O Olho de Vidro

Chapter 8

Chapter 83,842 wordsPublic domain

--Duparquet, sabendo que o hespanhol captivo era medico, tratou-o com alguma affabilidade, e encarregou-o de lhe curar de cameras uma filha. Meu sogro saiu felizmente do encargo, e foi considerado por isso medico da casa do governador. N'aquelle anno, que me parece seria o de 1697 ou 98, segundo as confusas lembranças de minha sogra, meu sogro foi mandado embarcar n'uma náo de quatro peças, da qual se arvorára almirante um francez chamado Legrand, o mais temivel flibusteiro d'aquelles mares. Antonio de Sá curou muitos mutilados n'uma abordagem aos galeões de Hespanha, e, pela pericia com que o fez n'um grave ferimento de Legrand, ficou desde logo nomeado escravo e medico do almirante. Meu sogro assistiu ao assalto de Maracaibo, riquissima cidade e bem guarnecida, que se deixou entrar e saquear por quatrocentos salteadores.

Tambem assistiu á tomada de Carthagena pela esquadra franceza, auxiliada por flibusteiros, que lhe deram a victoria.

No afogo d'esta peleja, Antonio de Sá, quando estava pençando as feridas de seu senhor, foi gravemente ferido de bala. A convalescença foi longa. N'este intervallo, em que elle se tornára inutil, pediu licença para ir vêr á Martinica sua mulher e filha. Negaram-lh'a; mas concederam-lhe que a familia o fosse visitar nos arraiaes movediços de sobre as ondas.

Legrand tinha residencia em S. Domingos, onde se desfadigava das batalhas navaes, exercitando os seus leões do mar. Obrigou, portanto, o prezadissimo escravo a viver com elle. D. Maria, minha sogra, passou á companhia do marido, e minha mulher que tinha então seis annos, ficou em casa do governador da Martinica, por que a filha predilecta de Duparquet se habituára a consideral-a a sua escrava loura.

Por muitas vezes, Antonio de Sá Mourão supplicou a Legrand, que, em paga de seus serviços, o deixasse passar com sua familia á Europa. O francez, importunado pela teimosia de taes rogos, ameaçou-o de o mandar matar, se elle tentasse fugir! É onde podia chegar a gratidão do flibusteiro almirante!

Minha sogra me disse que, decorridos cinco annos, o marido escrevera desde S. Domingos a um amigo muito querido, que tinha em Portugal. A carta, porém, foi devolvida passados dias a Antonio de Sá, com a seguinte reflexão do governador almirante: «Os escravos dos flibusteiros, se teimam em escrever cartas para Hespanha, correm o perigo de não poderem já ler as respostas, quando ellas voltarem.»

Nunca mais Antonio de Sá escreveu ou tentou escrever para Portugal.

O medico ia enriquecendo com as liberalidades dos flibusteiros; porém, um dia, achou-se roubado, não obstante ser pouquissimo vulgar o latrocinio entre elles. Seria porque ao portuguez ou hespanhol o consideravam estranho á sua tribu, e como tal indigno de se gosar dos foros de lealdade, que uns com outros guardavam.

Minha mulher corria por este tempo nos seus dez annos. O pae consternava-se de a ver crear-se entre gente brutal, e rodeada de creaturas ignobeis do seu sexo, recenseadas nos lupanares de Paris e de Marselha, enviadas como presas ás colonias.

Antonio de Sá, aproveitando o lanço de ter captivo o animo do governador, depois da cura de doença grave, pediu-lhe licença para enviar a filha a educar-se n'uma casa de religiosas francezas. O governador condescendeu, e enviou duas netas ao mesmo collegio, na primeira náo que saiu para França.

Meus sogros presumiam que lhe seria menos embaraçada a fuga podendo passar a filha á Europa. Enganaram-se; por que Duparquet, arrependido da concessão, redobrou de vigilancia sobre os menores passos do seu medico.

XIII

Seguimento da historia

--Antonio de Sá--proseguiu Braz Luiz--foi chamado a curar de febres um judeu rico da Normandia, que se passara com grande companhia de hebreus pobres a fundar uma colonia na costa de S. Domingos, com licença do rei de França e beneplacito do governador. Meu sogro, cumulado de liberalidades do seu restabelecido enfermo, deu-se por bem pago da amizade do hebreu, a quem se revelou proscripto da nação fiel, e evidenciou sua origem, praticando com elle as ceremonias judaicas.

