O Primeiro de Maio

Part 6

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A solidariedade operaria não é senão um resultado da cooperação. Disse-o Cesar de Paepe, num discurso eloquentissimo, pronunciado no congresso internacional cooperativo de Paris.

«Não ha, na Belgica, um Lassalle e um Schultze inimigos, exclamava o illustre chefe do socialismo belga; ha sim! um partido operario que é, ao mesmo tempo, cooperativista, republicano e socialista.»

E accrescentou:

«Os cooperadores belgas associaram-se sempre ás manifestações em favor do suffragio universal.

«As nossas sociedades cooperativas não têem por fim realisar interesses para alguns individuos, senão, ao contrario, desenvolver os sentimentos de solidariedade entre os seus membros.»

A cooperação dos trabalhadores póde e deve tomar-se em dois sentidos differentes: um sentido restricto e um sentido amplo e generico. No primeiro caso, a cooperação limita-se a explorar as cooperativas sociaes, quer sejam as de producção, quer sejam as de consumo, quer sejam as de credito. No segundo caso, a cooperação estende-se alêm das fronteiras e affirma-se pelo principio da solidariedade de classe, no combate quotidiano contra o capitalismo e o industrialismo, em favor das reivindicações operarias.

[Gravura: Cesar de Paepe]

Do mesmo modo que para todo o cidadão ha duas patrias--a patria onde cada um exerce a sua actividade e essa outra grande patria, a que estamos vinculados pelos nossos ideaes e pelas nossas aspirações, que se chama humanidade; assim tambem a cooperação dos trabalhadores tem de ser, ao mesmo tempo, nacional e internacional: nacional pela affirmação da solidariedade operaria, em cada paiz, e internacional pela affirmação da solidariedade com os companheiros de todos os paizes, de todas as raças, de todas as religiões e de todas as linguas.

Da legislação internacional do trabalho, fizeram os socialistas o artigo 1.º do seu programma. O internacionalismo manifesta-se, a cada passo, nas relações entre os povos. A facilidade de communicações tem concorrido extraordinariamente para isso. Mas ao facto material da rapidez nas viagens, devemos juntar o facto moral da transformação, realisada nos velhos processos politicos e da corrente, cada vez mais intensa e cada vez mais poderosa, das idéas modernas.

_Proletarios de todo o mundo, uni-vos!_ Era esta a divisa de Karl Marx, e é esta a divisa do socialismo revolucionario.

Mas a verdadeira união só poderá conseguir-se pelas associações de classe. No dia em que o proletariado tiver realisado este grande e supremo _desideratum_, n'esse dia terá soado a hora da sua emancipação. E deante do formidavel exercito, não haverá nem canhões Krupp nem espingardas Kropateschaek que valham ou prevaleçam. Isto matará aquillo. O proletariado organisado matará a realeza armada. O trabalhador vencerá o soldado. O homem livre e consciente transformará o velho mundo, enthronisando a paz e a justiça, no logar onde campeava a iniquidade e a desegualdade social.

A beneficencia publica e particular, a caridade official e outros palliativos de egual natureza, são impotentes para resolver o problema, porque humilham aquelle que se pretende beneficiar, rebaixam os caracteres, engendram a preguiça e entreteem a mendicidade.

Não se trata apenas, de soccorrer os pobres: o que se trata é de supprimir a pobreza. E para isso é mister que a sociedade, em vez de uma madrasta odienta, se converta em mãe protectora e disvelada; é mister que a todos, sem excepção, seja garantido o direito á instrucção e o direito ao trabalho, que são uma consequencia do direito á existencia; é mister que a educação e os meios de produzir não constituam o privilegio de uma minoria rica e favorecida da sorte; é mister, não só que todos sejam eguaes perante a lei, senão tambem que todos sejam eguaes perante a sociedade, pelo desenvolvimento physico e moral, pela posse dos instrumentos de producção e pelo gozo do credito; é mister, emfim, que o altruismo e a bondade se sobreponham ao egoismo e á crueldade das modernas sociedades.

* * * * *

AS COOPERATIVAS OPERARIAS

Ha quem pense que as cooperativas operarias podem concorrer poderosamente para a extincção da miseria. Não somos d'esse numero. As cooperativas, (e quando fallo em cooperativas, refiro-me particularmente ás cooperativas de consumo) podem, quando muito, attenuar, e attenuam, com effeito, as condições de existencia do proletariado. Mas d'ahi, a resolver o problema da sua emancipação, vae um abysmo.

