Chapter 6
«Enfada-se de ser soldado na Italia um romano; passa a Portugal, e constitue-se um famoso espagytico florentino. Foge da sua religião feito apostata um francez; aporta em Lisboa, e inculca-se por um insigne medico portuguez. Quebra em Hollanda um mercador; busca o nosso reino, e vende-se por um peritissimo physico hamburguez. E até entre os nossos o que é alveitar no Minho passa a ser medico no Algarve; o que é cirurgião na Extremadura vae buscar o gráo de doutor ao Alemtejo; e de boticario da Beira, se converte em Galeno de Traz-os-Montes; e d'esta sorte espalhados e desconhecidos, morrendo por viver da sua necessidade, vivem de matar com a sua medicina, e atormentando a todos sem piedade, ferem sem pena e matam sem castigo...
«Desembarca em Lisboa, no Porto, ou em outra qualquer barra d'este reino um medico estrangeiro, não disse bem, um estrangeiro metido a medico; antes que ponha o pé em terra, já o bom do homem tem mandado encher as esquinas de editaes em que publica remedios infalliveis para todos os achaques... Entra-se um d'estes por casa de um illustre, de um nobre, de um ecclesiastico; mas nunca de um pobre; e se ha achaque na casa, começa logo o parabolano a desenrolar promettimentos, e que foi fortuna chegar elle a tempo em que podesse emendar o que os medicos tinham errado; porque a queixa só elle a conhecia, por ter já feito, similhante cura na pessoa do delfim de França, e vencido o mesmo achaque no principe Eugenio, ou em outro qualquer personagem d'este calibre; por que similhantes physicos nunca se fazem medicos ahi de qualquer tudesco de má morte; mas as suas experiencias sempre tem sido observadas, ou nos palacios dos principes, ou no serralho do grão turco.
«Começa um d'estes alchimistas a prometter e o pobre doente a pasmar. Se o achaque é uma ethica marasmada, diz-lhe: senhor, eu faço uma agua tão portentosa e de tão infallivel virtude, para esta sua queixa, que não só é capaz de restauricar ethicos, mas de resuscitar mortos. O cardeal de Rouen em Paris estava já mais magro do que um pisco em janeiro; tomou a mesma agua, e logo se poz mais gordo que um taralhão por agosto... É verdade que lhe custou do seu porque este remedio para se compôr leva duzentas moedas de ingredientes. Se vossemecê quer que eu lh'o faça venham as moedas; e, se não se achar bom, não me dará nada pela cura. A isto responde o doente que é muito dinheiro--Bom remedio (torna o estrangeiro) faremos por ora só metade da cura, e não vem vossemecê a gastar mais do que cem moedas. Ainda é muito? Pois venham cincoenta. Assim vae duvidando um e outro, e abatendo, até que o alchimista para não ir de todo em todo sem dinheiro, para comprar as drogas se resolve a fazer a cura por duas moedas; mas pede segredo ao doente, porque não quer fazer o seu remedio mal reputado. Vae para casa; põe a ferver dois almudes d'agua da fonte com um selamin de cevada, deita-lhe umas poucas de flores de papoulas, para tomar outra côr, e um arratel de assucar mascavado; compõe uma agua adocicada côr de fogo; enche quatro garrafões bem tapados com cortiça e lacre, e pilha duas moedas.»
Prosegue Braz Luiz em muitas paginas em prosa e verso a critica zombeteira dos medicos mesinheiros, dos pseudo-medicos, dos barbeiros, das benzedeiras.
Concluo o extracto com uma amostra da prosa, e outra da poesia. Qualquer das coisas denota o entranhado fervor com que o medico portuense saía de frente contra os charlatães em favor da humanidade.
«Oh!--exclama elle--quantos e quantos medicos, lobos na condição, estou eu vendo espalhados pelos reicos da nossa monarchia, que não sabem mais que roubar e matar!... São estes ladrões e matadores publicos todos aquelles que sem o serem se fingem medicos. Oh! miseravel e desgraçada medicina! Como vejo trocados hoje os teus predicados nobilissimos! Já não és arte de curar, és atalho de morrer; já não emendas os vicios do corpo, extingues as virtudes da alma; já não és triumpho das queixas, és flagello das vidas; já não és sciencia, és ignorancia; já não és arte preclarissima, és claro e clarissimo latrocinio. Os teus methodos de curar são modos de viver; os teus aphorismos são gyrias; os teus textos são roubos; os teus remedios são mortes, e os teus brazões são sepulturas. Mas como não ha de ser assim, se são homens ignorantes e perdidos os teus professores? Fingem-se medicos os idiotas, os vagabundos, os judeus, os barbeiros, os soldados, os feiticeiros, os benzedores...»
