O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 28
De resto, tinham-lhe promettido a primeira vagatura. O posto medico não era mau... Em definitiva, a situação melhorára...
--Mas mesquinha, mesquinha! Não sáio do atoleiro...
Estava farto de medicina, disse depois d'um silencio. Era um bêco sem sahida. Devia-se ter feito advogado, politico, intrigante. Tinha nascido p'ra isso!
Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o cigarro na mão, a voz cortante, expoz um plano de ambição:--O paiz está a preceito para um intrigante com vontade! Esta gente toda está velha, cheia de doenças, de catarrhos de bexiga, de antigas syphilis! tudo isto está pôdre por dentro e por fóra! o velho mundo constitucional vai a cahir aos pedaços... Necessitam-se homens!
E plantando-se diante de Sebastião:
--Este paiz, meu caro amigo, tem-se governado até aqui com _expedientes_. Quando vier a revolução contra os _expedientes_, o paiz ha-de procurar quem tenha os _principios_. Mas quem tem ahi principios? Quem tem ahi quatro principios? Ninguem; teem dividas, vicios secretos, dentes postiços; mas principios, nem meio! Por consequencia se houver tres patuscos que se dêem ao trabalho de estabelecer meia duzia de principios sérios, racionaes, modernos, positivos, o paiz tem se atirar de joelhos, e supplicar-lhes: Senhores, fazei-me a honra insigne de me pôr o freio nos dentes! Ora eu devia ser um d'estes. Nasci p'ra isso! E secca-me a idéa de que em quanto outros idiotas, mais astutos e mais previdentes, hão-de estar no poleiro a reluzir ao sol, _al hermoso sol português_, como se diz nas zarzuelas, eu hei-de estar a receitar cataplasmas a velhas devotas, ou a ligar as rupturas d'algum desembargador caduco.
Sebastião calado pensava na outra, morta em cima.
--Estupido paiz, estupida vida!--rosnou Julião.
Mas uma carruagem entrou na rua, parou á porta.
--Chegam os principes!--disse Julião. Desceram logo.
Jorge ajudava Luiza a sahir do trem, quando Sebastião, abrindo a porta, bruscamente:
--Houve cá grande novidade!
--Fogo?--gritou Jorge voltando-se aterrado.
--A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma--disse a voz de Julião da sombra da porta.
--Oh c'os diabos!--E Jorge atarantado procurava á pressa na algibeira troco para o cocheiro.
--Ai, eu já não entro!--exclamou logo D. Felicidade, mostrando á portinhola a sua larga face envolvida n'uma manta branca.--Eu já não entro!
--Nem eu!--fez Luiza, toda tremula.
--Mas para onde queres que vamos, filha?--exclamou Jorge.
Sebastião lembrou que podiam ir para casa d'elle. Tinha o quarto da mamã, era só pôr lençoes na cama.
--Vamos, sim! Vamos, Jorge! É o melhor!--supplicou Luiza.
Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao alto da rua, ao vêr aquelle grupo junto á lanterna do trem, parou. E Jorge emfim, instado, muito contrariado, consentiu.
--Diabo da mulher, morrer a semelhante hora! A carruagem vai-a levar, D. Felicidade...
--E a mim, que estou em chinellas!--acudiu Julião.
D. Felicidade lembrou então, como christã, que era necessario alguem, para velar a morta...
--Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade!--exclamou Julião, entrando logo para a carruagem, batendo com a portinhola.
Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religião! ao menos pôr duas velas, mandar chamar um padre!...
--Largue, cocheiro!--berrou Julião, impaciente.
A carruagem deu a volta. E D. Felicidade á portinhola, apesar de Julião que a puxava pelos vestidos, gritava:
--É um peccado mortal! É uma irreverencia! Ao menos duas velas!
O trem partiu a trote.
Luiza agora tinha escrupulos: realmente podia-se mandar chamar alguem...
Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, áquella hora? Que beatice! Estava morta, acabou-se! Enterrava-se... Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez camara ardente tambem? Queria ella ir velal-a?...
--Então, Jorge, então!...--murmurava Sebastião.
--Não, é de mais! É vontade de crear embaraços, que diabo!
Luiza baixava a cabeça: e, em quanto Jorge, praguejando, ficou atraz a fechar a porta da casa, ella foi descendo a rua pelo braço de Sebastião.
--Estourou de raiva--disse-lhe elle baixinho.
Toda a rua Jorge resmungou. Que idéa, irem dormir agora fóra de casa! Realmente era levar muito longe as mariquices...!
Até que Luiza lhe disse, quasi chorando:
--Vê se me queres torturar mais, e fazer-me mais doente, Jorge!
Elle calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastião, para a socegar, propoz que viesse a tia Vicencia, a preta, velar a Juliana.
--Era talvez melhor--murmurou Luiza.
Chegaram á porta de Sebastião. O _frou-frou_ do vestido de sêda de Luiza, áquella hora, na sua casa, dava uma commoção a Sebastião: a mão tremia-lhe ao accender as velas da sala. Foi acordar a tia Vicencia para fazer chá; tirou elle mesmo os lençoes dos bahús, apressado, feliz d'aquella hospitalidade. Quando voltou á sala, Luiza estava só, muito pallida, ao canto do sophá.
--Jorge?--perguntou elle.
--Foi ao seu escriptorio, Sebastião, escrever ao parocho para o enterro...--E com os olhos brilhantes, n'uma voz sumida e assustada:--Então?
Sebastião tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. Ella agarrou-a sofregamente--e com um movimento brusco, tomou-lhe a mão, e beijou-lh'a.
Mas Jorge entrava, sorrindo.
--Então agora está mais descançada, a menina?
--Inteiramente--disse ella, com um suspiro de allivio.
Foram tomar chá. Sebastião contou a Jorge, corando um pouco, a maneira como entrára em casa, a Juliana lhe estivera a dizer que fôra despedida, e fallando, exaltando-se, zás, de repente, cahira para o lado morta...
E acrescentou:
--Coitada!
Luiza via-o mentir, olhando-o com adoração.
--E a Joanna?--perguntou Jorge, de repente.
Luiza, sem se perturbar, respondeu:
--Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licença p'ra ir vêr uma tia que está muito mal, p'ra os lados de Bellas... Diz que volta ámanhã... Mais uma gota de chá, Sebastião...
Esqueceram-se depois de mandar a Vicencia--e ninguem velou a morta.
XVI
Luiza passou a noite ás voltas, com febre. Jorge de madrugada ficou assustado da frequencia do seu pulso e do calor secco da pelle.
Elle mesmo, muito nervoso, não pudera dormir.
O quarto, onde se não accendera luz havia muito, tinha uma frialdade deshabitada: na parede, junto ao tecto, havia manchas de humidade: e a cama antiga de columnas torneadas sem cortinados, o velho tremó do seculo passado com o seu espelho embaciado davam, á luz bruxuleante da lamparina, um sentimento triste de convivencias extinctas. O achar-se alli com sua mulher, n'uma cama alheia, trazia-lhe, sem saber porque, uma vaga saudade; parecia-lhe que se dera na sua vida uma alteração brusca--e que, semelhante a um rio a que se muda o leito, a sua existencia, desde essa noite, começaria a correr entre aspectos differentes. O nordeste fazia bater os caixilhos da vidraça, e uivava encanado na rua.
Pela manhã, Luiza não se pôde levantar.
Julião, chamado á pressa, tranquillisou-os:
--É uma febresita nervosa. Quer socego, não vale nada. Foi o medosinho d'hontem, hein?
--Sonhei toda a noite com ella--disse Luiza.--Que tinha resuscitado... Que horror!
--Ah! póde estar socegada... E já a aviaram, a mulher?
--O Sebastião lá anda com a massada--disse Jorge.--E eu vou dar uma vista d'olhos.
Na rua já se sabia a morte da _tripa-velha_.
A mulher que a veio amortalhar, uma matrona muito picada das bexigas, com os olhos avermelhados da paixão da aguardente, era conhecida da snr.^a Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol, á porta do estanque:
--Muito que fazer agora, snr.^a Margarida, hein?
--Bastante, bastante, snr.^a Helena--disse a amortalhadeira com a voz um pouco rouca.--No inverno sempre ha mais obra. Mas tudo gente velha, com os frios. Nem um corpinho bonito p'ra vestir...
A snr.^a Margarida tinha predilecções artisticas. Gostava d'um bonito corpo de dezoito annos, uma mocinha fresca para lavar, escarolar, enfeitar... Entrouxava á má cara a gente velha. Mas com as raparigas novas esmerava-se: acatitava as pregas da mortalha; calculava o _chic_ d'uma flôr, d'um laço; trabalhava com os requintes ajanotados d'uma modista do sepulchro.
