O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (3/7) Parte Terceira: O oraculo dos Segredos

Part 3

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Temos a notar que as compleições atraz declaradas tem aquelles effeitos em quanto distinctas, mas pela mistura d'ellas formam outras quatro compleições, que são as do temperamento, colerica, sanguinea, fleumatica, melancholica. Da do temperamento não trataremos, porque não é possivel havel-a, que onde ha temperamento não ha alteração e não póde haver doença. Assim tambem se ha de notar, que o dormir é parte mui essencial para o cosimento do estomago: porém convém a cada um para sua saude tomar o somno conforme a qualidade da sua compleição. Porque os puramente colericos pela muita quentura que tem, basta-lhes dormir cinco a seis horas: os colericos sanguineos basta-lhes cinco e meia a seis e meia; os puramente sanguineos basta-lhes seis a sete; os fleumaticos bastam-lhe seis e meia a sete; os puramente fleumaticos, bastam-lhe sete a oito, os fleumaticos melancholicos bastam-lhe sete e meia a oito e meia; os puramente melancholicos bastam-lhe oito a nove.

E tudo o que passa d'esta regra é prejudicial á saude, porque tanto se perde por carta de menos, porque assim como não dormir inquieta o corpo, o móe e debilita, assim o dormir muito causa gota e outras enfermidades. Note-se tambem que os colericos, pela muita quentura que teem, lhes é prejudicial á saude soffrer fome; mais ou menos, comer é melhor.

Segredo 50.º

Para fazer levantar um ovo ao ar deante de gente

No mez de maio colherão em uma horta uma ambula de orvalho, guarda-se em parte onde lhe não dê o sol, e quando quizermos fazer o que acima fica dito, com um alfinete grosso fura-se um ovo e chupando-o pelo mesmo buraco, o encherão de orvalho, e taparão o dito buraco com um bocadinho de cêra branca, collocando-se o dito ovo á vista de todos em parte onde lhe dê o sol, e assim como o ovo fôr aquecendo se irá levantando e subindo até desapparecer. Quem quizer que este mesmo ovo lhe sirva para mais vezes, ate-o a um cordel na ponta de uma lança, e que seja o cordel tão comprido como ella, ficando a lança no chão. Com uma linha atarão o ovo no cordel, posto ao pé da banca em parte onde lhe dê o sol, e quando aquecer subirá pela lança acima e assim estará no ar, até o tirarem, emquanto estiver quente, porque quando o sol d'aquelle sitio fôr desapparecendo, o ovo vae arrefecendo, e conforme fôr arrefecendo assim vae cahindo para o chão; por isso lhe devem acudir a tempo para se não quebrar.

Segredo 51.º

Para queimar um lenço e ficar são

Secretamente molharemos um lenço em aguardente de cabeça; trazendo-o diante dos circumstantes mandaremos vir uma candeia acesa e tomando o lenço por duas pontas para ficar estendido lhe mandaremos deitar fogo, e como fôr inflammando andaremos com elle ao redor por espaço de um minuto á vista dos circumstantes e logo o sacudiremos e apertaremos entre as mãos para que se apague o lume; tornando-o a estender o mostraremos aos circumstantes tão são como era antes de se lhe botar fogo.

Segredo 52.º

Para que as mulheres sem postura pareçam melhor e tenham melhor cara com menos custo

Entre outras cousas que entre nós ha mal feitas são duas, as quaes nos dão notavel prejuizo á saude: a primeira é quererem os homens mostrar que calçam pequeno pé, mandando fazer menor sapato, do que pede o pé, assim continuando vem a ser gotosos; por conseguinte as mulheres que usam posturas perdem os dentes, mais depressa se arusgam e outras muitas desgraças se seguem d'aqui.

Segredo 53.º

Para mostrar aos circumstantes um braço atravessado com uma faca sem prejuizo algum

Faz-se uma faca de duas metades ligadas uma á outra com uma mola e será feita de tempera branda, que se alargue e aparte o que a pessoa quizer; esta mola mettida pelo braço acima por baixo do casaco ou camisa, apertada a manga junto á faca, e feito isto secretamente sahir aos circumstantes, mostrar-lh'a, parecerá o braço estar passado pelo collo da mão.

Adverte-se que a feitoria da mola d'esta faca é necessario seja de modo que se aperte e alargue.

