O Primo Bazilio: Episodio Domestico
Part 1
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Rita Farinha (Junho 2013)
O PRIMO BAZILIO
PORTO: TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA Rua da Cancella Velha, 70
[Figura: Assinatura]
EÇA DE QUEIROZ
O PRIMO BAZILIO
EPISODIO DOMESTICO
SEGUNDA EDIÇÃO, REVISTA
[Figura]
LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON Porto
EUGENIO CHARDRON Braga
1878
Porto: 1878--Typ. do A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62
O PRIMO BAZILIO
I
Tinham dado onze horas no _cuco_ da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha _voltaire_ de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse:
--Tu não te vaes vestir, Luiza?
--Logo.
Ficára sentada á mesa, a lêr _o Diario de Noticias_, no seu roupão de manhã de fazenda preta, bordado a _soutache_, com largos botões de madreperola; o cabello louro um pouco desmanchado, com um tom secco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pelle tinha a brancura tenra e lactea das louras: com o cotovêlo encostado á mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dous anneis de rubis miudinhos davam scintillações escarlates.
Tinham acabado d'almoçar.
A sala esteirada, alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um domingo: fazia um grande calor; as duas janellas estavam cerradas, mas sentia-se fóra o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silencio recolhido e somnolento de manhã de missa; uma vaga _quebreira_ amollentava, trazia desejos de séstas, ou de sombras fôfas debaixo d'arvoredos, no campo, ao pé d'agua; nas duas gaiolas, entre as bambinellas de cretone azulado, os canarios dormiam; um zumbido monotono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chavenas sobre o assucar mal derretido, enchia toda a sala d'um rumor dormente.
Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa de chita, sem collete, o jaquetão de flanella azul aberto, os olhos no tecto, pôz-se a pensar na sua jornada ao Alemtejo. Era engenheiro de minas, no dia seguinte devia partir para Beja, para Evora, mais para o sul até S. Domingos; e aquella jornada, em julho, contrariava-o como uma interrupção, affligia-o como uma injustiça. Que massada por um verão d'aquelles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto d'um cavallo d'aluguel, por esses descampados do Alemtejo que não acabam nunca, cobertos d'um rastolho escuro, abafados n'um sol baço, onde os moscardos zumbem! Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo cozido, ouvindo em redor, na escuridão da noite torrida, grunhir as varas dos porcos! A todo o momento sentir entrar pelas janellas, passar no ar o bafo quente das queimadas! E só!
Tinha estado até então no ministerio, em commissão. Era a primeira vez que se separava de Luiza; e perdia-se já em saudades d'aquella salinha, que elle mesmo ajudára a forrar de papel novo nas vesperas do seu casamento, e onde, depois das felicidades da noite, os seus almoços se prolongavam em tão suaves preguiças!
E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se demorando, com uma ternura, n'aquelles moveis intimos, que eram do tempo da mamã: o velho guarda-louça envidraçado, com as pratas muito tratadas a gesso-cré, resplandecendo decorativamente; o velho painel a oleo, tão querido, que vira desde pequeno, onde apenas se percebiam, n'um fundo lascado, os tons avermelhados de cobre d'um bojo de cassarola e os rosados desbotados d'um mólho de rabanetes! Defronte, na outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido á moda de 1830, tinha a physionomia redonda, o olho luzidio, o beiço sensual; e sobre a sua casaca abotoada reluzia a commenda de Nossa Senhora da Conceição. Fôra um antigo empregado do ministerio da fazenda, muito divertido, grande tocador de flauta. Nunca o conhecera, mas a mamã affirmava-lhe «que o retrato só lhe faltava fallar». Vivera sempre n'aquella casa com sua mãi. Chamava-se Isaura: era uma senhora alta, de nariz afilado, muito apprehensiva; bebia ao jantar agua quente; e ao voltar um dia do lausperenne da Graça, morrera de repente, sem um ai!
Physicamente Jorge nunca se parecera com ella. Fôra sempre robusto, d'habitos viris. Tinha os dentes admiraveis de seu pai, os seus hombros fortes.
