O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 21
--E o principio da liberdade?--acudiu logo o Conselheiro--E o principio da liberdade? Que os pretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a liberdade é um bem maior.
Alargou-se então em considerações; fulminou os horrores do trafico, lançou suspeitas sobre a philantropia dos inglezes, foi severo com os plantadores da Nova-Orleans, contou o caso da _Charles et Georges_: dirigia-se exclusivamente a Julião, que fumava, cabisbaixo.
D. Felicidade fôra-se sentar ao pé de Luiza, e muito inquieta, fallando-lhe ao ouvido:
--Tu conheces a criada do Conselheiro?
--Não.
Será bonita?
Luiza encolheu os hombros.
--Não sei que me diz o coração, Luiza! Estou a abafar!
E em quanto Accacio, de pé, perorava para Julião, D. Felicidade ia murmurando a Luiza as queixas da sua paixão.
Que allivio para Luiza quando elles sahiram! O que ella soffrera, lá por dentro, toda aquella noite! Que massadores, que idiotas!--E a outra sem vir! Oh que vida a sua!
Foi á cozinha dizer a Joanna:
--Espere pela Juliana, tenha paciencia. Que ella não póde tardar; aquillo a mulher achou-se peor!
Mas já passava de meia noite, já Luiza estava deitada, quando a campainha tocou de leve; depois mais forte; emfim, com impaciencia.
A rapariga adormeceu, pensou Luiza. Saltou da cama, subiu descalça á cozinha. Joanna, estirada para cima da mesa, resonava ao pé do candieiro de petroleo, que fumegava fetidamente. Sacudiu-a, fêl-a pôr de pé, estremunhada; voltou, correndo, deitar-se; e sentiu d'ahi a pouco, no corredor, a voz de Juliana dizer com satisfação:
--Já está tudo acommodado, hein? Pois eu estive no theatro. Muito bonito! Do melhor, snr.^a Joanna, do melhor!
Luiza adormeceu tarde, e durante toda a noite um sonho inquieto agitou-a.--Estava n'um theatro immenso, dourado como uma igreja. Era uma gala: joias faiscavam sobre seios mimosos, condecorações reluziam sobre fardas palacianas. Na tribuna, um rei triste e moço, immovel n'uma attitude rigida e hieratica, sustentava na mão a esphera armillar, e o seu manto de velludo escuro, constellado de pedrarias como um firmamento, espalhava-se em redor em pregas d'esculptura, fazendo tropeçar a multidão dos cortezãos vestidos como valetes de paus.
Ella estava no palco; era actriz; debutava no drama d'Ernestinho: e toda nervosa via diante de si na vasta platéa susurrante, fileiras de olhos negros e accesos, cravados n'ella com furor: no meio a calva do Conselheiro, d'uma redondeza nevada e nobre, sobresahia, rodeada como uma flôr d'um vôo amoroso d'abelhas. No palco oscillava a vasta decoração d'uma floresta; ella notava sobretudo, á esquerda, um carvalho secular, d'uma arrogancia heroica--cujo tronco tinha a vaga configuração d'uma physionomia, e se parecia com Sebastião.
Mas o contra-regra bateu as palmas: era esguio, parecia-se com D. Quixote, trazia oculos redondos com aros de lata, brandia _o Jornal do Commercio_ torcido em saca-rolhas, e gania: salta a scenasinha de amor! salta-me essa maravilha! Então a orchestra, onde os olhos dos musicos reluziam como granadas e as suas cabelleiras se erriçavam como montões d'estopa, tocou com uma lentidão melancolica o fado de Leopoldina; e uma voz aspera e canalha cantava em falsete:
Vejo-o nas nuvens da tarde, Nas ondas do mar sem fim, E por mais longe que esteja Sinto-o sempre ao pé de mim.
Luiza achava-se nos braços de Bazilio que a enlaçavam, a queimavam: toda desfallecida, sentia-se perder, fundir-se n'um elemento quente como o sol e dôce como o mel: gozava prodigiosamente: mas, por entre os seus soluços, sentia-se envergonhada, porque Bazilio repetia no palco, sem pudor, os delirios libertinos do _Paraiso_! Como consentia ella?
O theatro n'uma acclamação immensa bradava: Bravo! Bis! bis! Lenços aos milhares esvoaçavam como borboletas brancas n'um campo de trevo: os braços nús das mulheres lançavam com um gesto ondeado ramos de violetas dobradas: o rei erguera-se espectralmente, e, triste, arremessou como um _bouquet_ a sua esphera armillar: e o Conselheiro logo, n'um phrenesi, para seguir os exemplos de Sua Magestade, desaparafusando rapidamente a calva, atirou-lh'a, com um berro de dôr e de gloria! O contraregra gania:--Agradeçam! Agradeçam! Ella curvava-se, os seus cabellos de Magdalena rojavam pelo tablado: e Bazilio, a seu lado, seguia com olhos vivos os charutos que lhe atiravam, apanhando-os com a graça d'um toureiro e a destreza d'um _clown_!
Subitamente, porém, todo o theatro teve um _ah_! d'espanto. Fez-se um silencio ancioso e tragico; e todos os olhos, milhares d'olhos attonitos se fitavam no pano de fundo, onde um caramanchão arqueava a sua estructura toda estrellada de rosinhas brancas. Ella voltou-se tambem como magnetisada, e viu Jorge, Jorge que se adiantava, vestido de luto, de luvas pretas, com um punhal na mão; e a lamina reluzia--menos que os olhos d'elle! Aproximou-se da rampa e curvando-se, disse com uma voz graciosa:
--Real magestade, senhor infante, snr. governador civil, minhas senhoras, e meus senhores--agora é commigo! Reparem n'este trabalhinho!
Caminhou então para ella com passos marmoreos que faziam oscillar o tablado; agarrou-lhe os cabellos, como um mólho d'herva que se quer arrancar; curvou-lhe a cabeça para traz; ergueu d'um modo classico o punhal; fez a pontaria ao seio esquerdo: e balançando o corpo, piscando o olho, cravou-lhe o ferro!
--Muito bonito!--disse uma voz--Rico trabalho!
Era Bazilio que fizera entrar nobremente na platéa o seu phaeton! Direito na almofada, com o chapéo ao lado, uma rosa na sobrecasaca, continha com a mão negligente a inquietação soberba dos seus cavallos inglezes; e ao seu lado, sentado como um trintanario coberto das suas vestes sacerdotaes, vinha o patriarcha de Jerusalém!--Mas Jorge arrancára o punhal todo escarlate; as gotas de sangue corriam até á ponta, coalhavam; cahiam depois com um som crystallino, punham-se a rolar pelo tablado como continhas de vidro vermelho. Ella deitára-se, expirante, sob o carvalho que se parecia com Sebastião: então, como a terra era dura, a arvore estendeu por baixo d'ella as suas raizes, macias como coxins de pennas; como o sol a mordia, a arvore desdobrou sobre ella as suas ramagens, como os panos d'uma tenda: e das folhas deixava-lhe escorrer sobre os labios gotas de vinho da Madeira! Ella via no entanto com terror o seu sangue sahir da ferida, vermelho e forte, correr, alastrar-se, fazendo poças aqui, ribeirinhos tortuosos além. E ouvia a platéa berrar:
--O author! Fóra o author!
Ernestinho, muito frisado, pallido, appareceu; agradecia soluçando; e, ás cortezias, saltava aqui, acolá--para não sujar no sangue da prima Luiza os seus sapatinhos de verniz...
Sentiu que ia morrer! Uma voz disse vagamente:--Ólá, como vai isso?--Parecia-lhe de Jorge. D'onde vinha? Do céo? da platéa? do corredor? Um ruido forte, como d'uma mala que se deixa cahir, acordou-a. Sentou-se na cama.
--Bem, deixe ahi--disse a voz de Jorge.
Saltou em camisa. Elle entrava. E ficaram enlaçados, n'um longo abraço, os beiços collados, sem uma palavra. O relogio do quarto dava sete horas.
X
N'esse dia pela uma hora Jorge e Luiza acabavam d'almoçar, como na vespera da partida d'elle. Mas agora não pesava a faiscante inclemencia da calma, as janellas estavam abertas ao sol amavel d'outubro; já passavam no ar certas frescuras outonaes; havia uma pallidez meiga na luz; á tardinha já «sabiam bem» os paletots; e tons amarellados começavam a envelhecer as verduras.
--Que bom achar-se a gente outra vez no seu ninho!--disse Jorge, estirando-se na _voltaire_.
Estivera contando a Luiza a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro, e tinha ganho dinheiro! Trazia os elementos d'um bello relatorio; creára amigos n'aquella boa gente do Alemtejo; estavam acabadas as soalheiras, as cavalgadas pelos montados, os quartos d'hospedaria; e alli estava emfim na sua casinha. E como na vespera da sua partida, soprava o fumo do cigarro, cofiando com delicias o bigode,--porque tinha cortado a barba! Fôra a grande admiração de Luiza, quando o viu. Elle explicára, com humilhação e melancolia, que tivera um furunculo no queixo, com o calor...
--Mas que bem te fica!--tinha ella dito--que bem que te fica!
Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de louça da China, muito antigos, com mandarins bojudos, de tunicas esmaltadas, suspensos magestosamente no ar azulado; uma preciosidade que descobrira em casa d'umas velhas miguelistas, em Mertola. Luiza dispunha-os muito decorativamente nas prateleiras do guarda-louça: e em bicos de pés, com a larga cauda do seu roupão estendida por traz, a massa loura do cabello pesado, um pouco desmanchado sobre as costas--parecia a Jorge mais esbelta, mais irresistivel, e nunca a sua cinta fina lhe attrahira tanto os braços.
--A ultima vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo, lembras-te?
--Lembro--disse Luiza sem se voltar, collocando muito delicadamente um prato.
--E é verdade--perguntou Jorge de repente--teu primo? Vistel-o? Veio vêr-te?
O prato escorregou, houve um tlin-tlin de copos.
--Sim, veio--disse Luiza, depois d'um silencio--esteve ahi umas poucas de vezes. Demorou-se pouco...
Abaixou-se, abriu o gavetão do guarda-louça, esteve a remexer nas colheres de prata: ergueu-se, emfim, voltou-se com um sorriso, vermelha, sacudindo as mãos:
--Prompto!
E foi sentar-se nos joelhos de Jorge.
--Como te fica bem!--dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, d'um modo ardente. Quando se atirára aos seus braços n'aquella madrugada, sentira como abrir-se-lhe o coração, e um amor repentino revolver-lh'o deliciosamente; viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o servir, de o apertar nos braços até lhe fazer mal, de lhe obedecer com humildade; era uma sensação multipla, de uma doçura infinita, que a traspassára até ás profundidades do seu sêr. E passando-lhe um braço pelo pescoço, murmurava com um movimento d'uma adulação quasi lasciva:
--Estás contente? Sentes-te bom? Dize!
Nunca lhe parecera tão bonito, tão bom; a sua pessoa depois d'aquella separação dava-lhe as admirações, os enlevos d'uma paixão nova.
--É o snr. Sebastião--veio dizer Juliana toda risonha para Jorge.
Jorge deu um pulo, afastou Luiza bruscamente, atirou-se pelo corredor gritando:
--Aos meus braços! aos meus braços, scelerado!
D'ahi a dias, uma manhã que Jorge sahira para o ministerio, Juliana entrou no quarto de Luiza, e fechando a porta devagarinho, com uma voz muito amavel:
--Eu desejava fallar á senhora n'uma cousa.
E começou a dizer,--que o seu quarto em cima no sotão era peor que uma enxovia; que não podia lá continuar; o calor, o mau cheiro, os persevejos, a falta d'ar, e no inverno a humidade, matavam-na! Emfim, desejava mudar p'ra baixo, p'ra o quarto dos bahus.
O _quarto dos bahus_ tinha uma janella nas trazeiras; era alto e espaçoso; guardavam-se alli os oleados de Jorge, as suas malas, os paletots velhos, e veneraveis bahus do tempo da avó, de couro vermelho com pregos amarellos.
--Ficava alli como no céo, minha senhora!
E... aonde se haviam de pôr os bahus?
--No meu quarto, em cima.--E com um risinho:--Os bahus não são gente, não soffrem...
Luiza disse um pouco embaraçada:
--Bem, eu verei, eu fallarei ao snr. Jorge.
--Conto com a senhora.
Mas apenas n'essa tarde Luiza explicou a Jorge «a ambição da pobre de Christo», elle deu um salto:
--O quê? Mudar os bahus? Está douda!
Luiza então insistiu: era o sonho da pobre creatura desde que viera para a casa! Enterneceu-o. Não, elle não imaginava, ninguem imaginava o que era o quarto da pobre mulher! O cheiro empestava, os ratos passeavam-lhe pelo corpo, o forro estava roto, chovia dentro; fôra lá ha dias, e ia tombando para o lado...
--Santo Deus! Mas isso é o que minha avó contava das enxovias d'Almeida! Muda-a, muda-a depressa, filha!... Porei os meus ricos bahus no sotão.
Quando Juliana soube o _favor_:
--Ai, minha senhora, é a vida que me dá! Deus lh'o pague! Que eu não tinha saude para viver n'um cacifro d'aquelles.
Ultimamente queixava-se mais: andava amarella, trazia os beiços um pouco arroxeados; tinha dias d'uma tristeza negra, ou d'uma irritabilidade morbida: os pés nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos cuidados, muitos cuidados!...
Foi por isso que d'ahi a dous dias veio pedir a Luiza, «se fazia o favor d'ir ao quarto dos bahus». E lá, mostrando-lhe o soalho velho e carunchoso:
--Isto não póde ficar assim, minha senhora, isto precisa uma esteira senão, não vale a pena mudar. Eu se tivesse dinheiro não importunava a senhora, mas...
--Bem, bem, eu arranjarei--disse Luiza com uma voz paciente.
E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas na manhã em que os esteireiros a pregavam Jorge veio perguntar attonito a Luiza o que era aquillo, «rolos d'esteira no corredor»?
Ella pôz-se a rir, pousou-lhe as mãos sobre os hombros:
--Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola a esteira, que o soalho estava podre. Até a queria pagar, e que eu lh'a descontasse nas soldadas. Ora por uma ridicularia...--E com um gesto compassivo:--Tambem são creaturas de Deus, não são escravas, filho!
--Magnifico! E que não tardem os espelhos e os bronzes! Mas que mudança foi essa, tu que a não podias vêr?
--Coitada!--fez Luiza--reconheci que era boa mulher. E como estive tão só, dei-me mais com ella. Não tinha com quem fallar, fez-me muita companhia. Até quando estive doente...
--Estiveste doente?--exclamou Jorge espantado.
--Oh! tres dias, só--acudiu ella--uma constipação. Pois olha que dia e noite não se tirou d'ao pé de mim.
Luiza ficou logo com receio que Jorge fallasse _na doença_, e Juliana desprevenida negasse; por isso, n'essa tarde, ao escurecer, chamou-a ao quarto:
--Eu disse ao snr. Jorge que vossê me tinha feito muito boa companhia n'uma doença...--E o seu rosto abrazava-se de vergonha.
Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade:
--Fico entendida, minha senhora! Póde estar socegada!
Com effeito Jorge, ao outro dia, depois do café, voltou-se para Juliana, e com bondade:
--Parece que vossê fez boa companhia á snr.^a D. Luiza.
--Fiz o meu dever--exclamou, curvando-se com a mão no peito.
--Bem, bem--fez Jorge, remexendo no bolso. E ao sahir da sala meteu-lhe na mão meia libra.
--Palerma!--rosnou ella.
Foi n'essa semana que começou a queixar-se a Luiza, «que a roupa e os vestidos, na arca, se lhe amarfanhavam...» Estava-se-lhe a estragar tudo! Se ella tivesse dinheiro, não vinha com aquelles pedidos á senhora, mas... Emfim uma manhã declarou terminantemente que precisava uma commoda.
Luiza sentiu uma raiva accender-lhe o sangue, e sem levantar os olhos do bordado:
--Uma meia commoda?
--Se a senhora quer fazer o favor, então uma commoda inteira...
--Mas vossê tem pouca roupa--disse Luiza. Começava a installar-se na humilhação e já regateava as condescendencias.
--Tenho, sim, minha senhora--replicou Juliana--mas vou agora completar-me!
A commoda foi comprada em segredo, e introduzida occultamente. Que dia de felicidade para Juliana! Não se fartava de lhe saborear o cheiro da madeira nova! Passava a mão, com a tremura d'uma caricia, sobre o polimento luzidio!... Forrou-lhe as gavetas de papel de sêda, _e começou a completar-se_!
Foram semanas d'amargura para Luiza.
Juliana entrava no quarto todas as manhãs, muito comprimenteira, começava a arrumar, e de repente com uma voz lamentosa:
--Ai! estou tão falta de camisas! se a senhora me podesse ajudar...
Luiza ia ás suas gavetas cheias, cheirosas, e começava melancolicamente a pôr á parte as peças mais usadas. Adorava a sua roupa branca: tinha tudo ás duzias, com lindas marcas, _sachets_ para perfumar; e aquellas dadivas dilaceravam-n'a como mutilações! Juliana por fim já pedia com seccura, com direito:
--Que bonita que é esta camisinha!--dizia simplesmente.--A senhora não a quer; não?
--Leve, leve!--dizia Luiza sorrindo, por orgulho, para não se mostrar violentada.
E todas as noites Juliana fechada no seu quarto, encruzada na esteira, inchada d'alegria, com o candieiro sobre uma cadeira, desmarcava roupa, desfazendo as duas letras de Luiza, marcando regaladamente as suas, a linha vermelha, enormes--_J. C. T.,_--Juliana Couceiro Tavira!
Mas emfim cessou, porque, como ella dizia, «de roupa branca estava como um ovo».
--Agora, se a senhora me quizer ajudar com alguma cousa para sahir...
E Luiza começou a _vestil-a_.
Deu-lhe um vestido roxo de sêda, um casaco de casimira preta, com bordados a _soutache_. E receando que Jorge estranhasse as generosidades, transformava-as para elle as não reconhecer: mandou tingir de castanho o vestido, ella mesmo por sua mão pôz uma guarnição de velludo no casaco. Trabalhava para ella, agora!--Como acabaria tudo aquillo, Santo Deus?
Todavia Jorge um domingo disse ao jantar, rindo:
--Esta Juliana anda uma janota! Prospera a olhos vistos.
D. Felicidade, á noite, tambem notou:
--Que _chic_! Nem uma criada do paço!
--Coitada! cousas que ella aproveita...
Prosperava, com effeito! Não punha na cama senão lençoes de linho. Reclamára colxões novos, um tapete para os pés da cama, felpudo! Os _sachets_ que perfumavam a roupa de Luiza iam passando para a dobra das suas calcinhas. Tinha cortinas de cassa na janella, apanhadas com velhas fitas de sêda azul; e sobre a commoda dous vasos da Vista Alegre dourados! Emfim um dia santo, em lugar da _cuia_ de retroz, appareceu com um _chignon_ de cabello!
Joanna pasmava d'aquellas tafularias. Attribuia-as á bondade da senhora, e resentia-se de ser «esquecida». Um dia mesmo, que Juliana estreára uma sombrinha, disse diante de Luiza, com uma voz de despeito:
--Para umas tudo, para outras nada!...
Luiza riu, acudiu:
--Tolices! Eu sou a mesma p'ra todas.
Mas reflectiu: Joanna podia ter desconfianças tambem, ter ouvido _alguma cousa_ a Juliana... E logo ao outro dia, para a conservar contente e amiga, deu-lhe dous lenços de sêda, depois dous mil reis para um vestido; e d'ahi por diante nunca lhe recusou licença para sahir á noitinha _a casa d'uma tia_...
A Joanna ia por toda a parte fallando da «senhora, que era um anjo». Na rua, de resto, tinha-se notado o luxo de Juliana. Sabia-se do «quarto novo», dizia-se baixo que tinha alcatifa! O Paula decidira, com indignação, «que alli positivamente havia marosca». Mas Juliana uma tarde, diante do Paula e da estanqueira, explicou, acalmou as suspeitas.
--Ora! dizem que tenho isto e aquillo. Não é tanto! Tenho as minhas commodidades. Mas tambem a maneira como eu lhes tratei a tia, de dia e de noite, sem arredar pé... Por mais que façam não me pagam, que arruinei a minha saude!
Assim se justificou a prosperidade de Juliana. Era a familia agradecida, dizia-se; tratavam-na como parenta!
E, pouco a pouco, a casa do «Engenheiro» teve para os criados da visinhança a vaga seducção d'um paraiso: dizia-se que as soldadas eram enormes, havia vinho á discrição, recebiam-se presentes todas as semanas, ceava-se todas as noites caldo do gallinha! Cada um invejava aquella «pechincha». Pela inculcadeira, a fama da «casa do Engenheiro» alargou-se. Creou-se uma legenda.
Jorge, attonito, recebia todos os dias cartas de pessoas offerecendo-se para criados de quarto, criadas de dentro, cozinheiros, escudeiros, governantas, cocheiros, guarda-portões, ajudantes de cozinha... Citavam as casas titulares de que tinham sahido; pediam audiencia; suspeitando certas cousas uma bonita criada de quarto juntou a sua photographia; um cozinheiro trouxe uma carta d'empenho do director geral do ministerio.
--Estranho caso!--dizia Jorge, pasmado--disputam-se a honra de me servir! Imaginarão que me sahiu a sorte grande?
Mas não dava muita attenção áquella singularidade. Vivia então muito occupado: andava escrevendo o seu relatorio; e todos os dias sahia ao meio dia, voltava ás seis, com rolos de papeis, mappas, brochuras, fatigado, berrando pelo jantar, radiante.
Contou o _caso_, todavia, rindo, um domingo á noite. O Conselheiro observou logo:
--Com o bom genio da D. Luiza, com o seu, Jorge, n'este bairro saudavel, n'uma casa sem escandalos, sem questões de familia, toda virtude, é natural que a criadagem menos favorecida aspire a uma posição tão agradavel.
--Somos os amos ideaes!--disse Jorge, batendo muito alegre no hombro de Luiza.
A casa, com effeito, tornava-se «agradavel». Juliana exigira que o jantar fosse mais largo (para ter uma parte sua, sem sobejos), e como era boa cozinheira vigiava os fogões, provava, ensinava pratos á Joanna.
--Esta Joanna é uma revelação--dizia Jorge--vê-se-lhe crescer o talento!...
Juliana, bem alojada, bem alimentada, com roupa fina sobre a pelle, colxões macios, saboreava a vida: o seu temperamento adoçára-se n'aquellas abundancias; depois, bem aconselhada pela tia Victoria, fazia o seu serviço com um zelo minucioso e habil. Os vestidos de Luiza andavam cuidados como reliquias. Nunca os peitilhos de Jorge tinham resplandecido tanto! O sol d'outubro alegrava a casa, muito aceada, d'uma pacatez d'abbadia. Até o gato engordava.
E no meio d'aquella prosperidade--Luiza definhava-se. Até onde iria a tyrannia de Juliana? era agora o seu terror. E como a odiava! Seguia-a por vezes com um olhar tão intensamente rancoroso, que receava que ella se voltasse subitamente, como ferida pelas costas. E via-a satisfeita, cantarolando a _Carta adorada_, dormindo em colxões tão bons como os seus, pavoneando-se na _sua_ roupa, reinando na _sua_ casa! Era justo, justos céos?
Ás vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braços, blasphemava, debatia-se na sua desgraça, como nas malhas d'uma rêde; mas, não encontrando nenhuma solução, recahia n'uma melancolia aspera--em que o seu genio se pervertia. Seguia com satisfação a amarellidão crescente das feições de Juliana; tinha esperanças no aneurisma: não rebentaria um dia, o demonio?
E diante de Jorge tinha de a elogiar!
A vida pesava-lhe. Apenas elle pela manhã sahia e fechava a cancella, logo as suas tristezas, os seus receios lhe desciam sobre a alma, devagar, como grandes véos espessos que se abatem lugubremente; não se vestia então até ás quatro, cinco horas, e com o roupão solto, em chinellas, despenteada, arrastava o seu aborrecimento pelo quarto. Vinham-lhe, por momentos, de repente, desejos de fugir, ir metter-se n'um convento! A sua sensibilidade muito exaltada impellil-a-hia de certo a alguma resolução melodramatica,--se a não retivesse, com a força d'uma seducção permanente, o seu amor por Jorge. Porque o amava agora, immensamente! Amava-o com cuidados de mãi, com impetos de concubina... Tinha ciumes de tudo, até do ministerio, até do relatorio! Ia interrompêl-o a cada momento, tirar-lhe a penna da mão, reclamar o seu olhar, a sua voz; e os passos d'elle no corredor davam-lhe o alvoroço dos amores illegitimos...
De resto ella mesma se esforçava por desenvolver aquella paixão, achando n'ella a compensação ineffavel das suas humilhações. Como lhe viera _aquillo_? Porque sempre o amára, de certo, reconhecia-o agora,--mas não tanto, não tão exclusivamente! Nem ella sabia. Envergonhava-se mesmo, sentindo vagamente n'aquella violencia amorosa pouca dignidade conjugal: suspeitava que o que tinha era apenas um _capricho_. Um capricho por seu marido! Não lhe parecia rigorosamente casto... Que lhe importava, de resto? Aquillo fazia-a feliz, prodigiosamente. Fosse o que fosse era delicioso!
Ao principio a idéa do _outro_ pairava constantemente sobre este amor, pondo um gosto infeliz em cada beijo, um remorso em cada noite. Mas pouco a pouco esquecêra-o tanto, o _outro_--que a sua recordação, quando por acaso voltava, não dava mais amargor á nova paixão, que um torrão de sal póde dar ás aguas d'uma torrente. Que feliz que seria--se não fosse a _infame_!