Chapter 11
--E rasgaram as mortalhas--ajuntou o velho de Verdimilho--Pois deixal-as ir. A natureza as defenda, se os aguasis da religião as perseguirem. Deixal-as ir em paz. Falleceram-lhes forças para a continuação do martyrio. Muitas das viuvas do Indostão já hoje se não queimam. É necessario que os preconceitos sejam derrotados uma vez por outra, a ver se alguma hora surge ahi d'este atascadeiro melhor geração, que traga ao mundo a idéa de Deus com bondade. Coitadinhas! Possam ellas chegar onde lhes digam: «Vivei, gosae sem remorsos. O que vos lá ensinaram a dizer na profissão caducou debaixo de outro céo. Pedi, meninas, o coração ás estrellas da noite, ao sol do dia, ás campinas que reflorecem, ás aves que senhoream os ares e pousam a cantar nas mais formosas frondes das arvores. Perguntae ás bellezas e jubilos da natureza, se quem os fez lhes pautou intercadencias de amargura. Vivei, candidas pombas, aquecei-vos ao calor que desentranha o gomo da arvore congelada, e aquece no seio da virgem o sangue palpitante que lhe purpureja as faces. Ide, e escondei-vos no reconcavo das penedias, como as gazellas se escondem do pelouro do carniceiro.» E tu choras?--disse elle com vehemencia, repuchando para si o corpo inerte de Braz Luiz--hei de fallar-te assim com este ar de pae, porque estou a ver-te, creancinha, que, ha quarenta e oito annos, eu tirava dos braços da ama para sentir o goso de te embalar e ver adormecido nos meus. Chora por ti que és muitissimo desgraçado: por ellas não, que eu duvido que haja ahi maior horror que o morrer das outras. Porque não iria eu com tuas filhas á fonte da saude, do bem do corpo e da alma? Porque m'as não déste? Davas dois anjos a este homem de setenta annos, que não tem ninguem que lhe feche os olhos. E, depois, extincta esta luzinha que vasqueja, as tuas filhas aprenderiam nas memorias da minha vida a viverem virtuosas sem religião revelada, a soccorrerem indigentes sem lerem os preceitos da caridade de Confucio ou de Jesus. Mas se m'as não déste, nem por isso descreias da felicidade d'ellas. O amor tem céos e resplendores, que banham de luz as mais tristes almas. O crime d'ellas é coisa tão mal feita á superficie da razão degenerada, que lhes não ha de durar mais na consciencia do que a sentença d'ellas escripta sobre areia. Verdadeiros crimes, diante do juiz incorruptivel, são aquelles de que o senso interior nos condemna.
Prolongou-se a pratica do hebreu. O padre não o ouvia. O que elle parecia escutar era um cavo e muito intimo desfibrar-se-lhe o coração, este envelhecer e morrer que o homem está sentindo a branquear-lhe os cabellos e a ressumar-lhe á face camarinhas de suor de agonia.
Depois despediu-se, e murmurou:
--E adeus! que está consummado tudo!
--Ainda não: viverás mais annos, porque se não é desgraçado como tu és senão em toda a plenitude. Eu é que vou sair d'aqui. É noite fechada. Já não tenho n'este mundo sol que me derreta os gelos de setenta annos.
XX
Parecia christão na morte!
Vinte dias depois, correu nas aldeias circumpostas a Verdimilho, que o velho da ermida estava enfermo.
Abalaram os pobres dos seus cardenhos, e entraram quantos cabiam na cabana do ancião. Os ricos tambem foram com os seus capellães, com os seus padres adscriptos á gleba das missas de _requiem_, com que mercavam barato o paraiso aos seus ascendentes.
O ancião viu uns e outros. Ergueu a cabeça e disse:
--Que entrem sómente os pobres. O espectaculo de um moribundo não convida.
Os pobres, pois, ajoelharam em duas alas, defronte da parede a que se encostava uma barra de bancos, e cada um dizia em silencio as suas orações.
A porta da cabana estava de par em par aberta. O sol da tarde doirava a poeira do interior. A fita luminosa, que ia inclinada em scintillas alumiar a fronte do enfermo, vinha com direcção obliqua e coada por uma abertura do colmo. Os pobres viam n'aquelle raio de pó lucido coisa mysteriosa de bonissimo agouro para a alma do doente.
Appareceu então no limiar da porta um sacerdote, que a gente d'aquellas aldeias venerava como medico do corpo e do espirito. Era o padre Braz Luiz de Abreu.
E como elle entrasse, o povo, que enchia a casinha, saíu, cuidando que o velho da ermida ia confessar-se.
A só com o sacerdote, disse o hebreu com penosa pronuncia:
--Agora é que são as despedidas, amigo. Vieste a tempo, Braz, filho adoptivo de minha mulher, que ha vinte annos me espera. Debaixo do meu travesseiro está um papel escripto de meu pulso; na arca em que te sentas, está o que eu tenho de meu. Cumprirás as minhas disposições...
--E a sua alma?...--atalhou o padre.--É tempo ainda. Salve-se, homem de bem! salve-se...
--Se sou homem de bem, estou salvo--murmurou o judeu.
--Receba com fé os sacramentos da Santa Madre Egreja.
--Ceremonias pagãs... A vida do espirito vae começar. Receba a natureza em seu seio a porção immaterial do meu ser. Descance em perpetua paz este motor interno, que recebia as lançadas da adversidade, a influencia do mal, que os homens geraram. Acabo sem remorsos, sem odios e sem esperanças. Acabo, é o que eu sei deveras. Vou desenganar-me, se errei. Agora, filho, deixa entrar a minha familia. São esses pobrinhos que saíram. Abre-lhes as portas: quero vel-os até á ultima.
Braz abriu a porta, os pobres entraram e o padre ficou entre elles.
O vigario perguntou ao medico e supposto confessor se era tempo de virem os santos oleos.
--Mais tarde, disse Braz Luiz, esperando que o moribundo caído na apathia da extrema hora, insensivelmente recebesse as uncções e assim enganasse a devoção d'aquelle povo. Piedosa impostura, santa fraude, que levava em vista salvar os creditos do padre visitante, e abonar as virtudes do homem que os pobres começavam a beatificar.
Por volta das onze horas, cresceram os trabalhos dos paroxismos. Á meia noite, descaíu o moribundo em lethargia. A respiração era quasi imperceptivel. Saíu o sacerdote a pedir a extrema-uncção, sem impedimento de saber que a boa e sã theologia não dava já nada por aquella alma, embora o agonisante fosse sacramentado.
Quando o vigario, espertado do primeiro somno, chegou, estremunhado e carrancudo, com a ambula á porta da cabana, o padre Braz ajoelhara á cabeceira do moribundo, em adoração ao Santissimo Sacramento. Sondou o pulso do velho da ermida, e disse:
--Expirou agora.
Os pobres cessaram de cantar o _Bemdito_, e levantaram um grande choro, entrando todos a beijar a mão do cadaver.
Se este acabamento de homem, transviado da religião verdadeira e das falsas, não fosse referido em romance, poderia alguem suppor que póde uma pessoa morrer como justo, sem ser absolutamente religioso. Bom é que mortes assim se não divulguem em livros graves.
As disposições do philosopho são faceis de antever. Os seus herdeiros eram aquelles pobres que choravam, e outros que pediam enxerga e remedios na santa casa da misericordia de Aveiro, e tambem os peregrinos que se acolhiam á albergaria convisinha da egreja de S. Braz.
Pois com tantos legados de espirito christianissimo ninguem acreditava que fosse sincero christão um sujeito que entre tantas disposições não applicou missas por sua alma, nem sequer trezentas! O clero estava escandalisado!
Folgavam tamsómente os pobres,--e tanto folgavam que nem já choravam a perda do bemfeitor.
XXI
Como se póde viver!
De causas de todo em todo inversas e entre si repugnantes apparecem effeitos similhantissimos.
O despejo, por exemplo, a coisa hedionda que por ahi se chama cynismo, caleja e abroqueia tão rijamente o homem, que todas as setas da desgraça lhe resvalam do peito. Quando cuidamos vel-o soçobrado, eil-o se apruma a desafiar novas tempestades, e de tormenta em tormenta chega á derradeira edade, e acaba de cachexia, porque as cachexias não se curam com a valentia da alma.
Vejamos agora o justo em tribulações, o christão de tempera pacientissima e refractaria ao desanimo que prostra e mata. As calamidades a choverem-lhe, as injustiças dos homens a pôrem-lhe em duvida a justiça divina--por se dizer que o homem tem fórma e similhança de Deus; elle a abster-se, a amputar-se, a desaggregar-se do bom da vida, e a temperar com fel alguma coisa melhor para offerecer ao céo o amargor d'ella e a reluctação com que a toma, degenerando e estragando tudo que os outros saboream. Eis que umas pessoas queridas lhe morrem; e outras o deixam, quando elle a chorar lhes pedia amparo; fogem lhe e deshonram-n'o; e o christão atira-se aos pés da cruz, queixa-se, mostra as garrochas que o trespassam, os anjos como que baixam a descravar-lh'as; fecham-se as feridas, outras logo se abrem, e elle a exclamar:
«Mais, mais, Senhor!» _Amplius, amplius, domine!_ Este é o christão, o penitente, o stoico setenta vezes santo. Eil-o ahi vae vida fóra, caindo, erguendo-se, pondo peito ao baque da legião que o tenta, esgrimindo a um e outro lado com a cruz, com o hyssope: ora magestoso, ora ridiculo; mas vivendo, vivendo, até aos sessenta, e ávante ainda, n'um viver que se nos figura a mais pavorosa das agonias!
Tal foi Braz Luiz de Abreu.
Quantas vezes o leitor, no decurso d'esta biographia, terá dito: «o homem vae morrer agora!»
Morrer! quando será isso? Ha de ainda viver, depois de tanto veneno que lhe imborcaram, ha de viver dezeseis annos. Dezeseis annos! sósinho! alli em Aveiro, não sei em que rua d'aquellas, em qualquer casa das mais desaconchegadas, a rever na téia da phantasia o rosto da mulher agonisante, das tres filhas mortas, das duas fugitivas, sem que mais aos seus ouvidos soasse o nome d'ellas, nem dos sacrilegos raptores das divinas esposas! E, como elle pôde, em meio d'isto, escrever ainda dois livros, dois grossos manuscriptos, que não sei onde param, um chamado _Feniz Lusa_, referindo a vida e acções do serenissimo infante o senhor D. Manuel, filho de D. Pedro II; e outro intitulado: _Vida e acções do primeiro principe do Brazil para exemplar do nosso serenissimo principe D. José_.[32]
Querem revelação para maiores assombros?
Em 1755, foi aquelle memorando terramoto de Lisboa. O padre Agostinho de Abreu, da companhia de Jesus, ia de Santo Antão para S. Roque, ao começar o tremor. Passava diante de uma casa que se estava derruindo, ouviu os clamores de dentro, entrou heroicamente para arrancar uma velha debaixo da couçoeira de uma porta, e ficou esmagado debaixo do tecto abatido. Já sabem que este jesuita era filho do padre Braz. Pois, quando a nova d'este desastre chegou ao pae, seis dias depois, o velho de sessenta e quatro annos ajoelhou, orou, levantou-se, limpou as lagrimas que lhe tolhiam a leitura do seu breviario, e leu o psalmo _Miserere mei Deus_.
Que morte será pois a d'este homem para que se não diga que houve ahi angustia que podesse com elle? Ha de ser a morte designada pelos seus biographos, a morte que o senhor Innocencio Francisco da Silva lhe assigna: «apoplexia fulminante, a tempo que estava sentado, sobre uma cadeira.»
Eram corridos dez dias de agosto de 1756, quando no convento de franciscanos de S. Bernardino se fechou em sepultura rasa o cadaver de Braz Luiz de Abreu. A memoria de suas mysteriosas desgraças será menos duradoura que o renome de medico abalisado que os contemporaneos lhe celebraram.
CONCLUSÃO
Que destino tiveram aquellas duas freiras que, no dizer do defunto hebreu, rasgaram as mortalhas?
Saibamos quem eram os raptores. Eram uns cadetes de cavallaria, filhos de um Heitor Teixeira de Macedo, capitão-mór de Coimbra, e fidalgo solarengo de Condeixa-a-Nova, muito aparentado com os Chamorros, Marreiros e Matosos, nobilissimos apellidos de familias aveirenses. Hospedados em casa d'estes Chamorros e Matosos é que os Cadetes puderam ver soror Antonia Maria e soror Sebastiana Ignacia. Fazerem-se amados devia ser coisa de pequeno prologo, já porque as duas virgens não tinham das cousas d'este mundo mais experiencia que os anjos, já porque almejavam ser amadas, já porque os dois cadetes eram bizarros moços, galans palacianos, formosissimos demonios, que faziam tremer as calçadas e os corações das damas de Aveiro com a estrupiada dos seus alasões.
O namorarem-se, convencionarem-se e fugirem foi n'um prompto. A justiça, quando tal soube, quiz gritar; mas os Chamorros, Matosos e Marreiros amordaçaram-n'a. Os rapazes já não tinham pae: tinham mãe, uma santa matrona, que era a imagem das virtudes christãs. Appareceram-lhe os filhos, e ajoelharam pedindo recursos para fugirem de Portugal. A tremula e espavorida senhora escutou a historia do criminoso passo. Não amaldiçoou os filhos. Chorou muito; e os velhacos, nas costas d'ella, faziam esgares de grandes farcistas!
A fidalga perguntou onde estavam as freiras. Soube que as tinham escondidas n'uma quinta distante. Quiz vêl-as, porque sabia a tragedia singular da familia do medico.
Por noite alta, entraram as duas meninas á recamara da viuva do capitão-mór de Coimbra. Foram mui benignamente recebidas. Aquella senhora tinha facilidades incriveis! Receber assim duas libertinas esposas do Espirito Santo!
Receiando que fossem presas, antes de irem onde a virtuosa senhora tencionava mandal-as, não as deixou mais saír da sua recamara.
O capellão saíu para Lisboa; e, oito dias depois, estava de volta com muitas cartas para cardeaes e ministros residentes em Roma.
--Podeis ámanhã partir, filhos--lhes disse ella.--Ide a Roma com estas cartas, entregae-as, e tornae com um bom despacho. De volta, podereis ser esposos d'estas meninas, que ficam no quarto de vossa mãe até que volteis.
Os moços olharam-se entre si, e ficaram como aparvados. Olharam para as freirinhas, e viram-n'as a chorar, fingindo que sorriam.
Não havia que replicar. Partiram para Roma.
Estavam em Lisboa ainda, negociando ordens de dinheiro sobre banqueiros romanos, quando foram chamados á pressa por ordem da mãe.
A fidalga adoecêra com todos os symptomas de proxima morte.
--Chamei-vos, disse ella, para que me assistaes ao enterro. Depois, ireis. Agora, jurae sobre estas Horas que cumprireis a minha vontade quanto a estas meninas. Depois de me haverdes sepultado, ireis para Roma, e, obtida a annullação dos votos d'ellas, casareis.
Juraram e cumpriram. A annullação dos votos foi prolongada com inqueritos de testemunhas no convento de S. Bernardino. O padre Braz não favoreceu nem contradictou a annullação.
Ao cabo, porém, de tres annos, Antonia e Sebastiana receberam as bençãos nupciaes em Roma.
Detiveram-se em Roma até 1750. Em 1751 já estavam em Portugal. Não procuraram o pae, porque lhes era odioso o homem, que as atirara com sua mãe e irmãs, vivas, novas e formosas, ao sepulchro de um convento, e lhes dera como flagellos a convivencia de freiras que enfeitavam a sua estupidez com as lantejoulas da hypocrisia, ou da refinadissima protervia de intolerantes. Odiavam por isso o pae, e o lucto, que vestiram por elle, não tinha nodoa de uma lagrima.
Morreram velhas, ignorando que motivo lançara um véo negro sobre o rosto de sua mãe, á hora em que o padre maldito lhe fallára.
Fr. Pedro de Abreu, o frade dominicano, chegou a ser qualificador do santo officio; mas, como quer que o marquez de Pombal apagasse a ultima lavareda do santo officio com o corpo de Gabriel Malagrida, fr. Pedro acabou sem assistir a um auto de fé espectaculoso, como tinham sido os da triumphal egreja, quando os relaxados perfumavam a atmosphera com os aromas dos ossos torrados.
FIM
NOTAS
I
(Pag. 23)
Sobre os nomes referidos dos justiçados pela inquisição
Manuel Fernandes Villa Real, que defendeu contra os Filippes os direitos de D. João IV á corôa de Portugal, e o fez com tamanho engenho, que insinua a legalidade da sua argumentação no livro intitulado _Anti-Caramuel_, veio de Paris a Lisboa, foi logo preso, e em dezembro de 1652 mandado á fogueira com a seguinte sentença, que é um testemunho da magnanimidade com que D. João de Bragança pagava aos defensores da sua legitimidade, perante os estados que o sustentavam no throno ganhado de assalto:
«Accordão os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisição que, vistos estes autos, libello e prova da justiça, author, confissões e defesa de Manuel Fernandes de Villa Real, x n. (christão novo) natural d'esta cidade de Lisboa, morador no reino de França e residente n'esta dita cidade, réo preso que presente está, porque se mostra que sendo christão baptisado, obrigado a ter e crer tudo o que tem, crê e ensina a santa madre egreja, e não ser fautor de heresias, e respeitar e venerar o tribunal do santo officio, e não detrair de seu justo, recto e livre procedimento, elle o fez pelo contrario, jactando-se, depois do ultimo perdão geral, de ser israelita e descendente de prophetas, e tratando com judeus publicos muito familiarmente, e por cartas com um archisinagogo dos judeus de certa parte, tendo e lendo muitos livros prohibidos, e principalmente um de ceremonias e ritos judaicos, o qual deu a certa pessoa, fazendo jejuns judaicos, estando sem comer nem beber em certos dias senão á noite depois de saida a estrella, e fazendo um livro que imprimiu[33] tratando n'elle varios assumptos; um dos quaes era favorecer os que