O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (3/7) Parte Terceira: O oraculo dos Segredos
Part 2
E devem entender que as significações das aguas, são mais válidas tomadas, vistas logo, do que depois que arrefecem, porque mudam a substancia, mórmente no tempo do inverno, que com o frio se colham.
Segredo 30.º
Das virtudes e effeitos da genebra
A genebra tem muitas virtudes, mas especialmente para quem se costuma a agoniar do estomago, e nas indigestões. Logo que qualquer pessoa se ache incommodada com qualquer d'estas doenças, tomem meio quarteirão de genebra, mas para melhor effeito será da hollandeza, porque é mais approvada, e com isso logo ficarão livres d'essa afflicção, porque além de vos parecer que não tiram resultado, vos affianço que é engano; porque eu que vos descubro este segredo, em diversas occasiões tenho feito uso d'essa bebida e sempre com bom resultado, segredo este que nunca me esquecerá porque me tem valido á minha vida, e as suas virtudes, para todos são proveitosas, por isso todos os elogios são poucos para remedio tão efficaz.
Segredo 31.º
Os effeitos do alecrim da India
Estou informado de um segredo muito prestavel, para quem padece dôres de cabeça que é remedio que dou por approvado e muito economico.
Em um testo botarão umas poucas de brasas acezas, e depois pegarão em umas poucas de folhas de alecrim da India, e botarão as folhas em cima das brasas; depois de ellas botarem bastante fumo lhes deitarão uma onça de assucar; põe-se a cabeça do paciente a tomar aquelle fumo, isto é dous palmos acima das brasas para evitar da muita quentura, que fazendo isto oito noutes ao deitar da cama, se acharão melhor, porque assim como eu fiz e achei bom resultado, tambem me parece que o meu semelhante que padecer da mesma doença tambem o achará se isto fizer como explico.
Segredo 32.º
Para que o vinho estragado torne ao seu ser
Pegarão em uma duzia de laranjas maduras, darão em cada uma tres ou quatro golpes como quem retalha azeitonas, assim as botarão pelo batoque da pipa, botal-as-hão em pedaços, e d'ahi por oito dias botarão uma canada d'agua-ardente fina, e depois d'isto feito em passando 15 dias vão proval-o que estará bom vinho; mas advirto que a pipa deverá estar em sitio fresco, porque os vinhos para se conservarem não querem lugares abafados.
Segredo 33.º
Para tirar o mau cheiro ás vasilhas de madeira e dar cheiro ao vinho que n'ellas botarem
Tira-se um tampo á vasilha e mette-se dentro um testo cheio de brasas e depois bota-se-lhe nas brasas um vintem de cravo da India, dez reis de canella e um bocado de pês, abafa-se a vasilha com o tampo para que este fumo se entranhe na madeira, e sair-lhe-ha o mau cheiro, e a vasilha ficará cheirando sempre bem.
E para que o vinho que se recolher n'estas vasilhas seja bom de cheiro, ao tempo que quizerem recolher o vinho coserão uma pouca de palha de cevada em uma caldeira de agoa, e assim fervendo se bota sómente a agoa na vasilha, enxuga-se-lhe, tapa-se com o batoque para que tome esse soadouro, que depois o vinho que n'essa vasilha se recolher terá bom cheiro.
Segredo 34.º
Para fazer o vinagre forte
Faz-se um molhinho de ortelã, que peze uma quarta, atado com um cordel mette-se pela boca da pipa que tiver o vinagre de modo que a ortelã fique mettida dentro no vinagre ficando o cordel de fóra, e d'ahi a sete ou oito dias tirem-lhe a ortelã e ficará o vinagre fortissimo.
Se ainda não tiver a fortaleza que queriam, tornarão a fazer igual operação, que ao fim dos segundos oito dias estará mais forte.
Segredo 35.º
Para fazer vellas de sebo que não cheirem a elle
Para as vellas de sebo não cheirarem a elle e parecerem de cêra e que durem mais, ao fazel-as se terá uma pouca de cal virgem bem peneirada, cada camada de sebo que se botar na fôrma se lhe botará duas mãos ou um punhado de cal accesa por toda a forma; as vellas que assim se fizerem parecerão de cêra, sem terem cheiro de sebo, e durarão muito mais porque a cal tem a virtude de lhe dar a côr como a de cêra, e conservar o sebo a arder sem se desfazer tão facilmente.
