O Olho de Vidro

Chapter 2

Chapter 23,856 wordsPublic domain

Prevaleceram as judiciosas previsões de Francisco Luiz. Áquella hora, de feito, já Fernão Cabral, esporeado pelo odio, apertava novas diligencias para descobrir o rasto dos fugitivos, e, mediante disfarçados espias que na Guarda lh'os andavam furoando, não estava já longe de lhes descobrir o rasto.

Ao outro dia, depois de muito chorar da mãe, a cujo seio arrancaram a creancinha, Francisco Luiz, sem saber como se estancavam lagrimas de tão puro sangue de alma, fugiu para assim dizer com o menino, sem esperar as ultimas despedidas.

Ao anoitecer d'este dia, os consternados paes, por serranias não trilhadas endireitaram ás fronteiras e vingaram entrar em Hespanha. Contemplavam-se a espaços, e viam nos olhos um do outro o desconforto, a desesperança, o convencimento de que sua desgraça ia crescendo.

--E o nosso filhinho?...--dizia ella em gemidos, que pareciam um arrancar da vida.

E elle cobria o rosto com as mãos, arquejava, engulia as lagrimas e não respondia.

--Que mal fizemos em deixar a creancinha!--voltava ella, cruzando os braços sobre os seios, que lhe doiam entumecidos do leite.--Que ruim mãe eu fui!... Meu Deus, perdoae-me que eu sómente agora considero a grandeza do meu crime!

--Não chores assim!--atalhava o attribulado moço. Pois como andarias tu fugitiva com um filhinho de tres semanas! Ó Maria, por Deus te peço que nos não atormentemos! Ajuda-me a ser homem! Ampara-me, pela boa sorte do nosso filho te rogo que me ampares! Volta ao futuro os olhos de tua alma! Esperemos... luctemos, sejamos fortes, não nos deixemos acabar aos golpes d'esta saudade.

I

Informações

Corria o anno de 1697.

Francisco Luiz d'Abreu, doutor em medicina, mudára sua residencia para Coimbra, esperançado em entrar no magisterio, conforme lh'o promettiam sua capacidade, vasto saber e creditos. Tinha casado, quatro annos antes, com Francisca Rodrigues de Oliveira, filha de abastados judeus de Ourem. Não tinham filhos; mas dos braços de um ao outro saltava um menino de cinco annos, chamado Braz, acariciado com blandicias de filho. A creança tratava de padrinho o doutor, e á senhora chamava mãe. A esposa do medico, privada do goso de se ver assim amimada nos labios de anjo desentranhado de seu seio, jubilava de lhe ouvir aquelle doce nome de mãe, e toda se estremecia de maternal ternura chamando-lhe seu filho.

Grande numero de pessoas relacionadas com Francisco Luiz, presumia que o pequenino Braz era filho natural d'elle, e que Francisca de Oliveira, bem que israelita e perfida ao sacramento do baptismo, alojava no peito entranhas tão christãs que levara para sua companhia o menino, e lhe queria até á extremidade de lhe chamar filho, e consentir que elle lhe chamasse mãe.

Exceptuada a amoravel esposa do doutor, ninguem sabia em Portugal quem fossem os paes d'aquella creança. A ama, que a tinha amamentado, morrêra; e a pobre gente, que lhe assistira ao nascimento, ignorava o destino d'elle.

Um dia, como a creança, antes de ir-se á cama, entrasse a beijar a mão do padrinho, Francisca beijou-a nas faces, e disse-lhe:

--Não tornes a chamar padrinho ao teu amigo; chama-lhe pae, sim, Braz?

--Pois sim, mãesinha--disse a creança, e saiu pela mão da creada.

Francisca proseguiu:

--Pois não é assim melhor?! Acabamos de nos convencer que elle é nosso filho.

--Ó menina, respondeu o marido--esse convencimento parece-me difficil...

--Nosso filho gerado no coração...--tornou ella.

--Isso lá, sim; d'esse modo já eu o perfilhei; mas o peior é que ámanhã podem apparecer ahi umas entranhas menos phantasticas do que a tua maternidade de coração a reclamarem o que é seu legitimamente.

--Pois tu cuidas que elles voltam cá?! Podes ainda imaginar que elles vivem? Ha tres annos que não temos uma carta d'elles!

--Mas tambem não recebemos a certidão de obito.

