O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Part 18

Chapter 183,813 wordsPublic domain

--Estás douda, Luiza, tu não estás em ti! Póde lá pensar-se em fugir! Era um escandalo atroz, eramos apanhados de certo, com a policia, com os telegraphos! É impossivel! Fugir é bom nos romances! E depois, minha filha, não é um caso para isso! É uma simples questão de dinheiro...

Luiza fazia-se branca, ouvindo-o.

--E além d'isso--continuou Bazilio, muito agitado, pelo quarto--eu não estou preparado, nem tu! Não se foge assim. Ficas desacreditada para toda a vida, sem remedio, Luiza. Uma mulher que foge, deixa de ser a snr.^a D. Fulana, é a Fulana, a que fugiu, a desavergonhada, uma concubina! Eu tenho de certo de ir ao Brazil, onde has-de tu ficar? Queres ir tambem, um mez n'um beliche, arriscar-te á febre amarella? E se teu marido nos persegue se formos detidos na fronteira? Achas bonito voltar entre dous policias, e ir passar um anno ao Limoeiro? O teu caso é simplicissimo. Entendes-te com essa creatura, dá-se-lhe um par de libras, que é o que ella quer, e ficas em tua casa, socegada, respeitada como d'antes--sómente mais acautelada! Aqui está!

Aquellas palavras cahiam sobre os planos de Luiza, como machadadas que derrubam arvores. Ás vezes a verdade que ellas continham atravessava-a irresistivelmente, viva como um relampago, desagradavel como um gume frio. Mas via n'aquella recusa uma ingratidão, um abandono. Depois de se ter installado, pela imaginação, n'uma segurança feliz, longe, em Paris--parecia-lhe intoleravel ter de voltar para casa, de cabeça baixa, soffrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que entrevira n'aquelle outro destino, agora que lhe fugiam d'entre as mãos, pareciam-lhe maravilhosos, quasi indispensaveis! E depois de que servia resgatar a carta a dinheiro? A creatura saberia o seu segredo! E a vida seria amarga, tendo sempre em volta de si aquelle perigo a rondar!

Ficára calada, como perdida n'uma reflexão vaga; e de repente erguendo a cabeça, com um olhar brilhante:

--Então, dize!...

--Mas estou-te a dizer, filha...

--Não queres?

--Não!--exclamou Bazilio com força.--Se tu estás douda, não estou eu!

--Oh! pobre de mim, pobre de mim!

Deixou-se cahir no sophá, tapou o rosto com as mãos. Soluços baixos sacudiam-lhe o peito.

Bazilio sentou-se ao pé d'ella. Aquellas lagrimas mortificavam-no, e impacientavam-no.

--Mas, santo nome de Deus, escuta-me!

Ella voltou para elle os olhos que reluziam sob o pranto:

--Para que dizias então, tantas vezes, que seriamos tão felizes, que se eu quizesse...

Bazilio ergueu-se bruscamente:

--Pois tu pensaste em fugir, em te metter commigo n'um wagon, vir para Paris, viver commigo, ser a minha amante?

--Sahi de casa p'ra sempre, ahi está o que eu fiz!

--Mas vaes voltar p'ra casa!--exclamou elle, quasi com colera.--Por que havias de tu fugir? por amor? então deviamos ter partido ha um mez, não ha razão agora para irmos. Para que, então? Para evitar um escandalo? com um escandalo maior, não é verdade? um escandalo irreparavel, medonho! Estou-te a fallar como um amigo, Luiza!--Tomou-lhe as mãos, com muita ternura:--Tu imaginas que eu não seria feliz em ir viver comtigo para Paris? Mas vejo os resultados, tenho outra experiencia. O escandalo todo evita-se com umas poucas de libras. Tu imaginas que a mulher vai-se pôr a fallar? O seu interesse é safar-se, desapparecer; sabe perfeitamente o que fez, que te roubou, que usou de chaves falsas. A questão é pagar-lhe.

Ella disse, com uma voz lenta:

--E o dinheiro, onde o tenho eu?

--Está claro que o dinheiro tenho-o eu!--E depois de uma pausa:--Não muito, estou mesmo um pouco atrapalhado, mas emfim...--Hesitou, disse:--se a creatura quizer duzentos mil reis, dão-se-lhe!

--E se não quizer?

--Que ha-de ella querer, então? Se roubou a carta é para a vender! Não é para guardar um autographo teu!

