Chapter 9
Deteve-se silencioso largo espaço o hebreu. Estava aquelle afflictissimo homem perguntando á sua consciencia, se não seria mais grato a Deus e á humanidade que um peregrino vindo d'além mar não entrasse um dia aos paços de Manuel de Sousa Coutinho a dizer a D. Magdalena de Vilhena que não podia ser mulher do homem que lhe chamava esposa! Se não seria mais humano e santo que aquelle peregrino passasse por diante da casa dos felizes, e dissesse: «Deixae-os viver e morrer ditosos na vossa ignorancia! Não serei eu quem vá vestir-vos a mortalha, e dizer-vos: sepultae-vos!»
Assim pensava Francisco Luiz, e curava já de remediar o alvoroço em que pozera o seu amigo, quando este o abraçou com impeto, e lhe disse em tom violento:
--Quem é meu pae? Quem sois vós, homem! Respondei, que eu sinto o peito alanceado de mortaes agonias!
--Falle baixo, senhor Braz Luiz de Abreu--disse moderada e placidamente o hospede--Falle baixo, que está alli dentro a mãe com sete filhos.
E desapertou-se dos braços d'elle para fugir.
--Não!--exclamou o medico--não irá de minha casa, sem me dizer o que sabe do meu nascimento. Que importa que me diga que sou filho de um hebreu? que meu pae morreu queimado? que Heitor Dias era meu irmão? que o meu appellido é o de algum facinora? Diga, diga tudo, que a mim basta-me a consciencia da minha vida honrada para me acobertar dos insultos do mundo! Farto d'elles estou eu, por que me chamam engeitado! Diga-me seja o que fôr, que eu lh'o peço com as mãos erguidas! Por Deus não minta, senhor! Conheceu meu pae? conheceu minha mãe?
--Conheci.
--Jura-m'o pelos Santos Evangelhos?
--Eu não reconheço a santidade dos Evangelhos. Juro-lh'o pela honra d'este homem, d'este hebreu queimado em estatua, d'este homem sem terra nem familia, chamado Francisco Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que recebeu nos braços ha quarenta annos uma creancinha, que depois se chamou Braz Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que depositou essa creancinha, quando os esbirros da inquisição o perseguiam, nos braços de Francisco de Moraes Taveira, de Villa Flor. Jura-lh'o o maior amigo de seu pae! Jura-lh'o o homem que enchugou no seu rosto as ultimas lagrimas de sua mãe...
--Mas o nome de meu pae--atalhou Braz de joelhos, com as mãos erguidas e trementes.--O nome de meu pae, senhor Francisco Luiz de Abreu.
--Dir-lh'o-hei ao ouvido--disse o hebreu, inclinando-se á orelha do medico.
Braz expediu um brado estridente, ergueu-se de salto, e clamou:
--E o nome de minha mãe?
--Pergunte a sua irmã, á mãe dos seus sete filhos, como se chamava a mãe d'ella.
--Como é, meu Deus?! como é?! por caridade, salve-me d'esta duvida atroz... Minha irmã!... quem é minha irmã, senhor?
--É a filha de sua mãe.
Abriram-se os batentes de uma das portas da sala. A mulher que entrou, fechando a porta para que os sete filhos a não seguissem, impetuosa, como cega de furia, ou impulsada de um grande terror, terror como de incendio que ameaçava devorar-lhe as creanças, ia lançar-se nos braços do marido; e, como lhe faltasse o amparo d'elles, caiu de rosto no pavimento, e soltou do peito uma soada rouca, similhante ao estallido de todas as fibras da vida.
O quadro era de mais pavor do que póde exprimir lingua humana.
Francisco Luiz poz a mão na fronte glacial e disse entre si:
--Maldito eu seja, que trouxe a desgraça e a vergonha a esta familia!
Braz Luiz inclinou-se a levantar a mãe de seus filhos nos braços que a não podiam suster. Chamou as filhas mais velhas, e mandou-lhes que levassem sua mãe ao leito. Acercou-se de Francisco de Abreu que estava chorando com a face encostada ao alisar de uma porta, e disse-lhe brandamente:
--Senhor Abreu, não se arrependa; foi Deus que o enviou. Não chore, que as minhas lagrimas ámanhã estão enchutas: ha de seccar-m'as o fogo sagrado da minha religião. Tenho Jesus Christo na minha alma. Agora comprehendo que milagres se operam nas maiores angustias do homem. Os meus filhinhos serão sempre os bens que Deus nosso Senhor me confiou. Minha irmã está debaixo da mesma divina mão. Ha de resignar-se, ha de santifical-a a saudade, incenso de lagrimas que o Senhor lhe ha de aceitar e retribuir em consolações...