Segredo 36.º
Para o vinho não fazer mal ao homem
Este segredo vos vou descobrir, mas será bom que vos não seja preciso, porque o entendimento da creatura bastará para o evitar. Porém se acontecer essa bebida a fazer-vos mal á cabeça será bom comer os boxes assados de uma ovelha, antes de comerem mais cousa alguma. Se quizerem antes de beber o vinho que elle lhe não faça mal comerão berças com vinagre, que assim não lhe fará mal, mas eu entendo que será bom não seja preciso estas cousas; e quando se beber o vinho não se bebe demasiado, para não arruinar a saude, um dos bens que o vivente tem n'esta vida. Se ha quem diga que bebem vinho porque não podem deixar de o fazer, porque é um vicio, ahi vae um segredo tambem para perder esse vicio: Metam duas enguias vivas dentro de uma canada de vinho, e tapem a vasilha e quando estiverem mortas tirem-as, e os que costumam tomar-se da pinga bebam d'este vinho que depois o aborrecerão completamente. Tambem serve para este effeito a bretonica feita em pó e bebida em vinho.
Segredo 37.º
Para que um cavallo pareça manco sendo são
Secretamente arrancar-lhe-hão uma seda do rabo dobrada atal-a-hão entre o casco e os cabellos aonde chamam os machinhos, ficando mettida entre a seda e os machinhos um grão ou dous de cevada estando bem apertada, farão andar o cavallo que elle irá a mancar de um pé ou de uma mão, porque o grão de cevada causa-lhe incommodo nas juntas das pernas e o animal mancará porque o não póde deixar de fazer. Depois d'este segredo assim feito, tirarão o grão da cevada que o cavallo tem, que ficará andando direito e causará admiração a quem o viu manco e em pouco tempo andar são.
Segredo 38.º
Para refinar a polvora
Muitos costumam refinar a polvora com limão e outras cousas, mas em vez de a refinar quasi que a estragam; porque a prova d'isto, tenho visto fazer uso de polvora ordinaria; o melhor segredo para a refinar é, tanto de verão como de inverno, borrifal-a com agua-ardente muito fina, secando-a depois, que este espirito dá-lhe toda a força precisa para que ella produza bom effeito. Sei isto por a experimentar e tirar bom resultado.
Segredo 39.º
Para quando uma mulher parir se conhecer se o parto seguinte, se o houver, é macho ou femea
Quando uma mulher parir, se quizerem saber o que a mesma mulher parirá no parto seguinte, pela criança que teve o podem conhecer; nada mais é preciso do que vêr a corôa do nascido; se o redemoinho que trazemos de cabellos estiver bem no meio da cabeça, sendo um só redemoinho o parto que se seguir será macho, e sendo dous os redemoinhos, ou sendo um só e declinar para qualquer dos lados, o parto que se seguir será femea.
Segredo 40.º
Para se saber das virtudes da ortemija
A ortemija é uma herva, que quem fizer um molhinho d'ella e a trouxer ao pescoço, junto ao coração, terá mais animo e maiores forças. E esta herva, moída e bem desfeita, deitada em um pouco de vinho e bebida, para a pessoa que estiver cançada dá-lhe logo muito mais forças por ser uma bebida muito mais substancial; qualquer caminhante que fizer uma jornada a levará tambem comsigo porque tem a virtude de se não cançar tanto e andar mais caminho, que essa virtude é um dos astros que a concede a esta herva, assim como tambem serve para espantar as moscas de qualquer casa, se a cozerem com leite de cabras, e depois de bem cozida untarão as paredes com esse leite, que ellas por causa do cheiro fugirão.
