O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 12
--Realmente vale bem a pena estar uma pobre de Christo a privar-se, a passar uma vida de coruja, a mortificar-se, para vir um dia uma febre, um ar, uma soalheira, e boas noites, vai-se para o Alto de S. João! Tó rola!
A sala agora estava um pouco escura.
--Pois não te parece?--perguntou ella.
Aquella conversa embaraçava Luiza: sentia-se córar; mas o crepusculo, as palavras de Leopoldina davam-lhe como o enfraquecimento d'uma tentação. Declarou todavia _immoral_ semelhante idéa.
--Immoral, porque?
Luiza fallou vagamente nos _deveres_, na _religião_. Mas os _deveres_ irritavam Leopoldina. Se havia uma cousa que a fizesse sahir de si--dizia--era ouvir fallar em deveres!...
--Deveres? Para com quem? Para um maroto como meu marido?
Calou-se, e passeando pela sala excitada:
--E em quanto a religião, historias! A mim me dizia o padre Estevão, o de luneta, que tem os dentes bonitos, que me dava todas as absolvições, se eu fosse com elle a Carriche!
--Ah, os padres...--murmurou Luiza.
--Os padres quê? São a religião! Nunca vi outra. Deus, esse, minha rica, está longe, não se occupa do que fazem as mulheres.
Luiza achava horrivel «aquelle modo de pensar». A felicidade, a verdadeira, segundo ella, era ser honesta...
--E a bisca em familia!--resmungou Leopoldina, com odio.
Luiza disse, animada:
--Pois olha que com as tuas paixões, umas atraz das outras...
Leopoldina estacou:
--O que?
--Não te podem fazer feliz!
--Está claro que não!--exclamou a outra.--Mas...--procurou a palavra; não a quiz empregar de certo; disse apenas com um tom secco:--Divertem-me!
Calaram-se. Luiza pediu o café.
Juliana entrou com a bandeja, trouxe luz; d'ahi a pouco foram para a sala.
--Sabes quem me fallou hontem de ti?--disse Leopoldina, indo estender-se no divan.
--Quem?
--O Castro.
--Que Castro?
--O d'oculos, o banqueiro.
--Ah!
--Muito apaixonado por ti sempre.
Luiza riu.
--Doudo, palavra!--affirmou Leopoldina.
A sala estava ás escuras, com as janellas abertas; a rua esbatia-se n'um crepusculo pardo: um ar languido e dôce amaciava a noite.
Leopoldina esteve um momento calada; mas o champagne, a meia obscuridade deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar confidenciasinhas. Estirou-se mais no divan, n'uma attitude toda abandonada; pôz-se a fallar «d'elle». Era ainda o Fernando, o poeta. Adorava-o.
--Se tu soubesses!--murmurava com um ar de extase.--É um amor de rapaz!
A sua voz velada tinha inflexões d'uma ternura calida. Luiza sentia-lhe o halito e o calor do corpo, quasi deitada tambem, enervada; a sua respiração alta tinha por vezes um tom suspirado: e a certos detalhes mais picantes de Leopoldina soltava um risinho quente e curto, como de cocegas... Mas passos fortes de botas de taxas subiram a rua, e no candieiro defronte o gaz saltou com um jacto vivo. Uma branda claridade pallida penetrou na sala.
Leopoldina ergueu-se logo.--Tinha d'ir já, já, ao accender do gaz. Estava á espera, o pobre rapaz! Entrou no quarto, mesmo ás escuras, a pôr o chapéo, buscar a sombrinha.--Tinha-lhe promettido, coitado, não podia faltar. Mas realmente embirrava d'ir só. Era tão longe! Se a Juliana podesse vir acompanhal-a...
--Vai, sim, filha!--disse Luiza.
Ergueu-se preguiçosamente com um grande _ai!_ foi abrir a porta, e deu de cara com Juliana, na sombra do corredor.
--Credo, mulher, que susto!
--Vinha saber se queriam luz...
--Não. Vá pôr um chale para acompanhar a snr.^a D. Leopoldina! Depressa!
Juliana foi correndo.
--E quando appareces tu, Leopoldina?--perguntou Luiza.
Logo que podesse. Para a semana estava com idéas d'ir ao Porto vêr a tia Figueiredo, passar quinze dias na Foz...
A porta abriu-se.
--Quando a senhora quizer...--disse Juliana.
Fizeram grandes _adeuses_, beijaram-se muito. Luiza disse rindo ao ouvido de Leopoldina:--Sê feliz!
Ficou só. Fechou as janellas, accendeu as velas, começou a passear pela sala, esfregando devagar as mãos. E, sem querer, não podia desprender a idéa de Leopoldina que ia vêr o seu amante! O seu amante!...
Seguia-a mentalmente:--caminhava depressa de certo fallando com Juliana; chegava; subia a escada, nervosa; atirava com a porta--e que delicioso, que avido, que profundo o primeiro beijo! Suspirou. Tambem ella amava--e _um_ mais bello, mais fascinante. Porque não tinha vindo?
Sentou-se ao piano preguiçosamente; pôz-se a cantar baixo, triste, o fado de Leopoldina:
E por mais longe que esteja Vejo-o sempre ao pé de mim!...
Mas um sentimento de solidão, d'abandono, veio impaciental-a. Que sécca, estar alli tão sósinha! Aquella noite calida, bella e dôce, attrahia-a, chamava-a para fóra, para passeios sentimentaes, ou para contemplações do céo, n'um banco de jardim, com as mãos entrelaçadas. Que vida estupida, a d'ella! Oh! aquelle Jorge! Que idéa ir para o Alemtejo!
As conversas de Leopoldina e a lembrança das suas felicidades voltavam-lhe a cada momento; uma pontinha de champagne agitava-se-lhe no sangue. O relogio do quarto começou lentamente a dar nove horas--e de repente a campainha retiniu.
Teve um sobresalto: não podia ser ainda Juliana! Poz-se a escutar, assustada. Vozes fallavam á cancella.
--Minha senhora--veio dizer Joanna baixo--é o primo da senhora que diz que se vem despedir...
Abafou um grito, balbuciou:
--Que entre!
Os seus olhos dilatados cravavam-se febrilmente na porta. O reposteiro franziu-se, Bazilio entrou, pallido, com um sorriso fixo.
--Tu partes!--exclamou ella surdamente, precipitando-se para elle.
--Não!--E prendeu-a nos braços.--Não! Imaginei que me não recebias a esta hora, e tomei este pretexto.
Apertou-a contra si, beijou-a; ella deixava, toda abandonada; os seus labios prendiam-se aos d'elle. Bazilio deitou um olhar rapido, em redor, pela sala, e foi-a levando abraçada, murmurando: Meu amor! minha filha! Mesmo tropeçou na pelle de tigre, estendida ao pé do divan.
--Adoro-te!
--Que susto que tive!--suspirou Luiza.
--Tiveste?
Ella não respondeu; ia perdendo a percepção nitida das cousas; sentia-se como adormecer; balbuciou: Jesus! não! não! Os seus olhos cerraram-se.
Quando a campainha retiniu fortemente ás dez horas, Luiza, havia momentos, sentára-se á beira do divan. Mal teve força de dizer a Bazilio:
--Ha-de ser a Juliana, tinha ido fóra...
Bazilio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi accender um charuto. Para quebrar o silencio sentou-se ao piano, tocou alguns compassos ao acaso, e, erguendo um pouco a voz, começou a cantarolar a aria do 3.^o acto do _Fausto_:
Al pallido chiarore Del astri d'oro...
Luiza, através das ultimas vibrações dos seus nervos, ia entrando na realidade; os seus joelhos tremiam. E então, ouvindo aquella melodia, uma recordação foi-se formando no seu espirito, ainda estremunhado:--era uma noite, havia annos, em S. Carlos, n'um camarote com Jorge; uma luz electrica dava ao jardim, no palco, um tom livido de luar legendario; e n'uma altitude extatica e suspirante o tenor invocava as estrellas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe: Que lindo! E o seu olhar devorava-a. Era no segundo mez do seu casamento. Ella estava com um vestido azul-escuro. E á volta, na carruagem, Jorge, passando-lhe a mão pela cinta, repetia:
Al pallido chiarore Del astri d'oro...
E apertava-a contra si...
Ficára immovel á beira do divan, quasi a escorregar, os braços frouxos, o olhar fixo, a face envelhecida, o cabello desmanchado. Bazilio então veio sentar-se devagarinho junto d'ella.--Em que estava a pensar?
--Nada.
Elle passou-lhe o braço pela cinta, começou a dizer que havia de procurar uma casinha para se verem melhor, estarem mais á vontade; não era mesmo prudente alli em casa d'ella...
E fallando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo do charuto.
--Não te parece que vir eu aqui, todos os dias, póde ser reparado?
Luiza ergueu-se bruscamente, lembrára-lhe Sebastião!... E com uma voz um pouco desvairada:
--Já é tão tarde!--disse.
--Tens razão.
Foi buscar o chapéo em bicos de pés, veio beijal-a muito, sahiu.
--Luiza sentiu-o accender um phosphoro, fechar devagarinho a cancella.
Estava só; pôz-se a olhar em roda, como idiota. O silencio da sala parecia-lhe enorme. As velas tinham uma chamma avermelhada. Piscava os olhos, tinha a bocca sêcca. Uma das almofadas do divan estava cahida, apanhou-a.
E com um ar somnambulo entrou no quarto. Juliana veio trazer o rol. E já vinha com a lamparina, estava a arranjal-a...
Tinha tirado a cuia; subiu á cozinha quasi a correr. A Joanna, que estivera dormitando, espreguiçava-se com bocejos enormes.
Juliana pôz-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe; tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um sorriso para Joanna:
--E então a que horas veio o primo da senhora?
--Veio logo que vossemecê sahiu, estavam a dar as nove.
--Ah!
Desceu com a lamparina; e sentindo Luiza na alcova despir-se:
--A senhora não quer chá?--perguntou, com muito interesse.
--Não.
Foi á sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro de charuto. Pôz-se a olhar em redor, devagar, andando com um passo subtil... De repente agachou-se, anciosamente: ao pé do divan uma cousa reluzia. Era uma travessa de Luiza, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar no quarto em pontas de pés, pousou-a no toucador, entre os rôlos de cabello.
--Quem anda ahi?--perguntou da alcova a voz somnolenta de Luiza.
--Sou eu, minha senhora, sou eu, estive a fechar a sala. Muito boas noites, minha senhora!
Áquella hora Bazilio entrava no Gremio. Procurou pelas salas. Estavam quasi desertas. Dous sujeitos, com os rostos entre os punhos, curvados em attitudes lugubres, ruminavam os jornaes: aqui, além, junto a mesinhas redondas, pessoas de calça branca mastigavam torradas com uma satisfação placida; as janellas estavam fechadas, a noite quente, e o calor molle do gaz abafava. Ia descer quando de uma saleta de jogo, de repente, sahiu o ruido irritado de uma altercação; trocavam-se injurias, gritava-se:--Mente! O asno é vossê!
Bazilio estacou, escutando. Mas, subitamente, fez-se um grande silencio; uma das vozes disse com brandura:
--Paus!
A outra respondeu com benevolencia:
--É o que devia ter feito ha pouco.
E immediatamente a questão rebentou de novo, estridente. Praguejavam, diziam obscenidades.
Bazilio foi ao bilhar. O visconde Reynaldo, de pé, apoiado ao taco, seguia com uma immobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas viu Bazilio, veio para elle rapidamente, e muito interessado:
--Então?
--Agora mesmo--disse Bazilio mordendo o charuto.
--Emfim, hein?--exclamou Reynaldo, arregalando os olhos, com uma grande alegria.
--Emfim!
--Ainda bem, menino! Ainda bem!
Batia-lhe no hombro, commovido.
Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma perna no ar, para dar com mais segurança o _effeito_, dizia com a voz constrangida pela attitude:
--Estimo, estimo, porque essa cousa começava a arrastar...
Tac! Falhou a carambola.
--Não dou meia!--murmurou com rancor.
E chegando-se a Bazilio, a dar giz no taco:
--Ouve cá...
Fallou-lhe ao ouvido.
--Como um anjo, menino!--suspirou Bazilio.
VI
Foi Juliana que na manhã seguinte veio acordar Luiza, dizendo á porta da alcova com a voz abafada, em confidencia:
--Minha senhora! Minha senhora! É um criado com esta carta, diz que vem do hótel.
Foi abrir uma das janellas, em bicos de pés; e voltando á alcova com uma cautela mysteriosa:
--E está á espera da resposta, está á porta.
Luiza, estremunhada, abriu o largo enveloppe azul com um monogramma--dous BB, um purpura, outro ouro, sob uma corôa de conde.
--Bem, não tem resposta.
Não tem resposta--foi dizer Juliana ao criado, que esperava encostado ao corrimão, fumando um grande charuto, e cofiando as suiças pretas.
--Não tem resposta? Bem, muito bom dia.--Levou o dedo seccamente á aba do «côco», e desceu, gingando.
Perfeito homem! foi pensando Juliana, pela escada da cozinha.
--Quem bateu, snr.^a Juliana?--perguntou-lhe logo a cozinheira.
Juliana resmungou:
--Ninguem, um recado da modista.
Desde pela manhã a Joanna achava-lhe o «ar exquisito». Sentira-a desde as sete horas varrer, espanejar, sacudir, lavar as vidraças da sala de jantar, arrumar as louças no aparador. E com uma azafama! Ouvira-a cantar a _Carta adorada_, ao mesmo tempo que os canarios, nas varandas abertas, chilreavam estridentemente ao sol. Quando veio tomar o seu café á cozinha não palestrou como de costume; parecia preoccupada e ausente.
Joanna até lhe perguntou:
--Sente-se peor, snr.^a Juliana?
--Eu? Graças a Deus, nunca me senti tão bem.
--Como a vejo tão calada...
--A malucar cá por dentro... A gente nem sempre está para grulhar.
Apesar de serem nove horas não quizera acordar a senhora. Deixal-a descançar, coitada--disse. Foi em pontas de pés encher devagarinho a bacia grande do banho, no quarto; para não fazer ruido, sacudiu no corredor as saias, o vestido da vespera: e os seus olhos brilharam avidamente quando sentiu na algibeirinha um papel amarrotado! Era o bilhete que Luiza escrevera a Bazilio: «Porque não vens?... Se soubesses o que me fazes soffrer!...» Teve-o um momento na mão, mordendo o beiço, o olhar fixo n'um calculo agudo; por fim tornou a mettel-o na algibeira de Luiza, dobrou o vestido, foi estendel-o com muito cuidado na _causeuse_.
Enfim, mais tarde, sentindo o _cuco_ dar horas, decidiu-se a ir dizer a Luiza, com uma voz meiga:
--São dez e meia, minha senhora!
Luiza, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Bazilio: «Não pudera--escrevia ele--estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava. Mal dormira! Erguera-se de manhã muito cêdo para lhe jurar que estava louco, e que punha a sua vida aos pés d'ella.» Compozera aquella prosa na vespera, no Gremio, ás tres horas, depois de alguns _robbers_ d'_whist_, um bife, dous copos de cerveja e uma leitura preguiçosa da _Illustração_. E terminava, exclamando:--«Que outros desejem a fortuna, a gloria, as honras, eu desejo-te a ti! Só a ti, minha pomba, porque tu és o unico laço que me prende á vida, e se ámanhã perdesse o teu amor, juro-te que punha um termo, com uma boa bala, a esta existencia inutil!»--Pedira mais cerveja, e levára a carta para a fechar em casa, n'um enveloppe com o seu monogramma, «porque sempre fazia mais effeito».
E Luiza tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquellas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que sahia d'ellas, como um corpo resequido que se estira n'um banho tepido: sentia um acrescimo de estima par si mesma, e parecia-lhe que entrava emfim n'uma existencia superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto differente, cada passo conduzia a um extase, e a alma se cobria d'um luxo radioso de sensações!
Ergueu-se d'um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janella... Que linda manhã! Era um d'aquelles dias do fim d'agosto em que o estio faz uma pausa; ha prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranquillidade outonal; o sol cahe largo, resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento molle da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite d'um somno são, continuo, e todas as agitações, as impaciencias dos dias passados pareciam ter-se dissipado n'aquelle repouso. Foi-se vêr ao espelho; achou a pelle mais clara, mais fresca, e um enternecimento humido no olhar;--seria verdade então o que dizia Leopoldina, que «não havia como uma maldadesinha para fazer a gente bonita?» Tinha um amante, ella!
E immovel no meio do quarto, os braços cruzados, o olhar fixo, repetia: Tenho um amante! Recordava a sala na vespera, a chamma aguçada das velas, e certos silencios extraordinarios em que lhe parecia que a vida parára, em quanto os olhos do retrato da mãi de Jorge, negros na face amarella, lhe estendiam da parede o seu olhar fixo de pintura. Mas Juliana entrou com um taboleiro de roupa passada. Eram horas de se vestir...
Que requintes teve n'essa manhã! Perfumou a agua com um cheiro de _Lubin_, escolheu a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava por ser rica! Queria as bretanhas e as hollandas mais caras, as mobilias mais apparatosas, grossas joias inglezas, um coupé forrado de setim... Porque nos temperamentos sensiveis as alegrias do coração tendem a completar-se com as sensualidades do luxo: o primeiro erro que se installa n'uma alma até ahi defendida, facilita logo aos outros entradas tortuosas;--assim, um ladrão que se introduz n'uma casa vai abrindo subtilmente as portas á sua quadrilha esfomeada.
Subiu para o almoço, muito fresca, com o cabello em duas tranças, um roupão branco. Juliana precipitou-se logo a fechar as janellas, «porque apesar de não estar calor, as portadas cerradas sempre davam mais frescura!» E, vendo que lhe esquecera o lenço, correu a buscar-lhe um, que perfumou com agua de colonia. Servia-a com ternura. Viu-a comer muitos figos:
--Não lhe vão fazer mal, minha senhora!--exclamou quasi lacrimosamente.
Andava em redor d'ella com um sorriso servil, sem ruido: ou defronte da mesa, com os braços cruzados, parecia admiral-a com orgulho, como um sêr precioso e querido, todo seu, a _sua ama!_ O seu olhar esbugalhado apossava-se d'ella.
E dizia consigo:
--Grande cabra! Grande bebeda!
Luiza, depois de almoço, veio para o quarto estender-se na _causeuse_, com o seu _Diario de Noticias_. Mas não podia lêr. As recordações da vespera redemoinhavam-lhe n'alma a cada momento, como as folhas que um vento d'outono levanta a espaços d'um chão tranquillo: certas palavras d'elle, certos impetos, toda a sua maneira d'amar... E ficava immovel, o olhar afogado n'um fluido, sentindo aquellas reminiscencias vibrarem-lhe muito tempo, dôcemente, nos nervos da memoria. Todavia a lembrança de Jorge não a deixava; tivera-a sempre no espirito, desde a vespera; não a assustava, nem a torturava; estava alli, immovel mas presente, sem lhe fazer medo, nem lhe trazer remorso; era como se elle tivesse morrido, ou estivesse tão longe que não podesse voltar, ou a tivesse abandonado! Ela mesmo se espantava de se sentir tão tranquilla. E todavia impacientava-a ter constantemente aquella idéa no espirito, impassivel, com uma obstinação espectral; punha-se instinctivamente a accumular as justificações: Não fôra culpa sua. Não abrira os braços a Bazilio voluntariamente!... Tinha sido uma _fatalidade_: fôra o calor da hora, o crepusculo, uma pontinha de vinho talvez... Estava douda, de certo. E repetia comsigo as attenuações tradicionaes: não era a primeira que enganára seu marido; e muitas era apenas por vicio, ella fôra por paixão... Quantas mulheres viviam n'um amor illegitimo e eram illustres, admiradas! Rainhas mesmo tinham amantes. E elle amava-a tanto!... Seria tão fiel, tão discreto! As suas palavras eram tão captivantes, os seus beijos tão estonteadores!... E emfim que lhe havia de fazer agora? _Já agora_!...
E resolveu ir responder-lhe. Foi ao escriptorio. Logo ao entrar o seu olhar deu com a photographia de Jorge--a cabeça de tamanho natural,--no seu caixilho envernizado de preto. Uma commoção comprimiu-lhe o coração; ficou como _tolhida_--como uma pessoa encalmada de ter corrido, que entra na frieza d'um subterraneo; e examinava o seu cabello frisado, a barba negra, a gravata de pontas, as duas espadas encruzadas que reluziam por cima. Se elle soubesse matava-a!... Fez-se muito pallida. Olhava vagamente em redor o casaco de velludo de trabalho dependurado n'um prego, a manta em que elle embrulhava os pés dobrada a um lado, as grandes folhas de papel de desenho na outra mesa ao fundo, e o pótesinho do tabaco, e a caixa das pistolas!... Matava-a de certo!
Aquelle quarto estava tão penetrado da personalidade de Jorge, que lhe parecia que elle ia voltar, entrar d'ahi a bocado... Se elle viesse de repente!... Havia tres dias que não recebia carta--e quando ella estivesse alli a escrever ao seu amante, n'um momento o _outro_ podia apparecer e apanhal-a!... Mas eram tolices, pensou. O vapor do Barreiro só chegava ás cinco horas; e depois elle dizia na ultima carta que ainda se demorava um mez, talvez mais...
Sentou-se, escolheu uma folha de papel, começou a escrever, na sua letra um pouco gorda:
«_Meu adorado Bazilio_.
Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um _palpite_ de que elle vinha, ia entrar... Era melhor não se pôr a escrever, talvez!... Ergueu-se, foi á sala devagar, sentou-se no divan; e, como se o contacto d'aquelle largo sophá e o ardor das recordações que elle lhe trazia da vespera lhe tivesse dado a coragem das acções amorosas e culpadas, voltou muito decidida ao escriptorio, escreveu rapidamente:
«Não imaginas com que alegria recebi esta manhã a tua carta...»
A penna velha escrevia mal; molhou-a mais, e ao sacudil-a, como lhe tremia um pouco a mão, um borrão negro cahiu no papel. Ficou toda contrariada, pareceu-lhe aquillo um _mau agouro_. Hesitou um momento,--e coçando a cabeça, com os cotovêlos sobre a mesa, sentia Juliana varrer fóra o patamar, cantarolando a _Carta adorada_. Emfim, impaciente, rasgou a folha muitas vezes em pedacinhos miudos--e atirou-os para um caixão de pau envernizado com duas argolas de metal, que estava ao canto junto á mesa, onde Jorge deitava os rascunhos velhos e os papeis inuteis: chamavam-lhe o _sarcophago_; Juliana, de certo, descuidára-se de o esvaziar no lixo, porque transbordava de papelada.
Escolheu outra folha, recomeçou:
«_Meu adorado Bazilio_.
«Não imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manhã, ao acordar. Cobri-a de beijos...»
Mas o reposteiro franziu-se n'uma prega molle, a voz de Juliana disse discretamente:
--Está alli a costureira, minha senhora.
Luiza, sobresaltada, tinha tapado a folha de papel com a mão.
--Que espere.
E continuou:
«...Que tristeza que fosse a carta e que não fosses tu que alli estivesses! Estou pasmada de mim mesma, como em tão pouco tempo te apossaste do meu coração, mas a verdade é que nunca deixei de te amar. Não me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu desejo a tua estima, mas é que nunca deixei de te amar e ao tornar a vêr-te, depois d'aquella estupida viagem para tão longe, não fui superior ao sentimento que me impellia para ti, meu adorado Bazilio. Era mais forte que eu, meu Bazilio. Hontem, quando aquella maldita criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Bazilio, fiquei como morta; mas quando vi que não, nem eu sei, adorei-te! E se tu me tivesses pedido a vida dava-t'a, porque te amo, que eu mesma, me estranho... Mas para que foi aquella mentira, e para que vieste tu? Mau! tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas não posso, meu adorado Bazilio! É superior a mim. Sempre te amei, e agora que sou tua, que te pertenço corpo e alma, parece-me que te amo mais, se é possivel...»
--Onde está ella? Onde está ella?--disse uma voz na sala.
Luiza ergueu-se, com um salto, livida. Era Jorge! Amarrotou convulsivamente a carta, quiz escondel-a no bolso,--o roupão não tinha bolso! E desvairada, sem reflexão, arremessou-a para o _sarcophago_. Ficou de pé, esperando, as duas mãos apoiadas á mesa, a vida suspensa.
O reposteiro ergueu-se,--e reconheceu logo o chapéo de velludo azul de D. Felicidade.
--Aqui mettida, sua brejeira! Que estavas tu aqui a fazer? Que tens tu, filha, estás como a cal...
Luiza deixou-se cahir no _fauteuil_, branca e fria, disse com um sorriso cançado:
--Estava a escrever, deu-me uma tontura...
--Ai! Tonturas, eu!--acudiu logo D. Felicidade--É uma desgraça, a cada momento a agarrar-me aos moveis, até tenho medo d'andar só. Falta de purgas!
--Vamos para o quarto!--disse logo Luiza.--Estamos melhor no quarto.
Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe.