O Olho de Vidro

Chapter 5

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Braz Luiz acabava de entrar no seu gabinete, para escrever no caderno de observações a rapida cura das convulsões de coração de D. Claudia com unturas de enxundia de pato e oleo de assucenas, quando um lacaio dos Silveiras o chamou a toda a pressa para a fidalga.

O medico praguejou mentalmente contra a sua dadivosa doente; mas foi.

Encontrou-a convulsiva e escarlate, debatendo-se n'uma poltrona. Era ainda a dôr do coração que lhe estava destroçando o peito. Fallou o doutor em ventosas sarjadas. A dama expediu in continente (sem calemburgo) tres gritos estridulos contra as ventosas.

--Pois não, minha senhora!--accudiu o medico--não faremos uso das ventosas, até mesmo porque a convulsão se vae distendendo aos membros, e receio que se torne geral. Eu vou receitar; mas requer tempo o preparado do remedio. Senhora Anacleta--continuou o doutor voltando-se para a criada grave--mande procurar um pato gordo; ordene que o matem, depennem, e limpem das entranhas; e depois remetta-se o pato ao boticario com a receita que vou escrever[16].

RECIPE. Recheie o pato com salva, mangerona an. Manip. j. gomma amoniaco e Bedelio an unc j. Calamo aromatico, noz moscada, flôr da mesma, e cravinhos da India an. unc. semiss. o que tudo primeiro se pize em almofariz, e se amasse com oleo de minhocas, e assim se introduza no ventre do pato, que se coserá com linha, se ponha a assar, e o que destilar se receba em um vaso meio de vinagre, com cujo pingo e gordura se unte o coração.

ABREU.

Depois, sentando-se ao pé da doente algum tanto melhorada das convulsões, ajuntou:

--Se este admiravel remedio não produzir o almejado effeito, asseguro a vossa senhoria que em casos analogos me tenho dado excellentemente com os banhos de azeite puro, e melhor será se antes se tiver cozido n'elle uma raposa[17].

--Uma raposa, doutor!--exclamou a dama engulhosa--uma raposa! Que immunda coisa!... Onde hei de eu ir buscar a raposa?

--Que desejará vossa senhoria que não appareça, minha senhora! Qualquer caseiro das suas terras do Alemtejo ou Beira, com ordem de vossa senhoria, caçará raposas, que são mirificamente medicinaes.

--Anjo bento! raposas medicinaes!...--volveu D. Claudia, e abriu um sorriso jovial, á volta com um gemido, como se o picar subito da dôr a não deixasse rir francamente.

--Parece-me que está mais alliviada...--disse o medico.

--Um poucachinho...

--Pois as virtudes da raposa são miraculosas, minha senhora--proseguiu elle, confiado na efficacia da distracção.--A lingua da raposa trazida ao pescoço reforça a vista. As mãos d'ella trazidas ao pescoço preservam do quebranto.[18]

--Do quebranto!...--murmurou D. Claudia da Silveira--Ai! doutor, ha quebrantos sem cura! Ha arêjos que em pegando da gente o remedio é morrer.

--Feitiçarias, quer dizer vossa senhoria? Não é tanto assim. Contra esses temos os prodigiosos alexipharmacos da santa egreja catholica.

--Bem sei, bem sei--balbuciou a dama, com piedoso gesto.--Não é d'esses que eu tenho medo. O meu santo Antonio me defenderá... Ha coisas peiores do que isso n'este mundo... coisas que fazem perder a cabeça á creatura mais ajuizada. Tenções e protestos não montam nada. Que me faz a mim dizer: não hei de pensar mais n'isto ou n'aquillo? Apega-se a gente com todos os santos. Fazem-se rezas e promessas. Lembra-se tudo quanto ha de máo... E, chegada a occasião, tanto faz como nada! Ai!--suspirou ella, pondo as mãos ambas sobre o coração.--Ai!... pobres mulheres!... Só vós sois as fracas... as peccadoras... não é assim doutor?

Braz Luiz de Abreu, que n'este lanço estava espreitando de soslaio uns olhos que o espreitavam por entre o reposteiro--os olhos da engraçada e trigueira aia de D. Claudia--por pouco não é surprehendido pelo relance da fidalga, que o fitou muito no rosto, com ar interrogador.

--É assim, minha senhora, é assim--balbuciou elle.

--É assim, é--tornou ella--E que remedio sabe vossemecê para estes quebrantos, doutor?

--É conforme...--tornou Braz Luiz, sem atinar com a resposta conveniente, porque só n'aquelle instante percebera, com despeito de sua vaidade de medico, a enfermidade da fidalga.

--É conforme, disse vossemecê doutor...--volveu ella, anciosa de entender as reticencias.

--Sim, minha senhora... Ha varios modos de possessão, além dos conhecidos nas demoographias...

--Mão entendo isso--atalhou a fidalga--Pois a paixão d'alma tambem é feitiço?

--Se não é...--balbuciou o doutor.

--Leva as mesmas voltas--accudiu prestes D. Claudia, e proseguiu expondo com pouquissimo resguardo de sua honestidade as diabruras que o amor tinha feito em senhoras de sua amizade, não poupando na relação das taes diabruras secretas as suas mais proximas consanguinaes, e algumas impudicicias muito reconditas da côrte da primeira mulher de D. Pedro II, com a qual vivera nos primeiros annos de sua mocidade.

Ao correr d'esta narrativa, D. Claudia reparou no abstrahimento do medico, cujo olho, de instante a instante, punha fito ao reposteiro, e como que procurava pascer-se deleitosamente em qualquer cousa de fóra.

Assim prevenida e desconfiada, esperou azo, voltou a cabeça ao lado opposto da porta, retorceu-a rapidamente de novo olhando ao local suspeito, e entreviu a cabeça da sua criada grave Anacleta, por quem doidejavam quantos fidalgos novos e encanecidos a visitavam.

--Olé!--exclamou ella, erguendo-se de salto--Agora entendo!--E, correndo ao reposteiro, afastou-o de repellão, e disse iracunda:

--Anacleta! já hoje não dormes n'esta casa. Rua! Não quero testemunhas nem espiões do que se diz no meu quarto. Rua!

E, tornando com solemne passo para junto de Braz Luiz de Abreu, que assistia corrido áquelle conflicto, disse-lhe:

--E a hypocrisia de vossemecê, senhor doutor!... A feitiçaria da minha criada tambem se cura com os prodigiosos _não sei que_ (o doutor tinha dito «alexipharmacos») da santa egreja catholica? Que hypocritas são estes medicos!...

E cacarejou uma risada secca.

--Pois que?!--tartamudeou o doutor, enleado até á irrisão.

--Eu logo vi!...--disse a fidalga, como em praticas de soliloquio comsigo mesma.--A promptidão das visitas... está explicada... Assim devia ser. Lé com lé, não falha o dictado. Cuidei que as minhas criadas serviam sómente aos meus criados. Bons tempos, em que os medicos se não sujavam com amores de servilhetas...

--Oh! senhora D. Claudia!--atalhou o pundonoroso doutor--vossa senhoria está-me insultando... perdoe-me dizer-lh'o, porque nunca cuidei de dizer isto a pessoa de sangue tão illustre... E, de mais, cavalheiro que tal diz a uma dama, não deve mais voltar á presença d'ella.

E, tomando o chapéo e bengala, fez uma arqueada cortezia.

--Faça o que quizer, doutor!--disse ella abespinhada, com o nó esterico nos gorgomilos--Faça o que quizer que vossemecê se arrependerá...

Braz Luiz de Abreu saiu offegante de despeito e tedio de D. Claudia da Silveira.

--Que tal está a pellada!--dizia elle de si para comsigo--A impudica!... E eu dar-lhe as unturas com a boa fé do mais soez enfermeiro! Chibata é que ella precisava nos lombos ociosos!...

VIII

Má sina de poetas

Passados alguns dias, differentes pessoas da intimidade do doutor lhe segredavam que D. Claudia fazia correr que elle fôra expulso da casa dos Silveiras, porque andava cortejando a aia grave da fidalga, sem respeito ao que devia á illustre enferma, e ao que devia á sua dignidade de medico. Os amigos aconselhavam-n'o, se queria ser recebido em casas de primeira plana, abster-se de galantear criadas, principalmente se as amas, como D. Claudia, queriam ser antepostas ás suas servas.

A calumnia era toleravel, porque em verdade, a frescalhona Anacleta era uma das sete criadas graves, para as quaes o doutor olhava com a fixidez de quem só tem um olho. Assanhou-o, porém, o susto de ver-se banido das casas, onde tinha os seus prezadissimos, bem que faceis amores, afóra as doentes mais rendosas.

O ciume de Claudia mais o exasperou ainda; por que a historia, em que elle figurava ridiculo, era contada entre as familias ás gargalhadas. Enraivecido, cogitou na imprudencia de fazer rir os amigos á custa da fidalga. Figurou-se-lhe que o mais contundente látego era a satyra em verso. Não teve amigo que lhe aconselhasse juizo e discrição, como convinha á gravidade do seu officio, e ao melindre da poderosa parentela de D. Claudia. Escreveu, e deu copias a diversos amigos das seguintes quadras:

A UMA PELLADA

Mulher, n'esse teu desgarro...

Convém saber, antes de ir ávante, que D. Claudia, como se quizesse attrahir aos pés a attenção das pessoas, que lhe reparavam na cabeça, costumava estar sempre calçada de sapatos bordados a fio de ouro. As mais fidalgas chanceavam-n'a, na ausencia, por causa dos sapatos, e propalavam que o Olho de Vidro se deixára algum tempo fascinar dos aureos chapins da escalvada dama. Sabido isto, não ha já commentarios que aditar á poesia.

Mulher, n'esse teu desgarro, Um Nabuco ás vessas és; Porque, tendo d'ouro os pés, Tens a cabeça de barro.

Se alguma pedra traveça Te quizesse derrubar Era preciso acertar Mais que nos pés na cabeça

Por que, se pelo mais fraco Estalla a corda mais grossa, Quem quizer que estalles, _moça_, Ha de cascar-te no caco.

Mais flammantes do que um ouro, Mais liza do que uma ostra, A cabeça a coura mostra, Os pés vão mostrando o couro.

Dize-me com que destino, Mesclas n'essa estatua van Entre affectos de christan Heresias de _Calvino_?

Sem monho, e com cara alva Sahes a toda a occasião; E vejo que tens rasão, Porque a occasião é calva.

Sendo mal encabellada, Para que andas, dize, á pella, Se ninguem por ti se pella Por mais que venhas pellada?

Vae-te, e pede a Deus, ó louca, Que te dê com toda a pressa, Cabellos para a cabeça Em vez de pão para a boca.

Ao padre nosso á porfia Pede que te encabellise; E em vez de _pão nosso_, dize: _Cabellos de cada dia_[19].

Multiplicaram-se as copias e as gargalhadas; não tardou, porém, que sobreviessem os despeitos, por que muitas familias, que tinham rido, estavam aparentadas com D. Claudia. Chegou á noticia da dama a zombaria. Foi tanto mais funda a punhalada quanto ella amava ainda o doutor. Odiou-o de morte; não relevava, porém, a soberba da fidalga que ella se désse por ultrajada.

Conjuraram, de repente as familias de melhor lote contra Braz Luiz. Os amigos evitavam-no com subterfugios. Os inimigos, collegas d'elle, deploravam que um seu consocio no sagrado mister da medicina os desdourasse. A tempo conheceu o doutor que tinha caido em descredito: e mêdo tambem de cair trespassado por algum fidalgo estoque não lhe faltou.

Fez logo conta de sair de Lisboa, cortando por fibras muito sensiveis do peito. Do plano á execução mediou algum pouco tempo, em que Braz Luiz, recolhendo alta noite, esteve a pique de ser assassinado por uma arcabuzada, cujos pelouros lhe crestaram os bofes da camisa.

Desappareceu o Olho de Vidro de Lisboa, e estanceou alguma temporada por Coimbra, onde assistiu á impressão de um seu livro em castelhano, intitulado _Aguilas hijas del sol, que buelan sobre la luna. Representacion comica, tragica, triumphal de la inmorable victoria gloriosamente alcançada por las aguilas impiriales contra las nocturnas aves ottomanas en el campo de Peter-Varadin, dia 5 de agosto año 1716._[20]

A mim contentou-me a leitura do titulo, e dispensei-me de ver o restante para ir jurar que deve ser sobre-excellente um livro que se chama _Aguias filhas do sol, que voam sobre a lua_. E, como se isto não fosse já recommendação á obra, acresce-lhe o merecimento de ser _representação comica, tragica e triumphante_. Um livro assim, e os applausos com que a peninsula provavelmente o victoriou, deviam ser para o doutor larga compensação dos dissabores com que saira de Lisboa. Não ha ahi chaga em peito de homem illustrado que resista ao balsamo do talento.

Passou Braz Luiz de Abreu ao Porto, fazendo tenção de estabelecer-se na segunda cidade do reino. Deteve-se em Aveiro alguns dias; e passeando scientificamente pelos arrabaldes da villa, descobriu a planta do chá, nascida em barda por aquelles maninhos. Consta-me que os aveirenses, de certo ignorantes do descobrimento do medico, ainda agora compram para seu uso o chá da China, como se não tivessem alli á mão a erva de que elle se faz. Aqui lhe transcrevo as palavras de Braz Luiz, e muito faço em prova do meu desprendimento de bens de fortuna, se não iria eu propriamente colher a erva, comprar os maninhos, e senhorear-me de Aveiro em poucos annos. Aqui está a noticia: «Na villa de Aveiro, e em todas as suas visinhanças nasce uma erva, a que os naturaes chamam _erva formigueira_, porque pisada tem o cheiro como de formigas pisadas; e a ha em tanta quantidade que podem carregar-se navios d'ella. Esta tal (ao meu entender) é o verdadeiro _chá_ que vem da China e do Japão; não só porque a experiencia descobre n'ella as mesmas virtudes do _chá_; mas tambem porque mandando-se da India a Gonçalo de Sousa de Menezes, morador na sua quinta de Salreo, a semente do legitimo chá, elle a mandou semear com todo o cuidado, e nasceu a mesma erva de que aqui se acham revestidos os campos e os comaros.»[21]

Não ha duvida nenhuma: o chá da India é a _erva formigueira de Aveiro_. E dizem que nós, os portuguezes, não somos gente para descobrimentos! O que nós somos é uns prodigos e despreciadores dos mananciaes de riqueza que a Providencia nos offerece como a filhos seus dilectissimos. Se alguma companhia entrasse em exploração d'aquella mina, quem sabe se, fechados os portos á erva indiatica, poderiamos ainda com o nosso chá amortisar a divida externa, e metter a Europa n'uma infusão de erva formigueira? Razão tinha o patriota doutor Olho de Vidro, quando em seguida á noticia, que os coevos menosprezaram, ajuntou: «Quem quizer indagar-lhe os prestimos, com facilidade o póde fazer, se acaso não fôr do genio d'aquelles que fazem eterno capricho de preferir sempre as coisas estrangeiras ás nacionaes e domesticas.»

Transferiu-se Braz Luiz para o Porto, ao começar o anno de 1718. Estreiou-se auspiciosamente. Açambarcou a clinica dos mais acreditados, e manteve-se com recato e honra no tocante ás venialidades do coração, tomando em conta o muito que lhe importava desmentir a má fama grangeada em Lisboa.

No fim de seis mezes, offereciam-se-lhe vantajosos enlaces com raparigas bonitas de sua pessoa, rubras e sadias d'aquelle antigo sangue e pojante saude do Porto, e demais a mais, ricas, das mais ricas das ruas dos Pellames, Congostas e Mercadores.

Não se atrigou com a felicidade das propostas. Sobrava-lhe dinheiro, estipendio das suas curas estupendas com inxundia de pata, olhos de minhocas, agua benedicta de Rulando, olhos de caranguejo e esterco de rato fresco.[22] O coração cedia á freima com que elle trazia empunhada a cabeça em estudos medicos, estudos poeticos, toda a casta de sciencia, como sujeito que tinha em vista a immortalidade, de que a sua memoria, se está gosando e gosará, emquanto o seu _Portugal Medico_, e a sua _Vida de Santo Antonio_ e este meu romance forem livros conspicuos.

Em outubro de 1718, chegou ao Porto uma senhora da Beira Alta, muito adoentada, trazendo em sua companhia uma filha. A enferma, desenganada pelos medicos na sua terra, ia procurar, como em ultima estancia, a sua cura na milagrosa reputação de Braz Luiz de Abreu.

Chamava-se a doente D. Antonia da Piedade, e a filha D. Josepha Maria de Castro. Aquella senhora tinha visto muito mundo, queria contar ao seu medico extraordinarios lances da sua vida; mas as dores incessantes apenas lhe davam tempo para gemer, não obstante os esmerados disvelos do doutor. Os padecimentos recrudeciam, quando á pobre senhora lhe acudia a lembrança de que deixava n'este mundo sua filha desamparada, sem parentes, bem que ella os tivesse ricos. Bem quizera Braz Luiz, com a alma poetica e affectuosa que tinha, entrar no segredo d'aquellas duas vidas; mas as reservas das senhoras impunham respeito e calavam-lhe de prompto as investigações indelicadas. D. Josepha Maria tinha vinte e três annos; era formosa, extraordinariamente instruida, fallava a muito custo a lingua portugueza, e com sua mãe expressava-se sempre na lingua franceza. Braz Luiz de Abreu não se deteve a perguntar ao seu espirito se lhe convinha amal-a; amou-a impetuosamente, desde que a viu; amou-a perdidamente desde que a ouviu.

D. Antonia falleceu no principio de novembro. As suas ultimas palavras á filha foram estas: «Perdoa-me ter-te eu dado o nascimento, desgraçada menina. Agora, que vae morrer a mulher maldita dos seus, vae tu procurar os teus parentes, e diz-lhes que não és culpada dos delictos de tua mãe.» Braz ouvira estas palavras, e disse, ajoelhando ao pé da filha:

--Abençoae a nossa união.

--Eu vos abençôo, meus filhos--murmurou a moribunda.

IX

Poeta e moralista

Casaram.

As delicias do noivado agoiravam santos prazeres de toda a vida.

O esposo entrou nos segredos d'aquella familia, imperfeitamente referidos por sua mulher, que os não sabia bem contar. O essencial da historia era ter ella sangue judaico, e ter nascido no desterro, onde se finou seu pae. Lances d'estes eram vulgarissimos n'aquelle tempo. Declarou ella que sua mãe não se chamava Antonia, nem o seu appelido era Castro. O mysterio, a perseguição, a formosura, a indole meiga, tudo cooperou a robustecer o amor de Braz Luiz, que, desde a hora de marido, começou a contar os seus dias de vida.

Tinha vinte e seis annos elle. Mais que nunca lhe inundaram alma enchentes de poesia. Os sonetos rompiam como lavas e aos pares. Um conservou elle no seu livro de medicina. E que engenhosa maneira de mandal-o á posteridade! Como não era coisa bem cabida um soneto de amores conjugaes entre duas receitas para conservar os cabellos, attribuiu como feito aos cabellos de Maria Santissima o soneto com que eternisára as madeixas de sua mulher. Vejam como elle o diz, querendo encarecer a formosura de um opulento cabello: «Temos um heroico exemplo na Magdalena, que ainda dos mesmos cabellos, que lhe cresciam, formou toalha para enxugar os pés de Christo lavados com suas lagrimas... Veneremos a profunda humildade de Maria Santissima mysticamente figurada n'aquelle cabello admiravel, em o humilde discurso d'este

SONETO

«Teus cabellos, teus olhos basta vel-os, Compondo o rosto teu, que ao sol prefere, Ó minha esposa, porque a fé venere A amorosa ambição de pretendel-os.

«Nem porque muitos são chego a querel-os, Antes por qualquer um amor requere, Um dos olhos o coração me fere, Prende-me a alma um só d'esses cabellos.

«N'um dos olhos por pura te comprehendes, N'um cabello a humildade sem refolhos, Dás a entender em symbolos bemquistos:

«Por isso humilde e pura tu me prendes; Que se um dos olhos me entra pelos olhos Um dos cabellos me ata a olhos vistos.»[23]

O soneto, para ser feito a Nossa Senhora, não é bom modelo para mysticos; porém, como brinde á estremecida Josepha, é o melhor de que eu tenho noticia, e ella, a meu ver, devia lisongear-se notavelmente.

O que ella lhe deu melhor ainda do que o soneto foi uma filhinha, que chamaram Anna Maria, e no anno seguinte outra filhinha, que chamaram Maria da Natividade, e depois outra que se chamou Thereza de Jesus, e depois Antonia Maria, e depois Sebastiana Ignacia, e depois Agostinho Luiz, e depois Pedro José, e ultimamente Raphael, que morreu ao segundo mez de nascido. Ora aqui tem, leitor sensivel, um quadro perfeito de felicidade terreal: cinco filhas e dois filhos, vivos e robustos, em nove annos. Dito isto, por mais que me eu aprimorasse em recamos do estylo e maviosidades de sentimento no descrever as venturas d'aquella familia, tudo me sairia froixo e muito em sombra. As creancinhas são os anjos que pintam os quadros da vida intima com côres e instincto do céo. Quem quer dizer «suprema e indisivel felicidade» não tem mais que pôr: «eram dois paes amando-se muito com sete filhinhos entre elles a beijarem-n'os, a beijarem-se, e a chilrearem como avesinhas implumes em volta do ninho que lhes dá o aconchego da plumagem e do cibo.»

Sem impedimento de sete filhos, fartos e aceiados, o doutor ia enriquecendo, e repartia seu tempo, roubado ás caricias da familia, entre os trabalhos de gabinete e visitas ás pessoas mais illustres e pecuniosas da terra. A fama dos seus bons costumes e religiosidade fallou por elle no tribunal da inquisição, quando lá chegou o requerimento documentado pedindo as honras de familiar do santo officio. Concederam-lh'as sem hesitação, porque os medicos, como senhores do arcano intimo das familias, eram os mais importantes sentinellas da pureza da fé. Não só os sãos costumes, que tambem um livro de summa piedade e vasta erudição, lhe ganharam as honras e privilegios de familiar. Este livro, publicado em 1725, e ainda hoje relido com devotos fervores por quem sabe gastar com acerto e bom juro o seu tempo, intitula-se «Sol nascido no occidente e posto ao nascer do sol. Santo Antonio portuguez. Epitome historico e panegyrico da sua admiravel vida e prodigiosas acções.» N'aquelle tempo, não houve livro que ousasse medir-se com as elegancias e pompas d'aquelle _in-folio_, para o qual devêra inventar-se a eternidade, se ella não andasse já por ahi á disposição das obras inuteis.

D. Josepha, posto que viesse de Paris quasi nada disposta a crer nos milagres de Santo Antonio, depois que leu a obra de seu marido, reduziu-se á pureza da fé catholica, e revalidou as ceremonias do baptismo, para se limpar de escrupulos. Não seria esta a razão efficiente; mas parecia ser.

No anno seguinte, Braz Luiz saiu com outro volume de egual tamanho, bem que menos importante á salvação da alma. Todavia, choviam bençãos sobre o sabio que primeiro curava almas achacadas de vicios, e depois dava á humanidade enferma, como coisa secundaria, um livro que olhava a minorar-lhe os flagellos corporaes. Eis aqui o titulo d'este padrão da medicina portugueza: «Portugal medico, ou monarchia medico-lusitana. Historica, pratica, symbolica, ethica e politica. Fundada e comprehendida no dilatado ambito dos dois mundos creados, macrocosmo e microcosmo.» Estes dizeres podem chamar-se o cabeçalho do titulo, que se continua em vinte linhas. Assim o declaro para que se não julgue da superficialidade da obra pela pequenez d'aquelle rotulo. Braz Luiz de Abreu dedica o seu livro ao principe do Brazil D. José Francisco, e assigna-se _medico portuense e familiar do santo officio_, assentando n'estas qualidades dois titulos á consideração publica.

Este livro, a meu ver, é a mais pittoresca historia dos costumes d'aquelle seculo. Ninguem lê o _Portugal Medico_, e poucos sabem que desprezado thesouro alli está. Como author de livros de medicina é vilipendio nosso que Braz Luiz seja contado na lista dos escriptores medicos, de par com os Zacutos, com os Veigas, e com Jacob de Castro Sarmento; como relação das usanças do seculo XVIII, não ha novella nem poema satyrico em portuguez que lhe chegue á barba.

Onde me dá o leitor a conhecer o que eram os medicos estrangeiros em Portugal? Quaes gazetas do tempo ou quaes poetas mordentes nos deixaram traços da chusma de charlatães, naturaes e peregrinos, que se locupletaram entre nós, favorecidos pela crassa bruteza a que tinha descido a faculdade medica em Portugal! Nenhum livro de prosa ou verso, nenhuma publicação coeva nol-o diz, exceptuado o livro obscuro ou escarnecido do Olho de Vidro.

Para mim é de fé que o leitor, nem ainda peitado por estes encomios, vae folhear o _Portugal Medico_. Pois eu, mas que me alcunhem de impertinente, vou dar-lhe em traslado coisa pouca d'este curioso livro, que é mais historia que as chronicas dos Azuraras e Pinas, e mais comedia humana que as comedias de Gil Vicente e do Judeu.

Ácerca dos medicos estrangeiros: