O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Part 17

Chapter 173,904 wordsPublic domain

Elle tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam tão felizes em Paris, no seu _appartamento_ da rua Saint Florentin! Pois bem, iria! Não levaria malas, poria no seu pequeno sacco de marroquim alguma roupa branca, as joias da mamã... E os criados? a casa? Deixaria uma carta a Sebastião para que viesse, fechasse tudo!... Levaria na viagem o vestido de riscadinho azul--ou o preto! Mais nada. O resto compral-o-hia longe, n'outras cidades...

--Se a senhora quer vir jantar...--disse Joanna á porta do quarto.

Tinha posto um avental branco, e acrescentou:

--A snr.^a Juliana está deitada, diz que está com a dôr, não póde servir á mesa.

--Já vou.

Tomou apenas uma colhér de sopa, bebeu um grande gole d'agua; e erguendo-se:

--Que tem ella?

--Diz que é uma dôr muito forte no coração.

Se morresse! Estava salva, ella! Podia ficar, então! E com uma esperança perversa:

--Vá vêr, Joanna, vá vêr como está!

Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dôr! Iria logo ao quarto d'ella rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E não teria medo do silencio da morte, nem da lividez do cadaver...

--Está mais descançada, minha senhora--veio dizer a Joanna--diz que logo que se levanta. Então a senhora não come mais nada? Credo!

--Não.

E entrou para o quarto, pensando:--de que serve estar a imaginar cousas? Só me resta fugir.

Decidiu-se logo a escrever a Sebastião; mas não pôde acertar com outras palavras além do começo, no alto, n'uma letra muito trémula: _Meu amigo!_

Para que havia de escrever? Quando ao outro dia ella não voltasse, nem á tarde, nem á noite--as criadas, a _outra_, a infame! iriam logo a Sebastião. Era o intimo da casa. Que espanto o d'elle! Imaginaria algum accidente, correria á Encarnação, depois á policia, esperaria n'uma angustia até de madrugada! Todo o dia seguinte seriam outras esperanças de a vêr chegar, decepções aterradas,--até que telegrapharia a Jorge! E a essa hora de certo, ella, encolhida no canto do wagon, rolaria, ao ruido offegante da machina, para um destino novo!...

Mas porque se affligia, por fim? Quantas invejariam a sua desgraça! O que havia de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro paredes, passada a examinar roes de cozinha e a fazer _crochet_, e partir com um homem novo e amado, ir para Paris! para Paris! viver nas consolações do luxo, em alcovas de sêda, com um camarote na Opera!... Era bem tola em se affligir! Quasi fôra uma felicidade aquelle «desastre»! Sem elle nunca teria tido a coragem de se desembaraçar da sua vida burgueza; mesmo quando um alto desejo a impellisse, haveria sempre uma timidez maior para a reter!

E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! Seria só d'um homem; não teria de amar em casa e amar fóra de casa!

Veio-lhe mesmo a idéa de ir ter immediatamente com Bazilio, «acabar com aquillo por uma vez». Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas escuras, a noite, e os bebedos...

Foi logo arranjar o sacco de marroquim. Metteu lenços, alguma roupa branca, o estojo das unhas, o rosario que lhe dera Bazilio, pós d'arroz, algumas joias que tinham pertencido á mamã... Quiz levar as cartas de Bazilio tambem... Tinha-as guardadas n'um cofre de sandalo, no gavetão do guarda-vestidos. Espalhou-as no regaço; abriu uma, d'onde cahiu uma florzinha sêcca; outra que tinha, na dobra, a photographia de Bazilio. De repente, pareceu-lhe que não estavam completas! Tinha _sete_: _cinco_ bilhetes curtos, e _duas_ cartas--a primeira que elle lhe escrevêra, tão terna! e a ultima no dia do arrufo! Contou-as... Faltava, com effeito, a _primeira_, e _dous_ bilhetes! Tinha-lh'as roubado, tambem!... Ergueu-se livida. Ah que infame! veio-lhe uma raiva de subir ao sotão, luctar com ella, arrancar-lh'as, esganal-a!... Que lhe importava, por fim!--E deixou-se cahir na _causeuse_, aniquilada--Que ella tivesse uma, duas, todas--era a mesma desgraça!

E muito excitada, foi preparar o vestido preto que devia levar, o chapéo, um chale-manta...

