O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Part 24

Chapter 243,749 wordsPublic domain

--Ora!--são genios! Gosta d'arrumar. Ah, lá isso deve-se dizer, é senhora de muita ordem. Mas gosta, gosta de trabalhar. Ás vezes basta-lhe vêr um bocadinho de pó, agarra logo no espanador... É genio. Tenho visto outras assim...--E punha a cabeça de lado, franzindo os beiços.

--O que ella é, é uma santa--repetiu a Joanna.

--É genio! Está sempre n'uma labutação. Eu nunca sáio sem deixar tudo n'um brinco. Pois senhores, nunca está satisfeita. Até n'outro dia, lá em baixo a passar a roupa... Eu ia a sahir, pois tirei logo o chapéo, e não consenti... Olhe, quer que lhe diga? falta de cuidados, não ter filhos... Que ella não lhe falta nada...

Calou-se, remirou o pé, e com satisfação:

--Nem a mim--disse reclinando-se na cadeira.

A Joanna pôz-se a cantarolar. Não queria «questões». Mas ultimamente achava «tudo aquillo muito fóra dos eixos», a Juliana sempre na rua, ou mettida no quarto a trabalhar para si, sem se importar, deixando tudo ao Deus dará, e a pobre senhora a varrer, a passar, a emmagrecer! Não, alli havia cousa! Mas o seu Pedro que ella consultára, disse-lhe com finura, retorcendo o buço:--Ellas lá se entendem! Trata tu de gozar, e não te importes com a vida dos outros. A casa é boa, toca a tirar partido!

Mas Joanna sentia «lá por dentro» a crescer-lhe uma embirração pela snr.^a Juliana. Tinha-lhe asca pelas tafularias, pelos luxos do quarto, pelas passeatas todo o dia, pelos modos de madama; não se recusava a fazer-lhe o serviço, porque isso lhe rendia presentinhos da senhora; mas, quê, tinha-lhe birra! O que a consolava era a idéa de que um piparote desfazia aquella magricella! e ia tirando partido da casa, tambem. O Pedro tinha razão...

Juliana com effeito, agora, não se constrangia. Depois da «scena da roupa», assustára-se, porque, emfim, o escandalo podia-lhe fazer perder a _posição_; durante alguns dias não sahiu, foi cuidadosa: mas quando viu Luiza resignar-se, abandonou-se logo, quasi com fervor, ás satisfações da preguiça e ás alegriasinhas da vingança. Passeava, costurava fechada no seu quarto, e a _Piorrinha_ que se arranjasse! Diante de Jorge ainda se continha: temia-o. Mas apenas elle sahia! Que desforra! Ás vezes estava varrendo ou arrumando--e, mal o sentia fechar a cancella, atirava o ferro, a vassoura, punha-se a «panriar». Lá estava a _Piorrinha_, para acabar!

Luiza, no entanto, passava peor: tinha de repente, sem razão, febres ephemeras; emmagrecia, e as suas melancolias torturavam Jorge.

Ella explicava tudo pelo _nervoso_.

--Que será, Sebastião?--era a pergunta incessante de Jorge. E lembrava-se com terror que a mãi de Luiza morrera d'uma doença de coração!

Na rua, pela cozinheira, pela tia Joanna, sabia-se que a do Engenheiro «ia mal». A tia Joanna jurava que era a solitaria. Porque emfim, uma pessoa a quem não faltava nada, com um marido que era um anjo, uma boa casa, todos os seus commodos--e a esmorecer, a esmorecer... Era a bicha! Não podia ser senão a bicha! E todos os dias lembrava a Sebastião que se devia mandar chamar o homem de Villa Nova de Famalicão, que tinha o remedio «para a bicha».

O Paula explicava d'outro modo.

--Alli anda cousa de cabeça--dizia, franzindo a testa, com o ar profundo.--Sabe o que ella tem, snr.^a Helena? É muita dóse de novellas n'aquella cachimonia. Eu vejo-o de pela manhã até á noite de livro na mão. Põe-se a lêr romances e mais romances... Ahi teem o resultado: arrazada!

