Chapter 4
Em seguida, padre Francisco de Santa Maria poz os olhos sobre o confitente Heitor Dias da Paz, e exclamou, tanto ou quanto commovido:
«E vós, que n'este tremendo cadafalso sois o réo do maior delicto, olhae que em vós n'esse infeliz estado se verifica com propriedade lastimosa o que dizem as palavras do meu thema: _De malo ad malum egressi sunt_. Saireis de seres condemnado no juizo dos homens, e entrareis a ser condemnado no juizo de Deus. Saireis da morte temporal e entrareis na eterna. Saireis de um fogo que brevemente acaba, e entrareis em outro fogo, que para sempre dura. Oh filho da minha alma, é possivel que assim vos deixeis guiar só da vossa imaginação, e vos ateis tão fortemente á vossa teima em um negocio da tanta importancia? Tão pouco vae em salvar ou condemnar para sempre? Quero crer de vós que em qualquer negocio d'esta vida não havieis de obrar sem conselho, sem reflexão, sem madureza; e em um negocio, em que vae a vida eterna, assim vos resolveis, assim vos precipitaes? Nos pontos da medicina (que estudaveis) é sem duvida que havieis de estar pelo que vos diziam vossos mestres. Pois, se nos pontos de medicina, vos guiaveis pelo que vos diziam os doutores medicos, nos pontos da fé porque vos não guiaes pelos doutores theologos, que tantas vezes e com tanto zelo e espirito se empenharam em vos reduzir ao caminho da verdade?
«Dizei-me de que mestres aprendestes essa lei que seguis já tão antiquada e esquecida no mundo? Sem duvida de dois homens ignorantes, que talvez nunca abriram a escriptura, e talvez não saibam a lingua latina, e muito menos a hebrea. Não o tomeis por injuria--ajuntou o orador, certamente improvisando, como visse um gesto de repugnancia desdenhosa e despeitosa no aspecto do confitente--não o tomeis por injuria...; porque, fundado nas vossas mesmas escripturas, affirmo que na vossa nação falta ha muitos seculos, por justo castigo de Deus, o dom da sabedoria, e dominam as trevas da ignorancia.»[8]
Estende-se diffusamente o padre, cathequisando o judeu, com a mira posta em resgatar-lhe a alma, que o corpo esse já não ha eloquencia nem perdão divino ou humano que possa salval-o do fogo. Finalmente, remata a apostrophe n'estas branduras:
«Ora filho do meu coração, _convertere, convertere ad Dominum Deum tuum_.
Convertei-vos para o vosso Deus, convertei-vos para o vosso Senhor, que, abertos os braços, e com o coração aberto, vos espera para vos metter n'elle como amigo, se do coração vos converteis a elle. Dae este gosto ao céo, dae este gosto á terra, dae este gosto aos coros angelicos e dae este gosto aos espiritos bem aventurados, dae este gosto a todo este numerosissimo e luzidissimo auditorio, que todo deseja com muitas veras a vossa vida e a vossa salvação. Na vossa mão tendes a vida e a morte, a salvação e a condemnação: vêde o que escolheis. E, se todavia persistis na vossa teima, e na vossa contumacia, da parte de Deus vos digo, que dentro em breve tempo apparecereis diante do mesmo Deus em juizo, do qual, sem desculpa do vosso erro, saireis condemnado para o fogo eterno.»
E com pouco mais terminou o monumental discurso, de que ficou muitissimo agradado o senhor rei D. Pedro II, e seus filhos; e bem assim o eminentissimo senhor cardeal D. Miguel Angelo Conti, arcebispo de Garzo, e nuncio apostolico n'estes reinos, ao qual o padre Francisco dedicou o seu sermão impresso.
D. Pedro II não mais saboreou outro sermão identico; porque, tres mezes e sete dias depois d'aquella explendida ovação da santa egreja, morreu.
O padre Francisco de Santa Maria, comquanto só passados sete annos fosse coroar-se ao capitolio dos anjos, como piamente crêmos que foi, tambem não voltou a regalar o publico nos autos da fé.
* * * * *
Cheguemo-nos ao assumpto. Os relaxados á justiça secular foram conduzidos a uma das salas da santa casa, em que estava junta a relação para os sentenciar.
A sentença de Heitor Dias da Paz, e dos outros já estava lavrada, embora fingissem lavral-a depois de um banal interrogatorio. Com ella na mão, perguntou o presidente ao judeu, ajoelhado:[9]
--Sois o relaxado Heitor Dias da Paz?
--Sou.
--D'onde sois?
--De Villa Flor.
--Credes--tornou o presidente--na Santissima Trindade, Padre, Filho, Espirito Santo, tres pessoas e um só Deus verdadeiro?
--Não creio.
E levantou-se sem que o presidente lh'o ordenasse.
O escrivão, que estivera autoando a sentença, ergueu-se e disse ao condemnado:
--Ajoelhe para ouvir ler a sentença.
--Ouvil-a-hei em pé--respondeu Heitor.
--Leia--disse o presidente ao escrivão.
O escrivão leu o seguinte:
«Acordam em relação, etc. Vista a sentença junta dos inquisidores, ordinario, e deputados da inquisição, e como por ella se mostra o réo preso, Heitor Dias da Paz ser hereje apostata da nossa santa fé catholica convencido no crime de judaismo, e por tal relaxado á justiça secular, e sendo perguntado n'este senado persistir no seu erro, e declarar que não cria em nossa santa fé catholica, senão na lei de Moisés; o que assim visto, e disposição de direito em tal caso, condemnam ao reu que com baraço e pregão pelas ruas publicas e costumadas seja levado á ribeira d'esta cidade, e ahi seja levantado em um poste alto, e queimado vivo, e feito por fogo em pó, de maneira que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memoria; e o condemnam outrosim em perdimento dos seus bens para o fisco e camara real, posto que ascendentes ou descendentes tenha, os quaes declaram por incapazes, inhabeis, e infames na fórma de direito e ordenação. E pague as custas d'estes autos. Lisboa, 12 de setembro de 1706.»
A procissão dos condemnados saiu do pateo da santa casa, caminho da Ribeira. As duas judias relaxadas em carne, dizia-se que já iam mortas. Os dois hebreus, que tinham assistido ás leituras de suas sentenças em anciados gritos, iam desacordados nos braços dos quadrilheiros do santo officio. Heitor caminhava sem amparo, placidamente, olhando a um lado e ao outro as damas que exornavam as janellas do transito.
Ao embocar o prestito á rua da Padaria, um ancião mal coberto de andrajos, com tregeitos de louco enfurecido, rompeu a mó compacta do povo, e os soldados que ladeavam os condemnados.
Heitor Dias reparou n'aquelle velho que os arcabuzeiros afastavam a repellões. Fitou-o com horrivel estremecimento; ia a proferir uma palavra, e suffocou-a. Debalde. O grito do coração já tinha ecoado no seio do ancião, que exclamou:
--Adeus, meu filho! Adeus, meu filho, eu vou antes de ti avisar tua mãe que por instantes estarás comnosco no seio de Abrahão!
E, ao proferir a ultima palavra, sorveu de um vidro um trago de peçonha, ao qual se seguiram medonhas convulsões.
--Abençoada seja a sua coragem, meu pae!--exclamou Heitor--Até logo, até á eternidade!
As agonias do velho terminaram dentro em quinze minutos. As do filho principiavam pouco depois, e não foram mais longas. Antes de sentir o queimar das lavaredas nas entranhas, expirára afogado no fumo.
E o sol d'aquelle dia era ainda formoso ao intardecer. As auras do mar bafejavam tepidas. El-rei passeava nas barandas do paço da Ribeira, aspirando o aroma dos laranjaes; e os frades de S. Domingos resavam vesperas.
VI
Braz Luiz
N'este tempo, Braz Luiz, o collegial de S. Paulo, ia nos quatorze annos.
A noticia da desastrosa morte dos seus bemfeitores, revelada pelos condiscipulos, pungiu-o, tirou-lhe d'alma sinceras lagrimas; porém, n'aquellas edades a sensibilidade é para pouco; as saudades das pessoas queridas que morreram não se prendem á previsão angustiosa das desgraças porvindouras. O filho de Antonio de Sá Mourão estava de todo esquecido do doutor Abreu, e não longe de esquecer-se de Heitor Dias da Paz.
