O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Part 22

Chapter 223,766 wordsPublic domain

Era a _infame_ que se sentia feliz! Ás vezes só no seu quarto, punha-se a olhar em redor com um riso d'avaro: desdobrava, batia os vestidos de sêda: punha as botinas em fileira, contemplando-as de longe, extatica; e debruçada sobre as gavetas abertas da commoda contava, recontava a roupa branca, acariciando-a com o olhar de posse satisfeita. Como a da _Piorrinha_!--murmurava, afogada em jubilo.

--Ai! estou muito bem!--dizia ella á tia Victoria.

--Que duvida que estás! A carta não te rendeu um conto de reis, mas olha que te trouxe um par de regalos. E é que ha-de ser uma pingadeira: ha-de ser a boa peça de linho, o bom adereço, boas moedas... E ainda muito obrigada por cima. Carda-a, filha, carda-a!

Mas já havia pouco que _cardar_. E lentamente Juliana começou a pensar, que agora o que devia era _gozar_. Se tinha bons colxões--para que se havia de levantar cêdo? Se tinha bons vestidos--porque não havia d'ir espairecer para a rua? Toca a tirar partido!

Uma manhã que estava mais frio deixou-se ficar na cama até ás nove horas, com as janellas entreabertas, um bom raio de sol na esteira. Depois explicou seccamente, que tinha estado com a dôr. D'ahi a dous dias Joanna, ás dez horas, veio dizer baixo a Luiza:

--A snr.^a Juliana ainda está na cama, está tudo por arrumar.

Luiza ficou aterrada. O quê? Teria de soffrer os seus desmazelos, como soffrera as suas exigencias?

Foi ao quarto d'ella:

--Então vossê levanta-se a estas horas?

--Foi o que me recommendou o medico--replicou muito insolente.

E d'ahi por diante Juliana poucas vezes se erguia antes da hora de servir ao almoço. Luiza pediu logo a Joanna que fizesse «o serviço por ella»: era por pouco tempo, a pobre creatura andava tão adoentada! E para acommodar a cozinheira deu-lhe meia moeda, para a ajuda d'um vestido.

Juliana depois, sem pedir licença, começou a sahir. Quando voltava tarde, para o jantar, não se desculpava!

Um dia Luiza não se conteve, disse-lhe, vendo-a passar no corredor a calçar as luvas pretas:

--Vossê vai sahir?

Ella respondeu, muito atrevidamente:

--É como vê. Fica tudo arrumado, tudo o que é minha obrigação.--E abalou, batendo os tacões.

Ora, não lhe faltava mais senão estar a constranger-se por causa da _Piorrinha_!

Joanna começava a resmungar: «passa a sua vida na rua a snr.^a Juliana, e eu é que aguento...»

--Se vossê estivesse doente, tambem ninguem lhe ia á mão--acudia Luiza, afflicta, quando percebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe mesmo vinho e sobremesa.

Havia agora um desperdicio na casa. Os roes cresciam. Luiza andava succumbida.--Como acabaria tudo aquillo?

Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves.

Para sahir mais cedo fazia apenas o «essencial». Era Luiza que acabava d'encher os jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoço, que levava para o sotão roupa suja que ficava pelos cantos...

Um dia Jorge que entrára ás quatro horas, viu por acaso a cama por fazer. Luiza apressou-se a dizer que «Juliana sahira, mandára-a ella á modista».

D'ahi a dias, eram seis horas, ainda não tinha voltado para servir ao jantar. «Tinha ido á modista...» explicou Luiza.

--Mas se a Juliana é unicamente para ir á modista, então toma-se outra criada para fazer o serviço da casa--disse elle.

Áquellas palavras seccas Luiza fez-se pallida, duas lagrimas rolaram-lhe pela face.

Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luiza não se dominou, rompeu n'um choro nervoso, hysterico.

--Mas que é, minha filha, que tens? Zangaste-te?...

Ella não podia responder, suffocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de _toillette_, beijou-a muito.

Só quando o choro acalmou é que ella pôde dizer, com uma voz soluçada:

--Fallaste-me tão seccamente, e eu estou tão nervosa...

Elle riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lagrimas--mas ficou inquieto.

Já então lhe notára certas tristezas, abatimentos inexplicaveis, uma irritabilidade nervosa... Que seria?