O colonisador estimava-o muitissimo. Animou-o a declarar-lhe o seu intento e pedir-lhe coadjuvação para a fuga. Não lhe encareceu o hebreu grandes difficuldades á boa saida do plano; assegurou-lh'a facil, logo que, fundada e solidificada a colonia, elle se fizesse na volta de França.

O medico, alentado de esperanças, aguardou anno e meio a almejada hora; todavia, minguou-lhe a necessaria prudencia, porque, sem grande recato, começou de longe a simplificar os valores que tinha, trocando-os por pedras preciosas e coisas de facil transporte.

Chegado o tempo da saida do opulento hebreu, conforme ao plano gizado pelos dois, inventaram uma epidemia na colonia, e pediu-se ao governador a assistencia do medico hespanhol. Duparquet mandou conhecer da epidemia clandestinamente por um cirurgião francez, fugido das galés de Marselha, e foi certificado de que era imaginaria a contagião. Foi o hebreu normando chamado á Martinica, quando já Antonio de Sá se desconfiava de certos tregeitos que vira na má cara do governador. O judeu, porém, mais desconfiado ainda que o seu protegido, respondeu affirmativamente ao commissario de Duparquet, e em vez de velejar para Martinica, mandou aproar ás ribas normandas e accender os morrões para incutir respeito ás galés de flibusteiros ancoradas na costa.

Antonio de Sá foi o bode expiatorio da affronta, se mais bodes não foram os judeus da colonia que o governador mandou passar á espada, sem perdoar sequer a mulheres e crianças. Meu sogro teria sido espingardeado, se a esposa se não lançasse em joelhos aos pés da filha de Duparquet, a quem o marido por duas vezes arrancara ás presas da morte.

Depois de preso alguns mezes, Antonio de Sá foi chamado á presença do governador e perdoado. Prégou-lhe o francez um demorado sermão, recheado de censuras contra o feio crime de ingratos da laia d'elle medico, o mais venturoso homem que ainda tinha caído em unhas de flibusteiros, e homem de mais a mais filho das Hespanhas. Lembrou-lhe os beneficios desusados com que lhe galardoara os seus bons serviços como medico, e os conselhos que lhe dera sobre o modo de enriquecer-se e constituir-se um dos mais ricos proprietarios das colonias de S. Domingos. Lembrou-lhe o resgate que lhe dera da filha, tendo-a aliás destinada, como formosissima que era, a casar com um seu neto.

Antonio de Sá respondeu com muitas lagrimas, talvez suggeridas pelo recordar-se da filha, e desesperança de tornar a vel-a. Estas lagrimas compadeceram o governador, que o abraçou estreitamente, e lhe pediu que se deixasse estar até que um dia passassem ambos a França.

O medico resignou-se e esperou.

Entretanto, senhoreou-se d'elle presadissima tristeza, que a pobre esposa não sabia nem podia consolar. Esquartejava-lhe o coração aquelle espectaculo de incessante latrocinio e sordido desavergonhamento de costumes. Olhava contra o mar, e perdia a vista afogada nas lagrimas, exclamando: «Não hei de mais ver-te, ó minha filha... não hei de mais ver-vos, meus filhos...»

--Pois elle tinha mais que uma filha?--perguntou Francisco Luiz de Abreu.

--Essa mesma pergunta fiz a minha sogra--disse Braz--; mas a resposta era um silencio indecifravel, um esquisito amuar, que nem eu nem minha mulher ainda agora podemos atinar o que fosse... A meu juizo, minha sogra padecia umas turvações, a revezes, durante as quaes era preciso que a gente se não demorasse a querer entendel-a ou interrogal-a, que então rompia em alto choro ou carregava iradamente a sobrancelha.

Meu sogro foi um dia com sua mulher supplicar ao governador que os deixasse sair, ou os mandasse matar.

O francez condoeu-se, e mandou-os retirar benignamente, e esperar resposta em occasião opportuna. A opportunidade chegou tarde.

Tinham já decorrido doze annos n'aquelle viver, em que outro qualquer homem acharia distracção, enriquecendo-se, e sabendo aproveitar-se d'esse lado unico, e todavia o mais bello para muita gente.

Enfermou gravemente o medico: quem sabe se elle a si mesmo ministrou o veneno, que o ia corroendo vagarosamente? A sua maxima afflicção era antever a morte da esposa antes da sua. Isto attribulava-o, como se já a estivesse vendo sobre terra. Ia-se a ella debulhado em lagrimas, e rogava-lhe de mãos postas que tivesse mais força d'alma, mais coragem do que elle tinha para arrastar aquellas cadeias.

Póde ser que afinal se lhe espessassem sombras de demencia na grande luz de razão com que entendera os arcanos da sciencia, quando a estudava em Coimbra...

--Fallou vossemecê com alguem que o houvesse conhecido em Coimbra?--perguntou Francisco Luiz.

--Fallei com os meus lentes, que todos tinham sido condiscipulos e contemporaneos d'elle, e lhe perdoavam o crime do rapto e do hebraismo em desconto de sua alta capacidade para as divinas sciencias medicas... Em que ponto estavamos?

--Na doença do pae...--disse D. Josepha.

--É verdade... na doença do meu sogro que foi a primeira e ultima da sua vida. Minha sogra, quando chegava a esta final jornada da sua tragedia, parece que se lhe apagava o entendimento. Soluçava, com os braços cruzados sobre o seio, e os olhos cravados no alto ponto onde ella imaginava por ventura entrever o espirito de seu marido. O certo é que elle morreu em 1716, consoante o calculo de minha mulher, que então já contava os seus vinte e um annos, dez dos quaes tinham sido vividos n'um convento.

A compaixão franqueou a minha sogra a saida da colonia. Apossou-se da herança do marido que devia ser grande. Embarcou em um navio marselhez, que voltava do Canadá; antes, porém, de saltar de um barco de flibusteiro ao navio francez, já estava roubada do mais precioso da sua fazenda.

A pobrinha não se queixou, nem de ver-se pobre cobrou grande angustia. Lembrou-se de que tinha uma filha, uma patria, e n'ella os haveres de seu pae, que deviam ser a riqueza de sua filha.

Procurou em França o convento de sua filha, a qual duvidou reconhecer a mãe. Saiu minha mulher da casa religiosa, e assim se viram duas senhoras desamparadas em meio da França, entregues á propria deliberação. Alguem as enviou ao ministro portuguez em Paris, que lhes ouviu a historia com sentimento, e caridosamente aconselhou a minha sogra que se houvesse muito prudente com o santo officio de Portugal, em cujos archivos o nome d'ella devia estar escripto para eterna memoria. Porém, como quer que D. Maria teimasse em sair para a patria, o ministro advertiu-lhe que mudasse de nome, e se valesse das cartas que lhe deu, caso a inquisição a perseguisse, por effeito de alguma irreflexão d'ella, quanto á exigencia dos haveres de seus paes.

Proseguiu Braz Luiz de Abreu, relatando o que já é notorio ao leitor, até ao seu casamento com a filha de D. Maria Cabral, fallecida no Porto.

--Crucificada existencia foi pois a de Antonio de Sá Mourão!--murmurou muito recolhido Francisco de Abreu, e assim se esteve cogitativo por largo espaço.

--Vejo que lhe fez commoção esta funebre historia!--disse D. Josepha.

--Muitissima dôr!--murmurou o hospede, limpando o rosto coberto de lagrimas.--Pobre homem!... que destino!... que vida!... Como o mundo debaixo do céo está infamado de tamanhas desgraças!... E vale a pena o viver!... E não morrem afogadas as creancinhas ás mãos de seus paes!...

Braz de Abreu, esposa e filhos todos tinham os olhos amarados de pranto.

Francisco Luiz levantou-se, beijou as meninas mais novas, apertou a mão de D. Josepha, e despediu-se offegante de soluços.

--Que sensibilissimo homem!...--disse o medico.

XIV

O segredo horrivel

Ao outro dia, Francisco Luiz foi convidado a jantar com o seu medico. A condolencia a que o movera a infelicidade do hebreu Sá Mourão atou mais n'alma os liames de sympathia com que o Olho de Vidro o entranhára na intimidade dos seus.

O israelita de Ourem ia triste. Dir-se-ia que nunca elle, até á vespera d'aquelle dia, devéras se convencêra da morte do seu Antonio de Sá. Tantos annos idos, e elle ainda a querer-lhe e como que a esperal-o! Já o seu contemporaneo Barreto lhe havia dito na summa o que Braz de Abreu lhe dissera, e todavia o convencimento da morte do marido de D. Maria não o tinha ainda penetrado, ao que parecia.

Durante o jantar, como nenhum estranho assistisse, a fóra o hespanhol--que nunca se esquecera de o ser na linguagem--praticaram largamente ácerca dos actos do santo officio na Peninsula. O hespanhol relatou a sorte dos judeus em diversas partes do mundo, para concluir que em Portugal e Castella eram elles mais perseguidos do que poderia sel-o no inferno se, como piamente cria, Deus os tinha castigado com fogo infinito.

Braz de Abreu, posto que familiar do santo officio, recebeu de boa sombra aquella um tanto ironica reflexão do commensal, attribuindo a genio espanholado a comparação faceta.

Voltando á conversação da noite anterior, reflexionou Francisco Luiz que, tendo estudado algum tanto os factos da inquisição de Portugal, notára que a santa bandeira de S. Domingos de Gusmão era pouquissimo misericordiosa com os hebreus medicos ou estudantes de medicina. E ajuntou:

--É sabido segundo me fizeram crer alguns foragidos de Portugal, que os estudantes de medicina apenas licenciados, ou se acreditavam como familiares do santo officio, ou se expatriavam antes que a inquisição os desterrasse d'este mundo. Dou como exemplo Henrique de Castro Sarmento...

--Foi meu condiscipulo--atalhou Braz de Abreu.

--Pois então sabe vossemecê que elle está em Londres, com o nome de Jacob de Castro Sarmento, em tanto credito e dignidade que, pouco ha, foi elevado á cathegoria de membro do collegio real dos medicos, e socio da sociedade real de Londres? Este grande sabio, e co-reformador da sciencia, que seria hoje em Portugal, se não se evadisse d'aqui uns quatro annos depois de licenciado? Seria porção d'essa vasa do Tejo por onde se misturam as cinzas de muitissimos da sua raça e do seu alto entendimento. Outro medico houve ahi em Coimbra, segundo me disseram, que chegou a pertencer ao corpo cathedratico, e teve de fugir com sua mulher para a India hollandeza.

--Quem era? perguntou o doutor.

--Se bem me lembro, tinha elle um nome assaz parecido com o de vossemecê. Chamava-se Francisco Luiz de Abreu.

--É verdade!--acudiu D. Josepha--que nome tão similhante!...

--E não sei--disse meditativo Braz Luiz--como esse nome me desperta coisas da minha primeira mocidade!

--Póde ser--tornou o hospede--que, no tempo em que vossemecê estudou, se fallasse ainda no lente fugitivo.

--Creio que sim: ha de ser d'esse tempo que me vem estas vagas memorias--redarguiu o Olho de Vidro.--Creio até que elle teria sido contemporaneo de meu sogro.

--Provavelmente seria--obtemperou Francisco Luiz.

--E a mim me está parecendo--acrescentou D. Josepha--que alguma vez ouvi meu pae proferir esse nome.

--Ouviu?--perguntou o hospede com o coração sobresaltado.

--Ouvi, sem duvida... _Francisco Luiz de Abreu_... Pois não ouvi? quantas e quantas vezes?... Que fim teria esse homem?

--Provavelmente morreu, senhora--respondeu o hebreu; e proseguiu sem sensivel mudança de rosto:--Pois ahi tem, senhor doutor Braz, outro exemplo de perseguição á medicina. Ainda bem que vossemecê não teve de provar que o seu apellido nada tinha que ver com o do medico fugitivo.

--Nada--balbuciou Braz Luiz, receando que, depós isto, disparasse a affrontosa pergunta de quem era filho.

Francisco Luiz, n'este lance, lembrou-se da resposta que o _Olho de Vidro_ lhe mandára bastantes annos antes, e sorriu-se interiormente do dito d'aquelle hebreu, que ao mesmo lhe escrevia presumindo que Braz Luiz de Abreu era filho sacrilego de um frade, senão fosse filho de tres frades ao mesmo tempo.

A pratica ficou por aqui, visto que a physionomia do dono da casa expressava nenhuma satisfação de que ella se proseguisse.

Todavia, D. Josepha, quando já estavam sentados á lareira, porque a tarde era de março, disse:

--Não me sae da lembrança o nome de Francisco Luiz de Abreu!... A gente, quando entra a envelhecer, recorda-se de coisas da infancia, esquecidas no correr de muitos annos...

--A envelhecer!--disse risonho o hospede--vossemecê, minha senhora, está ainda muito no vigor da vida. Terá quando muito...

--Trinta e sete annos--concluiu D. Josepha.

--Pois ahi tem: ainda não chegou a meio caminho. E quem ha de dizer que já aqui tem esta senhorita, que representa dezoito, e apenas terá...

--Treze--disse a mãe, correndo a mão pelos cabellos negros da sua primogenita Anna Maria.

--E estes mocinhos, doutor? que destino tenciona dar-lhes?--perguntou o hospede.

--Se o meu plano fôr ávante, irá um para a companhia de Jesus, e outro para medicina.

--Cuidado com a medicina!--observou jovialmente Francisco Luiz--Faço-os ambos jesuitas, que os fará ambos dois grandes homens.

--Pois D. José receia--dizia Braz Luiz algum tanto acrimonioso--que um meu filho, se fôr medico, possa parecer judeu?

--Deus me livre de receiar similhante coisa! mas a mim quer-me parecer que a inquisição, quando não ha judeus, encarrega-se de os fazer, talvez por ter lido as santas palavras de Jesus que resam: _é necessario que haja escandalos_.

--Como amigo--acudiu Braz Luiz--lhe peço que não falle assim diante de alguem. Lembre-se que está em Portugal, D. José!...

--Bem sei, meu amigo; e, se outra vez me esquecer, rogo-lhe que m'o lembre. Agora me estava eu imaginando entre pessoas que muito me estimam, por isso me deixei levar d'uma invencivel propensão a estigmatisar as injustiças, ou ellas partam dos reis, ou dos ministros, dos papas ou dos inquisidores. D'isto, d'esta perigosa exempção e rudeza de espirito, procede não ter eu paragem certa sobre este solo cavado de abysmos, e andar-me sempre perigrinando de solidão em solidão, para ser ouvido da minha consciencia sómente...

--Em nossa casa póde fallar--retarquiu o doutor--como falla a sós com a sua consciencia, D. José Aristizaval. A observação peço-lhe que m'a receba de bom animo, porque entende com o seu socego e deve servir-lhe n'um paiz que vossemecê conhece pouco.

--Mercês, meu amigo!--tornou Francisco Luiz de Abreu.--O que eu sei de Portugal é verdadeiramente a historia da sua inquisição, e pouco mais... Ha pouco lembrou-me o nome de um condemnado ao fogo... tambem medico ou estudante de medicina... mas... passou-me... Deixe estar... Deixe ver... Ah! recordo-me... Chamava-se elle Heitor Dias da Paz... Vossemecê havia de ouvir fallar de Heitor Dias da Paz, que, segundo me affirmaram, andaria por Coimbra desde 1701 até 1704, uma coisa assim, pouco mais ou menos.

Braz Luiz fitara os olhos n'um ponto da fogueira, como quem finge que se está recordando, e disse, corridos dois segundos, com profunda tristeza:

--Conheci-o.

--Pessoalmente?

--Pessoalmente.

N'este comenos, Braz Luiz, fitando o ouvido, como se ouvisse voz no interior da casa a chamal-o, ergueu-se.

--Ninguem te chamou, Braz--disse D. Josepha.

--Parece-me que sim... ouvi que me chamavam.

--Não serão familiares do santo officio, que me requeiram para maior gloria de Deus!...--observou o hebreu como comico tregeito de quem se esconde.

--Venha comigo á sala, D. José, se não tem muito frio--disse o _Olho de Vidro_.

--Quem fallou na inquisição que sentisse frio? Estas praticas são excellentes no inverno...--respondeu Francisco Luiz, cuidando que o seu hospedeiro amigo lhe ia solemnisar com toda a gravidade possivel os sustos de o ver a braços com o santo officio.

Braz Luiz, entrado á sala, deu alguns passeios meditativo, examinou as portas receiando a curiosidade da familia, e disse a meia voz ao muito attento e como espantado hospede:

--Conheci-o, e conheci-o muito.

--A quem?! perguntou como já esquecido Francisco Luiz.

--A Heitor Dias da Paz.

--Ah... já me não lembrava que estavamos fallando n'esse infeliz mancebo, cujos parentes conheci em Amsterdão... Devo dizer-lhe, meu amigo, que Heitor e o pae de Heitor, que se chamava...

--Francisco de Moraes Taveira...

--Justamente... são considerados santos no martyrologio ou cathalogo dos martyres hebreus. Isto presenciei eu e li nas dypticas da synagoga hollandeza chamada a _Casa de Jacob_... Com que então conheceu vossemecê mui de perto...

--Conheci, como se conhece um irmão--acudiu Braz Luiz.--Não lh'o disse diante de meus filhos, porque é meu dever de pae e de christão esconder d'elles coisas tristes da minha mocidade, por isso que o mundo, se m'as soubesse, faria d'ellas espinhos, que me entrassem pela fronte dentro e me levassem a morte ao coração. Vou contar-lhe com egual sinceridade á da historia de meu sogro, o que eu sei de Heitor Dias da Paz e... de mim. As mais antigas reminiscencias da minha infancia prendem-se a Heitor Dias da Paz.

Ditas estas palavras, Francisco Luiz de Abreu ouviu o bate de uma forte pancada no coração. Braz devia ver-lhe a subita alteração do aspecto, se tivesse mais claridade a sala, e elles não estivessem sentados no recanto mais escuro d'ella.

Braz Luiz continuou:

--Lembro-me de algumas coisas dos meus seis annos. Vejo uma mulher que me aperta ao coração, e desapparece para nunca mais ser vista. Nem já sei que feições ella tinha, nem sei onde a vi. É a recordação de um sonho isto, e pouco mais. Perguntei depois quem era aquella mulher, e responderam-me que fôra uma visão; e, se não era visão, mais tarde eu o saberia. Ora, as pessoas que podiam dizer-m'o, porque assim m'o tinham promettido, morreram. Uma era Francisco de Moraes, e outra era o filho, o suppliciado Heitor.

Francisco Luiz arfava ancioso: ia-lhe no intimo coisa mais attribuladora que o susto da morte. Braz deu conta do que havia indissimulavel em tamanha anciedade; mas attribuiu tal inquietação ao natural condoimento do seu ouvinte.

E, proseguindo, disse:

--Heitor Dias chamava-me irmão; e Francisco de Moraes abençoava-me como a filho.

--Vossemecê vivia em casa d'elles?

--Vivia, desde os seis annos, como já lhe contei. Passados alguns, Heitor foi para Coimbra, e levou-me comsigo. Prestacionou-me para eu entrar no collegio de S. Paulo. No principio do anno de 1704. Heitor Dias foi preso, e sómente depois de 1707 alguns mezes, soube que a inquisição o condemnára a ser queimado vivo, e que o ancião--o desgraçado que não tinha outro filho, e chorava a mulher na sepultura ainda fresca--saindo ao encontro da procissão do auto da fé, se suicidara em presença de Heitor.

Francisco Luiz de Abreu levantou-se hirto, de golpe, tremente e pallido.

Este movimento como que levantou o marido de D. Josepha pelos cabellos, sem que elle comprehendesse a força mysteriosa que o repuchava.

--Que tem, D. José?--perguntou o medico.

--Eu não comprehendo o horror da sua situação!--murmurou Francisco de Abreu em legitima lingua portugueza, tapando os olhos com as mãos convulsivas.

--Não comprehende o que?!--interpellou Braz estranhando grandemente a mutação de linguagem.

--Como se chamava seu pae?--perguntou com palavras intercortadas pela abafação o hospede.

--Não sei...--tartamudeou o interrogado.

--Porque se chama Braz _Luiz de Abreu_? Como ajuntou este sobrenome e appellido ao seu nome baptismal?

--Porque assim o achei escripto n'um abcedario da minha infancia.

--Que desgraça!--exclamou Francisco Luiz, e começou passeando vertiginosamente na sala!--Que desgraça, Deus do céo!...

Braz encarava-o com terrivel spasmo procurando nos olhos do seu hospede algum symptoma de demencia.

N'isto, Francisco Luiz vae direito ao medico, como que o força a fazer pé atraz de espavorido, e diz-lhe:

--Vossemecê ama muito sua mulher?

--Se amo muito minha mulher? Como a Deus, mais do que a Deus! mais do que aos meus filhos!...

Fitou-o com os olhos cheios de lagrimas o hospede, e disse-lhe:

--Não me falle por alguns minutos... não me falle... deixe-me pensar... mas o melhor é que eu me vá, e voltarei n'outro dia.

--Não... ha de explicar-me o que é isto... A sua linguagem é outra... Ha terrivel segredo aqui, ou o meu amigo enlouqueceu... Tire-me d'esta incerteza, por quem é...