O _cuco_ cantou dez horas. Entrou então na alcova; pôz o castiçal sobre a mesinha, ficou a olhar o largo leito com o seu cortinado de fustão branco. Era a ultima vez que alli dormia! Fôra ella que bordára aquella coberta de _crochet_ no primeiro anno de casada: não havia uma malha que não correspondesse a uma alegria. Jorge ás vezes vinha vêl-a trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou fallava-lhe baixo enrolando devagar nos dedos o fio de algodão grosso! Alli dormira com elle tres annos: o seu lugar era de lá, do lado da parede... Fôra n'aquella cama que ella estivera doente, com a pneumonia. Durante semanas elle não se deitára--a velal-a, a conchegar-lhe a roupa, a dar-lhe os caldos, os remedios, com toda a sorte de palavras dôces que lhe faziam tão bem!... Fallava-lhe como a criancinha pequena: dizia-lhe: «isso vai passar, ámanhã estás boa, vamos passear». Mas o seu olhar ancioso estava marejado de lagrimas! Ou então pedia-lhe: «Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha querida, melhora!...» E ella queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que voltava, lhe refrescava o sangue!

Nos primeiros dias da convalescença era elle que a vestia; ajoelhava-se para lhe calçar os sapatos, embrulhava-a no roupão, vinha estendel-a na _causeuse_, sentava-se ao pé d'ella a lêr-lhe romances, desenhar-lhe paizagens, recortar-lhe soldados de papel. E dependia toda d'elle, não tinha mais ninguem no mundo para a tratar, para soffrer, chorar por ella--senão elle! Adormecia sempre com as mãos nas suas, porque a doença deixára-lhe um vago medo dos pesadêlos da febre; e o pobre Jorge, para a não acordar, alli ficava com a mão presa, horas, sem se mover. Deitava-se vestido n'um colxãosito ao pé d'ella. Muitas vezes, acordando de noite, o tinha visto a limpar as lagrimas; d'alegria, de certo, porque ella então estava salva! o medico, o bom dr. Caminha, tinha-o dito: «Está livre de perigo, agora é refazer esse corpinho». E Jorge, o pobre Jorge, coitado, sem dizer nada, tinha tomado as mãos do velho,--tinha-as coberto de beijos!

E agora, quando elle soubesse, quando elle voltasse! Quando ao entrar alli na alcova--visse os dous travesseirinhos, ainda! Ella iria longe, com outro, por caminhos estranhos, ouvindo outra lingua. Que horror! E elle alli estaria, n'aquella casa só, chorando, abraçado a Sebastião. Quantas memorias d'ella para o torturar! Os seus vestidos, as suas chinellinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida triste, a d'elle! Dormiria alli _só_! Já não teria ninguem para o acordar de manhã com um beijinho, passar-lhe o braço pelo pescoço, dizer-lhe: _é tarde, Jorge!_ Tudo acabára para ambos. Nunca mais!--Rompeu a chorar, de bruços sobre a cama...

Mas a voz de Juliana fallou alto no corredor com Joanna. Ergueu-se aterrada. Viria ter com ella, aquella infame? Os passos achinellados afastaram-se devagar, e Joanna entrou com o rol e com a lamparina.

--A snr.^a Juliana--disse--levantou-se um momento, mas diz que ainda está mal, coitada. Foi-se deitar. A senhora não precisa mais nada?

--Não--disse da alcova.

Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente.

Juliana em cima não dormia. A dôr passára-lhe--e agitava-se sobre o enxergão, «com o diabo da espertina»! como tantas outras noites, nas ultimas semanas. Porque desde que apanhára a carta no _sarcophago_ vivia n'uma febre; mas a alegria era tão aguda, a esperança tão larga que a sustentavam, lhe davam saude! Deus emfim tinha-se lembrado d'ella! Desde que Bazilio começára a vir a casa, tivera logo um palpite, uma cousa que lhe dizia que tinha chegado emfim a sua vez! A primeira satisfação fôra n'aquella noite em que achára, depois de Bazilio sahir ás dez horas, a travéssinha de Luiza cahida ao pé do sophá. Mas que explosão de felicidade, quando, depois de tanta espionagem, de tanta canceira, apanhou emfim a carta no _sarcophago_! Correu ao sotão, leu-a avidamente, e quando viu a importancia da «cousa» arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, arremessou a sua alma perversa para as alturas, bradando em si, n'um triumpho:

--Bemdito seja Deus! Bemdito seja Deus!

E que havia de fazer _áquillo_?--foi então a sua inquietação. Ora pensava em a vender a Luiza por uma forte somma... mas onde tinha ella o dinheiro? Não; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com ameaças de a publicar, extorquir-lhe _um rôr_ de libras por meio d'outra pessoa, já se vê, e ella á capa! E em certos dias em que a figura, as _toilettes_, as passeatas de Luiza a irritavam mais, vinham-lhe venetas de sahir p'ra a rua, chamar os visinhos, lêr o papel, pôl-a mais rasa que a lama, vingar-se da «cabra»!

Foi a tia Victoria que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe logo «que para a armadilha ser completa era necessario uma carta do janota». Começára então o lento trabalho de lh'a apanhar! Fôra preciso muita finura, muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cêra, paciencia de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a lido com a tia Victoria--que rira, rira!... Sobre tudo o bilhete em que Bazilio lhe dizia: «Hoje não posso ir, mas espero-te ámanhã ás duas; mando-te essa rosinha, e peço-te que faças o que fizeste á outra, trazel-a no seio, porque é tão bom quando vens assim, sentir-te o peitinho perfumado!...» A tia Victoria, suffocada, quil-a mostrar á sua velha amiga, a Pêdra, a Pêdra gorda, que estava na saleta.

A Pêdra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal cheios, tinham sacudidellas furiosas de hilaridade. E com as mãos nas ilhargas, rubra, roncando, com o seu vozeirão de trombone:

--Essa é das boas, tia Victoria! Essa é de mestre. Não, isso merece ir para os papeis! Ai os bebedos! Raios do diabo!

A tia Victoria, então, disse muito seriamente a Juliana:

--Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso já pódes fallar d'alto. É esperar a occasião. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a fartar para ella não desconfiar, e o olho álerta. Tens o rato seguro, deixa-o dar ao rabo!

E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito comsigo--aquelle gozo de a ter «na mão», a Luizinha, a senhora, a patroa, a _piorrinha_! Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar, comer bem--e pensava com uma voluptuosidade felina: Anda, folga, folga, que eu cá t'a tenho armada! Aquillo dava-lhe um orgulho perverso. Sentia-se vagamente _senhora da casa_. Tinha alli fechada na mão a felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patrões! Que desforra!

E o futuro estava certo! _Aquillo_ era dinheiro, o pão da velhice. Ah! tinha-lhe chegado o seu dia! Todos os dias rezava uma _Salvè-rainha_ de graças a Nossa Senhora, mãi dos homens!

Mas agora, depois d'aquella _scena_ com Luiza--não podia ficar de braços cruzados, com as cartas na algibeira. Devia sahir de casa, pôr-se em campo, fazer _alguma cousa_. O que? A tia Victoria é que havia de dizer...

Logo pela manhã ás sete horas, sem tomar o seu café, sem fallar a Joanna, desceu devagar, sahiu.

A tia Victoria não estava em casa. Gente na saleta esperava. O snr. Gouvêa, com a borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava, dobrado, cuspilhando o seu catarrho. Juliana deu os _bons dias_ em redor, e sentou-se a um canto, direita, com a sua sombrinha nos joelhos.

Conversava-se: e uma mulher de trinta annos, picada das bexigas, que estava sentada no canapé, depois de ter dado um sorriso a Juliana, continuou, voltada para uma gordita com um chale de quadrados vermelhos:

--Pois não imagina, snr.^a Anna, não faz idéa! É uma desgraça! É todas as noites como um carro. Ás vezes até acordo com o barulho que elle faz a fallar só, a tropeçar na escada... Eu, do que tenho mais medo, é que o demonio adormeça com a luz e haja um fogo. Ah! é de todo!

--Quem?--perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanario, que fallava de pé a um criado alto, de suiças e gravata branca enxovalhada.

--O Cunha, o filho do meu patrão. É uma desgraça!

--Piteireiro, hein?--disse o rapazola, enrolando o cigarro.

--Um horror! Eu pela manhã nem posso entrar no quarto, que é um cheiro... A mãi, coitadinha, chora, rala-se; o rapaz já esteve para ser posto fóra do emprego. Ai! não estou nada contente, nada contente!

