O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (6/7) Parte Sexta: O oraculo da Magica

Part 1

Chapter 14,210 wordsPublic domain

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O ORACULO

DO

PASSADO, DO PRESENTE E DO FUTURO

OU O

Verdadeiro modo de aprender no passado a prevenir o presente, e a adivinhar o futuro

POR

BENTO SERRANO

ASTROLOGO DA SERRA DA ESTRELLA,

_Onde reside ha perto de trinta annos, sendo a sua habitação uma estreita gruta que lhe serve de gabinete dos seus assiduos estudos astronomicos_

OBRA DIVIDIDA EM SETE PARTES, CONTENDO CADA UMA O SEGUINTE:

Parte primeira--O ORACULO DA NOITE Parte Segunda--O ORACULO DAS SALAS Parte Terceira--O ORACULO DOS SEGREDOS Parte Quarta--O ORACULO DAS FLORES Parte Quinta--O ORACULO DAS SINAS Parte Sexta--O ORACULO DA MAGICA Parte Setima--O ORACULO DOS ASTROS

PORTO LIVRARIA PORTUGUEZA--EDITORA 55, Largo dos Loyos, 56 1883

PARTE SEXTA

O ORACULO DA MAGICA

OU

O ESPELHO MAGICO DO ANÃO

SEGUIDO DA INTERESSANTE DESCRIPÇÃO DE UM

CASTELLO ENCANTADO

OU O

MONTE DO CASTELLO DAS FADAS

PORTO LIVRARIA PORTUGUEZA--EDITORA 55, Largo dos Loyos, 56 1883

Porto: 1883--Imprensa Commercial--Lavadouros, 16.

O ESPELHO MAGICO DO ANÃO

Thomé e Joanninha viviam quasi sós na sua pequena casinha, fóra do bosque, tão sós como nunca tinham vivido. O pai era couteiro e guarda-matas, e por isso, ou o tempo estivesse bom ou mau, passava muitos dias sem ir a casa, a guardar as florestas e a matar a caça silvestre que era para a mesa do senhor das terras. A mãi tinha morrido, e na choupana ninguem estava com os meninos senão a avó, que já via mal e ouvia pouco. A avó passava todo o dia assentada ao lar, menos quando andava coxeando pela cosinha para preparar a pobre comida para os pequenos, ou quando dormia. De dous em dous ou de tres em tres dias vinha Luiza, que morava na aldeia, trazer o leite, o pão e o que era mais necessario; mas passavam-se semanas sem entrar um homem na choupana.

No verão pouco cuidado dava isso aos pequenos, porque iam todos os dias á escola da aldeia, e era isso para elles um divertimento. Os passaros faziam-lhes companhia cantando alegres; no caminho encontravam lirios ou morangos, que colhiam para venderem na aldeia ou para levarem ao mestre. Passadas as horas de aula, corriam á floresta, por onde andavam de um para outro lado com o pai, e espreitavam esquilos e cabritinhos montezes, e já uma vez tinham visto de longe um bello veado. E assim, lendo nos seus livros na escola ou colhendo avelans nas matas, não sabiam o que era aborrecimento em todo o verão.

Mas no inverno era verdadeiramente triste, porque não podiam entrar na floresta, e tinham de estar em casa como dous ratinhos no seu buraco. O pai era obrigado a andar por fóra e levava comsigo Fiel, bonito perdigueiro, que era o compaheiro unico dos pequenos. Tambem, se o pai estava em casa era raro que dissesse alguma cousa; assentado á lareira, dormia ou limpava armas de caça. Em outro tempo contava a avó muitas historias bonitas, mas então já não contava nada, e se fallava era a meia voz e só comsigo. Joanninha assentava-se ao pé da avó com uma roca pequena e fiava; mas era um trabalho aborrecido por não haver quem conversasse. Thomé talhava em bocados de pau figuras de cães e de lebres; mas sahiam-lhe sempre mal feitas, e tantas vezes dava golpes nos dedos que perdia a paciencia e deixava a obra. O que mais o divertia era fazer casinhas com pedras e bocados de pau que ajuntava; mas as casas cahiam com grande barulho, e a avó dizia-lhe que não tinha geito nenhum para aquillo. Então dizia ás vezes Thomé com mau humor:

--Ora, porque não havemos nós de ser como os filhos dos ricos, como o filho de um fidalgo que uma vez passou na aldeia, ou como os do balio, que podem comer tudo que quizerem, ou como os filhos dos ciganos que andam por onde querem?

Em uma tarde, perto do Natal, tudo estava calado e triste. O azeite no candieiro estava quasi acabado, e o caminho para a aldeia estava tão cheio de neve que Luiza não tinha podido apparecer com as cousas precisas. Não havia com que fazer arder o candieiro. Por fortuna o luar era claro como o dia; mas os pequenos tinham medo das sombras exquisitas que o luar fazia.

Joanninha chegava-se muito para a avó, e Thomé fez o mesmo e disse á velha avó em voz alta:

--Avósinha, conte-nos hoje uma historia, ainda que seja pequenina: ainda ha-de saber alguma.

--Não sei nenhuma, rapaz, resmungou a velha, mesmo nenhuma. Esqueceram-me todas.

--Só uma, avósinha; conte do anão da pedreira.

--Da pedreira, ah, sim, rapaz, espera; deixa vêr se me lembra. Onde está a grande pedreira, em baixo no barranco era em outro tempo uma rocha forte e a prumo como um muro, d'onde nunca tinha sahido nenhuma pedra, e defronte da rocha havia um pedaço de terreno coberto de viçosa verdura: por debaixo moravam os anões; descia-se por degraus ao pequenino castello da rainha dos anões, e debaixo da terra era uma cidade muito bonita. Na floresta não entravam caçadores nem cortadores de lenha nem montantes, e nos dias de sol subiam todos os anões e assoalhavam-se no musgo verde, e faziam banquetes e dançavam com muita alegria. Um dia começaram os homens de fóra a levantar casas na planicie, e entraram na floresta e cortaram arvores, e acarretaram grandes pedras para fóra. Ficou tudo cheio da entulho de redor do bello rochedo que ficava defronte do terreno cheio de verdura, e de redor da cidade dos anões. Para que os homens não podessem cortar mais pedras, foram os anões de noite todos juntos á floresta e cortaram pedras muito grandes e levaram-nas de rodo com toda a força até á entrada da mata. Os homens descontentes foram á rocha e fizeram saltar as pedras em pedaços, e ellas cahiam com grande estrondo no prado. Assim ficou toda arruinada a bonita cidade dos anões, e houve muitas lagrimas e sentimento: Os anões que não tinham sido mortos, escavaram um subterraneo fóra do bosque. Lá vivem agora, e se edificaram outra cidade é cousa que não se sabe. Desde então tem rodado para fóra muitas pedras de noite; mas estão sempre a cahir outras lá dentro, e todos os annos na noite de S. Thomé, sahem elles para verem se ainda ha muitas pedras no terreno, e a quem de lá tirar n'essa noite tres pedras, não negam os anões cousa nenhuma que lhes seja pedida.

Assim contou a avó. Havia muito tempo que ella não tinha fallado tanto, e estava cançada. Joanninha estava cheia de medo e chegava-se muito para ella, mas Thomé, com as faces ardentes e olhos brilhantes, pensava na historia e bem quizera saber se os anões ainda appareciam.

Então Fiel ladrou fóra, e entrou o pai, cançado, carrancudo e gelado; mesmo ás escuras procurou alguma coasa que podesse comer; mas a velha esquecia-se d'elle muitas vezes, e elle teve de deitar-se com fome. No inverno dormia a avó na alcova e Joanninha com ella, e o pai com Thomé na salinha proxima. O pai, depois de pegar a dormir, roncava toda a noite, e não havia nada n'este mundo que o acordasse, só se fosse algum tiro dado na mata.

N'essa noite Thomé não podia dormir. Não era a primeira vez que elle ouvia contar a historia dos anões; mas nunca tinha sabido que estavam tão perto e que ainda appareciam. Batia-lhe o coração com desejos anciosos, pensando que podia com as riquezas dos anões alegrar aquella miseravel solidão dos bosques. E faltavam só dous dias para o S. Thomé!

Não pôde calar-se que não dissesse na manhã seguinte ao ouvido de Joanninha:

--Joanninha, depois de amanhã, é o dia de S. Thomé; vamos tirar pedras do territorio dos anões.

Mas Joanninha olhou para elle com olhos espantados, e disse:

--Ora essa! Tu não vês que é só uma historia do que já passou ha mais de cem annos? E demais, eu morreria de medo se sahisse de noite.

Thomé ficou entendendo que nada faria com aquella maricas, apesar de Joanninha ser mais velha, e calou-se com o seu projecto.

* * * * *

Na noite de S. Thomé foi o pai cedo para casa, e antes de ter a avó apagado o candieiro já elle dormia como uma pedra. Thomé esperou que Joanninha tambem adormecesse; a avó sabia elle que não o ouviria ainda que estivesse acordada. Não tardou muito que tudo fosse silencio: elle não se tinha despido, puxou o barrete de pelles para as orelhas e sahiu. Fiel não estava acostumado a vêr sahir Thomé sosinho; e ficou muito espantado e resmungou quando Thomé lhe poz a mão pela cabeça.

A lua ainda brilhava clara, e no bosque havia um silencio de cemiterio que assustava Thomé; mas tomou animo, e metteu-se com passos ligeiros e firmes ao bem conhecido caminho da grande pedreira. Não se ouvia o mais leve murmurio quando elle entrou no barranco, e então estremeceu vendo a rocha escavada em que mal entrava um raio da lua. Com passos tremulos foi andando até ao lugar onde tinha sido o territorio dos anões, e onde só havia então uma grande quantidade de pedras grandes e pequenas. Com as mãos a tremer, agarrou nas maiores que pôde levantar, e levou-as para fóra.

--Quem está ahi? perguntou uma voz fina, quando elle deitava fóra a ultima.

No unico lugar que a lua alumiava no barranco estava um homem muito pequeno vestido de verde, que era o que perguntava a Thomé:

--Quem está ahi?

--Sou o Thomé do guarda-matas, disse elle muito embaraçado, e tirando com todo o respeito o barrete.

--Que queres d'aqui?

--Só queria tirar pedras para que os senhores podessem viver aqui debaixo.

--Pouco podes fazer, disse o anão com tristeza, mas é uma boa obra que deve ser recompensada. O que é que desejas mais?

Thomé já tinha pensado em muitas cousas, mas n'aquella occasião não lhe lembrava quasi nada. Lembrou-se de um cavallo em que elle podesse ir á escola, de uma pipa cheia de azeite para que sempre houvesse que arder no candieiro, e de um sacco cheio de maçans e de nozes; mas nada d'isso valia o que elle tinha feito. Por fim disse gaguejando:

--Uma sacca de dinheiro.

O anão perguntou-lhe:

--Então já sabes o que isso é? Que queres fazer com o dinheiro?

Thomé respondeu um pouco animado:

--Em lugar da nossa choupana, fazia uma casa grande, muito grande, ainda maior que é na aldeia a casa do monteiro; e uma cavallariça cheia de bellos cavallos em que eu podesse correr, quando tudo estivesse cheio de neve; e comprava á Joanninha um vestido novo, e um barril de azeite para não estarmos ás escuras.

--E que mais? disse o anão sorrindo; has-de fazer uma casa, mas não n'este escuro bosque; andarás por fóra da tua terra, mas para isso não precisas de cavallo; Joanninha poderá ter o vestido novo sem ser dado por ti, e quando quizeres ter azeite bastante, vai com a tua cestinha á pedreira onde acharás com que faças azeite sufficiente para arder no candieiro em dous annos. Entendo que a sacca de dinheiro não te serve de nada; ainda és muito pequeno.

--Ah, disse Thomé desanimado, a nossa vida não seria tão miseravel e tão aborrecida nas grandes noites de inverno, se tivessemos algum bonito livro de estampas.

--Lá isso, disse o anão, é cousa que póde ter bom remedio; vai descançado que depois da noite do Natal irei ter comtigo e cuidarei no modo de nunca mais te parecerem longas as noites de inverno. Alegra-te, os anões sabem pagar o bem que lhes fazem.

O anão desappareceu, Thomé ficou a tremer, e foi-se embora muito mais inquieto do que tinha sahido. Sem que ninguem ouvisse, levantou a aldrava de pau, entrou em casa, foi ao seu quarto, deitou-se, e toda a noite sonhou com o anão. Não quiz dizer nada a Joanninha, porque elle mesmo não sabia bem o que o anão faria, apesar de esperar com anciedade a chegada do Natal.

Chegou a noite de Natal, e não faltava alegria na cabaninha da floresta. O pai tinha trazido da aldeia grande quantidade de maçans e de nozes, a avó tinha dado aos pequenos duas bonitas estampas que ainda achou na sua Biblia, e na manhã do dia de festa, chegou a criada da senhora do monteiro, que era madrinha de Thomé e de Joanninha, e trouxe dous bonitos corações de pão doce, um lindo gibão novo para Joanninha, e uma jaqueta bem forrada e quente para Thomé. O pai não sahiu de casa e cozinhou uma lebre. Havia muito tempo que elles não tinham vivido tão bem; mas Thomé não estava tão contente como nos outros annos, porque não sabia se o melhor ainda havia de vir.

* * * * *

Veio a noite e todos adormeceram, menos Thomé que se assentou na cama vestido, e pensava no que poderia trazer-lhe o seu novo amigo para passar o tempo enfadonho do sombrio inverno, quando ouviu bater de leve á porta de casa. Com algum susto e temor, mas a toda a pressa saltou da cama, e abriu ao homem pequenino vestido de verde, que não levava nada comsigo senão um vidro redondo, muito brilhante e de muitas côres.

--Leva-me ao teu quarto, disse o anão, entrando e andando mais ligeiro do que Thomé.

Foram ao quarto de dormir em que se via tudo claramente com a luz que o vidro dava. O que lá se via era um leito velho, uma mesa manca com tres pés, e duas cadeiras. O traste maior era uma alta e larga caixa, mettida na parede, ennegrecida pelo tempo, e que muitas vezes tinha sido um bom lugar para o jogo das escondidas. Nas costas da caixa havia um grande buraco redondo por onde Joanninha tinha medo de espreitar porque via tudo escuro.

Esta caixa foi o que deu mais nos olhos ao anão, que entrou n'ella pela tampa meio aberta e esteve a trabalhar e a bater lá dentro algum, tempo.

--Agora, disse elle, depois que sahiu, já não haveis de passar o tempo com aborrecimento; quando as horas parecerem muito compridas, olhem pelo buraco redondo que está na caixa, seja de manhã ou seja de tarde, quando estejam sós. Adeus, rapaz; Deus te dê da sua graça.

--E antes de Thomé saber o que havia de novo, já o anão tinha sahido. Thomé não entendeu bem o que tudo aquillo queria dizer, e não se atreveu a ir logo vêr á caixa. Foi deitar-se ao pé de seu pai, e pensando e scismando se o anão fallaria seriamente ou a gracejar, adormeceu.

Na manhã seguinte o pai sahiu cedo, e Thomé não pôde calar-se, e ao pé da surda avó contou baixinho á irmã toda a sua aventura, de que ella se riu sem lhe dar credito, mas tremendo de susto. Por fim resolveu-a a ir de tarde com elle fazer a primeira visita á caixa, e como esperavam alguma cousa, não souberam n'esse dia o que era aborrecimento.

Á noite, ainda o pai não tinha entrado e a avó cabeceava com somno, quando ambos se metteram na caixa cheios de anciedade. Thomé, que era mais animoso, foi o primeiro que olhou pelo buraco onde brilhava o vidro do anão. Ah! que resplendor lhe veio bater nos olhos! Puxou logo Joanninha para si, porque a abertura era bastante larga para poderem vêr ambos ao mesmo tempo. Eram maravilhas o que elles viam, e mal se podiam conter para não darem altos gritos de espanto. Viam uma grande sala, muito grande, alumiada de um modo magestoso por lustres dourados, com muitos centos de velas de côres. E uma mesa estava carregada com as cousas mais maravilhosas: soldados, de pé e de cavallo, regimentos inteiros com peças e armas, e uma cavallariça cheia de cavallos pequenos de todas as raças, e livros com ricas pinturas, e uma grande quantidade de objectos de brinquedo, que elles nunca tinham visto, e pequenas esporas de prata, e uma espingarda e espada, e um soberbo vestuario de velludo bordado a ouro. Todas estas cousas magnificas estavam dispostas sobre a mesa na melhor ordem, e ao pé havia açafatinhos e pratos com os dôces mais finos.

--Ah, de quem será isto! disseram os dous irmãos suspirando.

A porta abriu-se, e entrou um rapaz esguio e pallido, que teria dez annos, e atraz d'elle muitas senhoras e homens da nobreza vistosamente vestidos. Thomé e Joanninha pensavam que aquellas riquezas deviam pertencer a muitos meninos, e olhavam para todos os que iam entrando na sala; mas não havia outro menino senão o que entrou primeiro, e que passou por todas aquellas cousas tão ricas sem fazer muito caso d'ellas, em quanto que Thomé e Joanninha pregavam no vidro os olhos afogueados e parecia que queriam devorar todas aquellas maravilhas.

--Rapazes, onde estaes vós? gritou fóra a voz da avó.

Voltaram a cabeça assustados, e viram tudo ás escuras, como era nos outros dias, e a velha caixa estava sem luz como se nada tivesse acontecido. Aos dous irmãos ainda parecia tudo um sonho quando se assentaram ao pé do candieiro no quarto velho e defumado. N'essa noite chegaram a sentir quasi alegria por a avó ser surda, porque podiam fallar á vontade nas maravilhas que viram, e a cada um lembrava alguma cousa muito bonita em que o outro não tinha reparado.

--Ai, diziam elles suspirando, que boas cousas tem aquelle menino fidalgo! Se nós tambem tivessemos cousas assim!

E ainda diziam o mesmo quando o somno lhes fechou os olhos, para ainda lhes mostrar em sonho tanta grandeza.

Antes de ser bem dia, foi Joanninha á sala da caixa. O pai não estava em casa, e por isso podiam á vontade ir olhar pelo vidro maravilhoso. Como elles desejavam ver ainda uma vez a bella sala de hontem! Agora era á luz clara do dia, mas, era quasi tão bonito como com os centos de luzes de côr: ainda havia todas as cousas ricas de hontem, mas não estavam em tão boa ordem, o menino que tinham visto estava vestido de sêda deitado sobre o sophá, com alguns dos bonitos livros espalhados de redor d'elle, e parecia estar muito aborrecido.

Quando Thomé e Joanninha se mostravam admirados de que podesse haver alguem que não estivesse contente com tão maravilhosas cousas, abriu-se uma porta da sala, e entrou um senhor de idade. Os meninos ouviram fallar como muito ao longe, mas entendiam bem o que se dizia. O velho perguntou:

--Já está enfastiado, meu caro principe, de tantas cousas que fariam felizes outros meninos?

--Outros meninos! disse o principe; os outros meninos não estão sós, e eu já vi todas as minhas cousas que me deram.

--Mas vossa alteza bem sabe que se lhe dá companhia quando a quer ter.

--Que companhia! Vem um, e diz: «Bons dias, principe»; e diz outro: «Que tem principe?»; e brincam com o que eu tenho e conversam e riem uns com os outros; e quando lhes chega o aborrecimento, vão-se embora e eu fico só. Quem me dera sahir como sahem os outros meninos!

--Mas se vossa alteza quer, póde ir passear ou viajar

--Ah, sim, ir passear na sua companhia, ou andar em carro ou a cavallo acompanhado por camaristas. Que grande alegria! o que quizera era ir só e para onde me parecesse. Antes queria ser filho de ciganos do que principe.

Antes que Thomé e Joanninha podessem ouvir mais nada, chamou por elles a avó. Sahiram da caixa e o buraco ficou ás escuras.

* * * * *

Muito tinham os dous irmãos que dizer um ao outro! O que elles não podiam entender era porque estava o principe tão impertinente.

--Ah, como nós estariamos contentes com aquellas cousas tão bonitas! dizia Thomé suspirando.

--Sim, mas nós não estamos sós, dizia Joanninha.

--É verdade que os meninos ricos quando não estão sós, tambem estão contentes, dizia Thomé para si.

--Havemos de vêr, dizia Joanninha, se o principe ainda lá está hoje á noite.

Com grande alegria passaram elles todo o dia a conversar, e a anciedade não podia ser maior quando outra vez olharam pelo vidro.

Já não era a sala, mas sim um bosque, quasi como aquelle em que elles moravam, e havia no bosque um grande pedaço de terreno sem arvores onde ardia uma fogueira; em que estava estendida uma bella peça de caça brava, e de redor da fogueira muita gente esfarrapada e enfarruscada, e alguns tocadores de instrumentos que tocavam uma musica alegre, e uma multidão de creanças que dançavam e saltavam com uma alegria de selvagens.

--Ah, isto é muito divertido, dizia Thomé.

Mas Joanninha abanava a cabeça porque não lhe agradava o que via. Um rapaz d'aquelles ciganos chegou com um grande sacco cheio de fructas seccas, e todos os pequenos o receberam com gritos de alegria, e elle despejou o sacco no chão. Todos se atiraram ás fructas seccas como quem tinha fome e comeram a bom comer. Depois começaram outra vez a saltar e a cantar desentoados, e Thomé começava a sentir desejos de tambem ir saltar com elles, quando o pai que chegava de fora os chamou para o quarto.

Toda a noute teve Thomé os ciganos na imaginação, de maneira que deu cuidado a Joanninha que pensava que Thomé podia muito bem sahir de casa de noite e fugir para os ciganos. Mesmo a dormir cantava Thomé o que tinha ouvido tocar aos ciganos.

Muito cedo, antes de acordar o pai, foi Thomé olhar pelo vidro, sem esperar por Joanninha, que só passado algum tempo é que foi ter com elle. O que viram era ainda o verde prado do bosque, mas já não havia festa. Era de manhã, a fogueira estava apagada, e os ciganos corriam para todos os lados muito afflictos e desvairados. Chegaram soldados e todo aquelle barulho e desordem acabou pela prisão dos ciganos que eram accusados de roubos. Com agudos gritos viram os pequenos dos ciganos que os soldados levavam á força seus pais e suas mãis, e que outros soldados os levavam a elles para outra parte. Thomé e Joanninha não tiveram animo para vêr mais e desviaram os olhos do vidro. Joanninha disse depois a Thomé:

--Ainda querias ser filho de cigano para ter aquella vida livre que elles tem?

--É verdade, disse Thomé desanimado, quem rouba não pode ter uma vida livre.

--Os meninos ricos, tornou Joanninha, de certo passariam melhor vida, se não vivessem tão sósinhos como o principe.

* * * * *

Á noite não poderam ir para a caixa das vistas maravilhosas porque a avó nunca lhes deu tempo de sahirem da cozinha, e o pai foi para casa muito cedo. Por isso ainda mais desejavam que chegasse a occasião de poderem lá tornar.

Quando essa occasião chegou, viram um quarto muito bonito, não tão admiravel como a sala do principe, mas muito mais bonito do que o quarto da madrinha, com alcatifas de varias côres e bellos quadros nas paredes. O quarto estava cheio de lindas cousas para brincarem meninos e meninas. Um bonito quarto de bonecas, com senhoras e senhores muito bem vestidos, com sophás, cadeiras e caminhas pequenas, e uma cozinha cheia de louças brancas, panellas e pratos, muito mais do que havia na cozinha da avó; bonecas pequenas e grandes, quasi da altura de Joanninha, berços e cadeirinhas; e de outro lado um castello com soldados, e uma loja muito enfeitada com uvas seccas, amendoas, confeitos e figos, e um carro com bahús e saccos, e lindos livros de estampas; em uma palavra, eram quasi tantas cousas como tinha o principe. Thomé e Joanninha não cabiam em si de contentamento e admiração.

Então entraram no quarto os donos de todas aquellas riquezas, que eram duas meninas e um menino. Parecia que vinham de passear. As meninas correram para as bonecas e o menino para a loja. Uma foi com um dinheiro pequenino e brilhante comprar dôces ao irmão, a outra começou a vestir as suas bonecas de uma caixinha cheia de ricos vestidos e chapelinhos.

Ah, como ficaram tristes Thomé e Joanninha quando a avó os chamou para a ceia, e como sonhavam, a dormir e acordados, com aquellas bonitas cousas, e como correram na manhã seguinte á caixa para continuarem a vêr como eram felizes os tres irmãos!

Mas já não era tudo tão bonito no quarto; as bonecas estavam no chão, e uma das meninas estava a chorar e a gritar; tinha deixado de noite as bonecas no chão e a porta do quarto aberta; a gata tinha entrado, tinha brincado com a boneca, e rasgou-lhe os vestidos de sêda e estragou-lhe as côres.

--A culpa é tua, gritou um dos meninos, porque não pozeste as cousas em ordem.

--Eu é que não tive culpa nenhuma, gritou a outra.

E n'isto correram aos empurrões para a loja, e entraram em desordem por causa de um pão de assucar que as meninas queriam ter na sua cozinha e o irmão não queria que se tirasse da loja. A questionar e a gritar entraram as meninas na loja, e muitos dos vidros do dôce foram deitados ao chão: o menino cheio de colera correu á cozinha e deitou tudo ao chão, e quebrou a bonita louça que lá havia. Então foram tantos os gritos e queixas que Thomé e Joanninha não quizeram vêr mais.

* * * * *