O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Part 26

Chapter 263,765 wordsPublic domain

Foi-se encostar á janella. Estava um dia muito azul, muito dôce. O sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes brancas, sobre a calçada. E havia no ar uma suavidade avelludada. O Paula, em chinellas de tapete, aquecia-se á porta do estanque. Então, diante do lindo ar d'inverno, enterneceu-se. Todos eram felizes n'aquella manhã de rosas, só ella soffria, pobre d'ella! E ficou a olhar, como esquecida n'uma vaga saudade, com uma lagrima na palpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a esquina,--e d'ahi a pouco voltar com um gallego, velho e pesado, que trazia o seu sacco ao hombro.

Ia-se embora!--pensou Luiza.--Mandava pôr fóra os bahus! E depois? Remettia as cartas a Jorge, ou entregava-lh'as ella mesma, no portal! Santo Deus!--E parecia-lhe vêr Jorge apparecer no quarto, livido, com as cartas na mão!...

Veio-lhe um terror allucinado: não queria perder o seu marido, o seu Jorge, o seu amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se d'ella a revolta da femea contra a viuvez: aos vinte e cinco annos ir murchar para um convento! Não, c'os diabos!

Foi direita ao quarto de Juliana.

--Vem vêr se lhe levo alguma cousa?--gritou logo a outra furiosa.

Sobre a cama estava roupa branca espalhada, pelo chão botinas embrulhadas em jornaes velhos.

--E ainda cá me ficam quatro camisas, dous pares de calcinhas, tres pares de meias, seis punhos na lavadeira. Fica ahi o rol. E quero as minhas contas!...

--Escute, Juliana, não se vá.--Mas a voz desappareceu-lhe, as lagrimas saltaram-lhe dos olhos.

Juliana poz-se a olhar para ella d'alto, triumphando, com uma botina de duraque em cada mão.

--É mandar aquella desavergonhada embora, e está tudo acabado!--E com uma voz aguda, batendo as solas das botinas:--Fica tudo como d'antes, na paz do Senhor!

Uma alegria extraordinaria accendia-lhe o olhar. Vingava-se! fazia-a chorar! expulsava a _outra_! e não perdia os seus commodos!

--É pôr a bebeda na rua! É pôl-a na rua!

Luiza curvou os hombros, foi á cozinha devagar; os degraus da escada pareciam-lhe immensos, infindaveis. Deixou-se cahir n'um banco, e limpando os olhos:

--Joanna, venha cá, escute, vossê não póde continuar na casa...

A rapariga ficou a olhar para ella, espantada.

--O que a Juliana disse foi n'um repente... Tem estado a chorar, a arrepender-se. É a criada mais antiga. O senhor estima-a muito...

--Então a senhora manda-me embora? Então a senhora manda-me embora?

Luiza insistiu, baixo, envergonhada:

--Foi um repente, tem estado a pedir perdão...

--Eu foi para defender a senhora!--exclamou a rapariga, abrindo os braços, afflicta.

Luiza sentiu-se indigna; e impaciente, para acabar:

--Bem, Joanna, não estejamos com mais. Eu é que sou a dona da casa... Vou-lhe fazer as contas.

--Olha que pago este!--gritou Joanna, então, desesperada. E com uma resolução, batendo o pé:--Pois o senhor é que ha-de dizer! Eu vou dizer tudo ao senhor! Hei-de-lhe contar tudo o que se passou! A senhora não tem razão!...

Luiza olhava-a, estupida. Agora era aquella! Era d'aquella rapariga, teimosa na sua justiça, que vinha o desastre! Era de mais! Veio-lhe um terror sobrenatural, como um espanto da consciencia, e apertando as fontes nas mãos abertas:

--Que expiação! Que expiação, Santo Deus!

De repente, como desvairada, agarrou Joanna pelos braços, e fallando-lhe junto do rosto:

--Joanna, vá-se pelo amor de Deus, vá-se! Não diga nada. Despeça-se vossê!--E perdendo inteiramente todo o respeito proprio, cahiu de joelhos, diante da cozinheira, soluçando:--Pelas cinco chagas de Christo, vá, Joanna, minha rica Joanna, vá. Peço-lhe eu, Joanna! Pelo amor de Deus!

A rapariga, assombrada, rompeu n'um choro estridente.

