O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Part 14

Chapter 143,781 wordsPublic domain

Apenas ella dobrava a esquina o conciliabulo juntava-se logo a cochichar. Tinham a certeza que se ia encontrar com o «peralta». Onde seria?--era a grande curiosidade da carvoeira.

--No hótel--murmurava o Paula.--Que nos hóteis é escandalo bravio. Ou talvez--acrescentava com tedio--n'alguma d'essas possilgas da baixa!

A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era tão apropositada!

--Vacca solta lambe-se toda, snr.^a Helena!--rosnava o Paula.--São todas o mesmo!

--Menos isso!--protestava a estanqueira--Que eu sempre fui uma mulher honesta!

E ella?--reclamava a carvoeira--ninguem tinha que lhe dizer!

--Fallo da alta sociedade, das fidalgas, das que arrastam sêdas! É uma cambada. Eu é que o sei!--E acrescentava gravemente:--No povo ha mais moralidade. O povo é outra raça!--E com as mãos enterradas nos bolsos, as pernas muito abertas, ficava absorto, com a cabeça baixa, o olhar cravado no chão.--Se é!--murmurava--Se é!--Como se estivesse positivamente achando as pedrinhas da calçada menos numerosas que as virtudes do povo!

Sebastião, que tinha estado na quinta d'Almada quasi duas semanas, ficou aterrado quando, ao voltar, a Joanna lhe deu as grandes «novidades»: que a Luizinha agora sahia todos os dias ás duas horas, que o primo não voltára; a Gertrudes é que lh'o dissera; não se fallava na rua n'outra cousa...

--Então a pobre senhora nem sequer póde ir ás lojas, aos seus arranjos!--exclamou Sebastião.--A Gertrudes é uma desavergonhada, e nem sei como a tia Joanna consente que ella ponha aqui os pés. Vir com esses mexericos!...

--Cruzes! Olha o destempero!--replicou muito escandalisada a tia Joanna.--Oh menino, realmente... A pobre mulher disse o que ouviu na rua! Que ella até a defende, até ella é que a defende! Até se esteve a queixar que se falla! que se falla! Boa!--E a tia Joanna sahiu, resmungando:--Olha o destempero, credo!

Sebastião chamou-a, aplacou-a:

--Mas quem falla, tia Joanna?

--Quem?--E muito emphaticamente:--Toda a rua! Toda a rua! Toda a rua!

Sebastião ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! Se ella agora se punha a sahir todos os dias, uma senhora, que quando estava Jorge não sahia do buraco! A visinhança que murmurára das visitas do outro, naturalmente começava a commentar as sahidas d'ella! Estava-se a desacreditar! E elle não podia fazer nada! Ir advertil-a? Ter outra «scena»? Não podia.

Procurou-a. Não lhe queria de certo tocar em nada, ia só vêl-a. Não estava. Voltou d'ahi a dous dias. Juliana veio-lhe dizer á cancella, com o seu sorriso amarellado: «Foi-se agora mesmo, ha um instantinho. Ainda a apanha á Patriarchal». Emfim, um dia encontrou-a ao principio da rua de S. Roque. Luiza pareceu muito contente em o vêr:--Porque se tinha demorado tanto em Almada? Que deserção!

Trazia carpinteiros, era necessario vigiar as obras. E ella?

--Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que ainda se demora. Tenho estado muito só. Nem Julião, nem Conselheiro, ninguem. A D. Felicidade é que tem apparecido ás vezes de fugida. Está agora sempre mettida na Encarnação... Isto gente devota!--E riu.

Então aonde ia?

A umas comprasitas, á modista depois...--E appareça agora, Sebastião, hein?

--Hei-d'apparecer.

--Á noite. Estou tão só! Tenho tocado muito, é o que me vale é o piano!

N'essa mesma tarde Sebastião recebeu uma carta de Jorge. «Tens visto a Luiza? Estive quasi com cuidado, porque estive mais de cinco dias sem carta d'ella. De resto está preguiçosa como uma freira; quando escreve são quatro linhas porque está o correio a partir. Vai dizer ao correio que espere, que diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar só, que todos a abandonaram, que tem vivido como n'um deserto. Vê se lhe vaes fazer companhia, coitada, etc.»

No dia seguinte ao anoitecer foi a casa d'ella. Appareceu-lhe muito vermelha, com os olhos estremunhados, de roupão branco. Tinha chegado muito cançada de fóra, tinha-lhe dado o somno depois de jantar, adormecera sobre a _causeuse_... Que havia de novo? E bocejava.

Fallaram das obras d'Almada, do Conselheiro, de Julião; e ficaram calados. Havia um constrangimento.

Luiza então accendeu as velas no piano, mostrou-lhe a nova musica que estudava, a _Medjé_ de Gounod; mas havia uma passagem em que se embrulhava sempre; pediu a Sebastião que a tocasse, e junto do piano, batendo o compasso com o pé, acompanhava baixo a melodia, a que a execução de Sebastião dava um encanto penetrante. Quiz tentar depois, mas enganou-se, zangou-se, atirou a musica para o lado, veio sentar-se no sophá, dizendo:

--Quasi nunca tóco! Estão-se-me a enferrujar os dedos!...

Sebastião não se atrevia a perguntar pelo primo Bazilio. Luiza não lhe pronunciou sequer o nome. E Sebastião, vendo n'aquella reserva uma diminuição de confiança ou um resto persistente de despeito, disse que tinha d'ir á Associação Geral d'Agricultura, e sahiu muito desconsolado.

Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietação differente. Ás vezes era a tia Joanna que lhe dizia á tarde: «A Luizinha lá sahiu hoje outra vez! Por este calor, até póde apanhar alguma! Credo!» Outras era o conciliabulo dos visinhos, que avistava de longe, e que de certo «estavam a cortar na pelle da pobre senhora»!

Parecia-lhe tudo aquillo exactamente a _aria da Calumnia_ no _Barbeiro de Sevilha_: a calumnia ao principio leve como o fremito das azas d'um passaro, subindo n'um crescendo aterrador até estalar como um trovão!

Dava agora voltas para não passar na rua, diante do Paula e da estanqueira: tinha vergonha d'elles! Encontrára o Teixeira Azevedo, que lhe perguntára:

--Então o Jorge quando vem? Que diabo! o rapaz fica por lá!

E aquella observação trivial aterrou-o.

Emfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar Julião. Encontrou-o no seu quarto andar, em mangas de camisa e em chinellas, enxovalhado e esguedelhado, rodeado de papelada, com uma chocolateirinha de café ao pé, trabalhando. O soalho negro estava cheio de pontas de cigarro; ao canto estava embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia livros abertos;--e um cheiro relentado sahia do desmazêlo das cousas. A janella de peitoril dava para o saguão, d'onde vinha o cantar estridente d'uma criada, e o ruido areado do esfregar de tachos.

Julião, apenas elle entrou, ergueu-se, espreguiçou-se, enrolou um cigarro, e declarou que estava a trabalhar desde as sete!... Hein? Era bonito! Para que soubesse o snr. Sebastião!

--De resto chegaste a proposito. Estava para mandar a tua casa... Devia receber ahi um dinheiro e não veio. Dá cá uma libra.

E immediatamente começou a fallar da these. A cousa sahia!

Leu-lhe paragraphos do prologo com uma deleitação paternal, e, muito satisfeito, na abundancia de confiança que dá a excitação do trabalho, com grandes passadas pelo quarto:

--Hei-de-lhes mostrar que ainda ha portuguezes em Portugal, Sebastião! Hei-de-os deixar de bocca aberta! Tu verás!

Sentou-se, pôz-se a numerar as folhas escriptas, assobiando. Sebastião, então, com timidez, quasi vexado de perturbar com as suas preoccupações domesticas aquelles interesses scientificos, disse baixo:

--Pois eu vim-te fallar por causa lá da nossa gente...

Mas a porta abriu-se com força, e um rapaz de barba desleixada, e olhar um pouco doudo, entrou; era um estudante da Escóla, amigo de Julião; e quasi immediatamente os dous recomeçaram uma discussão que tinham travado de manhã, e que fôra interrompida ás onze horas, quando o rapaz d'olhar doudo descêra a almoçar á Aurea.

--Não, menino!--exclamava o estudante exaltado.--Estou na minha! A medicina é uma meia sciencia, a physiologia é outra meia sciencia! São sciencias conjecturaes, porque nos escapa a base, conhecer o principio da vida!

E cruzando os braços diante de Sebastião, bradou-lhe:

--Que sabemos nós do principio da vida?

Sebastião, humilhado, baixou os olhos.

Mas Julião indignava-se:

--Estás desmoralisado pela doutrina vitalista, miseravel! Trovejou contra o Vitalismo, que declarou «contrario ao espirito scientifico». Uma theoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos não são as mesmas que governam os corpos vivos--é uma heresia grotesca!--exclamava.--E Bichat que a proclama é uma besta!

O estudante, fóra de si, bradou--que chamar a Bichat uma besta era simplesmente d'um alarve.

Mas Julião desprezou a injuria, e continuou, exaltado nas suas idéas:

--Que nos importa a nós o principio da vida? Importa-me tanto como a primeira camisa que vesti! O principio da vida é como outro qualquer principio: um segredo! Havemos d'ignoral-o eternamente! Não podemos saber nenhum principio. A vida, a morte, as origens, os fins, mysterios! São causas primarias com que não temos nada a fazer, nada! Podemos batalhar seculos, que não avançamos uma pollegada. O physiologista, o chimico, não tem nada com os principios das cousas; o que lhes importa são os phenomenos! Ora os phenomenos e as suas causas immediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos--n'uma pedra, como n'um desembargador! E a physiologia e a medicina são sciencias tão exactas como a chimica! Isto já vem de Descartes!

Travaram então um berreiro sobre Descartes. E immediatamente, sem que Sebastião attonito tivesse descoberto a transição, encarniçaram-se sobre a idéa de Deus.

O estudante parecia necessitar Deus para explicar o universo. Mas Julião atacava Deus com cólera: chamava-lhe «uma hypothese safada», «uma velha caturrice do partido miguelista»! E começaram a assaltar-se sobre a questão social, como dous gallos inimigos.

O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre a mesa, o principio da authoridade! Julião berrava pela «anarchia individual»! E depois de citarem com furia Proudhon, Bastiat, Jouffroy romperam em personalidades. Julião, que dominava pela estridencia da voz, censurou violentamente ao estudante--as suas inscripções a seis por cento, o ridiculo de ser filho d'um corretor de fundos, e o bife de proprietario que vinha de comer na Aurea!

Olharam-se, então, com rancor.

Mas d'ahi a momentos o estudante deixou cahir com desdem algumas palavras sobre Claude Bernard, e a questão recomeçou, furiosa.

Sebastião tomou o chapéo.

--Adeus--disse baixo.

--Adeus, Sebastião, adeus--disse promptamente Julião.

Acompanhou-o ao patamar.

--E quando quizeres que eu falle a meu primo...--murmurou Sebastião.

--Pois sim, veremos, eu pensarei--disse Julião com indifferença, como se o orgulho do trabalho lhe tivesse dissipado o terror da injustiça.

Sebastião foi descendo as escadas, pensando: Não se lhe póde fallar em nada, agora!

De repente veio-lhe uma idéa: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se com ella! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era uma mulher d'idade, intima de Luiza; tinha mais authoridade, mais habilidade mesmo...

Decidiu-se logo, tomou um trem, foi á rua de S. Bento.

A criada de D. Felicidade appareceu-lhe, desolada, e lacrimosa:

--Pois não sabe?

--Não.

--Ai! até admira!

--Mas o que?

--A senhora! Uma desgraça assim! Torceu um pé na Encarnação, deu uma quéda. Tem estado muito mal, muito mal.

--Aqui?

--Na Encarnação. Nem pôde sahir. Está com a snr.^a D. Anna Silveira. Uma desgraça assim! E está n'um phrenesi!

--Mas quando foi?

--Antes d'hontem á noite.

Sebastião saltou para o trem, mandou «bater» para casa de Luiza.

A D. Felicidade, doente, na Encarnação! Mas então Luiza podia bem sahir todos os dias! Ia vêl-a, fazer-lhe companhia, tratar d'ella!...

A visinhança não tinha que rosnar! Ia vêr a pobre doente!...

Eram duas horas quando a parelha estacou á porta de Luiza. Encontrou-a, que descia a escada, vestida de preto, de luva _gris perle_, com um véo negro.

--Ah! suba, Sebastião, suba! Quer subir?

Parára, nos degraus, com uma côrzinha no rosto, um pouco embaraçada.

--Não, obrigado. Vinha dizer-lhe... Não sabe? A D. Felicidade...

--O quê?

--Torceu um pé. Está mal.

--Que me diz?

Sebastião deu os pormenores.

--Vou já lá.

--Deve ir. Eu não posso ir, não entram homens. Coitada! Diz que está mal.--Acompanhou-a até á esquina da rua, offereceu-lhe mesmo a tipoia:--E muitos recados, que tenho pena de a não vêr!... Pobre senhora! E diz que está n'um phrenesi!

Viu-a afastar-se para a Patriarchal, e, admirando a graça da sua figura, esfregava as mãos satisfeito.

Estavam justificadas, santificadas mesmo aquellas passeatas todos os dias! Ia ser a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necessario que todos soubessem, o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as Azevedos, todos, de modo que quando a vissem de manhã, subir a rua, dissessem:--Lá vai fazer companhia á doente! Santa senhora!

O Paula estava á porta da loja--e Sebastião com uma idéa subita, entrou. Estava-se estimando de se sentir tão fecundo em expedientes, tão habil!

Deitou um pouco o chapéo para a nuca, e mostrando com o guarda-sol o painel que representava D. João VI:

--Quanto quer vossemecê por isto, ó snr. Paula?

O Paula ficou surprehendido:

--O snr. Sebastião está a brincar?

Sebastião exclamou:

--A brincar?--Fallava muito sério! queria uns quadros para a sala d'entrada, em Almada: mas velhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre um papel escuro.--Como isto! Estou a brincar! Ora essa, homem!

--Desculpe, snr. Sebastião... Pois n'esse caso ha por ahi alguns paineis a calhar.

--Este D. João VI agrada-me. Quanto custa isto?

O Paula disse, sem hesitar:

--Sete mil e duzentos. Mas é obra de mestre.

Era uma téla desbotada de tom defumado, onde uns restos de face avermelhada, com uma cabelleira em cachos, sobresahiam vagamente sobre um fundo sombrio. Um vermelhão baço indicava o velludo de uma casaca de côrte: a pança saliente e ostentosa enchia um collete esverdeado. E a parte mais conservada da téla era, ao lado sobre um coxim, a corôa real--que o artista trabalhára com uma minuciosidade enthusiasta, ou por preoccupação d'idiota, ou por adulação de cortezão.

Sebastião achava caro; mas o Paula mostrou-lhe o preço escripto por traz, n'uma tirinha de papel; espanejou a téla com amor; indicou as bellezas, fallou na sua honestidade; deprimiu outros vendedores de moveis, «que tinham a consciencia nas palmilhas»; jurou que o retrato pertencera ao paço de Queluz, e ia atacar as questões publicas--quando Sebastião disse resumindo:

--Bem, pois mande-m'o logo, fico com elle. E mande a conta.

--Leva uma rica obra!

Sebastião agora olhava em redor. Queria fallar do «pé torcido de D. Felicidade», e procurava uma transição. Examinou umas jarras da India, um tremó; e avistando uma poltrona de doente:

--Aquillo é que era bom para a D. Felicidade!--exclamou logo--aquella cadeira! Boa cadeira!

O Paula arregalou os olhos.

--Para a D. Felicidade Noronha--repetiu Sebastião.--Para estar deitada... Pois não sabia, homem? Partiu um pé, tem estado muito mal.

--A D. Felicidade, a amiga _de cá_?--e indicou com o pollegar a casa do Engenheiro.

--Sim, homem! Quebrou um pé na Encarnação. Até lá ficou. A D. Luiza vai para lá fazer-lhe companhia todos os dias. Agora ia ella para lá...

--Ah!--fez o Paula lentamente. E depois de uma pausa:--Mas eu ainda a vi entrar _para cá_ ha-de haver oito dias.

--Foi antes d'hontem.--Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando muito umas gravuras:--De resto a D. Luiza já ia todos os dias á Encarnação, mas era para vêr a Silveira, a D. Anna Silveira, que esteve mal. Coitada, ha tres semanas que tem passado uma vida d'enfermeira. Não sahe da Encarnação! E agora é a D. Felicidade. Não é má massada!

--Pois não sabia, não sabia--murmurava o Paula, com as mãos enterradas nos bolsos.

--Mande-me o D. João VI, hein?

--Ás ordens, snr. Sebastião.

Sebastião foi para casa. Subiu á sala; e atirando o chapéo para o sophá: Bem, pensou, agora ao menos estão salvas as apparencias!--Passeou algum tempo com a cabeça baixa; sentia-se triste; porque o ter conseguido, por um acaso, justificar aquelles passeios para com a visinhança, fazia-lhe parecer mais cruel a idéa de que os não podia justificar para comsigo. Os commentarios dos visinhos iam findar por algum tempo, mas _os seus_?... Queria achal-os falsos, pueris, injustos: e, contra sua vontade, o seu bom senso e a sua rectidão estavam sempre a revolvel-os baixo. Emfim, tinha feito o que devia! E com um gesto triste, fallando só, no silencio da sala:

--O resto é com a sua consciencia!

N'essa tarde, na rua, sabia-se já que a D. Felicidade de Noronha torcera um pé na Encarnação, (outros diziam quebrára uma perna), e que a D. Luiza não lhe sahia da cabeceira... O Paula declarára com authoridade:

--É de boa rapariga, é de muito boa rapariga!

A Gertrudes do doutor foi logo, á noitinha, perguntar á tia Joanna, «se era verdade da perna quebrada». A tia Joanna corrigiu: era o pé, torcera o pé! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao chá, que a D. Felicidade déra uma queda que ficára em pedaços.--Foi na Encarnação, acrescentou. Diz que anda tudo lá n'uma roda viva. A Luizinha até lá tem dormido...

--Pieguices de beatas!--rosnou com tedio o doutor.

Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, d'ahi a dias, o Teixeira Azevedo (que apenas comprimentava Luiza), tendo-a encontrado na rua de S. Roque, parou, e com uma cortezia profunda:

--Desculpe vossencia. Como vai a sua doente?

--Melhor, agradecida.

--Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, ir todos os dias por este calor á Encarnação...

Luiza corou.

--Coitada! Não lhe falta companhia, mas...

--É de muita caridade, minha senhora--exclamou com emphase--Tenho-o dito por toda a parte. É de muita caridade. Um criado de vossencia!

E afastou-se commovido.

Luiza fôra logo, com effeito, vêr D. Felicidade. Tinha uma luxação simples; e deitada nos quartos da Silveira, com o pé em compressas d'arnica, cheia de terror de «perder a perna», passava o dia rodeada d'amigas, chorando-se, saboreando os mexericos do Recolhimento, e debicando petiscos.

Apenas alguem entrava para a vêr, redobrava d'exclamações e de queixas; vinha logo a historia miuda, incidentada, prolixa da «desgraça»: ia a descer, a pôr o pé no degrau; escorregára; sentiu que ia a cahir; ainda se sustentou, e pôde dizer: Ai Nossa Senhora da Saude! Ao principio a dôr não foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um milagre!

Todas as senhoras concordavam «que era realmente um milagre». Olhavam-na compungidas, e iam ao côro alternadamente prostrar-se, e pedir aos santos especiaes o allivio da Noronha!

A primeira visita de Luiza foi para D. Felicidade uma consolação, «deu-lhe melhoras»; porque se ralava de estar alli de cama, sem saber noticias d'_elle_, sem poder fallar d'_elle_!

E nos dias seguintes, apenas ficava só no quarto com Luiza, chamava-a logo para a cabeceira, e n'um murmurio mysterioso: Tinha-o visto? Sabia d'_elle_?--A sua afflicção era que o Conselheiro não soubesse que ella estava doente, e não lhe podesse dar aquelles pensamentos compassivos--a que o seu pé tinha direito, e que seriam um conforto para o seu coração! Mas Luiza não _o_ vira--e D. Felicidade, remexendo a chásada, exhalava suspiros agudos.

Ás duas horas Luiza sahia da Encarnação--e ia tomar um trem ao Rocio: para não parar á porta do _Paraiso_ com espalhafato de tipoia, apeava-se ao largo de Santa Barbara; e fazendo-se pequenina, cosida com a sombra das casas, apressava-se com os olhos baixos, e um vago sorriso de prazer.

Bazilio esperava-a deitado na cama, em mangas de camisa: para não se enfastiar, só, tinha trazido para o _Paraiso_ uma garrafa de cognac, assucar, limões--e com a porta entreaberta fumava, fazendo _grogs_ frios. O tempo arrastava-se, via a todo o momento as horas, e sem querer ia escutando, notando todos os ruidos intimos da familia da proprietaria que vivia nos quartos interiores: a rabuje d'uma criança, uma voz acatarrhoada que ralhava, e de repente uma cadellinha que começava a ladrar furiosa. Bazilio achava aquillo burguez e reles, impacientava-se. Mas um _frou-frou_ de vestido roçava a escada--e os tedios d'elle, bem como os receios d'ella, dissipavam-se logo no calor dos primeiros beijos. Luiza vinha sempre com pressa; queria estar em casa ás cinco horas, «e era um estirão depois!» Entrava um pouco suada, e Bazilio gostava da transpiraçãosinha tepida que havia nos seus hombros nús.

--E teu marido?--perguntava elle.--Quando vem?

--Não falla em nada.--Ou então:--Não recebi carta, não sei nada.

Parecia ser aquella a preoccupação de Bazilio, na alegria egoista da posse recente. Tinha então caricias muito extaticas; ajoelhava-se aos pés d'ella; fazia voz de criança:

--Lili não ama Bibi...

Ella ria, meio despida, com um riso cantado e libertino.

--Lili adora Bibi!... É douda por Bibi!

E queria saber se pensava n'ella, o que tinha feito na vespera. Fôra ao Gremio, jogára uns _robbers_, viera para casa cedo, sonhára com ella...

--Vivo para ti, meu amor, acredita!

E deixava-lhe cahir a cabeça no regaço, como sob uma felicidade excessiva.

Outras vezes, mais serio, dava-lhe certos conselhos de gôsto, de _toilette_: pedira-lhe que não trouxesse postiços no cabello, que não usasse botinhas de elastico.

Luiza admirava muito a sua experiencia do luxo; obedecia-lhe, amoldava-se ás suas idéas:--até affectar, sem o sentir, um desdem pela gente virtuosa, para imitar as suas opiniões libertinas.

E lentamente, vendo aquella docilidade, Bazilio não se dava ao incommodo de se constranger; usava d'ella, _como se a pagasse_! Acontecera uma manhã escrever-lhe duas palavras a lapis que «não podia ir ao _Paraiso_», sem outras explicações! Uma occasião mesmo não foi, sem a avisar--e Luiza achou a porta fechada. Bateu timidamente, olhou pela fechadura, esperou palpitante--e voltou muito desconsolada, quebrada do calor, com a poeirada nos olhos, e vontade de chorar.

Não aceitava o menor incommodo, nem para lhe causar um contentamento. Luiza tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos a sua casa, passar a noite: viria Sebastião, o Conselheiro, D. Felicidade quando estivesse melhor: era uma alegria para ella, e depois dava ás suas relações um ar mais parente, mais legitimo.

Mas Bazilio pulou:

--O quê! ir cabecear de somno com quatro caturras... Ah! não!...

--Mas conversa-se, faz-se musica...

--_Merci!_ Conheço-a, a musica das _soirées_ de Lisboa! A valsa do _Beijo_ e o _Trovador_. Safa!

Depois duas ou tres vezes fallára de Jorge com desdem. Aquillo offendera-a.

Ultimamente mesmo, quando ella entrava no _Paraiso_, já não tinha a delicadeza amorosa de se levantar alvoroçado: sentava-se apenas na cama, e tirando preguiçosamente o charuto da bocca:

--Ora viva a minha flôr!--dizia.

E um ar de superioridade quando lhe fallava! Um modo de encolher os hombros, de exclamar:--Tu não percebes nada d'isso! Chegava a ter palavras cruas, gestos brutaes. E Luiza começou a desconfiar que Bazilio não a estimava,--apenas a desejava!

Ao principio chorou. Resolveu explicar-se com elle, romper se fosse necessario. Mas adiou, não se atrevia: a figura de Bazilio, a sua voz, o seu olhar dominavam-na; e accendendo-lhe a paixão tiravam-lhe a coragem de a perturbar com queixas. Porque estava convencida então que o adorava: o que lhe dava tanta exaltação no _desejo_, se não era a grandeza do _sentimento_?... Gozava tanto, é porque o amava muito!... E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se n'este raciocinio subtil.

Elle tinha ás vezes uma seccura aspera de maneiras, era verdade; certos tons de indifferença, era certo... Mas n'outros momentos, quantas denguices, que tremuras na voz, que phrenesi nas caricias!... Amava-a tambem, não havia duvida. Aquella certeza era a sua justificação. E como era o Amor que os produzia, não se envergonhava dos alvoroços voluptuosos com que ia todas as manhãs ao _Paraiso_!

Duas ou tres vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia tambem apressada o Moinho de Vento.

--D'onde vinha vossê?--perguntára-lhe em casa.

--Do medico, minha senhora, fui ao medico.

Queixava-se de pontadas, palpitações, faltas d'ar.

--Flatos! flatos!