Segredo 54.º

Para fazer tinta de qualquer côr com facilidade, e as letras que estão em papel quasi safadas se acharem a ponto de se lerem

Deve haver tinteiro separado para cada tinta, para que uma não corrompa a outra.

Para fazer tinta vermelha, pizam-se flores de papoula, espremidas, o sumo que deitarem, coado, posto um pouco ao sol, para que engrosse e não corra tanto, se faz tinta vermelha bastantemente.

Para fazer tinta verde, faz-se a mesma operação com os concelleiros que nascem pelas paredes, e da mesma maneira ficará tinta verde.

Para a tinta roxa, do mesmo modo se fará da flor do lyrio.

Para tinta amarella, egualmente se faz com flôr do pampiro.

E assim para qualquer outra tinta que quizermos fazer, buscaremos a herva da côr da tinta que quizermos fazer, e do mesmo modo que fica dito se fará.

E para fazer que as letras que estão em papel que mal se enxerguem por estarem gastas pelo tempo se possam lêr, se molhará um panno de baeta em ourina fresca, levemente se esfregam as letras com elle, que depois se poderão lêr.

Segredo 55.º

Para tirar nodoas de azeite e pingos de cêra de toda a qualidade de pannos

Para tirar nodoas de azeite amassarão um bocado de barro vermelho, que não fique muito espesso, e da parte do avêsso que quizerem tirar as nodoas, cubra-se toda a nodoa com este barro, e da parte direita se ponha sobre a nodoa uma folha de papel alinhavada, de modo que se chegue o papel ao panno, e posto a enxugar até o barro estar bem secco, logo se esfrega, e tirando-se-lhe o papel ficará a nodoa fóra. Este remedio é bom principalmente para panno de côr; é bom lavar em agua de pescada.

E tambem para tirar a nodoa do panno se cobrirá a nodoa com sabão e por cima do sabão botar um pouco de sal, pondo ao sol por espaço de um quarto de hora e lavando a nodoa, logo se tirará.

Para tirar pingos de cêra, estando em sêda, tosta-se uma fatia de pão trigo, e assim quente se põe em cima da cera que a attrahirá a si.

Se fôr em panno de côr, bota-se um testinho no lume, e estando bem quente se tira, embrulha-se em um papel, esfrega-se com elle no lugar onde está a cêra, e assim logo sahirá e o panno ficará limpo.

Segredo 56.º

Do modo mais facil de fazer dôce a agua do mar

Se quizerem fazer uma canada em pouco tempo, de agua do mar para ficar dôce, tome-se um pote novo, metta-se-lhe dentro uma pedra que peze quatro ou cinco arrateis, tapa-se-lhe a bocca com uma rolha de cortiça, bem justa, atando o pote por um cordel, se botará o dito pote no mar, mansamente, para que a pedra não quebre, e d'ahi a tres ou quatro horas o tirarão, tirando a rolha ao pote, acharão dentro d'elle uma canada de agua dôce como a da fonte; a razão por que a pedra se mette é para que o pote vá ao fundo do mar, para a agua tomar a virtude que se pretende.

Segredo 57.º

Das regiões do ar e da terra

Como no segredo adiante havemos de tratar das qualidades da agua dôce, necessariamente é tratarmos primeiro da terra, por cuja razão se faz dôce, e do ar a que ella sobe.

Os mathematicos que tenham observado cometas, os quaes se fazem entre a região do fogo e do ar, acham ter este corpo aereo, trinta e quatro leguas, dous terços, estes se repartem em tres regiões; a primeira que é esta que gozamos temperada por razão dos raios do sol que dão na terra, reverberando para cima aquentam, temperam até duas leguas e meia para cima, esta região é mais palpavel, porque n'ella andam as aves, e n'ella respiram todos os animaes terrestres, racionaes e irracionaes. A segunda região é summamente fria mais pura que a primeira, em tanto que as aves subindo a ella não se poderão ter nem respirar no principio d'esta região, estão em deposito as aguas que chovem, que sobem do mar vapores da terra, aguas sobem, até ao meio da dita região, congelam-se em neve, e se mais acima forem, congelam-se em pedra, assim como esta primeira e segunda região occupam para o alto oito leguas e meia, as mais que faltam para trinta e quatro leguas, dous terços occupa a terceira região, a qual pela parte proxima a segunda é fria, e pela parte de cima por estar á região do fogo é calidosissima; n'esta se fazem todos os trovões, raios e cometas. Assim tambem a terra se parte em tres regiões, para que não pareça desordem brotaremos o gosto d'ella, proval-o-hemos por regras grammaticaes, as quaes são pela circumferencia ou superficie de um globo, saber-se a grossura d'elle, quero dizer seu diametro, ou peso diametro de uma cousa, vir em conhecimento da superficie d'ella guardando a regra seguinte.