--Pois olhe que por lá tambem ha desgosto grande--disse, baixando a voz, a do chale de quadrados.

Os dous homens aproximaram-se.

--O senhor--continuou ella com gestos aterrados--é um desafôro com a cunhada!... A senhora sabe, e aquillo são questões de dia e de noite! As duas irmãs andam n'uma bulha pegada. O homem toma as dôres da rapariga, a mulher põe-se aos gritos... Ai! aquillo vem a acabar mal!

--E então se a gente tem lá o seu descuido--disse o da gravata branca com indignação--é aqui d'el-rei, e d'aqui e d'alli!

--Lá a sua gente é socegada, snr. João--observou a picada das bexigas.

--É boa gente. As raparigas namoradeiras... Proveito das criadas, apanham o seu vestidito, a sua placa... Mas os velhotes é uma santa gente, a verdade é a verdade! E come-se bem!

E voltando-se para o trintanario, batendo-lhe no hombro, com uma voz que o admirava e que o invejava:

--Mas isto sim! Isto é que é leval-a!

O rapazola sorriu com satisfação:

--Ora! são mais as vozes do que as nozes!

--Vá lá, mostra lá--disse o da gravata branca tocando-lhe com o cotovêlo--mostra lá!

O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaçando a blusa, tirou do bolso do collete de riscadinho um relogio d'ouro.

--Muito bonito! Rica prenda!--disseram as duas mulheres.

--Suor do meu rosto--fez elle, acariciando o queixo.

O da gravata branca indignou-se:

--Ora seu marôto!--E baixo para as raparigas:--Suor do seu rosto, hein!--É o seraphim da patrôa, uma senhora da alta que aquillo são tudo sêdas, muitissimo boa mulher, um bocado entradota, mas muitissimo boa mulher, recebe d'estas lembranças, um relogio d'um par de moedas--e ainda falla!

O rapazola disse então, enterrando as mãos na algibeira:

--E se quizer agora, ha-de largar a corrente!

--Ha-de-lhe custar muito!--exclamou o da gravata branca.--Uma gente que tem ahi pela baixa correntezas de casas! Metade da rua dos Retrozeiros é d'ella!

--Mas muito agarrada!--disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o cigarro ao canto da bocca:--Estou com ella ha dous mezes, e ainda se não desabotoou senão com o relogio e tres libras em ouro!... Que eu, como quem diz, um dia passo-lhe o pé!--E cofiando o cabello para a testa:--Não faltam mulheres! e das que tem _Dom_!

Mas a tia Victoria entrou, muito azafamada, com o chale no braço; e vendo Juliana:

--Olá! por cá! Tive que dar umas voltas, estou na rua desde as seis. Bons dias, snr.^a Theodosia; bons dias, Anna. Viva, temos por cá o alfenim! Entra cá p'ra dentro, Juliana! Eu já venho, meus pombinhos, é um instante!

Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguão:

--E então, que ha de novo?

Juliana pôz-se a contar longamente a _scena_ da vespera, o desmaio...

--Pois minha rica--disse a tia Victoria--o que está feito, está feito; não ha tempo a perder; é mãos á obra! Tu vaes ao Brito, ao hótel, e entendes-te com elle.

Juliana recusou-se logo: não se atrevia, tinha medo...

A tia Victoria reflectiu, coçando o ouvido; foi dentro, cochichou com o tio Gouvêa, e voltando, fechando a porta do quarto:

--Arranja-se quem vá. Tens tu as cartas?

Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim escarlate. Mas hesitou um momento, olhou a tia Victoria com desconfiança.

--Tens medo de largar os papeis, creatura?--exclamou offendida a velha.--Arranja-te tu, então arranja-te tu...

Juliana deu-lh'as logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!...

--A pessoa--disse a tia Victoria--vai ámanhã á noite fallar com o Brito, e pede-lhe um conto de reis!

Juliana teve um deslumbramento. Um conto de reis! A tia Victoria estava a brincar!

--Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quasi não tinha mal nenhum, pagou uma pessoa que bate ahi o Chiado de carruagem--ainda hontem a vi com uma pequerrucha que tem--pagou trezentos mil reis. E em bellas notas. Pagou-os o janota, já se sabe, foi o janota que pagou. Se fosse outro, não digo, mas o Brito! É rico, é um man-rôtas, cahe logo...

Juliana, muito branca, agarrou-lhe o braço, tremula:

--Oh tia Victoria, dava-lhe um córte de sêda.

--Azul! até já te digo a côr!

--Mas o Brito é homem muito teso, tia Victoria, se lhe tira as cartas, se lhe faz alguma!

A tia Victoria fitou-a, com desdem:

--Sahes-me uma simploria! Imaginas que eu mando lá algum tolo? Nem as cartas vão, o que vai é uma copia! Olha quem! O melro que lá ha-de ir!

E depois de reflectir um momento:

--Tu vai-te para casa...

--Não, lá isso não volto...

--Tambem tens razão. Até vêr em que param as modas, vem cá dormir. Jantas cá hoje; tenho uma rica pescada...

--Mas não haverá perigo, tia Victoria, se o Brito vai á policia...

A tia Victoria encolheu os hombros, e impacientada:

--Olha, vai-te, que me estás a emphrenesiar! Policia! Qual policia! Essas cousas levam-se lá á policia... Deixa a cousa commigo! Adeus--e ás quatro para jantar, hein!

Juliana sahiu como levada pelo ar! Um conto de reis! _Era o conto de reis_ que voltava, o que já um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe vinha agora cahir na mão, com um tlin-tlin de libras e um _frou-frou_ de notas! E o cerebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas differentes, todas maravilhosas: um mostrador de capellista onda ella venderia! um marido ao seu lado, ás horas da cêa! pares de botinas das boas, das _chics_. Onde poria o dinheiro? No Banco? Não; no fundo da arca--para estar mais seguro, mais á mão!

Para passar a sua manhã, comprou uma quarta de rebuçados, e foi-se sentar no Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando já a sua vida rica, julgando-se já senhora; mesmo fez olho a um proprietario pacifico e rubicundo--que se afastou escandalisado!

Áquella hora Luiza acordava. E sentando-se bruscamente na cama:--É hoje!--foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrivel contrahiram-lhe o coração. Começou depois a vestir-se, muito nervosa com a idéa de vêr Juliana! Estava mesmo imaginando fechar-se, não almoçar, sahir pé ante pé ás onze horas, ir procurar Bazilio ao hotel, quando a voz de Joanna disse á porta do quarto:

--A senhora faz favor?

Começou logo a contar, muito espantada, que a snr.^a Juliana tinha sahido de manhã, ainda não voltára, estava tudo por arrumar...

--Bem, arranje-me o almoço, eu já vou...--Que allivio para ella!

Calculou logo que Juliana deixára a casa. Para que? Para lhe armar alguma, de certo! O melhor era sahir immediatamente... Podia esperar Bazilio no _Paraiso_.

Foi á sala de jantar, bebeu um gole de chá, de pé, á pressa.

--A snr.^a Juliana ter-lhe-ha dado alguma cousa?--veio dizer Joanna assombrada.

Luiza encolheu os hombros, respondeu vagamente:

--Depois se saberá...

Era hora e meia, foi pôr o chapéo. O coração batia-lhe alto, e apesar do terror de vêr entrar Juliana, não se decidia a sahir; sentou-se mesmo, com o sacco de marroquim nos joelhos. Vamos! pensou emfim.--Ergueu-se; mas parecia que alguma cousa de subtil e de forte a prendia, a enleava... Entrou na alcova devagar: o seu roupão estava cahido aos pés da cama, as suas chinellinhas sobre o tapete felpudo...--Que desgraça! disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao album, tirou a photographia de Jorge, metteu-a toda tremula no sacco de marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, sahiu, atirou com a porta, desceu a escada correndo.

Á Patriarchal passava um _coupé de praça_. Tomou-o, mandou-o ir ao _Hotel Central_.

O snr. Brito sahira logo de manhã cedo, disse o porteiro muito azafamado. De certo algum paquete chegára, porque entravam bagagens, fortes malas cobertas d'oleado, caixas de madeira debruadas de ferro; passageiros com ar espantado da chegada, ainda entontecidos do balouço do mar, fallavam, chamavam. Aquelle movimento animou-a: veio-lhe um desejo de viagens, do ruido nocturno das _gares_ á claridade do gaz, da agitação alegre das partidas nas manhãs frescas, sobre o tombadilho dos paquetes!

Deu ao cocheiro a adresse do _Paraiso_. E á maneira que o trem trotava parecia-lhe que toda a sua vida passada, Juliana, a casa, se esbatiam, se dissipavam n'um horisonte abandonado. Á porta d'um livreiro julgou entrevêr Julião; debruçou-se pela portinhola, precipitadamente; não o avistou, teve pena: ia-se sem vêr um amigo da casa! Todos agora, Julião, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe pareciam adoraveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que repentinamente tomavam um grande encanto. E o pobre Sebastião, tão bom! Nunca mais lhe ouviria tocar a sua _Malaguenha_!

Ao fim da rua do Ouro o _coupé_ parou n'um embaraço de carroças, e Luiza viu no passeio ao lado o Castro, o Castro dos oculos, o banqueiro, o que Leopoldina lhe dizia que «tinha uma paixão por ella»: um rapazito rôto offerecia-lhe cautelas; e o Castro nedio, com os dous pollegares nas algibeiras do collete branco, dizia graças ao rapaz, com um desdem ricaço, dardejando olhadellas sobre Luiza, através dos seus oculos d'ouro. Ella, pelo canto do olho, observava-o: tinha uma paixão por ella, aquelle homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu ventre pançudo, a perninha curta. A lembrança de Bazilio atravessou-a, a sua linda figura!...--e bateu nos vidros impaciente, com pressa de o vêr.

O trem partiu emfim. O Rocio reluzia ao sol; do Americano, parado á esquina, gente descia apressada, de calças brancas, vestidos leves, vinda de Belem, de Pedrouços; pregões cantavam.--Todos alli ficavam nas suas familias, nas suas felicidades, só ella partia!

Na rua Occidental, viu vir a D. Camilla--uma senhora casada com um velho, illustre pelos seus amantes. Parecia gravida; e adiantava-se devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo arredondado, passeando um marmanjosinho de jaqueta côr de pinhão, uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de lavradeira, empurrava um carrinho de mão onde um bébé se babava. E a Camilla, feliz, vinha tranquillamente pela rua expondo as suas fecundidades adulteras! Era muito festejada, ninguem dizia mal d'ella; era rica, dava _soirées_...--O que é o mundo!--pensava Luiza.

O trem parou á porta do _Paraiso_, era meio dia. A portinha em cima estava fechada: e a patrôa appareceu logo, ciciando que «sentia muitissimo, mas só o senhor é que tinha a chavesinha, se a senhora quizesse descançar...» N'este momento outra carruagem chegou, e Bazilio appareceu galgando os degraus.

--Até que emfim!--exclamou abrindo a porta.--Porque não vieste hontem?...

--Ah! se tu soubesses...

E, agarrando-lhe os braços, cravando os olhos n'elle:

--Bazilio, sabes, estou perdida!

--Que ha?

Luiza atirára o sacco de marroquim para o canapé, e, d'um folego, contou-lhe a historia da carta apanhada nos papeis, as d'elle roubadas, a _scena_ no quarto...--O que me resta é fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu disseste que podias, tens-l'o dito muitas vezes. Estou prompta. Trouxe aquelle sacco, com o necessario, lenços, luvas... hein?

Bazilio com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves, seguia attonito os seus gestos, as suas palavras.

--Isso só a ti!--exclamou.--Que douda! Que mulher!--E muito excitado:--Isso é lá questão de fugir? Que estás tu a fallar em fugir? É uma questão de dinheiro. O que ella quer é dinheiro. É vêr quanto quer, e pagar-se-lhe!

--Não, não!--fez Luiza--Não posso ficar!--Tinha uma afflicção na voz. A mulher venderia a carta, mas conservava o segredo: a todo o tempo podia fallar, Jorge saber: estava perdida, não tinha coragem de voltar para casa!--Não sinto um momento de descanço, em quanto estiver em Lisboa. Partimos hoje, sim? Se não pódes, ámanhã. Eu vou para algum hotel, aonde ninguem saiba, escondo-me esta noite. Mas, ámanhã vamos. Se elle sabe, mata-me, Bazilio! Sim, dize que sim!--Agarrára-se a elle, procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos d'elle.

Bazilio desprendeu-se brandamente: