O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Part 2

Chapter 23,531 wordsPublic domain

Leopoldina tinha então vinte e sete annos. Não era alta, mas passava por ser a mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos muito collados, com uma justeza que accusava, modelava o corpo como uma pellica, sem largueza de roda, apanhados atraz. Dizia-se d'ella, com os olhos em alvo: é uma estatua, é uma Venus! Tinha hombros de modêlo, d'uma redondeza descahida e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas bellas metades de limão; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes de cintura faziam voltar os olhares accesos dos homens. A cara era um pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatação carnuda; na pelle, muito fina, d'um trigueiro quente e córado, havia signaesinhos desvanecidos d'antigas bexigas. A sua belleza eram os olhos, d'uma negrura intensa, afogados n'um fluido, muito _quebrados_, com grandes pestanas.

Luiza veio para ella com os braços abertos, beijaram-se muito. E Leopoldina, sentada no sophá, enrolando devagarinho a sêda clara do guarda-sol, começou a queixar-se: Tinha estado adoentada, muito seccada, com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ella feito? Achava-a mais gorda.

Como era um pouco curta de vista, para se affirmar piscava ligeiramente os olhos, descerrando os beiços gordinhos, d'um vermelho calido.

--A felicidade dá tudo, até boas côres!--disse, sorrindo.

O que a trazia era perguntar-lhe a morada da franceza que lhe fazia os chapéos. E ha tanto tempo que a não via, já tinha saudades, tambem!

--Mas não imaginas! Que calor! Venho morta.

E deixou-se cahir sobre a almofada do sophá, encalmada, com um sorriso aberto, mostrando os dentes brancos e grandes.

Luiza disse-lhe a morada da franceza, gabou-lh'a; era barateira e tinha bom gosto. Como a sala estava escura foi entre-abrir um pouco as portadas da janella. Os estofos das cadeiras e as bambinellas eram de reps verde-escuro; o papel e o tapete com desenhos de ramagens tinham o mesmo tom, e n'aquella decoração sombria destacavam muito--as molduras douradas e pesadas de duas gravuras (a _Medea_ de Delacroix e a _Martyr_ de Delaroche), as encadernações escarlates dos dois vastos volumes do Dante de G. Doré, e entre as janellas o oval d'um espelho onde se reflectia um napolitano de _biscuit_ que, na console, dançava a _tarantella_.

Por cima do sophá pendia o retrato da mãi de Jorge, a oleo. Estava sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete espartilhado e secco: uma das mãos, d'um livido morto, pousava nos joelhos sobrecarregada d'anneis; a outra perdia-se entre as rendas muito trabalhadas d'um mantelete de setim; e aquella figura longa, macilenta, com grandes olhos carregados de negro, destacava sobre uma cortina escarlate, corrida em pregas copiosamente quebradas, deixando vêr para além céos azulados e redondezas d'arvoredos.

--E teu marido?--perguntou Luiza, vindo sentar-se muito junto de Leopoldina.

--Como sempre. Pouco divertido--respondeu, rindo. E, com um ar serio, a testa um pouco franzida:--Sabes que acabei com o Mendonça?

Luiza fez-se ligeiramente vermelha.

--Sim?

Leopoldina deu logo detalhes.

Era muito indiscreta, fallava muito de si, das suas sensações, da sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luiza; e na sua necessidade de fazer confidencias, de gozar a admiração d'ella, descrevia-lhe os seus amantes, as opiniões d'elles, as maneiras d'amar, os _tics_, a roupa, com grandes exagerações! Aquillo era sempre muito picante, cochichado ao canto d'um sophá, entre risinhos: Luiza costumava escutar, toda interessada, as maçãs do rosto um pouco envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava tão curioso!

--D'esta vez é que bem posso dizer que me enganei, minha rica filha!--exclamou Leopoldina erguendo os olhos desoladamente.

Luiza riu.

--Tu enganas-te quasi sempre!

Era verdade! Era infeliz!

--Que queres tu? De cada vez imagino que é uma paixão, e de cada vez me sahe uma massada!

E picando o tapete com a ponta da sombrinha:

--Mas se um dia acerto!

--Vê se acertas--disse Luiza.--Já é tempo!

Ás vezes na sua consciencia achava Leopoldina «indecente»; mas tinha um fraco por ella: sempre admirára muito a belleza do seu corpo, que quasi lhe inspirava uma attracção physica. Depois desculpava-a: era tão infeliz com o marido! Ia atraz da Paixão, coitada! E aquella grande palavra, faiscante e mysteriosa, d'onde a felicidade escorre como a agua d'uma taça muito cheia, satisfazia Luiza como uma justificação sufficiente: quasi lhe parecia uma heroina; e olhava-a com espanto como se consideram os que chegam d'alguma viagem maravilhosa e difficil, d'episodios excitantes. Só não gostava de certo cheiro de tabaco misturado de _feno_, que trazia sempre nos vestidos. Leopoldina fumava.

--E que fez elle, o Mendonça?

Leopoldina encolheu os hombros, com um grande tedio:

--Escreveu-me uma carta muito tôla, que a final bem considerado era melhor que acabasse tudo, porque não estava para se metter em camisa d'onze varas! Que imbecil! Até devo ter aqui a carta.

Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, uma carteirinha, chaves, uma caixinha de pó de arroz; mas encontrou apenas um programma do _Price_.

Fallou então do circo.--Uma semsaboria. O melhor era um rapaz que trabalhava no trapezio. Lindo rapaz, bem feito, uma perfeição!

E de repente:

--Então teu primo Bazilio chega?

--Assim li hoje no _Diario de Noticias_. Fiquei pasmada!

--Ah! outra cousa que te queria perguntar antes que me esqueça. Com que guarneceste tu aquelle teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer um assim.

Tinha-o guarnecido d'azul tambem, um azul mais escuro.--Vem vêr. Vem cá dentro.

Entraram no quarto. Luiza foi descerrar a janella, abrir o guarda-vestidos. Era um quarto pequeno, muito fresco, com _cretones_ d'um azul pallido. Tinha um tapete barato, de fundo branco, com desenhos azulados. O toucador, alto, estava entre as duas janellas, sob um docel de renda grossa, muito ornado de frascos facetados. Entre as bambinellas, em mesas redondas de pé de gallo, plantas espessas, Begonias, Makoamas, dobravam decorativamente a sua folhagem rica e forte, em vasos de barro vermelho vidrado.

Aquelles arranjos confortaveis lembraram de certo a Leopoldina felicidades tranquillas. Pôz-se a dizer devagar, olhando em roda:

--E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, hein? Fazes bem, filha, tu é que fazes bem!

Foi defronte do toucador, applicar pó d'arroz no pescoço, nas faces:

--Tu é que fazes bem!--repetia--Mas vá lá uma mulher prender-se a um homem como o meu!

Sentou-se na _causeuse_ com um ar muito abandonado; vieram as queixas habituaes sobre seu marido: era tão grosseiro! era tão egoista!

--Acreditarás que ha tempos para cá, se não estou em casa ás quatro horas, não espera, põe-se á mesa, janta, deixa-me os restos! E depois desleixado, enxovalhado, sempre a cuspir nas esteiras... O quarto d'elle--nós temos dous quartos, como tu sabes--é um chiqueiro!

Luiza disse com severidade:

--Que horror! A culpa tambem é tua.

--Minha!--e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, mais largos, mais negros.--Não me faltava mais nada senão occupar-me do quarto do homem!

Ah! era muito desgraçada, era a mulher mais desgraçada que havia no mundo!

--Nem ciumes tem, o bruto!

Mas Juliana entrou, tossiu, e arranjando ainda o collar e o broche:

--A senhora sempre quer que engomme os colletes todos?

--Todos, já lhe disse. Hão-de ficar á noite na mala antes de se ir deitar.

--Que mala? Quem parte?--perguntou Leopoldina.

--O Jorge. Vai ás minas, ao Alemtejo.

--Então estás só, posso vir vêr-te! Ainda bem!

E sentou-se logo ao pé d'ella, com um olhar que se fizera dôce.

--É que tenho tanto que te contar! Se tu soubesses, filha!

--O quê? Outra paixão?--fez Luiza rindo.

A face de Leopoldina tornou-se grave.

Não era p'ra rir. Estava de todo! Era por isso até que tinha vindo. Sentira-se tão só em casa, tão nervosa!--Vou até Luiza, vou palrar um bocado!

E com a voz mais baixa, quasi solemne:

--D'esta vez é serio, Luiza!--Deu os detalhes. Era um rapaz alto, louro, lindo! E que talento! É poeta!--Dizia a palavra com devoção, prolongando o som das syllabas.--É poeta!

Desapertou devagar dous botões do corpete, tirou do seio um papel dobrado. Eram versos.

E muito chegada para Luiza, com as narinas dilatadas pela delicia da sensação, leu baixo, com orgulho, com pompa:

A TI

_Pharol da Guia, 5 de junho._

Quando scismo á hora do poente Sobre os rochedos onde brame o mar...

Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplações em que a via a ella, Leopoldina, _visão radiosa que deslisas leve_, nas aguas dormentes, nas vermelhidões do occaso, na brancura das espumas. Era uma composição delambida, d'um sentimentalismo reles, com um ar tisico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E terminando dizia-lhe, que não era «nos esplendores das salas» ou nos «bailes febricitantes» que gostava de a vêr: era alli, n'aquelles rochedos,

Onde todos os dias ao sol posto Eu vejo adormecer o mar gigante.

--Que bonito, hein!

Ficaram caladas, com uma commoçãosinha.

Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente:

--Pharol da Guia, 5 de junho!

Mas o relogio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo, atarantada, metteu o poema no seio.

Tinha de se ir já! Fazia-se tarde, senão o outro, punha-se á mesa. Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a cousa mais estupida!

--Adeus. Até breve, não?--E agora que Jorge ia para fóra, havia de vir muito.--Adeus. Então a franceza, rua do Ouro, por cima do estanque?

Luiza foi com ella até ao patamar. Leopoldina já no fundo da escada, ainda parou, gritou:

--Sempre te parece que guarneça o vestido d'azul, hein?

Luiza debruçou-se sobre o corrimão:

--Eu assim fiz, é o melhor...

--Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque.

--Sim. Rua do Ouro. Adeus.--E com um gritinho:--Porta á direita, Madame François.

Jorge voltou ás cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala a um canto:

--Já sei que tiveste cá uma visita.

Luiza voltou-se, um pouco córada. Estava diante do toucador já penteada, com um vestido de linho branco, guarnecido de rendas.

Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana mandára-a entrar... Ficára mais contrariada! Era por causa da _adresse_ da franceza dos chapéos. Tinha-se demorado dez minutos.--Quem te disse?

--Foi a Juliana: que a snr.^a D. Leopoldina tinha estado toda a tarde.

--Toda a tarde! que tolice, esteve dez minutos, se tanto!

Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se á janella, pôz-se a sacudir as duras folhas d'uma Begonia malhada d'um vermelho doente, com uma baba prateada. Assobiava baixo; e parecia todo occupado em conchegar um botão d'Amarilis aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um pequenino coração assustado.

Luiza ia passando o seu medalhão d'ouro n'uma longa fita de velludo preto: tinha uma tremura nas mãos, estava vermelha.

--O calor tem-lhes feito mal--disse.

Jorge não respondeu. Assobiou mais alto, foi á outra janella, bateu com os dedos nas folhas elasticas d'uma Makoama de tons verdes e sanguineos, e, alargando impacientemente o collarinho como um homem suffocado:

--Ouve lá, é necessario que deixes por uma vez de receber essa creatura. É necessario acabar por uma vez!

Luiza fez-se escarlate.

--É por causa de ti! é por causa dos visinhos! é por causa da decencia!

--Mas foi a Juliana...--balbuciou Luiza.

--Mandasse-l'a sahir outra vez. Que estavas fóra! que estavas na China! que estavas doente!

Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braços:

--Minha rica filha, é que todo o mundo a conhece. É a Quebraes! É a _Pão e queijo_! É uma vergonha!

Citava-lhe os seus amantes, exasperado: O Carlos Viegas, o magro, de bigode cahido, que escrevia comedias para o Gymnasio! O Santos Madeira, o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um _gingão_ desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar n'uma enorme boquilha! O Pedro Camara, o bonito! O Mendonça dos callos! _Tutti quanti!_

E encolhendo os hombros, exasperado:

--Como se eu não percebesse que ella esteve aqui! Só pelo cheiro! Este horrivel cheiro de feno! Vossês foram creadas juntas, etc., tudo isso é muito bom. Has-de desculpar, mas se a encontro na escada, corro-a! Corro-a!

Parou um momento, e commovido:

--Ora, vamos, Luiza, confessa. Tenho ou não razão?

Luiza punha os brincos, ao espelho, atarantada:

--Tens--disse.

--Ah! bem!

E sahiu, furioso.

Luiza ficou immovel. Uma lagrimasinha redonda, clara, rolava-lhe pela aza do nariz. Assoou-se muito doloridamente. Aquella Juliana! Aquella bisbilhoteira! De má! Para fazer sizania!

Veio-lhe então uma colera. Foi ao quarto dos engommados, atirou com a porta:

--Para que foi vossê dizer quem esteve ou quem deixou d'estar?

Juliana, muito surprehendida, pousou o ferro:

--Pensei que não era segredo, minha senhora.