Os mestres do collegio, cuja dilecção pelo engenho do moço se manifestava no affago com que o divertiam de pensar no hebreu queimado e no outro que se dera a si desesperada morte, receosos de que o santo officio fosse ainda contender com o estudante por suppor que elle fosse irmão de Heitor, zelosamente informaram os inquisidores dos piedosos sentimentos de Braz Luiz, e da docilidade e devoção com que elle se entregava aos exercicios espirituaes. O santo officio, inteirado d'isto, deixou em paz e por conta da religiosidade dos paulistas o menino.
Como elle se alimentava e educava a expensas do collegio, o parecer dos mestres era encaminhal-o para frade paulistano. Este intento, quando o moço tinha quinze annos, foi contraditado pela companhia de Jesus, que enviára delegados a recensear nas universidades e collegios de Evora e Coimbra estudantes esperançosos, garfos de boa seiva, que se fossem enxertando nos troncos envelhecidos, para que alguma hora não soffresse quebra o predominio intellectual dos filhos de Santo Ignacio.
Os paulistanos offenderam-se do sequestro que os jesuitas arbitrariamente fizeram nos seus mais grados alumnos; e, por vindicta, entraram a despersuadir o moço de aceitar a roupeta. Facilmente o moveram á repugnancia da vida sacerdotal, e assim se privaram tambem de o conquistarem para si. A companhia de Jesus cathequisava, mas não violentava. Tamsómente as vocações liberrimas e muito espontaneas lhe serviam. Logo pois que Braz Luiz manifestou indisposição para a vida sacerdotal, abriram mão d'elle os jesuitas, offerecendo-lhe, se necessarios fossem, recursos com que podesse seguir a carreira para onde pendessem os seus talentos. Quer generosidade, quer astucia com que os padres ardilosamente grangeavam a estima quasi universal, o certo é que Braz Luiz teria a protecção d'elles, se não tivesse a dos paulistas.
Deram-lhe a opção de modo de vida. Braz escolheu a medicina.
Aos quinze annos matriculou-se no primeiro do curso depois de ter estudado artes, e logo deu de si tão lisongeira conta, que se estremou entre os condiscipulos, ganhando as distincções das escolas, a estima dos mestres, e especialmente de D. Manuel dos Reis e Sousa, a quem o discipulo dos seus futuros escriptos se mostrará agradecido.
Ao correr do terceiro anno, a indole do academico passou por inesperada revolução. Sem faltar ás obrigações escolares, deu-se á tunantaria dos estudantes malcomportados. Fez-se arruador nocturno, bulhento, femieiro e pimpão. Os paulistas ameaçaram-no de o deixarem entregue aos seus desatinos. Braz Luiz respondia ás ameaças dando optimas lições nas aulas, e ganhando os louvores dos lentes, sem desistir de tomar o primeiro posto nas algazarras e assuadas nocturnas.
Em uma d'essas escaramuças á cidade baixa, travou-se uma refesta ensanguentada entre a gente miuda de Coimbra e os estudantes. Braz, depois de muitas proezas, caíu ferido de uma choupada, que lhe vasou o olho direito. Alguns condiscipulos levaram-no em braços para sua casa, e lhe assistiram affectuosamente á cura. Salvaram-no da morte: mas não poderam salvar-lhe o olho.
Depois de dois mezes de cama, o estudante recebeu a má nova de ter perdido o amparo dos frades. Accudiram logo os condiscipulos fintando-se para supprirem a esmola do collegio, Braz proseguiu na formatura, e não mais foi visto nas sortidas bellicosas, como quem já não tinha mais que um olho para sacrificar. Os paulistanos, contentes da reforma do seu protegido, voltaram a soccorrel-o; porém, o pundonoroso academico, reunindo os seus condiscipulos favorecedores, expoz a reluctancia com que aceitaria a esmola dos frades, e a satisfação com que continuaria a recebel-a de estudantes. Applaudiram-lhe o brio, e animaram-no a regeitar o pão vilipendioso dos paulistas.
Em 1714, tomou Braz Luiz d'Abreu gráo de licenciado em medicina. A razão que elle teve para assignar-se _Abreu_ funda n'uma casualidade de que resultou enganar-se Barbosa na sua _Bibliotheca Lusitana_, dando Braz Luiz como filho de Francisco Luiz d'Abreu e Francisca Rodrigues d'Oliveira. Foi o caso, que folheando elle o abcedario por onde começára a soletrar, muito na primeira puericia, em companhia do seu primeiro protector, encontrou o seu nome assim posto no alto da primeira pagina do alphabeto: _Braz Luiz de Abreu_. Assim o escrevêra a esposa do doutor, n'uma d'aquellas horas de ternura, em que ella encarava no menino como em filho propriamente seu.
