O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (6/7) Parte Sexta: O oraculo da Magica
Part 2
Tardou muito tempo que elles podessem tornar a vêr pelo vidro. Quando chegou a occasião, o que viram foi um lindo quarto e uma mesa com quinquilherias, bolos dôces, uma bella torta, confeitos e pasteis. Estavam lá duas meninas, e parecia que era o dia dos annos de uma, que era a que tinha recebido todas aquellas cousas. Não ralhavam nem se zangavam uma com a outra como tinham feito os outros meninos, mas tambem não se podia dizer que tinham boa saude e que estavam satisfeitas. Dizia uma:
--Que te parece, Emma, vamos comer um bocadinho da tua torta?
--Eu não, Sophia; antes queria maçans.
--Maçans! pois tu não sabes que o senhor doutor prohibiu que comessemos fructa?
--Ah! tambem a torta me faz mal, e a avó foi que m'a mandou; e os dôces fazem-me doer os dentes e foram mandados pela tia.
--Então vamos brincar para o jardim, tornou Sophia.
--Pois sim, vamos; e levo o meu chapéo novo. Iam para sahir quando appareceu a mãi e perguntou:
--As meninas onde querem ir?
--Vamos só um bocadinho para o jardim, maman.
--Deus nos livre d'isso: no jardim está um vento muito frio e a terra muito humida. Nada, nada. Emma viria de lá com dôres de dentes e Sophia com a tosse. Deixem-se estar aqui. Eu vou levar d'aqui para fóra todas estas cousas, porque já comeram muito, e Sophia devia agora tomar o seu remedio.
A menina Sophia fez uma careta de enjôo quando ouviu fallar no remedio. Joanninha não quiz esperar até que elle chegasse e deixaram tristes o vidro e a caixa.
Não faltava a Thomé e a Joanninha que dizer e em que pensar a respeito do que tinham visto.
--Diz-me cá, Thomé, perguntou Joanninha, parece-te que são infelizes todos os meninos que vivem no mundo?
--Não, acudiu logo Thomé, eu acho que não póde ser. Se o principe não vivesse tão só...
--Isso sim; e se os filhos dos ciganos tivessem bons pais; e se os tres irmãos não tivessem tão mau genio; e se as meninas não fossem doentes... Olha, quem é bom e de bom genio e tem saude, vive contente.
--Mas quem é pobre e só como nós? perguntou Thomé.
E Joanninha não soube o que havia de responder-lhe.
* * * * *
Á noite a avó adormeceu cedo, mas elles mal se atreviam a ir ao vidro receando que acabasse por cousas tristes. Comtudo sempre foram. D'esta vez chegaram a gritar ambos ao mesmo tempo em voz um pouco alta: Isto é o nosso quarto e nós n'elle!
E na verdade assim era, mas o quarto era mais alumiado e mais alegre, estava com mais ordem e mais aceio e limpeza, as vidraças sujas estavam bem lavadas, na janella havia em vasos um par de plantasinhas da floresta, como Joanninha as conhecia bem, de umas que nasciam mesmo com a neve; em uma gaiola de vimes, como Thomé já tinha visto fazer aos rapazes da aldeia, saltava um passarinho, que parecia estar melhor n'aquelle quarto agasalhado do que estaria livre ao ar frio, porque cantava e trinava que era um gosto ouvil-o. E a avó assentou-se á roda de fiar e Joanninha ao pé d'ella e Thomé a pequena distancia e não estavam aborrecidos e tristes como era d'antes; e cantavam uma bonita canção que já tinham aprendido na escóla e que nunca se tinham lembrado de cantar em casa. Cantavam tão suavemente que a avó, que percebia alguma cousa, piscava os olhos de contentamento. Por fim quando acabaram de cantar, o Thomé que elles viam lá dentro pegou em um grande livro que já ha muito tempo estava cheio de pó no sobrecéo da cama da avó, desde que ella nem com as lunetas podia lêr. Thomé e Joanninha olhavam espantados, porque era verdade que sabiam lêr, mas lêr em casa era cousa em que nunca tinham pensado. O Thomé do vidro começou a lêr em voz alta de maneira que a avó o ouvia; ao principio não foi tão correntemente como o verdadeiro Thomé teria lido, mas não tardou que fosse melhor. Era a historia de S. José, que os meninos já tinham ouvido, mas já ha muito tempo, e agora parecia-lhe tão cheia de novidade e de belleza que ao Thomé do vidro escutavam com toda a attenção, até que se ouviu um latido de cão. Era tambem exactamente como o latir do Fiel.
E a Joanninha que se via lá dentro levantou-se, poz um par de sapatos velhos ao calor do lume e dependurou tambem ao calor do lar uma jaqueta velha do pai, e quando o pai entrou com Fiel, tirou-lhe Thomé a jaqueta molhada e pegou-lhe na espingarda, e Joanninha deu-lhe os sapatos quentes e a jaqueta bem enxuta.
Thomé e Joanninha olhavam pasmados para aquelles cuidados com que trabalhavam as suas imagens dentro do vidro. Até então tinham visto o pai entrar e sahir sem ao menos pensarem em cuidar d'elle. O pai que elles viam pelo vidro estava muito admirado d'aquelles cuidados de seus filhos e mostrava-se muito mais meigo do que o verdadeiro pai costumava ser. Elle assentou-se á mesa, e Joanninha tinha uma ceia bem quente no lar, cousa que nunca lhe tinha lembrado, porque tambem a avó nunca pensava n'isso, e o pai batia-lhes no hombro, o que elle nunca tinha feito, e começou a fallar da mãi que Deus tinha levado para si, e que tambem cuidava muito d'elle; e tudo isso encantava tanto Joanninha e Thomé que não tinham vontade de tirar os olhos do vidro: mas a avó chamou por elles para se deitarem.
* * * * *
Na manhã seguinte começaram Thomé e Joanninha a viver uma vida muito differente. Joanninha limpava e espanava, punha tudo em ordem e lavava a janella, de maneira que a avó, a quem aquillo parecia um sonho, perguntava: Então isto agora é uma igreja?--Como ainda não era tempo de flôres, Thomé levou do bosque alguns ramos verdes de faia, com os quaes adornou muito bem a sala. Depois ajudaram de boa vontade a avó a fazer o almoço, cousa que nunca tinham feito, e quando o comeram soube-lhes melhor do que nos outros dias. Depois assentou-se Joanninha com a roca ao pé da avó, e Thomé subiu a uma cadeira e abriu a Biblia, que estava cheia de pó como a que viram pelo vidro, e começou a soletrar. A avó escutou com muita attenção, e quando elle começou a lêr correntemente e ella ouviu pela primeira vez da bocca de seu neto a palavra de Deus, o seu coração cheio de annos sentiu-se mais novo, e ella ergueu as mãos ao céo, e não tirava de Thomé os seus olhos arrasados de lagrimas de alegria. Thomé ficou muito contente vendo o effeito da sua leitura e lia cada vez com mais fogo, e Joanninha escutava e fiava e não reparava como a manhã se passava depressa, até que a avó, que tinha o relogio na cabeça, se levantou para cozer as batatas. Então levantou-se Thomé e disse: Espere, avosinha, que eu ajudo-a.
Foram ambos os netos tirar agua ao poço e a avó não cabia em si de alegria. Nunca tinham comido tão boas batatas. De tarde lembrou-lhes cantar, e começaram baixinho, e depois foram subindo a voz, e a avó escutava ao principio como se sonhasse, e sorria com um contentamento como ha muitos annos não tinha tido.
Como passaram satisfeitos até que o pai chegou! E como elle se mostrou admirado d'aquelles cuidados que via nos filhos e que nunca mais vira desde que sua mulher fôra para a sepultura. Aqueceu-se com o fato que elles lhe deram, e encantado com aquellas meiguices dos meninos começou a contar muitas cousas da sua querida Margarida que estava no céo. A avó escutava com grande alegria e de tempos a tempos dizia alguma cousa. Antes de irem deitar-se disse ella ao pai: Tu deves vêr como Thomé lê bem.
E foi buscar o seu velho livro de orações da noite. O pai, que já ha muitos annos não se lembrava de orações, escutou com viva alegria, e a voz de Thomé levava-lhe as santas palavras ao coração, que se abria para Deus. Quando Thomé fechou o livro, ergueu o pai as mãos ao céo e rezou.
Thomé e Joanninha nunca dormiram um somno tão dôce como n'essa noite.
Depois a mocidade foi passando, mas as boas obras davam alegria ao coração, o bom anjo da oração tinha entrado em casa, e fazia d'aquella socegada choupaninha um templo da paz e do amor.
Os meninos não tinham desejos de tornar a olhar para o espelho do anão, porque entendiam que não lhes podia mostrar cousas melhores do que aquella sua vida caseira, principalmente quando veio a branda primavera, e elles pensaram como haviam de dar alegria á sua casinha no proximo inverno.
Disseram-me que Thomé, passados annos, quando o pai e a avó já eram mortos, tinham corrido algumas terras, e veio a ser um habil e robusto carpinteiro que ajudou a construir muito bonitas casas e fez para si uma casinha muito aprazivel. Joanninha tinha ido para casa do padrinho, e veio a ser uma menina muito prendada e depois uma esperta aldean e boa mãi de filhos saudaveis.
Os dous irmãos viveram sempre contentes com a sorte que Deus lhes deu, e quando viam de longe casas ricas, ou ricos vestidos ou custosas golosices, diziam comsigo: Aquillo talvez seja de um pobre principe, ou de algum menino de mau genio ou de alguma Emma doente.
O CASTELLO ENCANTADO
OU
O MONTE DO CASTELLO DAS FADAS
TRADIÇÃO PRUSSIANA
Ao pé do rio Memer, e não longe da cidade de Tilsit, levanta-se um monte alto e redondo que se chama o monte do castello. Ha muitos e muitos annos houve alli um grande castello, como ainda hoje se póde vêr pelas ruinas das paredes, e por um fosso muito fundo e duas linhas de muralhas que estão de redor. A quem pertence e quem agora lá mora, é cousa de que ninguem sabe dar noticia, mas corre na terra uma tradição que reza que elle se aluiu de repente, e ainda hoje se mostra no cume do monte, mesmo no meio d'elle, um largo e escuro boqueirão, cujo fundo ainda ninguem pôde achar com cordas: diz-se que deve ter sido a chaminé do antigo castello. N'esses muros derribados reza a mesma tradição que é guardado um thesouro immenso por um porteiro, velhinho de cabellos brancos, que já tem sido visto muitas vezes pelos viajantes que sobem ao monte, e que ninguem até hoje tem podido ir aproveitar-se d'elle.
Um dia andavam muitos rapazes de uma aldeia proxima de Tilsit a pastorear gado no monte do castello. O dia ia em mais de meio, o sol queimava e os rapazes deitaram-se á sombra de um rosal bravo e pozeram-se a contar historias. Entre outras cousas fallaram no muito ouro que estava no monte por debaixo d'elles, e mostraram desejos de que lhes apparecesse o porteiro do castello para irem atraz d'elle e deitarem mão ao thesouro. Mas mostravam esse animo por ser dia claro, porque nenhum d'elles era capaz de se deixar ficar só no monte do castello depois de escurecer.
--Sim, dizia o mais novo, fazia-me boa conta o ouro, e ainda mais a minha mãi que está velha, corcovada e trôpega e ainda se assenta á roda de fiar, ganhando assim com muito trabalho mas honestamente o escasso pão de cada dia; que alegria não seria a d'ella se eu podesse levar-lhe para casa uma boa mão cheia de dinheiro! Mas eu não quero nada com o tal phantasma do homem pequenino.
--Tolo! disseram os outros, elle não faz mal a ninguem; provavelmente descançaria e não lhe seria preciso andar a vaguear pelo monte, se alguem achasse o thesouro, porque então não teria mais que guardar.
Assim palravam elles até que um se lembrou de irem todos ao boqueirão e atirarem pedras para baixo. Mas por maiores que fossem as pedras que arrastassem até ao buraco e lançassem dentro, não ouviam cahir nenhuma no fundo.
--Se houvesse uma corda bem comprida, disse Fernando que era o mais velho, e rapaz forte e animoso, poderia um de nós descer um bom pedaço, e vêr se acharia alguma porta ou cousa semelhante que fosse dar onde está o ouro.
--Em casa de meu amo, disse outro, ha um poço, e está uma corda no guindaste que com certeza é duas vezes tão comprida como este monte. Querem que a vá buscar? Em casa não está agora ninguem porque meu amo e minha ama sahiram para longe para um baptisado.
A proposta foi bem recebida por todos, menos pelo pequeno Theophilo.
--Nós, disse Fernando com os olhos afogueados, podemos talvez ser ricos com pouco custo, não precisando mais de guardar gado pelo ardor do sol; podemos mesmo comprar casa e campos e ter moços para o gado, se enchermos bem os bolsos lá em baixo. Vai buscar a corda, depois tiraremos á sorte quem ha-de descer á cova; os outros ficarão a segurar a corda em cima, e o que descer será içado logo que dê signal puxando por ella.
Todos estavam muito contentes, menos o pequeno Theophilo, que como medroso se oppunha áquella resolução, mas foi escarnecido pelos camaradas. Quando chegou a corda e foram lançadas as sortes, a quem tocou a vez foi justamente ao timorato Theophilo, que bem fugiria d'alli para longe se os camaradas não o segurassem e não o atassem á força com a corda. Gritando e bracejando, com grandes risadas dos companheiros foi lançado no boqueirão redondo e descido devagar. A ponta da corda foi atada com muita segurança ao tronco de uma arvore, e pouco a pouco foram os rapazes deixando ir cada vez mais para o fundo o seu pequeno camarada. Passados alguns minutos curvaram-se na borda do buraco e disseram: «Que vês lá embaixo, Theophilo?» Mas Theophilo só pedia que o puxassem para fóra.
A final já não se entendia o que elle dizia: a corda, que era mais comprida do que a altura da torre da igreja de Tilsit, estava já a chegar ao fim, e ainda se sentia retesada e pesada, signal certo de que Theophilo ainda não tinha chegado ao fundo. Mas de repente viu-se que estava bamba. Os moços do gado deram gritos de alegria, vendo que por fim estava Theophilo em terra firme: estenderam meio corpo por sobre a borda do boqueirão; chamaram e pozeram-se a escutar, mas o silencio era de mortos. Assim esperaram muito tempo, uma hora e ainda mais; agora, diziam elles, já Theophilo tem tido tempo de ver tudo e de encher os bolsos com ouro e prata. Puxaram a corda para cima, mas a corda não trazia nada. Como esperassem ainda uma hora e outra hora sem que a corda trouxesse alguma cousa acima, começaram a affligir-se e a inquietar-se. Depois correram muito pezarosos á aldeia, e com medo de castigo disseram á velha mãi doente do seu camarada perdido que Theophilo tinha trepado sósinho ás ruinas do monte do castello e de repente tinha desapparecido.
Foi grande a angustia da pobre mãi do rapaz, cuja alegria unica era o seu Theophilo. Chorou e gemeu toda a noite, não houve somno que lhe fechasse os olhos, e bem quizera ella morrer para ir ter com seu filho ao céo, porque elle de certo tinha cahido no fundo do boqueirão do monte do castello, e lá estava despedaçado e morto.
Quando na manhã seguinte Fernando e os outros moços do gado levavam outra vez os rebanhos para o pasto da vespera, ainda afflictos pelo que tinha acontecido, correu Theophilo ao encontro d'elles na raiz do monte. Todos os seus bolsos, e o barrete, e mesmo as mãos, estavam cheias de ouro, e elle com grande alegria contou aos camaradas como tudo lhe tinha corrido bem. Disse elle:
--Logo que me senti em chão firme e que me desatei da corda, vi uma porta diante de mim e por ella entrei em uma cozinha muito grande. Ardia no lar uma grande fogueira que não fazia fumo nenhum, e em toda a parte não se via senão cousas de ouro e de prata. De repente veio direito a mim um velhinho pequeno, pegou-me na mão com muito bons modos e me disse que não tivesse medo porque me assegurava que não havia alli ninguem que me fizesse mal. Então perdi o medo, e atravessei com o bom velho muitas salas cada vez mais bonitas, onde havia montes de ouro. Então deu-me o castellão differentes iguarias muito boas para comer, e mostrou-me uma cama em que eu podia dormir. O vinho muito dôce que bebi pesou-me na cabeça, e eu dormi como um morto até que o mesmo velho pequenino me foi acordar. Então encheu-me de ouro o barrete e os bolsos tanto quanto podiam levar, e disse-me: «Guarda isto em lembrança do porteiro do castello e tracta de tua velha mãi.» E pegando-me em uma mão, abriu uma porta pequena, e quando puz os pés fora, vi o céo azul e o sol da manhã, e ouvi o sino da aldeia que tocava ás ave-marias. Elle não sahiu, disse-me adeus com a mão, e desappareceu. A porta por onde tinha sahido não a tornei a vêr. Graças a Deus, tudo foi bem até ao fim. Como minha mãi vai ficar contente!
E Theophilo correu logo á aldeia, sem dar mais ouvidos aos seus camaradas que bem queriam ouvir contar mais alguma cousa.
--Agora, disseram elles uns para os outros quando viram as grandes riquezas com que Theophilo appareceu, devemos ir tambem ao bom porteiro velho e trazer alguma cousa do seu thesouro. Vamos vêr a quem por sorte caberá a vez de ir lá abaixo.
--Para que ha-de ser á sorte? disse Fernando; eu sou o mais velho de todos, e hei-de ser o primeiro a descer. A quem não estiver pelo que digo, provarei que está do meu lado o direito do mais forte.
Os camaradas resmungaram, mas não se atreveram a resistir ao robusto rapaz, e por isso foi Fernando descido ao boqueirão, depois de ter primeiro tirado o seu pão da saccola pastoril, para ter onde deitar muito ouro que esperava receber do porteiro do arruinado castello. De novo se mostrou a corda retesada quasi até ao fim, e os outros a colheram sem que trouxesse nada, mas não esperaram que o camarada sahisse para fóra n'aquelle mesmo dia, porque sabiam que elle tinha lá em baixo boas cousas para comer e uma cama bem fofa para passar a noite, e que lhes appareceria de manhã muito alegre, como o pequeno Theophilo, ao pé do monte. A ausencia de Fernando foi pouco notada na aldeia; os companheiros levaram-lhe a casa o gado, e elle não tinha uma mãi que o chorasse.
Na manhã seguinte todos os outros cheios de impaciencia sahiram com o gado mais cedo do que costumavam, mas não encontraram Fernando. Esperaram um pouco, depois correram ao alto do monte, deitaram a corda ao boqueirão, e inquietos chamaram o camarada pelo nome. Mas não houve resposta. Depois ninguem tornou a ver Fernando, nem appareceu ninguem que tivesse animo para descer ao fundo do monte do castello, e apanhar o thesouro que lá está enterrado.
GRATIDÃO DE UM FILHO
E
INGRATIDÃO DE OUTRO
(Hebel.)
Quem reparar um pouco, ha de ver muitas vezes que o homem na velhice é tratado por seus filhos exactamente do mesmo modo, como elle havia tratado seus paes, quando erão velhos e já sem forças. E isto comprehende-se bem. Os filhos aprendem com os paes; não veem nem ouvem mais ninguem, e por isso seguem o seu exemplo. Assim se verifica naturalmente o que tantas vezes se diz, e está escripto: «a benção e a maldição dos paes vem cair sobre os filhos.»
Ouçamos agora duas historias que se contão a proposito d'isto: a primeira é digna de imitação; a segunda merece ser muito meditada.
Uma vez um certo principe foi dar um passeio a cavallo, encontrou-se com um camponez diligente e alegre, que andava a trabalhar em um campo, e poz-se a conversar com elle.
D'alli a alguns dias soube o principe que o campo não era propriedade d'aquelle homem, o qual não passava d'um jornaleiro que pela modica quantia de tres tostões por dia cuidava do seu amanho. O principe, que para os pesados encargos do governo precisava de enormissimas sommas, não podia comprehender como tres tostões diarios erão meios bastantes para o nosso homem viver, e de mais a mais de rosto tão alegre. Este porém respondeu-lhe: «Nada me faltaria, se eu pudesse dispôr de todo esse dinheiro: a terça parte chega-me bem; com um terço pago as minhas dividas e a terça parte restante pertence ás minhas economias.» O bom do principe ficou ainda mais admirado. Mas o camponez continuou: «O que tenho, reparto-o com meus paes, que são velhos e já não podem trabalhar, e com meus filhos, que andão por ora a aprender; áquelles pago-lhes o amor com que me tratárão na minha infancia, e d'estes espero que não me abandonarão tambem na minha cansada velhice.» Não é verdade que tudo isto foi muito bem dito, é ainda melhor pensado, e ainda muito melhor executado? O principe recompensou aquelle homem de bem, olhou com desvelo pelos filhos, e a benção que os paes lhe lançárão ao morrer, foi-lhe retribuida pelos filhos agradecidos com amor e amparo.
Havia porém outro homem que tratava tão mal seu pae, a quem a edade e as doenças tinhão na verdade tornado impertinente, que o velhinho mostrou desejos de entrar em um hospital de pobres, que havia na mesma aldeia. Alli esperava elle, apesar do pouco affecto, pelo menos vêr-se livre das reprehensões que em casa lhe amarguravão os ultimos dias da vida. O filho ingrato saltou de contente apenas soube dos desejos do pobre velho, e ainda antes de o sol se esconder por detraz das montanhas visinhas, já elles estavão satisfeitos. Mas no hospital não encontrou elle tudo quanto desejava, e passado algum tempo pedíu ao filho, como ultimo favor, que lhe mandasse dois lençoes, para não ter de dormir toda a noite na palha estreme. Procurou este os peores que tinha, e chamando seu filho, creanca de dez annos, ordenou-lhe que os levasse ao hospital.
Ficou porém admirado ao vêr que o pequeno escondia a um canto um dos lençoes e só levava ao avô o outro; e apenas elle veio, perguntou-lhe porque tinha feito aquillo. O filho respondeu friamente que tinha guardado um dos lençoes para o dar ao pae, quando mais tarde o mandasse para o hospital.
Que lição tiramos d'aqui?
_Honra teu pae e tua mãe, para que sejas feliz._
O CHAPELINHO VERMELHO
OU
A FADA E O LOBO
Era uma vez uma rapariguinha da aldeia, a mais bonita que-podia haver: sua mãe adorava-a, e sua avó, que era a _Fada dos jasmim_, ainda mais. Esta boa mulher deu-lhe de presente um chapelinho vermelho, que lhe ficava tão bem, que a chamaram o Chapelinho Vermelho.
Um dia sua mãe, tendo feito alguns bolos, disse-lhe:--Vae ver como está tua avó, pois que me disseram que ella estava doente; leva-lhe este bolo e este pote de manteiga. O Chapelinho Vermelho partiu logo para casa de sua avó, que morava n'outra aldeia. Passando n'um bosque, encontrou um lobo com cara de gente, que tinha boa vontade de a comer; mas não ousou fazel-o, por temor de alguns carvoeiros que estavam na floresta. Perguntou-lhe onde ella ia; e a pobre pequena, que não sabia que era perigoso dar attenção a um lobo, respondeu:--Vou ver minha avó, e levar-lhe um bolo com um pote de manteiga, que minha mãe lhe manda.--Ella mora muito longe? perguntou o lobo.--Não, senhor, respondeu o Chapelinho, é além d'aquelle moinho, que vossê vê lá ao longe, na primeira casa da aldeia.--Pois bem, disse o lobo, eu tambem quero ir vel-a, vou por este caminho, tu irás por aquelle, e veremos quem chega lá primeiro. O lobo poz-se a correr a toda a pressa pelo caminho mais curto; e a pequenina foi pelo caminho mais comprido, divertindo-se a colher avelãs, a correr atraz das borboletas, e a fazer ramalhetes das flores que via. O lobo não tardou muito a chegar a casa da avó, e bateu á porta: truz, truz, mas ninguem respondeu, porque a _Fada dos jasmins_, sabendo quem era, quiz fazel-o persuadir que não havia gente em casa.