De sua mãi herdára a placidez, o genio manso. Quando era estudante na Polytechnica, ás 8 horas recolhia-se, accendia o seu candieiro de latão, abria os seus compendios. Não frequentava botequins, nem fazia noitadas. Só duas vezes por semana, regularmente, ia vêr uma rapariguita costureira, a Euphrasia, que vivia ao Borratem, e nos dias em que o Brazileiro, o seu homem, ia jogar o boston ao club, recebia Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; era engeitada, e no seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado d'uma pontinha de febre. Jorge achava-a _romanesca_, e censurava-lh'o. Elle, nunca fôra sentimental: os seus condiscipulos, que liam Alfred de Musset suspirando e desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe _proseirão, burguez_: Jorge ria; não lhe faltava um botão nas camisas, era muito escarolado, admirava Luiz Figuier, Bastiat e Castilho, tinha horror a dividas, e sentia-se feliz.
Quando sua mãi morreu, porém, começou a achar-se só: era no inverno, e o seu quarto nas trazeiras da casa, ao sul, um pouco desamparado, recebia as rajadas do vento na sua prolongação uivada e triste; sobretudo á noite, quando estava debruçado sobre o compendio, os pés no capacho, vinham-lhe melancolias languidas; estirava os braços, com o peito cheio d'um desejo; quereria enlaçar uma cinta fina e dôce, ouvir na casa o frou-frou d'um vestido! Decidiu casar. Conheceu Luiza, no verão, á noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos seus cabellos louros, pela sua maneira d'andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No inverno seguinte foi despachado, e casou. Sebastião, o seu intimo, o bom Sebastião, o Sebastiarrão, tinha dito, com uma oscillação grave da cabeça, esfregando vagarosamente as mãos:
--Casou no ar! casou um bocado no ar!
Mas Luiza, a Luizinha, sahiu muito boa dona de casa: tinha cuidados muito sympathicos nos seus arranjos; era aceada, alegre como um passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das caricias do macho: e aquelle serzinho louro e meigo veio dar á sua casa um encanto serio.
--É um anjinho cheio de dignidade!--dizia então Sebastião, o bom Sebastião, com a sua voz profunda de _basso_.
Estavam casados havia tres annos. Que bom que tinha sido! Elle proprio melhorára; achava-se mais intelligente, mais alegre... E recordando aquella existencia facil e dôce, soprava o fumo do charuto, a perna traçada, a alma dilatada, sentindo-se tão bem na vida como no seu jaquetão de flanella!
--Ah!--fez Luiza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo.
--Que é?
--É o primo Bazilio que chega!
E leu alto, logo:
«Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordeus, o snr. Bazilio de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. S. exc.^a que, como é sabido, tinha partido para o Brazil, onde se diz reconstituira a sua fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o começo do anno passado. A sua volta á capital é um verdadeiro jubilo para os amigos de s. exc.^a que são numerosos».
--E são!--disse Luiza, muito convencida.
--Estimo, coitado!--fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma da mão.--E vem com fortuna, hein?
--Parece.
Olhou os annuncios, bebeu um gole de chá, levantou-se, foi abrir uma das portadas da janella.
--Oh Jorge, que calor que lá vai fóra, santo Deus!--Batia as palpebras sob a radiação da luz crua e branca.
A sala, nas trazeiras da casa, dava para um terreno vago, cercado d'um taboado baixo, cheio d'hervas altas e d'uma vegetação d'acaso; aqui, alli, n'aquella verdura crestada do verão, largas pedras faiscavam, batidas do sol perpendicular; e uma velha figueira brava, isolada no meio do terreno, estendia a sua grossa folhagem immovel, que, na brancura da luz, tinha os tons escuros do bronze. Para além eram as trazeiras d'outras casas, com varandas, roupas seccando em cannas, muros brancos de quintaes, arvores esguias. Uma vaga poeira embaciava, tornava espesso o ar luminoso.
--Cahem os passaros!--disse ella cerrando a janella.--Olha tu pelo Alemtejo, agora!
Veio encostar-se á _voltaire_ de Jorge, passou-lhe lentamente a mão sobre o cabello preto e annelado. Jorge olhou-a, triste já da separação: os dous primeiros botões do seu roupão estavam desapertados; via-se o começo do peito de uma brancura muito tenra, a rendinha da camisa: muito castamente Jorge abotoou-lh'os.
--E os meus colletes brancos?--disse.
--Devem estar promptos.
Para se certificar chamou Juliana.
Houve um ruido domingueiro de saias engommadas, Juliana entrou, arranjando nervosamente o collar e o broche. Devia ter quarenta annos, era muitissimo magra. As feições, miudas, espremidas, tinham a amarellidão de tons baços das doenças de coração. Os olhos grandes, encovados, rolavam n'uma inquietação, n'uma curiosidade, raiados de sangue, entre palpebras sempre debruadas de vermelho. Usava uma cuia de retroz imitando tranças, que lhe fazia a cabeça enorme. Tinha um _tic_ nas azas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto da roda, tufado pela gomma das saias--mostrava um pé pequeno, bonito, muito apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz.
Os colletes não estavam promptos, disse com uma voz muito lisboeta, não tivera tempo de os metter em gomma.
--Tanto lhe recommendei, Juliana!--disse Luiza.--Bem, vá. Veja como se arranja! Os colletes hão-de ficar á noite na mala!
E apenas ella sahiu:
--Estou a tomar odio a esta creatura, Jorge!
Ha dous mezes que a tinha em casa, e não se podera acostumar á sua fealdade, aos seus tregeitos, á maneira aflautada de dizer _chapieu_, _tisoiras_, de arrastar um pouco os _rr_, ao ruido dos seus tacões que tinham laminasinhas de metal: ao domingo, a cuia, o pretencioso do pé, as luvas de pellica preta arripiavam-lhe os nervos.
--Que antipathica!
Jorge ria:
--Coitada, é uma pobre de Christo!--E depois que engommadeira admiravel! No ministerio examinavam com espanto os seus peitilhos!--O Julião diz bem, eu não ando engommado, ando esmaltado! Não é sympathica, não, mas é aceada, é apropositada...
E levantando-se, com as mãos nos bolsos das suas largas calças de flanella:
--E, emfim, minha filha, a maneira como ella se portou na doença da tia Virginia... Foi um anjo para ella!--Repetiu com solemnidade:--De dia, de noite, foi um anjo para ella! Estamos-lhe em divida, minha filha!--E começou a enrolar um cigarro, com a physionomia muito séria.
Luiza, calada, fazia saltar com a pontinha da chinella a orla do roupão; e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida, poz-se a dizer:
--Mas emfim, se eu embirro com ella, não me importa, posso bem mandal-a embora.
Jorge parou, e raspando um phosphoro na sola do sapato:
--Se eu consentir, minha rica. É que é uma questão de gratidão, para mim!
Ficaram calados. O _cuco_ cantou meio dia.
--Bem, vou á vida--disse Jorge. Chegou-se ao pé d'ella, tomou-lhe a cabeça entre as mãos.
--Viborasinha!--murmurou, fitando-a muito meigamente.
Ella riu. Ergueu para elle os seus magnificos olhos castanhos, luminosos e meigos. Jorge enterneceu-se, poz-lhe sobre as palpebras dous beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho, com uma meiguice:
--Queres alguma cousa de fóra, amor?
Que não viesse muito tarde.
Ia deixar uns bilhetes, ia n'uma tipoia, era um pulo...
E sahiu, feliz, cantando com a sua boa voz de barytono:
Dio del oro, Del mondo signor. La la ra, la ra.
Luiza espreguiçou-se. Que sécca ter de se ir vestir! Desejaria estar n'uma banheira de marmore côr de rosa, em agua tepida, perfumada, e adormecer! Ou n'uma rede de sêda, com as janellas cerradas, embalar-se, ouvindo musica! Sacudiu a chinellinha: esteve a olhar muito amorosamente o seu pé pequeno, branco como leite, com veias azues, pensando n'uma infinidade de cousinhas:--em meias de sêda que queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em tres guardanapos que a lavadeira perdera...