Ahi está onde ao medico se deparou um apellido, que elle não sabia d'onde lhe havia de vir, por mais que discorresse sobre o modo de rastrear seu nascimento. N'este investigavel mysterio o que a si mais provavel se figurava era que seu pae devia de ser um homem apellidado _Abreu_; mas como esquadrinhar-lhe a naturalidade, as aventuras da vida ou da morte? Em Coimbra não havia para que indagal-o; porque elle não tinha sequer vaga lembrança de ter estado em Coimbra nos primeiros annos. Todas as suas lembranças esboçavam-se dos sete annos para áquem. Terra que não fosse Coimbra só escassamente se recordava de Villa Flor; e imagens de pessoas, duas sómente lhe viviam meio delidas na lembrança: eram Francisco de Moraes e Heitor Dias da Paz.
Um condiscipulo de Mirandella encarregou-se de averiguar-lhe algumas noticias de seu nascimento em Villa Flor. As tradições encontradas alli eram que uma creança apparecêra em casa do hebreu Moraes, ao tempo que seu filho voltou da Hollanda. Parentes ainda vivos d'aquelles israelitas não sabiam dizer nada a tal respeito. O que o condiscipulo informador accrescentou foi que dos muitos haveres do hebreu suicidado não havia palmo de terra que a inquisição não confiscasse.
Habilitado para exercitar a medicina, comquanto lhe sobrassem creditos de grande estudante, faltavam-lhe doentes. Á mingua de recursos, pensou em estabelecer-se n'alguma terra desprovida de medicos. Um seu contemporaneo da faculdade juridica convidou-o para Vizeu, onde o encontrámos curando com muita voga e felicidade em 1715 até 1718[10].
No fim d'este anno, como a sua fama o atraia e a cobiça o impulsava para terras de mais gloria e lucros, passou a residir em Lisboa. Aqui e n'este mesmo anno começou elle a olhar tristemente para a deformidade que lhe deixára no rosto a choupada, e achou-se não só feio, se não repugnante a olhos de damas, que se engulhavam de lhe verem a orbita direita vasia e coberta pela palpebra amortecida.
Cogitou o medico em arranjar um olho artificial, com que encher a orbita nauseenta e dar contractibilidade apparente á palpebra. Investigou a sciencia e encontrou que os gregos e egypcios fabricavam olhos artificiaes, formando-os de uma casquinha metalica, pintada ou esmaltada, similhante a uma metade de ovo pequeno, dividido longitudinalmente. Este primitivo e pouco engenhoso olho não agradava ao nosso joven medico. Indagou no estrangeiro, e de Hollanda o informaram que estava em Amsterdam um hebreu inventor d'olhos artificiaes de esmalte, com a qual materia substituira vantajosamente os metalicos. Entendeu-se Braz Luiz de Abreu com o inventor hollandez, e ajustou na orbita um olho, menos mal imitado, mediante o qual a palpebra voltou á sua elasticidade.
Este olho de esmalte era immovel: bastava encarar na cara do medico para logo se conhecer que a orbita direita estava envidraçada. D'ahi seguiu-se chamarem-lhe o _doutor Olho de Vidro_, alcunha que lhe ficou até á morte, e longos annos depois serviu de celebrar-lhe a memoria, a magnitude dos talentos medicos e os seus não menores infortunios.
Como quer que fosse, a physionomia do doutor Braz Luiz, não obstante a pouca illusão que embahia o falso olho, melhorou bastantemente.