--Vou, sim, minha senhora!... vou, sim, minha rica senhora!

--Sim, Joanna, sim. Eu dou-lhe alguma cousa. Vossê bem vê... Não chore... Espere...

Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas economias, voltou, galgando os degraus, metteu-lh'as na mão, dizendo-lhe baixo:

--Faça uma trouxa, eu ámanhã lhe mandarei o bahu.

--Sim, minha senhora--soluçava a rapariga, babada de dôr--sim, minha rica senhora!

Luiza veio deixar-se cahir de bruços sobre a sua _chaise-longue_, n'um choro convulsivo tambem, desejando a morte, pedindo, n'um terror, piedade a Deus!

Mas a voz aspera de Juliana disse bruscamente á porta:

--Então em que ficamos?

--A Joanna vai-se. Que quer mais?

--Que sáia já!--disse a outra imperiosamente.--Que o jantar o faço eu. Por hoje, já se vê!

As lagrimas de Luiza seccavam-se, de raiva.

--E a senhora agora ouça!

O tom de Juliana era tão insultante, que Luiza ergueu-se, como ferida.

E Juliana, ameaçando-a, d'alto, com o dedo erguido:

--E a senhora agora é andar-me direita, senão eu lh'as cantarei!...

E voltou as costas, batendo os tacões.

Luiza olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto; mas tudo estava immovel e correcto; nem uma prega das cortinas se movera, e os dous pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam pretenciosamente.

Então tirou o roupão violentamente, passou um vestido sem apertar o corpete, vestiu por cima um casaco largo d'inverno, atirou o chapéo para a cabeça despenteada, sahiu, desceu a rua tropeçando nas saias, quasi a correr.

O Paula saltou para o meio da rua para a seguir: viu-a parar á porta de Sebastião, e veio dizer á estanqueira:

--Em casa do Engenheiro ha novidade!

E ficou plantado á porta com os olhos cravados para as janellas abertas, onde as bambinellas de reps verde cahiam com as suas pregas immoveis.

--O snr. Sebastião?--perguntava Luiza á rapariguita sardenta, que correra a abrir a porta.

E ia entrando pelo corredor.

--Na sala--disse a pequena.

Luiza subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta, e correndo para elle, apertando as mãos contra o peito, n'uma voz angustiosa e sumida:

--Sebastião, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-m'a. Estou perdida!

Elle ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto manchado, o chapéo mal posto, a afflicção do olhar:

--Que é? Que é?

--Escrevi a meu primo--repetiu, com os olhos cravados n'elle, anciosamente--a mulher apanhou-me a carta... Estou perdida!

Fez-se muito pallida, os olhos cerraram-se-lhe.

Sebastião amparou-a, levou-a meio desmaiada para o sophá de damasco amarello. E ficou de pé, mais descórado que ella, com as mãos nos bolsos do seu jaquetão azul, immovel, estupido.

De repente correu fóra, trouxe um copo d'agua, borrifou-lhe o rosto ao acaso. Ella abriu os olhos, as suas mãos errantes apalparam em redor, fitou-o espantada, e deixando-se cahir sobre o braço do canapé, com o rosto escondido nas mãos, rompeu n'um choro hysterico.

O seu chapéo cahira. Sebastião apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as flôres, pôl-o sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos pés debruçar-se junto d'ella:

--Então! então!--murmurava. E as suas mãos tocando-lhe de leve o braço, tremiam como folhas.

Quiz dar-lhe agua para a socegar: ella recusou com a mão, endireitou-se devagar no sophá, limpando os olhos, assoando-se com grandes soluços.

--Desculpe, Sebastião, desculpe--dizia.--Bebeu então um gole d'agua, ficou com as mãos no regaço, quebrada; e, uma a uma, as suas lagrimas silenciosas cahiam sem cessar.

Sebastião foi fechar a porta--e vindo ao pé d'ella, com muita doçura:

--Mas então? Que foi?

Ella ergueu para elle a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam febrilmente; olhou-o um momento, e deixando pender a cabeça, toda humilhada:

--Uma desgraça, Sebastião, uma vergonha!--murmurou.

--Não se afflija! Não se afflija!

Sentou-se ao pé d'ella, e baixo, com solemnidade:

--Tudo o que eu puder, tudo o que fôr necessario, aqui me tem!

--Oh Sebastião!...--exclamou n'um impulso de reconhecimento humilde; e acrescentou:--Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho soffrido, Sebastião!

Esteve um momento com os olhos cravados no chão; e agarrando-lhe o braço de repente, com força, as palavras romperam abundantes e precipitadas, como os borbulhões d'uma agua comprimida que rebenta.

--Apanhou-me a carta, não sei como, por um descuido meu! Ao principio pediu-me seiscentos mil reis. Depois começou a martyrisar-me... Tive de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus lençoes, dos finos. Era a dona da casa. O serviço quem o faz sou eu!... Ameaça-me todos os dias, é um monstro. Tudo tem sido baldado, boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? Pois não é verdade? Ella bem via... O que eu tenho soffrido! Dizem que estou mais magra, até o Sebastião reparou. A minha vida é um inferno. Se Jorge soubesse!... Aquella infame queria hoje dizer-lhe tudo!... E trabalho como uma negra. Logo pela manhã a limpar e varrer. Ás vezes tenho de lavar as chicaras do almoço. Tenha piedade de mim, Sebastião, por quem é, Sebastião! coitada de mim, não tenho ninguem n'este mundo.

E chorava, com as mãos sobre o rosto.

Sebastião, calado, mordia o beiço; duas lagrimas rolavam-lhe tambem pela face, sobre a barba. E levantando-se, devagar:

--Mas Santo nome de Deus, minha senhora! porque me não disse ha mais tempo?

--Ó Sebastião, podia lá! Uma vez estive para lh'o dizer... Mas não pude, não pude!

--Fez mal!...

--Esta manhã o Jorge quiz pôl-a fóra. Embirra com ella, percebe os desmazelos. Mas não desconfia de nada, Sebastião!...--E desviou os olhos, muito escarlate.--Escarnecia-me ás vezes por eu parecer tão apaixonada por ella... Mas esta manhã zangou-se, mandou-a embora. Apenas elle sahiu, veio como uma furia, insultou-me...

--Santo Deus!--murmurava Sebastião assombrado, com a mão sobre a testa.

--Talvez não acredite, Sebastião, sou eu que faço os despejos!...

--Mas merece a morte, essa infame!--exclamou batendo com o pé no chão.

Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as mãos nos bolsos, os seus largos hombros curvados. Voltou sentar-se ao pé d'ella, e tocando-lhe timidamente no braço, muito baixo:

--É necessario tirar-lhe as cartas...

--Mas como?

Sebastião coçava a barba, a testa.

--Ha-de-se arranjar--disse, por fim.

Ella agarrou-lhe a mão:

--Oh Sebastião, se fizesse isso!

--Ha-de-se arranjar.

Esteve um momento calculando--e com o seu tom grave:

--Eu vou-me entender com ella... É necessario que ella esteja só em casa... Podiam ir ao theatro, esta noite.

Levantou-se lentamente, foi buscar o _Jornal do Commercio_, sobre a mesa, olhou os annuncios:

--Podiam ir a S. Carlos, que acaba mais tarde... É o _Fausto_... Podiam ir vêr o _Fausto_...

--Podiamos ir vêr o _Fausto_--repetiu Luiza, suspirando.

E então, muito chegados, ao canto do sophá, Sebastião foi-lhe dizendo um plano, em palavras baixas, que ella devorava, anciosa.

Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao theatro... Mandar um recado a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao _Hotel Gibraltar_... E a Joanna? A Joanna deixára a casa. Bem. Ás nove horas, então, Juliana estaria só.

--Vê como tudo se arranja?--disse elle, sorrindo.

Era verdade... Mas daria a mulher as cartas?

Sebastião tornou a coçar a barba, a testa:

--Ha-de dar--disse.

Luiza olhava-o quasi com ternura: parecia-lhe vêr na sua face honesta, uma alta belleza moral. E de pé diante d'elle, com uma melancolia na voz:

--E vai fazer isso por mim, Sebastião, por mim, que fui tão má mulher...

Sebastião córou, respondeu encolhendo os hombros:

--Não ha más mulheres, minha rica senhora, ha maus homens, é o que ha!

E acrescentou logo:

--Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, hein?... Uma frisasinha ao pé do palco...

Sorria, para a tranquillisar. Ella punha o chapéo, descia o véo com pequeninos soluços tristes, que voltavam a espaços.

No corredor encontraram a tia Joanna com os braços abertos; beijou muito Luiza; aquella visita era um milagre! E que bonita que estava! era a flôr do bairro!

--Está bom, tia Joanna, está bom--disse Sebastião, afastando-a brandamente.

Ora que não fosse mettediço! Já lá a tinha tido mais de meia hora, tambem ella agora a queria um bocadinho! Assim é que elle devia ter uma mulherzinha! Uma rapariga de bem! Uma açucena!

Luiza corava, embaraçada.

E o snr. Jorge? que era feito d'elle? Ninguem o via. E a D. Felicidade?

--Está bom, basta, tia Joanna!--fez Sebastião impaciente.

--Olha o sofrego!... Ninguem lhe come a menina!... Cruzes!...

Luiza sorriu; lembrou-se então de repente que não tinha por quem mandar os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel.

Sebastião fel-a entrar logo em baixo no escriptorio: que escrevesse, elle os mandaria: escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a penna--mais prompto, mais delicado desde que a sabia infeliz. Luiza fez o bilhete para Jorge; e, como apesar das suas afflicções, se lembrou com terror de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou n'um _P. S._, no bilhete para ella: «o melhor é vires de preto, e não fazeres grande _toilette_. Nada de decotes nem de côres claras.»

Quando entrou em casa, viu um gallego sahindo com a trouxasita de Joanna. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das escadas da cozinha dizia para cima, ameaçadoramente:

--Torne eu a apanhal-a, que não me sahe viva das mãos, sua bebeda!

--Bufa! bufa!--gritou de cima Juliana--mas vai-te indo para o olho da rua!

Luiza escutava mordendo os beiços. Em que se convertera a sua casa! Uma praça! Uma taberna!

--Se eu t'apanho!--rosnava a Joanna descendo.

--Rua! rua, sua porca!--gania a Juliana.

Luiza então chamou a rapariga:

--Joanna, não procure casa, venha por aqui além d'amanhã--disse-lhe baixo.

Juliana em cima cantava a _Carta adorada_, com um jubilo estridente.

E d'ahi a pouco desceu, veio dizer, muito seccamente, «que estava o jantar na mesa».

Luiza não respondeu. Esperou que ella subisse á cozinha, correu á sala de jantar, trouxe pão, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se no quarto;--e alli _jantou_, a um canto da jardineira.

Ás seis horas um trem parou á porta. Devia ser Sebastião! Foi ella mesma abrir, em bicos de pés. Era elle, animado, vermelho, com o chapéo na mão: trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito...

--E isto...

Era um ramo de camelias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas.

--Oh Sebastião!--murmurou ella, com um reconhecimento commovido.

--E carruagem, tem?

--Não

--Eu cá mando. Ás oito, hein?

E desceu, todo feliz de a servir. Ella seguiu-o com o olhar que se humedecia. Foi á janella do quarto vêl-o sahir.--Que homem! pensava. E cheirava as violetas, voltava o ramo na mão, sentia tambem um prazer dôce na protecção d'elle, nos seus cuidados.

Nós de dedos bateram á porta do quarto:

--Então a senhora não quer jantar?--disse a voz impaciente de Juliana, de fóra.

--Não.

--Mais fica!

D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luiza ficou tranquilla, vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereço d'esmeraldas.

--Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos a saber?--disse logo, muito alegre, a excellente senhora.

Um capricho!--O Jorge tinha jantado fóra, ella sentira-se tão só!... Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro. Não pudera resistir... Tinham de o ir buscar pelo _Hotel Gibraltar_.

--Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!... E estive p'ra não vir--disse, sentando-se, com pancadinhas muito satisfeitas nas pregas do vestido.--Apertar-me depois de jantar! Felizmente, não tinha comido quasi nada!

Quiz então saber o que ia. O _Fausto_? Ainda bem! De que lado era a frisa? dezoito. Perdiam a vista da familia real, era pena!... Pois estava mais longe d'aquella noitada de theatro!...--E erguendo-se passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bandós, ageitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupilla luzidia.

Uma carruagem parou á porta.

--O trem!--disse, toda risonha.

Luiza calçando as luvas, já com a capa, olhava em redor: o coração batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. Não lhe faltava nada? perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? o lenço?

--Ai! o meu ramo!--exclamou Luiza.

Juliana ficou espantada quando a viu vestida _p'ra theatro_. Foi alumiar, calada; e atirando a cancella com uma pancada insolente:

--Não tem mesmo vergonha n'aquella cara!--rosnou.

O trem já rodava, quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos vidros:

--Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! Não posso ir sem leque! Pare, cocheiro!

--Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma!--fez Luiza impaciente.

Aquellas agitações abalavam a digestão comprimida de D. Felicidade; felizmente, como ella dizia, arrotava! Graças a Deus, louvada seja Nossa Senhora, que podia arrotar!

Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se gesticulava, destacavam ás portas vivamente alumiadas da Casa Havaneza; os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rapido reluzir de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos criados. D. Felicidade com a sua face jubilosa á portinhola, gozava a claridade do gaz nas vitrines, o ar d'inverno; e foi com uma satisfação que viu o guarda-portão do _Gibraltar_, de calções vermelhos, vir com o boné na mão, á portinhola.

Perguntaram por Jorge.

E, caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos derramavam uma luz dôce. D. Felicidade, muito curiosa da «vida d'hotel», reparou na engommadeira que entrou com um cesto de roupa; depois n'uma senhora que lhe pareceu «estabanada», e que descia, vestida de _soirée_, mostrando o pé calçado n'um sapato redondo de setim branco: e sorria de vêr sujeitos roçarem-se pelo trem, lançando para dentro olhares gulosos.

--Estão a arder por saber quem somos.

Luiza calada apertava nas mãos o seu ramo. Emfim Jorge appareceu no alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito magrissimo, de chapéo ao lado, as mãos nos bolsos d'umas calças muito estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da bocca. Paravam, gesticulavam, cochichavam. Por fim o sujeito apertou a mão de Jorge, fallou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe no hombro, obrigou-o muito sériamente a aceitar outro charuto,--e pondo o chapéo mais ao lado foi conversar com o guarda-portão.

Jorge correu á portinhola do trem, rindo:

--Então que extravagancia é esta? Theatro, tipoias!... Eu reclamo o divorcio!

Parecia muito jovial. Sómente tinha pena de não estar vestido... Ficaria atraz no camarote.--E para as não amarrotar subiu para a almofada.

XV

Passava das oito horas quando o trem parou em S. Carlos. Um gaiato, que tossia muito, com o casaco pregado sobre o peito por um alfinete, precipitou-se a abrir a portinhola; e D. Felicidade sorria de contentamento, sentindo a cauda do vestido de sêda arrastar sobre o tapete esfiado do corredor das frisas.

O pano já estava levantado. Era á luz diminuida da rampa, a decoração classica d'uma cella d'alchimista; embrulhado n'um roupão monastico, com uma abundancia hirsuta de barbas grisalhas, tremuras senis, Fausto cantava, desilludido das sciencias, pousando sobre o coração a mão onde reluzia um brilhante. Um cheiro vago de gaz extravasado errava subtilmente. Aqui e além tosses expectoravam. Havia ainda pouca gente. Entrava-se.

Na frisa, para se collocarem, D. Felicidade e Luiza cochichavam, com gestosinhos de recusa, olhares supplicantes:

--Oh D. Felicidade, por quem é!

--Se estou aqui muito bem...

--Não consinto...

Emfim D. Felicidade sentou-se no lugar superior alteando o peito. Luiza ficára atraz calçando as luvas; em quanto Jorge arrumava os agasalhos, furioso com o chapéo que já duas vezes rolára.

--Tem banquinho, D. Felicidade?

--Obrigada, cá o sinto.--E remexeu os pés.--Que pena não se vêr a familia real!

Nos camarotes d'assignantes iam apparecendo os altos penteados medonhos, enchumaçados de postiços; peitilhos de camisas branquejavam. Sujeitos entravam para as cadeiras devagar, com um ar gasto e intimo, compondo o cabello. Conversava-se baixo. Ao fundo da platéa havia um rumor desinquieto entre moços de jaquetão; e á entrada, sob a tribuna, viam-se, n'um apparato militar, correames polidos de municipaes, bonés carregados de policias; e reluzindo á luz, punhos de sabres.

Mas na orchestra correram fortes estremecimentos metallicos, dando um pavor sobrenatural; Fausto tremia como um arbusto ao vento; um ruido de folhas de lata, fortemente sacudidas, estalou; e Mephistopheles ergueu-se ao fundo, escarlate, lançando a perna com um ar charlatão, as duas sobrancelhas arrebitadas, uma barbilha insolente, _un bel cavalier_; e em quanto a sua voz poderosa saudava o Doutor, as duas plumas vermelhas do gorro oscillavam sem cessar d'um modo fanfarrão.

Luiza chegára-se para a frente; ao ruido da cadeira, cabeças na platéa voltaram-se, languidamente; pareceu de certo bonita, examinaram-na; ella, embaraçada, pôz-se a olhar para o palco muito séria:--por traz de véos sobrepostos que se levantavam, n'uma affectação de visão, Margarida appareceu fiando o linho, toda vestida de branco; a luz electrica, envolvendo-a n'um tom crú, fazia-a parecer de gesso muito caiado; e D. Felicidade achou-a tão linda que a comparou a uma santa!

A visão desappareceu n'um tremulo de rebecas. E depois d'uma aria, Fausto, que ficára immovel ao fundo do palco, debateu-se um momento dentro da tunica e das barbas, e emergiu joven, gordinho, vestido de côr de lilaz, coberto de pôs d'arroz, compondo o frisado do cabello. As luzes da rampa subiram: uma instrumentação alegre e expansiva resoou: Mephistopheles, apossando-se d'elle, arrastou-o sofrego através da decoração. E o pano desceu rapidamente.

As platéas ergueram-se com um rumor grosso e lento. D. Felicidade um pouco affrontada abanava-se. Examinaram então as familias, algumas _toilettes_; e sorrindo concordaram que estava «do mais fino».

Nos camarotes conversava-se sobriamente; ás vezes uma joia brilhava, ou a luz punha tons lustrosos d'aza de corvo nos cabellos pretos onde alvejavam camelias ou reluzia o aro de metal d'um pente; os vidros redondos dos binoculos moviam-se devagar, picados de pontos luminosos.

Na platéa, nas bancadas clareadas, sujeitos quasi deitados namoravam com languidez; ou de pé, taciturnos, acariciavam as luvas; velhos _dilettanti_, de lenço de sêda, tomavam rapé, caturravam; e D. Felicidade interessava-se por duas hespanholas de verde, que na superior immobilisavam, n'uma affectação casta, os seus corpos de lupanar.

Um collega de Jorge magrinho e janota entrou então no camarote: parecia animado, e perguntou logo se não sabiam o grande escandalo? Não. E o engenheiro, com gestos vivos das suas mãosinhas calçadas n'umas luvas esverdeadas, contou que a mulher do Palma, o deputado, sabiam, tinha fugido!...

--P'ra o estrangeiro?

--Qual!--E a voz do engenheiro tinha agudos triumphantes.--Ahi é que estava o bonito. P'ra casa d'um hespanhol que morava defronte!... Era divino! De resto--e a sua voz tornou-se grave--estava enthusiasmado com o baixo!

E depois de ter sorrido, olhado pelo binoculo, ficou calado, extenuado do que dissera, batendo apenas de vez em quando no joelho de Jorge, com um _Sim, senhor!_ familiar, ou um _Então que é feito?_ amigavel.

Mas a campainha retinia finamente. O engenheiro sahiu, em bicos de pés. E o pano ergueu-se devagar na alegria da kermesse, cheia de uma luz branca e dura. Casas acastelladas branquejavam no pano de fundo, n'alguma collina do Rheno amiga das vinhas. Escarranchado sobre uma pipa, o barrigudo e folgazão rei Cambrinus ria enormemente, erguendo, na sua attitude de taboleta gothica, a vasta caneca emblematica da cerveja germanica. E estudantes, judeus, reitres e donzellas, nas suas côres vivas de paninho, moviam-se d'um modo automatico e somnambulo, aos compassos largos da instrumentação festiva.

A walsa então desenrolou-se languidamente, como um fio de melodia, em espiraes suaves que ondeavam e fugiam: Luiza seguia os pésinhos das dançarinas, as pernas musculosas volteando no tablado; e as saias tufadas e curtas faziam como o girar multiplicado e reproduzido de vagos discos de cambraia.

--Que bonito!--murmurava ella, com uma felicidade no rosto.