Segredo 41.º
Da monstruosidade da natureza
A monstruosidade da natureza é de duas maneiras: uma d'ellas é aquella que se deixa logo vêr em nascendo a creatura, e a outra a que se descobre por tempo. A que se deixa logo vêr, é quando a creatura vem com mais ou menos abundancia de membros dos ordinarios, ou trazendo dos ordinarios, é algum d'elles semelhante ao de algum animal irracional; aquelles que trazem mais ou menos membros, de ordinario póde acontecer pela geração ser feita no bicorporeo, como são Geminis, Virgo, Sagitario, Piscis, assim tambem aos faltos de membros póde acontecer, por falta de materia, ou pelos signos moveis estarem infortunados, os quaes são: Aries, Cancer, Libra, Capricornio; os que trazem de algum animal tambem póde ser de duas maneiras ou de ajuntamento com o mesmo, ou no tempo do concebimento concorrer a mãe com o pensamento em algum animal.
Da monstruosidade que a natureza descobre com o tempo, se ha-de entender d'aquelles que são demasiadamente grandes do corpo, ou demasiadamente pequenos, fóra da proporção que adiante se dirá, ou tendo grande corpo tem disforme a cabeça de pequena, ou sendo pequeno tem a cabeça demasiadamente grande, ou sendo demasiadamente grande do corpo, demasiadamente pequeno com demasiada grossura, porque d'estas montruosidades se póde conhecer a differença que ha dos compostos em proporção perfeita; da natureza temos a seguinte:
Tres cousas ha por onde isto se conhece; a primeira é, que a verdadeira proporção do homem tem na estatura sete palmos e meio de vicio da natureza, o mais que se dá são sete palmos a maior, o menor seis palmos, que a estatura do maior de nove palmos, e o menor de seis se tem por monstruosidade.
A segunda cousa por onde se conhece a verdadeira proporção é, que posto um compasso com uma ponta entre as sobrancelhas e outra na ponta do nariz tornando o compasso para baixo chegará á superficie da testa na raiz do cabello, com o mesmo compasso sem mais fechar nem abrir, posta uma ponta no nariz por baixo das sobrancelhas tornando-o a uma e outra parte chegará aos lagrimaes dos olhos de cada um d'elles, dando volta chegará a orelha, advertindo que os dous compassos dos lagrimaes ás orelhas, da ponta do nariz á ponta da barba, estes tres são eguaes, mas são maiores do que os outros de que temos tratado, que é de entre as sobrancelhas á raiz do cabello, á ponta do nariz d'estes ha-de haver em todo o corpo desde a raiz do cabello até aos pés vinte e sete compassos dando ao rosto tres, e ao demais corpo vinte e quatro; esta é a regra que guardam os imaginarios que é dar a um corpo quantidade de nove rostos, contando inclusivè o mesmo.
A terceira é: que em ausencia da mesma pessoa se lhe possa fazer todo o genero de vestidos, calçado, tão justo como se estivesse presente, o qual se fará d'esta maneira: vêr-se-ha uma luva, que a pessoa calce justa com uma fita se tomará a grossura do dedo polegar pela raiz do dito dedo, a qual medida dobrada fará o bocal da manga do casaco ou roupa, a medida do bocal da manga será dobrada, a medida do cabeção dobrado, faz a medida da cintura; a da cintura dobrada em tres terços, um terço até ao comprimento de um quarto do casaco, o outro terço com uma mão atravessada da mesma luva, faz o comprimento da manga; o mesmo terço com a mesma mão atravez, faz o comprimento da calça, o ultimo terço faz todo o comprimento da bota, cujo pé será de um palmo da mesma luva, juntando-lhe mais o que houver do dito dedo polegar da luva, da junta do meio até á extremidade, isto do pé; dois terços dos ditos pés fazem capa até ao joelho, os mesmos dois terços, sendo mulher lhe faz a casaquinha e os tres terços lhe fazem a saia, os mesmos tres terços com mais tres palmos de luva lhe fazem manto e casaquinha, manga e corpinho, e o mesmo que acima temos dito. A pessoa que com estas medidas lhe fizerem a roupa que venha conforme e justo, poderá dizer que é conforme a proporção da natureza, sem que falte cousa alguma, sendo a proporção de sua estatura o que temos dito; resta pois que suas obras sejam taes, quaes convem para ser mais perfeito. Os que carecem d'esta composição lhes convem fazerem taes obras, que com a perfeição d'ellas fique satisfeito, á proporção do corpo.
Segredo 42.º
Bons effeitos do alecrim
O alecrim tem uma natureza que é quente, secco e cheiroso, e por isso fortalece todas as partes e membros de dentro e de fóra do corpo, alegra e fortalece os sentidos, consome as humidades, frialdades, e todos os males contagiosos.
O alecrim não consente melancholias, tremores nem desmaios no coração, cujas raizes, ramos, cascas e flores d'essa excellente herva tem todas as virtudes, as quaes diremos com ajuda de Nosso Senhor Jesus Christo e proveito da humanidade.
Os olhinhos mais tenros do alecrim, comidos pela manhã, com pão e sal, fortalece a cabeça, conserva a vista clara, aguda e forte.
A flor e folhas da mesma herva feitas em pó e trazida no seio, afugenta os tres inimigos do corpo, que tanto affligem o coração, que são elles: as pulgas, piolhos e persevejos.
Os mesmos pós no seio do lado esquerdo, espantam a melancholia e ao coração fazem-lhe muita alegria.
As folhas da mesma herva bem mastigadas e postas sobre uma chaga fresca, a curam, e fecha maravilhosamente.
A flor da mesma, comida pela manhã com mel da mesma flor e um bocado de pão quente, faz muito bem á saude: nem deixa gerar sangue podre, nem o mal da gota; e se alguem tiver mal, essa herva lh'o tirará.
O alecrim serve para afugentar todo o animal venenoso, e o seu fumo serve contra todo o mal e pestes.
Os ramos do mesmo, tambem servem para depois de queimados e feitos em pó, fortalecer dentes e não lhe deixar criar bicho, nem constipações.
Toda a mulher que tenha uso de comer a flor do alecrim em jejum com pão de centeio, não padecerá mal da madre, porque lhe reprime os maus humores, gasta as humidades, e cura os achaques a todas as pessoas que assim usarem.
A flor da mesma herva, mettida em qualquer sitio onde estiver roupa, não deixa entrar a traça na mesma, e dá-lhe muito bom cheiro.
Se lavarem o corpo com a agua, devem cozer muito bem o alecrim e se conservarão com boa saude.
As casas que são escuras e muito humidas, se as defumarem com alecrim a miudo, conservar-se-hão enxutas.
Um segredo para as quebraduras, já experimentado, são as alfarrobas verdes, pizadas e applicadas sobre as quebraduras, que as curam e soldam.
Se tiverem dôres nas juntas por causa de algum refriado e as lavarem com agua onde se cozesse alecrim, lhe tirará a dor.
No tempo da peste é muito proveitoso queimar alecrim pelas casas e nas ruas, por que afina o ar e faz fugir a peste.
Estas virtudes do alecrim, acabarei de ser tão extenso como pede este bem para a natureza e tudo deixarei dito da maneira seguinte:
Mel virgem de alecrim serve, tira nevoas dos olhos.
O summo do alecrim lançado nos ouvidos, tira a dôr.
O summo do mesmo tomado pelos narizes, tira o mau cheiro e sana todos os males que dentro d'elles estiver.
Um segredo provado e experimentado, a agoa do alecrim pôr-se ao sol, será para os olhos que tem belidas, cataratas, ou que estão ennevoados. Faz-se esta agua da maneira seguinte: um bom mólho de alecrim verde e colhido de fresco, põe-se dentro de um ourinol novo de vidro com as pontas para baixo, não devem chegar ao fundo, tapa-se com um panno de linho dobrado, e em cima d'este panno põe-se um bocado de fermento que tome toda a boca do ourinol, e em cima do formento põe-se outro panno dobrado, e ata-se muito para que não saia bafo algum, põe-se o ourinol ao sol em tempo de calor 6 até 8 dias e d'alli se fará uma agua muito importante para os olhos. Quando essa agua estiver prompta, deve-se lançar em uma vazilha pequena e se terá ao sol e ao sereno outros tantos dias, que depois a agua que era branca, torna-se amarella e grossa, na qual se desfará um pouco de assucar de pedra e d'esta agua se lançarão nos olhos tres pingas, em cada um uma vez pela manhã, outras ao meio dia, e outra á noute, e por favor de Deus sararão.
Mulher que tiver pouco leite, não póde criar os filhos com as folhas e flores de alecrim, que lhe causará abundancia de leite bom, porque purifica o sangue.
O summo do alecrim misturado com assucar e tomado de manhã e ao deitar da cama faz bem ás afflicções do peito, ajuda a digestão e mitiga o apetite de comer.
A flor e as folhas em pós servem para a dôr do baço e do figado tomando-as em vinho e mel.
As folhas e flores da mesma herva fervidas em vinho tinto e bebido faz muito bem á dôr de tripas, tira a cobiça e a dezinteria.
Tambem servem os mesmos pós bebidos no mesmo vinho para quem padecer defluxo da ourina, por debilitação ou fraqueza, isto é approvado mas devem ser cozidas as folhas e flores em vinho do mais velho que fôr encontrado.
Para quem não tiver apetite de comer, tome pela manhã duas ou tres colheres de sopa, de vinho fervido com alecrim, que lhe abrirá a vontade de comer e lhe fará fortaleza no estomago.
Alguns auctores são de opinião, que a triaga é o remedio da peçonha; mas o alecrim cozido lhe faz o mesmo effeito.
Finalmente o alecrim cozido em agua tem todas estas virtudes que se seguem tomando bastantes banhos d'essa agua, chama-se o banho da vida, porque tira a dôr das juntas e de todas as mais partes do corpo, é remedio para a canceira, para a suffocação do coração, dá alento e vigor á velhice, conserva a mocidade, fortalece os membros e aviva os sentidos.
Aqui deixo por isso escripto aos meus leitores, em estas poucas linhas todas as virtudes d'esta planta chamada alecrim, que tão bom proveito tenho tirado d'ella e estou por certo que quem d'ella fizer uso como eu o tirará e se conservará limpo, de tantos achaques que affligem o corpo humano.
Segredo 43.º
Para a azia
A azia, além de ser uma molestia pouco impertinente quando ataca a creatura causa-lhe um pouco de desarranjo na garganta, e é o que basta para nos incommodar, e como não ha quem goste de incommodos, temos um segredo pelo qual em um instante fiquemos alliviados da garganta, é segredo economico, barato, pois se algum de vós tiver azia é só pegar em uma cebolla: tem poder para a fazer sahir. Se houver quem não goste d'este objecto dou-lhe tambem por approvado: comerão amendoas amargosas que tambem ficam livres d'esse mal.
Assim tenho feito sempre e encontrei bom resultado, por isso d'estes dois segredos o que primeiro me apparece, é d'esse que eu faço uso.
Segredo 44.º
Para os meninos pequenos se criarem, de modo que sejam mais encorpados e de mais forças
Muitos homens ficam pequenos de corpo e de poucas forças, porque as mães e amas lhes tiram os braços de fóra antes do tempo, e assim como são tenros, bolindo com os braços se relaxam os membros e assim ficam mais fracos e debilitados, por isso quem quizer criar a criança, de modo que fique largo das espaduas e com muita força nos braços não lh'os deve tirar fóra, quero dizer vestidos, senão de trez mezes por diante, assim ficarão sendo mais corpolentos e forçosos, porque se vão criando com todas as forças da sua natureza, cujas forças não lhe abrandam tanto, como se forem criados como acima disse.
Segredo 45.º
Para conhecermos se qualquer homem nasceu de dia, ou de noute, ou no crepusculo
A pessoa que tiver as orelhas despegadas da cabeça pela extremidade de baixo, fazendo as pontas rombas, despegadas ou levantando os olhos direitamente, se levantar mais o olho esquerdo que o direito, diremos que nasceu de dia; se as orelhas pela parte debaixo forem ponteagudas sempre pegadas no casco da cabeça ou levantando os olhos direitamente, e se levantar mais o direito que o esquerdo, assim diremos que nasceu de noite.
