O Olho de Vidro

Chapter 7

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--Então ella tinha uma filha?--insistiu Abreu.

--É verdade. Linda como a mais linda estrella; mas a mãe, d'aquillo que tinha sido, não lhe restava sombra nem vestigio. Era uma sexagenaria, não podendo ter então mais de quarenta e quatro annos, cá pelas minhas contas, porque ella tinha dezeseis quando fugiu com o judeu da Guarda... Não me lembra o que eu ia dizendo...

--Que appareceu em Bragança D. Maria Cabral com uma menina...

--É verdade. Chegou a Bragança, e fallava muito confusamente o portuguez, e a filha pouco ou nada dizia. Tomou de renda uma casinha e para alli se metteu com duas criadas, que lhe chamavam D. Antonia da Piedade.

Depois de por lá estar alguns mezes, dando muito que pensar á curiosidade da terra, começou a sair com um aspecto muito doentio, e a dar passeios a cavallo pelos arredores. Chegou á casa de Carrazedo, onde ella tinha nascido, e mandou pedir aos moradores d'ella licença para lá passar as horas da calma. Foi recebida por pessoas que ella nunca tinha visto; mas que eram seus primos e sobrinhos, que tinham ido de Chaves tomar conta da herança de Fernão Cabral. Este fidalgo desherdára a filha, porque as leis lh'o facultavam, e nomeara herdeiros os filhos de uma sua irmã, que elle odiava, por se ter casado com um capitão de cavallos menos fidalgo do que ella. Mas o odio á filha avantajou-se tanto ao odio da irmã, que, em artigos de morte, receiando que os descendentes d'elle ainda viessem perturbar-lhe o somno eterno, desherdou-a e nomeou seus herdeiros os sobrinhos.[29] D. Maria soffreu voluntariamente algumas horas de martyrio n'aquella casa, e ouviu com enchutos olhos contar a uma de suas primas a historia da morgada de Carrazedo, mulher perdida por amor de um judeu da Guarda com quem casara. Soube como tinha sido desherdada e amaldiçoada pelo pae á hora ultima; agradeceu as sôpas que lhe deram os possuidores do seu grande patrimonio, e seguiu seu caminho. Ao escurecer chegou ao portão da minha casa, e perguntou se alli morava ainda, ou se já tinha morrido o doutor José de Barredo.

--José de Barredo! disse Abreu, sem ter mão da impetuosa reminiscencia que lhe accudiu.

--Sou eu. Parece-me dar vossemecê a entender que já ouviu o meu nome?!

--Não me é novo... tartamudeou Francisco Luiz.

--Póde ser que Francisco Luiz de Abreu lhe fallasse alguma vez em mim, quando lhe referiu a historia de Antonio de Sá, porque eu, não sei porque fatal compaixão de D. Maria, alguma parte tive nos amores funestos d'elles, prestando-me a receber da Guarda as cartas que elle escrevia á morgada.

--Naturalmente é de Francisco Luiz que eu conheço o nome de vossemecê, disse o doutor Abreu, olhando muito em fito as feições d'aquelle velho, que tinha sido em Coimbra um dos seus mais affectos contemporaneos.--Deixe-me apertar a mão de um amigo de Francisco Luiz--tornou Abreu, apertando-lh'a com estremecido enthusiasmo.--Se elle o podesse encontrar, senhor Barredo, estou que choraria, estreitando ao coração o homem talvez unico n'este mundo que lhe resta dos que na mocidade o prezaram...

--Certamente--disse José de Barredo enternecido a lagrimas.--Se elle vivesse, seria o meu mais velho amigo... que todos os outros morreram... A opinião que elle e Antonio de Sá tinham do meu natural, sendo elles judeus e eu christão velho, bem se deixa ver no procedimento de D. Maria comigo; pois, escondendo ella o seu nome e nascimento de todos, procurou-me a mim com o proposito de se declarar. E assim o fez.

Logo que me avisaram de estarem alli duas damas, uma das quaes tinha cara de doente, fui recebel-as ao pateo, cuidando que era consulta de medico. Conduzi-as á sala, e ahi D. Maria, com os olhos desfeitos em lagrimas, e muito embaciados, entrou a olhar-me, e a tremer, até que, expedindo um grande ai, se lançou nos meus braços, clamando: «eu sou a sua amiga da infancia, sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo!»

