O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Part 27

Chapter 273,704 wordsPublic domain

--D'appetite--affirmava D. Felicidade, revirando os olhos.

Certas agudezas delicadas dos flautins enterneciam Luiza; e a casa, Juliana, as suas miserias, tudo lhe parecia recuado, no fundo d'uma noite esquecida.

Mas o jovial Diabo adiantava-se por entre os grupos, e logo, com gestos aduncos e rapaces, cantou o _Dio del oro_. A sua voz arremessada affirmava, n'um tom brutal, o poder do dinheiro; nas massas da instrumentação passavam sonoridades claras e tilintantes d'um remexer sofrego de thesouros; e as notas altas finaes cahiam, d'um modo curto e secco, como martelladas triumphantes cunhando o divino ouro!

Luiza então viu D. Felicidade perturbar-se; e seguindo o seu olhar negro, subitamente avivado, descobriu na geral a calva polida do conselheiro Accacio,--que comprimentava, promettendo generosamente, com a mão espalmada, a sua visita proxima.

Veio, apenas o pano desceu, e felicitou-as immediatamente por terem escolhido aquella noite: a opera era das melhores e estava gente muito fina. Lamentou ter perdido o primeiro acto;--ainda que não gostasse extremamente da musica, apreciava-o por ser muito philosophico. E, tomando da mão de Luiza o binoculo, explicou os camarotes, disse os titulos, citou as herdeiras ricas, nomeou os deputados, apontou os litteratos.--Ah! conhecia bem S. Carlos! Havia dezoito annos!

D. Felicidade, rubra, admirava-o. O Conselheiro sentia que não podessem vêr o camarote real: a rainha, como sempre, estava adoravel.

Sim? Como estava?

--De velludo. Não sabia se rôxo, se azul escuro. Affirmar-se-hia, e viria dizer...

Mas quando o pano subiu, ficou sentado por traz de Luiza começando logo a explicar--que aquella (Siebel, colhendo flôres no jardim de Margarida) posto que segunda dama, ganhava quinhentos mil reis por mez...

--Mas apesar d'estes ordenadões morrem quasi sempre na miseria--disse com reprovação.--Vicios, cêas, orgias, cavalgadas...

A portinha verde do jardim abriu-se, e Margarida entrou devagar, desfolhando o malmequer da legenda, caracterisada de virgem, com as duas longas tranças louras. Scismava, fallava só, amava: a dôce creatura sente em volta de si o ar pesado, e quereria bem que sua mãi voltasse!

Os olhos de Luiza encheram-se então de melancolia, com a saudosa ballada do rei de Thule; aquella melodia dava-lhe a vaga sensação d'um pallido paiz d'amores espirituaes, banhado de luares frios, longe, no Norte, junto a um mar gemente--ou de tristezas aristocraticas, scismadas n'um terraço, sob a sombra d'um parque...

Mas o Conselheiro preveniu-as, dizendo:

--Agora é que é! Reparem. Agora é o ponto capital.

De joelhos, diante do cofre das joias, a dama requebrava-se, garganteando; apertava nas mãos o collar, extasiada; punha os brincos com denguices delirantes; e da sua bocca muito aberta sahia um canto trinado, d'uma crystallinidade aguda--entre o vago susurro da admiração burgueza.

O Conselheiro disse discretamente:

--Bravo! Bravo!

E, excitado, dissertou: aquillo era o melhor da opera! Era alli que se via a força das cantoras...

D. Felicidade quasi tinha medo que lhe estalasse alguma cousa na garganta. Preoccupava-se tambem com as joias. Seriam falsas? Seriam d'ella?

--É p'ra a tentar, não é verdade?

--É um drama allemão--disse-lhe baixo o Conselheiro.

Mas Mephistopheles ia arrastando a boa Martha; Fausto e Margarida perdiam-se nas sombras cumplices do jardim aphrodisiaco,--e o Conselheiro observou que todo aquelle acto era um pouco fresco.

D. Felicidade murmurou-lhe--entre reprehensiva e extatica:

--Quantas scenas não terá tido assim, maganão!

O Conselheiro fitou-a, indignado:

--O quê, minha senhora! levar a deshonra ao seio d'uma familia!

Luiza fez-lhe _chut_, sorrindo. Interessava-se agora. Tinha escurecido; uma facha de luz electrica enchia o jardim d'um vago luar azulado, onde os maciços arredondados se recortavam em pastas escuras; e Fausto e Margarida enlaçados, quasi desfallecidos, soltavam d'um modo expirante o seu duetto: uma sensualidade delicada e moderna, com elances d'um requinte devoto, arrastava-se na orchestra gemente; o tenor esforçava-se, agarrando o peito, com um geito morbido dos quadris, o olhar anuviado: e desprendendo-se da languida arcada dos violoncellos, o canto subia para as estrellas...

Al pallido chiarore Dei astri d'oro.

Mas o coração de Luiza batia precipitadamente; vira-se de repente sentada no divan, na sua sala, ainda tomada dos soluços do adulterio, e Bazilio, com o charuto ao canto da bocca, batia distrahido no piano aquella aria--_Al pallido chiarore dei astri d'oro_. D'essa noite tinha vindo toda a sua miseria!--e subitamente, como longos véos funebres que descem e abafam, as recordações de Juliana, da casa, de Sebastião, vieram escurecer-lhe a alma.

Olhou o relogio. Eram dez horas. Que se passaria?

--Estás incommodada?--perguntou-lhe Jorge.

--Um pouco.

Margarida apoiava-se, expirante de voluptuosidade, ao rebordo da sua janellinha. Fausto corre. Enlaçam-se. E entre as gargalhadas do Diabo e o roncar dos rebecões--o pano desceu, pondo uma reticencia pudica...

D. Felicidade, abrazada, quiz agua. Jorge apressou-se: queria bolos? neve? A excellente senhora hesitou; o _chic_ da neve attrahia-a, mas cohibiu-se com terror da colica. Veio sentar-se ao fundo ao pé de Luiza, e ficou a olhar, vagamente cançada; havia um susurro lento; bocejava-se discretamente; e o fumo dos cigarros, entrando, de fóra, fazia uma nevoa apenas perceptivel que enchia a sala, ia prender-se ao lustre, embaciando ligeiramente as luzes. Quando Jorge sahiu o Conselheiro acompanhou-o: ia acima tomar o seu copo de gelatina...

--É a minha cêa em dia de S. Carlos--disse.

Voltou d'ahi a pouco, limpando os beiços ao lenço de sêda, ter com Jorge que fumava no pequeno patamar junto á entrada das cadeiras:

--Veja isto, Conselheiro--disse-lhe logo Jorge, indignado, mostrando a parede--que escandalo!

Tinham desenhado, com o charuto apagado sobre a parede caiada, enormes figuras obscenas: e alguem, prudente e amigo da clareza, ajuntára por baixo as designações sexuaes com uma boa letra cursiva.

E Jorge, revoltado:

--E passam por aqui senhoras! Vêem, lêem! Isto só em Portugal!...

O Conselheiro disse:

--A autoridade devia intervir de certo...--Acrescentou com bonhomia:--São rapazes, com o charuto. Apreciam muito esta distracção...--E sorrindo, recordando-se:--Uma occasião mesmo, o conde de Villa Rica, que tem graça, muita graça, insistiu commigo, dando-me o charuto, para que eu fizesse um desenho...--E mais baixo:--Eu dei-lhe uma lição severa. Tomei o charuto...

--E fumou-o?

--Escrevi.

--Uma obscenidade?

O Conselheiro, recuando, exclamou com severidade:

--Jorge, conhece o meu caracter! Pois suppõe...?--E acalmando-se:--Não, tomei o charuto e escrevi com mão firme: HONRA AO MERITO!