Se um d'estes signaes mostrar que nasceu de dia, outro que nasceu de noute, o tal diremos que nasceu no crepusculo: chamamos crepusculo de pela manhã tanto que vem rompendo a alva, e dura até que nasce o sol, o crepusculo da noite conta-se desde que se põe o sol, até que se cerra a noute.
Segredo 46.º
Da ethmologia dos dedos das mãos
O dedo mais curto e grosso da mão chama-se polex, de que se deriva poder, porque sem elle não se póde apertar cousa alguma na mão, que firme fique, n'este costumam os mercadores trazerem os anneis, dando a entender o muito que podem valer com seus reales.
O dedo logo seguido se chama index, que quer dizer amostrador, porque nos serve de mostrarmos aquillo que queremos; n'este costumam os medicos trazer os anneis, dando-nos a entender que elles são index, pelos quaes nossa saude se governa.
O terceiro dedo se chama médio, ou maior, pelo ser, médio por estar no meio de todos, n'estes costumam os soldados trazer os anneis, significando fortaleza e esforço.
O quarto dedo se chama annular ou dedo do coração, porque elle vem a ter uma veia que passa pelo coração. Como o ouro é metal agradavel á vista de todas as pessoas, em geral é costume pôr os anneis n'este dedo para evitar a melancholia e outras paixões que acodem ao coração. Muitas pessoas costumam usar de anneis, mais pela tradição antiga, que pela razão atraz escripta. Quem trouxer n'este dedo um annel com uma pedra de Jacintho fina, que a toque na carne, não é tão sómente bom para a melancholia, pois tambem tem outras propriedades boas.
O quinto dedo se chama minimo ou auricular: minimo, pelo ser, auricular, porque com elle costumamos limpar as orelhas. N'este dedo costumam trazer os anneis as pessoas illustres, dando assim a entender quem são, e não pela valia do ouro.
Segredo 47.º
Da causa das nossas enfermidades, e com a ajuda de Nosso Senhor as podemos remediar
As quatro compleições de que fomos formados comnosco, assim como uma meza com quatro pés, que sendo todos eguaes e direitos, em plano, está quieta e segura, porém se algum d'elles se levanta ou quebra e é mais comprido, isto só é bastante para que os outros tres com a meza venham ao chão, da mesma maneira a cólera, sangue, fleuma, e melancholia, cujas quatro compleições de que somos compostos estão eguaes conforme á saude no corpo, porém tanto, que alguma d'ellas se altera ou sobrepuja ás outras, causa no corpo a doença conforme sua qualidade. Porque da cólera se causam tabardilhos, frenesis, febres malignas, e outras enfermidades semelhantes.
E do sangue se geram dôres de costas, de cabeça, pontadas e outras semelhantes da fleuma, dôres de tripas, humidades no estomago, dôres de madre, colicas, apostemas, e outras semelhantes. E da melancholia se geram tristezas, humores viscosos, tremulos, gota e outros semelhantes.
E supposto que segundo nossa santa fé aos sonhos não se póde dar credito, por não terem razão nem fundamento algum, são sómente phantasmas que se representam no entendimento, estando uma pessoa dormindo.
Todavia se alguma das quatro compleições se altera do corpo, causa que os taes phantasmas tenham alguma correspondencia, a qualidade da dita compleicão, assim sabendo que seja se póde remediar com defensivos, que á tal compleição alterada applicam.
Pelo que se a pessoa sonhar com o fogo ou arma e outras cousas que incitam a cólera, é signal que a cólera predomina, segundo ella se lhe póde dar remedio.
E se o sonho fôr de pescarias ou embarcações, cousas que pertençam á agua predomina a fleuma.
E se sonhar com prisões, mortes, ou outras cousas que incitem tristezas, perdomina melancholia conforme a ella se lhe applicará remedio.
Segredo 48.º
Para o fogo não queimar
Pegarão em 20 reis de alteia e depois de a fazer em pó a botarão com uma clara de ovo em uma tigela e com essa mistura untarão as mãos ou outra qualquer parte que quizerem, que depois d'isto feito não se queimarão.
Segredo 49.º
Do tempo que é salutifero cada um dormir segundo a compleição que tiver