Que sabido o diametro de qualquer circulo, este multiplicando partes, um setimo; o que tudo sommado terá de circumferencia a superficie, por conseguinte sabendo a circumferencia, esta, partida por tres um setimo, o que vier á partição fará o diametro, assim, vinte e dous palmos de diametro, nos dão sete palmos de circumferencia, pois temos sabido assim pelas dimensões geometricas, como das experiencias de homens do mar ter a terra em redondeza, seis mil e trezentas leguas; iremos á regra de tres, dizendo se vinte e duas leguas de circumferencia nos dão sete de diametro, seis mil e trezentas de circumferencia da terra quantas nos darão de diametro, virá a partição de duas mil e quatro leguas e meia, assim diremos ter a terra de grosso, duas mil quatro leguas e meia que partidas pelo meio vem duas mil duas leguas e um quarto de legua, tanto ha da superficie ao centro da terra, que é o meio de toda a grossura.

Estas mil duas leguas e um quarto se repartem em tres regiões, a primeira das quaes a da superficie para o centro duas leguas e um quarto, ou posto que a terra em si seja summamente fria, secca e pesada, esta primeira região é temperada pela razão que temos dado da impressão que fazem os raios do sol n'ella, n'esta região se criam as exhalações que com a força do sol chamadas para cima se acertam de cahir por terra, pela resistencia que lhe põem ao cair, causa para ella tremer que é haver em algumas ilhas e outras partes tanta calidade na terra que no verão com a força do sol abrem grandes concavidades, as quaes vindo o inverno, pela razão que acima dissemos, se tornam a fechar.

A segunda região que é de duas leguas e um quarto, seis leguas para baixo n'esta região, a superficie d'ella é o principio da creação do ouro e mais metaes mineraes, d'ahi vem botando para cima por veias canos a modo de arvores, assim a raiz do ouro principia n'elle e na segunda região.

A terceira região é de oito leguas e um quarto, que occupam a primeira e segunda região para baixo até ao centro, esta ultima região, é summamente pesada, fria e secca; é incapaz de criar cousa alguma, no intimo interior da qual está o inferno de que Deus nos livre.

Segredo 58.º

De dous medicamentos que se usam entre os rusticos

Quando alguma pessoa do campo se sente com qualquer mal que seja, cose um bocado de carqueija e bebem aquella agua, e deitados na cama se abafam para suar, e com isto lhe faz Deus algumas vezes de lhe abrandar o mal.

O segundo é que para maleitas dizem ao enfermo que dê a ourina para mostrar ao medico, com ella dão uma volta fingindo que vão buscar um xarope e em lugar d'elle lhe dão a beber a mesma ourina e com este remedio continuam oito dias, e é com este mesmo remedio que se lhe vão embora as maleitas.

Segredo 59.º

Para fazer acreditar aos presentes que conhecemos as cartas de jogar pelo cheiro

Ha-de vir a terceira pessoa, a quem tenhamos dado conta d'isto, logo faremos pôr a mesa e diremos que nos tapem os olhos, e nos sentaremos, e defronte de nós a pessoa em que nos fiamos, e logo pediremos cartas, perguntando que é o que querem que d'alli se tire, se a primeira de quatro ou o que quizerem, logo indo tirando carta por carta, e cheirando cada uma d'ellas pelas costas de modo que o que ha-de avisar veja que cartas são, assim tirando-as iremos pondo uma por uma na meza em tanto que nos venha alguma das que nos tem pedido a pessoa a que temos communicado o segredo, porá o pé sobre o nosso, assim poremos aquella carta de parte e iremos continuando até tirar todas as pedidas, da mesma sorte que acima fica dito e quem estiver fazendo este segredo acautelar-se-ha para os assistentes não darem fé do que se está fazendo por baixo da meza.

