Chapter 3
No entanto, Heitor levou a cabo, com muita applicação e extremado engenho o seu primeiro anno. Foi a ferias, levou comsigo Braz Luiz, e contou ao pae a inquirição porque passára o menino sobre o cathecismo christão. Francisco de Moraes agourou mal d'este exame, e pediu ao filho que, em vez de voltar a Coimbra, se passasse a Hollanda. Heitor Dias engenhou razões para combater os sustos do pae, e voltou ao segundo anno de medicina, levando Braz ao segundo anno de latim.
Os de S. Paulo repetiram o inquerito com ardilosos rodeios. Braz, já cabalmente instruido, cortava-lhes as voltas com respostas por demasia atiladas; de modo que deu força ás suspeitas, mostrando estar apercebido para destruil-as.
A este tempo sobejamente sabia o conselho da inquisição que os christãos novos de Villa Flôr, se não eram sinceros judeus, tambem não eram sinceros catholicos. Qualquer das coisas, no entender dos theologos, era egual á outra como affrontamento á verdadeira religião.
Heitor Dias da Paz andava espreitado. Seus condiscipulos propriamente o provocavam a questões theologicas, das quaes elle se desembaraçava, dando-se como ignorante de subtilezas e aceitando os dogmas sem discussão. O conceito dos espiões de sua consciencia não melhorava por isso; quando muito, concediam-lhe a boa qualidade de judeu discreto.
Assim correu o segundo anno da sua formatura, sem acontecimento que o precatasse contra alguma violencia.
Voltou Heitor ao terceiro anno, com o coração retalhado de saudades de sua mãe que ficava morta. Levou comsigo para Coimbra o pae que se queria deixar morrer na alcova d'onde lhe levaram o cadaver da esposa. A convivencia do filho deu-lhe alma, e esperança de peito onde inclinar a cabeça na velhice. Não obstante, a saudade levou-o ás portas da morte.
Aquella ida do velho a Coimbra foi desgraça para Heitor. Francisco de Moraes, em risco de vida resistira a receber os sacramentos, porque o seu morrer, sem ritual de religião alguma, queria elle que fosse um como adormecer inclinado ao respaldo da cadeira. Estrondeou o escandalo nas abobadas dos conventos. Heitor, com o rosto coberto de lagrimas, quando sua alma estava a mendigar palavras de consolação, porque via alli o pae moribundo, tinha de explicar ás cataduras severas dos frades e visinhos a turvação de seu pae, e a, por isso, involuntaria privação de sacramentos. Redarguido nas satisfações que dava, replicou talvez com descomedimento, quando já seu pae se tinha passado a Villa Flôr. Da replica, provavelmente, foi lavrada acta no gabinete do procurador fiscal do santo officio. O certo foi que, vinte dias depois, Heitor Duarte da Paz, ao entrar nos geraes da universidade, foi acercado de tres familiares, que o conduziram ao carcere da inquisição.
Bemdita a mão da Providencia, que já tinha fechadas as palpebras da mãe d'aquelle moço!
Braz Luiz, comquanto desde o momento em que o seu protector foi preso ficasse privado de recursos para continuar como pensionario em S. Paulo, não foi despedido. Os frades paulistanos consideravam-no optimo estudante, e alma nova para se deixar fecundar em proveito da santa religião. Além de que o orphão, esquecido do nome de seus paes, senão engeitado d'elles, não tinha culpa minima do hebraismo de quem o protegia. N'este mesmo parecer assentaram os frades dominicanos: honra lhes seja. E, portanto, Braz Luiz conservou-se no collegio a expensas da casa, sem licença do reitor[4], e por largo tempo ignorante do destino de seu bemfeitor, até que, no fim d'aquelle anno de 1704, os mestres lhe disseram que Heitor Dias da Paz se estava purificando de peccados gravissimos, para remedio dos quaes lhe acudira a vigilancia misericordiosa do santo tribunal da inquisição.
Braz chorou muito, e caíu febril na cama. O chorar e o adoecer do moço mereceu compaixão dos mestres, que o consolaram com esperanças seguras de que o seu protector havia de sair limpo e absolto d'entre as mãos dos filhos de S. Domingos.
Recobrou o estudante saude, a tempo que Heitor Dias da Paz era transferido á inquisição de Lisboa, por motivos mais ou menos extraordinarios, que não vingámos averiguar. O que a toda luz evidenciámos é que o hebreu esteve preso desde 10 de janeiro de 1704 até 12 de setembro de 1706.
E como saiu elle do carcere? Absolto? Penitenciado? As feras das cavernas da santa casa esphacellaram-lhe as carnes? Deixaram-lhe ao menos o coração com algum sangue, aquelle coração de vinte e oito annos, para ainda se restaurar de encontro ao seio reparador d'uma esposa, que o anjo dos desamparados lhe houvesse entreluzido nas trevas da sua masmorra de seiscentos dias e seiscentas noites?
IV
Resposta
Abrira-se em ondas de luz o céo da manhã d'aquelle dia 12 de setembro de 1706.
Dobraram os sinos de S. Domingos. Apuzeram-se os folheiros cavallos das reaes cavallariças ás berlindas cosidas em oiro. As variegadas librés dos aulicos e ministros enfileiravam-se processionalmente depóz os coches do filho de D. João IV. Ia grande movimento e alvoroço nos mosteiros. Serpejavam innoveladas as multidões que desciam da cidade alta para o escampado do Rocio. O tanger dos sinos era de morte; mas o dia era de festa, festa da egreja triumphante, festa d'um auto da fé.
D. Pedro II e seus filhos apearam no alpendre do templo de S. Domingos; e em meio de filas de fidalgos, de frades, de desembargadores, caminharam mesuradamente por entre as naves, até se assentarem na sua alterosa tribuna, a tudo sobranceira, salvo á tribuna dos inquisidores, que era a primaz n'aquelle espectaculo satanico da piedade.
Para que tudo fosse egregio, até o prégador no auto da fé de 1706 era um dos mais doutos e famigerados interpretes dos evangelhos, sobre ser um dos mais abalisados escriptores de seu tempo. Nem mais nem menos que o reverendissimo padre mestre, geral da congregação de S. João Evangelista, chronista-mór de sua ordem, qualificador da inquisição, examinador das ordens militares, e, para em breve o dizer, sacerdote de tantas partes que, nem solicitado por D. Pedro II, aceitára o bispado de Macau. Já sabe o leitor curioso que se trata do padre Francisco de Santa Maria, author do _Ceu aberto na terra_, da _Aguia do Empireo_, da _Saphyra veneziana e Jacintho portuguez_, do _Anno historico_, de muitos volumes de sermões, todos esplendidos, todos laureados, todos christianissimos; mas nenhum tão esplendido, tão laureado, tão christão, como este que sua reverendissima vae hoje prégar no auto da fé, em presença de Suas Magestades e Altezas. Este episodio da festa explica as tumultuosas enchurradas do povo, que confluem da cidade alta á praça do Rocio: aquillo é gente que, a um tempo, fareja com delicias o fartum dos corpos que vão ser queimados, e aponta as orelhas pias para não deixar perder minima palavra da ungida oração de padre Francisco.
A procissão dos condemnados é longa. São mais de cincoenta, homens e mulheres, os que vão padecer ou galés, ou desterro, ou prisão perpetua, ou garrote e fogueira, ou a fogueira em vida. D'estes ultimos ha cinco, tres homens e duas mulheres, _relaxados em carne_, como rezam as sentenças.
Dois homens e as duas mulheres dão visos de já levarem obliterada a memoria da vida que deixam. Vão amparados nos braços dos officiaes do santo officio agonisando a espaços ancias soluçantes que lhes ressumbram á fronte um suor glacial. Entre elles, porém, caminha firme, direito, altivo, com a sua tocha de cêra verde na mão, e a samarra e a carocha pintalgadas de demonios e fogueiras, um moço de vinte e oito annos, gentil de sua pessoa, sem embargo da lividez cadaverosa de dois annos de carcere. É Heitor Dias da Paz.
O promotor da inquisição subiu á sua tribuna. Ao fim de quatro horas de leitura de cincoenta e tantas sentenças, indigitou o hebreu de Villa-Flôr. Dois esbirros com o alcaide do santo officio ladearam o moço, e conduziram-n'o a ajoelhar-se em frente da mesa sobposta á tribuna.
E o promotor leu o seguinte:
«Accordam os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisição[5] que, vistos estes autos, culpas, confissões e declarações de Heitor dias da Paz, christão novo, estudante de medicina, filho de Francisco Moraes Taveira, mercador, natural de Villa-Flôr, reu preso que presente está, porque se mostra que sendo christão baptisado, e como tal obrigado a ter e crer tudo o que tem, crê, e ensina a santa madre egreja de Roma, elle o fez pelo contrario vivendo apartado da nossa fé catholica, tendo crença na lei de Moisés, e fazendo em observancia da dita lei jejuns judaicos, estando nos dias d'elles sem comer nem beber, senão á noite depois de sair a estrella, ceando então coisas que não eram de carne, e deixando de comer a de porco, lebre, coelho, gordura e peixe sem escama, e guardando os sabbados de trabalho, vestindo n'elles camizas lavadas, e os melhores vestidos, começando a guarda d'elles da sexta feira á tarde.
«Pelas quaes culpas, sendo o reu preso nos carceres do santo officio, e com caridade admoestado as quizesse confessar para descargo de sua consciencia e bom despacho da sua causa, disse que o que tinha que dizer e declarar (sem o ter por culpa, antes por bom e necessario á sua salvação) era crêr firmemente em Adonai, Deus de Abraham, Isac e Jacob, assim e da maneira que o manda a lei de Moisés.
«E vendo-se na mesa do santo officio a cega e obstinada determinação do reu, lhe foi dito que considerasse bem a resolução que tomava em se não querer apartar da crença da lei que seguia, e como ia mal encaminhado em querer persistir na lei de Moisés, por que já n'ella não havia nem podia haver salvação, por ser acabada pela vinda de Christo, Jesus, senhor nosso e verdadeiro. E foi de novo admoestado tornasse sobre si; e, conhecendo seus erros, se apartasse d'elles, e se convertesse á fé catholica que tem, crê e ensina a santa madre egreja de Roma, cujo filho elle era e professára no baptismo, e confessasse inteiramente suas culpas, pois isso era o que lhe convinha para salvação de sua alma, e para se poder usar com elle da misericordia que a santa egreja costuma conceder aos bons e verdadeiros confitentes.
«E por tornar a dizer e affirmar com animo endurecido e obstinado, não só n'aquella sessão, mas em outras muitas que com elle se tiveram, afim de sua reducção, que não se queria apartar da crença da lei de Moisés, que seguia, antes estava prompto para dar a vida por ella:
«Veiu o promotor fiscal do santo officio com libello criminal e accusatorio contra elle, que lhe foi recebido; e se lhe disse que pois perseverava ainda na crença de seus erros com obstinação e contumacia, estivesse com seu procurador e lhe désse conta do estado de sua causa, e lhe pedisse o aconselhasse no que mais lhe convinha, e por elle respondesse ao libello da justiça, para que, guardados os termos de direito, se podesse continuar sua causa.
«Estando com o dito procurador, contestou o libello pela materia de suas declarações, e não quiz usar de defesa, pelo que foi lançado da com que podia vir, e ratificadas as testemunhas da justiça, se lhe fez publicação de seus depoimentos, conforme ao estylo do santo officio, a que não veiu com contraditas, pelo que foi lançado d'ellas. E estando outra vez com seu procurador para lhe formar os interrogatorios que quizesse, para serem reperguntadas as testemunhas que tinha contra si não veiu com ellas, dizendo que era desnecessaria diligencia, pois elle estava declarado e affirmativo profitente da lei de Moisés; e, como a não negava, não havia para que impugnar os depoimentos das testemunhas. E n'este acto escreveu um papel que declarou ser o assento que tomava em sua causa, e começava pelas palavras seguintes:--_Perditio tua, Israel, tantu modo in me auxilium tuum, inquit Dominus_.
«E logo continuava dizendo que elle reu não só não deixava a crença da lei de Moisés; mas se declarava crente e professor d'ella pelo theor dos termos dos autos, e queria ficar em juizo com a crença da lei de Moisés, na fórma seguinte, declarando: Que cria em um só Deus verdadeiro, e que este era o de Israel, o Deus dos patriarchas e prophetas, que fez o céo e a terra, e fez pacto com Abrahão, e deu lei a Moisés, e poz por primeiro preceito d'ella: _Non habebis alios Deos preter me_. E, como tal, tinha por damnada crença o christianismo, e por tal a excluia, abjurava e renunciava, e ainda qualquer signal e caracter d'ella. E assim elle reu, sem mais processo, queria ser julgado por apartado da fé e por passado á crença da lei de Moisés, mostrando que a differença que havia entre uma e outra coisa era adorarem os judeus sómente a Deus verdadeiro, e adorarem os catholicos o demonio; dizendo tambem e accrescentando ás ditas declarações algumas subtilezas e subterfugios cavilosos, com os quaes se colhia ser o reu verdadeiro judeu e professor da lei de Moisés.
«E sendo o reu chamado á mesa do santo officio, e n'ella perguntado se o dito papel em que se continham as ditas declarações era por elle escripto e assignado, e, se o que n'elle se continha era o que elle reu entendia e cria, e por elle queria se estivesse em juizo: respondeu que sim, e por aquellas declarações queria ser julgado; e sendo, advertido que fizesse genuflexão, e reverencia á imagem de Jesus Christo crucificado, que se lhe mostrou, e o inquisidor que o processava repetidas vezes lhe apontou, nunca o reu quiz ajoelhar nem olhar para a sagrada imagem, mostrando grande rebeldia e dureza de animo; e sendo de outras vezes mandado jurar pelos Santos Evangelhos nunca o quiz fazer, nem assignou mais papel algum onde visse escriptas as palavras _santa inquisição_.
«E pelo reu foi dito que não queria mais procurador nem mais interrogatorios; por serem desnecessarias mais diligencias, visto que elle já de si dissera ainda mais do que as testemunhas contra si tinham deposto.
«E continuando-se o processo da sua causa, se procurou em todo o discurso d'ella mostrar ao reu o caminho da sua salvação e engano dos seus erros, persuadindo-o á obrigação que tinha pelo baptismo a ter e crer na fé catholica, captivando o entendimento em obsequio da mesma fé, e dar credito nas materias de consciencia e religião ás pessoas que lhe foram dadas para o encaminharem; porque ainda que elle reu tinha algumas letras, não havia professado as divinas, e como tal não podia explicar as escripturas sagradas, nem entendel-as como entendiam os religiosos letrados com quem havia estado, fiando elle mais do seu proprio entendimento que dos outros, sendo elle n'esta materia ignorante e os ditos religiosos letrados, de quem se havia de haver por convencido, pois não tinha fundamento algum para permanecer na crença da lei de Moisés, que seguia, e por tornar a dizer que se reportava ás protestações de sua crença contheudas nos papeis que havia escripto.[6]
«E lhe foi dito que ainda estava em tempo de melhorar sua causa, se sem embargo da obstinação de que até alli tinha usado, desistisse d'ella, e, arrependido de seus erros, os confessasse com taes mostras e signaes de arrependimento que se podesse entender que elle reu, de puro e verdadeiro coração, se reduzia á nossa santa fé catholica, de que tão cega e obstinadamente vivia apartado, para se poder usar com elle da misericordia que a santa madre egreja costuma conceder aos bons e verdadeiros confitentes; que de contrario se seguia infallivelmente o risco de ver sua pessoa no mais perigoso e miseravel estado que se podia imaginar, e o que mais era para sentir, a certeza de condemnar sua alma ás irremissiveis e eternas penas do inferno.
«E pelo reu foi dito que das sessões, que lhe foram feitas na inquisição e dos conselhos que lhe deram as pessoas que por ordem da mesma inquisição haviam estado com elle reu, afim de o reduzirem á crença dos christãos, tinha entendido o perigoso estado de sua causa, e o risco a que estava exposta sua vida; porém que, sem embargo da perda d'esta, não podia largar a crença que seguia, emquanto lhe não propunham razões mais concludentes para se persuadir e apartar-se da lei de Moisés.
«E visto como o reu se não quiz haver por convencido de seus erros, havendo-se dado solução verdadeira ás duvidas que propunha, sendo por tão repetidas vezes admoestado na mesa do santo officio com summa caridade, paciencia e brandura; e, sendo visto seu processo na mesa do santo officio, se assentou que o reu pela prova da justiça e sua mesma confissão e declaração estava convencido no crime de heresia e apostasia, e como herege apostata de nossa santa fé catholica convicto, confesso affirmativo e profitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente foi julgado e pronunciado, e finalmente citado para ouvir sua sentença, pela qual estava relaxado á justiça secular. O que tudo visto e bem examinado:
«_Christi Jesu nomine invocato._ Julgam, pronunciam e declaram o reu Heitor Dias da Paz por convicto, confesso variante, e affirmativo profitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente, e que incorreu em sentença de excommunhão maior, em confiscação dos seus bens para o fisco e camara real, e nas mais penas em direito contra similhantes estabelecidas, e como herege apostata de nossa santa fé catholica, convicto, confesso affirmativo, publico profitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente o condemnam e relaxam á justiça secular, a quem pedem com muita instancia se haja com elle benigna e piedosamente, e não proceda a pena de morte e effusão de sangue.»
* * * * *
Heitor Dias da Paz, lida aquella ultima clausula da sentença, fitou penetrantemente o semblante do promotor e riu-se. Os esbirros mandaram-no levantar-se, e beijar um dos doze missaes que decoravam a ampla mesa sotoposta ao estandarte de S. Domingos. O hebreu levantou a fronte com arrogante desprezo, e disse em voz que se fez ouvir na tribuna real:
--Não quero!
Fez-se um borborinho de piedosa ira na egreja. Esta agitação foi de subito applacada pelo apparecimento de fr. Francisco de Santa Maria no pulpito.
Reinava já sagrado silencio, quando o geral dos loyos, e venerado author do _Anno historico_, trovejou estas palavras do texto: _De malo ad malum eggressi sant, et me non cognoverunt, dicit Dominus_[7].
V
A piedosa eloquencia do frade
O leitor, que veio tarde a este mundo para poder gosar o espectaculo de um auto da fé, póde ser que não faça cabal juizo da peça chamada o discurso da festa, e entenda que vem aqui opportuno o ensejo de se lhe dar alguma noticia do sermão de 1706, por ser elle do ascetico e sapientissimo auctor da _Aguia do Empyreo_. Póde ser que ainda a muitos curiosos d'estas christãs leituras o sermão de fr. Francisco de Santa Maria seja desconhecido, por que é já rarissimo. A meu vêr, a maior parte da edição arrebataram-n'a da terra os anjos, como coisa do céo! Dos exemplares que escaparam tenho eu um, que é a minha vaidade de bibliomano e a minha edificação de devoto.
O prégador, no exordio, propõe-se demonstrar tres pontos: primeiro, que o Messias veio; segundo, que o Messias é homem e juntamente Deus; terceiro, que o Messias, homem e Deus, é Jesus de Nazareth, crucificado por aquelles, ou pelos antepassados dos judeus que estão presentes. Depois do que, implora a intercessão da sacratissima Virgem, e começa.
Eis-aqui um lanço que nos move a favor do geral da congregação dos Evangelistas:
«Comvosco fallo, ó infelizes filhos de Israel, e tomo para testemunha a Deus todo poderoso, que não é o meu intento insultar-vos, ou affrontar-vos em coisa alguma, nem tenho ou levo outro fim n'esta acção, mais que a maior gloria de Deus, a defensa da verdade, o triumpho da fé, o remedio da vossa cegueira, a salvação da vossa alma; e, se acaso com a força do dizer, proferir alguma palavra que vos offenda, desde aqui vos peço perdão d'ella pelas entranhas da misericordia do verdadeiro e altissimo Deus.»
Heitor Dias da Paz levantou de sobre as pinturas diabolicas do san-benito os olhos serenos ao rosto do padre Francisco de Santa Maria. Esteve-se quêdo alguns segundos n'aquella contemplação, e sorriu-se, a tempo que o orador, compungido em fervores de caridade, balbuciava aquellas expressões, que o leitor pio leu commovido.
Varias pessoas honestas, que viram o sorriso do hebreu, disseram umas ás outras:
--Veremos á tardinha se o marrano se ri na fogueira...
O orador, no emtanto, ia proseguindo na demonstração dos seus tres pontos, que foi completissima, sem deixar brecha á mais especiosa contestação.
Heitor, a cada conclusão triumphante do padre, sorria; e, por pouco não desfechava uma casquinada provavelmente sandia, quando o orador, repulsando a pecha de idolatras com que os hebreus malsinam os catholicos, argumentou d'esta sorte: «E como é possivel que, sendo nós idolatras ha tantos seculos, e sendo vós ha tantos seculos cultores do verdadeiro Deus; sobre vós ha tantos seculos que chovam os castigos, e sobre nós os favores? Sobre vós os castigos! Bem o vêdes, pois vos vêdes ha tantos seculos sem patria, sem honra, sem rei, sem patriarchas, sem prophetas, sem capitães, sem juizes, sem sacerdotes, sem templo, sem altar, sem sacrificio, sem liberdade. Nós os christãos tudo isto temos. Pois que? favorece Deus tanto aos idolatras, e castiga tão rigorosamente aos fieis?»
O impulso de riso do judeu, a meu vêr, procedeu da respeitavel ignorancia do padre quanto ás regalias de que os sectarios de Mafoma se estavam saboreando em porção do mundo sublunar muito mais larga e comprida que a porção alumiada pelo christianismo. Quereria, talvez, o israelita, sem embargo de se lhe estarem alcatroando as achas da fogueira, perguntar ao loyo se os mahometanos, apezar da bruteza e crassa estupidez de sua fé, eram menos felizes terrealmente fallando que os nazarenos. Ora, como o goso de questionar lhe seria amordaçado, se elle abrisse a bocca indignada, o judeu desafogou-se n'aquelle rir parvamente heretico. O caso, porém, não fez levemente titubar o impassivel prégador.
Ia discorrendo o padre Francisco pelas provas dos milagres; e veio ao ponto de asseverar que Deus não obrara milagre algum em confirmação da lei de Moysés. D'isto a prova mais insinuante que o douto prégador desfechou dos labios inspirados está no seguinte argumento:
«Todos, ou quasi todos os annos vão muitos de vós ao patibulo, e sendo diante dos nossos olhos pasto á voracidade do fogo, nunca se viu em algum de vós algum prodigio. Que é isto? Assim deixa Deus a verdade escurecida e humilhada?... Agora já o fogo vos não tem respeito? Já a chamma lavra em vós como em madeira secca?»
Heitor Dias não sorriu então: caiu-lhe mortalmente angustiado o rosto para sobre o peito. As palavras do sacerdote de Christo levaram-lhe ás carnes o calefrio horrendo das dôres que o aguardavam para o fim d'aquelle dia: como que sentiu as linguas de fogo a tocarem-lhe o peito, e a suffocação da fumarada da fogueira.
Demonstrados os tres pontos da oração com quanta lucidez se esperava de tão conspicuo sujeito, o author do _Céo aberto na terra_ apostrophou primeiro os confessos, depois os relapsos, e por derradeiro o unico profitente que era Heitor.
Aos confessos dava os emboras, e pedia-lhes pelas entranhas de Nosso Senhor que perseverassem.
Aos relapsos disse: «É verdade que já não podeis livrar a vida temporal; mas é certo que podeis assegurar a eterna... Morrer é natural: morrer affrontosa e violentamente é desgraça; mas sobre tudo isto, salvar a alma, é a maior ventura. Oh, que felizes sois, digo outra vez, se sabeis emendar com os acertos da morte os desconcertos da vida, e se vos dispondes com verdadeira fé e verdadeira contrição para a ultima hora!»
Que bom homem aquelle! O garrote e a fogueira eram indispensaveis á caridade e misericordia do Senhor; mas que montava isso? _Morrer é natureza_; morrer em colchão flacido ou em cama de brazas vivas é uma e a mesma coisa: é natureza; mas o importante alli para o caso já não era o ir-se um homem de este mundo ao outro por effeito d'um feroz homicidio: a questão era segurar a vida eternal, e essa estava arranjada, logo que os relapsos, á ultima hora, se entendessem com Deus uno e trino.