O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 15
Com effeito, Juliana agora fazia todos os arranjos pela manhã; depois apenas Luiza, pela uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito espartilhada no seu vestido de merino, de chapéo e sombrinha, vinha dizer a Joanna:
--Até logo, vou ao medico.
--Até logo, snr.^a Juliana--dizia a cozinheira radiante.
E ia logo fazer signal ao carpinteiro.
Juliana descia por S. Pedro de Alcantara, e tomando para o largo do Carmo ia á ruasita, defronte do quartel. Alli morava n'um terceiro andar a sua intima amiga, a tia Victoria.
Era uma velha que fôra inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancella, n'uma placa de metal, com letras negras: «Victoria Soares, inculcadeira.» Mas nos ultimos annos a sua industria tornou-se mais complicada, muito tortuosa.
Exercia-a n'uma saleta esteirada, com mosquiteiros de papel pendentes do tecto encardido, alumiada por duas tristes janellas de peito. Um vasto sophá occupava quasi a parede do fundo: fôra de certo de reps verde, mas o estofo coçado, comido, remendado, tinha agora, sob largas nodoas, uma vaga côr parda; as molas partidas, rangiam com estalidos melancolicos; a um dos cantos, n'uma cova que o uso cavára, dormia todo o dia um gato; e um dos lados da madeira queimada revelava que fôra salvo d'um incendio. Sobre o sophá pendia a lithographia do senhor D. Pedro IV. Entre as duas janellas havia uma commoda alta; e em cima, entre um Santo Antonio e um cofre feito de buzios, um macaquinho empalhado, com olhos de vidro, equilibrava-se sobre um galho d'arvore. Ao entrar via-se logo, junto da janella fronteira á porta, a uma mesa coberta de oleado, um dorso magro e curvado, e um barretinho de sêda com uma borla arrebitada. Era o snr. Gouvêa, o escripturario!
O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido--em que se sentia a cavalhariça, a graxa e o refogado. Havia sempre gente: grossas matronas de capote e lenço, face gordalhufa e buço; cocheiros com o cabello acamado, muito lustroso de oleo, e blusa de riscadinho: pesados gallegos côr de greda, de passadas retumbantes e fórmas lôrpas: criadinhas de dentro, amarelladas, de olheiras, sombrinha de cabo d'osso, e as luvas de pellica com passagens nas pontas dos dedos.
Defronte da sala abria-se um quarto que deitava para o saguão,--por cuja portinha verde se viam ás vezes desapparecer dorsos respeitaveis de proprietarios, ou caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos.
Em certas occasiões, aos sabbados, juntavam-se cinco, seis pessoas: velhas fallavam baixo, com gestos mysteriosos: uma altercação mal abafada roncava no patamar: rapariguitas de repente desatavam a chorar; e, impassivel, o snr. Gouvêa escrevinhava os seus registos, arremessando para o lado jactos melancolicos de saliva.
A tia Victoria, no entanto, com a sua touca de renda negra, um vestido rôxo,--ia, vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro, tirando a cada momento da algibeira rebuçados de avenca para o catarrho.
A tia Victoria era uma grande utilidade, tornára-se um centro! A criadagem reles, mesmo a criadagem fina, tinha alli para tudo o seu _despacho_. Emprestava dinheiro aos desempregados; guardava as economias dos poupados; fazia escrever pelo snr. Gouvêa as correspondencias amorosas ou domesticas dos que não tinham ido á escóla; vendia vestidos em segunda mão; alugava casacas; aconselhava collocações, recebia confidencias, dirigia intrigas, entendia de partos. Nenhum criado era inculcado por ella; mas, arranjados ou despedidos, nunca deixavam de subir, descer as escadas da tia Victoria. Tinha além d'isso muitas relações, infinitas condescendencias: celibatarios maduros iam entender-se com ella, para o confortosinho d'uma sopeira gordita e nova: era ella quem inculcava as serventes ás mulheres policiadas; sabia de certos agiotas discretos. E dizia-se: a tia Victoria tem mais manhas que cabellos!
Mas, ultimamente, apesar dos seus «afazeres», apenas Juliana entrava--levava-a para o quarto nas trazeiras, fechava a porta, e «havia para meia hora»!
E Juliana sahia sempre vermelha, os olhos accesos, feliz! Voltava depressa para casa; e mal entrava:
--A senhora ainda não voltou, snr.^a Joanna?
--Ainda não.
