O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 19
--Pois bem--disse, quasi n'um murmurio--eu lhe arranjarei o dinheiro. Espere uns dias.
Fez-se um silencio--que depois do ruido parecia muito profundo, e tudo no quarto como que se tornára mais immovel. Apenas o relogio batia o seu _tic-tac_, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma luz avermelhada, e direita.
Juliana tomou a sombrinha, traçou o chale, e depois de fitar Luiza um momento:
--Bem, minha senhora--disse, muito secca.
Voltou as costas, sahiu.
Luiza sentiu-a bater a cancella com força.
--Que expiação, Santo Deus!--exclamou, cahindo n'uma cadeira, banhada de novo em lagrimas.
Eram quasi dez horas quando Joanna voltou.
--Não pude saber nada, minha senhora, na inculcadeira ninguem sabe d'ella.
--Bem, traga a lamparina.
E Joanna ao despir-se no seu quarto, rosnava comsigo:
--A mulher tem arranjo, está mettida por ahi com algum sucio!
Que noite para Luiza! A cada momento acordava n'um sobresalto, abria os olhos na penumbra do quarto, e cahia-lhe logo na alma, como uma punhalada, aquelle cuidado pungente: Que havia de fazer? Como havia d'arranjar dinheiro? Seiscentos mil reis! As suas joias valiam talvez duzentos mil reis. Mas depois, que diria Jorge? Tinha as pratas... Mas era o mesmo!
A noite estava quente, e na sua inquietação a roupa escorregára, apenas lhe restava o lençol sobre o corpo. Ás vezes a fadiga readormecia-a d'um somno superficial, cortado de sonhos muitos vivos. Via montões de libras reluzirem vagamente, maços de notas agitarem-se brandamente no ar. Erguia-se, saltava para as agarrar, mas as libras começavam a rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um chão liso, e as notas desappareciam, voando muito leves com um fremito de azas ironicas. Ou então era alguem que entrava na sala, curvava-se respeitosamente, e começava a tirar do chapéo, a deixar-lhe cahir no regaço libras, moedas de cinco mil reis, peças, muitas, muitas, profusamente: não conhecia o homem: tinha um chinó vermelho e uma pera impudente. Seria o diabo? Que lhe importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar por Juliana, a correr atraz d'ella, por um corredor que não findava, e que começava a estreitar-se, a estreitar-se, até que era como uma fenda por onde ella se arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando sempre contra si o montão de libras que lhe punha frialdades de metal sobre a pelle núa do peito. Acordava assustada: e o contraste da sua miseria real com aquellas riquezas do sonho era como um acrescimo de amargura. Quem lhe poderia valer?--Sebastião! Sebastião era rico, era bom. Mas mandal-o chamar, e dizer-lhe ella, ella Luiza, mulher de Jorge:--Empreste-me seiscentos mil reis.--Para quê, minha senhora? E podia lá responder: para resgatar umas cartas que escrevi ao meu amante. Era lá possivel! Não, estava perdida. Restava-lhe ir para um convento.
A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto: atirou a touca, os seus longos cabellos soltaram-se, prendeu-os ao acaso com um gancho; e de costas, com a cabeça sobre os braços nús, pensava amargamente no romance de todo aquelle verão,--a chegada de Bazilio, o passeio ao Campo Grande, a primeira visita ao _Paraiso_...
Onde iria elle, aquelle infame? Dormindo tranquillamente nas almofadas do wagon!
E ella alli, na agonia!
Atirou o lençol, abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura da roupa, adormeceu quando a madrugada rompia.
Acordou tarde, succumbida. Mas logo na sala de jantar a belleza da manhã gloriosa reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela janella aberta; os canarios faziam um concerto; da forja ao pé sahia um martellar jovial; e o largo azul vigoroso levantava as almas.--Aquella alegria das cousas deu-lhe como uma coragem inesperada. Não se havia de abandonar a uma desesperança inerte... Que diabo! Devia luctar!
Vieram-lhe esperanças, então. Sebastião era bom, Leopoldina tinha expedientes, havia outras possibilidades, o acaso mesmo: e tudo isto podia, em definitiva, formar seiscentos mil reis, salval-a! Juliana desappareceria, Jorge voltaria!--E, alvoraçada, via perspectivas de felicidades possiveis reluzirem, no futuro, deliciosamente.