Vinham-lhe palavras duras, passeava pelo quarto exasperado. Que pretensão querer vir com elle para Paris, embaraçar-lhe para sempre a sua vida! E que despeza tão tola, dar um 'rôr de libras a uma ladra! Depois aquelle incidente, a carta de namoro roubada nos papeis sujos, a criada, a chave falsa do gavetão dos vestidos--parecia-lhe soberanamente burguez, um pouco pulha. E parando, para acabar:

--Emfim oferece-lhe trezentos mil reis, se quizeres. Mas pelo amor de Deus, não faças outra; não estou para pagar as tuas distracções a trezentos mil reis cada uma!

Luiza fez-se livida, como se elle lhe tivesse cuspido no rosto.

--Se é uma questão de dinheiro, eu o pagarei, Bazilio!

Não sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, empenharia... Não o aceitaria d'elle!

Bazilio encolheu os hombros:

--Estás-te a dar ares, onde o tens tu?

--Que te importa?--exclamou.

Bazilio coçou a cabeça, desesperado. E tomando-lhe as mãos, com uma impaciencia reprimida:

--Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos... Tu não tens dinheiro.

Ella interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o braço:

--Pois sim, mas falla tu a essa mulher, falla-lhe tu, arranja tudo. Eu não a quero tornar a vêr. Se a vejo, morro, acredita. Falla-lhe tu!

Bazilio recuou vivamente, e batendo com o pé:

--Estás douda, mulher! Se eu lhe fallo, então pede tudo, então pede-me a pelle! Isso é comtigo. Eu dou-te o dinheiro, tu arranja-te!

--Nem isso me fazes?

Bazilio não se conteve:

--Não! c'os diabos, não!

--Adeus!

--Tu estás fóra de ti, Luiza!

--Não. A culpa é minha--dizia, descendo o véo com as mãos tremulas--eu é que devo arranjar tudo!

E abriu a porta. Bazilio correu a ella, prendeu-a por um braço.

--Luiza, Luiza! o que queres tu fazer? não podemos romper assim! Escuta...

--Fujamos então, salva-me de todo!--gritou ella, abraçando-o anciosamente.

--Caramba! Se te estou a dizer que não é possivel!

Ella atirou com a porta, desceu as escadas correndo. O coupé esperava-a.

--Para o Rocio--disse.

E deitando-se para o canto da carruagem, rompeu a chorar convulsivamente.

Bazilio sahiu do _Paraiso_ muito agitado. As pretensões de Luiza, os seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no tanto, que tinha quasi vontade de não voltar ao _Paraiso_, calar-se, e _deixar correr o marfim_! Mas tinha pena d'ella, coitada! E depois, sem a amar appetecia-a: era tão bem feita, tão amorosa, as revelações do vicio davam-lhe um delirio tão adoravel! Um conchegosinho tão picante em quanto estivesse em Lisboa... Maldita complicação! Ao entrar no hotel, disse ao seu criado:

--Quando vier o snr. visconde Reynaldo, que vá ao meu quarto.

Estava alojado no segundo andar, com janellas para o rio. Bebeu um calix de cognac, e estirou-se no sophá. Ao pé, na jardineira, tinha o seu _buvard_ com um largo monogramma em prata sob a corôa de conde, caixas de charutos, os seus livros--_Mademoiselle Giraud ma femme_, _La vierge de Mabille_, _Ces Frippones! Memoires secrètes d'une femme de chambre_, _Le chien d'arrêt_, _Manuel du chasseur_, numeros do _Figaro_, a photographia de Luiza, e a photographia d'um cavallo.

E soprando o fumo do charuto, começou a considerar, com horror, a «situação»! Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris, com aquelle trambolhosinho! Trazer uma pessoa, havia sete annos, a sua vida tão arranjadinha, e patatrás! embrulhar tudo, porque á menina lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro! No fim, toda aquella aventura desde o começo fôra um erro! Tinha sido uma idéa de burguez inflammado ir desinquietar a prima da Patriarchal. Viera a Lisboa para os seus negocios, era tratal-os, aturar o calor e o _b[oe]uf à la mode_ do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar a patria ao inferno!... Mas não idiota! Os seus negocios tinham-se concluido,--e elle, burro, ficára alli a torrar em Lisboa, a gastar uma fortuna em tipoias para o largo de Santa Barbara, para quê? Para uma d'aquellas! Antes ter trazido a Alphonsine!

Que, verdade, verdade, em quanto estivesse em Lisboa o romance era agradavel, muito excitante; porque era muito completo! Havia o adulteriosinho, o incestosinho. Mas aquelle episodio agora estragava tudo! Não, realmente, o mais razoavel era safar-se!

A sua fortuna tinha sido feita com negocio de borracha, no alto Paraguay; a grandeza da especulação trouxera a formação d'uma companhia, com capitaes brazileiros; mas Bazilio e alguns engenheiros francezes queriam resgatar as acções brazileiras, «que eram um _empecilho_», formar em Paris uma outra companhia, e dar ao negocio um movimento mais ousado. Bazilio partira para Lisboa entender-se com alguns brazileiros, e comprára as acções habilmente. A prolongação d'aquelle incidente amoroso tornava-se uma perturbação na sua vida pratica... E, agora que a aventura tomava um aspecto seccante, convinha passar o pé!

A porta abriu-se e o visconde Reynaldo entrou--afogueado, de lunetas azues, furioso.

Vinha de Bemfica! Morto, absolutamente morto com aquelle calor, d'um paiz de negros. Tivera a estupida idéa de ir visitar uma tia--que o fizera logo membro d'uma associação para não sei que diabo de que creche, e que lhe prégára moral! Tambem que idéa de collegial--ir visitar a tia! Porque realmente, se havia uma cousa que lhe causasse repugnancia, eram as ternuras de familia!

--E tu, que queres tu? Eu vou-me metter n'um banho até ao jantar!

--Sabes o que me succede?--disse Bazilio, erguendo-se.

--O quê?

--Imagina. O caso mais estupido.

--O marido apanhou-te?

--Não, a criada!

--_Shocking!_--exclamou Reynaldo com nôjo.

Bazilio contou miudamente «o caso». E cruzando os braços diante d'elle:

--E agora?

--Agora é safar-te!

E levantou-se.

--Onde vaes tu?

--Vou ao banho.

Que esperasse, que diabo, queria fallar com elle...

--Não posso!--exclamou Reynaldo com um egoismo phrenetico.--Vem tu cá abaixo! Posso perfeitamente conversar na agua!

Sahiu, berrando por William, o seu criado inglez.

Quando Bazilio desceu aos banhos, Reynaldo estirado com voluptuosidade na tina, d'onde sahia um forte cheiro d'agua de Lubin, exclamou, deleitando-se no seu conforto:

--Então cartinha apanhada nos papeis sujos!

--Não, Reynaldo, mas francamente estou embaraçado; que achas tu que eu faça?

--As malas, menino!

E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro:

--Ahi está o que é fazer amor ás primas da Patriarchal Queimada!

--Oh!--fez Bazilio, impaciente.

--Oh quê?--E, coberto de flocos d'espuma, com as mãos apoiadas ao rebordo de marmore da tina:--Pois tu achas isso decente, uma mulher que toma a cozinheira por confidente, que lhe está na mão, que perde a carta nos papeis sujos, que chora, que pede duzentos mil reis, que se quer safar--isso é lá amante, isso é lá nada! Uma mulher que, como tu mesmo disseste, usa meias de tear!

--Meu rico, é uma mulher deliciosa!

O outro encolheu os hombros, descrente.

Bazilio deu logo provas: descreveu bellezas do corpo de Luiza; citou episodios lascivos.

O tecto e os tabiques envernizados de branco reflectiam a luz, com tons macios de leite; a exhalação da agua tepida augmentava o calor morno; e um cheiro fresco de sabão e agua de Lubin adoçava o ar.

--Bem! estás pelo beiço--resumiu Reynaldo com tedio, estirando-se.

Bazilio teve um movimento d'hombros, que repellia aquella supposição grotesca.

--Mas dize, então, queres ficar-lhe agarrado ás saias ou queres desembaraçar-te d'ella? Mas a verdade, venha a verdade!

--Eu--disse logo Bazilio, chegando-se á tina, baixo--se me podesse desembaraçar decentemente...

--Oh desgraçado! tens uma occasião divina! Ella sahiu como uma bicha, dizes tu. Bem; escreve-lhe uma carta, «que vendo que ella deseja romper, não a queres importunar, e partes». Os teus negocios estão concluidos, não é verdade? Escusas de negar, o Lapierre disse-me que sim. Bem, então sê decente: manda fazer as malas, e livra-te da sarna!

E tomando a esponja, deixava cahir grandes golpes d'agua pela cabeça, pelos hombros, soprando, regalado na frescura aromatica.

--Mas tambem--disse Bazilio--deixal-a agora n'aquella atrapalhação com a criada! No fim é minha prima...

Reynaldo agitou os braços, com hilaridade.

--Esse espirito de familia é optimo! Vai lá, idiota, dize-lhe que és obrigado a partir, os teus negocios, etc., e mette-lhe umas poucas de notas na mão.

--É brutal...

--É caro!

Bazilio disse então:

--Olha que tambem é uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela criada...

Reynaldo estirou-se mais, e disse com jubilo:

--Estão a estas horas a esgadanharem-se uma á outra!

Recostou-se, n'uma beatitude: quiz saber as horas; declarou que estava confortavel, que se sentia feliz! Com tanto que o John se não tivesse esquecido de _frapper_ o champagne!

Bazilio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Luiza de reps verde, a figura horrivel de Juliana com a sua enorme cuia... Estariam com effeito a ralhar, a descompôr-se? Que _pulhice_ que era tudo aquillo! Positivamente devia partir.

--Mas que pretexto lhe hei-de eu dar para sahir de Lisboa?

--Um telegramma! Não ha nada como um telegramma! Telegrapha já ao teu homem em Paris, ao Labachardie, ou Labachardette, ou o que é, que te mande logo este despacho: «Parta, negocios maus, etc.» É o melhor!

--Vou fazel-o--disse Bazilio erguendo-se, muito decidido.

--E partimos ámanhã?--gritou Reynaldo.

--Ámanhã.

--Por Madrid?

--Por Madrid.

--_Salero!_--Pôz-se de pé, na tina, enthusiasmado, a escorrer, e com movimentos aduncos de magricella saltou para fóra, embrulhou-se no roupão turco. O seu criado William entrou logo, subtilmente, ajoelhou-se, tomou-lhe um pé entre as mãos, seccou-lh'o com precauções, pôz-se respeitosamente a calçar-lhe a meia de sêda preta com ferradurinhas bordadas.

Na manhã seguinte, um pouco antes do meio dia, Joanna veio bater discretamente á porta do quarto de Luiza, e com a voz baixa--desde o desmaio fallava-lhe sempre baixo, como a uma convalescente:

--Está alli o primo da senhora.

Luiza ficou surprehendida. Estava ainda de _robe de chambre_, e tinha os olhos vermelhos de chorar; pôz n'um instante um pouco de pó d'arroz, alisou o cabello, entrou na sala.

Bazilio, vestido de claro, sentára-se melancolicamente no môcho do piano. Trazia um ar grave, e, sem transição, começou a dizer:--que apesar d'ella se ter zangado na vespera, elle considerava ainda tudo «como d'antes». Viera porque n'aquelle momento não se podiam separar sem algumas explicações, sobretudo sem resolver definitivamente o caso da carta... E com um gesto triste, como contendo lagrimas:

--Porque eu vejo-me forçado a sahir de Lisboa, minha querida!

Luiza, sem olhar para elle, fez um sorriso mudo, muito desdenhoso. Bazilio acrescentou logo:

--Por pouco tempo, naturalmente, tres semanas ou um mez... Mas enfim tenho de partir... Se fossem só os meus interesses!--Encolheu os hombros com desdem.--Mas são interesses d'outros... E aqui está o que eu recebi esta manhã.

Estendeu-lhe um telegramma. Ella conservou-o um momento, sem o abrir; a sua mão fazia tremer o papel.

--Lê, peço-te que leias!

--Para que?--fez ella.

Mas leu baixo: «Venha, graves complicações. Presença absolutamente necessaria. Parta já.»

Dobrou o papel, entregou-lh'o.

--E partes, hein?

--É forçoso.

--Quando?

--Esta noite.

Luiza ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe a mão:

--Bem, adeus.

Bazilio murmurou:

--És cruel, Luiza!... Não importa! Em todo o caso ha um negocio que é necessario terminar. Fallaste á mulher?

--Está tudo arranjado--respondeu ella, franzindo a testa.

Bazilio tomou-lhe a mão, e quasi com solemnidade:

--Minha filha, eu sei que és muito orgulhosa, mas peço-te que digas a verdade. Eu não te quero deixar em difficuldades. Fallaste-lhe?

Ella retirou a mão, e com uma impaciencia crescente:

--Arranjou-se tudo, arranjou-se tudo!...

Bazilio parecia muito embaraçado, estava mesmo um pouco pallido: emfim, tirando uma carteira da algibeira, começou:

--Em todo o caso é possivel, é natural (nós não sabemos com quem lidamos), é natural que haja outras exigencias...--Abriu a carteira, tomou um sobrescripto pequenino e cheio.

Luiza seguia, fazendo-se vermelha, os movimentos de Bazilio.

--Por isso, para te poderes entender melhor com ella, sempre me parece bom deixar-te algum dinheiro.

--Tu estás doudo?--exclamou ella.

--Mas...

--Tu queres-me dar dinheiro?--A sua voz tremia.

--Mas emfim...

--Adeus!--E ia sahir da sala, indignada.

--Luiza, pelo amor de Deus! Tu não me comprehendeste...

Ella parou, disse precipitadamente, como impaciente por acabar:

--Comprehendi, Bazilio, obrigada. Mas não, não é necessario. Estou nervosa, é o que é... Não prolonguemos mais isto... Adeus...

--Mas sabes que volto, dentro de tres semanas...

--Bem, então nos veremos...

Elle attrahiu-a, deu-lhe um beijo na bocca, encontrou os seus labios passivos e inertes.

Aquella frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a contra o peito; disse-lhe baixo, pondo muita paixão na voz:

--Nem um beijo me queres dar?

Nos olhos de Luiza passou um ligeiro clarão; beijou-o rapidamente, e recuando:

--Adeus.

Bazilio esteve um momento a olhal-a, teve como um leve suspiro:

--Adeus!--E da porta, voltando-se, com melancolia:--Escreve-me ao menos. Sabes a minha morada. Rue Saint Florentin, 22.

Luiza chegou-se á janella. Viu-o accender o charuto na rua, fallar ao cocheiro, saltar para o coupé, fechar com força a portinhola, sem um olhar para as janellas!

O trem rolou. Era o n.^o 10... Nunca mais o veria! Tinham palpitado no mesmo amor, tinham commettido a mesma culpa.--Elle partia alegre, levando as recordações romanescas da aventura: ella ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!

Veio-lhe um sentimento pungente de solidão e de abandono. Estava só, e a vida apparecia-lhe como uma vasta planicie desconhecida, coberta da densa noite, erriçada de perigos!

Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cahir no sophá: viu ao pé o sacco de marroquim, que preparára na vespera para fugir: abriu-o, pôz-se a tirar lentamente os lenços, uma camisinha bordada,--encontrou a photographia de Jorge! Ficou com ella na mão, contemplando o seu olhar leal, o seu sorriso bom.--Não, não estava no mundo só! Tinha-o a elle! Amava-a aquelle, nunca a trahiria, nunca a abandonaria!--E collando os beiços ao retrato, humedecendo-o de beijos convulsivos, atirou-se de bruços, lavada em lagrimas, dizendo:--Perdôa-me, Jorge, meu Jorge, meu querido Jorge, Jorge da minha alma!

Depois de jantar Joanna veio dizer-lhe timidamente:

--A senhora não lhe parece que seria bom ir saber da snr.^a Juliana?

--Mas onde quer vossê ir saber?--perguntou Luiza.

--Ella ás vezes vai a casa d'uma amiga, uma inculcadeira, para os lados do Carmo. Talvez lhe tivesse dado alguma, esteja mal. Mas tambem não mandar recado desde hontem pela manhã... Cousa assim! Eu podia ir saber...

--Pois bem, vá, vá.

Aquella desapparição brusca inquietava tambem Luiza. Onde estava, que fazia? Parecia-lhe que alguma cousa se tramava em segredo, longe d'ella, que viria de repente estalar-lhe sobre a cabeça, terrivelmente...

Anoiteceu. Accendeu as velas. Tinha um certo medo de estar assim só em casa: e, passeando pelo quarto, pensava que áquella hora Bazilio em Santa Apolonia comprava alegremente o seu bilhete, installava-se no wagon, accendia o charuto, e d'ahi a pouco, a machina arquejando leval-o-hia para sempre! Porque não acreditava «na demora de tres semanas, um mez»! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o detestar sentia que alguma cousa dentro em si se partia com aquella separação, e sangrava dolorosamente!

Eram quasi nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou que seria Joanna de volta, foi abrir com um castiçal,--e recuou vendo Juliana, amarella, muita alterada.

--A senhora faz favor de me dar uma palavra?

Entrou no quarto atraz de Luiza, e immediatamente rompeu, gritando, furiosa:

--Então a senhora imagina que isto ha-de ficar assim? A senhora imagina que por seu amante se safar, isto ha-de ficar assim?

--Que é, mulher?--fez Luiza, petrificada.

--Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto ha-de ficar em nada?--berrou.

--Oh mulher, pelo amor de Deus!...

A sua voz tinha tanta angustia que Juliana calou-se.

Mas depois de um momento, mais baixo:

--A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma cousa era! Queria pedir ao primo da senhora que me ajudasse! Estou cançada de trabalhar, e quero o meu descanço. Não ia fazer escandalo, o que desejava é que elle me ajudasse... Mandei ao hótel esta tarde... O primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivaes, para o inferno! E o criado ia á noite com as malas. Mas a senhora pensa que me logram?--E retomada pela sua colera, batendo com o punho furiosamente na mesa:--Raios me partam, se não houver uma desgraça n'esta casa, que ha-de ser fallada em Portugal!

--Quanto quer vossê pelas cartas, sua ladra?--disse Luiza, erguendo-se direita, diante d'ella.

Juliana ficou um momento interdicta.

--A senhora ou me dá seiscentos mil reis, ou eu não largo os papeis!--respondeu, empertigando-se.

--Seiscentos mil reis! Onde quer vossê que eu vá buscar seiscentos mil reis?

--Ao inferno!--gritou Juliana.--Ou me dá seiscentos mil reis, ou tão certo como eu estar aqui, o seu marido ha-de lêr as cartas!

Luiza deixou-se cahir n'uma cadeira, aniquilada.

--Que fiz eu para isto, meu Deus, que fiz para isto?

Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente.

--A senhora diz bem, sou uma ladra, é verdade, apanhei a carta no cisco, tirei as outras do gavetão. É verdade! E foi para isto, para m'as pagarem!--E traçando, destraçando o chale, n'uma excitação phrenetica:--Não que a minha vez havia de chegar! Tenho soffrido muito, estou farta! Vá buscar o dinheiro onde quizer. Nem cinco reis de menos! Tenho passado annos e annos a ralar-me! P'ra ganhar meia moeda por mez, estafo-me a trabalhar, de madrugada até á noite, em quanto a senhora está de panria! É que eu levanto-me ás seis horas da manhã--e é logo engraxar, varrer, arrumar, labutar, e a senhora está muito regalada em valle de lençoes, sem cuidados, nem canceiras. Ha um mez que me ergo com o dia, p'ra metter em gomma, passar, engommar! A senhora suja, suja, quer ir vêr quem lhe parece, apparecer-lhe com tafularias por baixo, e cá está a negra, com a pontada no coração, a matar-se, com o ferro na mão! E a senhora, são passeios, tipoias, boas sêdas, tudo o que lhe appetece--e a negra? A negra a esfalfar-se!

Luiza, quebrada, sem força de responder, encolhia-se sob aquella colera como um passaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma violencia da sua voz. E as lembranças das fadigas, das humilhações, vinham atear-lhe a raiva, como achas n'uma fogueira.

--Pois que lhe parece?--exclamava.--Não que eu cômo os restos e a senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma gota de vinho, quem m'o dá? Tenho de o comprar! A senhora já foi ao meu quarto? É uma enxovia! A persevejada é tanta que tenho de dormir quasi vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada! A criada é o animal. Trabalha se pódes, senão rua, para o hospital. Mas chegou-me a minha vez--e dava palmadas no peito, fulgurante de vingança.--Quem manda agora, sou eu!

Luiza soluçava baixo.

--A senhora chora! tambem eu tenho chorado muita lagrima! Ai! eu não lhe quero mal, minha senhora, certamente que não! Que se divirta, que goze, que goze! O que eu quero é o meu dinheiro. O que eu quero é o meu dinheiro aqui escarrado, ou o papel ha-de ser fallado! Ainda este tecto me rache, se eu não fôr mostrar a carta ao seu homem, aos seus amigos, á visinhança toda, que ha-de andar arrastada pelas ruas da amargura!

Calou-se, exhausta; e com a voz entrecortada de cansaços:

--Mas dê-me a senhora o meu dinheiro, o meu rico dinheiro, e aqui tem os papeis, e o que lá vai, lá vai, e até lhe levo outras. Mas o meu dinheiro p'ra aqui! E tambem lhe digo, que morta seja eu n'este instante com um raio, se depois de eu receber o meu dinheiro esta bocca se torna a abrir!--E deu uma palmada na bocca.

Luiza erguera-se devagar, muito branca: