O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 13
Atravessaram a sala: Juliana começava a arrumar. Luiza, ao passar, viu na pedra da _console_, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza: era da vespera, do charuto d'_elle_! Sacudiu-a--e ao erguer os olhos, ficou pasmada de se vêr tão pallida.
A costureira vestida de preto, com um chapéo de fitas rôxas, esperava sentada á beira da _causeuse_, com um olhar infeliz e o seu embrulho nos joelhos; vinha provar o corpete d'um vestido composto; assentou, pregou, alinhavou, fallando baixo, com uma humildade triste e uma tossinha sêcca ; e apenas ella sahiu, de leve, com o seu andar de sombra, o chale tinto muito cingido ás omoplatas magras,--D. Felicidade começou logo a fallar d'_elle_, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no Moinho de Vento. Pois, senhores, nem lhe viera fallar! Fizera-lhe uma cortezia muito sêcca, por demais, e tic-tic por alli fóra, que se diria que ia fugido! Que te parece? Ai! aquellas indifferenças matavam-na. E não as comprehendia, não, realmente não as comprehendia...
--Porque emfim--exclamava--eu bem me conheço, não sou nenhuma criança, mas tambem não sou nenhum caco! Pois não é verdade?
--Certamente--disse Luiza distrahida. Lembrava-lhe a carta.
--Olha que aqui onde me vês com os meus quarenta, decotada, ainda valho! O que são hombros e collo é do melhor!
Luiza ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu:
--Do melhor! Tomaram-no muitas novas!
--Creio bem--concordou Luiza, sorrindo vagamente.
--E elle tambem não é nenhum rapazinho novo...
--Não...
--Mas muito bem conservado!--E os olhos luziam-lhe--Para fazer ainda uma mulher muito feliz!
--Muito...
--Um homem d'appetecer!--suspirou D. Felicidade.
E Luiza, então:
--Tu esperas um instantinho! Vou lá dentro e volto já.
--Vai, filha, vai.
Luiza correu ao escriptorio, direita ao _sarcophago_. Estava vazio! E a carta d'ella, Santo Deus!
Chamou logo Juliana, aterrada.
--Vossê despejou o caixão dos papeis?
--Despejei, sim, minha senhora--respondeu muito tranquillamente.
E com interesse:
--Porquê, perdeu-se algum papel?
Luiza fazia-se pallida.
--Foi um papel que eu atirei para o caixão. Onde o despejou vossê?
--No barril do lixo, como é costume, minha senhora; imaginei que nada servia...
--Ah! deixe vêr!
Subiu rapidamente á cozinha.
Juliana, atraz, ia dizendo:
--Ora esta! Pois ainda não ha cinco minutos! O caixão estava mais cheio... Andei a dar uma arrumadella no escriptorio... Valha-me Deus, se a senhora tem dito...
Mas o barril do lixo estava vazio. Joanna tinha-o ido despejar abaixo n'aquelle instantinho; e vendo a inquietação de Luiza:
--Porquê, perdeu-se alguma cousa?
--Um papel--disse Luiza, que olhava em redor, pelo chão, muito branca.
--Elle iam uns poucos de papeis, minha senhora--disse a rapariga--eu deitei tudo ao despejo.
--Podia ter ficado algum cahido por fóra, snr.^a Joanna--lembrou timidamente Juliana.
--Vá vêr, vá vêr, Joanna--acudiu Luiza com uma esperança.
Juliana parecia afflicta:
--Jesus, Senhor! Eu podia lá adivinhar! Mas para que não disse a senhora...?
--Bem, bem, a culpa não é sua, mulher...
--Credo, que até se me está a embrulhar o estomago... E é cousa de importancia, minha senhora?
--Não, é uma conta...
--Valha-me Deus!...
Joanna voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Luiza agarrou-o, leu:--«... o diametro do primeiro poço de exploração...»
--Não, não é isto!--exclamou toda contrariada.
--Então foi p'ra baixo p'ra o cano, minha senhora, não está mais nada.
--Viu bem?
--Esquadrinhei tudo...
E Juliana continuava, desolada:
--Antes queria perder dez tostões! Uma assim! Eu, minha senhora, podia lá adivinhar...
--Bem, bem!--murmurou Luiza descendo.
Mas estava assustada, sentia mesmo uma suspeita indefinida... Lembrou-lhe o bilhete que escrevera na vespera a Bazilio, e que mettera, todo amarrotado, no bolso do vestido... Entrou no quarto, agitada.
D. Felicidade tirára o chapéo, acommodára-se na _causeuse_.
--Tu desculpas, hein?--fez Luiza.
--Anda, filha, anda! Que é?
--Perdi uma conta--respondeu.
Foi ao guarda-vestidos, achou logo o bilhete na algibeira... Aquillo serenou-a. A carta tinha ido para o lixo de certo. Mas que imprudencia!
--Bem, acabou-se!--disse, sentando-se resignada.
E D. Felicidade immediatamente, baixando a voz muito confidencialmente:
--Ora eu vinha-te fallar n'uma cousa. Mas vê lá! Olha que é segredo.
Luiza ficou logo sobresaltada.
--Tu sabes--continuou D. Felicidade, devagar, com pausas--que a minha criada, a Josepha, está para casar com o gallego... O homem é de ao pé de Tuy, e diz que na terra d'elle ha uma mulher que tem uma virtude para fazer casamentos que é uma cousa milagrosa... Diz que é o mais que ha... Em deitando a sorte a um homem,--o homem entra-lhe uma tal paixão que se arranja logo o casamento, e é a maior felicidade.
Luiza tranquillisada, sorriu.
--Escuta--acudiu D. Felicidade--não te ponhas já com as tuas cousas...
No seu tom grave havia um respeito supersticioso.
--Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas, outros que não faziam caso d'ellas, maridos que tinham amigas, emfim toda a sorte de ingratidão... Em a mulher deitando o encanto, os homens começam a esmorecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e estão pelo beiço... A rapariga contou-me isto. Eu lembrei-me logo...
--De deitar uma sorte ao Conselheiro!--exclamou Luiza.
--Que te parece?
Luiza deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quasi se escandalisou. Contou outros casos: um fidalgo que deshonrára uma lavadeira; um homem que abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma _bebeda_... Em todos a _sorte_ operára d'um modo fulminante, produzindo um amor subito e fogoso pela pessoa desprezada. Appareciam logo rendidos, se estavam perto; se estavam longe, voltavam, avidos, a pé, a cavallo, na mala-posta, apressando-se, ardendo... E entregavam-se, mansos e humildes como escravos acorrentados...
--Mas o gallego--continuava ella muito excitada--diz que para ir á terra, fallar á mulher, levar o retrato do Conselheiro, é necessario o retrato d'elle, o meu, é necessario o meu, ir fallar, voltar--quer sete moedas!...
--Oh D. Felicidade!--fez Luiza reprehensivamente.
--Não me digas, não venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos...
E erguendo-se:
--Mas são sete moedas! Sete moedas!--exclamou, arregalando os olhos.
Juliana appareceu á porta, e muito baixinho, com um sorriso:
--A senhora faz favor?
Chamou-a para o corredor, em segredo:
--Esta carta. Que vem do hótel.
Luiza fez-se escarlate.
--Credo, mulher! não é necessario fazer mysterios!
Mas não entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a lapis, escripta á pressa:
«Meu amor--dizia Bazilio--por um feliz acaso descobri o que precisavamos, um ninho discreto para nos vêrmos...» E indicava a rua, o numero, os signaes, o caminho mais perto. «... Quando vens, meu amor? Vem ámanhã. Baptisei a casa com o nome de _Paraiso_: para mim, minha adorada, é com effeito o paraiso. Eu espero-te lá desde o meio dia: logo que te aviste, desço.»
Aquella precipitação amorosa em arranjar o _ninho_--provando uma paixão impaciente, toda occupada d'ella--produziu-lhe uma dilatação dôce do orgulho; ao mesmo tempo que aquelle _Paraiso_ secreto, como n'um romance, lhe dava a esperança de felicidades excepcionaes; e todas as suas inquietações, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente sob uma sensação calida, como flocos de nevoa sob o sol que se levanta.
Voltou ao quarto, com o olhar risonho.
--Que te parece, hein?--perguntou logo D. Felicidade, a quem a sua idéa occupava tyrannicamente.
--O que?
--Achas que mande o homem a Tuy?
Luiza encolheu os hombros; veio-lhe um tedio de taes enredos de bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga romantica achava repugnante aquelle sentimentalismo senil.
--Tolices!--disse com muito desdem.
--Oh filha! não me digas, não me digas!--acudiu desolada D. Felicidade.
--Bem, então manda, manda!--fez Luiza, já impaciente.
--Mas são sete moedas!--exclamou D. Felicidade, quasi chorosa.
Luiza poz-se a rir.
--Por um marido? Acho barato...
--E se a sorte falha?
--Então é caro!
D. Felicidade deu um grande _ai!_ Estava muito infeliz, n'aquella hesitação entre os impulsos da concupiscencia e as prudencias da economia. Luiza teve pena d'ella, e, tirando um vestido do guarda-roupa:
--Deixa lá, filha! Não hão-de ser necessarias bruxarias!...
D. Felicidade ergueu os olhos ao céo.
--Vaes sahir?--perguntou melancolicamente.
--Não.
D. Felicidade propoz-lhe então que viesse com ella á Encarnação. Visitavam a Silveira, coitada, que tinha um furunculo! E viam a armação da igreja para a festa, estreava-se o frontal novo, um primor!
--E estou tambem com vontade de ir rezar uma estaçãosinha, para alliviar cá por dentro--ajuntou, suspirando.
Luiza aceitou. Appetecia-lhe ir vêr altares alumiados, ouvir o ciciar de rezas no côro, como se os requintes devotos dissessem bem com as suas disposições sentimentaes. Começou a vestir-se depressa.
--Como tu estás gorda, filha!--exclamou D. Felicidade admirada, vendo-lhe os hombros, o collo.
Luiza diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente, contente das suas linhas, acariciando devagarinho, voluptuosamente, a pelle branca e fina.
--Redondinha--disse, namorando-se.
--Redondinha? Vaes-te a fazer uma bola!
E acrescentou, tristemente:
--Tambem com a tua vida, um marido como o teu, regaladinha, sem filhos, sem cuidados...
--Vamos lá, minha rica--disse Luiza--que as tristezas não te tem feito emmagrecer...
--Pois sim, pois sim! Mas...--e parecia desolada, como curvada sob as suas proprias ruinas--cá por dentro é uma desgraça, estomago, figado...
--Se a mulher de Tuy faz o milagre, põe tudo isso como novo!
D. Felicidade sorriu, com uma duvida desconsolada.
--Sabes que tenho um chapéo lindo?--exclamou de repente Luiza--Não viste? Lindo!
Foi logo buscal-o ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de myosotis.
--Que te parece?
--É um primor!
Luiza mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas azues.
--Dá frescura--fez D. Felicidade.
--Não é verdade?
Pôl-o com muito cuidado, toda séria. Ficava-lhe bem! Bazilio se a visse havia de gostar, pensou. Era bem possivel que o encontrassem...
Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante: achava tão delicioso viver, sahir, ir á Encarnação, pensar no seu amante!... E toda no ar, procurava pelo quarto as chavinhas do toucador.
Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia vêr! Sahiu correndo, tontinha, cantarolando:
Amici, la notte è bella... La ra la la...
Quasi topou com Juliana, que varria o corredor.
--Não deixe de engommar a saia bordada para ámanhã, Juliana!
--Sim, minha senhora. Está em gomma!
E seguindo-a com um olhar feroz:
--Canta, piorrinha, canta, cabrasinha, canta, bebedasinha!...
E ella mesma, tomada subitamente d'um jubilo agudo, atirou vassouradas rapidas, soltando na sua voz rachada:
Além d'ámanhã termina a campanha, P-o-o-or aqui se diz... Se tal fôr verdade, se não fôr patranha...
E com um espremido emphatico:
Se-e-rei bem feliz!
Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastião e Julião passeavam em S. Pedro de Alcantara.
Sebastião estivera contando a sua «scena» com Luiza, e como desde então a sua estima por ella crescera. Ao principio escabreára-se, sim...
--Mas teve razão! Assim de surpreza, ouvir uma d'aquellas! E eu levei a cousa mal, fui muito á bruta...
Depois, coitadinha, concordára logo, mostrára-se muito desgostosa, toda zelosa do seu pudor, pedira-lhe conselhos... Até tinha as lagrimas nos olhos.
--Eu disse-lhe logo que o melhor era fallar ao primo, dizer o que se passava... Que te parece?
--Sim--disse vagamente Julião.
Tinha-o escutado distrahido, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto terreo cavava-se, com uma côr mais biliosa.
--Então achas que fiz bem, hein?
E depois d'uma pausa:
--Que ella é uma senhora de bem ás direitas! Ás direitas, Julião!
Continuaram calados. O dia estava encoberto e abafado, com um ar de trovoada: grossas nuvens pesadas e pardas iam-se accumulando, ennegrecendo para o lado da Graça por traz das collinas: um vento rasteiro passava por vezes, pondo um arripio nas folhas das arvores.
--De maneira que agora estou descançado--resumiu Sebastião.--Não te parece?
Julião encolheu os hombros com um sorriso triste:
--Quem me dera os teus cuidados, homem!--disse.
E fallou então com amargura nas suas preoccupações.--Havia uma semana que se abrira concurso para uma cadeira de substituto na Escóla, e preparava-se para elle. Era a sua taboa de salvação, dizia: se apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientella podia vir, e a fortuna... E, que diabo, sempre era estar de dentro!... Mas a certeza da sua superioridade não o tranquillisava--porque emfim em Portugal, não é verdade? n'estas questões a sciencia, o estudo, o talento são uma historia, o principal são os padrinhos! Elle não os tinha--e o seu concorrente, um semsaborão, era sobrinho d'um director geral, tinha parentes na camara, era um colosso! Por isso elle trabalhava a valer, mas parecia-lhe indispensavel metter tambem as suas cunhas! Mas quem?
--Tu não conheces ninguem, Sebastião?...
Sebastião lembrava-se d'um primo seu, deputado pelo Alemtejo, um gordo, da maioria, um pouco fanhoso. Se Julião queria, fallava-lhe... Mas sempre ouvira dizer que a Escóla não era gente de empenhos e de intriga... De resto tinham o conselheiro Accacio...
--Uma besta!--fez Julião--Um parlapatão! Quem faz lá caso d'aquillo? O teu primo, hein! O teu primo parece-me bom! É necessario alguem que falle, que trabalhe...--Porque acreditava muito nas influencias dos empenhos, no dominio dos «personagens», nas docilidades da fortuna quando dirigida pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado d'ameaça:--Que eu hei-de-lhes mostrar o que é saber as cousas, Sebastião!
Ia explicar-lhe o assumpto da these, mas Sebastião interrompeu-o:
--Ella ahi vem.
--Quem?
--A Luiza.
Passava com effeito, por fóra do Passeio, toda vestida de preto, só.--Respondeu á cortezia dos dous homens com um sorriso, _adeusinhos_ da mão, um pouco corada.
E Sebastião immovel, seguindo-a devotamente com os olhos:
--Se aquillo não respira mesmo honestidade! Vai ás lojas... Santa rapariga!
Ia encontrar Bazilio no _Paraiso_ pela primeira vez. E estava muito nervosa: não pudera dominar, desde pela manhã, um medo indefinido que lhe fizera pôr um véo muito espêsso, e bater o coração ao encontrar Sebastião. Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, multipla, impellia-a, com um estremecimentosinho de prazer.--Ia, emfim, ter ella propria aquella aventura que lêra tantas vezes nos romances amorosos! Era uma fórma nova do amor que ia experimentar, sensações excepcionaes! Havia tudo--a casinha mysteriosa, o segredo illegitimo, todas as palpitações do perigo! Porque o apparato impressionava-a mais que o sentimento; e a _casa_ em si interessava-a, attrahia-a mais que Bazilio! Como seria? Era para os lados d'Arroios, adiante do largo de Santa Barbara: lembrava-se vagamente que havia alli uma correnteza de casas velhas... Desejaria antes que fosse no campo, n'uma quinta, com arvoredos murmurosos e relvas fôfas; passeariam então, com as mãos enlaçadas, n'um silencio poetico; e depois o som d'agua que cahe nas bacias de pedra daria um rhythmo languido aos somnos amorosos... Mas era n'um terceiro andar,--quem sabe como seria dentro? Lembrava-lhe um romance de Paulo Féval em que o heroe, poeta e duque, fórra de setins e tapeçarias o interior d'uma choça; encontra alli a sua amante; os que passam, vendo aquelle casebre arruinado, dão um pensamento compassivo á miseria que de certo o habita--em quanto dentro, muito secretamente, as flôres se esfolham nos vasos de Sèvres e os pés nús pisam Gobelins veneraveis! Conhecia o gosto de Bazilio,--e o _Paraiso_ de certo era como no romance de Paulo Féval.
Mas no largo de Camões reparou que o sujeito de pera comprida, o do Passeio, a vinha seguindo, com uma obstinação de gallo; tomou logo um coupé. E ao descer o Chiado, sentia uma sensação deliciosa em ser assim levada rapidamente para o seu amante, e mesmo olhava com certo desdem os que passavam, no movimento da vida trivial--em quanto ella ia para uma hora tão romanesca da vida amorosa! Todavia á maneira que se aproximava vinha-lhe uma timidez, uma contracção d'acanhamento, como um plebeu que tem de subir, entre alarbadeiros solemnes, a escadaria d'um palacio. Imaginava Bazilio esperando-a estendido n'um divan de sêda: e quasi receava que a sua simplicidade burgueza, pouco experiente, não achasse palavras bastante finas ou caricias bastante exaltadas. Elle devia ter conhecido mulheres tão bellas, tão ricas, tão educadas no amor! Desejava chegar n'um coupé seu, com rendas de centos de mil reis, e ditos tão espirituosos como um livro...
A carruagem parou ao pé d'uma casa amarellada, com uma portinha pequena. Logo á entrada um cheiro molle e salobre enojou-a. A escada, de degraus gastos, subia ingrememente, apertada entre paredes onde a cal cahia, e a humidade fizera nodoas. No patamar da sobre-loja, uma janella com um gradeadosinho d'arame, parda do pó accumulado, coberta de teias d'aranha, coava a luz suja do saguão. E por traz d'uma portinha, ao lado, sentia-se o ranger d'um berço, o chorar doloroso d'uma criança.
Mas Bazilio desceu logo, com o charuto na bocca, dizendo baixo:
--Tão tarde! sóbe! Pensei que não vinhas. O que foi?
A escada era tão esguia, que não podiam subir juntos. E Bazilio, caminhando adiante, d'esguelha:
--Estou aqui desde a uma hora, filha! imaginei que te tinhas esquecido da rua...
Empurrou uma cancella, fêl-a entrar n'um quarto pequeno, forrado de papel ás listras azues e brancas.
Luiza viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarellada, feita de remendos juntos de chitas differentes: e os lençoes grossos, d'um branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente entreabertos...
Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraçada. E os seus olhos, muito abertos, iam-se fixando--nos riscos ignobeis da cabeça dos phosphoros, ao pé da cama; na esteira esfiada, comida, com uma nodoa de tinta entornada; nas bambinellas da janella, d'uma fazenda vermelha, onde se viam passagens; n'uma lithographia, onde uma figura, coberta d'uma tunica azul fluctuante, espalhava flôres voando... Sobre tudo uma larga photographia, por cima do velho canapé de palhinha, fascinava-a: era um individuo atarracado, d'aspecto hilare e alvar, com a barba em collar, o feitio d'um piloto ao domingo: sentado, de calças brancas, com as pernas muito afastadas, pousava uma das mãos sobre um joelho, e a outra muito estendida assentava sobre uma columna truncada: e por baixo do caixilho, como sobre a pedra d'um tumulo, pendia d'um prego de cabeça amarella, uma corôa de perpetuas!
--Foi o que se pôde arranjar--disse-lhe Bazilio.--E foi um acaso: é muito retirado, é muito discreto... Não é muito luxuoso...
--Não--fez ella, baixo.--Levantou-se, foi á janella, ergueu uma ponta da cortininha de cassa fixada á vidraça: defronte eram casas pobres: um sapateiro grisalho, batia a sola a uma porta; á entrada d'uma lojita balouçava-se um ramo de carqueja ao pé d'um maço de cigarros pendente d'um barbante; e, a uma janella, uma rapariga esguedelhada embalava tristemente no collo uma criança doente que tinha crostas grossas de chagas na sua cabecinha côr de melão.
Luiza mordia os beiços, sentia-se entristecer. Então nós de dedos bateram discretamente á porta. Ella assustou-se, desceu rapidamente o véo. Bazilio foi abrir. Uma voz adocicada, cheia de _ss_ mellifluos, ciciou baixo. Luiza ouviu vagamente: Socegadinhos, suas chavesinhas...
--Bem, bem!--disse Bazilio apressado, batendo com a porta.
--Quem é?
--É a patrôa.
O céo pozera-se a ennegrecer; já a espaços grossas gôtas de chuva se esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto mais melancolico.
--Como descobriste tu isto?--perguntou Luiza, triste.
--Inculcaram-m'o.
Outra gente, então, tinha vindo alli, «amado» alli? pensou ella. E a cama pareceu-lhe repugnante.
--Tira o chapéo--disse Bazilio, quasi impaciente--estás-me a fazer afflicção com esse chapéo na cabeça.
Ella soltou devagar o elastico que o prendia, foi pôl-o no canapé de palhinha, desconsoladamente.
Bazilio tomou-lhe as mãos, e attrahindo-a, sentando-se na cama:
--Estás tão linda!--Beijou-lhe o pescoço, encostou a cabeça ao peito d'ella. E com a vista muito quebrada:
--O que eu sonhei comtigo esta noite!
Mas, de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E immediatamente bateram á porta, com pressa.
--Que é?--bradou Bazilio furioso.
A voz cheia de _ss_ explicou que esquecera um cobertor na varanda que estava a seccar. Se se encharcasse, que perdição!...
--Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me!--berrou Bazilio.
--Dá-lhe o cobertor...
--Que a leve o diabo!
E Luiza, sentindo um arripio de frio nos seus hombros nús, abandonava-se com uma vaga resignação, entre os joelhos de Bazilio--vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto.
Assim um _yacht_ que apparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar, ao partir, nos lodaçaes do rio baixo; e o mestre aventureiro que sonhava com os incensos e os almiscares das florestas aromaticas, immovel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros dos esgotos.
Apenas Luiza começou a sahir todos os dias, Juliana pensou logo: Bem, vai ter com o _gajo_!
E a sua attitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de baixeza que corria a abrir a porta, alvoroçada, quando Luiza voltava ás cinco horas. E que zelo! Que exactidões! Um botão que faltasse, uma fita que se extraviava, e eram «mil perdões, minha senhora», «desculpe por esta vez», muitas lamentações humildes. Interessava-se com devoção pela saude d'ella, pela sua roupa, pelo que tinha para jantar...
Todavia, desde as idas ao _Paraiso_, o seu trabalho augmentára: todos os dias agora tinha d'engommar; muitas vezes era preciso ensaboar á noite collares, rendinhas, punhos, n'uma bacia de latão, até ás onze horas. Ás seis da manhã, mais cedo, já estava com o «ferro ás voltas». E não se queixava, até dizia a Joanna:
--Ai! é um regalo vêr assim uma senhora aceada!... Que as ha! credo! Não, não é por dizer, mas até me dá gosto. Depois, graças a Deus, agora tenho saude, o trabalho não me assusta!
Não tornára a resmungar da «patrôa». Affirmava mesmo á Joanna repetidamente:
--A senhora! ai, é uma santa! Muito boa d'aturar... Não a ha melhor!
O seu rosto perdera alguma cousa do tom bilioso, da contracção amarga. Ás vezes, ao jantar ou á noite, costurando calada ao pé de Joanna, á luz do petroleo, vinham-lhe sorrisos subitos, o olhar clareava-se-lhe n'uma dilatação jovial.
--A snr.^a Juliana tem o ar de quem está a pensar em cousas boas...
--A malucar cá por dentro, snr.^a Joanna!--respondia com satisfação.
Parecia perder a inveja; ouviu mesmo fallar com tranquillidade do vestido de sêda que estreou n'um dia de festa, em setembro, a Gertrudes do doutor. Disse apenas:
--Tambem um dia hei-de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista!
Já outras vezes revelára por palavras vagas a idéa d'uma abundancia proxima. Joanna até lhe dissera:
--A snr.^a Juliana espera alguma herança?
--Talvez!--respondeu seccamente.
E cada dia detestava mais Luiza. Quando pela manhã a via arrebicar-se, perfumar-se com agua de colonia, mirar-se ao toucador cantarolando, sahia do quarto porque lhe vinham venetas d'odio, tinha medo d'estourar! Odiava-a pelas _toilettes_, pelo ar alegre, pela roupa branca, pelo _homem_ que ia vêr, por todos os seus regalos de senhora. «A cabra!» Quando ella sahia ia espreitar, vêl-a subir a rua, e fechando a vidraça com um risinho rancoroso:
--Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia ha-de chegar! Oh se ha-de!
Luiza com effeito divertia-se. Sahia todos os dias ás duas horas. Na rua já se dizia que «a do Engenheiro tinha agora o seu S. Miguel».