--Está claro que não! Tola! quem lhe diz que era segredo? E para que mandou entrar? Não lhe tenho dito muitas vezes que não recebo a snr.^a D. Leopoldina?

--A senhora nunca me disse nada--replicou, toda offendida, cheia de verdade.

--Mente! Cale-se!

Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito nervosa, foi encostar-se á vidraça.

O sol desapparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde sem vento: pelas casas, de uma edificação velha, escuras, estavam abertas as varandas onde em vasos vermelhos se mirrava alguma velha planta miseravel, manjaricão ou cravo; ouvia-se, no teclado melancolico d'um piano, a _Oração de uma virgem_, tocada por alguma menina, no sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janella, defronte, as quatro filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, com os cabellos muito riçados, as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a rua, para o ar, para as janellas visinhas, cochichando se viam passar um homem--ou debruçadas, com uma attenção idiota, faziam pingar saliva sobre as pedras da calçada.

Jorge tinha razão, coitado! pensava Luiza. Mas, tambem, que podia ella fazer? Já não ia a casa de Leopoldina, tirára o seu retrato do album da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe a repugnancia de Jorge, tinham chorado ambas, até! Coitada! Só a recebia de longe a longe, uma raridade, um momento! E emfim, depois d'ella estar na sala, não a havia d'ir empurrar pela escada abaixo!

Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, appareceu então ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz; parou, poz-se a voltear a manivella, levantando em redor, para as janellas, um sorriso triste de dentes brancos, e a _Casta Diva_! com uma sonoridade metallica e secca, muito tremida, espalhou-se pela rua.

Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de mathematica, veio encostar logo aos caixilhos estreitos da janella a sua vasta face trigueira de quarentona farta e estabelecida; adiante, na sacada aberta d'um segundo andar, debruçou-se a figura do Cunha Rosado, magro e chupado, com um boné de borla, o aspecto desconsolado do doente d'intestinos, conchegando com as mãos transparentes o robe-de-chambre ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se entre as bambinellas de caça.

Na rua, a estanqueira chegou-se á porta, vestida de luto, estendendo o seu carão viuvo, os braços cruzados sobre o chale tingido de preto, esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa Azevedo, veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabello esguedelhado em repas seccas, a cara oleosa e enfarruscada, com tres pequenos meio nús, quasi negros, chorões e hirsutos, que se lhe penduravam da saia de chita. E o Paula, com loja de trastes velhos, adiantou-se até ao meio da rua; a pala de verniz do seu boné de pano preto nunca se erguia de cima dos olhos; escondia sempre as mãos, como para ser mais reservado, por traz das costas, debaixo das abas do seu casaco de cotim branco; o calcanhar sujo da meia sahia-lhe para fóra da chinella bordada a missanga; e fazia roncar o seu pigarro chronico de um modo despeitado. Detestava os reis e os padres. O estado das cousas publicas enfurecia-o. Assobiava frequentemente a _Maria da Fonte_; e mostrava-se nas suas palavras, nas suas attitudes, um patriota exasperado.

O homem do realejo tirou o seu largo chapéo desabado e, tocando sempre, ia-o estendendo em redor para as janellas, com um olhar necessitado. As Azevedos tinham logo fechado violentamente a vidraça. A carvoeira deu-lhe uma moeda de cobre; mas interrogou-o; quiz de certo saber de que paiz era, por que estradas tinha vindo, e quantas peças tinha o instrumento.

Gente endomingada começava a recolher, com um ar derreado do longo passeio, as botas empoeiradas: mulheres de chale, vindas das hortas, traziam ao collo as crianças adormecidas da caminhada e do calor: velhos placidos, de calça branca, o chapéo na mão, gozavam a frescura, dando um giro no bairro: pelas janellas, bocejava-se: o céo tomava uma côr azulada e polida, como uma porcelana: um sino repicava a distancia o fim d'alguma festa d'igreja: e o domingo terminava, com uma serenidade cançada e triste.

--Luiza--disse a voz de Jorge.

Ella voltou-se, com um vago--hein?

--Vamos jantar, filha; são sete horas.

No meio do quarto, tomou-a pela cinta, e fallando-lhe baixo, junto á face:

--Tu zangaste-te ha bocado?

--Não! Tu tens razão. Conheço que tens razão.

--Ah!--fez elle com um tom victorioso, muito satisfeito.--Está claro,

Quem melhor conselheiro e bom amigo Que o marido que a alma m'escolheu?

E com uma ternura grave:

--Minha querida filha, esta nossa casinha é tão honesta, que é uma dôr d'alma vêr entrar essa mulher aqui, com o cheiro do _feno_, do cigarro, e do resto!... _Mà, di questo no parlaremo più, o donna mia!_ Á sopa!

II

Aos domingos á noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião, uma _cavaqueira_, na sala, em redor do velho candieiro de porcelana côr de rosa. Vinham apenas os intimos. «O Engenheiro», como se dizia na rua, vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era um pouco _á estudante_. Luiza fazia crochet, Jorge cachimbava.

O primeiro a chegar era Julião Zuzarte, um parente muito afastado de Jorge, e seu antigo condiscipulo nos primeiros annos da Polytechnica. Era um homem secco e nervoso, com lunetas azues, os cabellos compridos cahidos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgião da Escóla. Muito intelligente, estudava desesperadamente, mas, como elle dizia, era um _tumba_. Aos trinta annos, pobre, com dividas, sem clientella, começava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares de doze vintens, do seu paletot coçado d'alamares; e entalado na sua vida mesquinha, via os outros, os mediocres, os superficiaes, _furar_, subir, installar-se á larga na prosperidade! «Falta de _chance_», dizia. Podia ter aceitado um partido da camara n'uma villa da provincia, com pulso livre, ter uma casa _sua_, a _sua_ creação no quintal. Mas tinha um orgulho resistente, muita fé nas suas faculdades, na sua sciencia, e não se queria ir enterrar n'uma terriola adormecida e lugubre, com tres ruas onde os porcos fossam. Toda a provincia o aterrava; via-se lá obscuro, jogando a manilha na Assembléa, morrendo de cachexia. Por isso não «arredava pé»; e esperava, com a tenacidade do plebeu sofrego, uma clientella rica, uma cadeira na Escóla, um coupé para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha certeza do seu direito a estas felicidades, e como ellas tardavam a chegar ia-se tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se prolongavam mais os seus silencios hostis, roendo as unhas: e, nos dias melhores, não cessava de ter ditos sêccos, _tiradas_ azedadas--em que a sua voz desagradavel cahia como um gume gelado.

Luiza não gostava d'elle; achava-lhe um _ar nordeste_, detestava o seu tom de pedagogo, os reflexos negros da luneta, as calças curtas que mostravam o elastico roto das botas. Mas disfarçava, sorria-lhe, porque Jorge admirava-o, dizia sempre d'elle: Tem muito espirito! tem muito talento! grande homem!

Como vinha mais cedo ia á sala de jantar, tomava a sua chavena de café; e tinha sempre um olhar de lado para as pratas do aparador e para as _toilettes_ frescas de Luiza. Aquelle parente, um _mediocre_, que vivia confortavelmente, bem casado, com a carne contente, estimado no ministerio, com alguns contos de reis em inscripções--parecia-lhe uma injustiça e pezava-lhe como uma humilhação. Mas affectava estimal-o; ia sempre ás noites, aos domingos; escondia então as suas preoccupações, cavaqueava, tinha pilherias,--mettendo a cada momento os dedos pelos seus cabellos compridos, seccos e cheios de caspa.

Ás nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado. Tinha cincoenta annos, era muito nutrida, e, como soffria de dyspepsia e de gazes, áquella hora não se podia espartilhar e as suas fórmas transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabellos levemente annelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, d'uma alvura baça e molle de freira; nos olhos papudos, com a pelle já engelhada em redor, luzia uma pupilla negra e humida, muito mobil; e aos cantos da bocca uns pellos de buço pareciam traços leves e circumflexos d'uma penna muito fina. Fôra a intima amiga da mãi de Luiza, e tomára aquelle habito de vir vêr a _pequena_ aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas de Redondella, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da Encarnação.

Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na face de Luiza, perguntava-lhe baixo, com inquietação:

--Vem?

--O conselheiro? Vem.

Luiza sabia-o. Porque o conselheiro, o conselheiro Accacio, nunca vinha aos _chás de D. Luiza_, como elle dizia, sem ter ido na vespera ao ministerio das obras publicas procurar Jorge, declarar-lhe com gravidade, curvando um pouco a sua alta estatura:

--Jorge, meu amigo, ámanhã lá irei pedir a sua boa esposa a minha chavena de chá.

Ordinariamente acrescentava:

--E os seus valiosos trabalhos progridem? Ainda bem! Se vir o ministro, os meus respeitos a s. exc.^a Os meus respeitos a esse formoso talento!

E sahia, pisando com solemnidade os corredores enxovalhados.