Ao meio dia veio o criadito de Sebastião: o senhor tinha chegado d'Almada, desejava saber como a senhora estava.
Correu ella mesma á porta; que pedia ao snr. Sebastião, que viesse logo que podesse!
Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia fallar a Sebastião... No fim era o que lhe restava: contar ella tudo a Sebastião, ou que a outra contasse tudo a seu marido. Impossivel hesitar! E depois podia attenuar, dizer que fôra só uma correspondencia platonica... A partida de Bazilio, além d'isso, fazia d'aquelle erro um facto passado, quasi antigo... E Sebastião era tão amigo d'ella!
Veio, era uma hora. Luiza que estava no quarto sentiu-o entrar, e só o som dos seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez, quasi um terror. Parecia-lhe agora muito difficil, terrivel de dizer... Preparára phrases, explicações, uma historia de galanteio, de cartas trocadas; e estava com a mão no fecho da porta, a tremer. Tinha medo d'elle! Ouvia-o passear pela sala; e receando que a impaciencia lhe désse mau humor, entrou.
Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno: nunca o seu olhar lhe parecera tão recto, e a sua barba tão séria!
--Então que é? precisa alguma cousa?--perguntou-lhe elle depois das primeiras palavras sobre Almada, sobre o tempo.
Luiza teve uma cobardia indominavel, respondeu logo:
--É por causa de Jorge!
--Aposto que não lhe tem escripto?
--Não.
--Esteve muito tempo sem me escrever tambem.--E rindo:--Mas hoje recebi duas cartas por atacado.
Procurou-as entre outros papeis que tirou da algibeira. Luiza fôra sentar-se no sophá; olhava-o com o coração aos pulos, e as suas unhas impacientes raspavam devagarinho o estôfo.
--É verdade--dizia Sebastião, revolvendo o maço de papeis.--Recebi duas, falla em voltar, diz que está muito seccado...--E estendendo uma carta a Luiza:--Póde vêr.
Luiza desdobrára-a, e começava a lêr; mas Sebastião, estendendo a mão precipitadamente:
--Perdão, não é essa!
--Não, deixe vêr...
--Não diz nada, são negocios...
--Não, quero vêr!
Sebastião, sentado á beira da cadeira, coçava a barba, olhando-a, muito contrariado. E Luiza de repente, franzindo a testa:
--O quê?--A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpreza irritada.--Realmente!...
--São tolices, são tolices!--murmurava Sebastião, muito vermelho.
Luiza pôz-se então a lêr alto, devagar:
«Saberás, amigo Sebastião, que fiz aqui uma conquista. Não é o que se póde chamar uma princeza, porque é nem mais nem menos que a mulher do estanqueiro. Parece estar abrazada no mais impuro fogo, por este seu criado. Deus me perdôe, mas desconfio até que me leva apenas um vintem pelos charutos de pataco, fazendo assim ao esposo, o digno Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e a tenda!»--Que graça!--murmurou Luiza, furiosa.--«Receio muito que se repita commigo o caso biblico da mulher de Putiphar. Acredita que ha um certo merito em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira como é, é lindissima. E tenho medo que succeda algum fracasso á minha pobre virtude...»
Luiza interrompeu-se, e olhou Sebastião com um olhar terrivel.
--São brincadeiras!--balbuciou elle.
Ella seguiu, lendo: «Olha se a Luiza soubesse d'esta aventura! De resto, o meu successo não pára aqui: a mulher do delegado faz-me um olho dos diabos! É de Lisboa, d'uma gente Gamacho, que parece que mora para Belem, conheces? e dá-se ares de morrer de tedio, na tristeza provinciana da localidade. Deu uma _soirée_ em minha honra, e em minha honra, creio tambem, decotou-se. Muito bonito collo»--Luiza fez-se escarlate--«e uma queda do diabo...»
--Está doudo!--exclamou ella.--«E aqui tens o teu amigo feito um D. Juan do Alemtejo, e deixando um rasto de chammas sentimentaes por essa provincia fóra! O Pimentel recommenda-se...»
Luiza ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se bruscamente, dando a carta a Sebastião:
--Muito bem, diverte-se!--disse com uma voz sibilante.
--São lá cousas que se tomem a serio! Não deve tomar a serio...
--Eu!--exclamou ella.--Acho muito natural até!
Sentou-se, começou, com volubilidade, a fallar d'outras cousas, de D. Felicidade, de Julião...
--Trabalha muito agora para o concurso--disse Sebastião.--Quem não tenho visto é o Conselheiro.
--Mas, quem é essa gente Gamacho, de Belem?
Sebastião encolheu os hombros--e com um ar quasi reprehensivo:
--Ora realmente tomou a serio...
Luiza interrompeu-o:
--Ah! sabe? Meu primo Bazilio partiu.
Sebastião teve um alvoroço d'alegria.
--Sim?
--Foi para Paris, não creio que volte.--E depois d'uma pausa, parecendo ter esquecido Jorge, e a carta:--Só em Paris está bem... Estava no ar p'ra partir.--Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do vestido:--Precisava casar, aquelle rapaz.
--P'ra assentar--disse Sebastião.
Mas Luiza não acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de cavallos, d'aventuras, podesse dar um bom marido.
Sebastião era d'opinião que ás vezes socegavam, e eram homens de familia...
--Teem mais experiencia--disse.
--Mas um fundo leviano--observou ella.
E depois d'estas palavras vagas calaram-se com embaraço.
--Eu a fallar a verdade--disse então Luiza--estimei que meu primo partisse... Como tinha havido essas tolices na visinhança... Ultimamente mesmo quasi que o não vi. Esteve ahi hontem, veio despedir-se, fiquei surprehendida...
Estava tornando impossivel a historia d'um galanteio platonico, cartas trocadas--mas um sentimento mais forte que ella impellia-a a attenuar, distanciar as suas relações com Bazilio. Acrescentou mesmo:
--Eu sou amiga d'elle, mas somos muito differentes... Bazilio é egoista, pouco affeiçoado... De resto a nossa intimidade nunca foi grande...
Calou-se bruscamente, sentiu que «se enterrava».
Sebastião lembráva-se ouvir-lhe dizer «que tinham sido creados ambos de pequenos»; mas emfim aquella maneira de fallar do primo, parecia-lhe a prova maior de que «não houvera nada». Quasi se queria mal pelas duvidas, que tivera, tão injustas!...
--E volta?--perguntou.
--Não me disse, mas não creio. Em se pilhando em Paris!
E com a idéa da carta, de repente:
--Então o Sebastião é confidente de Jorge?
Elle riu:
--Oh minha senhora! pois acredita...
--E a mim quando me escreve, que se aborrece, que está só, que não supporta o Alemtejo...--Mas vendo Sebastião olhar o relogio:--O que, já? É cedo.
Tinha d'estar na baixa antes das tres, disse elle.
Luiza quiz retel-o. Não sabia para quê--porque a cada momento sentia a sua resolução diminuir, desapparecer como a agua d'um rio que se absorve no seu leito. Pôz-se a fallar-lhe das obras d'Almada.
Sebastião começára-as pensando que duzentos ou trezentos mil reis fariam as restaurações necessarias: mas depois umas cousas tinham trazido outras--e, dizia, está-se-me tornando um sorvedouro!
Luiza riu, forçadamente.
--Ora, quando se é proprietario e rico!...
--Isso sim! Parece que não é nada: mas uma pintura n'uma porta, uma janella nova, uma sala forrada de papel, um soalho, e isto e aquillo, e lá se vão oitocentos mil reis... Emfim!...
Levantou-se, e despedindo-se:
--Eu espero que aquelle vadio se não demore muito...
--Se a estanqueira der licença...
Ficou a passear na sala, nervosa, com aquella idéa. Deixar-se namorar pela estanqueira, e a mulher do delegado, e as outras!... De certo, tinha confiança n'elle, mas os homens!... De repente representou-se-lhe a estanqueira prendendo-o nos braços detraz do balcão, ou Jorge beijando, n'alguma entrevista, de noite, o collo bonito da mulher do delegado!... E tumultuosamente appareceram-lhe todas as razões que provavam irrecusavelmente a traição de Jorge: estava ha dous mezes fóra! sentia-se cançado da sua viuvez! encontrava uma mulher bonita! tomava aquillo como um prazer passageiro, sem importancia!... Que infame! Resolveu escrever-lhe uma carta digna e offendida, «que viesse immediatamente, ou que partia ella!»--Entrou no quarto, muito excitada. A photographia de Jorge, que ella tirára na vespera do sacco de marroquim, ficára no toucador. Pôz-se a olhal-a: não admirava que o namorassem, era bonito, era amavel... Veio-lhe uma onda de ciume, que lhe obscureceu o olhar: se elle a enganasse, se tivesse a certeza da «mais pequena cousa»--separava-se, recolhia-se a um convento, morria de certo, matava-o!...
--Minha senhora--veio dizer Joanna--é um gallego com esta carta. Está á espera da resposta.
Que espanto! Era de Juliana!
Escripta em papel pautado, n'uma letra medonha, erriçada de erros d'orthographia, dizia:
«Minha senhora.
«Bem sei que fui imprudente, o que a senhora deve attribuir tanto á minha desgraça como á falta de saude, o que ás vezes faz que se tenham genios repentinos. Mas se a senhora quer que eu volte e faça o serviço como d'antes--ao qual creio que a senhora não póde oppôr-se, terei muito gosto em ser agradavel na certeza que nunca mais se fallará em tal até que a senhora queira, e cumpra o que prometteu. Prometto fazer o meu serviço, e desejo que a senhora esteja por isto pois que é para bem de todos. Pois que foi genio e naturalmente todos teem os seus repentes, e com isto não canço mais e sou
«Serva muito obediente
«a criada
«_Juliana Couceiro Tavira_.»
Ficou com a carta na mão, sem resolução. A sua primeira vontade foi dizer--não! Tornar a recebel-a, vêl-a, com a sua face horrivel, a cuia enorme! Saber que ella tinha no bolso a sua carta, a sua deshonra, e chamal-a, pedir-lhe agua, a lamparina, ser servida por ella! Não! Mas veio-lhe um terror; se recusasse irritava a creatura, Deus sabe o que faria! Estava nas mãos d'ella, devia passar por tudo. Era o seu castigo... Hesitou ainda um momento:
--Que sim, que venha, é a resposta.
Juliana veio com effeito ás oito horas. Subiu pé ante pé para o sotão, poz o fato de casa e as chinellas, e desceu para o quarto dos engommados, onde Joanna sentada n'um tapete costurava, á luz do petroleo.
Joanna, muito curiosa, acabrunhou-a logo de perguntas: Onde estivera? o que tinha acontecido? porque não déra noticias?--Juliana contou que fôra a uma visita a uma amiga, á calçada do Marquez d'Abrantes, e que de repente lhe dera um flato, e a dôr... Não quiz mandar dizer, porque imaginára que poderia vir. Mas qual! estivera dia e meio de cama...
Quiz saber então o que tinha feito a senhora, se sahira, quem estivera...
--A senhora tem andado a modo incommodada--disse Joanna.
--É do tempo--observou Juliana.--Tinha trazido a sua costura, e ambas caladas continuaram o serão.
Ás dez horas Luiza ouviu bater devagarinho á porta do quarto. Era _ella_, de certo!
--Entre...
A voz de Juliana disse muito naturalmente:
--Está o chá na mesa.
Mas Luiza não se decidia a ir á sala, com medo, horror de a vêr! Deu voltas no quarto, demorou-se; foi emfim, toda tremula. Juliana vinha justamente no corredor; encolheu-se contra a parede, com respeito, disse:
--Quer que vá pôr a lamparina, minha senhora?
Luiza fez que _sim_ com a cabeça, sem a olhar.
Quando voltou ao quarto Juliana enchia o jarro; e depois de ter aberto a cama, cerrado as portas, quasi em pontas de pés:
--A senhora não precisa mais nada?--perguntou.
--Não.
--Muito boa noite, minha senhora.
E não houve outra palavra mais.
--Parece um sonho!--pensava Luiza, ao despir-se melancolicamente.--Esta creatura, com as minhas cartas, installada em minha casa para me torturar, para me roubar!--Como se achava ella, Luiza, n'aquella situação? Nem sabia. As cousas tinham vindo tão bruscamente, com a precipitação furiosa d'uma borrasca, que estala! Não tivera tempo de raciocinar, de se defender: fôra embrulhada: e alli estava, quasi sem «dar fé», na sua casa sob a dominação da sua criada! Ah! se tivesse fallado a Sebastião! Tinha agora o dinheiro, de certo, notas, ouro... Com que phrenesi lh'o arremessaria, a expulsaria, e a arca, e os trapos, e a cuia!...--Jurou a si propria fallar a Sebastião, dizer tudo! Iria mesmo a casa d'elle, para o impressionar mais!
D'ahi a pouco, quebrada da agitação do dia, adormecera--e sonhava que um estranho passaro negro lhe entrára no quarto, fazendo uma ventania, com as suas azas pretas de morcego: era Juliana! Corria aterrada ao escriptorio, gritando: Jorge! Mas não via nem livros, nem estante, nem mesa:--havia uma armação reles de loja de tabaco, e por traz do balcão, Jorge acariciava sobre os joelhos uma bella mulher de fórmas robustas, em camisa d'estopa, que perguntava com uma voz desfallecida de voluptuosidade e os olhos afogados em paixão:--Brejeiros ou de Xabregas?--Fugia então de casa indignada, e, através de successos confusos, via-se ao lado de Bazilio, n'uma rua sem fim, onde os palacios tinham fachadas de cathedraes, e as carruagens rolavam ricamente com uma pompa de cortejo. Contava soluçando a Bazilio a traição de Jorge. E Bazilio, saltitando em volta d'ella com requebros de palhaço, repenicava uma viola, e cantava:
Escrevi uma carta a Cupido A mandar-lhe perguntar Se um coração offendido Tem obrigação de amar!
--Não tem!--gania a voz d'Ernestinho, brandindo triumphante um rolo de papel.--E tudo se obscurecia de repente nos largos vôos circulares que fazia Juliana com as suas azas de morcego.
IX
Juliana voltára para casa de Luiza por conselhos da tia Victoria.
--Olha, minha rica, tinha-lhe ella dito, não ha que vêr, o passaro fugiu-nos! Suspira, bem pódes suspirar que o dinheiro grosso foi-se! Quem podia lá adivinhar que o homem desarvorava! Não, lá isso pódes tirar d'ahi o sentido! Que d'ella escusas d'esperar nem cheta...
--Tambem me regalo de mandar as cartas ao marido, tia Victoria!
A velha encolheu os hombros:
--Não lucras nada com isso. Ou que elles se desquitem, ou que elle lhe parta os ossos, ou que a mande para um convento--tu não ganhas nada. E se se acommodarem, mais ficas a chuchar no dedo, porque nem tens a consolação de fazeres a sizania. E isto é se as cousas correrem pelo melhor, porque pódes muito bem ficar mas é em lençoes de vinagre com alguma carga de pau que elles te mandem dar.--E vendo um gesto espantado de Juliana:--Já não era o primeiro caso, minha rica, já não era o primeiro. Olha que em Lisboa, passa-se muita cousa, e nem tudo vem nos jornaes!
Positivamente o que ella tinha a fazer era voltar para a casa. Porque emfim o que restava de tudo aquillo? O medo de D. Luiza: esse é que lá estava sempre a dar-lhe por dentro a colica: d'esse é que era necessario tirar partido...
--Tu voltas para lá--dizia--á espera que ella cumpra o que prometteu. Se te dá o dinheiro, bem... Senão tem-l'a em todo o caso na mão, estás de dentro da praça, sabes o que se passa, pódes-lhe apanhar muita cousa...
Mas Juliana hesitava.--Era difficil viverem debaixo das mesmas telhas sem haver uma questão por dá cá aquella palha.
--Não te diz uma palavra, tu verás...
--Mas tenho medo...
--De que?--exclamava a tia Victoria. Ella não era mulher para a envenenar, não é verdade? Então? Quem a nada se arriscava nada ganhava.--Isto é se queres--acrescentou--senão trata de te arranjar n'outra parte, e deita as cartas para o fundo da arca. Que diabo! Tu vaes vêr, se não te convém, safas-te...
Juliana decidiu ir, «a vêr».
E reconheceu logo, que «aquella finoria da tia Victoria tinha carradas de razão».
Luiza, com effeito, parecia resignada. Sebastião tinha ido para Almada, outra vez. Mas como estava decidida, apenas elle voltasse, a ir a casa d'elle uma manhã, atirar-se-lhe ao pés, contar-lhe _tudo_, _tudo_, supportava Juliana, reflectindo:--É apenas por dias!--Por isso não lhe disse uma palavra. Para que? O que tinha a fazer era pagar-lhe e pôl-a fóra, não é verdade? Em quanto o não podesse fazer, era aguentar e calar. Até que Sebastião voltasse...
No entretanto evitava vêl-a. Nunca a chamava. Não sahia da alcova de manhã, sem a ter sentido fóra no quarto encher o banho, sacudir os vestidos. Ia para a sala de jantar com um livro, e nos intervallos não levantava os olhos das paginas. E durante todo o dia conservava-se no quarto com a porta fechada, lendo, costurando, pensando em Jorge--ás vezes tambem em Bazilio com odio, desejando a volta de Sebastião, e preparando a sua historia.
Juliana, uma manhã, encontrou Luiza no corredor trazendo para o quarto o regador cheio d'agua.
--Oh minha senhora! porque não chamou?--exclamou, quasi escandalisada.
--Não tem duvida--disse Luiza.
Mas Juliana seguiu-a ao quarto, e cerrando a porta:
--Oh minha senhora!--disse muito offendida--isto assim não póde continuar. A senhora parece que tem medo de me vêr, credo! Eu voltei para fazer o meu serviço como d'antes... Verdade, verdade, naturalmente, sempre espero que a senhora faça o que prometteu... E lá largar as cartas não largo, sem ter seguro o pão da velhice. Mas o que se passou foi um repente de genio, e já pedi perdão á senhora. Quero fazer o meu serviço... Agora se a senhora não quer, então saio, e--acrescentou com uma voz secca--talvez seja peor para todos!...
Luiza, muito perturbada, balbuciou:
--Mas...
--Não, minha senhora--cortou Juliana severamente--aqui a criada sou eu.
E sahiu, empertigada.
Tanta audacia aterrou Luiza. Aquella ladra era capaz de tudo!
Então, para a não irritar começou, d'ahi por diante, a chamal-a, a dizer:--Traga isto, traga aquillo,--sem a olhar.
Mas Juliana fazia-se tão serviçal, era tão calada, que Luiza pouco a pouco, dia a dia, com o seu caracter mobil, inconsistente, cheio _de deixar-se ir_, principiou a perder o sentimento pungente d'aquella difficuldade. E no fim de tres semanas «as cousas tinham entrado nos seus eixos»--dizia Juliana.
Luiza já gritava por ella do quarto, já a mandava a recados fóra: Juliana chegava a ter ás vezes migalhas de conversação:--Está um calor de morrer... A lavadeira tarda...--Um dia arriscou esta phrase mais intima:--Encontrei a criada da snr.^a D. Leopoldina.
Luiza perguntou:
--Ainda está para o Porto?
--Ainda se demora um mez, minha senhora...
De resto havia na casa um aspecto muito tranquillo, e Luiza, depois de tantas agitações, abandonava-se com gozo á satisfação d'aquelle descanço. Ia ás vezes vêr D. Felicidade á Encarnação, que já se levantava. E esperava sempre Sebastião, mas sem impaciencia, quasi contente por vêr adiado o momento terrivel de lhe dizer: escrevi a um homem, Sebastião!
Assim iam passando os dias; estava-se no fim de setembro.
Uma tarde Luiza ficára mais tempo á janella da sala de jantar; deixára cahir o livro no regaço, e olhava, sorrindo, um bando de pombas que d'algum quintal visinho viera pousar sobre o tabique do terreno vago. Pensava vagamente em Bazilio, no _Paraiso_... Sentiu passos, era Juliana.
--Que é?
A mulher cerrára a porta, e vindo junto d'ella, baixo:
--Então a senhora ainda não decidiu nada?
Luiza sentiu como uma pancada no estomago.
--Ainda não pude arranjar nada...
Juliana esteve um momento a olhar para o chão:
--Bem--murmurou, por fim.
E Luiza ouviu-a, no corredor, dizer alto:
--Isto quando o senhor voltar é que são os ajustes de contas!
Quando Jorge voltasse! Immediatamente no seu espirito, que se tinha pouco a pouco serenado, todos os sustos, as angustias estremeceram de novo áquella ameaça--assim uma rajada subita põe em convulsão um arvoredo. Devia, pois, fazer _alguma cousa_ antes que elle chegasse! Justamente Jorge escrevera-lhe, que «não se demoraria, que a avisaria pelo telegrapho...» Desejava, agora, que do ministerio o mandassem fazer uma viagem mais longe, pela Hespanha ou pela Africa; que alguma catastrophe, sem lhe fazer mal, o retardasse mezes!...
Que faria elle, se soubesse! Matal-a-hia? Lembravam-lhe as suas palavras muito sérias, n'aquella noite, quando Ernestinho contára o final do seu drama... Mettel-a-hia n'uma carruagem, leval-a-hia a um convento? E via a grossa portaria fechar-se com um ruido funerario de ferrolhos, olhos lugubres estudal-a curiosamente...