Tornou a espreguiçar-se. E saltando na ponta do pé descalço, foi buscar ao aparador por detraz d'uma compota um livro um pouco enxovalhado, veio estender-se na _voltaire_, quasi deitada, e, com o gesto acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, começou a lêr, toda interessada.
Era a _Dama das Camelias_. Lia muitos romances; tinha uma assignatura, na Baixa, ao mez. Em solteira, aos 18 annos, enthusiasmára-se por Walter-Scott e pela Escocia; desejára então viver n'um d'aquelles castellos escocezes, que teem sobre as ogivas os brazões da _clan_, mobilados com arcas gothicas e tropheus d'armas, forrados de largas tapecerias, onde estão bordadas legendas heroicas, que o vento do lago agita e faz viver: e amára Ervandálo, Morton e Ivanhoé, ternos e graves, tendo sobre o gorro a penna d'aguia, presa ao lado pelo cardo d'Escocia d'esmeraldas e diamantes. Mas agora era o _moderno_ que a captivava, Paris, as suas mobilias, as suas sentimentalidades. Ria-se dos trovadores, exaltára-se por Mr. de Camors; e os homens ideaes appareciam-lhe de gravata branca, nas hombreiras das salas de baile, com um magnetismo no olhar, devorados de paixão, tendo palavras sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier: o seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia ennevoada: via-a alta e magra, com o seu longo chale de cachemira, os olhos negros cheios da avidez da paixão e dos ardores da tisica; nos nomes mesmo do livro--Julia Duprat, Armando, Prudencia, achava o sabor poetico d'uma vida intensamente amorosa; e todo aquelle destino se agitava, como n'uma musica triste, com ceias, noites delirantes, afflicções de dinheiro, e dias de melancolia no fundo d'um coupé, quando nas avenidas do Bois, sob um céo pardo e elegante, silenciosamente cahem as primeiras neves.
--Até logo, Zizi--gritou Jorge do corredor, ao sahir.
--Olha!
Elle veio, com a bengala debaixo do braço, apertando as luvas.
--Não appareças muito tarde, hein? Escuta, traze-me uns bolos do Baltresqui para a D. Felicidade. Ouve. Vê se passas pela madame François que me mande o chapéo. Escuta.
--Que mais, bom Deus?
--Ah! não! Era para ires pelo livreiro que me mande mais romances... Mas está fechado!
Foi com duas lagrimas a tremer-lhe nas palpebras que acabou as paginas da _Dama das Camelias_. E estendida na _voltaire_, com o livro cahido no regaço, fazendo recuar a pellicula das unhas, pôz-se a cantar baixinho, com ternura, a aria final da _Traviata_:
Addio, del passato...
Lembrou-lhe de repente a noticia do jornal, a chegada do primo Bazilio...
Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios.--Fôra o seu primeiro namoro, o primo Bazilio! Tinha ella então 18 annos! Ninguem o sabia, nem Jorge, nem Sebastião...
De resto fôra uma criancice: ella mesmo, ás vezes, ria, recordando as pieguices ternas d'então, certas lagrimas exageradas! Devia estar mudado o primo Bazilio. Lembrava-se bem d'elle--alto, delgado, um ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido, e um geito de metter as mãos nos bolsos das calças fazendo tilintar o dinheiro e as chaves! _Aquillo_ começára em Cintra, por grandes partidas de bilhar muito alegres, na quinta do tio João de Brito, em Collares. Bazilio tinha chegado então d'Inglaterra: vinha muito _bife_, usava gravatas escarlates passadas n'um annel d'ouro, fatos de flanella branca, espantava Cintra! Era na sala de baixo pintada a oca, que tinha um ar antigo e morgado; uma grande porta envidraçada abria para o jardim, sobre tres degraus de pedra. Em roda do repuxo havia romanzeiras, onde elle apanhava flôres escarlates. A folhagem verde-escura e polida dos arbustos de camelias fazia ruasinhas sombrias; pedaços de sol faiscavam, tremiam na agua do tanque; duas rôlas, n'uma gaiola de vime, arrulhavam dôcemente;--e, no silencio aldeão da quinta, o ruido secco das bolas de bilhar tinha um tom aristocratico.