O restante do carão, como diziam os coevos d'elle, era senão gentil, mui symetricamente ageitado. Vestia com apontado primor, e cuidava com esmero das melenas negras e lustrosas, que não polvilhava. A razão d'este proceder, tão inverso dos costumes do seu tempo, é elle quem propriamente a escreve d'este modo: «... Emquanto aos polvilhos, tão longe estão de parecerem ornato na cabeça do medico, que antes são presagios lethaes da vida do doente. Porque se a egreja com pós na cabeça nos adverte da morte que vem, como o medico com pós no cabello nos ha de recuperar a vida que se vae? Eu, quanto a mim, antes creio que, os pós são significativos da morte, emquanto a egreja nol-o diz, do que hierogliphicos de saude respeitando ao medico que os traz. Os verdadeiros ministros d'Apollo só usam de polvilhos cephalicos na região animal; de polvilhos cordeaes na região vital; e de polvilhos estomachicos na região natural. Isto é uso modesto; o mais, estava para dizer que era abuso ridiculo.»[11]
Não curemos de ponderar a justiça das razões que o doutor allega contra os polvilhos. Imaginando que os collegas de Braz Luiz se riram muito d'ellas, faço justiça aos contemporaneos do auctor do _Portugal medico_.
Tambem desadorava os perfumes o nosso doutor, n'aquelle tempo em que o peralta de bom cunho recendia como caçoula de camarim de odalisca. Outra razão efficientissima do seu enojo de perfumes: «Sou de parecer que (o medico) evite os cheiros, e que se negue a todo genero de perfumes, porque ainda que Hyppocrates no seu tempo permittia os que não eram suspeitos aos achaques, comtudo n'este seculo mais escrupuloso por mais prevertido, nenhum genero de perfumes cheira bem... Deixemos esses esmeros para os que vivem á moda, e não excedamos a moda, que nem porque um medico cheira bem, cura melhor.»[12]
Em adornos capillares aceitava o doutor meramente os naturaes: usava simplesmente a sua opulenta grenha, nua de artificios e emprestimos; porque dizia elle: «Seja tambem modesto o medico nos adornos da cabeça, tão introduzidos n'este miseravel seculo, que não ha já encontrar solicitador sem cabelleira nem belleguim sem perruca.» E acrescentava: «Quantos desprezam e cortam hoje o honesto cabello de christãos e collocam sobre a cabeça as melenas de um herege!»[13]
O vivo desejo que Braz Luiz de Abreu alimentava de reformar as demasias luxuosas e derisorias dos medicos, tornou-se em justa indignação, e a indignação porventura fel-o poeta como ao satyrico latino. Um dos mais intelligiveis sonetos que elle escreveu em tom apostolico salvou-se do olvidio, graças ao acertado cabimento que lhe elle deu n'um seu livro de medicina. Resa d'esta sorte:
Oh, medico! se és medico com effeito Procura mundo[14] ser, mas não mundano; Que de Apollo o caracter soberano Não anima nos vicios o respeito.
Bebe o cão, bebe tu; mas com tal geito Que o crocodilo do rumor profano Quando vás a beber do Nilo humano Não possa devorar teu bom conceito.
Em teu ornato a modestia nunca falte, Um pouco mais ao grave do que ao lindo; Que assim obra quem douto assim discorre.
E porque a tua fama mais se exalte, Visita a modo de quem vae fugindo, Como do Nilo o cão, que bebe e corre.[15]
O desgracioso da musa do Olho de Vidro está delatando que o poeta, se não era menos de pedestre, poetava violentando sua indole. O natural d'elle era outro. A meu juizo, tanta prudencia e bom conselho no mais verde da mocidade, argue um aliás louvavel cuidado de se fazer bemquisto aos homens graves do seu tempo. É, de mais d'isso, muito provavel que o medico se temesse de que os rafeiros do santo officio lhe andassem farejando o sangue; e elle, a contas com a consciencia propria, duvidava da pureza de seus incognitos paes, ao lembrar-se do ritho hebraico dos bemfeitores de Villa Flor. Se os elle não conhecia, quem lhe asseverava que a inquisição os não conhecesse? Se lhe pedissem a certidão do baptismo, onde iria elle esquadrinhal-a?
VII
Exemplo de honestidade aos medicos
Quer fosse sisudeza, quer hypocrisia, Braz Luiz de Abreu, que então contava vinte e cinco annos, assim que o amor lhe abriu o peito com seus magicos dedos, sacudiu a canga do artificio e mostrou-se homem genuino. Deu elle tento de que os seus collegas todos eram familiares do santo officio, e todavia amavam a rosto descoberto; e, nas casas onde entravam, contra a prescripção do soneto, não procediam exactamente
Como do Nilo o cão, que bebe e corre.
Ora, como elle, de espaço, fosse vendo que a inquisição vivia despreoccupada d'aquelles cães do Tejo que bebiam muito devagar, bandeou-se com elles, e atirou o coração ás tempestades dos vinte e cinco annos, resalvadas as apparencias.
A primeira dama que se quiz senhorear da alma do seu medico, era uma fidalga quarentona, ainda vistosa, affeita a ser beijada na face por bons galans que se ajoelharam diante d'ella até aos trinta annos, e se purificaram da idolatria, desde que as flores do rosto, desbotadas pelo caio, e os cabellos ressequidos pelo ferro se foram despegando d'aquella cabeça rica de formosas tradições. Estava literalmente calva.
D. Claudia da Silveira, logo que se julgou encarada voluptuariamente pelo olho unico do seu medico, levou a mão ao peito e sentiu-se arder. Desde essa hora os achaques eram tantos e tamanhos que Braz Luiz escassamente se podia desobrigar de acudir-lhe tres vezes por dia com agua de Inglaterra, com pedra cordeal de Gaspar Antonio, ou com agua de lingua de vacca, antidotos de sua predilecção contra os estherismos e enchaquecas da senhora D. Claudia da Silveira.
A dama, cada vez mais enfermissa, tornára-se a desesperação da medicina gallenica. Dos linimentos á chaga interna que lhe cancerava as entranhas, um sómente dera satisfatorio resultado: era a presença do medico, o tatear d'elle no pulso arreado de manilhas, o apalpal-a nas costellas sobre e sub-jacentes ao coração. No coração nomeadamente é que ella dizia ter a morte, o morder e repuchar de dentes e garras do que quer que fosse. Resolveu o doutor que lhe dessem uma untura anodyna sobre a parte magoada. Resistiu a dama, quando viu a aia arremangar-se para o acto, e exclamou, repellindo a criada:
--Não consinto mãos estranhas no meu corpo! Antes a morte!
Braz Luiz de Abreu empenhou calorosas razões a persuadil-a, cuidando sinceramente que a dama soffria dolorosissimas palpitações. Da austeridade de medico passou ás branduras de amigo que muito lhe devia, porque a paga era mais que prodiga, e chegou a pedir-lhe consentimento para ser elle quem lhe friccionasse o seio.
Muito rogada e como incendida em pudor virginal, consentiu D. Claudia, referindo a sua condescendencia não tanto ao amor da vida, como ao horror de morte assim atribulada.
O leitor conhece decerto aquella passagem de um livro do padre Manuel Bernardes, em que se conta o caso de S. Effrem estar com uma das mãos untando o peito de uma formosissima mulher, que tinha parte de demonio tentador do santo, emquanto assentava a outra mão sobre um brazeiro para ir assim com as dores quebrantando os ímpetos da materia bruta, as _fervenças da carne_, como n'outro caso diz o mesmo padre oratoriano.
D. Claudia da Silveira verdadeiramente não tinha parte de demonio; porque o medico lhe deu a untura anodyna com tanta serenidade e quietação de corpo e alma, que só isso lhe bastaria a ganhar o céo, se a mulher fosse documento para merecel-o e argumento para pedil-o.
Operou o linimento muito devagar, segundo o medico ia entendendo da brandura dos ais e alquebramento da enferma. Afinal, cessaram de todo os gemidos por um suspirar descançado que parecia descair em dormir restaurador das forças extenuadas.
Braz Luiz de Abreu ficou vaidoso do seu triumpho, e despediu-se da dama, que lhe acenou de mão e cabeça tão levemente como quem a custo o fazia, vencida do turpor do somno.
Assim que elle voltou costas, D. Claudia sentou-se na cama, bracejou enraivecida, e despregou a murros phreneticos uma cortina adamascada que lhe ondeava por sobre o espaldar do leito.
Accudiu a aia a querer continuar a untura. A fidalga quiz atirar-lhe á cara com a taça do anodyno, e sentiu-se sinceramente febril.
A aia avisou o fidalgo, cunhado de sua ama, d'aquellas furias em que estava a senhora. O fidalgo, avesado a taes manhas, respondeu com magnanimidade indicativa da probidade austera d'aquella familia:
--Manda-lhe chamar o Olho de Vidro.
--Mas elle ainda agora saiu, senhor!
--Não importa: que torne a entrar, que torne a sair, que entre de novo, que faça o que ella quizer, comtanto que eu não ature minha cunhada Claudia.
Assim se fez.