Para que Jorge não tornasse a surprehender os desleixos, Luiza começou a completar todas as manhãs os arranjos. Juliana percebeu logo; e muito tranquillamente decidiu-se a «deixar-lhe de cada vez mais com que se entreter». Ora não varria, depois não fazia a cama; emfim uma manhã não vasou as aguas sujas. Luiza foi espreitar no corredor que Joanna não descesse, não a visse, e fez ella mesma os despejos! Quando veio ensaboar as mãos, as lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Desejava morrer!... A que tinha chegado!...

D. Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surprehendera-a a varrer a sala.

--Que eu o faça--exclamou--que tenho só uma criada, mas tu!...

A Juliana tinha tanto que engommar...

--Ai! não lhe tires serviço do corpo, que não t'o agradece. E ainda se ri por cima! Se a pões em maus costumes!... Que aguente, que aguente!

Luiza sorriu, disse:

--Ora, por uma vez na vida!

A sua tristeza augmentava cada dia.

Refugiava-se então no amor de Jorge como na sua unica consolação. A noite trazia-lhe a sua desforra: Juliana a essa hora dormia; não via a sua cara medonha; não a receava; não tinha de a elogiar; não trabalhava por ella! Era _ella mesma_, era Luiza, como d'antes! Estava na sua alcova com o seu marido, fechada por dentro, livre! Podia viver, rir, conversar, ter até appetite! E trazia com effeito ás vezes marmelada e pão para o quarto--para fazer uma cêasinha!

Jorge estranhava-a. «Tu de noite és outra», dizia. Chamava-lhe _ave nocturna_. Ella ria em saia branca pelo quarto, com os braços nús, o collo nú, o cabello n'um rolo; e passarinhava, cantarolava, chalrava--até que Jorge lhe dizia:

--Passa da uma hora, filha!

Despia-se então rapidamente, cahia-lhe nos braços.

Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a manhã, tudo lhe parecia vagamente pardo. A vida sabia-lhe mal. Vestia-se devagar, com repugnancia--entrando no seu dia como n'uma prisão.

Perdêra agora toda a esperança de se libertar! Ás vezes ainda lhe vinha, como um relampago, a vontade «de contar tudo a Sebastião, tudo». Mas quando o via, com o seu olhar honesto, abraçar Jorge, rirem ambos, e irem fumar o seu cachimbo, e elle tão cheio sempre d'admiração por ella, parecia-lhe mais facil sahir p'ra a rua, pedir dinheiro ao primeiro homem que encontrasse--que ir a Sebastião, ao intimo de Jorge, ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: escrevi uma carta a um homem, a criada roubou-m'a! Não, antes morrer n'aquella agonia de todos os dias, e ter ella mesma, de rastos, de lavar as escadas! Ás vezes reflectia, pensava:--Mas com que conto eu?--Não sabia. Com o acaso, com a morte de Juliana... E deixava-se viver, gozando como um favor cada dia que vinha, sentindo vagamente, a distancia, alguma cousa de indefinido e de tenebroso onde se afundaria!

Por esse tempo Jorge começou a queixar-se que as suas camisas andavam mal engommadas. A Juliana positivamente «perdia a mão». Um dia mesmo zangou-se: chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada:

--Isto não se póde vestir, está indecente!

Juliana fez-se amarella, cravou em Luiza um olhar chammejante; mas, com os beiços tremulos, desculpou-se: «a gomma era má, fôra já trocal-a», etc.

Apenas, porém, Jorge sahiu, veio com uma rajada ao quarto, fechou a porta e poz-se a gritar--que a senhora sujava _um rôr_ de roupa, o senhor _um rôr_ de camisas, que se não tivesse alguem que a ajudasse não podia dar aviamento!... Quem queria negras trazia-as do Brazil!

--E não estou para aturar o genio de seu marido, percebe a senhora? Se quer é arranjar quem me ajude.

Luiza disse simplesmente:

--Eu a ajudarei.

Tinha agora uma resignação muda, sombria, aceitava tudo!

Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa: e Juliana veio dizer--que se a senhora passasse, ella engommava. Senão, não!

Estava um dia adoravel, Luiza tencionava sahir... Pôz um roupão, e, sem uma palavra, foi buscar o ferro.

Joanna ficou attonita.

--Então a senhora vai engommar?

--Ha uma carga, e a Juliana só não póde aviar tudo, coitada!

Installou-se no quarto dos engommados,--e estava laboriosamente passando a roupa branca de Jorge, quando Juliana appareceu, de chapéo.

--Vossê vai sahir?--exclamou Luiza.

--É o que eu vinha dizer á senhora. Não posso deixar de sahir.--E abotoava as luvas pretas.

--Mas as camisas, quem as engomma?

--Eu vou sahir--disse a outra seccamente.

--Mas, com os diabos, quem engomma as camisas?

--Engomme-as a senhora! Olha a sarna!

--Infame!--gritou Luiza. Atirou o ferro para o chão, sahiu impetuosamente.

Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluços. Pôz-se logo a tirar o chapéo e as luvas, assustada. D'ahi a um momento ouviu a cancella da rua bater com força. Veio ao quarto, viu o roupão de Luiza arremessado, a chapelleira tombada. Onde teria ido? Queixar-se á policia? Procurar o marido? C'os diabos! Fôra estupida, com o genio! Arrumou depressa o quarto, foi-se pôr a engommar, com o ouvido á escuta, muito arrependida. Onde diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impellisse a fazer algum desproposito, quem perdia? Ella, que teria de sahir da casa, deixar o seu quarto, os seus regalos, a sua posição! Safa!

Luiza sahira, como louca. Na rua da Escóla um coupé passava, vazio: atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina. Leopoldina devia ter voltado do Porto, queria vêl-a, precisava d'ella, sem saber para que... Para desabafar! Pedir-lhe uma idéa, um meio de se vingar! Porque a vontade de se libertar d'aquella tyrannia--era agora menor que o desejo de se vingar d'aquellas humilhações. Vinham-lhe idéas insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que sentiria um prazer delicioso em a vêr torcer-se com vomitos dilacerantes, uivando d'agonia, largando a alma!

Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito tempo do puxão da sua mão febril.

A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor:

--É a snr.^a D. Luiza, minha senhora, é a snr.^a D. Luiza!

E Leopoldina despenteada, com um roupão escarlate de grande cauda, correu estendendo os braços:

--És tu! Que milagre é este? Eu levantei-me agora! Entra cá p'ra o quarto. Está tudo desarranjado, mas não importa. Mas que é isto, que é isto?

Abriu as janellas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de vinagre de _toilette_; a Justina tirava á pressa uma bacia de latão, com agua ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira tinham ficado da vespera os rolos de cabello, o collete, uma chavena com um fundo de chá cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o transparente, dizendo:

--Ora graças a Deus que honras esta casa, minha fidalga!...

Mas vendo o rosto perturbado de Luiza, os seus olhos vermelhos de lagrimas:

--Que é? Que tens tu? Que succedeu?

--Um horror, Leopoldina!--exclamou, apertando as mãos.

A outra foi fechar a porta, rapidamente.

--Então?

Mas Luiza chorava sem responder. Leopoldina olhava-a, petrificada.

--A Juliana apanhou-me umas cartas!--disse emfim por entre soluços.--Quer seiscentos mil reis! Estou perdida... Tem-me martyrisado... Quero que me digas, vê se te lembras... Estou como douda. Sou eu que faço tudo em casa... Morro, não posso!--E as lagrimas redobravam.

--E as tuas joias?

--Valem duzentos mil reis. E Jorge, que lhe havia eu de dizer?

Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os braços:

--Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, dá vinte libras!...

Luiza murmurava, limpando os olhos:

--Que expiação esta, Santo Deus, que expiação!

--Que diz a carta?

--Horrores! Estava douda... É uma minha, duas d'elle.

--De teu primo?

Luiza disse «sim», com a cabeça, lentamente.

--E elle?

--Não sei! Está em França, nunca me respondeu.

--Pulha! Como t'as apanhou, a mulher?

Luiza contou rapidamente a historia do sarcophago, e do cofre.

--Mas tu tambem, Luiza, atirar uma carta d'essas! Oh mulher, isso é medonho!

E Leopoldina pôz-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do roupão escarlate: os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam procurar um meio, um expediente... Murmurava:

--A questão é de dinheiro...

Luiza, prostrada no sophá, repetia:

--A questão é de dinheiro!

Então Leopoldina, parando bruscamente diante d'ella:

--Eu sei quem te dava o dinheiro!...

--Quem?

--Um homem.

Luiza ergueu-se, espantada:

--Quem?

--O Castro.

--O d'oculos?

--O d'oculos.

Luiza fez-se muito córada:

--Oh Leopoldina!--murmurou. E depois d'um silencio, rapidamente:

--Quem t'o disse?

--Sei-o eu. Disse-o elle ao Mendonça. Sabes que eram unha e carne. Que te dava tudo o que tu lhe pedisses! Disse-lh'o mais d'uma vez.

--Que horror!--exclamou Luiza subitamente indignada.--E tu propões-me semelhante cousa?--O seu olhar, sob as sobrancelhas franzidas, dardejava de colera. Ir com um homem por dinheiro!--Tirou o chapéo, violentamente, com as mãos tremulas, arremessou-o para a jardineira, e com passos rapidos pelo quarto:--Antes fugir, ir para um convento, ser criada, apanhar a lama das ruas!

--Não te exaltes, creatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te emprestasse o dinheiro, desinteressadamente...

--Acreditas tu?

Leopoldina não respondeu: com a cabeça baixa, fazia girar os anneis nos dedos.

--E quando fosse outra cousa?--exclamou de repente--Era um conto de reis, eram dous, estavas salva, estavas feliz!

Luiza sacudia os hombros, indignada d'aquellas palavras--dos seus proprios pensamentos, talvez!

--É indecente! É horrivel!--dizia.

Ficaram caladas.

--Ah! fosse eu!...--disse Leopoldina.

--Que fazias?

--Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro!

--Isso és tu!--exclamou Luiza, arrebatadamente.

Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de pó d'arroz.

Mas Luiza atirou-lhe os braços ao pescoço:

--Perdôa-me, perdôa-me! estou douda, não sei o que digo!...

Começaram ambas a chorar, muito nervosas.

--Tu zangaste-te!--dizia Leopoldina cortada de soluços.--Mas é p'ra teu bem. É o que me parece melhor. Se eu podesse dava-te o dinheiro... Fazia tudo. Acredita!

E abrindo os braços, indicando o seu corpo com um impudor sublime:

--Seiscentos mil reis! Se eu valesse tanto dinheiro, tinhal-o ámanhã!

Nós de dedos bateram á porta.

--Quem é?

--Eu--disse uma voz rouca.

--É meu marido. O animal ainda hoje não despegou de casa... Não posso abrir. Logo.

Luiza limpava os olhos, á pressa, punha o chapéo.

--Quando voltas?--perguntou Leopoldina.

--Quando puder, senão escrevo-te.

--Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar...

Luiza agarrou-lhe o braço:

--E d'isto, nem palavra.

--Douda!

Sahiu. Foi subindo devagar até ao largo de S. Roque. A porta da igreja da Misericordia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho d'armas bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe um desejo d'entrar. Não sabia para quê; mas parecia-lhe que depois da excitação apaixonada em que vibrára, o fresco silencio da igreja a calmaria. E depois sentia-se tão infeliz que se lembrou de Deus! necessitava alguma cousa de superior, de forte a que se amparar. Foi-se ajoelhar ao pé d'um altar, persignou-se, rezou o _Padre-Nosso_, depois a _Salve Rainha_. Mas aquellas orações, que ella recitava em pequena, não a consolavam; sentia que eram sons inertes que não iam mais alto no caminho do céo que a sua mesma respiração; não as comprehendia bem, nem se applicavam ao seu _caso_: Deus por ellas, nunca poderia saber o que ella pedia, alli, prostrada na afflicção. Quereria fallar a Deus, abrir-se toda a elle: mas com que linguagem? Com as palavras triviaes, como se fallasse a Leopoldina? Iriam as suas confidencias tão longe, que o alcançassem? Estaria elle tão perto, que a ouvisse? E ficou ajoelhada, os braços molles, as mãos cruzadas no regaço, olhando as velas de cera tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha rosada e redonda d'um menino Jesus!