--Pois sim,--redarguiu Francisca--mas, se elles vivessem, as pessoas de Hollanda, a quem tu tens pedido tantas vezes novas d'elles; não t'as dariam, ainda mesmo que lhe não soubessem os verdadeiros nomes?!

--Acho-te razão; porém, custa-me a crer que elles tenham morrido ambos. O mais certo é o que eu tantas vezes te tenho dito...

--Que Fernão Cabral tem recebido as cartas que elles te escrevem?

--Sim.

--Não creio. Tu recebes cartas de Amsterdam, de Londres e de toda a parte. Se te subtrahissem umas, iam todas, homem. Cá, ninguem me tira a mim da cabeça, que elles morreram em naufragio, ou os sicarios do fidalgo os mataram lá por fóra, ou... quem sabe?... a tamanho apuro de desgraça chegariam, que se dessem a si a morte, como no seculo passado succedeu com tantos irmãos nossos.

--Póde ser--obtemperou Francisco Luiz;--mas teriam coragem de matar-se uns paes que deixavam esta creança?!... Não é possivel! A ultima carta, que recebi de Antonio, aqui está--disse elle, tirando-a do segredo de uma gaveta--é de 4 de outubro de 1694. Escreve-me de Marselha. Não se queixa de mingua de recursos. Revela uma certa seguridade de espirito, que é signal de boas avenças com as miserias da vida. Diz que está em arranjos com alguns hebreus, filhos e netos de portuguezes, para se trasladarem com suas familias para uma colonia franceza, que, diz elle, talvez seja a de S. Domingos. Promette escrever-me quando se houver definitivamente resolvido, e depois...

--Mais nada--atalhou Francisca--Ora, no Canadá, já sabemos que elles não estão. N'outras colonias, tambem tu já sabes que ninguem os viu. Que havemos de pensar d'isto? Que se ha de suppor depois do silencio de tres annos?

--Que as cartas me são roubadas--insistiu o doutor.

--E tu a teimar, homem!... Oxalá que eu me engane; mas, se adivinho, Deus sabe que o menino está amparado, e que ha de ser sempre meu filho, ainda que o senhor me dê muitos filhos.

--Suicidarem-se!--proseguiu Francisco de Abreu, que parecia, de absorvido em suas cogitações, não ouvir a esposa--Suicidarem-se não póde ser... Antonio Mourão graduou-se em medicina em Paris ha quatro annos, e de lá passou para Hollanda. Um medico não chega a encarar com tão feia miseria que lhe quebre o animo, ao extremo de o anniquilar. Antonio em qualquer parte acharia pão, ainda que fosse máo physico; porém, com os talentos d'elle, não posso conceber máo medico. Seja o que fôr, Francisca. Eu espero ainda haver novas por alguns hebreus de Marselha. Hei de perguntar em que época e em que navios sairam colonos, e para onde sairam. Não o fiz até agora por medo que as minhas cartas andem espiadas, e vão dar ás mãos de Fernão Cabral. Mas vou escrever ao nosso amigo Francisco de Moraes Taveira, que está em Lisboa de viagem para França, e pedir-lhe que indague quanto poder dos nossos irmãos de Marselha o destino dos colonos, com os quaes saiu Antonio de Sá Mourão.

Francisca entrou á alcova do menino, e sentou-se-lhe á beira do catre a contemplal-o adormecido em sonhos, que lhe sorriam, a espaços, na rosa entre-aberta dos labios.

Francisco Luiz de Abreu ficou escrevendo largas paginas ao seu amigo Francisco de Moraes, hebreu abastadissimo de Villa Flor, commerciante de pedras preciosas, que traficava nas principaes cidades de Europa e Asia.

Na volta do correio, Francisco de Moraes asseverou ao doutor que chegado a França, iria indagar pessoalmente a Marselha, e não pouparia despezas com os informadores que o satisfizessem. E, por esta occasião, lhe noticiava que fazia conta de trazer de Hollanda seu filho Heitor, que lá se estava educando em humanidades com seus tios, para estudar medicina em Coimbra; e, a tal respeito, accrescentava: «Não sei se érro em trazer o rapaz para Portugal; mas a mãe insta, chora, e definha-se a termos que receio que me ella morra. Seja o que Deus quizer. Aconselhar-lhe-hei o que lhe cumpre fazer, e espero que elle, por obediencia e desejo da vida, me attenda.»

