O Oraculo Do Passado Do Presente E Do Futuro 6 7 Parte Sexta O
Chapter 3
Tendo o lobo batido mais duas vezes, sem que lhe respondessem, suppôz que a avó do Chapelinho Vermelho havia saido, e resolveu entrar na casa, para esperar as duas e comel-as. Assim resolvido, levantou a aldraba, e abrindo-se a porta, entrou na casa, onde não viu ninguem; porque a _Fada_ se havia escondido em um armario, que estava á cabeceira da cama, d'onde via e observava tudo. O lobo deu duas voltas pela casa, e, vendo-a sósinha, fechou a porta com a aldraba e foi deitar-se na cama da avó, á espera da primeira que apparecesse. Pouco tempo depois chegou o Chapelinho Vermelho, que bateu á porta: _truz, truz,_--Quem está ahi?--O Chapelinho Vermelho, que ouviu a voz grossa do lobo, teve medo ao principio; mas pensando que sua avó estava rouca, respondeu:--É sua neta Chapelinho Vermelho, que lhe traz um bolo e um potesinho de manteiga, que minha mãe lhe manda. O lobo gritou-lhe, amaciando a voz:--Levanta a aldraba. A pequenina levantou a aldraba, e a porta abriu-se. O lobo, vendo-a entrar, lhe disse, escondendo a cabeça debaixo dos lençoes:--Põe o bolo e o potesinho de manteiga em cima da mesa, e vem-te deitar commigo. O Chapelinho Vermelho foi-se metter na cama; mas ficou muito admirada de ver sua avó despida. A pequenina lhe disse:--Ó minha avó! como os seus braços são compridos!--É para melhor te abraçar, minha neta.--Ó minha avó! como as suas pernas são grandes!--É para correr melhor, minha neta.--Minha avó! as suas orelhas são bem compridas!--É para escutar melhor, minha neta.--Minha avó! que olhos tem tão grandes!--É para ver melhor, minha neta.--Minha avó! para que tem dentes tamanhos!?--É para te comer. E dizendo estas palavras, este mau lobo lançou-se sobre Chapelinho Vermelho para comel-a; mas estacou de repente, ficando sem movimento, porque a _Fada_, saindo do escondrijo, lhe tocou com a sua _varinha de condão_. O Chapelinho Vermelho deu um grito de alegria ao ver sua avó, que tirou a netinha de ao pé do lobo, mais morta que viva, pelo susto que tivera. Então disse a _Fada_ para a netinha:--Que castigo se ha de dar áquelle malvado lobo, que te queria devorar?--Dê-lhe, minha avósinha, o castigo que quizer, respondeu o Chapelinho Vermelho.--Pois então vae para a janella, que verás o que nunca viste. Estando o Chapelinho Vermelho á janella, viu saír de casa o lobo, todo coberto de _busca-pés_ (é d'este tempo que data o descobrimento da polvora) desde a ponta do rabo até á do focinho, e ouviu dizer a sua avó:--Vae, malvado, correndo por ahi fóra até que vás apagar o fogo no poço do moinho, onde morrerás afogado. Isto dito, começaram os _busca-pés_ a arder, dando tiros tão medonhos, que o lobo fugiu espavorido, e julgando apagar o fogo com agua, foi lançar-se ao rio, que corria perto, afogando-se justamente no _poço do moinho_, que desde então ficou sendo o _poço do lobo_.
Depois d'isto disse a _Fada_ para o Chapelinho Vermelho:--has de prometter-me que de hoje em diante, quando tua mãe te mandar a algum recado, não te has de demorar pelo caminho, nem conversar com quem não conheces, dizendo-lhe o que vaes fazer; e se assim o fizeres, dou-te por _dom_ que serás mui formosa e casarás com um grande fidalgo.
E assim foi: pois crescendo o Chapelinho Vermelho, fez-se tão discreta e tão formosa, que foi pedida em casamento por um grande fidalgo da visinhança, com o qual casou e viveu muito feliz.
O FATO NOVO DO REI
(Anderson).
Era uma vez um rei que gostava tanto de roupas novas, que empregava em se vestir todo o dinheiro que tinha.
Se passava revista aos seus soldados, se apparecia nos espectaculos ou passeios publicos, não tinha outro fim em vista que não fosse mostrar como ia vestido. Era um fato para cada hora do dia; de maneira que assim como é costume dizer-se de qualquer rei: «Sua magestade está em conselho de ministros», a respeito d'este dizia-se: «Sua magestade está no seu guarda-roupa».
A capital em que elle vivia, era uma cidade alegre, principalmente pelo grande numero de estrangeiros que alli concorrião. Um dia chegárão áquella cidade dois impostores que se annunciárão como tecelões, dizendo que sabião tecer um panno como nunca se vira. Era um estofo notavel, não só pela belleza das côres e do desenho, mas sobretudo porque tinha a maravilhosa qualidade de se tornar invisivel para quem não exercesse, como devia, o seu emprego, ou fosse demasiadamente estupido.
--Uma roupa d'esse panno deve ser impagavel--disse comsigo o rei;--por meio d'ella chegarei a conhecer quaes são os homens incapazes do meu reino, e poderei distinguir os intelligentes dos estupidos. Um fato assim é uma cousa indispensavel.--Em seguida mandou adeantar aos homens muito dinheiro para poderem desde logo dar começo á obra.
Os aventureiros armárão effectivamente dois teares e pozerão-se a fingir que trabalhavão, embora nas lançadeiras não houvesse nem sombra de fiado. A cada passo estavão a pedir seda da mais fina e ouro do melhor quilate, que ião ensacando, sem todavia deixarem de trabalhar nos teares vasios até alta noite.
Passado algum tempo, lembrou-se o rei de sair para ver em que altura ia o artefacto. Sentiu-se porém seriamente embaraçado, quando se recordou de que o estofo não podia ser visto por quem fosse tolo ou não exercesse condignamente o seu mister. Não era porque duvidasse de si; em todo o caso julgou prudente, pelo sim, pelo não, mandar adeante alguem que examinasse o estofo. Toda a cidade sabia da qualidade maravilhosa que elle tinha; cada um estava ancioso por saber se o seu vizinho era idiota ou inhabil.
--Vou mandar o meu velho e honrado ministro,--disse comsigo o rei.--Ninguem, como elle, para avaliar a obra, porque alem de ser um homem fino, é irreprehensivel no desempenho das suas funcções.
O ministro entrou na sala onde trabalhavão os dois impostores, e arregalando muito os olhos, disse de si para si:--Meu Deos, não vejo nada!--Mas, nem palavra. Os dois tecelões pedirão-lhe que se approximasse, e perguntárão que tal achava o desenho, e se as côres erão ou não magnificas. Ao mesmo tempo apontavão-lhe para os teares, onde o velho ministro tinha os olhos pregados, mas onde não via nada, pela simples razão de não haver lá nada que vêr.
--Pois na realidade, serei eu tambem um asno?--perguntava elle a si mesmo.--É preciso que ninguem o suspeite. Serei eu incapaz de exercer o meu cargo? Não! não darei a saber a ninguem que não vi o tecido.
--Então, que dizeis?--perguntou um dos tecelões.
--Admiravel, é uma cousa surprehendente!--respondeu o ministro, pondo os oculos.--Este desenho, estas côres... vou immediatamente participar ao rei que fiquei satisfeitissimo.
--Isso é uma grande honra para nós,--disserão os dois tecelões, e começarão a chamar-lhe a attenção sobre as côres e desenhos imaginarios, aos quaes elles tinhão o cuidado de ir dando um nome. O ministro ouviu attentamente, para repetir deante do rei tudo quanto elles dizião.
Alguns dias depois o rei mandou outro funccionario honesto examinar o estofo e vêr se estava prompto. Aconteceu a este o que tinha acontecido já ao ministro: por mais que olhasse, não via nada.
--Não é verdade que isto é um tecido admiravel?--perguntavam os dois impostores, e ião mostrando as côres e desenhos que não existião.
--Pois eu não sou tolo!--pensava o homem.--Dar-se-ha o caso que eu não seja digno de exercer o meu emprego? Isso é singular; mas eu farei por o não perder.--E em seguida elogiou muito o tecido, e louvou sobretudo a escolha das côres e do desenho. Foi dizer ao rei que o estôfo era magnifico, e d'ahi a pouco não havia ninguem que não fallasse nelle.
Por ultimo quiz o rei ir vê-lo pessoalmente, emquanto estava ainda no tear, e acompanhado d'um grande sequito de pessoas escolhidas, entre as quaes se encontravão os dois funccionarios honestos, dirigiu-se ao logar onde os dois trapaceiros continuavão a trabalhar com todo o cuidado, mas sem fio de seda ou de ouro, nem especie de fiado algum.
--Então não é excellente?--perguntárão os dois ministros.--O desenho e as côres são dignas de vossa magestade.--E apontavão para os teares vasios, como se os outros pudessem ver ahi alguma cousa.
--Que é isto?--disse comsigo o rei--eu não vejo nada. Acaso serei eu imbecil?! Não serei digno de ser rei? Esta é a maior infelicidade que me podia acontecer.--Depois exclamou de repente:--Magnifico! Declaro-me completamente satisfeito.
Abanou a cabeça em signal de approvação, e contemplou o tear sem se atrever a dizer a verdade. Todos os do sequito contemplarão tambem, sem comtudo nada verem, e disserão com o rei:--É magnifico!--Depois aconselhárão-no que estreasse o fato novo numa procissão que devia sair d'ahi a pouco.--É magnifico! admiravel! excellente!--dizião todos á uma; e a alegria era indescriptivel.
Os dois impostores forão condecorados, e recebêrão o titulo de tecelões da casa real. Na vespera da procissão trabalharão toda a noite á luz de dezeseis velas.
A final fingirão tirar a peça do tear; cortárão, no ar, com grandes tesouras; coserão com agulhas desenfiadas, e depois de tudo isto disserão que estava prompto o fato.
Veio o rei em pessoa, acompanhado dos seus ajudantes de campo, e os dois trapaceiros com os braços levantados como se segurassem alguma cousa, disserão:--Aqui tem vossa magestade a calça, a casaca e o manto. Tudo isto é leve como uma teia de aranha. Ha-de parecer a vossa magestade que não traz nada sobre o corpo, mas é justamente nisto que está a principal qualidade do tecido.
--É verdade,--respondêrão os ajudantes de campo, mas sem verem nada.
Em seguida os tecelões pedirão ao rei que se collocasse deante d'um espelho, afim de lhe provarem o fato, e depois de o despirem todo, fingirão que lhe vestião uma por uma as differentes peças. O rei ia-se mirando e remirando ao espelho.
--Que bem lhe fica! que bem talhado!--exclamavão todos os cortezãos.--Que desenhos! E as côres? É um fato precioso!
--Está lá fora o pallio, debaixo do qual vossa magestade tem de ir na procissão,--disse o mestre de ceremonias.
--Bom, eu estou prompto--respondeu o rei;--penso que assim não vou mal.--E viu-se ainda uma vez ao espelho, para contemplar o esplendor em que ia.
Os caudatarios apalpárão o chão, como se quizessem levantar a cauda do manto, e caminhárão com os braços estendidos como se segurassem alguma cousa, não querendo dar a entender que não vião nada.
Assim caminhava o rei debaixo do magnifico pallio, e toda a gente da rua e das janellas exclamava:--Que sumptuoso vestido! que bella cauda tem o manto! o feitio é irreprehensivel!--Ninguem queria dar a conhecer que não via nada, para não ser taxado de estupido ou incapaz de exercer o seu emprego. Nunca fato algum do rei tinha dado tanto na vista.
--Mas o rei vae nú;--gritou uma creancinha.
--Meu Deus! escutae a voz da innocencia--disse o pae.
Immediatamente correu por toda a multidão, que uma creança dissera que o rei ia nú; e a final exclamárão todos á uma:--O rei vae nú!
Este sentiu-se extremamente mortificado, porque lhe parecia que tinha razão; mas cobrou animo e disse comsigo:--Seja o que for, é indispensavel que eu fique até ao fim.--Depois tomou uns ares ainda mais magestosos, e os caudatarios continuarão a segurar, com todo o respeito, a cauda que não existia.
AS FADAS
OU
A MENINA BEM CREADA
Era uma vez uma viuva, que tinha duas filhas; a mais velha parecia-se tanto no genio e na cara com a mãe, que quem via uma, via a outra. Ambas eram tão orgulhosas e tão desagradaveis, que se não podia viver com ellas. A mais moça, que era o retrato de seu pae, pela bondade, era ao mesmo tempo uma das mais lindas raparigas que se podiam ver. Como naturalmente se ama o seu similhante, esta mãe era douda por sua filha mais velha, e ao mesmo tempo tinha uma forte aversão para a mais nova, que mandava comer na cozinha, e trabalhar continuamente.
Entre outras cousas era preciso que esta menina fosse duas vezes por dia buscar, a uma meia legua grande de sua casa, um grande cantaro cheio de agua. Um dia, que a infeliz creança estava n'esta fonte, chegou-se a ella uma pobre mulher, e lhe pediu que a deixasse beber.--Pois não! minha senhora, disse esta bella menina; e dizendo estas palavras, tomou agua no melhor sitio da fonte, e lh'a apresentou, sustendo o seu cantaro, para que ella podesse beber mais facilmente. A boa mulher, tendo bebido, lhe disse:--A menina é tão bonita, tão boa, é tão bem creiada, que não posso deixar de lhe fazer um _dom_. (Era uma Fada, que tinha tomado figura de uma pobre aldeã, para ver até onde iria a boa educação d'esta menina.) Eu dou-lhe por _dom_, continuou a fada, que a cada palavra que disser, sair-lhe-ha da bôca uma flor e uma pedra preciosa. Quando esta boa menina chegou a casa, a mãe ralhou-lhe por haver tardado tanto tempo.--Perdoe-me, minha mãe, por ter tardado. E dizendo estas palavras, deitou pela bôca duas rosas, duas perolas, e tres bons diamantes.--Que é isto? disse a mãe, admirada. Quem te deu isto, minha filha? (Era a primeira vez que a tratava por sua filha.) A pobre menina contou-lhe tudo o que lhe tinha acontecido, não sem deitar pela bôca uma infinidade de diamantes.--Realmente, disse a mãe, vou mandar lá tua irmã. Vem cá, Mariquinhas, vem ver o que sáe da bôca de tua irmã quando ella falla; queres tu ter o mesmo dom? Vae buscar agua á fonte, e quando uma pobre mulher te pedir de beber, dá-lh'a com muita civilidade.--Pois não! respondeu a mal-creada; eu ir á fonte!--Quero que lá vás, disse a mãe, e já. Maria foi, mas resmungando. Pegou no mais bonito jarro de prata que havia na casa, e chegou á fonte. Viu logo sair da floresta uma dama magnificamente vestida, que lhe pediu agua para beber. Era a mesma Fada que tinha apparecido a sua irmã, mas que tinha tomado a figura e os vestidos de uma princeza, para ver até onde iria a má creação d'esta rapariga. Porventura eu vim cá para lhe dar de beber? disse a mal-creada orgulhosa. Era o que me faltava trazer eu um jarro de prata para dar de beber á senhora: ora beba na fonte, se quizer.--Sois bem pouco politica! replicou a Fada, sem se encolerisar. Pois bem, já que é tão mal-creada dou-lhe por _dom_, que a cada palavra que disser, sair-lhe-ha da bôca uma serpente e um sapo. Voltou a casa, e sua mãe gritou:--Minha filha! minha filha! então que ha?--Nada, minha mãe! respondeu ella, deitando pela bôca duas serpentes e um sapo.--Oh céos! exclamou a mãe; que vejo! É tua irmã que tem a culpa; ha de pagar-m'o. E dizendo estas palavras, correu a ella para lhe bater.
A pobre menina fugiu para a floresta visinha. O filho do rei, que voltava da caça, encontrou-a, e vendo-a tão linda, perguntou-lhe o que ella fazia alli sósinha, e porque chorava!--Oh! meu senhor, é porque minha mãe pôz-me fóra de casa. O filho do rei, que viu sair-lhe da bôca seis perolas e seis diamantes, pediu-lhe que lhe dissesse d'onde isto vinha. Ella contou toda a sua historia. O filho do rei ficou namorado d'ella; e considerando que um tal dom valia mais que tudo o que se podia dar em dote a uma princeza, levou-a para o palacio de el-rei seu pae, onde casou com ella. Sua irmã fez-se aborrecer tanto, que sua propria mãe a pôz fóra de casa; e esta desgraçada, depois de ter corrido bastante sem achar ninguem que quizesse recolhel-a, morreu no meio de um bosque.
A RAPARIGUINHA DOS LUMES PROMPTOS
(_Andersen_--traducção de José Joaquim Rodrigues de Freitas.)
Estava horrivelmente frio, geava, e era quasi noite escura, a ultima do anno.
Estava assim escuro e frio, quando caminhava pela rua uma rapariguinha com os pés nús e a cabeça descoberta. Tinha calçado chinelas ao sair de casa, mas de que lhe servírão? Erão muito grandes, e tanto, que a mãe as tinha usado até então; demais, a pequena perdeu-as ao atravessar á pressa uma rua, fugindo de dois carros que rodávão com velocidade de pôr medo. Uma das chinelas não a poude tornar a achar; e a outra apanhou-a um rapaz, e lá foi a correr com ella; até se lembrou que lhe serviria de berço, caso viesse a ter filhos.
Assim caminhou a rapariguinha com os pésinhos nús e rôxos de frio. Trazia num avental velho uma porção de lumes promptos, e na mão um maço d'elles. Ninguem lhe comprára nada todo o dia, ninguem lhe fizera presente de cinco réis.
Imagem da miseria, a pobre pequena ia-se arrastando a tremer de frio e fome!
Os flocos de neve cobrião-lhe o cabello comprido e louro, que em formosos anneis lhe caía pelo collo abaixo; mas, em verdade, n'isto pensava ella!
De todas as janellas brilhavão luzes; e vinha de lá um delicioso cheiro a ganso assado; era a noite de S. Silvestre; e n'isto pensava ella!
A um canto formado por duas casas, uma das quaes era mais saliente do que a outra, sentou-se ella, e, como poude, conchegou-se; metteu bem para dentro os pésinhos, mas ainda mais lhe arrefecêrão; e não ousava ir para casa por não ter vendido phosphoros, nem arranjado dinheiro.
Bem sabia que o pae lhe havia de bater, e em casa tambem estava frio; cobria-a só o telhado, pelo qual o vento assobiava, ainda quando se tapavão os buracos maiores com palha e farrapos.
O frio quasi lhe não deixava mover as mãos.
Ah! um lume prompto podia fazer-lhe bem; se tirasse um do mólho, se o accendesse na parede, e se aquecesse a elle os dedos!
Tirou um. Zahs! Como scintillava, como ardia! Era uma chamma quente e brilhante, era uma luzinha; poz sobre ella as mãos, era uma luzinha maravilhosa. Á rapariguinha pareceu que estava deante de um grande fogão de ferro todo guarnecido de latão polido. Abençoado fogo, que tão bem aquecia! Mas a chammasinha apaga-se, o fogão desapparece, ficárão-lhe na mão só os restos do lume prompto que ardêra.
Accendeu outro na parede, este alumiava e tornava transparentes como um véo os logares da parede em que os seus raios incidião: podia assim vêr para dentro da sala.
A mesa tinha uma toalha branca de neve, sobre a qual luzia louça de porcellana; o ganso assado, cheio de maçãs e ameixas sêcas, exhalava deliciosos vapores. E o que ainda era mais bello: o ganso saltava do prato abaixo, cambaleava pelo chão adeante, e vinha até á pobre creança, trazendo no peito a faca e o garfo.
Lá se apagou o lume prompto, e só ficou a parede, espessa, fria e humida.
Ella accendeu ainda um phosphoro. E eis que lhe pareceu estar sob a magestosa arvore do Natal, ainda maior e mais adornada, que a outra que vira ao travéz da janella da casa d'um rico negociante. Milhares de luzes ardiam nos ramos verdes; e imagens variegadas, como numa vitrina, olhavão para a rapariga. A pequena estendeu para ellas as mãos; e eis que se apagou o lume prompto.
As luzes do Natal subirão mais e mais; parecião-lhe estrellas no céo; uma d'ellas caiu formando longo rasto luminoso.
Alguem que morre, disse comsigo a rapariguinha; porque a avó, unica que lhe tivera amor, e que já era fallecida, lhe contára que uma alma sobe para Deos, quando uma estrella cáe para a terra.
Accendeu mais outro phosphoro; a luz fêz-se de novo, e no meio do brilho d'ella erguia-se a velha avó, tão resplendente e pura, tão cheia de doçura e de amor!
Minha avó, exclamou a pequena. Oh! leva-me comtigo. Eu sei que tu desapparecerás quando o phosphoro se apagar. Has-de passar como o fogão quente, como o delicioso ganso assado, e como a grande e magestosa arvore do Natal!
E rapidamente accendeu todo o mólho de phosphoros, a fim de ter alli a avó bem segura.
E os phosphoros fulgurárão com tal brilho, que havia luz mais viva do que em pleno dia; a avó nunca fôra tão alta nem tão formosa: tomou nos braços a rapariguinha, e ambas voárão pelas regiões da luz e da alegria até muito alto, muito alto; não havia lá nem frio, nem fome, nem angustia: erão perto de Deos.
Mas encostada ao canto da parede, quando veio o frio amanhecer, estava a pobre rapariga com as faces vermelhas e um sorriso nos labios; matou-a o gêlo na ultima noite do anno velho.
E o sol do anno novo passou sobre o seu cadaversinho.
Immovel estava a rapariguinha: alli estava ella com os phosphoros, dos quaes havia queimado um maço.
Ninguem suspeitava quanto ella vira de bello, e em que brilhante região entrára com a avó no dia de anno novo.
FIM DA SEXTA PARTE