É christãmente louvavel o affoutamento e desprezo com que elle entala os judeus entre os vagabundos e barbeiros; faz, porém, tristeza ver n'isto a ingratidão com que elle malsina a raça d'aquelle Heitor Dias da Paz, que vinte annos antes lhe estabelecêra a pensão no real collegio de S. Paulo. Entristece ainda mais que elle se não condôa do pae de sua mulher, do avô de seus sete filhos, o hebreu desterrado, que, no dizer de D. Josepha, expirara exclamando:
«Dêem-me um pouquinho de ar da minha terra, que eu não morrerei ainda!»
Desculpe-se o ingrato aos israelitas, e lembre-se a gente do muito que elle devia á inquisição, que o fizera seu familiar, sem lhe averiguar a raça, até á quarta geração, condicional indispensavel na investidura d'aquella honra, honra n'este mundo, e segurança na conquista do outro, vista a somma de indulgencias com que os papas alimpavam a consciencia d'estes esbirros do santo officio.
Desculpe-se-lhe ainda a feia culpa, em desconto da malquerença e odio com que os seus collegas leram o seguinte soneto:
«Um, dois, trez, vinte, trinta, oitenta, cem, Mil, dez mil, vinte mil, seiscentos mil, Milhares de milhares (São frei Gil!) Quem poderá contar quantos cá vem?
«Tanta gente sem conhecer ninguem![24] Más caras! ruins aspectos! fórma vil! Nunca elles são de genio mais subtil, Se a cara testemunha o que ellas tem.
«Ah! sim; já sei; uns mata-sanos são D'aquelles asneiroens que por hi ha, Que não sabem escolher o mal do bom.
«Ah! quantos burros ha! (mais de um milhão?) Que sem saberem lêr o _b a-Bá_, Curam e matam por hi sem tom nem som?»
Agora, vamos, por algum tempo, deixar Braz Luiz de Abreu com as suas prosas, com os seus poemas, e com o locupletar-se, por justo effeito da sua grande nomeada. Não cuidem que elle, á similhança dos poetas, de seu natural perdularios e desinteresseiros, tem em conta de pouco a paga das suas visitas. No tocante a estipendio de medicos, vejam como elle se declara: «Não faltam medicos na monarchia medica-lusitana, que por este modo vivam apostolicamente. Em muitas cidades, villas notaveis e povoações grandes d'este reino, é para os seus medicos muito pouco o sustento e immenso o trabalho. Na arithmetica medicinal d'esta monarchia, multiplicam-se as visitas, mas nunca se accrescentam as pagas: poucas vezes os medicos cuidam em sommar, porque nunca os doentes chegam a repartir. Trabalhar todos os dias, levantar-se a qualquer hora da noite, subir e descer escadas, ouvir queixas, soffrer impertinencias, examinar cloacas, receitar remedios, e revolver livros, isto sim; que para isso é burro: receber pagas, cobrar partidos, recolher avenças, e embolçar estipendios, isso não, que por isso é asno.»
Engenhoso modo este de avisar os seus doentes remissos na paga, não por attenciosas cartas no fim do anno, mas por tres paginas de um livro _in folio_, das quaes trasladei algumas linhas, em obsequio aos medicos do tempo d'agora, e censura aos doentes que não pagam.
X
Os expatriados
Trinta e quatro annos antes, se o leitor se lembra, tinham fugido para a India, em uma náo mercantil, o doutor Francisco Luiz de Abreu e sua mulher, disfarçados em mercadores de drogas indostanicas.
Assim que aportaram a Goa, antes que os quadrilheiros da inquisição os farejassem com aquelle olfacto d'elles, subtilissimo em esquadrinhar sangue judaico, apressaram-se em fugir do territorio portuguez. No primeiro navio britannico aproado á costa do Malabar, conseguiram os incognitos embarcar-se, e saltaram em Cochim, na cidade querida do grande Affonso de Albuquerque, qual, desde 1663, pertencia aos hollandezes. Estavam salvos.
O doutor Abreu começou exercitando a medicina e o commercio, e auferindo mais ganancia da camphora, do beijoim e do chumbo, que da sciencia das drogas salutiferas. Corridos dois annos, como os bens de fortuna lhe sobrassem, visto que já de Portugal saira com sobejos para viver meãmente, passou á Europa e estabeleceu-se em Hollanda.
Aqui, recebido nos braços de centenares de portuguezes, voltou á profissão de medico, e poz os seus cabedaes a logro, com prosperos resultados. Hollanda era o paraizo terreal dos perseguidos hebreus. «Em parte nenhuma do mundo,--escrevia Daniel Lavi de Barros--gosam maior segurança que em Amsterdão, tanto pela liberdade de consciencia nas sete provincias unidas, como pela bondade de seus engenhosos habitantes.»[25]
Hebreus portuguezes e hespanhoes tinham alli sua synagoga, independente dos israelitas de procedencia allemã. Foi a primeira edificada em Amsterdão, consoante o affirma Antonio Alvares Soares na sua _Sylva_:
_La primera Synagoga Amstelodama_ _Fundada fué del grand Jacob Tirado_ _Que por su nombre Bet Jahacob la llama,_ _I por el pueblo de Jacob sagrado._
Tanto crescera a opulencia dos hebreus da peninsula hispanica, desde que a lerda piedade dos reis os expulsaram que, em menos de quatro annos, levantaram e consagraram em 1673, o mais soberbo edificio que ainda hoje sobreleva a todos de Amsterdão. No crer dos hebreus, aquelle templo era o milagre que Deus lhes havia promettido por Ezequiel: «Porque os puz longe entre as gentes, e porque os lancei dispersos por varios paizes, eu serei para elles um pequeno sanctuario dos paizes para onde forem.»[26]
Francisco Luiz de Abreu, assim que se viu de assento e pouco menos de esquecido da patria, logo que a occasião se lhe amoldou, sem risco do seu amigo Moraes de Villa Flor, escreveu-lhe, pedindo-lhe a ida do filho de Antonio de Sá Mourão para Hollanda. O pae de Heitor Dias da Paz, respondendo á carta, pedia-lhe com lagrimas que lhe não tirasse o pequeno, porque, além de magoar penetrantemente seu filho, que o estremecia como irmão, podia ser que lhe tolhesse o futuro, ou, com a ida, suggerisse á inquisição suspeitas e aparelhasse desgraças para os que lhe estavam debaixo da vista fulminante.
Relatava-lhe a perseguição que os Oliveiras de Ourem estavam soffrendo, desde a fuga na náo da carreira da India, e o certo perigo que corria a creança, se levissimas suspeitas o indigitassem como filho de Francisco de Abreu.
O medico desvaneceu as esperanças da sua mulher, que era a mais fervorosa em pedir o seu filho adoptivo. D'esta correspondencia nem palavra Francisco de Moraes revelava á creança, por medo que a indiscrição propria dos annos acareasse desconfianças da espionagem, que sem treguas espreitava os actos dos judeus abastados. Moraes pedia ao seu amigo que lhe escrevesse pouco e com muita segurança, para que as suas cartas não tivessem destino egual ás de Pedro Lopes, residente em Damasco.
Senhor do seu tempo e liberdade, o doutor Francisco Luiz foi a França inquirir de novo informações de Antonio de Sá. Nada adiantou ás colhidas pelo joalheiro de Villa Flor. O navio, que navegava para o Canadá, parecia que as ondas o tinham engulido e pulverisado nas profundezas dos seus abysmos. Nem a mais ligeira suspeita de que existisse um folego vivo d'aquella náo, a não ser que as duas galeotas de flibusteiros, então ancoradas na costa de S. Domingos, podessem dar noticia do naufragio.
Recolheu o doutor a Amsterdão com as esperanças de todo perdidas.
Seis annos decorridos, chegou á familia dos Moraes, residente em Hollanda, a nova de estar nos carceres da inquisição de Lisboa Heitor Dias da Paz. Foi grande luto e choro nas familias portuguezas de Amsterdão, entre as quaes tinha sido creado e educado o mocinho. Abriram-se as synagogas, e prostraram-se os de Israel, pedindo ao seu Deus que lhes redimisse da morte affrontosa do garrote e do fogo o mancebo, cuja genealogia promanava já da tribu de Levi. Bem sabiam elles que Heitor Dias da Paz havia de morrer profitente da lei de Moysés, e sómente por milagre do Senhor poderia salvar-se de morrer queimado.
Quando chegou a Hollanda a noticia do suicidio de Francisco Moraes Taveira e da imperterrita morte de seu filho, estes nomes gloriosos nas dypticas da nação fiel foram inscriptos no martyrologio hebreu. Assim o tinha sido o do medico Silva, que, apoz treze annos de carcere, fôra queimado em Lima, no anno de 1693, e, ao tempo que o fogo o devorava, um pegão de vento esboroou o tribunal onde elle havia sido condemnado.[27] Assim fôra santificado um judeu portuguez, o qual, apenas a fumarada da fogueira lhe levou aos pulmões as primeiras agonias, desataram-se-lhe os ferros, e foi arrebatado por um anjo, a tempo que os algozes exclamavam que o diabo o transportava em corpo e alma. Deus, para salvar o seu servo das angustias do supplicio horrendo, o arrancara d'entre as chammas, segundo o asseverado nas actas dos martyres. Não menos illustres em santidade eram para os hebreus o religioso da Assenção, queimado em Lisboa no anno de 1603, e o medico Sobremont, suppliciado em Lima, depois de vinte e dois annos de masmorra. Na _Sylva_, de Antonio Alvares, vem commemorada assim a crucificada vida d'aquelle martyr:
_Veinte y dos annos in prison penosa_ _Por defender de Dios la verdad pura,_ _Termino arrastra la cadena dura_ _Que le da el ser la sacra ley su esposa._
Heitor Dias da Paz foi comparado na coragem da morte ao hespanhol Lopo de Vea, filho de paes christãos velhos, o qual se fizera judeu, e se circumcidára no carcere. A constancia de sua morte obrigou o inquisidor geral a dizer que _nunca vira tão ardente desejo de morrer, nem tamanha confiança de salvação, nem tão completa firmesa, como a d'aquelle moço na flor da edade_.[28]
O medico Abreu, para não arriscar a segurança dos seus parentes e amigos de Portugal, absteve-se de pedir informações de Braz, nos primeiros annos seguidos á morte dos judeus de Villa Flor. Corria o anno de 1710 quando elle se animou a indagar com a maxima cautela. Algumas pessoas foram disfarçadas a Coimbra, averiguaram com todo o resguardo, e nenhum esclarecimento alcançaram. Ninguem dava novas nem rastreava o destino do moço. Eram obvias as razões d'esta ignorancia: Braz Luiz nunca em Coimbra estivera na companhia de Heitor Dias da Paz, nem o collegial de S. Paulo ousava dizel-o, admoestado pelos frades, os quaes, por sua parte, movidos de compaixão do estudantinho, cuidavam em salval-o da nota infame de amizade com taes protectores.
O medico Francisco Luiz, se não esqueceu o filho de Antonio de Sá, desistiu de perguntar, como diligencia inutil, a paragem d'elle. Facilmente acreditaram que tivesse morrido, ou caísse em obscura indigencia, depois do auto de fé de 1706.
Em 1718 appareceu em Amsterdão a obra de Braz Luiz d'Abreu, publicada em 1717, com o titulo: «Aguias filhas do sol que voam sobre a lua.» O nome do author produziu estranho reparo em Francisco Luiz d'Abreu. _Braz_ era o nome da creancinha, que elle entregára a Francisco de Moraes; o sobrenome e o appellido eram os d'elle.
--Quem sabe!--dizia elle á esposa--Cuidaria o filho de Antonio de Sá que era nosso filho?! Dir-lh'o-hia alguem, depois da morte de Heitor Dias da Paz? Por que ha de ter este homem o nome que lhe deixámos, e o appellido que eu tenho?...
--Pergunta a alguem de Portugal onde reside o author d'esse livro--lembrou Francisca.
De Portugal disseram ao israelita que Braz Luiz de Abreu era um medico residente no Porto.
Sem medeação de alguem, Francisco Luiz escreveu directamente ao medico do Porto estas palavras: «Pessoa interessada em querer saber quaes foram ou são os paes de vossemecê, pede-lhe que os indique, se os conheceu. Responda para Amsterdão.»
E deu o pseudonimo _Elias Sarmento_, a quem devia ser dirigida a resposta.
Braz Luiz de Abreu entendeu que a pergunta era um escarneo a elle desgraçado, que não tinha conhecido seus paes, e que, na maledicencia de inimigos, passava como exposto na roda de Villa Flor. Affrontado por tão certeira azagaia á sua immensa dôr e pejo de não poder dizer cujo filho era, respondeu n'estes termos: «Braz Luiz de Abreu responderia com um tagante ao judeu ou burro que lhe faz a pergunta, se não tivesse de ir longe procural-o a chatinar no templo, como Jesus Christo nosso Senhor fez aos avós de quem se esconde na terra dos impios, dos hereges, e dos crucificadores do Messias para o insultar.» N'um homem, chamado _Elias_, a allusão insultante devia de acertar infallivelmente.
Francisco Luiz de Abreu, lida a resposta, riu-se da sua illusão e da catholica ira do medico portuense. N'esse mesmo correio, foi-lhe de Portugal uma carta do amigo a quem elle perguntára onde residia o medico. A carta dava sobre o sujeito os seguintes esclarecimentos: Tinha sido creado com frades, á custa d'elles se licenciára, e era familiar do santo officio, e denominado o _Olho de Vidro_, porque, tendo perdido um olho em desordem, o substituira por outro artificial. Accrescentava mais que, na opinião de algumas pessoas, o tal Olho de Vidro era filho de um frade, se não fosse filho de tres frades.
Á vista d'isto e da resposta do author das _Aguias_, o hebreu acreditou evidentemente que este Braz não tinha de commum com o outro senão o nome.
XI
Treze annos depois
Francisca de Oliveira morreu no anno de 1730 em Italia, para onde seu marido se transferira, por 1724, a procurar-lhe ares restauradores da saude que ella a pouco e pouco perdêra em Amsterdão.
O medico, perdido o arrimo da alma aos cincoenta e cinco annos de edade, sentiu gravame e tedio da vida. Os bens da fortuna eram muitos; mas o veneno da saudade e da solidão, por ser bebido em taça de oiro, não lhe era menos lethal. Se elle fosse pobre, trabalharia, quebraria na canceira da lida suada para ganhar pão alguns espinhos da sua corôa de orfão de todos os affectos puros e sagrados, na edade, em que sómente esposa e filhos podem adoçar o amargo da velhice. Não tinha ninguem lá fóra. E em Portugal se tinha parentes nem os conhecia, nem amava, nem já esperava, nem queria ser estimado d'elles.
Vagamundeou de reino em reino, repartindo alguma parte dos muitos haveres por hebreus necessitados, e reservando para si a quantia que computou necessaria para passadio abundante de quinze annos.
Passados dois, estanceava por Marselha, quando um navio mercante estava carregado com destino a um porto de Hespanha. Quasi sem consultar os perigos da sua temeridade, como quem nenhuns vinculos já tinha que desprender dolorosamente das coisas boas d'este mundo, embarcou como hollandez, com passaporte que o abonava mercador de Amsterdão, e desembarcou na Corunha. D'aqui passou a Portugal, em navio hespanhol, e viveu alguns dias em Lisboa, separado de toda a convivencia e encontrando a miudo pessoas de Hollanda, que deviam conhecel-o, se elle em tres annos não tivesse encanecido, e oito annos antes se não retirasse d'entre os portuguezes para os pontos mais solitarios e pittorescos da Italia.
Foi o doutor a Ourem, com ares de forasteiro que vê pelo miudo as mais e menos notaveis terras dos paizes. A casa onde elle nascêra havia sido vendida pela corôa, para a qual tinha sido confiscada, depois que o dono fôra queimado em estatua. Estava sendo estalagem. Pernoitou n'ella; dormiu no quarto de sua mãe... não dormiu: chorou por todo o correr da noite vagarosa. Antes que a primeira luz do seguinte dia apontasse, saiu do quarto onde nascêra e morrêra sua mãe, viu de passagem o quarto que fôra o seu, e d'onde agora saía outro viageiro madrugador.
D'aqui se foi caminho de Coimbra, abafando os soluços para que o arrieiro e outro viajante que cavalgava e o seguia silencioso lh'os não ouvissem.
Andado um quarto de legua, perguntou-lhe o companheiro:
--Vae para Coimbra, camarada?
Francisco Luiz, fingindo uma pronuncia de hollandez que sabe algum pouco de hespanhol, disse que sim, ia ver Coimbra, porque andava examinando os monumentos celebres de Portugal.
O collocutor era homem já de annos adiantados: orçaria tambem por perto dos sessenta.
--Aquillo já foi Coimbra! disse elle. Quando eu por alli andei estudando, grandes homens liam na universidade; hoje, nem já parece Coimbra, nem cidade das letras. A vossemecê, que é estrangeiro, posso-lh'o dizer: os jesuitas deram cabo dos bons estudos.
--Ha quantos annos andou vossemecê estudando na universidade?
--Ha bons quarenta. Matriculei-me no primeiro anno de medicina em 1693.
--Noventa e tres?--perguntou Abreu com reparavel interesse; mas o ar de espanto passou, na mente do outro, como pergunta admirativa do muito longe que já ia a vida estudiosa do interrogado.
--É verdade. Ha que tempos isto vae!... Dos meus condiscipulos, que eu saiba, já não vive nenhum.
--Seria d'esse tempo--tornou Abreu--um portuguez medico que eu conheci em Hollanda?
--Como se chamava?
O doutor quedou-se a scismar largo tempo, e disse:
--Chamava-se Francisco... Francisco... Luiz...
--De Abreu?--accudiu o interlocutor--Ora se conheci!... Não era meu condiscipulo; era mais novo do que eu na universidade um anno; mas havia de regular pela minha edade. Fui amicissimo d'elle, e elle meu. Queimaram-no em estatua e mais a mulher, no auto da fé de Coimbra, em 1699, se bem me lembro. Ora se conheci! Ainda será vivo?
--Não lhe sei dizer. Ha muitos annos que viajo, e não voltei ao meu paiz. Tem familia em Portugal?
--Não lhe posso dizer; mas a mim lembra-me que elle tinha um filhito natural, posto que outros diziam que o pequeno era filho de outro hebreu, que andava desterrado. Esse filho desappareceu; não sei se elle o levou, se morreu por cá em companhia de parentes.
--Tambem a mim me está lembrando que esse medico me fallava muitas vezes n'outro hebreu condiscipulo d'elle... ora que me não accode o nome!... Um hebreu que fugiu de Portugal com a filha de um fidalgo, christão velho...
--Ah! já sei de quem vossemecê me quer fallar... Ha de ser Antonio de Sá Mourão.
--Parece-me que sim...
--Não podia ser outro. Conheci-o perfeitamente. Era o melhor estudante da faculdade medica. Sei a historia d'esse desgraçado, perfeitamente...
--Então sabe que fim elle teve?--atalhou Francisco Luiz.
--Morreu, o que eu sei é que o pobre homem morreu lá fóra e por pouco lhe não matavam os paes cá dentro. A minha casa dista da casa dos Cabraes, senhores de Carrazedo, meia legua. Veja se eu não estarei lembrado de tudo isso, conhecendo a morgadinha como as minhas mãos. Imagine vossemecê qual seria o meu espanto, quando, faz agora quatorze annos, a vi.
--A viu?!--exclamou Abreu--viu? quem?!
--A morgada de Carrazedo...
E, como soffreando a expansão, o viajante disse:
--Conto estas coisas a vossemecê porque é estrangeiro, e por que ella já morreu, e não tem que temer da inquisição. Que ella andou em Portugal incognita...
--Mas vossemecê viu D. Maria Cabral?--tornou Francisco Luiz.
--Justamente, D. Maria era o nome d'ella. Vejo que sabe tambem algumas miudezas da tragedia!... Pois vi-a com estes olhos; e vossemecê poderia vel-a tambem, se ella não tivesse morrido em 1718.
--Conte-me o que souber d'essa senhora, que tenho ardentissima curiosidade de saber os successos da vida de tamanhos infelizes...
--Olhe, o modo como o marido lá morreu por fóra, não m'o disse ella... mas, o melhor é contar-lhe desde o principio. Appareceu aquella senhora em Bragança, com uma menina de vinte e dois annos.
--Menina! filha d'ella?
--Sim, filha d'ella e do judeu Sá Mourão.
Francisco Luiz de Abreu arquejava, e parecia temer que a vida se lhe acabasse antes de ouvir o remate da historia. Mortificava-o, a vontade de ingranzar perguntas em tropel; sustinha-o, porém, já o receio de se privar das miudezas que o pachorrento narrar do homem promettia, já tambem o receio de se fazer suspeito pela demasia do interesse, bem que o sujeito se lhe afigurasse bom homem, e incapaz de o denunciar.