Francisco Luiz deu-se logo pressa em pedir ao hebreu que não trouxesse para Portugal, como victima amarrada para o açougue, o pobre rapaz que lá fóra vivia sem receio da polé e da fogueira. Pintava-lhe, sem encarecimento, os perigos que ameaçavam em Portugal um rapaz creado e educado entre israelitas doutos, e com elles affeito a dizer alto e destemidamente o seu pensar em coisas de religião. Recordava-lhe as numerosas victimas da inquisição, que preferiram morrer a desconfessar sua fé, antepondo a gloria do martyrio da idéa herdada de avós á hypocrisia de aceitarem apparentemente a religião dos carniceiros filhos de Domingos de Gusmão. Lembrava-lhe a sublime coragem de Manuel Fernandes Villa Real, consul portuguez em Paris, e, não obstante, garrotado e queimado na praça da Ribeira em Lisboa no anno de 1652. Lembrava-lhe o lente de Coimbra Antonio Homem, queimado em 1624, e o advogado Miguel Henriques da Fonseca, Pedro Serrão[3] e outros, cuja inflexibilidade de caracter, comquanto perpetuasse honrada memoria, lhes custou affrontosissima morte, e deixou aberta por muito tempo amarga torrente de lagrimas.

As reflexões do medico abalaram o judeu; mas não lhe demudaram a tenção. Era Heitor, filho unico, herdeiro de grandes haveres; queria voltar á patria, onde o chamavam saudades de menino; tinha por si as lagrimas e instancias da mãe; promettia ser discreto e hypocrita; queixava-se do clima de Hollanda e de febres quartans. O pae era sósinho a querel-o afastado de Portugal, e assim mesmo andava em lucta comsigo mesmo, até que deliberou trazel-o de volta da sua excursão mercantil a França e outras nações.

De Marselha escreveu Francisco de Moraes informando o seu amigo Abreu. Dizia que Antonio de Sá Mourão, convidado com grandes lucros a ir estabelecer-se como medico no Canadá, ou Nova França, aceitara a proposta, e embarcara com sua mulher, resolvido a enriquecer-se no prosperado trafico dos pellames. Ajuntava que um dos tres navios, carregados de colonos, batido pela tormenta, se esgarrara do rumo, e fôra a pique na costa de S. Domingos, a tempo que duas galeotas de flibusteiros, conhecidos como _demonios do mar_, na linguagem da peninsula britannica, faziam aguada n'uma bahia d'aquella infamada costa, onde poucos annos antes haviam naufragado tres naus francezas, capitaneadas pelo audacissimo colonisador Robert Cavalier de la Salle. Ajuntava o informador que n'aquelle navio perdido iam fatalmente o medico e sua mulher, com muitas pessoas das mais graudas da colonia, algumas das quaes se presumia que tinham caido nas mãos dos flibusteiros segundo informações de um galeão hespanhol, que das pessoas embarcadas no navio perdido, até áquella hora, não viera noticia a França.

Francisco d'Abreu, lendo a carta, disse á esposa.

--Tinhas adivinhado desgraçadamente! O nosso Braz já não tem pae nem mãe. Agora podemos dispor do futuro d'esta creança. Vê tu que funesto remate houveram aquelles amores do meu pobre Antonio! Já não ha duvidar... Estão mortos! Batam as mãos os gallileos, e folguem de ver que vingaram as ondas o que as lavaredas não poderam! Oh!... que vontade eu tenho de banhar o rosto d'este menino com as minhas lagrimas, e contar-lhe as desgraças de seus paes.

--Não--atalhou Francisca--não lhe digas nada; não digas! Que lucra elle em saber isso?... Vaes semear-lhe no coração odios e paixões que, no futuro, lhe podem ser a sua perdição. Nem se quer lhe digas em tempo algum que seu pae era judeu. Quebremos-lhe, se podermos, este condão funesto!

II

Não era mãe!...

No seguinte anno de 1698, o doutor Abreu, que nunca se descuidava de ter o ouvido fito aos rumores surdos da inquisição, recebeu mui secreto aviso de algum condiscipulo, que devia ser familiar do santo officio, qualidade com que o maior numero de medicos d'aquelle tempo se nobilitava; e tanto assim era, que algum medico, privado d'ella, dava a entender que pertencia mais ou menos á seita maldita; ou, como diziam, tinha uma, duas ou tres partes de judeu. O aviso mandava-o aperceber-se para trabalhos grandes.

Alvoroçado com a pavorosa nova, o doutor quiz logo sair da patria, e refugiar-se em Damasco, onde tinha um tio que exercitara em Portugal a profissão de boticario, no Fundão, até ao anno de 1652, em que fôra queimado o capitão Manuel Fernandes Villa-Real. Chamava-se o fugitivo Pedro Lopes.

Impediram-lhe ao doutor a precipitada fuga alguns parentes e amigos, que podiam bastante com os promotores do santo officio; recommendando-lhe, porém, que visitasse as egrejas com frequencia, e désse bem publicas demonstrações de sua piedade.

Assim o cumpriu o doutor Francisco Luiz, bem que sua mulher mui violentada se prestasse a uma ostentação hypocrita, da qual a credula israelita se penitenciava com muitos jejuns e orações.

Decorridos mezes, fez-se auto da fé, e n'elle saiu condemnado a prisão illimitada um Fernão Vaz Lucena, parente do doutor. A maxima culpa d'este christão novo era o ter-se descaminhado e caido nas mãos dos inquisidores uma carta em verso, que Pedro Lopes, tio de Francisco Luiz d'Abreu, lhe escrevêra de Damasco. Esta carta indirectamente ameaçava a tranquillidade do lente de Coimbra; e, por amor d'ella, se formara a tempestade em que os amigos do lente viam ao longe o raio, o qual urgia conjurar com visitas aos templos e tregeitos bem publicos de piedade.

Que perversa e impia carta seria aquella, em que os inquisidores acharam motivo para condemnarem Fernão Vaz Lucena a carcere perpetuo? N'um velho manuscripto que possuimos, chamado _Memorias de Francisco Soares Nogueira_, encontramos trasladada a carta, cuja copia não vem descabida ao ponto; e, se mais não vale, tem por si o merito de nos dizer como os boticarios hebreus conciliavam as letras amenas com a manipulação dos ingentes xaropes d'aquelle tempo, posto que nem sempre conciliassem a inspiração com a contagem das syllabas, segundo a arte poetica.

Dizia assim a carta:

Oh Fernando, oh Fernando, até quando ha de durar teu descudo, entre o povo torpe e rudo? Que serve estar aguardando? Sabes a banda d'além... e o que convem. Quem se agarra, quem se afferra, deixa o monte, deixa a serra, e ao valle seguro vem.

Não vês como arde esse matto, mentecato, que pouco a industria val? Antes que chegue ao casal, levanta cabana e fato! Não sejas aventureiro, que o toureiro _sim_ (?), morre em seu officio. Mais val ter outro exercicio, que fundar em ser ligeiro. Por que não queres ser forro? Eu morro, por não haver quem te arranque! Se pódes vêr de palanque por que queres andar no corro?

Tambem eu estive lá, e sei o que ha; tudo passei, tudo vi. Não se incerra o mundo ahi; melhor mundo vae por cá; o pão é cá mais ensôsso, e a carne sem chambão; tambem cá se ganha pão, e não com tanto sobr'ôsso.

A gente é cá sem reima, de menos teima; a terra fructos produz, e o sol dá cá mais luz, posto que tanto não queima.

Digo-te verdade mera: considera; e, se queres ter descanço, vem buscar o rio manso, foge do mar que se altera; foge do lago e da cova, cousa nova, e só n'isto me obedece. Mova-te o proprio interesse, quando o grão Deus te não mova; que os lobos como rodeiam sempre pream.

Divulgou-se a carta, depois do auto da fé. O doutor Abreu, assim que a viu, afervorou-se na frequencia de egrejas, batia nos peitos estrondosas punhadas, e ingranzava as contas das camaldulas, de modo que os ouvidos dos devotos podessem contar-lhe os quinze mysterios do rozario. Porém, como se a hypocrisia lhe não désse caução bastante segura, o lente de medicina, emquanto escoava os sonoros bogalhos, scismava no modo de fugir, sem dar ansa aos espias.

Apezar das camaldulas e dos protectores, a inquisição cada vez mais desconfiava da sinceridade do doutor; e o doutor, não menos vigilante que ella, cada hora, habilmente negociava a transferencia dos seus haveres ao estrangeiro.

O pequeno Braz era-lhe empêço. Não sabia elle se devia levar comsigo a creança. O perigo e o medo, concentrando-o no cogitar em salvar-se, tornava-o mais egoista em cuidados de si, e menos pensativo do futuro do pequeno. Francisca de Oliveira, por sua parte, queria muito á creança; mas não era bem o querer e amar maternal: faltava-lhe aquelle sentir-se viver, estremecer e morrer nas arterias do filho. Então lhe seria a ella bom de comprehender que sómente é mãe aquella que sentiu as dôres da maternidade.

--Que ha de fazer-se ao pequeno? onde o deixaremos?--perguntava Francisco Luiz á mulher.

--Se o podessemos levar sem difficuldade...

--Não podemos, por que eu já desconfio que nos será negado o passaporte. Temos de fugir; e escapar com uma creança desembaraçadamente ninguem o faz. Bem sabes que nossos avós matavam os filhos que lhes retardavam e denunciavam a fuga.

--Deixa-se em casa dos nossos parentes--tornava ella.

--Isso é sacrificar os nossos parentes; porque o rapaz é considerado meu filho--observou o doutor.

--Tenho uma boa idéa--ajuntou elle--entreguemol-o a Francisco de Moraes, de Villa Flor, que sabe a historia d'esta creança, e lhe ha de servir de pae com os sobejos da sua riqueza. Não ha tempo a perder. Vou escrever-lhe para Lisboa, e pedir-lhe que me espere por estes quinze dias.

Francisco de Moraes Taveira aceitou gratamente o encargo, tanto por lhe ser offerecido pelo doutor Abreu, como por ser o orphãosinho filho do desventurado israelita, que perdêra provavelmente a vida, quando cuidava ganhal-a com honra.

Desde que a resposta chegou, Francisca, olhando a face carinhosa da creança, chorava sempre. Quanto mais o estreitava ao peito, mais o menino lhe sorria, como se com afagos quizesse mitigar as angustias desconhecidas, que via no rosto lagrimoso de sua mãe. Já ella pedia ao marido que não deixasse o menino; vacillava já tambem o doutor; e, muito instado da esposa e do coração, que a si mesmo se reprehendia, deliberou resolver-se em Lisboa, segundo se lhe figurasse facil ou difficil a passagem para outro reino.

Nas ferias d'aquelle anno, o lente simulou uma jornada a Ourem, sua patria, e foi em direitura a Lisboa. O santo officio de Coimbra reparou na saida, e lançou pesquizas. Informaram-no de alguns processos de liquidação de patrimonios e venda de bens, que o doutor Abreu rapidamente negociára na terra de sua mulher. D'isto foi avisado o inquisidor geral, de modo que já em Lisboa o promotor instaurava processo, quando o lente alli chegou.

Avisado pelo medico mais convisinho dos segredos da inquisição, Francisco Luiz deu-se pressa em sair de Lisboa com destino a Inglaterra. Negaram-lhe passaporte. Aterrado d'esta contrariedade, significativa de maiores violencias, mudou de residencia para casa segura, que lhe dispoz o hebreu de Villa Flor.

A vigilancia dos esbirros estava attenta sobre os navios hollandezes principalmente, e pouco menos sobre quaesquer outros de commercio com portos estrangeiros. Francisco de Moraes, avassalando com ouro a piedade do piloto de uma nau portugueza destinada á India, introduziu no navio o doutor e sua mulher, considerados mercadores e proximos parentes do piloto. As arcas de suas preciosidades entraram com os passageiros; tudo que mais e menos caro lhes era foi com elles, exceptuado o pequenino Braz, que dormia á hora em que elles partiram, e nem acordou ao cair-lhe nas faces as lagrimas dos seus bemfeitores.

Ao amanhecer-lhe o dia seguinte, Braz perguntou pela mãe. Ai! se ella o fosse, não perguntaria o desamparadinho por sua mãe.

Respondeu-lhe um moço de vinte annos, que os seus amigos tinham ido fóra de Lisboa, e voltariam passados alguns dias. A creança chorou em silencio, como quem conhecia que o prantear-se seria desagradecer as caricias que lhe fazia o filho de Francisco de Moraes.

Era elle o mancebo que o hebreu de Villa Flor fôra buscar a Amsterdam.

Heitor Dias da Paz distrahia a creança de seis annos com brinquedos proprios da meninice. Parecia que um ao outro se estavam divertindo. Heitor quiz instituir-se mestre do _a b c_ do pequeno; mas as graças infantis do discipulo encantavam-no por maneira, que era coisa de muito rir vêl-os ambos despegarem do alphabeto para se andarem correndo pela casa no jogo dos esconderêlos.

Dentro em pouco, as lembranças dos fugitivos hebreus eram apenas brevissima tristeza de saudade na memoria de Braz.

Heitor, desejoso de ver a terra do seu nascimento, foi para Villa Flor, e levou comsigo o menino. Francisco de Moraes, por mêdo de que, n'alguma hora, a inquisição lhe quizesse galardoar a astucia no escape do sobrinho de Pedro Lopes, accendendo em honra d'elle as santas rezinas da fé, tratou de sumir-se na sua provincia, dando-se por cançado de amontoar riquezas.

Assim se reuniram em felicidade ainda não experimentada, os paes de Heitor, contando como elemento de sua boa sorte a posse do orphão, que, de muito amado que era, não sentia falta dos seus primeiros amparadores.

III

O faro das bestas-feras

Por espaço de quatro annos se gosou Heitor Dias das doces reminiscencias de infancia, sem querer saber de estudos nem do destino. Os paes não o incitavam a empregar seu tempo em letras que lhe abrissem carreira de gloria. Fechada sabiam elles que ella estava aos hebreus, salvo a das sciencias; folgariam de o ver luzir entre os famigerados Zacutos; mas muito mais se compraziam de o ter entre si a recado de toda a suspeita de inimigos e do perigo de se relacionar com imprudentes amigos.

Decorridos, porém, quatro annos, em 1703, Heitor Dias da Paz pediu ao pae que o deixasse ir estudar medicina a Coimbra, porque lhe era já pesada a ociosidade e desvalia de sua vida. Francisco de Moraes, confiado na discrição do moço, concedeu-lhe licença. Heitor pediu que o deixasse levar com elle o seu irmãosinho Braz Luiz, para, desde os dez annos, o ir encaminhando nos estudos conducentes á carreira da medicina. A generosa lembrança foi applaudida pelos velhos, e o pequeno agradeceu-a com lagrimas de alegria.

Do pupilo ou, segundo as presumpções do vulgo de Coimbra, filho do doutor Abreu, já ninguem se lembrava quando, corridos cinco annos, lá voltou. Heitor a ninguem disse de quem fosse aquelle menino. Apresentava-o como orphão pobrinho, cuja educação elle tomára a seu cargo. O pequeno já tambem mal se recordava dos seus bemfeitores, e quando fallava de algum d'elles, chamando-lhes pae ou mãe, o filho de Francisco de Moraes recommendava-lhe que a pessoas estranhas não dissesse nada do pouco de que ainda se lembrava.

Heitor entrou no primeiro anno da faculdade em artes, depois de ter sido examinado em humanidades. N'este exame, em coisas de grammatica, sciencia que então reunia muitas especies hoje distinctas, o hebreu de Villa Flôr, mais descuidada que intencionalmente, defendeu proposições que destoaram asperrimamente nas orelhas orthodoxas dos examinadores. Sem embargo, deram-n'o como apto, reservando mentalmente o espiarem-lhe os actos com a vigilancia propria de quem quer salvar uma alma em risco de perder-se.

Braz Luiz entrou no collegio de S. Paulo a estudar latinidade com precoce e admiravel entendimento. Causou certo assombro nos frades que liam no collegio a ignorancia do moço em doutrina christã, interrogaram-n'o minudenciosamente sobre o viver da familia que o educara. Braz respondia que os seus bemfeitores resavam, e elle tambem resava por um livrinho de orações. Apresentaram-lhe diversos livros de piedade para que d'entre elles escolhesse o da sua resa. O pequeno sentiu um bate no coração, comprehendeu instantaneamente o perigoso d'aquelle interrogatorio, e saíu-se bem do aperto, indicando o cathecismo de fr. Bartholomeu dos Martyres. Poucos dias volvidos, Braz Luiz papagueava toda a doutrina, dando a entender que apenas lhe fôra necessario recordar o que sabia desde a primeira infancia. Esta esperteza não enganou os mestres. Os primeiros fios da teia entraram logo em urdidura; e já as inquietas consciencias dos frades não levavam as noites d'um somno.