O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 20
O seu terror irraciocinado fizera-lhe mesmo perder a idéa nitida do seu marido; imaginava um _outro_ Jorge sanguinario e vingativo, esquecendo o seu caracter bom, tão pouco melodramatico. Um dia foi ao escriptorio, tomou a caixa das pistolas, fechou-a n'um bahú de roupa velha, e escondeu a chave!...
Uma idéa amparava-a: era que apenas Sebastião viesse d'Almada, estava salva; e apesar d'aquella agonia miuda de todos os momentos, quasi receava saber _que elle tivesse chegado_,--tanto a confissão da verdade lhe parecia uma agonia maior! Foi por esse tempo, então, que lhe veio uma lembrança--escrever a Bazilio. O terror permanente amollecera-lhe o orgulho, como a lenta infiltração da agua faz a uma parede; e todos os dias começou a achar uma razão, _mais uma_, para se dirigir «áquelle infame»: fôra seu amante, já sabia todo o caso das cartas, era o seu unico parente... E não teria de «dizer» a Sebastião! Já ás vezes pensára que não aceitar dinheiro de Bazilio fôra uma «fanfarronada bem tola»! Um dia emfim escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco confusa, pedia-lhe _seiscentos mil reis_. Foi ella mesmo leval-a ao correio, sobrecarregando-a de estampilhas.
N'essa tarde, por acaso, Sebastião, que chegára d'Almada, veio vêl-a. Recebeu-o com alegria, feliz _por não ter de lhe contar_... Fallou da volta de Jorge; alludiu mesmo ao primo Bazilio, á «pouca vergonha da visinhança...»
--Não--disse--é a primeira cousa que hei-de contar ao Jorge.
Porque se considerava salva, agora! E todos os dias seguia a carta, no seu caminho para França, como se a sua mesma vida fosse dentro d'aquelle sobrescripto entregue ao acaso dos trens e á confusão das viagens! Chegára a Madrid, depois a Bayonna, depois a Paris! Um carteiro corria a entregal-a na rua Saint Florentin. Bazilio abria-a tremendo, enchia um sobrescripto de notas, muitas, que cobria de beijos, e o enveloppe, trazendo a sua salvação e o seu descanço, começava a rolar para baixo, pela França e pela Navarra, soprando como um monstro e apressando-se como um proprio.
No dia em que a resposta _devia_ chegar, levantou-se mais cedo, agitada, com o ouvido pregado na porta, esperando o toque do carteiro. Via-se já a expulsar Juliana, a soluçar de alegria!... Mas ás dez e meia começou a estar nervosa: ás onze chamou Joanna, «que fosse saber se o carteiro passára».
--Diz que sim, minha senhora, que já passou.
--Canalha!--murmurou, pensando em Bazilio.
Talvez, todavia, não tivesse respondido no mesmo dia! Esperou ainda, mas desconsolada, já sem fé. Nada! Nem na outra manhã, nem nas seguintes! O infame!
Veio-lhe então a idéa da loteria--porque insensivelmente a esperança tornára-se-lhe necessaria. A primeira vez que sahiu comprou umas poucas de cautelas. Apesar de não ser religiosa nem supersticiosa, metteu-as debaixo da peanha d'um S. Vicente de Paula que tinha sobre a commoda, na alcova. _Não se perdia nada!_ Examinava-as todos os dias, sommava os algarismos a vêr se davam _nove_, _noves fóra_, _nada_, ou um numero par--que é de bom agouro! E aquelle contacto diario com a imagem do santo levando-a a pensar de certo na protecção inesperada do céo, fez uma promessa de cincoenta missas se as cautelas fossem premiadas!...
Sahiram brancas--e então desesperou de tudo; abandonou-se a uma inacção em que sentia quasi uma voluptuosidade, passando dias sem se importar, quasi sem se vestir, desejando morrer, devorando nos jornaes todos os casos de suicidios, de fallencias, de desgraças--consolando-se com a idéa de que nem só ella soffria, e que a vida em redor, na cidade, fervilhava de afflicções.
Ás vezes, de repente, vinha-lhe uma pontada de medo. Decidia-se então de novo a «abrir-se» com Sebastião; depois pensava que seria melhor escrever-lhe; mas não achava as palavras, não conseguia arranjar uma historia racional; vinha-lhe uma cobardia; e recahia na sua inercia, pensando: «ámanhã, ámanhã...»
Quando, só, no seu quarto, se chegava por acaso á janella, punha-se a imaginar o que «diria a visinhança, quando se soubesse»! Condemnal-a-hiam? Lamental-a-hiam? Diriam--«Que desavergonhada»? Diriam--«Coitadinha»? E por dentro da vidraça seguia, com um olhar quasi aterrado, as passeatas do Paula pela rua, o embasbacamento obeso da carvoeira, as Azevedos por traz das bambinellas de cassa! Como elles todos gritariam:--«Bem diziamos nós! Bem diziamos nós!» Que desgraça! Ou então via de repente Jorge, terrivel, fóra de si, com as _cartas_ na mão; e encolhia-se como se já estivesse sob a colera dos seus punhos fechados.
Mas o que a torturava mais era a tranquillidade de Juliana--espanejando, cantarolando, servindo-a ao jantar d'avental branco. Que tencionava ella? Que preparava ella? Ás vezes vinha-lhe uma onda de raiva; se fosse forte ou corajosa, de certo atirar-se-lhe-hia ao pescoço, para a esganar, arrancar-lhe a carta! Mas pobre d'ella, era «uma mosquinha»!
Justamente, n'uma d'essas manhãs, Juliana entrou no quarto--com o vestido de sêda preto no braço. Estendeu-o na _causeuse_, e mostrou a Luiza, na saia, ao pé do ultimo folho, um rasgão largo que parecia feito com um prego; vinha saber se a senhora queria que o mandasse á costureira.
Luiza lembrava-se bem, rasgára-o uma manhã no _Paraiso_ a brincar com Bazilio!
--Isto é facil d'arranjar--dizia Juliana, passando de leve a mão espalmada sobre a sêda, com a lentidão d'uma caricia.
Luiza examinava-o, hesitando:
--Elle tambem já não está novo... Olhe, guarde-o p'ra vossê!
Juliana estremeceu, fez-se vermelha:
--Oh minha senhora!--exclamou--Muito agradecida! É um rico presente. Muito agradecida, minha senhora! Realmente...--E a voz perturbava-se-lhe.
Tomou-o nos braços, com cuidado, correu logo á cozinha. E Luiza, que a seguira pé ante pé, ouviu-a dizer toda excitada:
--É um rico presente, é o que ha de melhor. E novo! Uma rica sêda!--Fazia arrastar a cauda pelo chão, com um _frou-frou_. Sempre o invejára: e tinha-o agora, era o _seu_ vestido de sêda!--É de muito boa senhora, snr.^a Joanna, é d'um anjo!
Luiza voltou ao quarto, toda alvoroçada; era como uma pessoa perdida de noite, n'um descampado--que de repente, ao longe, vê reluzir um clarão de vidraça! Estava salva! Era presenteal-a, era fartal-a! Começou logo a pensar no que lhe podia dar mais, pouco a pouco: o vestido rôxo, roupas brancas, o roupão velho, uma pulseira!
D'ahi a dous dias--era um domingo--recebeu um telegramma de Jorge: «Parto ámanhã do Carregado. Chego pelo comboio do Porto ás 6.» Que sobresalto! Voltava, emfim!
Era nova, era amorosa--e no primeiro momento todos os sustos, as inquietações desappareceram sob uma sensação d'amor e de desejo, que a inundou. Viria de madrugada, encontral-a-hia deitada,--e já pensava na delicia do seu primeiro beijo!...
Foi-se vêr ao espelho: estava um pouco magra, talvez, com a physionomia um pouco fatigada... E a imagem de Jorge apparecia-lhe então muito nitidamente, mais queimado do sol, com os seus olhos ternos, o cabello tão annelado! Que estranha cousa! Nunca lhe appetecêra tanto vêl-o. Foi logo occupar-se d'elle: o escriptorio estaria bem arranjado? Quereria um banho morno, seria necessario aquecer a agua na tina grande!... E ia e vinha, cantarolando, com um brilho exaltado nos olhos.
Mas a voz de Juliana, de repente no corredor, fêl-a estremecer. Que faria ella, a mulher? Ao menos que a deixasse n'aquelles primeiros dias gozar a volta de Jorge, tranquillamente!... Veio-lhe uma audacia, chamou-a.
Juliana entrou, com o vestido de sêda novo, movendo-se cuidadosamente:
--Quer alguma cousa, minha senhora?
--O snr. Jorge volta amanhã...--disse Luiza.
E suspendeu-se; o coração batia-lhe fortemente.
--Ah!--fez Juliana.--Bem, minha senhora.
E ia sahir.
--Juliana!--fez Luiza, com a voz alterada.
A outra voltou-se, surprehendida.
E Luiza batendo com as mãos, n'um movimento supplicante:
--Mas vossê ao menos n'estes primeiros dias... Eu hei-de arranjar, esteja certa!...
Juliana acudiu logo:
--Oh minha senhora! Eu não quero dar desgostos a ninguem. O que eu quero é um bocadinho de pão para a velhice. Da minha bocca não ha-de vir mal a ninguem. O que peço á senhora é que se fôr da sua vontade e me quizer ir ajudando...
--Lá isso, sim... O que vossê quizer...
--Pois póde estar certa que esta bocca...--E fechou os labios com os dedos.
Que alegria para Luiza! Tinha uns dias, umas semanas, emfim, sem tormentos, com o _seu_ Jorge! Abandonou-se então toda á deliciosa impaciencia de o vêr. Era singular--mas parecia-lhe que o amava mais!...--E depois pensaria, veria, daria outros presentes a Juliana, poderia pouco a pouco preparar Sebastião... Quasi se sentia feliz.
De tarde Juliana veio dizer-lhe, muito risonha;
--A snr.^a Joanna sahiu, que era hoje o seu dia, mas eu tinha tanta precisão de sahir, tambem! se a senhora lhe não custasse ficar só...
--Não! Fico, que tem? Vá, vá!
E, d'ahi a pouco, sentiu-a bater os tacões no corredor, fechar com ruido a cancella.
Então de repente uma idéa deslumbrou-a, como a fulguração d'um relampago:--ir ao quarto d'ella, rebuscar-lhe a arca, roubar-lhe as cartas!
Viu-a da janella dobrar a esquina. Subiu logo ao sotão, devagar, escutando, com o coração aos saltos. A porta do quarto de Juliana estava aberta; vinha de lá um cheiro de mofo, de rato e de roupa enxovalhada que a enjoou; pelo postigo entrava uma luz triste, de tarde escura; e por baixo, encostada á parede, ficava a arca! Mas estava fechada! De certo! Desceu correndo, veio buscar o seu mólho de chaves... Sentia uma vergonha,--mas se achasse as cartas! Aquella esperança dava-lhe todos os atrevimentos, como um vinho alcoolico. Começou a experimentar as chaves; a mão tremia-lhe; de repente a lingueta, com um estalinho secco, cedeu! Ergueu a tampa, estavam alli, talvez! E então, com cautela, muito femininamente, poz-se a tirar as cousas uma por uma, pondo-as em cima do colxão:--o vestido de merino; um leque com figuras douradas, embrulhado em papel de sêda; velhas fitas rôxas e azues, passadas a ferro; uma pregadeira de setim côr de rosa, com um coração bordado a matiz: dous frasquinhos de cheiro, intactos, tendo collados ao vidro raminhos de rosas de papel recortado; tres pares de botinas embrulhadas em jornaes; a roupa branca, d'onde se exhalava um cheiro de madeira e de folhas de maçã camoeza. Entre duas camisas estava um maço de cartas atadas com um nastro... Nenhuma era d'ella! Nem de Bazilio! Eram d'uma letra d'aldêa, inintelligivel e amarellada! Que raiva! E ficou a olhar para a arca vazia, de pé, com os braços tristemente cahidos.
Uma sombra de repente passou diante do postigo. Estremeceu, aterrada. Era um gato, que com passos leves, vadiava pelo telhado.--Tornou a repôr tudo com as mesmas dobras, fechou a arca, ia a sahir,--mas lembrou-se de procurar na gaveta da mesa e debaixo do travesseiro. Nada! Impacientou-se então; não se queria ir sem ter gasto toda a esperança; desmanchou a roupa da cama, remexeu a palha amollentada do enxergão, sacudiu as velhas botinas, esgaravatou os cantos... Nada! Nada!
Subitamente, a campainha tocou. Desceu a correr. Que surpreza! Era D. Felicidade.
--És tu! Como estás tu? Entra.
Estava melhor, veio logo contando pelo corredor. Sahira na vespera da Encarnação: o pé ás vezes ainda lhe fazia mal: mas graças a Deus estava escapa! E que lhe agradecesse, era a sua primeira visita!
Entraram no quarto. Escurecia, Luiza accendeu as velas.
--E como me achas tu, hein?--perguntou D. Felicidade, pondo-se diante d'ella.
--Um bocadito mais pallida.
Ai! tinha soffrido muito! Ergueu a saia, mostrou o pé calçado n'um sapato largo, obrigou Luiza a apalpal-o... Que uma consolação lhe restava: é que toda a Lisboa a fôra vêr! Graças a Deus! Toda a Lisboa, o que ha de melhor em Lisboa!
--E tu esta semana--acrescentou--nem appareceste! Pois olha que te cortaram na pelle...
--Não pude, filha. O Jorge chega ámanhã, sabias?
--Ah sua brejeira! Viva! Está esse coraçãosinho aos pulos!--E disse-lhe um segredinho.
Riram muito.
--Pois eu--continuou D. Felicidade sentando-se--arranjei-te hoje a partida. Encontrei esta manhã o Conselheiro, que me disse que vinha. Encontrei-o aos Martyres! Olha que foi sorte, logo no primeiro dia que sahi! E um bocado adiante dou com o Julião: diz que tambem vinha!...--E com uma voz desfallecida:
--Sabes? tomava uma colherinha de dôce...
Foi Luiza que abriu a porta ao Conselheiro e a Julião, que se tinham encontrado na escada, dizendo-lhes a rir:
--Hoje sou eu o guarda-portão!
D. Felicidade, na sala, para disfarçar a perturbação que lhe deu o espectaculo amado da pessoa d'Accacio, começou, fallando muito, a censural-a «por deixar assim sahir no mesmo dia as duas criadas...»
--E se te achares incommodada, filha, se te dér alguma cousa?
Luiza riu. Não era affecta a fanicos...
Todavia achavam-na abatida. E o Conselheiro, com interesse:
--Tem continuado a soffrer dos dentes, D. Luiza?
Dos dentes? Era a primeira vez que tal ouvia!--exclamou logo D. Felicidade. Julião declarou que raras vezes vira uma dentição tão perfeita.
O Conselheiro apressou-se a citar:
Em labios de coral, perolas finas...
E acrescentou:
--É verdade, mas a ultima vez que tive a honra d'estar com D. Luiza, viu-se tão repentinamente afflicta com um dente, que teve d'ir a correr chumbal-o ao Vitry!
Luiza fez-se muito vermelha. Felizmente a campainha tocou. Devia ser a Joanna, ia abrir...
--É verdade--continuou o Conselheiro--tinhamos feito um delicioso passeio, quando de repente D. Luiza empallidece, e parece que a dôr era tão urgente, que se precipitou para a escada do dentista, como louca...
A proposito de dôres, D. Felicidade, que estava anciosa por interessar, commover o Conselheiro, começou a historia do seu pé: disse a queda, o milagre de não ter morrido, as visitas assiduas de condessas e viscondessas, o susto em toda a Encarnação, os cuidados do bom dr. Caminha...
--Ai! soffri muito!--suspirou, com os olhos no Conselheiro, para provocar uma palavra sympathica.
Accacio, então, disse com authoridade:
--É sempre um erro, ao descer uma escada ingreme, não procurar o apoio do corrimão.
--Mas podia ter morrido!--exclamou ella. E voltando-se para Julião:--Pois não é verdade?
--N'este mundo morre-se por qualquer cousa--disse elle enterrado n'uma poltrona, fumando voluptuosamente. Elle mesmo estivera n'aquella tarde para ser atropellado por um trem: destinára o domingo para se dar _um feriado_, e fizera um grande passeio pela circumvallação...--Ha mais d'um mez vivo no meu cubiculo, como um frade benedictino na livraria do seu convento!--acrescentou, rindo, quebrando complacentemente a cinza do cigarro sobre o tapete.
O Conselheiro quiz saber então o assumpto da these: de certo muito momentoso!... E apenas Julião lhe disse: «Sobre physiologia, snr. Conselheiro», Accacio observou logo, com uma voz profunda:
--Ah! physiologia! Deve ser então de grande magnitude! E presta-se mais ao estylo ameno.
Queixou-se, tambem, de «vergar ao peso dos seus trabalhos litterarios...»
--Esperemos todavia, snr. Zuzarte, que não sejam infructiferas as nossas vigilias!
--As suas, snr. Conselheiro, as suas!--E com interesse:--Quando nos dá o seu novo trabalho? Ha sofreguidão em o vêr!
--Ha alguma sofreguidão--concordou o Conselheiro com seriedade.--Ha dias me dizia o snr. ministro da justiça (esse robustissimo talento), ha dias me dizia, me fazia a honra de me dizer: Dê-nos depressa o seu livro, Accacio, estamos precisados de luz, de muita luz! Foi assim que elle disse. Eu inclinei-me, naturalmente, e respondi: Snr. ministro, não serei eu que a negue ao meu paiz, quando o meu paiz a necessitar!
--Muito bem, muito bem, Conselheiro!
--E--acrescentou--dir-lhes-hei, aqui em familia, que o nosso ministro do reino me deixou entrevêr n'um futuro não remoto, a commenda de S. Thiago!
--Já lh'a deviam ter dado, Conselheiro!--exclamou Julião, divertindo-se.--Mas n'este desgraçado paiz... Já a devia ter ao peito, Conselheiro!
--Ha que tempos!--exclamou com força D. Felicidade.
--Obrigado, obrigado!--balbuciou o Conselheiro, rubro. E na expansão do seu jubilo offereceu com uma familiaridade agradecida, a sua caixa de rapé a Julião.
--Tomarei para espirrar--disse elle.
Sentia-se n'aquella tarde n'uma disposição benevola: o trabalho e as altas esperanças que elle lhe dava tinham de certo dissipado o seu azedume: parecia até ter esquecido a sua humilhação, quando encontrára alli, n'aquella sala, o primo Bazilio, porque apenas Luiza entrou, perguntou-lhe por elle.
--Partiu para Paris, não sabiam? ha que tempos!
D. Felicidade e o Conselheiro fizeram logo o elogio de Bazilio. Tinha ido deixar bilhetes de visita a ambos--o que encantára D. Felicidade, e ensoberbecera o Conselheiro. Era um verdadeiro fidalgo!--exclamava ella. E Accacio affirmou com authoridade:
--E uma voz de barytono, digna de S. Carlos.
--E muito elegante!--disse D. Felicidade.
--Um _gentleman_!--resumiu o Conselheiro.
Julião, calado, bambaleava a perna. Agora, áquelles elogios, o seu despeito renascia; lembrava a seccura cortante de Luiza, n'aquella manhã, as _poses_ do outro. Não resistiu a dizer:
--Um pouco sobrecarregado nas joias e nos bordados das meias. De resto é moda no Brazil, creio...
Luiza córou; teve-lhe odio. E, vagamente, veio-lhe uma saudade de Bazilio.
D. Felicidade então, perguntou por Sebastião: não o via havia um seculo; e lamentava, porque era uma pessoa que lhe dava saude, só vêl-a.
--É uma grande alma--disse com emphase o Conselheiro.--Todavia censurava-o um pouco por não se occupar, não se tornar util ao seu paiz.--Porque emfim--declarou--o piano é uma bonita habilidade, mas não dá uma posição na sociedade.--Citou então Ernestinho, que, posto que dando-se á arte dramatica, era todavia (e a sua voz tornou-se grave), segundo todas as informações, um excellente empregado aduaneiro...
Que fazia elle, Ernestinho?--perguntaram.
Julião tinha-o encontrado. Dissera-lhe que a _Honra e Paixão_ ia d'ahi a duas semanas, já se estavam a imprimir os cartazes, e na rua dos Condes já lhe não chamavam senão o _Dumas filho portuguez_! E o pobre rapaz crê-se realmente um _Dumas filho_!
--Não conheço esse author--disse com gravidade o Conselheiro--posto que me pareça, pelo nome, ser filho do escriptor que se tornou famoso pelos _Tres Mosqueteiros_ e outras obras de imaginação!... Mas, de resto, o nosso Ledesma é um esmerado cultor da arte dos Corneilles! Não lhe parece, D. Luiza?
--Sim--disse ella com um sorriso vago.
Parecia preoccupada. Fôra já duas vezes ao relogio do quarto vêr as horas: quasi dez, e Juliana sem voltar! Quem havia de servir o chá? Ella mesmo foi pôr as chavenas no taboleiro, armar o paliteiro. Quando voltou á sala notou um silencio enfastiado...--Queriam que fosse tocar?--perguntou.
Mas D. Felicidade que olhava, ao pé de Julião, as gravuras do Dante, illustrado por G. Doré, que elle folheava, com o volume sobre os joelhos, exclamou, de repente:
--Ai que bonito! que é? Muito bonito! Viste, Luiza?
Luiza aproximou-se.
--É um caso d'amor infeliz, snr.^a D. Felicidade--disse Julião.--É a historia triste de Paulo e Francesca de Rimini.--E explicando o desenho:--Aquella senhora sentada é Francesca: este moço de guedelha, ajoelhado aos pés d'ella, e que a abraça, é seu cunhado, e, lamento ter de o dizer, seu amante. E aquelle barbaças, que lá ao fundo levanta o reposteiro e saca da espada, é o marido que vem, e zás!--E fez o gesto de enterrar o ferro.
--Safa!--fez D. Felicidade, arripiada--E aquelle livro cahido o que é? Estavam a lêr?...
Julião disse discretamente:
--Sim... Tinham começado por lêr, mas depois...
Quel giorno più no vi leggiomi avante,
o que quer dizer:--_E nós não lemos mais em todo o dia!_
--Pozeram-se a derriçar--disse D. Felicidade com um sorriso.
--Peor, minha rica senhora, peor! Porque segundo a mesma confissão de Francesca, este moço, o da guedelha, o cunhado,
La bocca me bacciò tutto tremante,
o que significa:--_A bocca me beijou tremendo todo_...
--Ah!--fez D. Felicidade, com um olhar rapido para o Conselheiro.--É uma novella?
--É o Dante, D. Felicidade--acudiu com severidade o Conselheiro--um poema epico classificado entre os melhores. Inferior, porém, ao nosso Camões! Mas rival do famoso Milton!
--Que n'essas historias estrangeiras os maridos matam sempre as mulheres!--exclamou ella. E voltando-se para o Conselheiro:--Pois não é verdade?