Quer isto dizer que tenham sido estereis todas as tentativas feitas para manter e sustentar as cooperativas? De modo algum. Entre os que tudo pedem e esperam da iniciativa das corporações operarias e os que tudo esperam do Estado, entre os dois exclusivismos, ha um meio termo que Malon synthetisava nas palavras de um velho proverbio: _Aide-toi, les pouvoirs publics t'aideront._

Os esforços cooperativos e corporativos, do mesmo modo que a procura de uma melhoria immediata, devem ter por alvo a educação administrativa e a organisação dos trabalhadores, para se chegar á abolição do salariado, com o concurso dos poderes publicos, influenciados primeiro e conquistados depois.[3]

Tal era o programma do pae da cooperação, o illustre Robert Owen; mas não foi esta a politica seguida pelos seus successores, que mutilaram a ideia do mestre, fazendo da cooperação um _fim_, quando não é nem deve ser senão um _meio_.

* * * * *

OS APOSTOLOS DA COOPERAÇÃO

Durante muito tempo, foi grande e profunda a inimisade entre cooperativistas e socialistas, se bem que o principio da cooperação tenha uma origem caracterisadamente socialista, tendo sido, como já dissemos, Robert Owen o seu primeiro apostolo. A elle se devem as primeiras tentativas de cooperação; foi elle quem inventou a palavra e quem propagou a theoria. Robert Owen, o inventor e o apostolo das _sociedades cooperativas_--escrevia d'Assaily que para todos deve ser insuspeito, pela sua tendencia conservadora e retrograda--pretendeu realisal-as n'um estabelecimento, onde o trabalho collectivo abraçasse, ao mesmo tempo, a agricultura e a industria; onde o espirito tivesse, como o corpo, a sua parte de legitima satisfação; onde o trabalho fosse voluntario; onde não fosse punida a minima infracção; onde não fossem obrigatorias quaesquer privações, e onde o respeito dos direitos fosse o resultado d'um mutuo interesse.»

A idéa de Robert Owen era demasiadamente idealista e synthetica para o proletariado da Inglaterra. Mas, pratico como é, o operario inglez descobriu-lhe logo o lado util, e assim nasceram as cooperativas de consumo, que, após algumas tentativas, chegaram a ter um resultado brilhante nos _Pionniers de Rochdale_.

Só é efficaz a cooperativa de consumo; a de producção é impotente para luctar com outras emprezas congeneres, attenta a difficuldade em obter o capital que é, por via de regra, superior ás forças operarias; e a de credito, por seu turno, tropeça praticamente com embaraços e obstaculos insuperaveis.

Devemos, porém, repetir, com Malon, que todas as fórmas cooperativas servem, em geral, para preparar a educação administrativa do proletariado, tornando-o mais apto para as reivindicações de ordem politica e social.

Os socialistas fazem mal, rebaixando e combatendo as tentativas cooperativistas. Do mesmo modo que a iniciativa individual só por si seria impotente, assim tambem a acção dos poderes publicos não poderá ser nunca verdadeiramente benefica, se não fôr secundada pelos esforços collectivos de um proletariado já familiarisado com as difficuldades administrativas das organisações politicas e economicas.

Sob este ponto de vista, a cooperação, verdadeira escola de pratica industrial e commercial, desembaraçando-se pouco a pouco do primeiro exclusivismo, é uma excellente preparação para as reformas sociaes, que o proletariado terá um dia de arrancar aos poderes publicos.

N'uma palavra, cooperadores e socialistas são militantes na mesma obra de renovação e de justiça. Os trabalhos de uns e as luctas dos outros completam-se mutuamente, e a sua união apressaria o dia, por todos desejado, da emancipação humana.

Associamos-nos pois, de todo o coração ao generoso appêlo dirigido aos socialistas por Louis Bertrand, que é, ao mesmo tempo, um dos primeiros vulgarisadores do collectivismo e um cooperador pratico.

«Á obra pois, companheiros, á obra! Não esqueçais nunca que qualquer nova sociedade cooperativa é um passo a mais para a sociedade do futuro, a sociedade que sonhamos, feita de justiça e de solidariedade, e na qual todos encontrarão o seu bem-estar em troca de um trabalho facil e remunerador.

«Mas não olvideis, sobretudo, que o fim a attingir não se limita a beneficiar ou a fazer beneficiar os operarios de alguns francos por semana ou por mez, e que é preciso ter sempre em vista o fim supremo: a libertação completa da classe operaria pela suppressão do salariado e pela applicação das doutrinas socialistas.»[4]

[Gravura: Louis Bertrand]

Na cooperação belga destacam-se cinco grandes realisações, porventura as primeiras e as mais solidas realisações do principio cooperativista: a sociedade do _Vooruit (àvante)_, de Gand; o _Progrés_, de Jolimont-La-Louvrière; a _Maison du Peuple_, de Bruxellas; o _Werker_, d'Anvers; e a _Populaire_, de Liége.

A mais importante, o _Vooruit_, possue uma padaria, officinas de calçado, de vestuario, de quinquilheria, _armazens_ de carvão e um café restaurante onde é prohibida a venda de bebidas alcoolicas. O _Vooruit_ possue tambem uma caixa de soccorros, sendo os doentes curados gratuitamente. O jornal que se intitula _Vooruit_ tira por dia 10:000 exemplares. A sociedade _Vooruit_ tem 40 administradores e 150 empregados, e fazem negocios 2.500.000 francos por anno. O centro de estudos, as camaras syndicaes, as sociedades de musica e de gymnastica, constituem outras tantas secções da cooperativa que tem servido de modelo a todas as outras cooperativas belgas.

[Gravura: Anseele]

Anseele é o gerente do _Vooruit_, como Jean Volders é o gerente da _Maison du Peuple_. A elles se deve uma parte da propaganda socialista da Belgica, porque as cooperativas, n'aquelle paiz, apresentam uma feição eminentemente revolucionaria e constituem, para o proletariado, uma formidavel arma de combate. Quantas _grèves_ não teem sido sustentadas com o pão e o carvão distribuido pelas cooperativas?! É que os belgas fizeram das cooperativas de consumo, ao mesmo tempo, um elemento de interesse pessoal, de resistencia politica e de propaganda socialista. Os dividendos a distribuir a cada associado constituem o fundo social do partido. E d'este modo, tão digno de ser imitado, organisaram os socialistas belgas o mais poderoso e valente exercito que temos visto e admirado, o grande e honrado exercito da sciencia e do trabalho, o invencivel exercito do povo, o exercito do futuro!

[Gravura: Jean Volders]

Os cinco grupos, acima referidos, não comprehendem, ainda assim, todo o movimento cooperativo belga, que, em 1889, havia attingido os algarismos seguintes:

Cooperativas alimenticias 53

Padarias 36

Bancos populares 19

Sociedades de producção 18

Syndicatos agricolas 15

Cooperativas de industriaes e commerciantes 10

Pharmacias populares 6

Uniões de credito 5

Diversas sociedades 17

Total 179

E Jean Volders não descança um momento, percorrendo a Belgica em missão de propaganda, uma e mais vezes por anno, espalhando a ideia e attrahindo proselytos á sua generosa causa!

Uni-vos pois, trabalhadores! Organisae-vos e defendei-vos, creando escolas, estabelecendo cooperativas, fundando associações de classe e preparando-vos por todos os meios, para o supremo combate contra os vossos exploradores e os vossos inimigos. Sois hoje o numero e sereis ámanhã a qualidade! Para isso uma unica cousa bastará:--que vos associeis, nacional e internacionalmente. Na associação está a vossa força. Usae d'ella! Reuni os vossos elementos. Instrui, trabalhae, educae-vos. Sereis os vencedores. O mal não está n'este ou n'aquelle paiz: está na sociedade em geral. Os governos recuam e os reis e imperadores pensam que a salvação está na morte ou no desapparecimento dos insubmissos e rebeldes. Puro engano! Os effeitos hão ser os mesmos, emquanto subsistirem as mesmas causas. Eliminae o mal, pela vossa perseverança na lucta e pela vossa constancia no combate. Formae, adestrae os vossos batalhões. Sois regimento e sereis exercito. Tendes por vós a razão e a justiça. Confiae no futuro. Que a voz de commando seja só uma e que a obediencia seja geral e completa!

O proletariado é só um, tem um só interesse e uma só aspiração. Não conhece raças, nem linguas, nem religiões. No dia em que elle quizer, nenhuma outra vontade lhe será superior. A humanidade é o supremo ideal, e, pensando n'ella, abstrahimos de nós mesmos, e das miserias e torpezas do mundo.

IV

ARBITRAGEM INTERNACIONAL

SOCIEDADES DA PAZ.--EMILE ARNAUD.--O MILITARISMO.--DOMELA NIEUWENHUIS.--ARBITRAGEM INTERNACIONAL.--MICHEL REVON.--A FEDERAÇÃO E OS SEUS APOSTOLOS.--NACIONALISMO E INTERNACIONALISMO.--ALFREDO NAQUET.--RENÉ GOBLET E AUGUSTO VACQUERIE.--A GUERRA VENCIDA PELA ARBITRAGEM.--O DESARMAMENTO.--EDUARDO VAILLANT.

O movimento em favor da paz, vae-se accentuando de dia para dia. É consolador registar o facto e apreciar as suas consequencias.

Sobe a mais de cincoenta o numero das sociedades da paz de que temos conhecimento e que realmente funccionam.

ALLEMANHA

_Sociedade da Paz_ (presidente o conde Bodner)--_Wiesbaden._

_Sociedade da Paz em Berlim_ (presidente o dr. Mühling)--Berlim.

_Sociedade da Paz em Ulm_ (presidente H. Eberle)--_Neu-Ulm._

_Sociedade da Paz em Francfort_ (presidente Franz Wirth)--_Francfort_.

_Sociedade da Paz em Constança_ (presidente professor Martens)--_Constanz_.

INGLATERRA

_International Arbitration and peace association_ (presidente Hodgson Pratt)--_London_.

_Peace Society_ (presidente Joseph Pease)--_London_.

_Local Peace Association_ (presidente M.elle Peckover)--_Wisbech_.

_Peace Society of Liverpool_ (presidente Thomas Suape)--_Liverpool_.

_International Arbitration League_ (presidente Cremer)--_London_.

_Local Peace Association_ (presidente Rowntree)--_York_.

_Woman's Peace and Arbitration Society_ (presidente Thompson)--_Birkenhead_.

AUSTRIA

_Oesterr. Friedensgesselschaft_ (presidente a baroneza de Suttner)--_Vienna_.

_Societé Universitaire de la paix_ (presidente dr. Steckel)--_Vienna_.

BELGICA

_Section belge de l'arbitrage et de la paix_ (secretario Lafontaine)--_Bruxellas_.

DINAMARCA

_Association pour la neutralisation de la Danemark_ (presidente Frederico Bajer)--_Copenhague_.

FRANÇA

_Ligue internationale de la paix et de la liberté_ (presidente Emile Arnaud)--_Luzarches_.

_Societé française de l'arbitrage entre nations_ (presidente Frederic Passy)--_Neuilly_.

_Ligue du Bien public_ (presidente Pierre Potonié)--_Fontenay_.

_Societé de la paix du familistére de Guise_ (presidente Bernardot)--_Guise_.

_Societé de la paix perpétuelle par la justice internationale_ (presidente Philippe Destrem)--_Paris_.

_Groupe des amis de la paix du Puy-de-Dóme_ (presidente Pardoux)--_Clermont-Ferrani_.

_Association des jeunes amis de la paix_ (presidente Dumas)--_Paris_.

_Societé universitaire internationale_ (presidente Dumas)--_Paris_.

_Societé de la paix d'Abbeville et de Ponthieux_ (presidente Jules Tripier)--_Eancourt_.

_Union Méditerranéenne_ (presidente Gromier)--_Paris_.

_Comité de la Sarthe_ (presidente Destriché)--_Sarthe_.

_Société de la paix de Felletin_ (presidente Abbé Pichot)--_Felletin_.

HOLLANDA

_Pax Humanitate_ (presidente Schook)--_Amsterdam_.

_Société Générale de la paix_ (presidente Moddermann)--_Haya_.

ITALIA

_Union Lombarda_ (presidente Theodoro Moncta)--_Milão_.

_Comité Romano da Paz_ (presidente Boughi)--_Roma_.

_Sociedade da paz de Turim_ (presidente Armandon)--_Turim_.

_Sociedade da paz de Palermo_ (presidente Aguanno)--_Palermo_.

_Sociedade da paz e da arbitragem de Perugia_ (presidente Leopoldo Tiberi)--_Perugia_.

SUECIA

_Sociedade da Paz_ (presidente Wawrinsky)--_Stockholmo_.

SUISSA

LIGA INTERNACIONAL DA PAZ E DA LIBERDADE

--_Comité central_ (secretario M.me Goegg)--_Genève_.

--_Secção de Neuchatel_ (presidente Gustavo Renaud)--_Neuchatel_.

--_Secção de Berne_ (presidente W. Marcussen)--_Berne_.

--_Secção de Saint Gall_ (presidente Schimd)--_Saint Gall_.

--_Secção de Zurich_ (presidente Gustavo Vogt)--_Zurich_.

--_Secção de Genebra_ (presidente dr. Cordés)--_Genève_.

ESTADOS UNIDOS DA AMERICA

--_Sociedade americana da paz_ (presidente dr. Trueblood)--_Boston_.

_Sociedade christã para a arbitragem da paz_ (presidente Wood)--_Philadelphia_.

_Associação nacional da arbitragem_ (presidente Gardener)--_Washington_.

_National Association for the Promotion of Arbitration_ (presidente Lockwood)--_Washington_.

_Associação da arbitragem da California_ (presidente Berwick)--_Monterey (California)_.

_Universal Peace Union_ (presidente Loye)--_Philadelphia_.

_Peace Department of the N. W. C. T. U._ (presidente Bailey)--_Maine U. S. A._

_Peace Association of friends in America_ (Daniel Whill secret.)--_Richmond, Ind. U. S. A._

_South Carolina Peace Society_--_Columbia S. C._

_Illinois Peace Society_ (presidente Allen)--_Chicago III._

_Connecticut Peace Society_ (Whipple, secret.)--_Old Mistic Conn. U. S. A._

_Rhode Island Peace Society_ (Robert, secret.)--_Providence R. I. U. S. A._

_Friend's Peace Association of Philadelphia_ (presidente Wickersham)--_Philadelphia_.

_National Peacy Society_ (presidente Ellen Lease)--_Topeka (Kausao) U. S. A._

A paz constitue hoje o supremo _desideratum_ da humanidade trabalhadora. Mas a paz tem um complemento indispensavel--a liberdade e a justiça. D'este modo o antigo adagio: _Si vis pacem, para bellum (Se queres a paz prepara a guerra)_, que havia sido substituido por est'outro, não menos illusorio: _Si vis pacem, para pacem (Se queres a paz prepara a paz)_, foi transformado, ao sopro da revolução, pelo seguinte principio: _Si vis pacem, para libertatem (Se queres a paz prepara a liberdade)_.

Com o progresso dos tempos, reconheceu-se porém, que a paz pela liberdade era ainda pouco, e Aurelio Saffi, traduzindo as aspirações dos philosophos e pensadores da sua época, estabeleceu o lemma da _paz pela liberdade e pela justiça (si vis pacem, para libertatem et justitiam)_.

Mais tarde, Carlos Lemmonier reforçou esta formula, demonstrando que a paz, assim como a liberdade, não devia ser um _fim_, mas apenas um _meio_. E os philantropos, aceitando a observação, principiaram então de apregoar a paz _pela_ liberdade e _por amor_ da justiça.

[Gravura: Emile Arnaud]

A formula de hoje--diz ajuizadamente Emile Arnaud--a unica que corresponde ao estado actual da Europa e á situação especial de cada paiz, é a seguinte: _Si vis justitiam, para pacem (Se queres a justiça, prepara a paz)_.

E, uma vez que fallamos em Emile Arnaud, o glorioso continuador da doutrina de Carlos Lemmonier, devemos dizer que dos apostolos e evangelistas da paz, é elle um dos mais ardentes, um dos mais convictos e um dos mais activos. A _Liga Internacional da Paz e da Liberdade_ está organisada como nenhuma outra sociedade, com ramificações em toda a Suissa e secções e _comités_ em todos os outros paizes da Europa.

* * * * *

O MILITARISMO.--DOMELA NIEUWENHUIS.

Em caso de guerra, qual deverá ser a attitude do partido operario socialista?--perguntava-se no congresso de Zurich.

Domela Nieuwenhuis, o sympathico e benemerito chefe do socialismo na Hollanda, já havia respondido a esta pergunta no congresso de Bruxellas, em 1891.

Em caso de guerra, aconselhava Nieuwenhuis a _proclamação de uma gréve militar e de uma gréve geral_. Esta mesma idéa havia já sido enunciada na mesma cidade de Bruxellas, em 1868, por occasião do Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores. Por unanimidade havia sido approvada a resolução seguinte:

«O congresso recommenda, sobretudo, aos trabalhadores a suspensão de todo o trabalho, no caso em que uma guerra viesse a explodir nos seus respectivos paizes. O congresso conta sufficientemente com o espirito de solidariedade, que anima os trabalhadores, que não se negarão a prestar o seu apoio a esta guerra dos povos contra a guerra.»

Cesar de Paepe propôz dois meios:

1.º A recusa em satisfazer o serviço militar, ou, o que vale o mesmo, a gréve geral;

2.º A resolução definitiva da questão social, ou, por outros termos, a revolução social na Europa.

O militarismo não póde ser combatido com simples protestos. Á guerra é mister oppôr a guerra, diz muito bem Domela Nieuwenhuis. Já era este tambem o grito de Victor Hugo. Guerra á guerra! Morte á morte!

[Gravura: Domela Nieuwenhuis]

Não basta só condemnar a guerra. É mister impedil-a, por todos meios, evital-a e _deshonral-a_, ainda na phrase do Mestre.

No manifesto, feito por occasião da guerra civil em França, e redigido por Karl Marx, o conselho geral da Internacional declarou que, no longo curso da historia, uma unica guerra podia justificar-se--era a guerra dos escravos contra os senhores. Eis o motivo porque, em caso de guerra, nós devemos responder, recusando-nos ao serviço militar, quer dizer, proclamando a guerra civil. O partido socialista quer acabar com as guerras nacionaes, substituindo-as pela guerra internacional, cujo ultimo resultado será a emancipação do proletariado.

Propômos a gréve geral, sobretudo nos officios e profissões, que tenham qualquer relação com a guerra, porque isso póde ser de grande utilidade.

Com effeito, se, em caso de proclamação de hostilidades, os operarios fizerem tudo quanto poderem, para destruir as rêdes telegraphicas, os _rails_, as machinas, numa palavra para impedir o encontro dos exercitos, é claro que a guerra se tornará impossivel.

Apesar de tudo--concluia Domela Nieuwenhuis[5]--continuaremos a nossa propaganda, para fazer germinar a idéa da _recusa de serviço em caso de guerra_, acompanhada de uma _grève_ geral. Esta idéa fará o seu caminho. O proletariado deve arriscar o seu sangue unicamente contra o seu unico e verdadeiro inimigo: _o capitalismo_.

* * * * *

ARBITRAGEM INTERNACIONAL.--MICHEL REVON

Para acabar com a guerra, propõe Michel Revon, pelo seu lado, e com elle outros notaveis pensadores, á frente dos quaes se encontra Frederico Passy, a arbitragem internacional. Atravessamos um periodo de transição--escreve elle[6]--que póde durar ainda dois ou tres annos, mas que não poderá prolongar-se. Em dez annos, ou a guerra geral terá arruinado a Europa, ou o militarismo se haverá tornado impotente. A lucta entre o espirito da guerra e o espirito da paz, está por ora indecisa. O momento «psychologico» poderá surgir em 1894, como em 1895 ou em 1896.

Em 1900 é que não.

Segundo o criterio desenvolvido por Michel Revon no seu bello livro, a guerra teve outr'ora a sua rasão de ser. Foi já um phenomeno divino, mas é hoje um anachronismo e uma brutalidade sem nome. Em tres seculos os armamentos actuaes pertencerão aos museus archeologicos.

São precisos os exercitos permanentes, para quê?--Para que os ricos durmam descançados, como dizia Balzac?

É precisa a guerra para quê? Para devastar e exterminar a humanidade? N'esse caso, proclamem tambem as vantagens das epidemias que dizimam as populações e das grandes catastrophes que enchem de victimas as localidades.

A guerra só se justificava entre povos barbaros, em plena noite da historia.

Vergniaud pinta-nos effectivamente os povos, combatendo durante a noite, como amigos ou irmãos que se não conhecessem, mas promptos a abraçarem-se e a fraternisarem, desde que a luz, descobrindo-os, os tornou conhecidos uns dos outros.