Depois, vieram todos os episodios classicos dos amores lisboetas passados em Cintra: os passeios em Sitiaes ao luar, devagar, sobre a relva pallida, com grandes descanços calados no Penedo da Saudade, vendo o valle, as arêas ao longe, cheias d'uma luz saudosa, idealisadora e branca; as séstas quentes, nas sombras da Penha Verde, ouvindo o rumor fresco e gottejante das aguas que vão de pedra em pedra; as tardes na varzea de Collares, remando n'um velho bote, sobre a agua escura da sombra dos freixos,--e que risadas quando iam encalhar nas hervagens altas, e o seu chapéo de palha se prendia aos ramos baixos dos choupos!
Sempre gostára muito de Cintra! Logo ao entrar os arvoredos escuros e murmurosos do Ramalhão lhe davam uma melancolia feliz!
Tinham muita liberdade, ella e o primo Bazilio. A mamã, coitadinha, toda scismatica, com rheumatismo, egoista, deixava-os, sorria, dormitava: Bazilio era rico, então, chamava-lhe tia Jójó, trazia-lhe cartuchos de dôce...
Veio o inverno, e aquelle amor foi-se abrigar na velha sala forrada de papel _sangue-de-boi_ da rua da Magdalena. Que bons serões alli! A mamã resonava baixo, com os pés embrulhados n'uma manta, o volume da _Bibliotheca das Damas_ cahido sobre o regaço. E elles, muito chegados, muito felizes no sophá! O _sophá_! Quantas recordações! Era estreito e baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao centro, bordada por ella, amores perfeitos amarellos e roxos sobre um fundo negro. Um dia veio o _final_. João de Brito, que fazia parte da firma Bastos & Brito, falliu. A casa d'Almada, a quinta de Collares foram vendidas.
Bazilio estava pobre, partiu para o Brazil. Que saudades! Passou os primeiros dias sentada no sophá querido, soluçando baixo, com a photographia d'elle entre as mãos. Vieram então os sobresaltos das cartas esperadas, os recados impacientes ao escriptorio da Companhia, quando os paquetes tardavam...
Passou um anno. Uma manhã, depois d'um grande silencio de Bazilio, recebeu da Bahia uma longa carta, que começava: «Tenho pensado muito e entendo que devemos considerar a nossa inclinação como uma criancice...»
Desmaiou logo. Bazilio affectava muita dôr em duas laudas cheias d'explicações: que estava ainda pobre; que teria de luctar muito antes de ter para dous; o clima era horrivel; não a queria sacrificar, pobre anjo; chamava-lhe minha «pomba» e assignava o seu nome todo, com uma firma complicada.
Viveu triste durante mezes. Era no inverno; e sentada á janella, por dentro dos vidros, com o seu bordado de lã, julgava-se desilludida, pensava no convento, seguindo com um olhar melancolico os guarda-chuvas gottejantes que passavam sob as cordas d'agua; ou sentando-se ao piano, ao anoitecer, cantava Soares de Passos:
Ai! adeus, acabaram-se os dias Que ditoso vivi a teu lado...
ou o final da _Traviata_, ou o fado do Vimioso, muito triste, que elle lhe ensinára.
Mas então o catarrho da mamã aggravou-se; vieram os sustos, as noites veladas. Na convalescença foram para Bellas: ligou-se alli muito com as Cardosos, duas irmãs magras, estouvadas e esguias, sempre colladas uma á outra, com um passinho trotado e secco, como um casal de galgos. O que riam, Jesus! O que fallavam dos homens! Um tenente de artilheria tinha-se apaixonado por ella. Era vesgo, mandou-lhe uns versos, _Ao Lyrio de Bellas_:
Sobre a encosta da collina Cresce o lyrio virginal...
Foi um tempo muito alegre, cheio de consolações.
Quando voltaram no inverno tinha engordado, trazia boas côres. E um dia, tendo achado n'uma gaveta uma photographia que logo ao principio Bazilio lhe mandára da Bahia, de calça branca e chapéo _panamá_, fitou-a, encolhendo os hombros:
--E o que eu me ralei por esta figura! Que tôla!