Segredo 60.º

Virtudes do jacintho

O jacintho é de muitas côres, porém o verde ou roxo mui brilhante é o melhor, o qual feito em pó e tomado pela bocca, é cordial, e serve contra as febres malignas: defende a quem o traz dos raios e temporaes.

Trazendo o jacintho comsigo, que toque ao corpo, conforta o coração, e aviva o engenho.

Defende o jacintho, a quem o trouxer comsigo, de venenos e ares corruptos.

Tem virtude o jacintho de refrear a loucura, e evitar a melancolia; e não soffre representações de fantasmas, nem visões.

Meia legua de Toledo junto a um mosteiro de Bernardos, ha uma fonte pegada á ribeira do rio Tejo que chamam dos jacinthos, porque ali ha tantos, que sae a agua e corre por cima d'elles.

Segredo 61.º

Virtudes das pedras da andorinha

Diz o experimentador Alberto, e ainda outros, que na cabeça da andorinha se acham duas pedrinhas mui pequenas, e que uma é branca, e outra vermelha, cujas virtudes são as seguintes.

Dizem que quem trouxer comsigo a pedra branca da andorinha, não será molestado de sêde, e que se a tiver na bocca, sempre a terá fresca.

Dizem mais, que se alguem tiver fluxo de sangue e trouxer a mesma pedrinha branca ao pescoço, logo se lhe estancará o sangue.

Tambem dizem que tem virtude para ajudar as mulheres no parto, como a pedra da aguia.

Dizem mais, que lançada a mesma pedrinha branca em uma vasilha de agua por espaço de uma noite, e bebida a agua, provoca a cursos, e tira o mal da gotta, e ainda a febre se a tiver.

Tambem dizem que quem trouxer comsigo a pedra vermelha da andorinha se livrará de muitas doenças.

Segredo 62.º

Virtudes da pelle que a cobra costuma despir

A pelle da cobra queimada, e posta em cima de alguma ferida, a deixa sã; e se houver bico, ou ferro mettido dentro na carne costuma attrahil-o a si, até o tirar fóra.

Notem uma e outra vez, advirtam, que quem trouxer comsigo os pós d'esta pelle de cobra será preservado de lepra, e de qualquer peçonha. E saibam, que os ditos pós tem grandes virtudes, e muitas propriedades: porém, ha de se queimar a dita pelle, estando o sol no signo de Aries, que é de 12 de março até 26 de abril.

Segredo 63.º

Para tornar doce a agua do mar, que se possa beber

Diz Aristoteles, que para fazer a agua do mar doce que se possa beber, façam uma vasilha de cêra bem tapada, e a mettam no mar, que fique coberta de agua, e toda a que fôr entrando pelos poros da cera perderá o sal e ficará doce. O mesmo succederá, se metterem no mar uma vasilha nova de barro com tanto que tenha a bocca bem tapada.

Segredo 64.º

Para conservar a castidade, e reprimir os estimulos da carne

Escreve Macencio, que o summo da erva chamada sagunta, bebido em jejum reprime os estimulos da carne, e as suas folhas postas sobre os genitaes, diz, que tem virtude de applacar os incentivos da luxuria.

Avicena escreve, que a arruda comida, mitiga os ardores da carne no homem; e na mulher pelo contrario, porque os aviva com excesso.

O mestre João diz, que o orjavão tem mui grande virtude, e efficacia para reprimir a luxuria, porque applicado aos lombos mitiga, e applaca grandemente os estimulos da carne. Diz mais o mesmo author, que o sumo do orjavão bebido causa impotencia, a quem o toma, por espaço de sete dias. Escreve Dioscorides, que a fructa, que produz o cedro, pizada, ou o sumo de suas folhas posto nos genitaes, desterra a appetencia de actos venereos. Michael Escoto diz com muito fundamento que todas as cousas agras, frias e azedas se accomodam bem com a castidade, conservando-a: e pelo contrario as cousas doces, quentes e odoriferas, a destroem, e estragam de todo. Porém fallando espiritual e catholicamente, o que mais conserva, e defende a castidade é o jejum, a disciplina e a oração frequente e com muita devoção.

Segredo 65.º

Para conservar as camas sem persevejos, os aposentos sem pulgas, as casas sem moscas, e ainda sem mosquitos nem ratos

Tomarão cóla feita de retalhos de couro, e desfeita em agua ao fogo, que fique bem clara e rala, lhe misturem azeite, e assim quente, molharão e esfregarão as taboas e pés do leito, de sorte que toda a madeira fique lavada com este cosimento, e resultarão dois effeitos muito bons. O primeiro será que o leito todo parecerá de nogueira. E o segundo, que não se crearão n'elle persevejos, como tenho bem experimentado.

Segredo 66.º

Contra pulgas

Ponham uma panella de agoa ao lume, e lançar-lhe-hão dois vintens de solimão, e deixando-a ferver bem, borrifarão o aposento depois de bem varrido, e tenham por certo que morrerão, e se não crearão outras. Mas isto se ha de fazer duas vezes na semana.

Segredo 67.º

Contra moscas

Tomem um pouco de mel e farinha, mechida com uma pouca de agoa clara, lhe lancem arsenico ou rosalgar, e ponham esta mistura em caqueiros, aonde cheguem as moscas, e vêr-se-ha quantas vão caindo, porque em provando ficam mortas. O mesmo effeito faz o ouro e pimenta moida, e desfeito em agoa e posto em algumas vasilhas pela casa; mas vigiem que não chegue cão ou galinha a provar, porque ficarão mortos.

Segredo 68.º

Contra mosquitos

Queimarão cominhos rusticos no aposento aonde houver mosquitos, e logo cairão mortos ou se irão; tambem quem molhar o rosto com agoa, na qual estivessem cominhos rusticos de infusão, não lhe hão de chegar os mosquitos ao rosto. Em outro logar se dirão outros segredos mais ácerca d'isto; mui notaveis e difficultosos de crer, e por tanto cito ali os auctores que o dizem.

Segredo 69.º

Contra ratos

Façam por apanhar um rato vivo, já grande ou mediano, e façam uma de duas cousas. Ou lhe esfolem a cabeça e lhe ponham na abertura da pelle um pouco de sal moido e deixem-no vivo, que elle com o ardor e raiva affugentará os outros: ou façam outra cousa, se lhes parecer mais facil, e é atar ao pescoço do rato um cascavel pequeno, que tenha o tenido mui vivo, com o que fará fugir os outros; e assim ficarão livres d'estes inimigos caseiros, poupando gastos e molestias. Outro segredo melhor e mais facil. Tomarão gesso novo, e passado por peneira o misturarão com queijo ralado subtilmente, e misturado tudo o ponham em diversas partes da casa, e será cousa entretida vêr os ratos que comerem da iguaria andarem inchados por casa, e se tiverem agua que beber, morrerão mais depressa; porque o gesso tanto que chega á agua ou cousa humida, logo se torna em massa, e é segredo sem perigo.

Segredo 70.º

Para fazer durar o azeite da candêa

Tomarão giesta da mais pequena e de folhas mais miudas; (porque ha duas castas d'ellas) queimal-a-hão, e da cinza farão decoada; e pondo esta a cozer, se converterá em sal, o qual lançado nas candêas, conservará e fará durar o azeite mais do terço. A pedra hume de rosa e o sal commum, que serve para o comer, tem a mesma propriedade, porém não tanto como o sal da giesta.

Segredo 71.º

Para fazer augmentar o azeite das candêas

Tomarão uma canada de azeite e pôr-se-ha ao fogo, e logo lançarão quatro onças de pêz grego e um vintem de pedra hume de rosa; tudo bem moido primeiro, e mechendo-o muito bem, até que esteja de todo misturado, logo se poderão servir d'elle nas candêas, poder-se-ha fazer mais ou menos seguindo a mesma ordem com proporção dos materiaes.

Segredo 72.º

Para fazer vinagre bom e forte multiplicando-o com pouco custo

No tempo da vindima tomarão um pé de bagaço no patamal do lagar, depois de espremido e estendido lhe lançarão cem potes de agua e quatro arrateis de perrexil verde, dois de flor de sabugo verde, e um bom cantaro de vinagre do melhor e mais forte, e deixal-o estar vinte ou trinta dias, e no fim se esprema tudo, e recolherão vinagre mui forte e odorifero; e proporcionando os materiaes, podem fazer mais ou menos.

Segredo 73.º

Para multiplicar a cera

Tomarão uma arroba de cebo de bode e uma duzia de ovos de adem, só as gemas, meias cozidas, desfeitas e bem batidas, se lancem no cebo com outra arroba de cera, e tudo posto ao fogo se mecherá, até que fique derretido e bem misturado; e ficará tudo convertido em cera mui amarella, para se fazer d'ella toda a obra que quizerem.

Segredo 74.º

Para saber se o vinho tem agua ou não

Diz Creponte, que para saber se o vinho tem agua, lhe lançarão umas talhadas de pera brava aparada, e se nadarem em cima, signal que está o vinho puro; mas se forem ao fundo, se conhecerá que o vinho está aguado. Outra advertencia. Tomarão um junco ou uma palha de avêa bem lisa, e untada com cebo a metterão na vasilha do vinho; e se este tiver agua, sairão pegadas umas pingas mui subtis de agua. Outra. Encherão de vinho uma panella nova, e deixando-a estar dois dias, se sumirá toda a agua, se a tiver. Outra. Tomarão uma pedrinha de cal virgem, e molhando-a com elle, vinho, se tiver agua logo se desfará a cal; e se estiver puro, se apertará mais. Outra. Lançarão um pouco de vinho em azeite que esteja bem quente, e se tiver agua, espirrará e saltará, o que não hade acontecer se fôr puro.

Segredo 75.º

Para se não embebedar

Diz Filonio, que para se não embebedar são bons os bofes de ovelhas assados, e comidos antes de jantar, ou que, antes que bebam vinho, comam verças com vinagre, e d'este modo lhe não fará mal o vinho, posto que bebam mais do ordinario. Porém o melhor remedio para se não embebedar é o que eu uso ha sessenta e tres annos que hoje faço de idade, e nunca bebi vinho, e acho tanto regalo na agua, que é para mim a melhor iguaria que vejo na mais explendida meza: e oxalá se praticára isto que digo, que o vinho se havia de vender na botica e usar por medicina. Se alguem reconhecer o descredito, que causa o vicio de destemperança no beber, e quizer livrar-se de se embebedar e aborrecel-o de todo, note o que escreve Plinio, e é que mettam duas enguias vivas e grossas dentro em um cantaro de vinho, e que depois de estarem affogadas, dêem este vinho aos que se costumam embebedar, e virão a aborrecer o vinho de todo; porque causa um raro tedio e aversão. Para o mesmo serve a bretonica feita em pó e bebida.

Segredo 76.º

Para tirar a agua do vinho

Escreve Catão e Plinio, que para tirar a agua do vinho, se fará uma vasilha de páo de hera, lançando o vinho n'ella, se tiver agua, todo o vinho se irá coando e ficará só a agua na mesma vasilha: e se não tiver agua, ficará a vasilha completamente vazia.

Segredo 77.º

Uma redoma que estando cheia de agua, e posta com a bocca destapada para baixo, se não entorne

Ponham uma redoma ou garrafa cheia de agua ou vinho dentro em um cubosinho ou balde de madeira ou de cobre que é melhor, e lançarão sobre a garrafa ou redoma, e por baixo quantidade de neve bem desfeita, e por cima da neve se deitarão bastante sal moido e pouco a pouco irão virando a garrafa, até que de todo esteja a neve desfeita, e escorrerão a agua da neve e lançar-lhe-hão outra tanta neve desfeita com sal moido; e assim se deixará estar até que de todo se desfaça, sem mover a garrafa: e farão o mesmo terceira vez, e tirará a agua congelada ou o vinho que estiver na garrafa. E isto se póde fazer na força do verão, e parecerá cousa impossivel, sendo tão facil; e pondo a garrafa com a bocca destapada para baixo, é certo que se não entornará. Como experimentou o duque de Gandia, D. Francisco de Borja, que mandou uma cheia de agua congelada no verão, ao patriarcha D. João de Ribeira, arcebispo de Valença, o qual em retorno de tão curioso segredo, lhe mandou outra garrafa cheia de vinho congelado, que foi maior maravilha.

Segredo 78.º

Para tornar uma rosa e um cravo de vermelho em branco

Defumarão o cravo e a rosa em enxofre, e logo se tornarão brancos de encarnados; e podem fazer todo o craveiro branco, de vermelho, como eu fiz a experiencia em uma occasião, tornando brancos mais de vinte cravos encarnados, com admiração do dono do craveiro, por não saber a causa.

Segredo 79.º

Curioso e de entretenimento