.--Não te afflijas.--E tomou a mão que elle pousára á beira do leito.

Jorge, com um repellão secco, sacudiu a mão d'ella, ergueu-se bruscamente com os dentes cerrados; sentia uma colera brutal; ia-se, com medo de si, de um crime, quando ouviu a voz de Luiza, arrastando-se, n'uma lamentação:

--Porque, Jorge? Que tens?...

Voltou-se; viu-a meia erguida com os olhos abertos para elle, uma angustia no rosto; e duas lagrimas cahiam-lhe, silenciosamente.

Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mãos, aos soluços.

--Que é isto?--exclamou a voz de Julião á porta da alcova.

Jorge, muito pallido, ergueu-se devagar.

Julião levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente os braços diante d'elle:

--Tu estás doudo? Pois tu sabes que ella está n'um estado d'aquelles, e vaes-te pôr a fazer-lhe scenas de lagrimas?

--Não me pude conter...

--Estoura. Eu estou a cortar-lhe a febre por um lado, e tu a dar-lh'a por outro? Estás doudo!

Estava realmente indignado. Interessava-se por Luiza como doente. Desejava muito cural-a; e sentia uma satisfação em exercer o dominio de pessoa necessaria n'aquella casa, onde as suas visitas tinham tido sempre uma attitude dependente; mesmo agora ao sahir, não se esquecia de offerecer negligentemente um charuto a Jorge.

Jorge foi heroico durante toda essa tarde. Não podia estar muito tempo na alcova de Luiza, a desesperação trazia-o n'um movimento contradictorio; mas ia lá a cada momento, sorria-lhe, conchegava-lhe a roupa com as mãos tremulas; e como ella dormitava, ficava immovel a olhal-a feição por feição, com uma curiosidade dolorosa e immoral, com para lhe surprehender no rosto vestigios de beijos alheios, esperando ouvir-lhe n'algum sonho da febre murmurar um nome ou uma data; e amava-a mais desde que a suppunha infiel, mas d'um outro amor, carnal e perverso. Depois ia-se fechar no escriptorio, e movia-se alli entre as paredes estreitas, como um animal n'uma jaula. Releu a carta infinitas vezes, e a mesma curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o sem cessar: Como tinha sido? Onde era o _Paraiso_? Havia uma cama? Que vestido levava ella? O que lhe dizia? Que beijos lhe dava?

Foi relêr todas as cartas que ella lhe escrevêra para o Alemtejo, procurando descobrir nas palavras symptomas de frieza, a data da traição! Tinha-lhe odio então, voltavam-lhe ao cerebro idéas homicidas--esganal-a, dar-lhe chloroformio, fazer-lhe beber laudano! E depois immovel, encostado á janella, ficava esquecido n'um scismar espesso, revendo o passado, o dia do seu casamento, certos passeios que déra com ella, palavras que ella dissera...

Ás vezes pensava--seria a carta uma _mistificação_? Algum inimigo d'elle podia tel-a escripto, remettido para França. Ou talvez Bazilio tivesse _outra_ Luiza em Lisboa, e por engano ao sobrescriptar o enveloppe tivesse escripto o nome da prima; e a alegria momentanea que lhe davam aquellas phantasias fazia-lhe parecer a realidade mais cruel. Mas como fôra? como fôra? Se podesse saber a verdade! Tinha a certeza que socegaria, então! Arrancaria de certo do seu peito aquelle amor como um parasita immundo; apenas ella melhorasse, leval-a-hia a um convento, e elle iria morrer longe, n'Africa, ou algures... Mas quem saberia?... Juliana!

Era ella que sabia! De certo! E todas as condescendencias d'ella por Juliana, os moveis, o quarto, as roupas, comprehendeu tudo! Era a pagar a cumplicidade! Era a sua confidente! Levava as cartas, sabia tudo. E estava na valla, morta, sem poder fallar, a maldita!

Sebastião, como costumava, veio á noitinha. Não havia ainda luzes, e, apenas elle entrou, Jorge chamou-o ao escriptorio, calado, accendeu uma vela, tirou a carta da gaveta.

--Lê isto.

Sebastião ficára assombrado ao vêr o rosto de Jorge. Olhava a carta fechada, e tremia. Apenas viu a assignatura, uma pallidez d'agonia cobriu-lhe o rosto. Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibração onde elle se firmava mal. Mas dominou-se, leu devagar, pousou a carta sobre a mesa, sem uma palavra.

Jorge disse então:

--Sebastião, isto p'ra mim é a morte. Sebastião, tu sabes alguma cousa. Tu vinhas aqui. Tu sabes. Dize-me a verdade!

Sebastião abriu devagar os braços e respondeu:

--Que te hei-de eu dizer? Não sei nada!

Jorge agarrou-lhe as mãos, sacudiu-lh'as, e procurando o seu olhar anciosamente:

--Sebastião, pela nossa amizade, pela alma de tua mãi, por tantos annos que temos passado juntos, Sebastião, dize-me a verdade!...

--Não sei nada. Que hei-de eu saber?

--Mentes!

Sebastião disse apenas:

--Podem-te ouvir, homem!

Houve um silencio: Jorge apertava as fontes nas mãos, com passadas pelo escriptorio, que faziam vibrar o soalho; e de repente pondo-se diante de Sebastião, quasi supplicante:

--Mas dize-me ao menos o que fazia ella! Sahia? Vinha aqui alguem?

Sebastião respondeu devagar, os olhos fixos na luz:

--Vinha o primo ás vezes, ao principio. Quando a D. Felicidade esteve doente, ella ia vêl-a... O primo depois partiu... Não sei mais nada.

Jorge esteve um momento a olhar Sebastião, com uma fixidez abstracta.

--Mas que lhe fiz eu, Sebastião? Que lhe fiz eu? Adorava-a! Que lhe fiz eu p'ra isto? Eu, que a adorava, áquella mulher!

Rompeu a chorar.

Sebastião ficára de pé junto á mesa, estupido, aniquilado.

--Foi talvez uma brincadeira, apenas...--murmurou.

--E o que diz a carta?--gritou Jorge, voltando-se n'uma colera, sacudindo o papel.--Este _Paraiso_! _As boas manhãs_ lá passadas! É uma infame!...

--Está doente, Jorge--disse apenas Sebastião.

Jorge não respondeu. Passeou calado algum tempo. Sebastião, immovel, fatigava a vista contra a chamma da luz. Jorge então fechou a carta na gaveta, e tomando o castiçal com um tom de lassidão lugubre e resignado:

--Queres vir tomar chá, Sebastião?

E não tornaram mais a fallar na carta.

N'essa noite Jorge dormiu profundamente. Ao outro dia o seu rosto estava impassivel, d'uma serenidade livida.

Foi d'ahi por diante o enfermeiro de Luiza.

A doença, depois d'uma marcha incerta durante tres dias, definiu-se: eram crescimentos; enfraquecia muito, mas Julião estava tranquillo.

Jorge passava os seus dias ao pé d'ella. D. Felicidade vinha ordinariamente pelas manhãs: sentava-se aos pés da cama, e ficava calada, com uma face envelhecida; aquella esperança na mulher de Tuy tão subitamente destruida abalára-a como um velho edificio a que se tira subitamente um pilar; ia-se tornando ruina; e só se animava quando o Conselheiro apparecia pelas tres horas a saber da «nossa formosa enferma». Trazia sempre alguma palavra grave que dizia com um tom profundo, conservando o chapéo na mão, sem querer entrar na alcova, por pudor:

--A saude é um bem que só apreciamos quando nos foge!

Ou:

--A doença serve para aquilatarmos os amigos.

E terminava sempre:

--Meu Jorge, as rosas da saude bem cedo reflorirão nas faces de sua virtuosa esposa!...

De noite Jorge dormia vestido, n'um enxergão sobre o chão; mas apenas cerrava os olhos uma ou duas horas. O resto da noite procurava lêr: começava um romance, mas nunca ia além das primeiras linhas; esquecia o livro, e com a cabeça entre as mãos punha-se a pensar: era sempre a mesma idéa--_como_ tinha sido? Conseguira reconstruir aproximadamente, com logica, certos factos; via bem Bazilio chegando, vindo visital-a, desejando-a, mandando-lhe ramos, perseguindo-a, indo-a vêr aqui e além, escrevendo-lhe; mas depois? Viera já a comprehender que o dinheiro era para Juliana. A creatura tivera alguma exigencia: tinha-os surprehendido? possuia cartas?... E encontrava, n'aquella reconstrucção dolorosa, falhas, vazios, como buracos escuros, onde a sua alma se arremessava sofregamente. Então começava a recordar os ultimos mezes desde a sua volta do Alemtejo, e como ella se mostrára amante, e que ardor punha nas suas caricias... Para que o enganára então?

Uma noite, com precauções de ladrão, rebuscou todas as gavetas d'ella, esquadrinhou os vestidos, até as dobras da roupa branca, as caixas de collares, de rendas; viu bem o cofre de sandalo; estava vazio; nem o pó d'uma flôr secca! Ás vezes punha-se a fitar os moveis no quarto, na sala, a sondal-os como se quizesse descobrir n'elles os vestigios do adulterio. Ter-se-hiam sentado alli? Elle teria ajoelhado aos pés d'ella, acolá, sobre o tapete? Sobretudo o divan tão largo, tão commodo, desesperava-o; tomou-lhe odio. Veio a detestar mesmo a casa, como se os tectos que os tinham coberto, os soalhos que os tinham sustentado tivessem uma cumplicidade consciente. Mas o que o torturava sobretudo eram aquellas palavras--o _Paraiso_, _as boas manhãs_...

Luiza então já dormia tranquillamente. Ao fim de uma semana os crescimentos desappareceram. Mas estava muito fraca: no dia em que pela primeira vez se levantou, desmaiou duas vezes: era necessario vestil-a, trazel-a amparada para a _chaise-longue_: e não dispensava Jorge, queria-o alli, ao pé, com exigencias de criança! Parecia receber a vida dos seus olhos, a saude do contacto das suas mãos. Fazia-lhe lêr o jornal pela manhã, e vir escrever para ao pé d'ella. Elle obedecia, e mesmo aquellas instancias eram para a sua dôr como caricias consoladoras. É porque o amava de certo!

Sentia então, machinalmente, abertas de felicidade. Surprehendia-se a dizer-lhe ternuras, a rir com ella, esquecido, como d'antes! E, estendida na _chaise-longue_, Luiza, contente, percorria antigos volumes da _Illustração franceza_, que lhe mandára o Conselheiro,--«onde», segundo elle lhe dissera, «podia, ao mesmo tempo que se divertia com os desenhos, adquirir noções uteis sobre importantes acontecimentos historicos»; ou, com a cabeça reclinada, saboreava a felicidade de melhorar, de estar livre das tyrannias da _outra_, das amarguras do _passado_.

Uma das suas alegrias era vêr entrar a Marianna com o seu jantarzinho disposto n'um guardanapo sobre o taboleiro; tinha appetite, saboreava muito o calix de vinho do Porto, que Julião recommendára; quando Jorge não estava, fazia longas conversações com Marianna, palrando baixo, consolada, e lambendo colherinhas de gelatina.

Ás vezes, calada, com os olhos no tecto, fazia planos. Dizia-os depois a Jorge: iria estar duas semanas no campo, para ganhar forças; á volta começaria a bordar tiras de casimira para cobrir as cadeiras da sala; porque queria occupar-se muito da casa, viver recolhida; elle não voltaria ao Alemtejo, não sahiria de Lisboa, não é verdade? E a sua vida seria d'ahi por diante d'uma doçura continua e facil.

Mas Luiza ás vezes achava-o «macambusio». Que tinha? Elle explicava pela fadiga, pelas noites mal dormidas... Se adoecesse, ao menos, dizia ella, que fosse quando ella estivesse forte para o tratar, para o velar!... Mas não adoeceria, não? E fazia-o sentar ao pé de si, passava-lhe a mão pelos cabellos, com o olhar quebrado, porque com as forças que renasciam vinham os impulsos do seu temperamento amoroso. Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraçado!

Luiza, só comsigo, tinha outras resoluções. Não tornaria a vêr Leopoldina, e frequentaria as igrejas. Sahia da doença com uma vaga sentimentalidade devota. Durante a febre, em certos pesadêlos de que lhe ficára uma indistincta idéa aterrada, vira-se ás vezes n'um lugar pavoroso, onde corpos se erguiam, torcendo os braços, do meio de chammas escarlates: fórmas negras giravam com espetos em braza, um rugido d'agonia subia para a mudez do céo: e já lhe tocavam o peito linguas de fogueiras, quando alguma cousa de dôce e d'ineffavel de repente a refrescava; eram as azas d'um anjo luminoso e sereno, que a tomava nos braços; e ella sentia-se elevar, apoiando a cabeça contra o seio divino, que a penetrava d'uma felicidade sobrenatural; via as estrellas de perto, ouvia fremitos d'azas. Aquella sensação deixára-lhe como uma recordação saudosa do céo. E aspirava a ella, nas debilidades da convalescença, esperando ganhal-a pela pontualidade á missa, e pela repetição de corôas á Virgem.

Emfim uma manhã veio á sala, e abriu pela primeira vez o piano; Jorge, á janella, olhava para a rua--quando ella o chamou, e sorrindo:

--Estou a detestar, ha tempos, aquelle divan--disse.--Podia-se tirar, não te parece?

Jorge sentiu uma pancada no coração: não pôde responder logo; disse, emfim, com esforço:

--Sim, parece...

--Estou com vontade de o tirar--disse ella sahindo da sala, arrastando tranquillamente a longa cauda do seu roupão.

Jorge não pôde destacar os olhos do divan. Veio mesmo sentar-se n'elle; passava a mão sobre o estofo ás listras; e sentia um prazer doloroso em verificar _que fôra alli_!

Principiára a vir-lhe agora uma especie de resignação sombria; quando a ouvia gozar tanto as melhoras, fallar com felicidade de futuros tranquillos, decidia-se a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ella tinha-se arrependido de certo, amava-o: para que havia de crear a sangue frio uma infelicidade perpetua? Mas quando a via com os seus movimentos languidos estender-se na _chaise-longue_, ou ao despir-se mostrar a brancura do seu collo--e pensava que aquelles braços tinham enlaçado outro homem, aquella bocca gemido de amor n'uma cama alheia--vinha-lhe uma onda de cólera bruta, precisava sahir para a não esganar!

Para explicar os seus maus humores, os seus silencios, começou a queixar-se, a dizer-se doente. E as solicitudes d'ella, então, as interrogações mudas do seu olhar inquieto faziam-o mais infeliz--por se sentir amado, agora que se sabia trahido!

Um domingo emfim Julião deu licença a Luiza para se deitar mais tarde, e fazer á noite as honras da casa. Foi uma alegria para todos vel-a na sala, ainda um pouco pallida e fraca,--mas, como disse o Conselheiro, restituida aos deveres domesticos e aos prazeres da sociedade!

Julião que veio ás nove horas achou-a _como nova_. E abrindo os braços, no meio da sala:

--E que me dizem á novidade?--exclamou--A peça do Ernesto teve um triumpho!...

Assim tinham lido nos jornaes. O _Diario de Noticias_ dizia mesmo que o «author chamado ao proscenio, no meio do mais vivo enthusiasmo, recebera uma formosa corôa de louros». Luiza declarou logo que queria ir vêr!

--Mais tarde, D. Luiza, mais tarde--acudiu com prudencia o Conselheiro.--Por ora é conveniente evitar toda a commoção forte. As lagrimas que não deixaria de derramar, conheço o seu bom coração, podiam produzir uma recahida. Não é verdade, amigo Julião?

--De certo, Conselheiro, de certo. Eu tambem quero ir. Quero convencer-me por meus olhos...

Mas o ruido d'uma carruagem, lançada a trote largo, que parou á porta, interrompeu-o. A campainha retiniu fortemente.

--Aposto que é o author!--exclamou elle.

E quasi immediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, precipitou-se na sala: ergueram-se com ruido, abraçaram-no: mil parabens! mil parabens! E a voz do Conselheiro, dominando as outras:

--Bem vindo o festejado author! Bem vindo!

Ernesto suffocava de jubilo. Tinha um sorriso immobilisado; as azas do nariz dilatavam-se-lhe, como para respirar os incensos; trazia o peito alto, enfunado d'orgulho; e movia a cabeça, sem cessar, como n'um agradecimento instinctivo a multidões applaudidoras.

--Aqui estou! aqui estou!--disse.

Sentou-se offegante; e, com um modo amavel de Deus-bom-rapaz, declarou que os ultimos ensaios de apuro não lhe tinham deixado um momento para vir vêr a prima Luiza. Tinha tido n'aquella noite um instante de seu, mas devia voltar ás dez horas para o theatro: até nem mandára a tipoia embora...

Contou então largamente o triumpho. Ao principio tivera «grandes colicas». Todos as tinham, os mais acostumados, os mais illustres! Mas apenas o Campos disse o monologo do primeiro acto--e como o disse! haviam de vêr, uma cousa sublime!--os applausos romperam. Tinha agradado tudo. No fim era um barulho, gritos pelo author, salvas de palmas... Elle viera ao palco, arrastado; não queria, mas obrigaram-no, a Jesuina por um lado, a Maria Adelaide por outro! Um delirio! O Savedra do _Seculo_ tinha-lhe dito: o amigo é o nosso Shakspeare! O Bastos da _Verdade_ tinha affirmado: és o nosso Scribe! Houve uma cêa. E tinham-lhe dado uma corôa.

--E serve-lhe?--acudiu Julião.

--Perfeitamente; um bocadinho larga...

O Conselheiro disse com authoridade:

--Os grandes authores, o famigerado Tasso, o nosso Camões são sempre representados com as suas respectivas corôas.

--É o que eu lhe aconselho, snr. Ledesma--acudiu Julião, erguendo-se e batendo-lhe no hombro--é que se faça retratar de corôa!...

Riram.

E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando o seu lenço perfumado:

--O snr. Zuzarte não dispensa o seu epigrammasinho...

--É a prova da gloria, meu amigo. Nos triumphos dos generaes victoriosos, em Roma, havia um bobo no prestito!

--Eu não sei!--disse Luiza muito risonha--É uma honra p'ra a familia!...

Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e disse que gozava tanto a corôa, como se tivesse direito a usal-a...

E Ernestinho voltando-se logo para elle:

--Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei á esposa...

--Como Christo...

--Como Christo--confirmou Ernestinho, com satisfação.

D. Felicidade approvou logo:

--Fez muito bem! Até é mais moral!

--O Jorge é que queria que eu désse cabo d'ella--disse Ernestinho, rindo tolamente.--Não se lembra, n'aquella noite...

--Sim, sim--fez Jorge, rindo tambem, nervosamente.

--O nosso Jorge--disse com solemnidade o Conselheiro--não podia conservar idéas tão extremas. E de certo a reflexão, a experiencia da vida...

--Mudei, Conselheiro, mudei--interrompeu Jorge.

E entrou bruscamente no escriptorio.

Sebastião, inquieto, foi devagar ter com elle. Estava ás escuras.

--Aquelles idiotas não se calarão? Não se irão?--disse elle abafadamente, agarrando o braço de Sebastião.

--Socega!

--Oh Sebastião! Sebastião!--E sua voz tremia, com lagrimas.

Mas Luiza, da sala, gritou:

--Que conspiração é essa ahi dentro ás escuras?

Sebastião appareceu logo, dizendo:

--Nada, nada. Estavamos lá dentro...--E acrescentou baixo:--O Jorge está fatigado. Está adoentado, coitado!

Notaram, quando elle voltou--que tinha com effeito o ar exquisito.

--Não, realmente não me sinto bom, estou incommodado!

--E a debil D. Luiza precisa o repouso do seu leito--disse o Conselheiro erguendo-se.

Ernestinho que não se podia demorar, offereceu logo ao Conselheiro e a Julião--«a sua carruagem, que era um caleche, se iam para a baixa...»

--Que honra--exclamou Julião olhando Accacio--irmos na tipoia do Grande Homem!

E em quanto D. Felicidade se agasalhava, os tres desceram.

No meio da escada Julião parou, e cruzando os braços:

--Ora aqui vou eu entre os representantes dos dous grandes movimentos de Portugal desde 1820. A Litteratura--e comprimentou Ernestinho--e o Constitucionalismo!--e curvou-se para o Conselheiro.

Os dous riram, lisongeados.

--E o amigo Zuzarte?

--Eu?--E baixando a voz:--Até ha dias um revolucionario terrivel. Mas agora...

--O quê?

--Um amigo da ordem--gritou com jubilo.

E desceram, contentes de si e do seu paiz, para se metterem na tipoia do Grande Homem!

XVII

Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde não tinha apparecido nos ultimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presença dos conhecidos ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que _todo o mundo sabia_; nos olhares mais naturaes via uma intenção maligna, e nos apertos de mão mais sinceros uma ironica pressão de pezames; as carruagens mesmo que passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao _rendez-vous_, e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do _Paraiso_. Voltou mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada. E logo do corredor ao entrar ouviu Luiza cantarolando, como outr'ora, a _Mandolinata_!

Estava-se a vestir.

--Como estás tu?--perguntou, pondo a um canto a sua bengala.

--Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda...

Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno.

--E tu?--perguntou-lhe ella.

--P'ra aqui ando--disse tão desconsoladamente que Luiza pousou o pente, e com os cabellos soltos veio pôr-lhe as mãos nos hombros, muito carinhosa:

--Que tens tu? Tu tens alguma cousa. Estranho-te tanto ha dias! Não és o mesmo! Ás vezes estás com uma cara de réo... Que é? Dize.

E os seus olhos procuravam os d'elle, que se desviavam perturbados.

Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo á «sua mulherzinha».

--Dize. Que tens?

Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resolução violenta:

--Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, pódes ouvir... Luiza! vivo n'um inferno ha duas semanas. Não posso mais... Tu estás boa, não é verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade!

E estendeu-lhe a carta de Bazilio.

--O que é?--fez ella muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mão.

Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, n'um relance adivinhou-a. Fixou Jorge um momento d'um modo desvairado, estendeu os braços sem poder fallar, levou as mãos á cabeça com um gesto ancioso como se se sentisse ferida, e oscillando, com um grito rouco, cahiu sobre os joelhos, ficou estirada no tapete.

Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Elle quiz que Joanna corresse a chamar Sebastião; e ficou, como petrificado, junto ao leito, olhando-a, em quanto Marianna toda tremula desatacava os espartilhos da senhora.

Sebastião veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o respirar; apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ella:

--Luiza, ouve, falla! Não, não tem duvida. Mas falla. Dize, que tens?

Ao ouvir a voz d'elle desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos sacudiam-lhe o corpo. Sebastião correu a buscar Julião.

Luiza parecia adormecida agora, immovel, branca como cera, as mãos pousadas sobre a colcha; e duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas faces.

Um trem parou. Julião appareceu esbaforido.

--Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está muito mal!--disse Jorge.

Fizeram-lhe respirar mais ether; despertou outra vez. Julião fallou-lhe, tomando-lhe o pulso.

--Não, não, ninguem!--murmurou ella, retirando a mão. Repetiu com impaciencia:--Não, vão-se, não quero...--As suas lagrimas redobravam. E como elles sahiam da alcova para a não excitar contrariando-a, ouviram-na chamar:--Jorge!

Elle ajoelhou-se ao pé da cama, e fallando-lhe junto do rosto:

--Que tens tu? Não se falla mais em tal. Acabou-se. Não estejas doente. Juro-te, amo-te... Fosse o que fosse, não me importa. Não quero saber, não.

E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mão na bocca:

--Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa, que não soffras! Dize que estás boa! Que tens? Vamos ámanhã para o campo, e esquece-se tudo. Foi uma cousa que passou...

Ella disse apenas com a voz sumida:

--Oh! Jorge! Jorge!

--Bem sei... Mas agora vaes ser feliz outra vez... Dize, que sentes?

--Aqui--disse ella, e levava as mãos á cabeça.--Dóe-me!

Elle ergueu-se para chamar Julião, mas ella reteve-o, attrahiu-o; e devorando-o com olhos onde a febre se accendia, adiantando o rosto, estendia-lhe os labios. Elle deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio de perdão.

--Oh! minha pobre cabeça!--gritou ella.

As fontes latejavam-lhe, e uma côr ardente, sêcca, esbrazeava-lhe o rosto.

Como era habituada a enxaquecas, Julião traquillisou-os; recommendou um socego immovel e sinapismos de mostarda aos pés,--até que elle voltasse.

Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de presentimentos, de sustos, suspirando ás vezes.

Eram então quatro horas; cahia uma chuva miudinha, ennevoada; a alcova tinha uma luz lugubre.

--Não ha-de ser nada...--dizia Sebastião.