A estanqueira contou-lhe muitas particularidades sobre a Juliana, os favores dos patrões, as tafularias d'ella, os luxos do quarto tapetado... A snr.^a Margarida dizia-se «banzada». E para quem iria agora tudo aquillo?--perguntavam.--A _tripa-velha_ não tinha parentes...
--Era uma riqueza p'ra a minha Antoninha!--disse a amortalhadeira, traçando o chale com tristeza.
--Como vai ella, a pequena?...
--Aquillo vai mal, snr.^a Helena. Aquella cabeça douda!--E exhalando a sua dôr com loquacidade:--Deixar o brazileiro que a trazia nas palminhas... E por quem? Por aquelle desalmado, que lhe come tudo, que já lhe arranjou um filho, e que a derrêa com pau... Mas então, as raparigas são assim... Vão atraz do palmo de cara... Que elle é bonito rapaz! Mas um bebedo!... Coitada!... Pois vou vestir a boneca, snr.^a Helena.--E entrou na casa compungidamente.
O padre já chegára tambem. Estava na sala com Sebastião, que conhecia d'Almada, e fallava de lavoura, d'enxertos, das regas, n'uma voz grossa--passando, com um gesto lento da sua mão cabelluda, o lenço enrolado por debaixo do nariz. As janellas em toda a casa estavam abertas ao sol muito dôce. Os canarios chilreavam.
--E estava ha muito tempo na casa, a defunta?--perguntou o padre, a Jorge que passeava pela sala, fumando.
--Ha quasi um anno.
O padre desdobrou lentamente o lenço, e sacudindo-o, antes de se assoar:
--A sua senhora ha-de sentir muito... É um tributo universal!...
E assoou-se, com estrondo.
A Joanna, então, de chale e lenço, appareceu, em bicos de pés. Soubera pelos visinhos que a Juliana «arrebentára», que os senhores estavam em casa do snr. Sebastião. Vinha de lá. Luiz mandára-a entrar no quarto. Quando a viu doente, a sua rica senhora, lagrimejou muito. Luiza disse-lhe--«que agora estava tudo como d'antes, podia voltar...»
--E ouça, Joanna, se o snr. Jorge lhe perguntar... que esteve em Bellas, com a tia...
A rapariga fôra logo buscar a trouxa e vinha installar-se--um pouco assustada da morte em casa.
D'ahi a pouco o Paula bateu discretamente á porta.
Alli vinha offerecer-se para o que fosse necessario n'aquelle transe! E tirando e pondo rapidamente o boné, raspando o pé, dizia com a sua voz catarrhosa:
--Lamento a desgraça, lamento a desgraça! Todos somos mortaes...
--Bem, bem, snr. Paula, não é necessario nada--disse Jorge.--Obrigado!
E fechou bruscamente a cancella.
Estava impaciente por se desembaraçar «d'aquella estopada»: e mesmo como o enfastiavam as martelladas espaçadas dos homens pregando o caixão, em cima, chamou a Joanna:
--Diga a essa gente que se avie. Não vamos ficar aqui toda a vida!
A Joanna foi logo dizer que o senhor estava n'um phrenesi! Tinha-se feito já intima da snr.^a Margarida. A amortalhadeira fôra mesmo com ella á cozinha para tomar uma «sustanciasinha». Como o lume estava apagado, contentou-se com sopas de pão em vinho.
--Sopinha de burro--dizia, fazendo estalar a lingua.
Mas estava enojada com a defunta! Nunca vira bicho mais feio. Um corpo de sardinha secca! E pondo um olhar complacente nas bellas fórmas de Joanna:--A menina, não. A menina tem-me o ar de ter muito bom corpo...--E parecia calcular como talharia a mortalha para aquellas linhas robustas.
Joanna disse escandalisada:
--Longe vá o agouro, cruzes!
A outra sorriu; faltavam-lhe dous dentes: e aflautando a voz:
--Tem-me passado pela mão muita gente fina, minha menina. Mais uma gotinha de vinho, faz favor? É do Cartaxo, não? é muito avelludado! rica gota!
Emfim, com grande satisfação de Jorge, ás quatro horas os homens desceram o caixão. A visinhança estava pelas portas. O Paula mesmo, por fanfarronada, disse com dous dedos adeus ao esquife, murmurando:
--Boa viagem!
Jorge em cima, ao sahir, perguntou a Joanna:
--E vossê não tem medo de ficar aqui só?
--Eu não, meu senhor. Quem vai não volta!
Tinha medo, com effeito; mas preparava-se a passar a noite com o Pedro, e batia-lhe o coração de alegria de «terem a casa por sua» até de manhã, e de se poderem rolar amorosamente, como fidalgos, por cima do divan da sala.
Jorge voltou com Sebastião para casa, e apenas entrou no quarto, onde Luiza estava deitada:
--Tudo prompto--disse, esfregando as mãos.--Lá vai para o Alto de S. João, devidamente acondicionada. _Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum!_
A tia Joanna, que estava á cabeceira de Luiza, acudiu:
--Ai, quem lá vai, lá vai... Mas boa mulher, não era ella!
--Era um bom estafermo--disse Jorge.--Esperemos que a esta hora esteja a ferver na caldeira de Pero Botelho. Não é verdade, tia Joanna?
--Jorge!--fez Luiza reprehensivamente. E julgou dever rezar-lhe baixo dous padre-nossos por alma.
Foi tudo o que a terra deu na sua morte áquella que ia rolando a essa hora, ao trote de duas velhas eguas, para a valla dos pobres, e que fôra na vida Juliana Couceiro Tavira!
No dia seguinte Luiza estava melhor: fallaram mesmo, com grande desconsolação da tia Joanna, em voltar para casa. Sebastião não dizia nada, mas quasi desejava secretamente que uma convalescença a retivesse alli semanas indefinidas. Ella parecia tão agradecida! Tinha olhares tão reconhecidos, que só elle comprehendia! E era tão feliz tendo-a alli e a Jorge na sua casa! Conferenciava com a tia Vicencia sobre o jantar; andava pelos corredores e pela sala, com respeito, quasi em bicos de pés, como se a presença d'ella santificasse a casa; enchia os vasos de camelias e de violetas; sorria beatamente ao vêr Jorge, á sobremesa, saborear e gabar o seu velho cognac; sentia alguma cousa de bom acalental-o como um manto acolchoado e macio; e já pensava que quando ella partisse tudo lhe pareceria mais frio, e com uma tristeza de ruina!
Mas d'ahi a dous dias voltaram para casa.
Luiza ficou muito agradada com a criada nova. Fôra Sebastião que a arranjára. Era uma rapariguita aceadinha e branca, com grandes olhos bonitos e pasmados, um ar amoravel: chamava-se Marianna; e foi logo correndo dizer a Joanna «que morria pela senhora! tinha uma carinha d'anjo! que linda que era!»
Jorge logo n'essa manhã mandou os dous bahus de Juliana á tia Victoria.
Luiza, quando elle sahiu á tardinha, fechou-se no quarto, com a carteirinha de Juliana, correu os transparentes por precaução, accendeu uma vela, e queimou as cartas. As mãos tremiam-lhe; e via, com os olhos marejados de lagrimas, a sua vergonha, a sua escravidão irem-se, dissiparem-se n'um fumo alvadio! Respirou completamente! Emfim! E fôra Sebastião, aquelle querido Sebastião!
Foi então á sala, á cozinha, vêr a casa: tudo lhe pareceu novo, a sua vida cheia de doçura: abriu todas as janellas; experimentou o piano; rasgou mesmo em pedaços, por superstição, a musica da _Médjé_, que lhe dera Bazilio; conversou muito com a Marianna; e saboreando o seu caldo de gallinha de convalescente, com a face alumiada da felicidade:
--Que bem que vou passar agora!--pensava.
Quando sentiu no corredor os passos de Jorge que entrava, correu, deitou-lhe os braços ao pescoço, e com a cabeça no hombro d'elle:
--Estou tão contente hoje! E se tu soubesses, é tão boa rapariga a Marianna!
Mas n'essa noite a febre voltou. Julião, de manhã, achou-a peor.
--Crescimentos...--disse descontente.
Estava receitando, quando D. Felicidade entrou, muito excitada. Ficou toda surprehendida de vêr Luiza doente; e debruçando-se sobre ella, disse-lhe logo ao ouvido:
--Tenho que te contar!
Apenas Jorge e Julião sahiram, desabafou, sentada aos pés da cama,--com uma voz ora baixa pela gravidade da confidencia, ora aguda pelo impeto da indignação:
Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O homem que mandára a Tuy, o grande ladrão, tinha escripto á Gertrudes, á criada, que não estava resolvido a voltar a Lisboa; que a mulher de virtude mudára de povoação; que elle não queria saber mais d'esse negocio e que até o achava exquisito; que offerecia o seu prestimo em Tuy,--tudo isto n'uma boa letra d'escrevente publico, n'um portuguez horrivel,--e do dinheiro nem palavra!
--Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu se não fosse pela vergonha, ia direita á policia... Ai! os gallegos p'ra mim acabaram! Por isso o Conselheiro não se chegava ao rego! Pudera! A mulher nunca lançou a sorte!...--Porque se já não acreditava na honestidade dos gallegos, não perdera a fé no poder das bruxas.
Que ella não era pelas oito moedas! Era pelo ferro! E depois, quem sabe onde estaria agora a mulher! Ai, era d'endoudecer!... Que te parece, hein?
Luiza encolheu os hombros: muito abafada na roupa, as faces escarlates, cerravam-se-lhe os olhos n'uma somnolencia pesada: D. Felicidade aconselhou-lhe vagamente um «suadouro», suspirando; e como Luiza não lhe podia dar consolações, sahiu para ir á Encarnação desabafar com a Silveira.
N'essa madrugada Luiza peorou. A febre recrudecera. Jorge, inquieto, vestiu-se á pressa, ás nove horas da manhã, foi buscar Julião. Descia a escada rapidamente, abotoando ainda o paletot, quando o carteiro subia, tossindo o seu catarrho.
--Cartas?--perguntou Jorge.
--Uma p'ra a senhora--disse o homem.--Ha-de ser p'ra a senhora...
Jorge olhou o enveloppe: tinha o nome de Luiza, vinha de França.
--De quem diabo é isto?--pensou. Metteu-a no bolso do paletot, e sahiu.
D'ahi a meia hora voltava com Julião, n'um trem.
Luiza dormitava, amodorrada.
--É preciso cautela... Vamos a vêr...--murmurou Julião, coçando devagar a cabeça, em quanto do outro lado do leito Jorge o olhava anciosamente.
Receitou e ficou para almoçar com Jorge. Estava um dia frio e pardo. A Marianna, abafada n'um casabeque, servia, com os dedos vermelhos, inchados de frieiras. E Jorge sentia-se entristecer, como se toda a nevoa do ar se lhe fosse lentamente depositando e condensando n'alma.
A que se podia attribuir semelhante febre? dizia, muito desconsolado. Tão extraordinario! Havia seis dias, ora melhor, ora peor...
--Estas febres veem por tudo--replicou Julião, partindo tranquillamente uma torrada.--Ás vezes por uma corrente d'ar ás vezes por um desgosto. Tenho eu, por exemplo, um caso curioso: um sujeito, um Alves, que esteve p'ra fallir, e que viveu, coitado, durante dous mezes em torturas. Ha duas semanas, por um golpe de fortuna,--a velhaca ás vezes tem d'estes caprichos,--arranjou todos os seus negocios, viu-se livre. Pois senhor, desde então tem uma febre assim, tortuosa, complexa, com symptomas disparatados... O que é? É que a excitação nervosa abateu, e a felicidade trouxe-lhe uma revolução no sangue. Póde muito bem dar á casca. Faz então a fallencia geral, a grande, aquella em que o crédor é implacavel, saca á vista, e... _per omnia s[ae]cula!_
Ergueu-se, e accendendo o cigarro:
--Em todo o caso um repouso absoluto. É necessario ter-lhe o espirito em algodão em rama. Nada de palestra, nada de phrases, e se tiver sêde, limonada. Até logo!
E sahiu, calçando as luvas pretas que usava agora desde que pertencia ao Posto Medico.
Jorge voltou á alcova: Luiza ainda dormitava. Marianna sentada ao pé n'uma cadeirinha baixa, com o rostinho muito triste, não tirava de Luiza os seus grandes olhos vagamente espantados.
--Tem estado muito inquieta--murmurou.
Jorge apalpou a mão de Luiza que ardia, conchegou-lhe a roupa. Beijou-a devagarinho na testa, foi cerrar as portas da janella, defronte da alcova.--E passeando no escriptorio, voltavam-lhe as palavras de Julião: são febres que veem por um desgosto! Pensava na historia do negociante, recordava aquelle estado de abatimento e de fraqueza de Luiza que o preoccupára tanto, ultimamente, tão inexplicavel! Ora, tolices! Desgosto de quê? Em casa de Sebastião estivera tão animada! Nem a morte da outra lhe fizera abalo!--De resto acreditava pouco nas _febres de desgosto_! Julião tinha uma medicina litteraria. Pensou mesmo que seria mais prudente chamar o velho dr. Caminha...
Ao metter a mão no bolso, então, os seus dedos encontraram uma carta; era a que o carteiro lhe dera, de manhã, para Luiza. Tornou a examinal-a com curiosidade; o sobrescripto era banal, como os que ha nos cafés ou nos restaurantes; não conhecia a letra; era d'homem, vinha de França... Atravessou-o um desejo rapido de a abrir. Mas conteve-se, atirou-a para cima da mesa, embrulhou devagar um cigarro.
Voltou á alcova. Luiza permanecia na sua modorra: a manga do chambre arregaçada descobria o braço mimoso, com a sua pennugem loura; a face escarlate reluzia; as pestanas longas pousavam pesadamente, no adormecimento das palpebras finas; um annel do cabello cahira-lhe sobre a testa, e pareceu a Jorge adoravel e tocante com aquella côr, a expressão da febre. Pensou, sem saber porque, que outros a deveriam achar linda, desejal-a, dizer-lh'o, se podessem... Para que lhe escreviam de França, quem?
Voltou ao escriptorio, mas aquella carta sobre a mesa irritava-o: quiz lêr um livro, atirou-o logo impaciente; e poz-se a passear, torcendo muito nervoso o forro das algibeiras.
Agarrou então a carta, quiz vêr, através do papel delgado do enveloppe; os seus dedos, mesmo irresistivelmente, começaram a rasgar um angulo do sobrescripto. Ah! Não era delicado aquillo!... Mas a curiosidade, que governava o seu cerebro, suggeriu-lhe toda a sorte de raciocinios, com uma tentação persuasiva:--Ella estava doente, e podia ter alguma cousa urgente; se fosse uma herança? depois ella não tinha segredos, e então em França! Os seus escrupulos eram pueris! Dir-lhe-hia que a abrira por engano. E se a carta contivesse o segredo d'aquelle desgosto, do _desgosto_ das theorias de Julião!... Devia abril-a então para a curar melhor!
Sem querer achou-se com a carta desdobrada na mão. N'um relanço avido devorou-a. Mas não comprehendeu bem; as letras embrulhavam-se; chegou-se á janella, releu devagar:
«Minha querida Luiza.
«Seria longo explicar-te, como só antes d'hontem em Nice--d'onde cheguei esta madrugada a Paris--recebi a tua carta, que pelos carimbos vejo que percorreu toda a Europa atraz de mim. Como já lá vão dous mezes e meio que a escreveste, imagino que te arranjaste com a mulher, e que não precisas do dinheiro. De resto se por acaso o queres, manda um telegramma e tens-l'o ahi em dous dias. Vejo pela tua carta que não acreditaste nunca que a minha partida fosse motivada por negocios. És bem injusta. A minha partida não te devia ter tirado, como tu dizes, _todas as illusões sobre o amor_, porque foi realmente quando sahi de Lisboa que percebi quanto te amava, e não ha dia, acredita, em que me não lembre do _Paraiso_. Que boas manhãs! Passaste por lá por acaso alguma outra vez? Lembras-te do nosso _lunch_? Não tenho tempo para mais. Talvez em breve volte a Lisboa. Espero vêr-te, porque sem ti Lisboa é para mim um desterro.
«Um longo beijo do
«Teu do C.
«_Bazilio_».
Jorge dobrou o papel, lentamente, em duas, em quatro dobras, atirou-o para cima da mesa, disse alto:
--Sim, senhor! bonito!
Encheu o cachimbo de tabaco machinalmente, com os olhos vagos, os beiços a tremer: deu alguns passos incertos pelo escriptorio:--de repente arremessou o cachimbo que despedaçou um vidro da janella, bateu com as mãos desvairado, e atirando-se de bruços para cima da mesa, rompeu a chorar, rolando a cabeça entre os braços, mordendo as mangas, batendo com os pés, louco!
Ergueu-se subitamente, agarrou a carta, ia com ella á alcova de Luiza. Mas a lembrança das palavras de Julião immobilisou-o: que esteja socegada, nada de phrases, nenhuma excitação! Fechou a carta n'uma gaveta, metteu a chave na algibeira. E de pé, a tremer, com os olhos raiados de sangue, sentia idéas insensatas alumiarem-lhe bruscamente o cerebro, como relampagos n'uma tormenta--matal-a, sahir de casa, abandonal-a, fazer saltar os miolos...
A Marianna bateu ligeiramente á porta, disse-lhe que a senhora o chamava.
Uma onda de sangue subiu-lhe á cabeça; fitava Marianna, estupido, batendo as palpebras:
--Já vou--disse com a voz rouca.