Um dia Luiza de repente, sem razão, desmaiou; e quando voltou a si ficou muito fraca, com o pulso sumido, os olhos cavados. Jorge foi logo buscar Julião: encontrou-o muito agitado, porque o concurso era para o dia seguinte, e «sentia cólicas».

Durante todo o caminho não deixou de fallar excitadamente da sua these, do escandalo dos patrocinatos, do barulho que faria se fossem injustos,--arrependido agora de não ter «mettido mais cunhas»!

Depois de ter examinado Luiza veio dizer, furioso, a Jorge:

--Não tem nada! E vaes-me buscar p'ra isto! Tem anemia, o que todos temos. Que passeie, que se distráia. Distracções e ferro, muito ferro... E agua fria, agua fria p'ra cima d'aquella espinha!

Como eram cinco horas, convidou-se para jantar, deblaterando toda a tarde contra o paiz, amaldiçoando a carreira medica, injuriando o seu concorrente, e fumando com desespero os charutos de Jorge.

Luiza tomava o ferro, mas recusava as distracções; fatigava-a vestir-se, aborrecia-lhe ir ao theatro... Depois, logo que viu Jorge preoccupar-se do seu estado, quiz affectar força, alegria, bom humor; e aquelle esforço abatia-a, extraordinariamente.

--Vamos para o campo, queres tu?--dizia-lhe Jorge desolado, vendo-a esmorecida.

Ella, receando complicações possiveis, não aceitava; não se sentia bastante forte, dizia: onde estava mais confortavel que em casa? Depois as despezas, os incommodos...

Uma manhã, que Jorge voltára a casa inesperadamente, encontrou-a em _robe-de-chambre_, com um lenço amarrado na cabeça, varrendo, lugubremente.

Ficou á porta attonito:

--Que andas tu a fazer? andas a varrer?

Ella córou muito, atirou logo a vassoura, veio abraçal-o.

--Não tinha que fazer... Deu-me a mania da limpeza... Estava aborrecida, além d'isso faz-me bem, é um exercicio.

Jorge, á noite, contou a Sebastião aquella «tolice, de se andar a esfalfar...»

--Uma pessoa que está tão fraca, minha senhora...--observou reprehensivamente Sebastião.

Mas não! dizia ella, achava-se bem melhor! Até agora andava muito melhor...

Todavia, quasi não fallou n'essa noite, curvada sobre o seu _crochet_, um pouco pallida: e os seus olhos ás vezes erguiam-se com uma fadiga triste, sorrindo silenciosamente, d'um modo desconsolado.

Pediu a Sebastião que tocasse algum cousa do _Requiem_ de Mozart. Achava tão lindo! Gostava que lh'o cantassem na igreja quando ella morresse...

Jorge zangou-se. Que mania de fallar em cousas ridiculas!

--Mas então, não é possivel que eu morra?...

--Pois bem, morre e deixa-nos em paz!--exclamou elle furioso.

--Que bom marido!--dizia ella sorrindo a Sebastião.--Deixou cahir o _crochet_ no regaço, pediu-lhe então os _Dezeseis compassos da Africana_. Escutava, com a cabeça apoiada á mão: aquelles sons entravam-lhe na alma com a doçura de vozes mysticas que a chamavam; parecia-lhe que ia levada por ellas, se desprendia de tudo o que era terrestre e agitado, se achava n'uma praia deserta, junto ao mar triste, sob um frio luar--e alli, puro espirito, livre das miserias carnaes, rolava nas ondulações do ar, tremia nos raios luminosos, passava sobre as urzes nos sopros salgados...

A melancolica attitude do seu corpo abatido enfureceu Jorge:

--Ó Sebastião, fazes-me favor de tocar o fandango, o Barba Azul, o Pirolito, o diabo? Senão, se querem melancolia, eu começo com o canto-chão!

E cantou, com um tom funebre:

_Dies ir[ae], dies illa Solvunt s[ae]cula in favilla!..._

Luiza riu-se:

--Que doudo! Nem póde a gente estar triste...

--Póde!--exclamou Jorge.--Mas então venha a bella tristeza, venha a tristeza completa.--E com uma voz medonha entoou o _Bemdito_!

--Os visinhos hão-de dizer que estamos doudos, Jorge--acudiu ella.

--É justamente o que nós estamos!--E entrou no escriptorio, atirando com a porta.

Sebastião bateu alguns compassos, e voltando-se para ella, baixo:

--Então que idéas são essas? Que melancolia é essa?

Luiza ergueu os olhos para elle; viu a sua face boa e amiga, cheia de sympathia; ia talvez dizer-lhe tudo n'uma explosão de dôr, mas Jorge sahia do escriptorio. Sorriu, encolheu os hombros, retomou devagar o seu _crochet_.

No domingo seguinte, á noite, conversava-se na sala. Julião contára o seu concurso. Em resumo, estava contente: tinha fallado duas horas bem, com precisão, com lucidez.

O dr. Figueiredo dissera-lhe que «devia ter amenisado um bocado mais...»

--Litteratos!--fazia Julião, encolhendo os hombros, com desprezo.--Não podem fallar cinco minutos sobre o osso do tornozelo, sem trazerem as «flôres da primavera» e «o facho da civilisação»!

--O portuguez tem a mania da rhetorica...--disse Jorge.

N'este momento Juliana entrou na sala, com uma carta.

--Oh! é do Conselheiro!

Ficaram inquietos. Mas Accacio apenas se desculpava de «não poder vir, como promettera na vespera, partilhar do excellente chá de D. Luiza. Um trabalho urgente retinha-o á banca do dever. Pedia lembranças aos nossos Sebastião e Julião, e affectuosos respeitos á interessante D. Felicidade».

Uma onda de sangue abrazou o rosto da excellente senhora. Ficou a arfar, toda alterada; mudou duas vezes de cadeira, foi tocar no teclado com um dedo a _Perola d'Ophir_; e emfim, não se dominando, pediu baixo a Luiza «que fossem para o quarto, tinha um segredo...»

Apenas entraram, fechando a porta da sala:

--Que me dizes á carta d'elle?

--Os meus parabens--disse Luiza, rindo.

--É o milagre!--exclamou D. Felicidade--já é o milagre a fazer-se!--E mais baixo:--Mandei o homem! O que eu te disse, o gallego!

Luiza não comprehendia.

--O homem a Tuy, á mulher de virtude! Levou o meu retrato e o d'elle. Partiu ha uma semana: a mulher naturalmente já começou a enterrar-lhe as agulhas no coração...

--Que agulhas?--perguntou Luiza attonita.

Estavam de pé, junto ao toucador. E D. Felicidade com uma voz mysteriosa:

--A mulher faz um coração de cera, colla-o ao retrato do Conselheiro, e durante uma semana á meia noite crava-lhe uma agulha benta com o preparo que ella tem, e faz as orações...

--E déste o dinheiro ao homem?

--Oito moedas.

--Oh D. Felicidade!

--Ai! não me digas. Que já vês! Que mudança! D'aqui a uns dias, baba-se! Ai! Nossa Senhora da Alegria o permitta. Nossa Senhora o permitta! Que aquelle homem traz-me douda. De noite, é cada sonho! Até ando em peccado mortal! e são suores! Mudo de camisa tres e quatro vezes!

E ia-se olhando ao espelho: queria convencer-se que as bellezas da sua pessoa ajudariam as agulhas da bruxa: alisou o cabello.

--Não me achas mais magra?

--Não.

--Ai estou, filha, estou!--E mostrou o corpete lasso.

Já fazia planos. Iria passar a _lua de mel_ a Cintra... Os olhos afogavam-se-lhe n'um fluido lubrico.

--Nossa Senhora da Alegria o permitta. Tenho-lhe duas velas accesas, de dia e de noite...

Mas de repente a voz afflicta de Joanna bradou da escada da cozinha:

--Minha senhora! Minha senhora, acuda!

Luiza correu, Jorge tambem, que ouvira na sala o grito. Juliana estava estendida no soalho da cozinha, desmaiada!

--Deu-lhe de repente, deu-lhe de repente!--exclamava Joanna, muito branca, a tremer.--Tombou p'ra o lado de repente...

Julião tranquillisou-os logo: era uma syncope, simples. Transportaram-na para a cama. Julião fez-lhe esfregar violentamente com uma flanella quente as extremidades,--e, mesmo antes que Joanna atarantada, em cabello, corresse á botica por um antispasmodico, Juliana voltava a si, muito fraca. Quando desceram á sala, Julião disse, enrolando o cigarro:

--Não vale nada. São muito frequentes, estas syncopes, nas doenças de coração. Esta é simples. Mas é o diabo, ás vezes tem um caracter apopletico, e vem a paralysia; pouco duradoura, sim, porque a effusão de sangue no cerebro é muito pequena, mas emfim, sempre desagradavel.--E accendendo o cigarro:--Esta mulher um dia morre-lhes em casa.

Jorge, preoccupado, passeava pela sala com as mãos nos bolsos.

--Sempre o tenho dito--acudiu D. Felicidade, baixando a voz, assustada.--Sempre o tenho dito. É desfazerem-se d'ella.

--Além d'isso o tratamento é incompativel com o serviço--disse Julião.--Emfim, mesmo a engommar roupa se póde tomar digitalis ou quinino; mas é que o verdadeiro tratamento é o repouso, é a absoluta exclusão da fadiga. Que ella um dia se zangue ou que tenha uma manhã de canceira, e póde ir-se!

--E vai adiantada a doença?--perguntou Jorge.

--Pelo que ella diz já tem a difficuldade asthmatica, oppressões, uma dôr aguda na região cardiaca, flatulencia, humidade nas extremidades--o diabo!

--Olha que espiga!--murmurou Jorge, olhando em roda.

--É pôl-a na rua!--resumiu D. Felicidade.

Quando ficaram sós, ás onze horas, Jorge disse logo a Luiza:

--Que te parece esta, hein? É necessario descartarmo-nos da creatura. Não quero que me morra em casa!

Ella, sem se voltar, diante do toucador, tirando os brincos, começou a dizer, que não se podia mandar tambem a pobre creatura morrer p'ra a rua... Lembrou vagamente o que ella tinha feito pela tia Virginia... Ia collocando devagar as suas palavras com a cautela com que se pousa o pé n'um terreno traiçoeiro.--Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, que ella fosse viver algures...

Jorge, depois d'um silencio, respondeu:

--Não tenho duvida em lhe dar dez ou doze libras, e que se vá, que se arranje!

Dez ou doze libras!--pensou Luiza com um sorriso infeliz.--E á beira do toucador olhava para o seu rosto, ao espelho, com uma indefinida saudade, como se as suas faces devessem dentro em pouco estar cavadas pela afflicção, e os seus olhos fatigados pelas lagrimas...

Porque, emfim, a _crise_ tinha chegado. Se Jorge insistisse em despedir a creatura, ella não podia, sem provocar um espanto e uma explicação, dizer a Jorge: não quero que ella sáia, quero que ella aqui morra! E Juliana vendo-se expulsa, desesperada, doente, percebendo que Luiza não a defendia, não a reclamava,--vingar-se-hia! Que havia de fazer?

Ergueu-se ao outro dia n'uma grande agitação. Juliana muito fatigada, ainda estava na cama. E em quanto Joanna punha a mesa, Luiza sentada na _voltaire_, á janella da sala de jantar, lia machinalmente o _Diario de Noticias_, quasi sem comprehender, quando uma noticia, no alto da pagina, lhe deu um sobresalto: «Parte além d'ámanhã para França o nosso amigo e conhecido banqueiro Castro, da firma Castro Miranda & C.^a S. exc.^a retira-se dos negocios da praça, e vai estabelecer-se definitivamente em França, perto de Bordeus, onde comprou ultimamente uma valiosa propriedade.»

O Castro! O homem que lhe dava dinheiro, o que ella quizesse! dizia Leopoldina. Partia!... E apesar de ter achado, desde o primeiro momento, aquelle recurso infame, vinha-lhe a seu pezar como uma desconsolação de o vêr desapparecer! Porque nunca mais voltaria a Portugal, o Castro!... E de repente uma idéa atravessou-a, que a fez vibrar toda, erguer-se direita, muito pallida.--Se na vespera da partida d'elle, Santo Deus! se na vespera ella consentisse!... Oh! era horrivel! Nem pensar em tal!...

Mas pensou--e sentia-se toda fraca contra uma tentação crescente, que se lhe enroscava na alma com caricias persuasivas. É que então estava salva! Dava seiscentos mil reis a Juliana! E o demonio iria morrer para longe!

E elle, o homem, tomaria o paquete! Não teria de córar diante d'elle; o seu segredo ia para o estrangeiro, tão perdido como se fosse para o tumulo!--E, além d'isso, se o Castro tinha uma paixão por ella, era bem possivel que lhe emprestasse, sem condições!...

Bom Deus! No dia seguinte podia ter alli na algibeira do seu roupão as notas, o ouro... Porque não?--Porque não? E vinha-lhe um desejo ancioso de se libertar, de viver feliz, sem agonias, sem martyrios...

Voltou ao quarto. Pôz-se a remexer no toucador, olhando de lado Jorge que se vestia... A presença d'elle deu-lhe logo um remorso; ir pedir a um homem dinheiro, consentir nos seus olhares lascivos, nas suas palavras intencionaes!... Que horror!--Mas já subtilisava. Era por Jorge, era por elle! Era para lhe poupar o desgosto de _saber_! Era para o poder amar livremente, toda a vida, sem receios, sem reservas...

Durante todo o almoço esteve calada. O rosto sympathico de Jorge enternecia-a; o _outro_ parecia-lhe medonho, odiava-o já!...

Quando Jorge sahiu ficou muito nervosa. Ia á janella; o sol parecia-lhe adoravel, a rua attrahia-a.--Porque não? Porque não?

A voz de Juliana, muito aspera, fallou então nas escadas da cozinha; e aquelle cantado odioso decidiu-a bruscamente.

Vestiu-se com cuidado: era mulher, quiz parecer bonita.--E chegou toda esbaforida a casa de Leopoldina, quando dava meio dia a S. Roque.

Encontrou-a vestida, esperando o almoço. E tirando immediamente o chapéo, installando-se no sophá, explicou muito claramente a Leopoldina a sua resolução. Queria o dinheiro do Castro. Emprestado ou dado, queria o dinheiro!... Estava n'uma afflicção, devia valer-se de tudo!... Jorge queria despedir a mulher... Tinha medo d'uma vingança d'ella... Queria dinheiro, alli estava!

--Mas assim de repente, filha!--disse Leopoldina, pasmada do seu olhar decidido.

--O Castro vai-se ámanhã. Vai para Bordeus, para o inferno! É necessario fazer alguma cousa, já!

Leopoldina lembrou escrever-lhe.

--O que quizeres... Eu aqui estou!

A outra sentou-se devagar á mesa, escolheu uma folha de papel, e, com o dedinho no ar, a cabeça de lado, começou a escrevinhar.

Luiza passeava pelo quarto, nervosa. Tinha agora uma resolução teimosa, que a presença de Leopoldina fortificava! Divertia-se, aquella, dançava, ia ao campo, gozava, vivia, sem ter como ella uma tortura a minar-lhe, a estragar-lhe a vida! Ah! não voltaria para casa sem levar na algibeira em boas libras o resgate, a salvação! Ainda que tivesse de ser vil como as do Bairro Alto! Estava farta das humilhações, dos sustos, das noites cortadas de pesadêlos!... Queria saborear a vida, que diabo! o seu amor, o seu jantar, sem cuidados, com o coração contente!

--Vê lá--disse Leopoldina, lendo:

«Meu caro amigo.

«Desejo absolutamente fallar-lhe. É um negocio grave. Venha logo que possa. Talvez me agradeça. Espero-o até ás tres horas, o mais tardar.

«Com toda a estima

Sua amiga

_Leopoldina_».

--Que te parece?

--Horrivel! Mas está bem... Está muito bem! Risca-lhe o _talvez me agradeça_. É melhor.

Leopoldina copiou o bilhete, mandou-o pela Justina, n'um trem.

--E agora vou almoçar, que me não tenho nas pernas.

A sala de jantar dava para um saguão estreito. As paredes estavam cobertas d'uma pintura medonha, em que grandes manchas verdes semelhavam collinas, e linhas azues ferretes representavam lagos. Um armario, no angulo da parede, servia de guarda-louça. As cadeiras de palhinha tinham almofadinhas de paninho vermelho; e na toalha havia nodoas do café da vespera.

--D'uma cousa pódes tu ter a certeza--dizia Leopoldina, bebendo grandes goles de chá--é que o Castro é um homem p'ra um segredo!... Se te emprestar o dinheiro, que empresta, d'aquella bocca não sahe uma palavra. Lá n'isso é perfeito... Olha que foi o amante da Videira annos! e nem ao Mendonça, que é o seu intimo, disse uma palavra. Nem uma allusão! É um poço.

--Que Videira?--perguntou Luiza.

--Uma alta, de nariz grande, que tem um _landau_.

--Mas passa por uma mulher tão séria...

--Já tu vês!--E com um risinho:--Ai ellas passam, passam. Lá passar, passam. A questão é conhecer-lhes os pôdres, minha fidalga!

E barrando de manteiga grandes fatias de pão, pôz-se a fallar complacentemente dos escandalos de Lisboa, a desdobrar o _sudario_: citava nomes, especialidades, as que depois de terem «feito o diabo», gastam, n'uma devoção tardia, o resto d'uma velha sensibilidade; que é por onde ellas acabam, algumas é pelas sacristias! As que, cançadas de certo d'uma virtude monotona, preparam habilmente o seu «fracasso» n'uma estação em Cintra ou em Cascaes. E as meninas solteiras! Muito pequerrucho por essas amas, dos arredores tem o direito de lhes chamar _mamã_! Outras mais prudentes, receando os resultados do amor, refugiam-se nas precauções da libertinagem... Sem contar as senhoras que em vista dos pequenos ordenados, completam o marido com um sujeito supplementar!--Exagerava muito; mas odiava-as tanto! Porque todas tinham, mais ou menos, sabido conservar a exterioridade decente que ella perdera, e manobravam com habilidade, onde ella, a tola, tivera só a sinceridade! E em quanto ellas conservavam as suas relações, convites para _soirées_, a estima da côrte,--ella perdera tudo, era apenas a Quebraes!...

Aquella conversação enervava Luiza; n'uma tal generalidade do vicio parecia-lhe que o seu caso, como um edificio n'um nevoeiro, perdia o seu relevo cruel, se esbatia; e sentindo-o tão pouco visivel quasi o julgava já justificado.

Ficaram caladas, vagamente entorpecidas por aquelle sentimento d'uma forte immoralidade geral, onde as resistencias, os orgulhos se amollecem, se enlanguecem,--como os musculos n'uma estufa fortemente saturada de exhalações mornas.

--Este mundo é uma historia--disse Leopoldina erguendo-se e espreguiçando-se.

--E teu marido onde está?--perguntou Luiza no corredor.

Fôra p'ra o Porto. Estavam á vontade, podiam commetter crimes!

E Leopoldina, no quarto, estirando-se no canapé, com o cigarrinho _laferme_ na bocca, começou tambem a queixar-se.

Andava aborrecida ha tempos; enfastiava-se, achava tudo seccante; queria alguma cousa de novo, de desusado! Sentia-se bocejar por todos os poros do seu corpo...

--E o Fernando, então?--disse distrahidamente Luiza, que a cada momento se aproximava da janella.

--Um idiota!--respondeu Leopoldina com um movimento d'hombros, cheio de saciedade e de desprezo.

Não, realmente tinha vontade d'outra cousa, não sabia bem de quê! Ás vezes lembrava-se fazer-se freira! (E estirava os braços com um tedio molle). Eram tão semsaborões todos os homens que conhecia! tão corriqueiros todos os prazeres que encontrára! Queria uma outra vida, forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar--ser mulher d'um salteador, andar no mar, n'um navio pirata... Em quanto ao Fernando, o amado Fernando dava-lhe nauseas! E outro que viesse seria o mesmo. Sentia-se farta dos homens! Estava capaz de tentar Deus!

E, depois d'escancarar a bocca, n'um bocejo de fera engaiolada:

--Aborreço-me! Aborreço-me!... Oh céos!

Ficaram um momento caladas.

--Mas, que se lhe ha-de dizer, a esse homem?--perguntou de repente Luiza.

Leopoldina, soprando o fumo do cigarro, com a voz muito preguiçosa:

--Diz-se-lhe que se precisa um conto de reis, ou seiscentos mil reis... Que se lhe ha-de então dizer? Que se lhe paga.

--Como?

Leopoldina disse, deitada, com os olhos no tecto:

--Em affecto.

--Oh! és horrivel!--exclamou Luiza, exasperada.--Vês-me aqui desgraçada, meia douda, dizes que és minha amiga, e estás a rir, a escarnecer...--A sua voz tremia, quasi chorava.

--Mas tambem que pergunta tão tola! Como se lhe ha-de pagar?... Tu não sabes?

Olharam-se um momento.

--Não, eu vou-me embora, Leopoldina!--exclamou Luiza.

--Não sejas criança!

Um trem parou na rua. A Justina appareceu. Não encontrára o snr. Castro em casa, estava no escriptorio. Fôra lá, disse que vinha immediatamente.

Mas Luiza, muito pallida, tinha o chapéo na mão.

--Não--disse Leopoldina, quasi escandalisada--tu agora não me deixas aqui com o homem! Que lhe hei-de eu dizer?

--É horrivel!--murmurou Luiza com uma lagrima nas palpebras, deixando cahir os braços, solicitada pelo interesse, enleada pela vergonha, muito infeliz!

--É como quem toma oleo de ricino--disse a outra com um gesto cynico. E acrescentou, vendo o horror de Luiza:--Que diabo! onde é que está a deshonra, em pedir dinheiro emprestado? Todo o mundo pede...

N'aquelle momento outra carruagem, a largo trote, parou.

--Entra tu primeiro! falla-lhe tu primeiro!--supplicou Luiza, erguendo as mãos para ella.

A campainha retiniu. Luiza muito tremula, muito branca, olhava para todos os lados com um olhar muito aberto, de susto, d'ancia, como procurando uma idéa, uma resolução ou um recanto para se esconder! Botas d'homem rangeram na esteira da sala ao lado. Leopoldina então disse-lhe baixo, devagar, como para lhe cravar as palavras na alma, uma a uma:

--Lembra-te que d'aqui a uma hora pódes estar salva, com as tuas cartas na algibeira, feliz, livre!

Luiza pôz-se de pé com uma decisão brusca. Foi pôr pós d'arroz, alisou o cabello,--e entraram na

Ao vêr Luiza, o Castro teve um movimento surprehendido. Curvou-se, com os pés pequeninos muito juntos, inclinando a cabeça grossa, onde os cabellos muito finos alourados já rareavam.