O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 25
Sobre o seu ventresinho redondo, que a perna curta fazia parecer quasi pansudo, o medalhão do relogio pousava com opulencia. Trazia na mão um chicote, cujo cabo de prata representava uma Venus retorcendo os braços. A pelle tinha um rubor prospero; o bigode farto, terminava em pontas agudas, empastadas em cera mostacha, d'um aspecto napoleonico. E os seus oculos de ouro tinham um ar authoritario, bancario, amigo da Ordem. Parecia contente da vida como um pardal muito farto.
Com que! Era necessario mandal-o chamar, para que se lhe pozesse a vista em cima,--começou logo Leopoldina. E depois de o apresentar a Luiza «sua intima, sua amiga de collegio»:
--Que tem feito, porque não tem apparecido?
O Castro repoltreou-se n'uma cadeira de braços, e batendo com o chicote nas botas, desculpou-se com os preparativos da partida...
--Sempre é verdade? Deixa-nos?
O Castro curvou-se:
--Além d'amanhã. No _Orenoque_.
--Então d'esta vez os jornaes não mentiram. E com demora?
--_Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum._
Leopoldina pasmava. Deixar Lisboa! Um homem tão estimado, que se podia divertir tanto!--Pois não é verdade?--disse voltando-se para Luiza, para a tirar do seu silencio embaraçado.
--Com certeza--murmurou ella.
Estava sentada á beira da cadeira, como assustada, prompta a fugir. E os olhares do Castro, insistentes por traz dos reflexos dos oculos, incommodavam-na.
Leopoldina reclinára-se no sophá e ameaçando-o com o dedo erguido:
--Ah! Ahi n'essa ida p'ra França anda historia de saias!
Elle negou frouxamente, com um sorriso fatuo.
Mas Leopoldina não achava as francezas bonitas--o que era é que tinham muito _chic_, muita animação...
O Castro declarou-as adoraveis. Sobretudo para a estroinice! Ah! conhecia-as bem! Emfim, lá como mães de familia não dizia. Mas para uma cêa, para um bocado de _can-can_ não havia outras...--Affirmava-o com convicção, pois, como os burguezes «da sua roda», avaliava doze milhões de francezas por seis prostitutas de Café Concerto,--que tinha pago caro e enfastiado immenso!
Leopoldina, para o lisonjear, chamou-lhe _estroina_!
Elle sorria, deliciando-se, afiando as pontas do bigode:
--Calumnias, calumnias...--murmurava.
E Leopoldina voltando-se para Luiza:
--Comprou uma quinta magnifica em Bordeus, um palacio!...
--Uma choupana, uma choupana...
--E naturalmente vai dar festas magnificas!...
--Modestos chás, modestos chás...--dizia, repoltreando-se.
E riam ambos d'um modo muito affectado.
O Castro curvou-se então para Luiza:
--Tive o gosto de vêr v. exc.^a ha tempos, na rua do Ouro...
--Creio que tambem me lembro--respondeu ella.
E ficaram calados. Leopoldina tossiu, sentou-se mais á beira do sophá, e depois de sorrir:
--Pois eu mandei-o chamar porque temos uma cousa a dizer-lhe.
Castro inclinou-se. O seu olhar não deixava Luiza, percorria-a com atrevimento, palpava-a.
--Aqui está o que é. Eu vou direita ás cousas, sem preambulos.--E teve outro risinho.--Aqui a minha amiga está n'um grande apuro, e precisa um conto de reis.
Luiza acudiu com a voz quasi sumida:
--Seiscentos mil reis...
--Isso não importa--disse Leopoldina com uma indifferença opulenta--estamos a fallar com um millionario! A questão é esta: quer o meu amigo fazer o favor?
O Castro endireitou-se na cadeira, devagar, e com uma voz arrastada, ambigua:
--Certamente, certamente...
Leopoldina ergueu-se logo:
--Bem. Eu tenho alli no quarto a costureira á espera. Deixo-os fallar do negocio.
E á porta do quarto, voltando-se para o Castro, ameaçando-o com o dedo, a voz muito alegre:
--Que o juro seja pequeno, hein?
E sahiu, rindo.
O Castro disse logo a Luiza, curvando-se:
--Pois minha senhora, eu...
--A Leopoldina contou-lhe a verdade, estou n'uma grande afflicção de dinheiro. E dirijo-me a si... São seiscentos mil reis... Procurarei pagar, o mais depressa...