Susteve-se n'esta exclamação arrobada e ungida de santa resignação. Momentos passaram silenciosos... Depois, levando freneticas as mãos á cabeça, exclamou:
--Mas eu hei de separar-me para sempre de minha esposa... do anjo bemdito de toda a minha vida!...
E atirou-se ao peito soluçante do homem que, quarenta annos antes, o aquecera ao calor de suas faces, creança de vinte e cinco dias.
XV
Angustias que existiram
Por volta das dez horas d'aquella noite Braz Luiz de Abreu saíu de casa do vigario capitular, e recolheu-se ao convento de frades antoninos, convisinho da egreja da ordem terceira de S. Francisco, na qual o familiar do santo officio era irmão professo. Que noite aquella, que lagrimas choradas aos pés da cruz, e no seio do venerando prior da casa hospitaleira do maior infeliz que alli se albergára!
Ao aclarar-se a manhã, o prior e dois frades de Santo Antonio, varões de grandes annos e virtudes, chegaram á porta de D. Josepha de Abreu. Abriu-se-lhes a casa, em cujo recesso tinha ido um chorar soluçante, e passado horas infernadas, sem mais desafogo que o atirarem-se por terra aquella mulher e sete filhos, ignorantes da angustia de sua mãe, pedindo misericordia, diante de um santuario.
De joelhos se quedaram, quando os tres frades, sublimes de religioso terror, appareceram no limiar da casa da oração.
--Irmã, disse o prior, erguei-vos e mais as vossas cinco filhas, e vinde.
--Para onde, senhor?--murmurou ella com os olhos no pavimento e as mãos sobre o seio.
--Estão dadas ordens para serdes recebidas no conservatorio de S. Bernardino, Recolhimento de Terceiras de S. Francisco.
--E eu não hei de vêr mais...--exclamou ella, e retraiu-se como aterrada do delicto de tal pergunta.
--Vinde, senhora e meninas. Emquanto a vós, moços, esperae que vos digam o vosso destino.
Era na madrugada de 25 de março de 1732.
Regorgeavam os festeiros da primavera, os passarinhos emboscados no arvoredo dos quintaes. A geada branquejava as ruas, e do lado da rua assoprava frigidissimo vento. As meninas aconchegavam das faces escarlates os capuzes das mantilhas. A mãe ia aquecida no banho ardente das lagrimas.
Os antoninos caminhavam mesuradamente á beira d'ellas, com as mãos enfiadas nas mangas dos habitos. O prior ia ciciando quaesquer palavras, que deviam de ser as suas orações da manhã, ou rogava ao Senhor dos afflictos que esteiasse o animo d'aquella mulher singularmente desgraçada.
Abriu-se a portaria do conservatorio de S. Bernardino. Os frades ficaram áquem da porta, que rouquejara nos gonzos com o quer que fosse de muitos gemidos unisonos de fundissimos carceres, soados por abobadas subterraneas.
D. Josepha quando encarou no interior do recinto lobrego da entrada, deixou-se rasgar desde o intimo d'alma por um grito, mais desesperado, mais blasphemo que invocativo da divina graça para tão acerbo calix.
--Haja-se com paciencia, senhora!--disse o prior--Olhe que desde este momento o Altissimo a está vendo e sondando-lhe o coração. A ignorancia não podia ser culpada até hoje; mas d'hora em diante, a reluctancia com os deveres que lhe impõe a justiça do céo e a justiça da terra é crime mais que muitissimo grande... Entendeu-me, senhora?
--Entendi, senhor padre-mestre prior--respondeu a confessada do prelado dos antoninos.
Fecharam-se as portas.
A directora do Recolhimento, silenciosa como um phantasma, conduziu D. Josepha e as cinco meninas ao longo de um pequeno corredor, com cubiculos lateraes, e mal alumiados da luz do dia ainda froixa. No extremo do corredor abriu-se a portinha de uma cella espaçosa.
--Aqui está, senhora--disse a directora, e ausentou-se.
As meninas romperam em grande chôro, assim que a livida directora saíu; logo, porém, lhe assomou a mulher de macerado aspecto, no limiar da porta, e disse:
--Aqui n'esta casa são permittidos os prantos da penitencia, e só esses, senhoras!
Retrocedeu, a tempo que D. Josepha se abraçava de um amplexo em todas as cinco filhas, e lhes dizia:
--Choremos baixinho.
Meia hora depois d'este lance, os dois meninos de Braz Luiz de Abreu, um de dez, outro de nove annos, eram conduzidos ao convento de Santo Antonio, onde encontraram seu pae vestido com o habito de irmão professo da ordem terceira. Estacaram defronte d'elle n'um glacial spasmo. O medico tomou-os ambos, com as faces aconchegadas um do outro, e disse-lhes:
--Não haveis de chorar, não, meninos? Ficareis aqui por algum tempo. Aqui vos deixo com amigos e mestres. Fazei muito por aproveitar o tempo, e trabalhae por ganhar o coração d'estes santos homens.
Nem uma lagrima exsudou aos olhos d'aquelle pae! O fogo da divina graça seccara-lhe as fontes da alma. Era já o ser humano mutilado dos orgãos da vida de relação. Era o homem sobre-natural, aquella coisa inexprimivel de que se formam o anjo ou o demonio, as visões beatificas ou o revolutear escandecente da legião.
Os frades entraram a tomar conta dos meninos. O prior, ao pegar das mãos d'elles, disse:
--É tempo. Vá á sua vida, senhor Braz de Abreu.
--Adeus, filhos. Abençoe-me, reverendo padre!...--disse o irmão professo da ordem terceira de S. Francisco, e saiu.
Sobre-humana coragem! Entrar na casa, onde, vinte e quatro horas antes ainda almoçado com sua mulher e filhos! Entrou. Foi ao oratorio de sua mulher. Se reparasse, poderia ainda ver signaes humidos de lagrimas no genuflexorio e na peanha do Christo de marfim. Estava orando, quando ouviu passos na escada. Levantou-se para fechar a porta, e furtar-se a dar explicação d'aquelle habito, d'aquella soledade. Não foi a tempo. Era Francisco Luiz de Abreu. Caminhou para elle com firmeza e risonho semblante:
--Meu bemfeitor, disse elle, aqui me tem. Faço grande differença do que era ha quarenta annos. Então, viu-me nas faixas infantis, e teve-me junto do seu coração. Abrace-me agora vestido na mortalha.
O hebreu apertou-o com vehemencia. As palavras não podiam sair do peito anciado e da garganta afogada por suspiros. Passado tempo, disse:
--E era preciso isto? A conformidade com a vontade de Deus exprime-se com vestir esta tunica, e apertar este cordão? Não é o homem tão grande na dôr, sem a celebrar com a magestade funebre d'estes habitos?
--O homem é um verme, e mais nada, murmurou Braz Luiz.--Se a religião me não soldar os pedaços da vida, se me ella não tirar d'este tumulo em que estou caido, que hei de eu fazer tão esmagado até á medula dos ossos?
--Pois os seus filhos? que é dos seus filhos, Braz Luiz.
--As minhas filhas assistem, as innocentinhas, á penitencia de sua mãe.
--Penitencia de quaes peccados?
--Oh! calle-se!... por Deus, calle-se, diante do filho de Antonio de Sá! Se não era crime o meu viver para que me avisou?...
--Diz bem... Perdôe-me.
--Não só lhe perdôo... que lhe agradeço... Agora é que eu me gelo de horror do meu passado!... Nunca tive um abalo que me dissesse: «porque lhe queres tu assim tanto, tanto, que em quinze annos teus olhos não viram outra mulher sobre a terra!» As irmãs não se amam assim... Ai!... e eu que assisti á morte de minha mãe, ainda lhe beijei as mãos... Alli sim, então senti convulsões de espirito extrordinarias, das quaes não podiam ser motivo o amor que eu tinha á filha... Não; era Deus que me avisava... Quinze annos, quinze annos de felicidade sem sombra... os meus filhinhos, os meus sete anjos... ahi me ficam...
--Onde vae?...
--Onde vou?!
E chorava com tamanho afôgo que lhe vieram umas ancias mortaes.
--Deus me mate já, já!--vociferou por entre o repuchar dos gritos abafados.--Sou fraco, sou miseravel lodo! Dê-me animo, salve o filho do seu desventurado amigo. Creia no Deus dos martyres, para que a sua voz me alente, e eu não seja confundido pelo escarneo da multidão.
--Creio no Deus de todos os martyres, senhor Abreu. Creio--atalhou Francisco Luiz.--Soffra, chore, despedace-se sem amaldiçoar, e verá que está comsigo o Deus de Socrates, o Deus de Saulo, o Deus de Antonio de Sá, o Deus de Heitor Dias da Paz, o meu Deus, o creador de todos os martyres e algozes, de todas as cruzes e de todos os postes levantados sobre a lenha que vae abrasar um corpo. É Jesus de Nazareth o seu Deus? Sirva-o, tome-lhe dos labios a esponja e sorva-lhe o fel, ame os inimigos, valha aos desvalidos, acôlha os orphãos á alma que os aconselha, dê-lhes tecto que os cubra, e olhos que os chorem. Assim faziam os justos segundo Platão, os justos segundo Bouddha, os justos segundo Philon, os justos segundo Jesus, os justos segundo Luthero. Ame, condoa-se, e ampare como elles, e será salvo para melhor mundo, e sentirá n'este as supremas alegrias da consciencia...
--Oh! não é isso--atalhou Braz Luiz--ha uma só religião, e uma só salvação.
--Pois bem: haja uma só; e seja a sua. Todas ellas dão as suas melhores corôas aos seus martyres, corôas tecidas dos mesmos espinhos, e abençoados da mesma benção; mas é preciso soffrer, soffrer sem infligir tortura, sem retalhar o peito de outra fé para lhe ir lá dentro remoer com ponta de ferro em brasa a consciencia. Braz Luiz de Abreu, respeito grandemente a sua angustia, e dou graças ao Senhor do céo e terra que lhe está vertendo balsamos no roer do cancro que lá deve ir n'essa pobre alma. Siga a sua religião, eu lhe seguirei os passos n'ella, e ajoelharei ao seu lado, sem receio de que estejamos cada um de nós orando a differentes creadores. E seus filhos? E seus filhos?--proseguiu Francisco Luiz--quer que eu vele pelo seu futuro d'elles?
--Mercês, meu amigo. Meus filhos hão de ter pão e futuro. Trabalhei; tenho ahi uns bens. Continuarei a trabalhar para augmental-os. Minhas cinco filhas hão de ser freiras; meus filhos seguirão o sacerdocio.
--Qual é o seu destino, Braz?
--Tomar ordens clericaes. Hoje mesmo vou caminho de Lisboa. E vossemecê deixa Portugal?
--Ainda não.
--Adeus, pois, até quando?... Até á eternidade?
--Ainda não. Ver-nos-hemos antes. Não se morre assim depressa... Os desgraçados são de bronze. Quer Deus que elles vivam muito para serem muito vistos como pompas do mal necessario.
XVI
O padre Braz
O famigerado author do _Portugal Medico_ appareceu em Lisboa, cingido pelo cordão franciscano, sobraçando o manto pardo, fronte abatida, faces sulcadas, e desfeitas, a luz dos olhos amortiçada, e um amarellido de rosto accusando tanta afflicção interior, que não havia olhos enchutos que o vissem.
Por casas de bispos e mais jerarchias da egreja andava o irmão professo da ordem terceira, solicitando a sua ordenação de missa, e a concessão de recursos que o ajudassem a converter em convento o conservatorio de S. Bernardino, onde tinham sido recolhidas D. Josepha e suas filhas.
D. João V, informado da resolução mysteriosa do celebre Olho de Vidro, cujas facecias o tinham muito alegrado, quando sua magestade, em hora de pachorra, consentia que o seu medico lh'as lesse, desejou ouvir da bocca do famoso Braz Luiz uma historia escassamente conhecida dos altos dignitarios da egreja.
Braz Luiz foi levado ao paço pelo doutor José Rodrigues de Abreu, medico de el-rei. O filho de Pedro II revelou o desejo que tinha de saber que fundo reviramento se operára no espirito de um pae de sete filhos, para, no vigor dos annos, se privar das caricias da familia, e defraudar a esposa de marido e os filhos de pae.
O medico referiu a sua historia, a sós com o curioso monarcha, depondo na consciencia e religiosidade de el-rei os pontos melindrosos e secretos da sua vida. Sensibilisou-se o soberano, e em paga da confidencia lhe fez mercê das rendas do real d'agua para que as elle applicasse á fundação do convento de D. Josepha. Ordenou mais el-rei, de harmonia com o nuncio, que se não delongassem a Braz Luiz de Abreu as ordens solicitadas, de modo que entre umas e outras não interferisse mais tempo que o necessario, em conformidade com o maximo gráo da dispensação em taes casos usada. Por maneira que Braz Luiz, ao cabo de seis mezes, estava clerigo de missa. O concilio tridentino permittia e explicava santissimamente todas estas coisas, que hoje se nos affiguram monstruosas irregularidades. N'este anno da graça de 1866, póde qualquer novelleiro citar o concilio tridentino, por que é presumivel senão certo, que por amor do casamento civil toda a gente de alguma curiosidade reveza a leitura das decretaes com a dos concilios.
Pois o logar do concilio tridentino que permittia desatarem-se esposos, e vestirem habitos, e professarem, e deixarem os filhos sem paes, é a _Sess. 24 de Matrimonio, Can. 9_.
Ao mesmo tempo, o padre Braz Luiz de Abreu foi nomeado syndico do convento permittido, e, por um breve, tambem nomeado medico d'elle.
Tornou-se o padre de Lisboa para Aveiro, e entendeu logo nas obras do convento novo. Podia, se quizesse, dizer logo missa nova, mas reservou-a para o dia em que sua mulher e filhas professassem.
A edificação do convento fez-se n'um anno. Sobravam os recursos, além do subsidio real. Os cavalheiros da terra concorriam com grandiosos donativos, e muitas esmolas de procedencia desconhecida iam dar ás mãos do syndico. O hebreu Francisco Luiz observou que o seu dinheiro maldito não queimava as mãos ungidas do sacerdote.
Algumas vezes o padre Braz Luiz de Abreu entrou ao locutorio ou grade para se entender com a mãe de seus filhos sobre coisas attinentes á profissão. Dizem as memorias que nunca jámais lhe elle vira o rosto, porque D. Josepha o velava com um espesso véo negro.[31]
Aos vinte e quatro de dezembro de 1734, passados trinta e tres mezes de noviciado, de cruelissimas dores, de inenarraveis desmaios, as cinco filhas de D. Josepha, trajadas para a festa do martyrio como sua mãe, ajoelharam ao lado d'ella, e abdicaram nas mãos da prioresa tudo que podesse parecer ao mundo coisa melhor do que o escuro abysmo em que de repente se viram despenhadas.
Aquelle acto era uma crucificação atrocissima para a filha de Antonio de Sá, porque ella tinha perdido a fé. Nunca se lhe haviam entranhado muito as crenças na religião do Calvario, porque da indifferença religiosa, em que lhe correra a infancia, passara a ser educada em convento francez, onde a piedade sincera de alguma peccadora contricta era mettida a riso por alegres peccadoras, de quem poderia ser que os proprios anjos andassem namorados.
Sua mãe tinha vivido uniforme com a religiosidade do marido; e, por fins de vida, rejeitara e apagara da alma os vislumbres da piedade, porque, dizia ella: «Ha certas lagrimas, que apagam toda a luz da religião, seja ella qual fôr.»
A religião de Braz Luiz pareceu-lhe a ella muitas vezes ostentosa, pouco menos de hypocrita, e sustentada á custa da razão. Todavia, como discreta e amantissima d'elle, não lh'a impugnava, nem se esquivava a seguil-o nas publicas demonstrações de sua piedade.
Quando ella, desde os reconcavos d'alma, caíu aos pés de Christo, foi na hora tremenda em que se ouviu nomear filha do pae e mãe de seu marido. Orou então, para não morrer, ou póde ser que orasse para ser arrebatada á sua angustia pela mão de Deus, ou fulminada por poder satanico. N'aquellas orações ninguem sabe o que a alma pensa.
Encerrada n'um convento, com cinco formosas meninas, que se encostavam ás rexas de ferro a olhar cheias de saudades por esse céo fóra, e seguiam as avesinhas de arvore para arvore, de monte para monte, a infeliz mãe adivinhava os colloquios das pobrinhas com o céo impassivel, e fugia-se d'ellas, para que a não vissem chorar. Voltava a vêl-as, e trazia ainda vidrados na face os prantos. Ellas aqueciam-os com beijos, e, em vez do fervor piedoso e consolativo de sua mãe, ouviam-lhe supplicas com que ella lhes pedia perdão de as ter gerado. As meninas perguntavam-lhe porque estavam assim captivas e desterradas da vida tão sem vontade, e a mãe não podia responder-lhes: «É porque sois filhas de meu irmão, e minhas filhas.»
Que importava?
Tinham ajoelhado, tinham renunciado, tinham professado, tinham assistido á missa nova de seu pae, d'aquelle homem de faces lividas, que as não apparentava mais translucidas de uma alegre consciencia do que as teria um sacrilego, que houvesse cuspido no ciborio e calcado aos pés a hostia. E depois, viram-no assomar no pulpito, e prégar com elegancias de primoroso lapidario de palavras o sermão da profissão, o sermão d'aquelle enterro de seis vidas, de seis corações apunhalados, mortos, com authoridade do concilio tridentino, e com muitos applausos dos prelados, do rei e dos edificados espectadores da tragedia.
Estavam professas. A de trinta e nove annos, que representava vinte cinco formosas primaveras, ao entrar n'aquelle antro de S. Bernardino, a filha de D. Maria Cabral estava desfigurada como na ultima velhice. Anna Maria, de dezeseis, e Sebastiana Ignacia, a mais nova, de onze--onze annos e professa com um breve de Sua Santidade!--todas cinco, seguindo sua mãe da egreja ao claustro, olhavam contra o chão como a procurarem a cova que se lhes abrira.
E depois, se choravam, saía-lhes a prioresa e dizia-lhes:
--Filhas, lagrimas de penitencia, de penitencia...
E se, do interior do convento, ia ao padre Braz a noticia de que suas filhas estavam deperecendo e morrendo, o santo, calejado para uns dardos que varam e matam todo homem menos santo, respondia:
--É o Senhor que as chama... Deixal-as, deixal-as ir para o côro das virgens.
E, rodeado de muitos e piedosos livros, escrevia a _Lusiada sacra_, a origem ecclesiastica do imperio lusitano, e levava mão do trabalho para assistir aos seus doentes, que curava ou enviava a melhores mundos gratuitamente.
Os moços Agostinho e Pedro lá estavam estudando latinidade no convento de Santo Antonio. Ao principio perguntavam por sua mãe, por seu pae e por suas irmãs. Um doutissimo frade, lente jubilado, respondia-lhes:
--O melhor pae é Deus, a melhor mãe é Nossa Senhora, as melhores irmãs são as tres pessoas da Santissima Trindade.
Sã theologia; mas os mocinhos queriam saber de sua mãe, de seu pae e de suas irmãs.
Deram em não estudar, de tristes que viviam. Foram accusados ao padre Braz, que entrou a admoestal-os no convento. Os meninos abraçaram-se n'elle, e pareciam contentes.
--E nossa mãe? perguntava Agostinho.
--E nossas irmãsinhas? perguntava Pedro.
E Braz Luiz baixava os olhos sobre o seio, permanecia n'um recolhimento angustiado, e saía com estas palavras:
--É verdade!... e vossa mãe!... e as vossas irmãsinhas?
Mas, apenas as orelhas da sua alma escutavam estas lastimas do coração, o padre ajoelhava na postura de mentecapto, batia punhadas no peito, e clamava:
--Pequei! pequei! perdão, meu Redemptor!
XVII
O inferno, como elle é possivel
Eu negaria minha fé a quem me dissesse que a prece dos infelizes sem culpa não ha Deus que a ouça e attenda. Se ha!...
N'um dia de junho de 1735, ao sexto mez de professa, soror Josepha da Cruz, depois de tres semanas de aturada hemoptyse, amanheceu com uns spasmos convulsos, chamando pelas filhas, que a rodeavam, e ella não via. Accudiram as freiras, e ordenou a prioreza que fosse chamado confessor e medico. Avisaram o padre Braz, syndico do convento. Estava elle resando as contas, e voltou o rosto da pessoa que lhe levou o aviso, para atar um _pater noster_ interrompido no _fiat voluntas tua_. Tres vezes repetiu com seraphico arrobamento o _fiat voluntas tua_--«faça-se a tua vontade»--e de si para si entendeu que aquelle seu despego em tamanho transe, ao annunciarem-lhe que sua mulher estava em trabalhos de morte, era egual ao de muitos lances de natureza identica, e santo stoicismo, contados no _Flos-Sanctorum_, e _Vita patrum_.
Concluido o ultimo mysterio do rosario, aspergiu-se de agua benta, e foi caminho do convento, resmuneando o psalmo:... _Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me. Quoniam iniquitatem meam ego agnosco... etc._
Ao avisinhar-se da cella da enferma o syndico, disse a prelada:
--Irmã Josepha, aqui está o nosso padre syndico Braz Luiz.