N'este ponto da narrativa, pararam os arreeiros á porta da estalagem de Thomar. Os cavalleiros apearam, subiram ao sobrado da estalagem e pediram almoço.

José de Barredo proseguiu, atando o fio com as palavras de D. Maria.

--Eu sou a sua amiga da infancia!--clamou ella--Sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo! Faça idéa, e continuou Barredo--faça idéa do meu assombro, senhor... senhor... póde dizer-me a sua graça?... Um amigo do meu amigo da mocidade, não deve hesitar em querer a amizade que lhe offereço, e dizer-me o seu nome...

--Direi--balbuciou commovido o outro no mais correcto portuguez:--mas ha de ser com o coração bem perto do teu, José; abraça-me, e ouve-me muito baixinho esta revelação feita á tua alma: Eu sou Francisco Luiz de Abreu.

José de Barredo abriu a bôca até onde lh'o permittiam as articulações das mandibulas. A expressão d'aquelle seu grandissimo espanto foi um som rouco, similhante a um brado de terror. Em seguida, rebentaram-lhe subitas as lagrimas, e então sómente pôde o velho atirar-se todo aos braços do amigo, e exclamar:

--Ó Francisco!... se a inquisição te conhece!

--Tu sómente me conheces em Portugal--disse o doutor Abreu--E não temas por mim, que, se eu cair nas garras do santo officio, pouco mais se doerá do fogo d'elle este corpo empedrenido do que ha trinta e sete annos a minha estatua. Morto estou eu já, meu amigo. Que me faz a mim agonisar sobre as brazas da minha tristeza irremediavel, ou expirar mais depressa nas torturas da polé ou nas do garrote? Como quizerem...

José de Barredo quiz suspender a narrativa do tocante á viuva de Antonio de Sá Mourão para ouvir a dos successos de Francisco Luiz. Não lh'o permittiu a anciedade do amigo. Conformou-se o confidente de D. Maria, e continuou, ordenando aos arrieiros que fossem adiante e os esperassem no Arneiro, onde haviam de jantar, cinco leguas adiante na estrada de Coimbra. Continuou o doutor Barredo:

--O alvoroço que me fez o apparecimento d'aquella senhora alquebrada e de todo desfigurada, dizendo-me que era a formosa morgada de Carrazedo, só t'o posso comparar com aquelle que, ha pouco tu me causaste, Francisco. São dois lances da minha vida que já não podem repetir-se. Não tenho mais ninguem que esperar da minha mocidade. Era ella e tu; por que Antonio de Sá, esse não póde mais voltar...

--Creio que seria o mais ditoso dos teus amigos...--balbuciou Francisco Luiz.

--Oh! não!... pois tu desconheces a doçura d'estas nossas lagrimas? Dois velhos, que se amaram moços, e se encontram nos umbraes de outro mundo para se despedirem! Que é isto, senão o derradeiro calor da vida que ainda nos aquece os corações?... Demos graças ao nosso Deus, que é o mesmo Deus, ou elle se chame Jesus de Nazareth, ou Messias, ou simplesmente creador do céo e da terra. Suppliquemos-lhe que nos deixe já agora acabar estes ultimos dias um á beira do outro... Tu vaes para minha casa, não é verdade, Francisco?

--Irei a tua casa, irei, José; mas... estou a receiar que te esqueças da nossa pobre senhora...--disse Abreu, sorrindo, e enchugando as lagrimas.

--Tens razão; mas deixa-me ser feliz um poucachinho... Temos tanto tempo em que fallar dos outros desgraçados...

--Oh! se tu podesses dizer-me que ella ainda vive...

--Não posso, e pouco tenho que te contar antes da morte d'ella... Ahi vae o mais que sei. D. Maria perguntou-me se devia considerar perdido o seu patrimonio; e eu respondi lhe que sim; e pedi-lhe que nem fallasse em tal pretenção, se a trazia, porque os individuos possuidores d'elle seriam capazes de a denunciar ao santo officio, e de lançarem rezina aos páos da fogueira com as proprias mãos. Então me relatou ella a desgraçada vida que tivera por espaço de quinze annos, captiva de corsarios e mais o marido e filhinha: é uma historia longa, que eu te hei de mostrar escripta, em minha casa. Não t'a sei dizer de memoria porque ha quatorze annos que fechei e mais não vi os taes papeis, e já era minha tenção queimal-os para que por elles se não venha a descobrir quem é D. Josepha, a filha do judeu Antonio de Sá. Esteve D. Maria alguns poucos mezes em minha casa, soffrendo, sem treguas, molestia incuravel: estava ethica. Lembrou-se de ir consultar medicos famosos: bem sabia eu a inutilidade do passo; mas deixei-a ir ao Porto, a consultar um famoso medico chamado o _Olho de Vidro_.

--Braz Luiz de Abreu--atalhou Francisco Luiz.

--Esse mesmo, cujo nome tantas vezes me fez lembrar o teu, que cheguei a perguntar se elle seria teu parente; mas logo me disseram que não, e, para prova de que não era, bastou-me saber que o Olho de Vidro era familiar do santo officio.

Francisco Luiz interrompeu a narração para referir a correspondencia que tivera com o tal medico portuense, imaginando que elle, por um acaso maravilhoso, poderia ser o filho de Antonio de Sá, uma creança que...

--Muita gente--accudiu José de Barredo--e eu mesmo pensei que fosse teu filho...

--E admiro que não soubesses que era filho de Antonio de Sá!

--Não sabia; porque, desde a fuga da morgada, nunca mais tive novas d'algum d'elles, e bem sei eu por que: fiz repugnancia ao desvariado procedimento d'ella; cheguei a fazer-lhe ameaças de a denunciar ao pae, a ver se a dissuadia. Tu mesmo, se bem me lembro, ignoravas onde estivessem alapados, e cuidavas comigo que se tinham embarcado para a India. Depois desappareceste de Coimbra, e quando voltaste nada me disseste, nem eu t'o levo a mal, porque sei quão perigosa era a tua situação, e a dos paes de Antonio de Sá que o santo officio prendera na Guarda. Sabia eu que uma mulher creava em Coimbra uma creancinha que tu algumas vezes visitavas. Suppuz, como quasi toda a gente, que era teu filho... Morreu esse menino?

--Não sei. Presumo que sim. Ninguem me pôde informar, e bastas vezes pedi novas d'elle. Acaso te lembras da morte de Heitor Dias da Paz, de Villa Flor?

--Lembro, foi em 1707.

--Nunca ouviste dizer que em poder d'esse hebreu estivesse um moço, que então devia ter entre quatorze e quinze annos?

--Não ouvi dizer nada.

--Pois era elle, se existisse. Vamos ao fim da historia de D. Maria. Valeu-lhe alguma coisa a medicina do tal Olho de Vidro?

--Nada. Passados trinta e tantos dias, chegou a Bragança a nova de que ella tinha morrido, com o nome de D. Antonia da Piedade, e que sua filha D. Josepha tinha casado com o medico Braz Luiz de Abreu. Aqui tens o que sei. Haverá cinco annos que eu fui ao Porto e procurei o Olho de Vidro, no intento de ver D. Josepha. Disseram-me que elle, em resultado de inimigos seus collegas, que assanhára com a publicação d'um livro chamado _Portugal Medico_, tivera de afastar-se do Porto, e fôra estabelecer-se em Aveiro, onde tinha comprado muitos bens de raiz e vivia abastadamente. As minhas occupações não me deixaram ir a Aveiro, e já agora morrerei sem ver D. Josepha, que deve estar perto dos quarenta, ou quem sabe se já estará na eternidade!

--Irás agora a Aveiro comigo--disse Francisco Luiz.--Quero vel-a, sem que ella saiba que eu fui o maior amigo de seu pae. É preciso temer-lhe o marido, visto que elle tanta familiaridade tem com o santo officio. Tu a procurarás, e darás azo a que eu a veja e lhe falle como desconhecido. Uma boa lembrança... Irei consultar-lhe o marido, fingindo de doente estrangeiro, a quem chegou a nomeada de tão abalisado medico. Contar-lhe-hei muitissimos padecimentos que elle ha de classificar de muitissimas maneiras, e assim estarei mais ao alcance de ouvir D. Josepha dizer-me alguma coisa de seu pae. Ora, dize-me tu: nunca, D. Maria te disse que deixára um filho em Portugal, quando fugiu para Hespanha?

--Disse que esse menino o considerava morto: uma só vez me fallou d'elle; mas as lagrimas eram tantas que eu me esquivei a pedir-lhe pormenores da creança, de modo que nem soube que o menino ficára em tua companhia, nem depois passára á dos Moraes de Villa Flor. Eu não te disse ainda que D. Maria, ás temporadas, parecia cair em modorra e paralysia de entendimento. Esquecia-se e quedava-se n'umas cogitações taciturnas; e, se lhe tiravam muito pela falla, respondia disparates. De sorte que eu, a respeito do filho, que ella dizia ter deixado em Portugal, não cheguei a fazer perfeito juizo, nem a mesma filha estava convencida de que elle tivesse existido: a prova era que ella ouvia com certa estranheza as revelações confusas que a mãe me fazia sobre as desgraças do seu longo desterro e captiveiro. Póde ser que tu, Francisco, se te deres a conhecer a D. Josepha, venhas a obter muitos esclarecimentos, que eu mal posso dar-te porque sinto enfraquecida a memoria, e preciso espertal-a com a leitura dos meus apontamentos. Quem melhor te poderá referir a vida de Antonio de Sá, a meu ver, é o marido da filha; mas quererá elle--o familiar do santo officio e author da vida de Santo Antonio--que tu saibas a procedencia hebraica de sua mulher, embora possa ufanar-se de serem netos de Fernão Cabral os seus filhos? Não terá elle medo de que o santo officio lhe sáia ainda a pedir contas á mulher dos delictos do pae e da mãe?

--Isso é claro--observou Abreu.--Nem eu lh'o perguntaria, nem elle me contaria coisa alguma allusiva á filha de Antonio de Sá. De mais a mais, já eu te disse que resposta me elle deu para Amsterdão. Devemos ir prevenidos contra o genio irritavel do homem; é preciso muitissimo cuidado, que não vamos indiscretamente perguntar-lhe de quem é filho.

No dia seguinte ao meio dia, os dois velhos chegaram a Coimbra, e andaram procurando as differentes casas em que tinham morado.

Ao segundo dia de repouso, cuidaram em jornadear para Aveiro. Pouco antes da partida, chegou a Coimbra um proprio enviado da casa de José de Barredo; noticiando-lhe que sua mulher estava em perigo de vida. Desfez-se o plano de irem juntos a Aveiro, e foram juntos para Bragança; Francisco Luiz de Abreu quiz acompanhar o velho amigo, no proposito de lhe desacerbar as lagrimas da viuvez, se a desgraça fosse inevitavel.

Era. Francisco Luiz assistiu aos funeraes da esposa de José de Barredo. E quando o velho parecia conformar e esquecer-se entre as caricias de muitos filhos, despediu-se por alguns dias, e saiu sósinho de Bragança em direitura a Aveiro.

XII

Historia de Antonio de Sá

Recebeu Braz Luiz de Abreu aviso para ir ver um hespanhol que pousara enfermo na estalagem.

Francisco Luiz queixou-se de varias molestias, ouviu o parecer do medico, pagou-lhe generosamente e pediu-lhe que o visitasse todos os dias.

Dos remedios receitados não se aproveitou, porque os achaques eram phantasticos, e bem sabia o doutor Abreu como era facil enganar outro doutor Abreu.

No dia seguinte, o Olho de Vidro encontrou melhorado o seu doente, e sentiu-se ufano do acerto com que cortára pela raiz uma doença, com a qual se tinham enganado os principaes medicos de Hespanha, segundo a confissão do doente.

Já o doutor Braz queria espacejar as visitas: o hespanhol, porém, instava, pagando-as a brio, que não lhe faltasse diariamente com ellas.

Estava sendo celebrado em Aveiro este triumpho recente do Olho de Vidro.

Já o convalescente se julgava restaurado, e o doutor como tal o déra; o forasteiro, porém, affeiçoado á terra onde se recobrara, determinou passar n'ella a primavera de 1732, e voltar nutrido a Castella, de modo que os medicos madrilenses se comessem de inveja dos seus collegas portuguezes.

O doutor Braz, como visse no seu enfermo D. José Aristizaval (assim era conhecido em Aveiro) excellentes qualidades, contando n'estas a bizarria indicativa de riqueza, convidou-o a servir-se de sua casa e da convivencia de sua esposa e filhos, os quaes, dizia Braz Luiz, são tantos que bastam a formar uma assembléa em Aveiro ou saráo d'aldeia, que monta o mesmo.

Agradeceu e aceitou o convidado o offerecimento; e, logo á primeira visita, brindou a esposa do seu medico e as cinco meninas, formosuras muito de se verem, cada uma com sua joia de preço. Reparou logo e de relance em D. Josepha, e recordou uma por uma as feições de D. Maria Cabral.

Ficaram as meninas contentissimas dos presentes, que eram braceletes de oiro, mandadas comprar ao Porto, com a designio já posto no destino que tiveram. Entretido n'estas coisas, mistura de puerilidade e bons sentimentos, o espirito de Francisco Luiz ía cobrando alento e certa energia. Grande parte n'esta sua insolita actividade era por certo a esperança de saber pelo miudo a vida tragica do seu amigo Antonio de Sá.

Seguiram-se as visitas e foi-se apertando a intimidade. As meninas e os rapazes folgavam muito de ouvir o velho D. José contar historias curiosas das suas navegações. Um dia, veio ao ponto uma batalha de corsarios com uma náo hollandeza, em que elle viajava na costa de S. Domingos.

--De S. Domingos!?--exclamou D. Josepha.--Já esteve n'esses sitios vossemecê?

--Avistei-os--disse o hospede.

E inventou uma rija peleja entre hollandezes e piratas, descripção temerosa que tinha os ouvintes espavorecidos.

Terminou o saráo d'aquella noite; e, na seguinte, Braz Luiz de Abreu, cada vez mais entrado de affecto ao hespanhol, lhe disse:

--D. José Aristizaval, hoje sou eu o narrador de desventuras de navegantes. A historia que eu vou referir só a sabe em Portugal minha mulher e eu: de hoje ávante ficam-na sabendo o meu honrado hospede, que a não ha de repetir a portuguezes, e os meus filhos, que por interesse seu, hão de calal-a.

--Honrado sou eu por benevolencia do doutor--se vossemecê me considera egual com seus filhos no merecimento de entrar no segredo de seus paes, respondeu Francisco Luiz.

--É segredo de tanto porte--accrescentou o medico, abaixando a voz--que não sei d'outro em minha vida com que possa mostrar-lhe a confiança que me merece, senhor D. José.

E, passados alguns segundos, Braz Luiz de Abreu, silenciosos profundamente os ouvintes, principiou assim:

--Minha sogra era filha de um dos primeiros fidalgos de Traz-os-Montes. O solar dos Cabraes de Carrazedo é um dos mais antigos de Portugal. Meu sogro era hebreu, e chamava-se Antonio de Sá Mourão, natural da Guarda.

Fugiram de Portugal com admiravel fortuna, e casaram-se segundo o ritual hebraico, presumo eu. Meu sogro, ao tempo da fuga, estudava medicina, e tomou gráo em uma das universidades estrangeiras. Esteve alguns annos na Europa; e, como o dominava a paixão de ser rico, aceitou partido muito vantajoso que os francezes lhe offereciam no Canadá, e embarcou em Marselha, quando minha mulher era creancinha.

Na altura da costa de S. Domingos, a náo em que elle se embarcára perdeu o rumo, e foi levada contra a costa, por não ter tempo de fazer-se ao mar quando a tormenta se levantou. Antes que o navio se despedaçasse, alguns passageiros aventuraram-se n'uma lancha a ganharem a praia por entre as fauces da morte. Com os aventureiros ia meu sogro, e a esposa com a filhinha nos braços, dispostos a descerem ao abysmo abraçados.

Já perto de terra, onde levavam postos os olhos, avistaram dois navios de pequeno lote, e chusmas de tripulantes vestidos de trajos extravagantes. Um conhecedor d'aquelles mares reparou nos homens da patria, que se moviam vertiginosamente, e exclamou:

--São os demonios do mar! São flibusteiros![30] Vejam lá o que querem: morrer no mar ou no captiveiro d'aquellas bestas-feras?

Ninguem optou por morrer no mar. Os passageiros da lancha, bebendo a morte a cada instante, conclamaram que antes queriam o captiveiro do que a morte horrivel de afogados.

Antes de chegarmos a terra, ouviu-se uma grande celeuma do mar a dentro. Olhámos todos para a náo, e vimol-a sossobrar, e uma montanha de vagas abater-se sobre ella. Soltámos um grito unisono de consternação! Alguns dos aventureiros gritavam por esposas, por paes e filhos!... Que situação, senhor D. José! D'um lado, aquelle naufragio horroroso, do outro os flibusteiros, que esperavam anciosos a prêsa, que se lhe ia entregar aos ferros. Assim que a lancha bateu em terra, os bandidos rodearam a prêsa, e mal ouviram não sei que palavras ditas por meu sogro a sua mulher, bradaram todos: «Cá temos um cão de hespanhol!» E a um tempo se lançaram todos a elle, como se entre si disputassem com especial odio a posse d'aquella victima distincta das outras. Como se explicava o particular rancor que os flibusteiros tinham aos hespanhoes?

--Se eu não receasse interromper a sua interessante historia--disse Francisco Luiz--lhe daria a razão d'esse odio, se é que sua esposa não quer explicar-lh'o melhor do que eu sei, por m'o haverem contado e não por experiencia.

--Minha mulher, disse Abreu, ignora-o, porque muitos annos viveu longe do trato de tal gente, e não sabe explicar-m'o.

--Em poucas palavras o farei--tornou o hospede.--Os pontos essenciaes da ilha e costa de S. Domingos pertenceram aos hespanhoes. Um dia, chegaram á costa septentrional d'aquellas possessões algumas galeotas de aventureiros francezes, mesclados com malfeitores foragidos de todas as nações, homens sem patria, escapados do cadafalso, feras tremendas, que precisavam embriagar-se de sangue para gosarem algum prazer n'este mundo. A estas escorias sociaes congregaram-se outras da mesma indole saidas de Guadelupe, de Granada e da Martinica. N'aquellas vastas florestas acharam que farte sustento, na abundancia de manadas de toiros bravos, de javalis, e vaccas mansas, que os hespanhoes por lá deixaram medrar e multiplicar. A riqueza de cada um de estes bandidos compunha-se de uma boa matilha de rafeiros, d'uma enorme espingarda, duas camisas, uma jaleca, um chapéo de feltro, um calção, e uma grossa correia á cinta com uma espada curta e tres facas de matto pendentes. As casas d'elles, durante as sortidas á rapina, eram barracas de fina lona, com a qual se defendiam das ferroadas dos moscardos e das geadas homicidas. Viviam aos dois, antes que a França lhes mandasse mulheres, e, por morte de um, era herdeiro o outro. Raras vezes se desavinham, e quando se desafiavam matavam-se a tiro de espingarda. Se o morto não recebesse os pelouros pela frente, o assassino era logo degolado como traiçoeiro.

O principal commercio d'elles era carnes seccas e pelles, que iam vender ás enseadas da costa, mediante uns assalariados, que tratavam entre elles e os compradores, na esperança de voltarem ricos da America, onde se lhes ia a vida em durissimo captiveiro.

Quando os hespanhoes da ilha de S. Domingos deram tento dos salteadores nas visinhanças das ilhas, tiraram-se da lethargia de suas riquezas, pediram tropas ao rei de Hespanha e fizeram guerra implacavel aos flibusteiros, matando-lhes muitos dos mais audazes. D'este começo de exterminio se gerou o odio dos bandidos á Hespanha, e mais ainda por causa do golpe mortal que soffreram, quando as tropas entraram ás mattas, e mataram os rebanhos mansos e bravos, que o mesmo foi seccar as fontes de subsistencia d'aquellas hordas. Eis aqui, a meu ver, a origem do inquebrantavel rancor dos chamados _demonios do mar_. Agora, vamos á historia do senhor Antonio de Sá, meu sogro.

--Meu sogro, minha mulher e filho--continuou Braz de Abreu--foram remettidos á Martinica n'uma galé, que vogava com mais de cem homens. O capitão dos flibusteiros residia alli, como governador, e chamava-se Duparquet...

--Devia ser filho--atalhou Francisco Luiz--de um francez tambem chamado Duparquet, levado ás honras de governador em 1637 por Luiz XIII de França, a quem convinha aliançar-se com _tão honrados_ vassallos.