Tinham passado tres annos quando conheceu Jorge. Ao principio não lhe agradou. Não gostava dos homens barbados: depois percebeu que era a primeira barba, fina, rente, muito macia de certo; começou a admirar os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar, sentia ao pé d'elle como uma fraqueza, uma dependencia e uma quebreira, uma vontade d'adormecer encostada ao seu hombro, e de ficar assim muitos annos, confortavel, sem receio de nada. Que sensação quando elle lhe disse: Vamos casar, hein! Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios, sobre o mesmo travesseiro, ao pé do seu! Fez-se escarlate. Jorge tinha-lhe tomado a mão: ella sentia o calor d'aquella palma larga penetral-a, tomar posse d'ella: disse que _sim_, ficou como idiota, e sentia debaixo do vestido de merino dilatarem-se dôcemente os seus seios. Estava noiva, emfim! Que alegria, que descanço para a mamã!
Casaram ás oito horas, n'uma manhã de nevoeiro. Foi necessario accender luz para lhe pôr a corôa e o véo de tulle. Todo aquelle dia lhe apparecia como ennevoado, sem contornos, á maneira d'um sonho antigo--onde destacava a cara balofa e amarellada do padre, e a figura medonha d'uma velha, que estendia a mão adunca, com uma sofreguidão colerica, empurrando, rogando pragas, quando, á porta da igreja, Jorge commovido distribuia patacos. Os sapatos de setim apertavam-na. Sentira-se enjoada da madrugada, fôra necessario fazer-lhe chá verde muito forte. E tão cançada á noite n'aquella casa nova, depois de desfazer os seus bahus!--Quando Jorge apagou a véla, com um sopro tremulo, SS luminosos faiscavam, corriam-lhe diante dos olhos.
Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre: pôz-se a adoral-o. Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas cousas, mexia-lhe no cabello, na roupa, nas pistolas, nos papeis. Olhava muito para os maridos das outras, comparava, tinha orgulho n'elle. Jorge envolvia-a em delicadezas d'amante, ajoelhava-se aos seus pés, era muito _dengueiro_. E sempre de bom humor, com muita graça: mas nas cousas da sua profissão ou do seu brio tinha severidades exageradas, e punha então nas palavras, nos modos uma solemnidade carrancuda. Uma amiga d'ella romanesca, que via em tudo dramas, tinha-lhe dito: é homem para te dar uma punhalada. Ella que não conhecia ainda então o temperamento placido de Jorge acreditou, e isso mesmo creou uma exaltação no seu amor por elle. Era o seu _tudo_,--a sua força, o seu fim, o seu destino, a sua religião, o seu homem!--Pôz-se a pensar, o que teria succedido se tivesse casado com o primo Basilio. Que desgraça, hein! Onde estaria? Perdia-se em supposições d'outros destinos, que se desenrolavam, como pannos de theatro: via-se no Brazil, entre coqueiros, embalada n'uma rede, cercada de negrinhos, vendo voar papagaios!
--Está alli a snr.^a D. Leopoldina--veio dizer Juliana.
Luiza ergueu-se surprehendida.
--Hein? A snr.^a D. Leopoldina? Para que mandou entrar?
Poz-se a abotoar á pressa o roupão. Jesus! Olha se Jorge soubesse! Elle que lhe tinha dito tantas vezes «que a não queria em casa!» Mas se já estava na sala, agora, coitada!
--Está bom, diga-lhe que já vou.
Era a sua intima amiga. Tinham sido visinhas, em solteiras, na rua da Magdalena, e estudado no mesmo collegio, á Patriarchal, na Rita Pessoa, a côxa. Leopoldina era a filha unica do visconde de Quebraes, o devasso, o cachetico, que fôra pagem de D. Miguel. Tinha feito um casamento infeliz com um João Noronha, empregado da alfandega. Chamavam-lhe a «Quebraes»; chamavam-lhe tambem a «Pão e queijo».
Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vicios. Jorge odiava-a. E dissera muitas vezes a Luiza: Tudo, menos a Leopoldina!