--Sim. D. Felicidade, repetem-se lá fóra com frequencia essas tragedias domesticas. O desenfreamento das paixões é maior. Mas entre nós, digamol-o com orgulho, o lar é muito respeitado. Assim eu, por exemplo, em todas as minhas relações em Lisboa, que são numerosas, graças a Deus, não conheço senão esposas modêlos.--E com um sorriso cortezão:--De que é de certo a flôr a dona da casa!
D. Felicidade revirou os olhos para Luiza que estava encostada á cadeira d'ella, e batendo-lhe no braço:
--Isto é uma joia!--disse com amor.
--E de resto--acudiu o Conselheiro--o nosso Jorge merece-o. Porque, como diz o poeta:
Seu coração é nobre, e a fronte altiva Revela-lhe da alma a pura essencia.
Aquella conversação impacientava Luiza. Ia sentar-se ao piano, quando D. Felicidade exclamou:--Dize cá, então não se toma hoje chá n'esta casa?
Luiza foi outra vez á cozinha. Disse a Joanna que viesse ella mesma com o chá.--E d'ahi a pouco Joanna, d'avental branco, vermelha, muito atarantada, entrou com o taboleiro.
--E a Juliana?--perguntou logo D. Felicidade.
--Sahiu, coitada--explicou Luiza--tem andado doente...
--E anda-te então por fóra até estas horas?... Boa! Até desacredita uma casa...
O Conselheiro tambem achava imprudente:
--Porque emfim as tentações são grandes n'uma capital, minha senhora!
Julião exclamou, rindo:
--Não, se aquella é tentada, descreio para sempre e totalmente, dos meus contemporaneos.
--Oh snr. Zuzarte!--acudiu o Conselheiro, quasi severamente--referia-me a outras tentações: entrar, por exemplo, n'uma loja de bebidas, appetecer-lhe ir ao Circo e desleixar os seus deveres...
Mas D. Felicidade não podia soffrer a Juliana: achava-lhe cara de Judas, tinha ar de ser capaz de tudo...
Luiza defendeu-a: era muito serviçal, muito boa engommadeira, muito honesta...
--E anda-te pela rua até ás onze da noite!... Credo! Fosse commigo!
--E creio--observou o Conselheiro--que tem uma doença mortal. Não é verdade, snr. Zuzarte?
--Mortal. Um aneurisma--respondeu Julião, sem levantar os olhos do Dante.
--Ainda para mais!--exclamou D. Felicidade. E abaixando a voz:--Tu o que deves fazer é descartar-te d'ella! Uma criada com uma doença d'essas! Que até lhe póde arrebentar a vir dar um copo d'agua á gente. Cruzes!
O Conselheiro apoiava:
--E ás vezes, que embaraços com a authoridade!
Julião fechou o Dante, e disse:
--Eu tem-me esquecido d'avisar o Jorge; mas um dia a creatura cahe-lhes redonda no chão.--E sorveu um gole de chá.
Luiza estava afflicta. Parecia-lhe que uma nova complicação se formava para a torturar... Pôz-se a dizer que era tão difficil arranjar criadas...
Lá isso era, concordaram.
Fallaram de criados, das suas exigencias. Estavam cada vez mais atrevidos! E em se lhes dando confiança! E que immoralidade!...
--Muitas vezes é culpa das amas--disse D. Felicidade.--Fazem das criadas confidentes, e isto, em ellas apanhando um segredo, tornam-se as donas da casa...
As mãos tremulas de Luiza faziam-lhe tilintar a chavena. Disse, com uma voz affectadamente risonha:
--E o Conselheiro, que tal de criados?
Accacio tossiu:
--Bem. Tenho uma pessoa respeitavel, com bom paladar, muito escrupulosa em contas...
--E que não é feia--acudiu Julião.--Assim me pareceu uma vez que fui á rua do Ferregial...
Uma vermelhidão espalhára-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade fitava-o anciosamente, com a pupilla chammejante. Accacio, então, disse com severidade:
--Nunca reparo para a physionomia dos subalternos, snr. Zuzarte.
Julião ergueu-se e enterrando as mãos nos bolsos, jovialmente:
--Foi um grande erro abolir a escravatura!...