Mas a campainha retiniu, entraram no camarote. Luiza incommodada não quiz sentar-se á frente. E o Conselheiro, grave, tomou o seu lugar--defronte de D. Felicidade. Foi para a nutrida senhora um momento feliz, de um gozo requintado. Estavam _ambos_, alli, como noivos! O seu peito abundante arfava: via-se a sahirem, mais tarde, de braço dado, entrarem n'um _coupé_ estreito, pararem á porta da casa conjugal, pisarem o tapete da alcova... Tinha um suor á raiz dos cabellos--e vendo o Conselheiro sorrir-lhe, amavel, com a sua calva toda luzidia ao gaz, sentia um reconhecimento apaixonado pela mulher de virtude que, áquella hora, no fundo da Galliza, estava cravando agulhas n'um coração de cera!...

Mas de repente o Conselheiro bateu na testa, arremessou-se sobre o chapéo, sahiu impetuosamente. Olharam-se inquietos. D. Felicidade empallideceu: seria alguma dôr? Santo Deus! Já murmurava baixo uma reza.

Mas viram-no entrar logo, e dizer com uma voz triumphante:

--D'azul escuro!

Abriram grandes olhos, sem comprehender.

--Sua magestade a rainha! Tinha promettido verifical-o, cumpri-o!

E sentou-se com solemnidade, dizendo a Luiza:

--Lamento que se esconda n'esse recanto, D. Luiza! Na sua idade! Na flôr dos annos! Quando tudo na vida é côr de rosa!

Ella sorriu. Estava agora muito sobresaltada. A cada momento olhava o relogio. Sentia-se doente: os pés arrefeciam-lhe, uma vaga febre fazia-lhe a cabeça pesada. O seu pensamento estava na casa, em Juliana, em Sebastião, cortado de palpites, de esperanças, de terrores... E via, sem comprehender, a multidão de soldados vestidos de côres mipartidas, com armas obsoletas, que marchavam, paravam n'uma cadencia affectada, erguendo uma poeira subtil no tablado mal regado. Um côro vigoroso resoava: era a marcha arrogante e festiva dos reitres allemães, celebrando a alegria das excursões victoriosas pelos paizes do vinho, e a posse das bolsas mercenarias cheias de sonoros rixdales! E os seus olhos seguiam um barbaças corpulento, que, por cima dos gorros quadrados dos bésteiros, balançava monotonamente um largo quadrado de paninho--a bandeira do Santo Imperio, negra, vermelha e d'ouro!

Mas então ergueu-se um rumor no fundo da platéa. Vozes duras altercavam. Ordem! ordem! dizia-se. Localistas na superior pozeram-se rapidamente em bicos de pés na palhinha das cadeiras. Quatro policias e dous municipaes appareceram á porta do fundo; e depois d'uma troça, de risadas, foram levando um moço livido, que cambaleava,--e o lado esquerdo do seu jaquetão de pellucia estava todo vomitado!

Mas fez-se logo silencio: o pano de fundo oscillava um pouco, acotovellado pela sahida festiva dos reitres e dos populares; e no palco deserto, tendo á direita um portico oscillante de cathedral e á esquerda a portinha triste d'uma casa burgueza, Valentim, com uma longa pera, á beira da rampa, beijava sofregamente uma medalha:--mas Luiza não o escutava. Pensava com o coração confrangido: que fará a esta hora Sebastião?

Sebastião, ás nove horas, por um nordeste agudo que torcia as luzes do gaz dentro dos candieiros, dirigia-se devagar a casa d'um commissario de policia, seu primo afastado, o Vicente Azurara. Uma velha servente, engelhada como uma maçã raineta, levou-o ao quarto escolastico, «onde o snr. commissario estava a cozer uma grande constipação»: encontrou-o com um gabão pelos hombros, os pés embrulhados n'um cobertor, tomando _grogs_ quentes, e lendo o _Homem dos tres calções_. Apenas Sebastião entrou tirou do nariz adunco as grandes lunetas, e erguendo para elle os olhos pequeninos, chorosos do defluxo, exclamou:

--Estou com um diabo d'uma constipação ha tres dias, que me não quer largar...--E rosnou algumas pragas, passando a mão magra e nodosa sobre uma face trigueira, de linhas duras, a que um espesso bigode grisalho dava ferocidade.

Sebastião lamentou-o muito: não admirava com a estação que ia!... Aconselhou-lhe agua sulfurica com leite fervido.

--Eu, se isto não despega--disse o commissario rancorosamente--atiro-lhe ámanhã p'ra dentro com meia garrafa de genebra; e se não fôr por bem, ha-de ir á força... E que ha de novo?

Sebastião tossiu, queixou-se d'andar tambem adoentado, e chegando a cadeira para ao pé do primo Vicente, pondo-lhe a mão sobre o joelho:

--Ó Vicente, tu, se eu te pedisse um policia p'ra me acompanhar cá p'ra uma cousa, só p'ra metter medo, só p'ra fazer que uma pessoa restitua o que tirou, tu davas ordem, hein?

--Ordem p'ra quê?--perguntou lentamente o Vicente com a cabeça baixa, os olhinhos avermelhados em Sebastião.

--Ordem p'ra me acompanhar, p'ra se mostrar. É só p'ra se mostrar. É um caso exquisito... P'ra metter medo... Tu sabes que eu não sou capaz... É p'ra que uma pessoa restitua o que tirou. Sem fazer escandalo...

--Roupas? Dinheiro?

E o commissario cofiava reflectidamente o bigode com os seus longos dedos magros, muito queimados do cigarro.

Sebastião hesitou:

--Sim. Roupas, cousas... É p'ra não haver escandalo... Tu percebes...

O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o:

--Um policia p'ra se mostrar...

Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa:

--Não é cousa de politica?

--Não!--fez Sebastião.

O commissario embrulhou mais os pés no cobertor, rolou em redor os olhos, ferozmente:

--Nem toca com gente grauda?

--Qual!

--Um policia p'ra se mostrar...--ruminava o Vicente.--Tu és um homem de bem... Dá cá aquella pasta de cima da commoda.

Tirou um papel pautado, examinou-o, acavallando a luneta no nariz, meditou com a mão em garra sobre a testa:

--O Mendes... Serve-te o Mendes?

Sebastião, que não conhecia o Mendes, acudiu logo:

--Sim, quem quizeres. É só p'ra se mostrar...

--O Mendes. É um homemzarrão. É serio, foi da Guarda.

Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a ordem; releu-a duas vezes; cortou os _tt_, seccou-a á chaminé do candieiro; e dobrando-a com solemnidade:

--Á segunda divisão!

--Obrigado, Vicente. É um grande favor... Obrigado. E agasalha-te, homem! E não te esqueça: agua sulfurica da pharmacia Azevedo na rua de S. Roque: meia chavena de leite fervido... E obrigado. Não queres nada, hein?

--Não. Dá uma placa ao Mendes. É serio, foi da Guarda!

E acavallando as lunetas retomou o _Homem dos tres calções_.

Sebastião d'ahi a meia hora, seguido do robusto Mendes, que marchava militarmente, com os braços um pouco arqueados, encaminhava-se para casa de Jorge. Não tinha ainda um plano definido. Calculava naturalmente que Juliana vendo, áquella hora da noite, o policia com o seu terçado, se aterraria, imaginaria logo a Boa Hora, o Limoeiro, a costa d'Africa, entregaria as cartas, pediria misericordia! E depois? Pensava vagamente em lhe pagar a passagem para o Brazil, ou dar-lhe quinhentos mil reis para ella se estabelecer longe, na provincia... Veria. O essencial era aterral-a!

Juliana, com effeito, depois d'abrir a porta, apenas viu subir, atraz de Sebastião, o policia, fez-se muito amarella, exclamou:

--Credo! Que temos nós?

Estava embrulhada n'um chale preto, e o candieiro de petroleo, que ella erguia, prolongava na parede a sombra disforme da cuia.

--Ó snr.^a Juliana, faça favor d'accender luz na sala--disse Sebastião, tranquillamente.

Ella fixava no policia um olhar faiscante e inquieto.

--Ó senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores não estão em casa. Eu se soubesse nem tinha aberto... Ha alguma novidade? Olha o proposito!

--Não é nada--disse Sebastião, abrindo a porta da sala--tudo em paz!

Elle mesmo accendeu com um phosphoro uma vela na serpentina--que fez sahir vagamente da sombra os dourados dos caixilhos das gravuras, a pallida face do retrato da mãi de Jorge, um reflexo de espelho.

--Ó snr. Mendes, sente-se, sente-se!

O Mendes collocou-se á beira da cadeira com a mão na cinta, o terçado entre os joelhos, muito soturno.

--Esta é que é a pessoa--disse Sebastião, indicando Juliana, que ficára á porta da sala, attonita.

A mulher recuou, livida:

--Ó snr. Sebastião, que brincadeira é esta?

--Não é nada, não é nada...

Tomou-lhe o candieiro da mão, e tocando-lhe no braço:

--Vamos lá dentro á sala de jantar.

--Mas que é? É alguma cousa commigo? Credo! E esta! Olha que desconchavo!

Sebastião fechou a porta da sala de jantar, pousou o candieiro sobre a mesa, onde havia ainda um prato com codeas de queijo, e um fundo de vinho n'um copo, deu alguns passos, fazendo estalar nervosamente os dedos, e parando bruscamente diante de Juliana:

--Dê cá umas cartas que roubou á senhora...

Juliana teve um movimento para correr á janella, gritar.

Sebastião agarrou-lhe o braço, e fazendo-a sentar com força sobre uma cadeira:

--Escusa d'ir á janella gritar, a policia já está dentro de casa. Dê cá as cartas, ou p'ra a enxovia!

Juliana entreviu n'um relance um quarto tenebroso no Limoeiro, o caldo do rancho, a enxerga nas lages frias...

--Mas que fiz eu?--balbuciava--que fiz eu?

--Roubou as cartas. Dê-as p'ra cá, avie-se.

Juliana sentada á beira da cadeira, apertando desesperadamente as mãos, rosnava por entre os dentes cerrados:

--A bebeda! A bebeda!

Sebastião, impaciente, pôz a mão no fecho da porta.

--Espere, seu diabo!--gritou ella, erguendo-se com um salto. Fixou-o rancorosamente, desabotoou o corpete, enterrou a mão no peito, tirou uma carteirinha. Mas de repente batendo com o pé, n'um phrenesi:

--Não! não! não!

--Diabos me levem se vossê não fôr dormir á enxovia!--Entre-abriu a porta.--Ó snr. Mendes!

--Ahi tem!--gritou ella atirando-lhe a carteira. E brandindo para elle os punhos:--Raios te partam, malvado!

Sebastião apanhou a carteira. Havia tres cartas: uma muito dobrada era de Luiza; leu a primeira linha: _Meu adorado Bazilio_; e muito pallido guardou logo tudo na algibeira interior do casaco. Abriu então a porta: a possante figura do Mendes estava na sombra.

--Está tudo arranjado, snr. Mendes,--a voz tremia-lhe um pouco--não lhe quero tomar mais tempo.

O homem fez uma continencia, calado: quando Sebastião, no patamar, lhe resvalou na mão uma libra, o Mendes curvou-se respeitosamente e disse, com uma voz pegajosa:

--E para o que quizer, o sessenta e quatro, o Mendes, que foi da Guarda. Não se incommode v. s.^a Ás ordens de v. s.^a Minha mulher e filhos agradecem. Não se incommode v. s.^a O sessenta e quatro, o Mendes, que foi da Guarda!

Sebastião fechou a cancella, voltou á sala de jantar. Juliana ficára n'uma cadeira, aniquilada; mas apenas o viu, erguendo-se furiosamente:

--A bebeda foi-lhe contar tudo! Foi vossê que arranjou a armadilha! Tambem vossê dormiu com ella!...

Sebastião, muito branco, dominava-se.

--Vá pôr o chapéo, mulher. O snr. Jorge despediu-a. Ámanhã mandará buscar os bahus...

--Mas o homem ha-de saber tudo!--berrou ella.--Este tecto me rache se eu não lhe disser tudo tim-tim por tim-tim. Tudo! As cartas que recebia, onde ia vêr o homem. Deitava-se com ella na sala, até os pentes lhe cahiam na balburdia. Até a cozinheira lhes sentia o alarido!

--Cale-se!--bradou Sebastião com uma punhada na mesa, que fez tremer toda a louça no aparador, e esvoaçar os canarios. E com a voz toda tremula, os beiços brancos:--A policia tem o seu nome, sua ladra! Á menor palavra que vossê diga vai para o Limoeiro, e pela barra fóra. Vossê não roubou só as cartas; roubou roupas, camisas, lençoes, vestidos...--Juliana ia fallar, gritar.--Bem sei--continuou elle violentamente--deu-lh'os ella, mas á força, porque vossê a ameaçava. Vossê arrancou-lhe tudo. É roubo. É d'Africa!--E o que é dizer ao snr. Jorge, póde ir dizer. Vá. Veja se elle a acredita. Diga! São algumas bengaladas que leva por esses hombros, ladra!

Ella rangia os dentes. Estava apanhada! _Elles_ tinham tudo por si, a policia, a Boa-Hora, a cadêa, a Africa!... E ella--nada!

Todo o seu odio contra a _Piorrinha_ fez explosão. Chamou-lhe os nomes mais obscenos. Inventou infamias.

--É que nem as do Bairro-Alto! E eu--gritava--sou uma mulher de bem, nunca um homem se pôde gabar de tocar n'este corpo. Nunca houve raio nenhum que me visse a côr da pelle. E a bebeda!...--Tinha arremessado o chale, alargou anciosamente o collar do vestido.--Era um desaforo por essa casa! E o que eu passei com a bruxa da tia! É o pago que me dão! Os diabos me levem se eu não fôr para os jornaes. Vi-a eu abraçada ao janota, como uma cabra!

Sebastião a seu pezar escutava-a, com uma curiosidade dolorosa por aquelles pormenores; sentia desejos agudos de a esganar, e os seus olhos devoravam-lhe as palavras. Quando ella se calou arquejante:

--Vá, ponha o chapéo, e p'ra a rua!

Juliana então allucinada de raiva, com os olhos sahidos das orbitas, veio para elle, e cuspiu-lhe na cara!

Mas de repente a bocca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para traz, levou com ancia as mãos ambas ao coração, e cahiu para o lado, com um som molle, como um fardo de roupa.

Sebastião abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma escuma rôxa apparecia-lhe aos cantos da bocca.

Agarrou no chapéo, desceu as escadas, correu até á Patriarchal. Um _coupé_ vazio passava; atirou-se para dentro, mandou a «todo o que dér», para casa de Julião; e obrigou-o a vir immediatamente, mesmo em chinellas, sem collarinho.

--É caso de morte, é a Juliana--balbuciava muito pallido.

E pelo caminho, entre o ruido das rodas e o tilintar dos caixilhos, contava confusamente que entrára em casa de Luiza, que achára Juliana muito despeitada por ter sido despedida, e que a fallar, a esbracejar, de repente, tombára p'ra o lado!

--Foi o coração. Estava p'ra dias--disse Julião, chupando a ponta do cigarro.

Pararam. Mas Sebastião desorientado, ao sahir, fechára a porta! E dentro só a morta! O cocheiro offereceu a sua gazua, que serviu.

--Então nem se vai a uma passeadinha ao Dáfundo, meus fidalgos?--disse o homem, mettendo a gorgeta na algibeira.

Mas vendo-os atirar com a porta:

--Tambem não é gente d'isso--rosnou com desprezo, batendo a parelha.

Entraram.

No pequeno pateo o silencio da casa pareceu a Sebastião pavoroso. Subia, aterrado, os degraus, que se afiguravam infindaveis; e, com fortes pancadas do coração, esperava ainda que ella estivesse apenas adormecida n'um desmaio simples, ou já de pé, pallida e respirando!

Não. Lá estava como a deixára, estendida na esteira, com os braços abertos, os dedos retorcidos como garras. A convulsão das pernas arregaçára-lhe as saias, viam-se as suas canellas magras com meias de riscadinho côr de rosa e as chinellas de tapete; o candieiro de petroleo, que Sebastião esquecera ao pé sobre uma cadeira, punha tons lividos na testa, nas faces rigidas; a bocca torcida fazia um sombra; e os olhos medonhamente abertos, immobilisados na agonia repentina, tinham uma vaga nevoa, como cobertos d'uma têa d'aranha diaphana. Em redor tudo parecia mais immovel, d'um hirto morto. Vagos reflexos de prata reluziam no aparador; e o tic-tac do _cuco_ palpitava sem descontinuar.

--Julião apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mãos, disse:

--Está morta com todas as regras. É necessario tiral-a d'aqui. Onde é o quarto?

Sebastião, pallido, fez signal com o dedo que era por cima.

--Bem. Arrasta-a tu, que eu levo o candieiro.--E como Sebastião não se movia:--Tens medo?--perguntou rindo.

Escarneceu-o: que diabo, era materia inerte, era como quem agarrava uma boneca! Sebastião, com um suor á raiz dos cabellos, levantou o cadaver por debaixo dos braços, começou a arrastal-o, devagar. Julião adiante erguia o candieiro; e por fanfarronada cantou os primeiros compassos da marcha do _Fausto_. Mas Sebastião escandalisou-se, e com uma voz que tremia:

--Largo tudo, e vou-me...

--Respeitarei os nervos da menina!--disse Julião curvando-se.

Continuaram calados. Aquelle corpo magro parecia a Sebastião d'um peso de chumbo. Arquejava. Nas escadas uma das chinellas do cadaver soltou-se, rolou. E Sebastião sentia aterrado alguma cousa que lhe batia contra os joelhos; era a cuia cahida, suspensa por um atilho.

Estenderam-na na cama; Julião, dizendo que se deviam seguir as tradições,--pôz-lhe os braços em cruz e fechou-lhe os olhos.

Esteve um momento a olhal-a:

--Feia besta!--murmurou, estendendo-lhe sobre o rosto uma toalha enxovalhada.

Ao sahir examinou, admirado, o quarto:

--Estava mais bem alojada que eu, o estafermo!

Fechou a porta, deu volta á chave:

--_Requiescat in pace_--disse.

E desceram, calados.

Ao entrar na sala, Sebastião, muito pallido, pôz a mão no hombro de Julião:

--Então achas que foi o aneurisma?

--Foi. Enfureceu-se, estourou. É dos livros...

--Se não se tivesse zangado hoje...

--Estourava ámanhã. Estava nas ultimas... Deixa em paz a creatura. Está começando a esta hora a apodrecer, não a perturbemos.

Declarou então, esfregando as mãos com frio, que «comia alguma cousa». Achou no armario um pedaço de vitella fria, uma garrafa meia de Collares. Installou-se e, com a bocca cheia, deitando o vinho d'alto:

--Então sabes a novidade, Sebastião?

--Não.

--O meu concorrente foi despachado!

Sebastião murmurou:

--Que ferro!

--Era previsto--disse Julião com um grande gesto.--Eu ia fazer um escandalo, mas...--e teve um risinho--amansaram-me! Estou n'um posto medico, deram-me um posto medico! Atiraram-me um osso!

--Sim?--fez Sebastião.--Homem, ainda bem, parabens. E agora?

--Agora, roel-o!