O Oraculo Do Passado Do Presente E Do Futuro 2 7 Parte Segunda
Chapter 3
Estenderás o baralho pela latitude da meza, e dirás a um sugeito, que ponha o dedo na carta que quizer, e que deite sentido a quantas cartas está contando da primeira d'onde começaste a estender o baralho, depois te aproximarás, e lhe mandarás dobrar esse numero que contou de cartas até á que poz o dedo, e que junte mais 5 e depois que multiplique tudo por 5, e que te diga o seu importe, o qual diminuirás de 25 e tantas dezenas como ficarem, tantas são as cartas até a que se poz o dedo. Exemplo: supponhamos que poz o dedo em a 13 carta, mandarás que dobre esse numero e fará 26, que lhe junte 5, fará 31, que multiplique por 5 e fará 155, dos quaes tirarás--25--(sem que o percebam, pois feitas as 3 operações, lhe pedirás o seu importe) cujo resto são 130, em cuja quantia ha 13 dezenas, e logo levantarás a carta aonde cahir o numero 13, contando da primeira d'onde começaste a estender o baralho.
_Jogo para adivinhar todas as cartas que quizeres_
Depois de teres observado a carta que está por baixo tomarás o baralho e o baralharás sem mover a carta que está por baixo, depois farás tantos montes, quantas pessoas houver, tendo conta no monte em que está a carta que tiveres visto, supponhamos fosse um sete de copas, dirás a um dos assistentes, de qual monte quer que tire o sete de copas? e do monte que te mandar tirarás uma carta, e observando qual é, supponhamos fosse o 2 de espadas, logo dirás a outro, de qual monte quer que tire o 2 d'espadas? e do monte que te mandar o levarás e tirarás todas as outras que te mandarem umas pelas outras, e depois não havendo mais quem queira dirás: eu tambem quero tirar uma, e tirarás então o dito sete de copas do dito monte em que reparaste que ficou; depois dirás ao primeiro de qual monte terá mandado tirar o sete da copas, e logo porás o dito sete de copas descoberto em cima do monte que te disserem, depois farás as mesmas perguntas com os outros pondo-lhe a carta descoberta em cima dos montes que te apontarem.
_Jogo de adivinhar 3 cartas antes de as tirar do baralho_
Depois de observar a carta de baixo, baralharás bem, mas sem movel-a dando depois o baralho á um dos circunstantes, lhe dirás que te dê por cima a carta que tiveres visto por baixo; que te dé do meio a que elle te deu por cima; e que te dê por baixo a que te tiver dado do meio, e adverte que pela carta que lhe fôres pedindo lhe podes pedir todas as mais que quizeres, deixando a debaixo que tenhas visto para o resto de todas.
_Jogo para fazer desapparecer uma carta do baralho e adivinhal-a_
Mandarás gue partam o baralho, e pegando tu no monte de cima, dirás que vejam a carta que está por cima do monte de baixo, e que a ponham no mesmo sitio, e dando tu uma volta pela casa molharás um pouco as costas da mão direita com saliva da bocca ou cousa semilhante, e com o outro monte na dita mão porás as costas da mão em cima da dita carta carregando para que se pegue, e perguntando aos circunstantes se será aquella que tens á vista na palma da mão e dizendo-te que não, levantarás a mão de sorte que se não veja a que trazes pegada nas costas, e deixando depois o monte de cima em cima do de baixo lhe dirás que a procurem, e tendo já visto a carta que trouxeste pegada lhe dirás que carta é, e vendo que a não encontram a juntarás ao baralho sem que o percebam e fazendo que a procuras lh'a mostrarás.
_Jogo para adivinhar a carta que um tenha tocado com o dedo_
Para fazeres este jogo, é preciso haver terceira pessoa a quem tenhas dado conta do segredo, para te dar as senhas precisas: depois estenderás todo o baralho em cima da meza bocca acima em 4 fileiras, dando á primeira o nome de dias, á segunda de semanas, á terceira de mezes, e á quarta d'annos; e estando tu ausente, a pessoa prevenida observará a carta que tocaram e em que fileira está; depois te aproximarás á meza, v. g. tenham tocado a setima carta da primeira fileira, a senha que te hade dar a pessoa prevenida é a seguinte: senhores, é impossivel adivinhar ainda que esteja sete dias continuos; depois bastará contares as cartas da primeira fileira começando d'alto a baixo até a setima, a qual levantarás e mostrarás: adverte que as senhas podem ser mais dissimuladas para que o não percebam, fazendo que apostas, etc. etc.
_Jogo enigmatico_
Tomarás os reis, os valétes, as sótas e os azes do baralho, e porás os 4 reis em uma fileira ao lado uns dos outros e um pouco divididos; depois porás um valéte em cima de cada rei, de modo que estes se vejam; depois porás as sótas pelo mesmo modo que pozeste os valétes; depois os azes pelo mesmo modo: mandarás depois aos circunstantes que vejam como estão em cada fileira um rei, um valéte, uma sóta e um az, e que depois de os baralhar bem farás que appareçam os 4 reis divididos, os valétes, as sótas e os azes cada um em sua fileira; logo levantarás uma fileira, isto é, um rei, um valéte, uma sóta e um az, e as mais da mesma fórma, depois baralharás bem pondo as cartas de baixo em cima, sem que mettas nenhuma por entre meio, e mandarás partir, depois pegando n'ellas as puxarás cobertas, e por baixo e as irás pondo pelo mesmo modo que pozeste da primeira vez em 4 fileiras e umas ao lado das outras; depois as descobrirás, e verão como estão os 4 reis em uma fileira e os valétes e mostra as sótas em outra e os azes em outra.
_Jogo de pôr 3 valétes e uma sóta divididos pelo baralho e fazel-os apparecer juntos_
Tomarás 3 valétes e uma sóta, e os porás em cima da meza; dirás depois aos circunstantes: estes 3 sugeitos teem-se aqui divertido na taberna, e feito tão grande despeza que se vêem obrigados a fugir sem pagarem á vendeira, pois não teem um real de seu; para cujo effeito assentaram que mandar a vendeira, (que é a sóta) buscar mais vinho e fugir entretanto, e virando tu a sóta para baixo tomarás os valétes, e os farás desapparecer pondo um no cimo, outro no fundo, e outro no meio do baralho; mas adverte que antes de tudo é preciso que tenhas posto (sem que o percebam) o 4.º valéte no fundo, depois tomarás a sóta e a farás correr atraz dos caloteiros pondo-a por cima do baralho, e mandando partir, puxarás as cartas até encontrares os 3 valétes e a sóta.
_Jogo para fazer um relogio, e adivinhar as horas a que um sugeito costuma jantar, cear ou dormir_
Tomarás 12 cartas d'um naipe, com as duas falsas o oito, e o nove, e darás o valor á sóta de 10, ao valéte de 11, e ao rei de 12, depois formarás um circulo a modo d'um mostrador de relogio, começando do az até o rei, e todas de cara a baixo; mas deves ter sentido aonde fica a 1.ª que é o az; depois sabendo tu as horas em que qualquer sugeito costuma jantar, cear, ou dormir, farás o jogo por um de 2 modos; o primeiro é mandar contar desde a uma inclusivè ao revés, isto é, da uma que passe ás 12, depois ás 11 etc., e sobre a hora que elegerem em segredo até 14; e pelo segundo, mandarás contar sobre a hora que levar em o seu pensamento, até um certo numero; isto é, que para a uma hora mandarás contar sobre ella inclusivè até 14; para as 2, sobre as 2 até 15; para as 3, sobre as 3 até 16 etc. Exemplo: Quando quizeres que te caia a hora, por saberes que a esta hora costuma um sugeito jantar, mandarás que conte da uma hora ao revés sobre a hora que leva no seu pensamento até 14, e tendo o dito sugeito elegido a uma hora contará na carta que tu lhe propozeste (que é a uma) e dirá n'ella 2, nas 12 dirá 3, nas 11 dirá 4 e contando assim até 14, essa levantará e verá que é á uma hora; se fôr as 2, contará da uma até 14, sobre as 2 que leva no pensamento; isto é começando a contar na 1 hora com 3, até 14, ao revés; e assim por diante contando sempre até 14, e começando sempre na uma hora a contar sobre as que levar no pensamento. Exemplo do segundo modo: Sendo a hora elegida á uma, mandarás contar sobre ella até 14, sendo ás 2 mandarás contar das mesmas 2 até 15; sendo ás 3 mandarás contar das 3 até 16; ás 4 que conte dellas até 17, e assim por diante, mas advirta-se que sempre se começa a contar, sobre as que se levam no pensamento. Supponhamos que para as 4, mandarás começar no dito 4 na qual dirá 5 no 3, 6, no 2, 7, no az 8, nas 12--9, nas 11--10--assim até 17, cuja carta dos 17 levantará, e verão que é o 4, significando as 4 horas.
Outros muitos jogos aqui podia ensinar, o que deixo de fazer por serem muito difficeis e custosos de fazer.
O SUSPIRO
Vai, terno Suspiro meu, Ligeiro fendendo o ar, Nos labios da minha amada Saudosamente expirar.
Mas primeiro, o meu suspiro, Brando gira ante o meu seio, E podes alguns momentos Alli pousar sem receio.
N'esse logar delicioso Espreita a mais leve acção: Indaga attento por quem Suspira o seu coração.
Se um só ai do peito amante Lhe escapar e me pertença, Então, então não expires, Vem trazer-m'o sem detença.
Mas se aleivosa comigo A outrem seu ai mandar, Então nos labios da ingrata Tu deves logo expirar.
Nada mais lenho a dizer-te, Corre, vôa onde te ordeno, Brandos zefiros te guiem, Conserve-se o ar sereno.
ENIGMAS
Principio do mundo sou O meu ser é um, e é trino Não sou deus, nem o imagino E em todas as partes estou.
No mundo faço a principal figura Entre os homens me vês, e não me sentes Se dizes sou ar, agua ou fogo mentes; Mas em todas as partes me procura.
Sou o primeiro, a morrer sem ser gerado, Estou com o demonio no inferno E no meio do tempo sem ser passado. (_E. A letra--M._)
Sou femea e sou triste Mui secreta e repousada, De corpo e alma privada, E só trage negro me assiste Sendo de muitos estimada. (_A noite._)
Em as mãos das damas Quasi sempre estou mettido Umas vezes estirado E outras vezes encolhido. (_O Leque._)
Quem será um velho ligeiro Que tem quatro movimentos, E doze repartimentos, Que a qualquer passageiro, Dá mais penas que contentos? (_O Anno._)
Ha um filho de um velho Que tem mais onze irmãos Sem cabeças, pés, nem mãos, Que nos causa a differença De estarmos doentes ou sãos. (_O Mez._)
Dou o sangue ás veias E tambem por meus amores Me transformo em mil flores, Misturadas com as assucenas E rozas de todas as côres. (_A Primavera._)
Todos dizem que sou navio, Chamando-me tardo, e ligeiro, Que ao pobre, e cavalleiro Roubo como grande corsario, Sendo um velho passageiro. (_O tempo._)
Quem é um grande senhor, Que foi nascido da terra, E tem armas de paz, e guerra, E que a uns dá grande valor E a outros sua ausencia interra? (_O dinheiro._)
O meu principio foi de ervas Depois me pintaram de côres E costumo a dar dissabores, E mortes tenho causado acerbas. E a pobreza a muitos senhores. (_As cartas de jogar._)
Qual é a cousa que Deus nunca viu Nem terá de vêr?--Resposta--Outro igual a elle.
Qual é a cousa que em tudo poisa? Resposta--É o nome.
FIM DA SEGUNDA PARTE