--Está na Encarnação. Coitada! não tem má cruz, ir aturar a velha! E depois naturalmente vai dar o seu passeio! Faz ella muito bem! Espairecer!
Joanna era de certo espessa e obtusa; além d'isso a paixão animal pelo rapazola emparvecia-a. Todavia, percebera que a snr.^a Juliana andava «muito derretida pela senhora»: disse-lh'o mesmo um dia:
--Vossemecê agora, snr.^a Juliana, parece mais na bola da senhora!
--Na bola?
--Sim, quero dizer, mais aquella, mais...
--Mais apegada á senhora?
--Mais apegada.
--Sempre o estive. Mas então! ás vezes a gente tem os seus repentes... Que olhe, snr.^a Joanna, não se acha melhor que aqui. Senhora de muito bom genio, nada de exquisitices, nenhumas prisões... Ai, é dar louvores ao céo de estarmos n'este descanço.
--E é!
A casa com effeito tinha um aspecto jovial de felicidade tranquilla: Luiza sahia todos os dias e achava tudo bom; nunca se impacientava; a sua antipathia por Juliana parecia dissipada, considerava-a uma pobre de Christo! Juliana tomava os seus caldinhos, dava os seus passeios, ruminava. Joanna, muito livre, muito só em casa, regalava-se com o carpinteiro. Não vinham visitas. D. Felicidade, na Encarnação, inundava-se d'arnica. Sebastião fôra para Almada vigiar as obras. O Conselheiro partira para Cintra, «dar umas ferias ao espirito, tinha elle dito a Luiza, e deliciar-se nas maravilhas d'aquelle Eden». O snr. Julião, «o doutor», como dizia a Joanna, trabalhava a sua these. As horas eram muito regulares, havia sempre um silencio pacato. Juliana, um dia, na cozinha, impressionada por aquelle recolhimento satisfeito de toda a casa, exclamou para Joanna:
--Não se póde estar melhor! A barca vai n'um mar de rosas!
E acrescentou, com uma risadinha:
--E eu ao leme!
VII
Por esse tempo, uma manhã que Luiza ia para o _Paraiso_, viu de repente sahir d'um portal, um pouco adiante do largo de Santa Barbara, a figura azafamada d'Ernestinho.
--Por aqui, prima Luiza!--exclamou elle logo muito surprehendido.--Por estes bairros! Que faz por aqui? Grande milagre!
Vinha vermelho, trazia as bandas do casaco d'alpaca todas deitadas para traz, e agitava com excitação um rolo grosso de papeis.
Luiza ficou um pouco embaraçada; disse que viera fazer uma visita a uma amiga.--Oh! elle não conhecia, tinha chegado do Porto...
--Ah, bem! bem! E que é feito, como tem passado? Quando vem o Jorge?--Desculpou-se logo de a não ter ido vêr; mas é que não tinha uma migalha livre! De manhã a alfandega, á noite os ensaios...
--Então sempre vai?--perguntou Luiza.
--Vai.
E enthusiasmado:
--E como vai! Um primor! Mas que trabalhão, que trabalhão!--Agora vinha elle de casa do actor Pinto, que fazia o papel de amante, de conde de Monte Redondo; tinha-o ouvido dizer as palavras finaes do terceiro acto: _Maldição, a sorte funesta esmaga-me! Pois bem, arcarei braço a braço com a sorte. Á lucta!_ Era uma maravilha! Vinha tambem de lhe dar parte que alterára o monologo do segundo acto. O empresario achava-o longo...
--Então continúa a implicar, o empresario?
Ernestinho fez uma visagem d'hesitação.
--Implica um bocado...--E com um rosto radioso:--Mas está delirante! Estão todos delirantes! Hontem me dizia elle: «Lesminha»... É o nome que me dão por pandiga. Tem graça, não é verdade? Dizia-me elle: «Lesminha, na primeira representação cahe ahi Lisboa em peso! Vossê enterra-os a todos!» É bom homem! E agora vou-me a casa do Bastos, o folhetinista da _Verdade_. Não conhece?
Luiza não se lembrava bem.
--O Bastos, o da _Verdade_!--insistia elle.
E vendo que Luiza parecia alheia ao nome, ao individuo:
--Ora não conhece outra cousa!--Ia descrever-lhe as feições, citar-lhes as obras...
Mas Luiza, impaciente, para findar:
--Ah! sim, lembro-me agora. Perfeitamente... Bem sei!
--Pois é verdade, vou a casa d'elle.--Tomou um tom compenetrado:--Somos muito amigos, é muito bom rapaz, e tem um pequerrucho lindo!...--E apertando-lhe muito a mão:--Adeusinho, prima Luiza, que não posso perder um momento. Quer que a vá acompanhar?
--Não, é aqui perto.
--Adeus, recados ao Jorge!
Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente, correu atraz d'ella.
--Ah! esquecia-me dizer-lhe, sabe que lhe perdoei?
Luiza abriu muito os olhos.
--Á condessa, á heroina!--exclamou Ernestinho.
--Ah!
--Sim, o marido perdôa-lhe, obtem uma embaixada, e vão viver no estrangeiro. É mais natural...
--De certo!--disse vagamente Luiza.
--E a peça acaba, dizendo o amante, o conde de Monte Redondo: _E eu irei para a solidão morrer d'esta paixão funesta!_ É de muito effeito!--Esteve um momento a olhal-a, e bruscamente:--Adeus, prima Luiza, recadinhos ao Jorge!
E abalou.
Luiza entrou no _Paraiso_ muito contrariada. Contou o encontro a Bazilio. Ernestinho era tão tolo! Podia mais tarde fallar n'aquillo, citar a hora, perguntarem-lhe quem era a amiga do Porto...
E tirando o véo, o chapéo:
--Não, realmente é imprudente vir assim tantas vezes. Era melhor não vir tanto. Póde-se saber...
Bazilio encolheu os hombros, contrariado:
--Se queres não venhas.
Luiza olhou-o um momento, e curvando-se profundamente:
--Obrigada!
Ia a pôr o chapéo, mas elle veio prender-lhe as mãos, abraçou-a, murmurando:
--Pois tu fallas em não vir! E eu, então? Eu que estou em Lisboa por tua causa...
--Não, realmente dizes ás vezes cousas... tens certos modos...
Bazilio abafou-lhe as palavras com beijos.
--Ta, ta, ta! Nada de questões! Perdôa. Estás tão linda...
Luiza, ao voltar para casa, veio a reflectir n'aquella «scena». Não--pensava--já não era a primeira vez que elle mostrava um desprendimento muito secco por ella, pela sua reputação, pela sua saude! Queria-a alli todos os dias, egoistamente. Que as más linguas fallassem, que as soalheiras a matassem, que lhe importava? E para que?... Porque emfim, saltava aos olhos, elle amava-a menos... As suas palavras, os seus beijos arrefeciam cada dia, mais e mais!... Já não tinha aquelles arrebatamentos do desejo em que a envolvia toda n'uma caricia palpitante, nem aquella abundancia de sensação que o fazia cahir de joelhos com as mãos tremulas como as d'um velho!... Já se não arremessava para ella, mal ella apparecia á porta, como sobre uma presa estremecida!... Já não havia aquellas conversas pueris, cheias de risos, divagadas e tontas, em que se abandonavam, se esqueciam, depois da hora ardente e physica, quando ella ficava n'uma lassitude dôce, com o sangue fresco, a cabeça deitada sobre os braços nús!--Agora! trocado o ultimo beijo, accendia o charuto, como n'um restaurante ao fim do jantar! E ia logo a um espelho pequeno que havia sobre o lavatorio dar uma penteadella no cabello com um pentesinho d'algibeira! (O que ella odiava o pentesinho!) Ás vezes até olhava o relogio!... E em quanto ella se arranjava não vinha, como nos primeiros tempos, ajudal-a, pôr-lhe o collarinho, picar-se nos seus alfinetes, rir em volta d'ella, despedir-se com beijos apressados da nudez dos seus hombros antes que o vestido se apertasse. Ia rufar nos vidros,--ou sentado, com um ar macambuzio, bamboleava a perna!
E depois positivamente não a respeitava, não a considerava... Tratava-a por cima do hombro, como uma burguezinha, pouco educada e estreita, que apenas conhece o seu bairro. E um modo de passear, fumando, com a cabeça alta, fallando no «espirito de madame de tal», nas _toilettes_ da «condessa de tal»! Como se ella fosse estupida, e os seus vestidos fossem trapos! Ah, era seccante! E parecia, Deus me perdôe, parecia que lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir... Immediatamente lembrava-lhe Jorge, Jorge que a amava com tanto respeito! Jorge, para quem ella era de certo a mais linda, a mais elegante, a mais intelligente, a mais captivante!... E já pensava um pouco que sacrificára a sua tranquillidade tão feliz a um amor bem incerto!
Emfim, um dia que o viu mais distrahido, mais frio, explicou-se abertamente com elle. Direita, sentada no canapé de palhinha, fallou com bom senso, devagar, com um ar digno e preparado: «Que percebia bem que elle se aborrecia, que o seu grande amor tinha passado, que era por tanto humilhante para ella verem-se n'essas condições, e que julgava mais digno acabarem...»
Bazilio olhava-a, surprehendido da sua solemnidade; sentia um estudo, uma affectação n'aquellas phrases; disse muito tranquillamente, sorrindo:
--Trazias isso decorado!
Luiza ergueu-se bruscamente, encarou-o, teve um movimento desdenhoso dos labios.
--Tu estás douda, Luiza?
--Estou farta! Faço todos os sacrificios por ti, venho aqui todos os dias, comprometto-me, e para que? Para te vêr muito indifferente, muito seccado...
--Mas, meu amor...
Ella teve um sorriso d'escarneo.
--_Meu amor!_ Oh! são ridiculos esses fingimentos!
Bazilio impacientou-se.
--Já isso cá me faltava, essa scena!--exclamou impetuosamente. E cruzando os braços diante d'ella:--Mas que queres tu? Queres que te ame como no theatro, em S. Carlos? Todas sois assim! Quando um pobre diabo ama naturalmente, como todo o mundo, com o seu coração, mas não tem gestos de tenor, aqui d'el-rei que é frio, que se aborrece, é ingrato... Mas que queres tu? Queres que me atire de joelhos, que declame, que revire os olhos, que faça juras, outras tolices?...
--São tolices que tu fazias...
--Ao principio!--respondeu elle brutalmente.--Já nos conhecemos muito para isso, minha rica.
E havia apenas cinco semanas!
--Adeus!--disse Luiza.
--Bem. Vaes zangada?
Ella respondeu, com os olhos baixos, calçando nervosamente as luvas:
--Não.
Bazilio pôz-se diante da porta, e estendendo os braços:
--Mas sê razoavel, minha querida. Uma ligação como a nossa não é o duetto do _Fausto_. Eu amo-te; tu, creio, gostas de mim; fazemos os sacrificios necessarios, encontramo-nos, somos felizes... Que diabo queres tu mais? Porque te queixas?
Ella respondeu com um sorriso ironico e triste:
--Não me queixo. Tens razão.
--Mas não vás zangada, então.
--Não...
--Palavrinha?
--Sim...
Bazilio tomou-lhe as mãos.
--Dê então um beijinho em Bibi...
Luiza beijou-o de leve na face.
--Na boquinha, na boquinha!--E ameaçando-a com o dedo, fitando-a muito:--Ah geniosinho! Tens bem o sangue do snr. Antonio de Brito, nosso extremoso tio, que arrepellava as criadas pelos cabellos!--E sacudindo-lhe o queixo:--E vens ámanhã?
Luiza hesitou um momento:
--Venho.
Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram seis horas. Juliana veio logo dizer-lhe, muito quisilada: que a Joanna tinha sahido ás quatro horas, não tinha voltado, o jantar estava por acabar...
--Onde foi?
Juliana encolheu os hombros com um sorrisinho.
Luiza percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum amor... Teve um gesto de piedade desdenhosa.
--Ha-de lucrar muito com isso. Boa tôla!--disse.
Juliana olhou-a espantada.
--Está bebeda!--pensou.
--Bem, que se lhe ha-de fazer?--exclamou Luiza.--Esperarei...
E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o seu despeito:
--Que egoista, que grosseiro, que infame! E é por um homem assim que uma mulher se perde! É estupido!
Como elle supplicava, se fazia pequenino, humilde ao principio! O que são os amores dos homens! Como teem a fadiga facil!
E immediatamente lhe veio a idéa de Jorge! _Esse_ não! Vivia com ella havia tres annos--e o seu amor era sempre o mesmo, vivo, meigo, dedicado. Mas o _outro_! Que indigno! _Já a conhecia muito!_ Ah! estava bem certa agora, nunca a amára, elle! Quizera-a por vaidade, por capricho, por distracção, para ter uma mulher em Lisboa! É o que era! Mas amor? Qual!
E ella mesmo, por fim? Amava-o, ella? Concentrou-se, interrogou-se... Imaginou casos, circumstancias: se elle a quizesse levar para longe, para França, iria? Não! Se por um acaso, por uma desgraça enviuvasse, antevia alguma felicidade casando com elle? Não!
Mas então!... E como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado, e se admira vendo o perfume evaporado, ficou toda pasmada de encontrar o seu coração vazio. O que a levára então para elle?... Nem ella sabia; não ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e morbida de ter um amante, mil vaidadesinhas inflammadas, um certo desejo physico... E sentira-a por ventura, essa felicidade, que dão os amores illegitimos, de que tanto se falla nos romances e nas operas, que faz esquecer tudo na vida, affrontar a morte, quasi fazel-a amar? Nunca! Todo o prazer que sentira ao principio, que lhe parecera ser o amor--vinha da novidade, do saborzinho delicioso de comer a maçã prohibida, das condições do mysterio do _Paraiso_, d'outras circumstancias talvez, que nem queria confessar a si mesma, que a faziam corar por dentro!
Mas que sentia d'extraordinario _agora_? Bom Deus, começava a estar menos commovida ao pé do seu amante, do que ao pé de seu marido! Um beijo de Jorge perturbava-a mais, e viviam juntos havia tres annos! Nunca se seccára ao pé de Jorge, nunca! E seccava-se positivamente ao pé de Bazilio! Bazilio, no fim, o que se tornára para ella? era como um marido pouco amado, que ia amar fóra de casa! Mas então, valia a pena?...
Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez! Porque emfim, ella e Bazilio estavam nas condições melhores para obterem uma felicidade excepcional: eram novos, cercava-os o mysterio, excitava-os a difficuldade... Porque era então que quasi bocejavam? É que o amor é essencialmente perecivel, e na hora em que nasce começa a morrer. Só os começos são bons. Ha então um delirio, um enthusiasmo, um bocadinho do céo. Mas depois!... Seria pois necessario estar sempre a _começar_, para poder sempre sentir?... Era o que fazia Leopoldina. E apparecia-lhe então nitidamente a explicação d'aquella existencia de Leopoldina, inconstante, tomando um amante, conservando-o uma semana, abandonando-o como um limão espremido, e renovando assim constantemente a flôr da sensação!--E, pela logica tortuosa dos amores illegitimos, o seu primeiro amante fazia-a vagamente pensar no segundo!
Logo no dia seguinte pôz-se a dizer comsigo que era bem longe o _Paraiso_! Que massada, por aquelle calor, vestir-se, sahir! Mandou saber de D. Felicidade por Juliana, e ficou em casa, de roupão branco, preguiçosa, saboreando a sua preguiça.
N'essa tarde recebeu uma carta de Jorge: «que ainda se demorava, mas que a sua viuvez começava a pezar-lhe. Quando se veria emfim na sua casinha, na sua alcovinha?...»
Ficou muito commovida. Um sentimento de vergonha, de remorso, uma compaixão terna por Jorge, tão bom, coitado! um indefinido desejo de o vêr e de o beijar, a recordação de felicidades passadas perturbaram-na até ás profundidades do seu sêr. Foi logo responder-lhe, jurando-lhe «que tambem já estava farta de estar só, que viesse, que era estupida semelhante separação...» E era sincera n'aquelle momento.
Tinha fechado o enveloppe, quando Juliana lhe veio trazer «uma carta do hotel». Bazilio mostrava-se desesperado: «...Como não vieste, vejo que estás zangada; mas é de certo o teu orgulho, não o teu amor que te domina: não imaginas o que senti quando vi que não vinhas hoje. Esperei até ás cinco horas; que supplicio! Fui talvez secco, mas tu tambem estavas implicativa. Devemos perdoar-nos ambos, ajoelharmos um diante do outro, e esquecer todo o despeito no mesmo amor... Vem ámanhã. Adoro-te tanto! Que outra prova queres, que esta que te dou d'abandonar os meus interesses, as minhas relações, os meus gostos, e enterrar-me aqui em Lisboa, etc.»
Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de querer. Aquillo era verdade. Porque estava elle em Lisboa? Por ella. Mas se reconhecia agora,--que o não amava, ou tão pouco! E depois era vil trahir assim Jorge, tão bom, tão amoroso, vivendo todo para ella. Mas se Bazilio realmente estivesse tão apaixonado!... As suas idéas redemoinhavam, como folhas d'outono, violentadas por ventos contradictorios. Desejava estar tranquilla, «que a não perseguissem». Para que voltára aquelle homem? Jesus! que havia de fazer? Tinha os seus pensamentos, os seus sentimentos n'uma dolorosa trapalhada.
E na manhã seguinte estava na mesma hesitação. Iria, não iria? O calor fóra, a poeirada da rua faziam-lhe appetecer mais a casa! Mas que desapontamento, o do pobre rapaz tambem! Atirou ao ar uma moeda de cinco tostões. Era cunho, devia ir. Vestiu-se, sem vontade, seccada,--tendo todavia um certo desejo dos refinamentos de prazer que dão as expansões da reconciliação...
Mas que surpreza! esperava encontral-o humilde e de joelhos, achou-o com a testa franzida e muito aspero.
--Luiza, parece incrivel, porque não vieste hontem?
Na vespera, Bazilio, quando viu que ella faltava, teve um grande despeito e um medo maior; a sua concupiscencia receou perder aquelle lindo corpo de rapariga, e o seu orgulho escandalisou-se de vêr libertar-se aquella escravasinha docil. Resolveu portanto, a todo o custo, «chamal-a ao rego». Escreveu-lhe; e mostrando-se submisso para a attrahir, decidiu ser severo para a castigar.--E acrescentou:
--É uma criancice ridicula. Porque não vieste?
Aquelle modo enraiveceu-a:
--Porque não quiz.
Mas emendou logo:
--Não pude.
--Ah! é essa a maneira por que respondes á minha carta, Luiza?
--E tu, é esse o modo com que me recebes?
Olharam-se um momento, detestando-se.
--Bem, queres uma questão? És como as outras.
--Que outras?
E toda escandalisada:
--Ah! é de mais! Adeus!
Ia sahir.
--Vaes-te, Luiza?
--Vou. É melhor acabarmos por uma vez...
Elle segurou o fecho da porta rapidamente.
--Fallas serio, Luiza?
--De certo. Estou farta!
--Bem. Adeus.
Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente.
Ella deu um passo, e Bazilio com a voz um pouco tremula:
--Então, é para sempre? Nunca mais?
Luiza parou, branca. Aquella triste palavra _nunca mais_ deu-lhe uma saudade, uma commoção. Rompeu a chorar.
As lagrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia tão dolorida, tão fragil, tão desamparada!...
Bazilio cahiu-lhe aos pés: tinha tambem os olhos humidos.
--Se tu me deixares, morro!
Os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, longo, penetrante. A excitação dos nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paixão; e foi uma manhã deliciosa.
Ella prendia-o nos braços nús, pallida como cêra, balbuciava:
--Não me deixas nunca, não?
--Juro-t'o! Nunca, meu amor!
Mas fazia-se tarde, era necessario ir-se! E a mesma idéa de certo acudiu-lhes--porque se olharam avidamente, e Bazilio murmurou:
--Se podesses aqui passar a noite!
Ella disse aterrada, quasi supplicante:
--Oh! não me tentes, não me tentes...
Bazilio suspirou, disse:
--Não, é uma tolice. Vai.
Luiza começou a arranjar-se, á pressa. E de repente, parando, com um sorriso:
--Sabes tu uma cousa?
--O que, meu amor?
--Estou a cahir com fome! Não almocei nada, estou a cahir!
Elle ficou desolado:
--Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse...
--Que horas são, filho?
Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado:
--Sete!
--Ai, Santo Deus!
Punha o chapéo, o véo, atrapalhadamente:
--Que tarde! Jesus! Que tarde!
--E ámanhã, quando?
--Á uma.
--Com certeza?
--Com certeza.
Ao outro dia foi muito pontual. Bazilio veio esperal-a ao fundo da escada; e apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos:
--Que me fizeste tu? Desde hontem que estou doudo!
Mas Luiza estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama.
--Que é aquillo?
Elle sorriu, levou-a pela mão junto da barra de ferro, e destampando o cesto, com uma cortezia grave:
--Provisões, festins, bacchanaes! Não dirás depois que tens fome!
Era um _lunch_. Havia sandwichs, um _pâté de foie gras_, fruta, uma garrafa de champagne, e, envolto em flanella, gelo.
--É brilhante!--disse ella, com um sorriso quente, rubra de prazer.
--Foi o que se pôde arranjar, minha querida prima! Já vê que pensei em si!
Pôz o cesto no chão, e vindo para ella com os braços abertos:
--E tu pensaste em mim, meu amor?
Os olhos d'ella responderam--e a pressão apaixonada dos seus braços.