Lentamente perdeu-se n'um scismar que ella não dirigia, que se formava e se movia no seu cerebro, como a fluctuação d'um fumo que se eleva. Pensava no tempo tão distante, em que, por melancolia e por sentimentalidade, frequentava mais as igrejas. Ainda a mamã vivia então; e ella, com o coração quebrado--quando o _outro_, Bazilio, lhe escrevera, rompendo--procurava dissipar a sua tristeza nas consolações da devoção. Uma amiga sua, a Joanna Silveira, fôra por esse tempo professar a França: e ella ás vezes lembrava-se de partir tambem, ser irmã de caridade, levantar os feridos nos campos de batalha, ou viver na paz d'uma cella mystica! Que differente a sua vida teria sido--d'esta agora tão alvoroçada de cólera, e tão carregada de peccado!... Onde estaria? Longe, n'algum mosteiro antigo, entre arvoredos escuros, n'um valle solitario e contemplativo: na Escocia, talvez, paiz que ella sempre amára desde as suas leituras de Walter Scott. Podia ser nas verde-negras terras de Lamermoor ou de Glencoe, n'alguma velha abbadia saxonia. Em redor os montes cobertos d'abetos, esbatidos nas nevoas, isolam aquelles retiros n'uma paz funeraria: n'um céo saudoso, as nuvens passam devagar, com recolhimento: nenhum som festivo quebra a meiga taciturnidade das cousas: revoadas de corvos cortam á tarde o ar n'um vôo triangular. Alli viveria entre as monjas d'alta estatura e olhar celtico, filhas de duques normandos, ou de lords de _clans_ convertidos a Roma: leria livros dôces e cheios das cousas do céo: sentada na estreita janella da sua cella, veria passar nas mattas baixas os altos paus dos veados, ou pelas tardes vaporosas escutaria o som distante da _bagpipe_, que vai tristemente tocando o pastor que vem dos valles de Callendar: e todo o ar estaria cheio do murmurio choroso e gottejante dos fios d'agua, que por entre as relvas escuras cahem de rocha em rocha!

Ou então seria outra existencia mais regalada, no convento pacato d'uma boa provincia portugueza. Alli os tectos são baixos; as paredes caiadas faiscam ao sol, com as suas gradesinhas devotas; os sinos repicam no vivo ar azul; em roda, nos campos d'oliveiras que dão azeite para o convento, raparigas varejam a azeitona cantando; no pateo lageado d'uma pedra miudinha as mulas do almocreve, sacudindo a mosca, batem com a ferradura: matronas cochicham ao pé da roda; um carro chia na estrada empoeirada e branca; gallos cacarejam, brilhando ao sol; e freiras gordinhas, d'olho negro, chalram nos frescos corredores.

Alli viveria, engordando, com uma quebrasinha de somno á hora do côro, bebendo copinhos de licôr de rosa no quarto da madre-escrivã, copiando receitas de dôces com uma letra garrafal; morreria velha, ouvindo as andorinhas cantar á beira da sua grade; e o senhor bispo na sua visita, com a pitada nos seus dedos brancos, ouviria sorrindo da bocca da madre abbadessa a historia edificante da sua santa morte...

Um sacristão, que passava, escarrou fortemente; e, como um bando de passaros que se cala a um ruido brusco, todos os seus sonhos fugiram. Suspirou, ergueu-se devagar, foi indo para casa, triste.

Foi Juliana quem veio abrir, e logo no corredor, com a voz supplicante e baixa:

--A senhora por quem é perdôe, que depois estava douda! Estava com a cabeça perdida, não tinha dormido nada toda a noite. Fiquei mais afflicta...

Luiza não respondeu, entrou na sala. Sebastião que vinha jantar, tocava a serenata de D. Juan--e apenas ella appareceu:

--D'onde vem, tão pallida?

--Debilidade, Sebastião, venho da igreja...

Jorge entrava do escriptorio com uns papeis na mão:

--Da igreja!--exclamou--Que horror!

XII

Foi por esse tempo que, n'um sabbado, o Diario do Governo publicou a nomeação do conselheiro Accacio ao _grau de cavalleiro da ordem de S. Thiago_, attendendo aos seus grandes merecimentos litterarios, ás obras publicadas de reconhecida utilidade, e mais partes...

Na noite seguinte, ao entrar em casa de Jorge, todos o cercaram, felicitando-o com alarido; o Conselheiro, depois de os abraçar um por um, n'uma pressão nervosa e commovida, cahiu no sophá, exhausto, e murmurou:

--Não o esperava tão cedo da real munificencia! Não o esperava tão cedo!--E acrescentou, pondo a mão espalmada sobre o peito:--Direi como o philosopho: Esta condecoração é o melhor dia da minha vida!

E convidou logo Jorge, Sebastião e Julião para um jantar na quinta-feira, «um modesto jantar de rapazes, no seu humilde tugurio, para festejarem a regia graça».

--Ás cinco e meia, meus bons amigos!

Na quinta-feira, os tres, que se tinham encontrado na Casa Havaneza, eram introduzidos por uma rapariguita vesga, suja como um esfregão, na sala do Conselheiro. Um vasto canapé de damasco amarello occupava a parede do fundo, tendo aos pés um tapete onde um chileno roxo caçava ao laço um bufalo côr de chocolate; por cima uma pintura tratada a tons côr de carne, e cheia de corpos nús cobertos de capacetes, representava o valente Achilles arrastando Heitor em torno dos muros de Troya. Um piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de baeta verde, enchia o intervallo das duas janellas. Sobre uma mesa de jogo, entre dous castiçaes de prata, uma galguinha de vidro transparente galopava; e o objecto em que se sentia mais o calor do uso era uma caixa de musica de 18 peças!

O Conselheiro recebeu-os, com o _habito_ de S. Thiago sobre a lapella do _frac_ preto. Havia outro sujeito na sala, o snr. Alves Coutinho. Era picado das bexigas, tinha a cabeça muito enterrada nos hombros; quando o seu olhar parvo se fixava nas pessoas, com pasmo, o seu bigode pellado arreganhava-se logo por habito, n'um sorriso alvar que mostrava uma bocca medonha cheia de dentes pôdres; fallava pouco, esfregava sempre as mãos, concordava em tudo; havia n'elle o ar d'um deboche banal, e d'um embrutecimento antigo. Era um empregado do ministerio do reino, illustre pela sua boa letra.

D'ahi a pouco entrou a figura conhecida do Savedra, redactor do _Seculo_. A sua face branca parecia mais balofa; o bigode muito preto reluzia de brilhantina; as lunetas d'ouro accentuavam o seu tom official: trazia ainda no queixo o pó d'arroz, que lhe pozera momentos antes o barbeiro; e a mão, que escrevia tanta banalidade e tanta mentira, vinha aperreada n'uma luva nova, côr de gema d'ovo!

--Estamos todos!--disse com jubilo o Conselheiro. E curvando-se:--Bemvindos, meus amigos! Estamos talvez mais á vontade no meu quarto de estudo! Por aqui. Ha um degrau, cuidado! Eis o meu _Sanctus Sanctorum_!

N'uma saleta muito espanejada a que as cortinas de cassa, a luz de duas janellas de peitoril, e o papel claro davam um aspecto alvadio, estava a larga escrivaninha de trabalho, com um tinteiro de prata, os lapis muito aparados, as regoas bem dispostas. Via-se o sinete d'armas do Conselheiro, pousado sobre a _Carta Constitucional_ ricamente encadernada. Encaixilhada, na parede, pendia a _carta regia_ que o nomeára Conselheiro; defronte uma lithographia d'El-Rei; e sobre uma mesa, era eminente o busto em gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhães, tendo no alto da cabeça uma corôa de perpetuas--que ao mesmo tempo o glorificava e o chorava.

Julião pozera-se logo a examinar a livraria.

--Prezo-me de ter os authores mais illustres, amigo Zuzarte!--disse com orgulho o Conselheiro.

Mostrou-lhe a _Historia do consulado e do imperio_, as obras de Delille, o _Diccionario da conversação_, a ediçãosinha bojuda da _Encyclopedia Roret_, o _Parnaso lusitano_. Fallou dos seus trabalhos; e acrescentou que, vendo alli reunidas pessoas de tão subida illustração, desejaria muito lêr-lhes algumas das provas que estava revendo do seu novo livro--_Descripção das principaes cidades do reino e seus estabelecimentos_, para ouvir a opinião d'elles, desassombrada e severa!

--Se não acham massada...

--Prazer, Conselheiro! prazer!

Escolheu então «como mais propria para dar idéa da importancia do trabalho» a pagina relativa a Coimbra. Assoou-se, collocou-se no meio da saleta, de pé, com as folhas na mão, e, com uma voz cheia, gestos pausados, leu: