# O poeta Chiado (Novas investigações sobre a sua vida e escriptos)

## Part 2

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Escarcéo da peixeira, que se dizia roubada. Agglomeração de povo, que ria do caso exaltando a astucia do Chiado. Appêllo dos dois contendores para a justiça, visto faltar ainda n'esse tempo o _bureau_ policial da Parreirinha.

A varina fez a sua queixa. Chiado ponderou a circumstancia de se haver apoderado do peixe com um trapo quente, condição imposta pela peixeira. Decisão da justiça: que o poeta pagasse os 7 réis e meio que offerecera, e ficasse com o peixe, pois que a condição do trapo havia sido satisfeita, ficando salva a fé do contrato.

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Era o Chiado ainda frade franciscano--porque depois despiu o habito por indisciplina ou lh'o despiram por castigo--e começou a embirrar uma vez com o magro caldo de lentilhas, que lhe deram no refeitorio.

Vai isto de accôrdo com a proverbial pobreza dos franciscanos.

Remexendo no caldo, não encontrou mais que uma lentilha. Pareceu-lhe pouco nutritivo o singular, e começou a despir-se, como se quizesse atirar-se a um charco. Reprehenderam-n'o com estranheza. Elle explicou: que tinha visto apenas um legume no fundo da tigela e que o queria tomar de mergulho.

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D'outra vez--e aqui vai ser preciso o véo--apostou que em pleno Terreiro do Paço, entre um grupo de dez ou doze picões (arruadores) que alli estanceavam, era capaz de improvisar um _water closet_, sem que elles protestassem.

Fingiu-se acossado pela justiça e, correndo direito aos faias (como hoje diriamos) pediu-lhes que fizessem roda para o livrar de ser preso. Cahiram no langará, elles, e cerraram-se em parede, de modo que o supposto fugitivo não pudesse ser visto. Passado algum tempo, o Chiado parte agradecendo, e só depois foi que, pelo olfacto ou pelos olhos, os logrados reconheceram o logro.

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Não havia aposta bréjeira que lhe não propozessem, e que elle não acceitasse.

Se seria capaz de açoitar um vinagreiro que ia passando com dois ôdres sobre a mula? Que sim. Dito e feito. Acercou-se do vinagreiro e disse-lhe que desatasse um dos ôdres, pois queria provar o vinagre. Tomou um bochecho e fez cara de não achar bom. Exigiu provar do outro ôdre, segurando elle proprio no que já estava desatado. De repente finge vêr alguem ao longe ou querer acudir de prompto a qualquer incidente. Passa o ôdre ao vinagreiro, que ficou com um em cada mão, ambos desatados. E então começa a açoitar o pobre homem, que não poderia defender-se sem deixar perder o vinagre.

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Conchavou-se o Chiado com outros tunantes da força d'elle para engarampar um villão, que veiu a Lisboa comprar trigo. Disse-lhe que se queria trigo bom o não podia achar melhor que o de um seu irmão, em certa nau que estava á descarga; que fosse a bordo compral-o, mas que para não sujar o sombreiro e a capa lh'os deixasse alli no caes, onde o ficaria esperando. O villão pagou logo sete tostões pelo trigo, e deu a capa e o sombreiro a guardar. Foi a bordo, em cabello e corpo bem feito. Mas disseram-lhe lá que não tinham commissario em terra, e que só faziam negocio com dinheiro na palma da mão. Voltou o homem ao caes, e já não viu o Chiado; encontrou, porém, os outros guilhotes, os quaes lhe deram uma carta de quitação que o Chiado deixára para o parocho do basbaque, explicando tudo. Ora a carta dizia:

João Pires do Outeiro Me deu a capa e o sombreiro, Sete tostões em dinheiro, E mais me dera Se mais tivera.

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Não tendo que jantar um dia, lobrigou certo mancebo a comprar peixe na Ribeira. Chegou-se a elle, dizendo ser grande amigo de seu pai. Sob esta côr o convidou a jantar. Foram os dois, mano a mano, para o local que o Chiado indicou. Ahi, disse lhe que poizasse o peixe, que logo se cozinharia, e que fôsse buscar qualquer tempêro que faltava. Quando o ingénuo moço tornou, já não viu o Chiado nem o peixe.

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D'outra vez chamou um polhastro e industriou-o a fingir-se vendilhão, levando no fundo de uma panela excremento humano. O rapazola apregoava, como o Chiado lhe ensinou: «Quem merca isto?» Alguns curiosos queriam ver o que era para comprar. E, reconhecendo a mercadoria, diziam por claro o nome que se lhe dá. O polhastro respondia enfadado: «Pois não é outra cousa.»

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Vem agora uma anecdota geralmente attribuida a Bocage, mas que não póde ser sua, pois que o manuscripto d'onde a tomamos é anterior a 1617 e portanto quasi seculo e meio anterior ao nascimento de Bocage.

Entraram ratoneiros em casa do Chiado, e levaram-lhe o melhor que tinha. Elle viu-os a tempo de poder gritar por soccorro; mas, em vez de bradar, poz ás costas o refugo que lhe deixaram e foi-os seguindo derreado sob a carga. Os gatunos, espantados, fizeram alto e perguntaram-lhe para onde ia. O Chiado respondeu tranquilamente: «Venho vêr para onde nos mudamos.» Com o que desarmou a audacia dos amigos do alheio que, rendidos á chalaça, lhe restituiram o bom que levavam.

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Quando alguem queria engendrar uma bréjeirice, ia ter com o Chiado, que era padre-mestre na materia.

Por isso o consultaram certos vaganaus sobre a «partida» que deveriam fazer a um mulato fôrro que andava por Lisboa, e a quem tinham asca por ser valentão e soberbão.

Aconselhou os o Chiado a que, logo que entrasse alguma nau ingleza, lhe dessem aviso.

Chegou a occasião, veiu um navio inglez e o Chiado, fingindo-se fidalgo, foi a bordo com alguns d'aquelles tunantes, que dizia seus criados.

Propoz ao capitão da nau que lhe comprasse um escravo mulato, que era robusto para o trabalho do mar, mas que não podia amansar em terra.

Fez-se o ajuste, sob condição de que o escravo iria á mostra.

Os outros picões levaram-n'o a bordo, e como agradasse aos inglezes, logo receberam d'elles o preço que fôra combinado.

Protestou o mulato não ser captivo, mas não foi acreditado, visto terem-lhe posto fama de soberbão. Quiz reagir á viva força, mas lançaram-lhe ferros, visto saberem n'o valente. E teria ido mar em fóra, como escravo, se a justiça, informada da occorrencia, o não fosse libertar a bordo, obrigando os vaganaus a restituir o dinheiro recebido dos inglezes.

Não houve mais nenhum outro procedimento da justiça contra o inventor e executores d'esta tunantada, que aos proprios magistrados pareceu graciosa.

O Chiado sahiu incolume, porque foram os socios que pagaram por elle, e porque a justiça prohibiu ao mulato que tirasse qualquer desfórra.

Palavras textuaes do manuscripto: «...com pena de morte ao negro, que sobre aquella graça com o Chiado não entendesse, pois fôra tão bem achada a graça.»

Tal era a cotação da jocosidade do poeta, que até a justiça se lhe rendia; a natureza dera ao nosso bohemio todos os predicados de gracioso, incluindo a facilidade de imitar simultaneamente as vozes de muitas pessoas[14].

[14] «Parece que era ventriloquo, porque imitava ao mesmo tempo as vozes de differentes pessoas.» _Dic. Popular_, vol. IV, pag 268.

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Tinha o Chiado em casa um pote onde fazia os despejos. Um dia lembrou-se de lhe pôr um tampão e embreal-o exteriormente no bocal e no bojo, de modo a parecer vasilha para exportar. Chamando depois quatro mariolas, encommendou-lhes que levassem aquelle pote de conservas á Ribeira, que o queria embarcar, e que esperassem lá por elle para lhes pagar o frete.

Como o Chiado não tornasse a apparecer, foram os carrejões avisar a justiça e requerer que lhes entregasse o pote por indemnisação de seu trabalho.

Sendo-lhes entregue como cousa perdida, destaparam-n'o «e mettendo a mão dentro--diz o manuscripto--acharam-se com a conserva que não imaginavam, e logo viram que fôra lanço do Chiado.»

Logo viram que fôra lanço do Chiado: esta phrase testemunha quanto era fecunda e inventiva em chistes e logros a imaginação do famoso bohemio do seculo XVI.

Conheciam-n'o pelo dedo--como gigantesco entre os mais preeminentes foliões do seu tempo.

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Para concluir o extracto do manuscripto, que nos fornece todas estas anecdotas, resta dizer que passando o Chiado pela porta da Sé viu um grupo de muchachos e, dando-lhes attenção, ouviu-os dizer:

--Eu tomára ser bispo.

--Eu tomára ser pápa.

--Eu tomára ser rei.

O Chiado, acercando-se d'elles, interpellou-os dizendo:

--E sabeis vós o que eu tomára ser?

--?...

--Tomára ser melão para me beijardes... no sitio em que se beijam os melões.

Com a differença que elle falou mais claro do que eu.

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Aqui terminam os elementos anecdoticos fornecidos pelo manuscripto para a reconstituição da biographia picaresca do poeta Chiado.

Mas estes, que já não são poucos, bastam a egualar o Chiado com Bocage em materia de bréjeirices e tunantarias.

V

Entre as producções literarias de Chiado, que eu não pude encontrar em 1889, havia uma, que, pouco tempo depois, veiu casualmente ao meu encontro.

Era aquella que o abbade Barbosa designa d'este modo na _Bibliotheca Lusitana_:

«Carta que escreveu de Lisboa a Coimbra da entrada do bispo D. João Soares, em Lisboa, quando foi á raia pela princeza. É jocosa, e se conservava na bibliotheca do cardeal de Sousa».

Achei-a em copia n'uma miscellanea, que pertenceu ao convento da Graça, de Lisboa, e que eu comprei ao Rodrigues do Pote das Almas por dez tostões. Se exceptuarmos a carta de Chiado, a miscellanea vale pouco. Mas eu, folheando-a, li o titulo da carta, passei-a rapidamente pela vista, reconheci que o texto concordava com o titulo, e adquiri logo o livro, que o Rodrigues teria vendido mais caro se pudesse adivinhar a rasão por que eu o comprava.

D'isso era elle capaz, Deus lhe fale na alma.

Antes de transcrever a carta que o Chiado escreveu a um seu amigo de Coimbra, preciso esclarecer o leitor sobre o assumpto que a inspirou e o momento em que foi escripta.

O mallogrado principe D. João, filho de D. João III, desposou sua prima a linda princeza D. Joanna de Castella, que veiu a ser mãe de D. Sebastião o _Desejado_.

A princeza entrou em Portugal no fim de novembro de 1553[15].

[15] Francisco de Andrade diz que foi em 1552; Pedro de Mariz que foi em 1554. Mas a carta de Chiado, que merece fé por ser um documento da epoca, fixa o anno de 1553.

El-rei mandou que fossem buscal-a á fronteira D. João de Lencastre, duque de Aveiro, e o bispo de Coimbra D. Frei João Soares, os quaes se fizeram acompanhar de pessoas de categoria, entre as quaes D. Affonso de Lencastre e D. Luiz de Lencastre, irmãos do duque de Aveiro.

Na fronteira, D. Diogo Lopes Pacheco, duque de Escalona, e D. Pedro da Costa, bispo de Osma, fizeram entrega da princeza aos embaixadores portuguezes.

D. Joanna entrou por Elvas, e d'ahi, após breve demora, seguiu em jornadas até ao Barreiro, onde D. João III a foi esperar para acompanhal-a a Lisboa.

O professor Manuel Bento de Sousa poz em relevo a fatalidade pathologica que desde o berço condemnou D. Sebastião aos desatinos que veiu a praticar em detrimento e ruina do paiz.

«D. Sebastião, diz o illustre e fallecido professor, é pela mãe neto de um epileptico[16], e a accumulação da hereditariedade morbida verificou-se sem perturbação.

«Sua mãe é filha de epileptico e neta de doidos[17], sua avó é irmã do mesmo epileptico e filha dos mesmos doidos, sua bisavó é irmã e filha do mesmo epileptico e dos mesmos doidos. Seu avô, por consequencia, é neto de doidos, e seu pae é bisneto dos mesmos doidos.

«Como exemplo de nevropathia accumulada por herança não ha melhor[18]!»

[16] O imperador Carlos V.

[17] Joanna _a Doida_ e Filippe I, leviano, perdulario, incapaz de governar.

[18] _O Doutor Minerva_, pag. 198.

Sobre a inconveniencia physiologica dos casamentos consanguineos, repetidos de geração em geração entre as casas reaes de Portugal e Hespanha, vieram accumular-se, pelo enlace do principe D. João com a princeza D. Joanna, as taras hereditarias da epilepsia e da loucura que os dois desposados, primos co-irmãos, tinham recebido dos seus proximos ascendentes communs.

A mãe de D. Sebastião deu provas de uma exaltada hysteria, com allucinações pavorosas, durante o periodo da gravidez.

Este casamento precipitou a morte do principe D. João e aggravou as taras da princeza D. Joanna.

Eram duas creanças, ella de 18 annos[19] elle de 16[20], doentes dos mesmos vicios constitucionaes, e apaixonados um pelo outro. Não conheceram limites ás suas relações amorosas, entregaram-se a uma «demasiada communicação» dilacerando-se carinhosamente em extremos de prazer insaciavel.

[19] D. Joanna tinha nascido a 23 de junho de 1535.

[20] D. João nasceu em Evora a 3 de junho de 1537.

O principe ardia n'um fogo de voluptuosidade, que o devorou prematuramente. Foi preciso separal-o da princeza, mas já era tarde. Estava perdido na flor dos annos.

Os medicos d'aquella epocha classificaram a doença de--paixão hebetica. Os chronistas explicam que o enfermo sentia uma sêde devoradora; e D. Manuel de Menezes, na chronica que lhe é attribuida, filia esse phenomeno pathologico no desregramento dos prazeres carnaes.

Ora o hebetismo--segundo a medicina do nosso tempo--é um estado morbido, que inutiliza as faculdades intellectuaes, sem comtudo inutilizar a acção dos sentidos: uma especie de embrutecimento devido a commoção cerebral[21].

[21] _Dict. de medicine_, segundo o plano de Nysten, refundido por Littré e Robin.

Assim devia ser, pois que o principe D. João precipitára a crise dos seus males hereditarios com um exgotamento nervoso.

Mas a--sêde devoradora--_polydipsia_, é um symptoma da diabetes saccharina, que anda muitas vezes ligada ás nevroses e, principalmente, á epilepsia.

Não repugna acreditar que a sêde exagerada e continua, que abrazava o principe, derivasse d'esse conjuncto pathologico recebido por herança e aggravado por excessos.

E que os chronistas não empregavam a palavra sêde em sentido figurado, vê-se d'estas palavras da chronica attribuida a D. Manuel de Menezes: «mas elle (o principe) perseguido da sêde levantou-se uma manhã da cama a beber agua da chuva, que achou empoçada ao pé de uma janella, por descuido dos que lhe assistiam, que então o deixaram só, e sendo muita, e choca, fez-lhe muito mais mal, e logo empeiorou, e morreu no dia seguinte».

A princeza, excitada pelas sensações amorosas e pelos sobresaltos da gravidez, redobrou de hysterismos, teve allucinadas visões, pavores imaginarios, de que ficou noticia.

Na véspera do principe cahir doente, estando elle a dormir, julgou ella vêr, á luz da tocha que allumiava a camara conjugal, surgir uma figura de mulher vestida de luto, com larga touca, a qual mulher, crescendo em vulto, ameaçadora, fez estrincar os dedos e, após um assopro que parecia o halito quente d'uma féra, desappareceu.

A princeza ficou n'uma grande perturbação de terror, julgando verdadeira a visão, e interpretou-a no sentido de que o assopro annunciava que todas as suas esperanças haviam de desfazer-se em vento.

Quanto ao trinco com os dedos não interpretou coisa nenhuma ou as chronicas o não dizem.

Tendo fallecido o principe D. João[22] sem que a princeza o soubesse ao certo, posto o suspeitasse, e já nas vésperas do parto, as damas que acompanhavam D. Joanna quizeram leval-a a espairecer na Varanda da Pella, do Paço da Ribeira,

[22] O principe falleceu em terça feira 2 de janeiro de 1554, dezoito dias antes do parto da princeza.

O palacio dos pricipes era o de Alvaro Peres de Andrade, junto ao Arco dos Pregos, mas communicava interiormente com o palacio real.

A princeza, profundamente abatida, deixou-se conduzir. A noite e o silencio favoreceram ainda d'esta vez o terror, sempre contagioso, mórmente entre as impressionaveis damas, que os tristes acontecimentos da côrte traziam sobresaltadas.

Bastaria, portanto, que a princeza tivesse uma visão, para que logo fossem egualmente suggestionadas as suas damas, portuguezas e castelhanas.

Assim, pois, todas julgaram vêr sahir pela Varanda d'El-rei, direitos ao Forte[23], muitos homens vestidos á moirisca, com fatos de variegadas cores, agitando tochas accêsas e soltando repetidas vozes de--_Ly, ly, ly_. Eira uma especie de dança macabra, em que os moiros revoluteavam, despedindo clarões e gritos; e quando a chorea, percorrendo a Varanda, chegava ao Forte, os moiros precipitavam-se ao Tejo, deixando no silencio da noite uma atmosphera soturna de terror e mysterio.

[23] O Forte, nome que depois conservou o torreão mandado construir por Filippe II, rematava sobre o Tejo, uma vasta galeria com terraço, a meio do qual se erguia uma torre ameiada.

As damas fizeram decerto alarma. Acudiria gente do Paço, que não soube explicar a apparição sinistra dos moiros. Reconheceu-se que as portas estavam fechadas; que o ingresso de estranhos era impossivel. Então cresceria o pavor, e com elle a predisposição para repetir-se a visualidade no mesmo local e nas mesmas condições.

Foi o que aconteceu. Poucos dias depois tornou a princeza á Varanda da Pella, fez algum exercicio passeiando; depois sentou-se a uma das janellas e então se lhe renovou a visão dos moiros, com os mesmos trajes, as mesmas tochas, os mesmos gritos--na mesma farandola sinistra.

A princeza e as suas damas fugiram espavoridas sob a mesma suggestão, pelo contagio do terror. Todas «tinham visto» segunda vez os moiros. Lembra-nos, por analogia, um facto que Renan refere nos _Apostolos_. Entre os protestantes perseguidos correu voz de que, nas ruinas de um templo destruido recentemente, se ouviam psalmos cantados pelos anjos; tanto bastou para que todos os protestantes que se aproximavam d'aquellas ruinas, ouvissem os psalmos.

O rei e a rainha, informados do que se passava, recommendaram segredo.

Convinha não excitar mais a superstição popular, que já estava muito exaltada por varios factos anteriores, taes como o desacato praticado por um inglez, logo depois do casamento do principe na capella do Paço; e a apparição de um meteóro luminoso que todas as noites era visivel em Lisboa, quasi em cima da Sé, e parecia tomar a fórma de um athaúde.

Dos nove filhos legitimos de D. João III ficára apenas um, o principe D. João, e o povo já sabia que elle tinha morrido tambem, posto se occultasse a sua morte.

Se o parto da princeza se mallograsse, acabar-se-ia a successão directa. Portugal perderia a sua independencia, não porque el-rei não tivesse irmãos, que poderiam succeder-lhe no throno, mas porque pelo contrato de casamento da princeza D. Maria, filha de D. João III, com Filippe II, a corôa portugueza passaria para D. Carlos, filho d'aquella princeza.

Por isso o povo, cuidadoso de ver garantida a independencia do reino, «desejava» que a princeza D. Joanna desse á luz um filho varão.

O arcebispo de Lisboa ordenára uma procissão de préces, que se effectuaria logo que a princeza começasse a sentir as dores do parto.

Pela meia noite de 19 a 20 de janeiro[24] de 1554, quando os sinos dos conventos tocavam a matinas, houve rebate de que a princeza experimentava os primeiros symptomas do parto. Logo se organizou a procissão, que sahiu da Sé para S. Domingos. Rompia a manhã quando a procissão ia recolhendo á Sé e então se espalhou «a nova feliz de ter nascido o _desejado_[25].»

[24] Dia de S. Sebastião, motivo por que recebeu este nome o herdeiro da coroa.

[25] _Portugal cuidadoso e lastimado_, pag. 2.

Desejado foi em verdade D. Sebastião, e duas vezes o foi, antes de ter nascido e depois de ter morrido.

Em taes circunstancias, o nascimento do herdeiro da corôa teve a importancia de um acontecimento nacional, que profundamente interessou a alma popular. Não foi apenas um regosijo privativo da familia real ou da côrte, como acontece sempre que nasce «mais um» principe. Aquelle que tinha nascido era «o unico» fiador possivel da autonomia de Portugal: por isso tal acontecimento poz em jogo o brio, o orgulho, o amor patrio de todos os portuguezes.

Antes do parto, organizam-se devoções propiciatorias, em que o povo se mistura com o alto clero, fundindo suas preces.

Em Santarem até as creanças effectuam procissões nocturnas, piedosa pratica infantil, que foi muito nossa, e que apparecia sempre nas grandes crises nacionaes, revestindo um gracioso caracter de ingenuidade religiosa e de fé simples.

Eram procissões minusculas, com pequenos andores, pequenas lanternas, sendo o prestito constituido por homensinhos lilliputianos, rapazes da rua, creanças do povo, que iam entoando ladainhas e psalmos numa unisonancia de vozes ainda debeis e esganiçadas.

É peculiar á infancia o espirito de imitação, maiormente entre as classes populares. Nos filhos do povo encontram sempre écco os acontecimentos que tomam maior relevo na vida da nação. Dir-se-ia que por viverem na rua são mais depressa sacudidos pela opinião publica do que os filhos dos nobres. Por isso são as creanças da arraya miuda que propagam, inconscientemente, as canções politicas, os hymnos revolucionarios, e que muitas vezes se encarregam de fazer a critica e inventar a parodia dos negocios do Estado e dos mais ruidosos conflictos da administração publica.

As procissões infantis duraram seculos. Viram-n'as os contemporaneos de D. João III. Viu-as Filinto Elysio, que nos descreve uma que todos os annos, pela quaresma, vinha da Ajuda exhibir nas ruas de Lisboa muitos «Senhorsinhos dos Passos» allumiados com rolinhos de cêra. Vi-as ainda eu na minha infancia, que passei n'aquella devota, patriotica e antiga cidade do Porto.

Foi bom termos tido occasião de falar do povo, pois que tomando por assumpto uma celebridade das ruas, como era o poeta Chiado, já se ia alongando de mais a narrativa sobre a vida da côrte, sem pausa nem fôlego, que désse tempo a pensar em quem vegeta no infimo grau da escala social--tal como no fundo de um poço escuro o musgo rasteiro.

Podemos agora tornar á côrte. D. João III, para não lançar maior perturbação nos espiritos, já muito apprehensivos e agitados, ordenou, pois, que se não divulgasse a visão da princeza na Varanda da Pella.

El-rei, receioso do futuro, sentia o peso de todas as suas responsabilidades politicas, que eram enormes desde que, por um imprudente contrato de casamento, a independencia do reino ficava suspensa do nascimento de um successor varão.

Mas o que D. João III não podia prohibir era que a princeza D. Joanna continuasse a ter visões, que aliás se repetiram.

Uma noite, na sua camara, tornou a princeza a vêr os moiros, que entravam e sahiam em tropel. Cahiu logo desmaiada no regaço de uma dama, e nem essa nem as outras receberam a suggestão, porque a princeza não teve tempo de falar.

Pareceu a todas que apenas seria uma syncope propria da gravidez; mas depois, explicado o caso, apurou-se que ainda mais uma vez tinham «apparecido» os moiros.

A crença popular relaciona sempre o maravilhoso com a vida das altas personagens e a realização dos grandes acontecimentos historicos. É um fundo de superstição commum a todos os povos. Assim, entre nós, encontrou-se uma relação sobrenatural entre a visão dos moiros e a derrota de D. Sebastião em Alcacerquibir.

Que a princeza D. Joanna tivesse allucinações e visualidades pavorosas, cabalmente o pode explicar a medicina; que os phantasmas que ella julgava ver, fossem moiros, basta que o diga a lenda, urdida _a posteriore_, depois da perda de D. Sebastião em Africa.

De outras visões falam ainda as chronicas, todas n'um sentido lugubre e presago, como era proprio do estado morbido da princeza e das suas condições physiologicas.

Accordava de noite em sobresalto, queixando-se de não ver nada, de ter ouvido estrondos mysteriosos, vozes afflictivas, taes como suspiros maguados, gemidos cortantes.

No leito de dois doentes foi gerado um filho doentissimo, cuja cabeça, por desgraça nossa, havia de cingir a corôa de Portugal.

Depois do parto, o hysterismo da princeza tornou-se essencialmente mystico, tanto em Portugal como em Castella, para onde voltou.