--Oh minha senhora!--fez o Castro com um gesto generoso. Começou então a dizer, que comprehendia perfeitamente, todo o mundo tinha os seus embaraços... Lamentava que a não tivesse conhecido ha mais tempo... Sempre tivera uma grande sympathia por ella... Uma grande sympathia!...
Luiza calava-se, com os olhos baixos. Elle foi pousar o chicote na jardineira, veio sentar-se no sophá junto d'ella. Vendo o seu ar embaraçado, pediu-lhe que não se affligisse. Valia lá a pena por questões de dinheiro! Tinha o maior prazer em servir uma senhora nova, tão interessante... Fizera perfeitamente em se dirigir a elle. Conhecia casos em que senhoras se dirigiam a agiotas que as exploravam, eram indiscretos...--E fallando tinha-lhe tomado a mão; o contacto d'aquella pelle appetecida, exaltando-lhe o desejo brutalmente, fazia-o respirar alto; Luiza, toda constrangida, nem retirára a mão; e Castro abrazado--com uma verbosidade um pouco rouca, promettia _tudo_, _tudo o que ella quizesse_!... Os seus olhinhos arregalados devoravam-lhe o pescoço muito branco.
--Seiscentos mil reis..., o que quizer!...
--E quando?--disse Luiza muito perturbada.
Elle via-lhe o seio arfar--e sob a irrupção d'um desejo brutal:
--Já!
Agarrou-a pela cinta, atirou-lhe um beijo voraz, quasi lhe mordeu a face.
Luiza ergueu-se com o salto d'uma mola d'aço.
Mas o Castro escorregára sobre o tapete, de joelhos; e, prendendo-lhe sofregamente os vestidos:
--Dou-lhe o que quizer, mas sente-se! Ha annos que tenho uma paixão por si. Escute!--Os seus braços tremulos subiam; envolviam-na, e o que sentia das suas fórmas inflammava-o.
Luiza, sem ruido, repellia-lhe as mãos, recusava-se.
--O que quizer! Mas ouça!--balbuciava elle puxando-a violentamente para si. A concupiscencia brutal dava-lhe uma respiração de touro.
Então, com um puxão desesperado ás saias, ella soltou-se, e recuando afflicta:
--Deixe-me! Deixe-me!
O Castro ergueu-se, a bufar, e com os dentes cerrados, os braços abertos, rompeu para ella.
Diante d'aquella luxuria bestial, Luiza, indignada, agarrou instinctivamente de sobre a jardineira o chicote e deu-lhe uma forte chicotada na mão.
A dôr, a raiva, o desejo enfureceram-no.
--Seu diabo!--rosnou, rangendo os dentes.
Ia-se arremessar. Mas Luiza então, erguendo o braço, revolvida por uma cólera phrenetica, atirou-lhe chicotadas rapidamente pelos braços, pelos hombros--muito pallida, muito séria, com uma crueldade a reluzir-lhe nos olhos, gozando uma alegria de desforra em fustigar aquella carne gorda.
O Castro, assombrado, defendia-se vagamente, com os braços diante da cara, recuando; de repente, topou contra a jardineira; o candieiro de porcelana oscillou, desequilibrou-se, rolou no chão, com estilhaços de louça, e uma nodoa escura d'azeite alastrou-se na esteira.
--Ahi está! Vê?--disse Luiza toda a tremer, apertando ainda convulsivamente o chicote.
Leopoldina ao barulho correu, do quarto.
--Que foi? Que foi?
--Nada, estavamos a brincar--disse Luiza.
Atirou o chicote para o chão, sahiu da sala.
O Castro, livido de raiva, tinha agarrado o chapéo; e fixando terrivelmente Leopoldina:
--Agradecido! Conte commigo quando quizer!
--Mas que foi? Que foi?
--Até á vista!--rugiu o Castro.--E indo apanhar o chicote, sacudindo-o ameaçadoramente para o quarto, onde Luiza entrára:
--Grande bebeda!--murmurou com rancor.
E sahiu, atirando com as portas.
Leopoldina, attonita, veio encontrar Luiza no quarto a pôr o chapéo, com as mãos ainda tremulas, os olhos muito brilhantes, satisfeita.
--Chegou-me cá uma cousa, e enchi-lhe a cara de chicotadas--disse ella.
Leopoldina esteve um momento a olhal-a petrificada.
--Bateste-lhe?...--E de repente desatou a rir, convulsivamente.--O Castro d'oculos, o Castro coberto de chicotadas! O Castro a levar uma coça!--Atirou-se para cima da _chaise-longue_, rolou-se; suffocava.--Até já tinha uma pontada, Jesus! O Castro!... Vir a uma casa amiga, levar o tiro de seiscentos mil reis e ser corrido a chicote!... Com o seu proprio chicote!... Oh! era para estourar!...
--O peor foi o candieiro--disse Luiza.
Leopoldina ergueu-se, de salto.
--E o azeite! Ai que agouro!--Correu á sala. Luiza veio encontral-a diante da nodoa escura, com os braços cruzados, como se visse, toda pallida, catastrophes avisinharem-se.--Que agouro, Santo Deus!
--Deita-lhe sal depressa.
--Faz bem?
--Quebra o agouro.
Leopoldina correu a buscar sal; e de joelhos, salgando a nodoa:
--Ai! Nossa Senhora permitta que não haja nada mau! Mas que caso este, que caso este! E agora, filha?
Luiza encolheu os hombros.
--Eu sei cá! Soffrer!...
XIII
N'essa semana, uma manhã, Jorge, que se não recordava que era dia de gala, encontrou a secretaria fechada, e voltou para casa ao meio dia. Joanna á porta conversava com a velha que comprava os ossos; a cancella em cima estava aberta; e Jorge, chegando despercebido ao quarto, surprehendeu Juliana commodamente deitada na _chaise-longue_, lendo tranquillamente o jornal.
Ergueu-se, muita vermelha, mal o viu, balbuciou:
--Peço desculpa, tinha-me dado uma palpitação tão forte...
--Que se pôz a lêr o jornal, hein?...--disse Jorge, apertando instinctivamente o castão da bengala.--Onde está a senhora?
--Deve estar p'ra a sala de jantar--disse Juliana, que se pôz logo a varrer, muito apressada.
Jorge não encontrou Luiza na sala de jantar; foi dar com ella no quarto dos engommados, despenteada, em roupão de manhã, passando roupa, muito applicada e muito desconsolada.
--Tu estás a engommar?--exclamou.
Luiza córou um pouco, pousou o ferro.--A Juliana estava adoentada, juntára-se uma carga de roupa...
--Dize-me cá, quem é aqui a criada e quem é aqui a senhora?
A sua voz era tão aspera, que Luiza fez-se pallida, murmurou:
--Que queres tu dizer?
--Quero dizer que te venho encontrar a ti a engommar, e que a encontrei a ella lá em baixo muito repimpada na tua cadeira, a lêr o jornal.
Luiza, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da roupa lavada, começou a remexer, a desdobrar, a sacudir com a mão tremula...
--Tu não pódes fazer idéa do que aqui vai por fazer--ia dizendo.--É a limpeza, são os engommados, é um servição. A pobre de Christo tem estado doente...
--Pois se está doente que vá p'ra o hospital!
--Não, tambem não tens razão!
Aquella insistencia em defender a outra, que se repoltreava em baixo na sua _chaise-longue_, exasperou-o:
--Dize cá, tu dependes d'ella? Havia de dizer que tens medo d'ella!
--Ah! se estás com esse genio!--fez Luiza com os beiços tremulos, uma lagrima já nas palpebras.
Mas Jorge continuava, muito zangado:
--Não, essas condescendencias hão-de acabar por uma vez! Vêr aquelle estafermo, com os pés p'ra cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se nas minhas cadeiras, a passear, e tu a defendel-a, a fazer-lhe o serviço, ah! não! É necessario acabar com isso. Sempre desculpas! sempre desculpas! Se não póde que arreie. Que vá p'ra o hospital, que vá p'ra o inferno!
Luiza lavada em lagrimas assoava-se, soluçando.
--Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras?
Ella não respondia, n'um grande pranto.
--Porque choras, filha?--perguntou elle, com uma impaciencia commovida, chegando-se a ella.
--Para que me fallas tu assim?--dizia, toda soluçante, limpando os olhos.--Sabes que estou doente, nervosa, e tens mau genio p'ra mim! O que me sabes dizer são cousas desagradaveis.
--Cousas desagradaveis! Minha filha, eu disse-te lá nada desagradavel!--E abraçou-a, ternamente.
Mas ella desprendeu-se, e com a voz cortada de soluços:
--Então é algum crime estar a engommar? Por que trabalho, por que trato das minhas cousas, zangas-te? Querias que eu fosse uma desarranjada? A mulher tem estado doente! Em quanto se não arranja outra, é necessario fazer as cousas... Mas tu fallas, fallas! P'ra me affligir!...
--Estás a dizer tolices, filha. Não estás em ti. Eu o que não quero é que te cances!
--P'ra que dizes então que tenho medo d'ella?--E as lagrimas recomeçavam.--Medo de quê? Porque hei-de eu ter medo d'ella? Que desproposito!
--Pois bem, não digo. Não se falla mais na creatura. Mas não chores... Vá, acabou-se!--Beijou-a. E tomando-a pela cinta, levando-a dôcemente:--Vá, deixa o ferro agora. Vem! Que criança que tu és!
Por bondade, por consideração com os nervos de Luiza, Jorge durante alguns dias não fallou «na creatura». Mas pensava n'ella; e aquelle estafermo, com os pés para a cova, em sua casa, exasperava-o. Depois as madracices que lhe percebera, os confortos do quarto que vira na noite em que ella desmaiára, aquella bondade ridicula de Luiza!... Achava aquillo estranho, irritante!... Como estava fóra de casa todo o dia, e diante d'ella Juliana só tinha sorrisos para Luiza, muitas attitudes de affecto, imaginava que ella se soubera insinuar, e, pelas pequenas intimidades de ama a criada, se tornára necessaria e estimada. Isso augmentava a sua antipathia. E não a disfarçava.
Luiza vendo-o ás vezes seguir Juliana com um olhar rancoroso, tremia! Mas o que a torturava era a maneira que Jorge adoptára de fallar d'ella com uma veneração ironica; chamava-lhe _a illustre D. Juliana, a minha ama e senhora_! Se faltava um guardanapo ou um copo, fingia-se espantado: «Como! a D. Juliana esqueceu-se! Uma pessoa tão perfeita!» Tinha gracejos que gelavam Luiza.
--A que sabia o filtro que ella te deu? Era bom?
Luiza agora, diante d'elle, já nem se atrevia a fallar a Juliana com um modo natural; temia os sorrisos malignos, os ápartes:--«Anda, atira-lhe um beijo, conhece-se na cara que estás com a vontade de lh'o atirar!» E, receando as suspeitas d'elle, querendo mostrar-se _independente_, começou na sua presença, a fallar a Juliana com uma dureza brusca, muito affectada. A pedir-lhe agua, uma faca, dava á voz inflexões d'um rancor postiço.
Juliana, muito fina, tinha percebido _tudo_, e supportava, calada.
Queria evitar toda a questão que a perturbasse no seu conchego. Sentia-se agora muito mal, e nas noites em que não podia dormir com afflicções asthmaticas, punha-se a pensar com terror--se fosse expulsa d'aquella casa, para onde iria? Para o hospital!
Tinha por isso medo de Jorge.
--Elle está morto por me pilhar em desleixo grosso, e descartar-se de mim--dizia ella á tia Victoria--mas não lhe hei-de dar esse gosto, ao boi manso!
E Luiza, pasmada, vira-a pouco a pouco recomeçar a fazer todo o serviço, com zelo, apparentemente; e todavia ás vezes não podia, vencida pela doença; tinha «flatos» que a faziam cahir n'uma cadeira, arquejando, com as mãos no coração. Mas reagia. Uma occasião mesmo vendo Luiza a passar um espanejador pelos _consoles_ da sala, zangou-se:
--A senhora faz favor de se não metter no meu serviço? Eu ainda posso! Ainda não estou na cova!
Consolava-se então com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava sopinhas, croquettes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de gallinha á noite.
--Com o meu corpo o pago--dizia ella a Joanna--que trabalho como uma negra! Arrazo-me!
Um dia, porém, que Jorge se irritára mais com a figura amarellada de Juliana, e que estava nervoso, ao achar á noite o jarro vazio e o lavatorio sem toalha, enfureceu-se desproporcionadamente:
--Não estou para aturar estes desleixos! Irra!--gritou.
Luiza veio logo, inquieta, desculpar Juliana.
Jorge mordeu o beiço, curvou-se profundamente, e com a voz um pouco tremula:
--Perdão! esquecia-me que a pessoa de Juliana é sagrada! eu mesmo vou buscar agua!
Luiza então zangou-se: se havia de estar sempre com aquelles remoques, era mandar a criada embora por uma vez! Imaginava talvez que ella amava de paixão a Juliana? Se a conservava é porque era uma boa criada. Mas se ella se tornava a causa de maus humores, de questões, se elle lhe ganhára tamanho odio, bem, então que se fosse! Era uma sécca aquella ironia constante...
Jorge não respondeu.
E durante a noite Luiza, sem dormir, pensava que aquillo não podia durar! Estava farta! Aturar a mulher, a sua tyranna, e ouvir a todo o momento ditinhos, allusões, ah, não! era de mais! Bastava! Elle começava a desconfiar, a bomba ia estalar! Pois bem, ella mesma chegaria o lume ao rastilho! Ia mandar a Juliana embora! E que mostrasse as cartas, acabou-se! Se elle a mettesse n'um convento, se separasse d'ella, bem! Soffreria, morreria! Tudo, menos aquelle martyrio reles, ás picadinhas, medonho e grotesco!
--Que tens tu?--perguntou Jorge, meio a dormir, sentindo-a inquieta.
--Espertina.
--Coitada! Conta cento e cincoenta p'ra traz!--E voltou-se, enrolando-se commodamente na roupa.
Ao outro dia Jorge levantára-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso, o hespanhol das minas, e jantar com elle no Gibraltar. Depois de vestido foi á sala de jantar--eram dez horas--e voltou a dizer a Luiza, com uma cortezia profunda, espaçando as palavras:--que não estava a mesa posta! que as chavenas do chá da vespera estavam ainda por lavar! e que a snr.^a D. Juliana, a illustre snr.^a D. Juliana, tinha sahido, a seu passeio!
--Eu disse-lhe hontem á noite que me fosse ao sapateiro...--começou Luiza, que vestia o seu roupão.
--Ah, perdão!--interrompeu Jorge muito ceremoniosamente.--Esquecia-me outra vez que se trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdão!
Luiza acudiu logo:
--Não. Tens razão. Tu verás! É preciso pôr um côbro...
Subiu logo á cozinha, desesperada:
--Vossê porque não pôz a mesa, Joanna, se a outra sahiu?
Mas a rapariga não ouvira sahir a snr.^a Juliana! Imaginára que estava p'ra baixo, p'ra a sala! Como ella agora é que queria fazer tudo!...
Quando Joanna trouxe o almoço d'ahi a pouco Jorge veio sentar-se á mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes com um sorriso mudo para ir buscar uma colhér, o assucareiro. Luiza via-lhe os musculos da face contrahidos: mal podia comer, atarantada; a chavena, quando a erguia, tremia-lhe na mão; com os olhos baixos espreitava Jorge ás furtadellas, e o seu silencio torturava-a.
--Tu fallaste hontem que ias jantar fóra hoje...
--Vou--disse seccamente. E acrescentou:--Graças a Deus!
--Estás de bom humor!...--murmurou ella.
--Como vês!
Luiza fez-se pallida, pousou o talher: tomou o jornal para disfarçar uma lagrimasinha que lhe tremia na palpebra; mas as letras confundiam-se, sentia pular o coração. De repente a campainha tocou. Era a outra, de certo!
Jorge, que se ia erguer, disse logo:
--Ha-de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras...
E ficou de pé, junto á mesa, aguçando devagar um palito.
Luiza, a tremer, levantou-se tambem:
--Eu vou-lhe fallar...
Jorge reteve-a pelo braço, e tranquillamente:
--Não, deixa-a vir. Deixa-me gozar!...
Luiza recahiu na cadeira, muito pallida.
Os tacões de Juliana soaram no corredor. Jorge aguçava tranquillamente o seu palito.
Luiza então voltou-se para elle, e batendo as mãos, afflicta:
--Não lhe digas nada!...
Elle fixou-a, assombrado:
--Porque?
Juliana n'este momento abriu o reposteiro.
--Então que desaforo é este, sahir e deixar tudo por arrumar?--disse-lhe Luiza logo, erguendo-se.
Juliana, que vinha sorrindo, estacou á porta, petrificada: apesar da sua amarellidão, uma vaga côr de sangue espalhou-se-lhe nas feições.
--Não lhe torne a acontecer semelhante cousa, ouviu? A sua obrigação é estar em casa pela manhã...--Mas o olhar de Juliana, que se cravava n'ella terrivelmente, emmudeceu-a. Agarrou no bule com as mãos tremulas.--Deite agua n'este bule, vá.
Juliana não se mexeu.
--Vossê não ouviu?--berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada á mesa, que fez saltar a louça.
--Jorge!--gritou Luiza, agarrando-lhe no braço.
Mas Juliana fugira da sala, correndo.
--E logo, na rua!--exclamou Jorge.--Faze-lhe as contas, e que se vá. Ah! estou farto! Nem mais um dia! Se a torno a vêr, desfaço-a! Até que emfim! Chegou-me a minha vez!
Foi buscar o paletot, muito excitado, e antes de sahir, voltando á sala:
--E que se vá hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora mais! Ha quinze dias que a trago aqui atravessada. P'ra a rua!
Luiza veio para o quarto quasi sem se poder suster. Estava perdida! estava perdida! Uma multidão d'idéas, todas extremas e insensatas, redemoinhava no seu cerebro como um montão de folhas seccas n'uma ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de não ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas que Juliana lhe entregava, lendo: _Meu adorado Bazilio!_ Então uma cobardia immensa amolleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana. Ia supplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martyrisasse!... E Jorge depois? Diria que a Juliana chorára, se atirára de joelhos! Mentiria, cobril-o-hia de beijos... Era nova, era bonita, era ardente--convencel-o-hia!
Juliana não estava no quarto. Subiu á cozinha; estava lá, sentada, com os olhos chammejantes, os braços nervosamente cruzados, n'uma raiva muda. Apenas viu Luiza, deu um salto sobre os calcanhares, e mostrando-lhe o punho, berrou:
--Olhe que a primeira vez que vossê me torna a fallar como hoje, vai aqui tudo raso n'esta casa!
--Cale-se, sua infame!--gritou Luiza.
--Vossê manda-me calar, sua p...!--E Juliana disse a palavra.
Mas a Joanna correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez cahir, com um gemido, sobre os joelhos.
--Mulher!--bradou Luiza, arremessando-se sobre a Joanna, agarrando-a pelos braços.
Juliana, assombrada, fugiu.
--Ó Joanna! ó mulher! que desgraça, que escandalo!--exclamava Luiza com as mãos apertadas na cabeça.
--Racho-a!--dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como brazas--racho-a!
Luiza andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pallida como a cal, repetindo, toda a tremer:
--O que vossê foi fazer, mulher! o que vossê foi fazer!
A Joanna ainda toda revolvida de sua colera, com o rosto manchado de vermelho, remexia furiosamente as panellas.
--E se ella me diz uma palavra, acabo-a, aquella bebeda! Acabo-a!
Luiza desceu ao quarto. No corredor sahiu-lhe Juliana, com a cuia á banda, as dedadas escarlates na face, medonha.
--Ou aquella desavergonhada vai já p'ra a rua--gritou ella--ou eu vou-me pôr lá em baixo na escada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe tudo!...
--Pois mostre, faça o que quizer!--disse Luiza, passando, sem a olhar.
Fôra uma desesperação, um odio que a tinham decidido. Mais valia acabar por uma vez!...
Sentia então como um allivio doloroso, em vêr o fim do seu longo martyrio! Havia mezes que elle durava. E pensando em tudo o que tinha feito e que tinha soffrido, as infamias em que chafurdára e as humilhações a que descera, vinha-lhe um tedio de si mesma, um nojo immenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e espesinhado; que n'ella nem havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo que foi pisado por uma multidão, sobre a lama. Não valia a pena luctar por uma vida tão vil. O convento seria já uma purificação, a morte uma purificação maior...--E onde estava elle, o homem que a desgraçára? Em Paris, retorcendo a guia dos bigodes, chalaceando, governando os seus cavallos, dormindo com outras! E ella morria alli, estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse, nem uma palavra de resposta; nem a julgára digna do meio tostão da estampilha! O que elle lhe dizia pelas terras da Polvora acima, n'aquelle _coupé_:--Dar-lhe-hia toda a sua vida, viveria á sombra das suas saias! O infame! Já tinha talvez no bolso o bilhete da passagem! Em quanto ella fôra a mulher alegre, que vem, despe o corpete, mostra um lindo collo--então bem, prompto! Mas teve uma difficuldade, chorou, soffreu--ah! não, isso não! És um bello animal que me dás um grande prazer--perfeitamente, tudo o que quizeres: mas tornas-te uma creatura dolorida que precisa consolações, talvez uns poucos de centos de mil reis--então boas noites, cá vou no paquete! Oh que estupida que é a vida! Ainda bem que a deixava!