commettem erros contra a fé, persuadindo ser bom meio para estabelecer a fé nos reinos e cidades controversias publicas, approvando por este modo em uma parte os erros publicos, e em outras os occultos, dizendo que os principes não podem impedir os que sem escandalo e máo exemplo vivem em suas seitas, e persuadindo outros que dissimulem os desacatos feitos á religião, reprovando que algum principe altere com rigores, querendo o réo que ainda que falsa se conserve, e mostrando ser da opinião que haja liberdade geral de consciencia, pretendendo sempre que o politico de uma republica se conserve, vivendo cada um na religião que mais quizer, e tendo por escandaloso não admittir aos officios publicos os de contraria religião; e querendo que em nenhum caso possa haver causa para que um principe catholico favoreça os subditos catholicos contra seu rei hereje, nem que haja reparo em soccorrer herejes contra catholicos, e querendo outrosim que a palavra da...[34] aos de contraria religião se observe ainda que seja contra os bons costumes, admittindo que Deus concede aos herejes victorias pela caridade e piedade que exercitam, como se n'elles houvera caridade ou piedade, ou virtude alguma, comparando nas insolencias os catholicos na modestia, admittindo que os de contraria religião, quando se reduzem á catholica, se podem enganar em cuidar que até então iam errados, approvando a condemnação, e censura que em certa parte se deu a certo livro que tratava do poder do summo pontifice, sendo a dita censura errada, em que tira totalmente ao papa um poder em direito aos principes _circa tempo_, _ralia_ ainda quando o principe seja heretico e scismatico e que nunca o summo pontifice possa sujeitar o principe a interdicto ecclesiastico, nem absolver os vassallos do juramento de fidelidade; e que os principes temporaes totalmente são independentes, mostrando pouca affeição á egreja romana, fazendo distincção d'ella á galicana, e preferindo a liberdade d'esta particular á authoridade d'aquella catholica e universal; e sendo outro assumpto do dito livro reprovar o justo, recto e livre procedimento do santo officio, e os castigos e confissões dos culpados pelo crime de heresia, chamando-lhe tyrannico e barbaro, e qualificando estes procedimentos por effeitos do odio, avareza e paixão, dizendo que de cumplices faziam prophetas, e de delictos enigmas, e que por um erro de entendimento se castigava a fazenda, não só a propria, mas a alheia de mulher e filhos, e que fôra melhor não querer dar luz a uma alma cega com processo ás escuras; e que emquanto o odio e ambição acompanhassem os ministros, nem os subditos viveriam seguros, nem as monarchias gosariam felicidade. E sendo estranhadas ao réo as ditas proposições antes de imprimir o dito livro, comtudo as não quiz emendar, antes ajudou a certa pessoa em outro livro que tambem imprimiu contra os procedimentos do santo officio, procurando introduzir pratica entre pessoas grandes, para que se tratasse de haver alteração e mudança nos estylos do santo officio.
«Pelas quaes culpas sendo o réo preso nos carceres do santo officio e com caridade admoestado as quizesse confessar, por ser o que lhe convinha para descargo de sua consciencia, salvação de sua alma, e seu bom despacho, disse e confessou que do ultimo perdão geral a esta parte, persuadido com o ensino e falsa doutrina de certas pessoas da sua nação, se apartára da nossa santa fé catholica, e passára á crença da lei de Moysés, tendo-a ainda por boa e esperando salvar-se n'ella, e não na fé de Christo Senhor nosso, em o qual não cria nem o tinha por verdadeiro Deus e Messias, antes esperava ainda por elle, por ouvir dizer que ainda havia de vir, e só cria em Deus do céo, que fez o céo e a terra, e a elle se encommendava com algumas orações judaicas, que recitava por um livro e por observancia da dita lei guardava os sabbados de trabalho, e a paschoa do mez de março, comendo por espaço de oito dias pão asmo e seladas, e fazia varios jejuns judaicos, como era o dia grande, estando n'elles sem comer nem beber senão á noite, em que comia gallinha, com tanto que fosse degolada ao modo judaico por mão de pessoa circumcidada, compondo-se no mesmo dia com os melhores vestidos e peças novas, ainda que para isso fosse necessario buscal-as e fazel-as; e outro jejum que caía em certo mez, estando por espaço de tres semanas sem começar negocio algum, posto que continuava os principiados, estando n'ellas dois dias sem comer nem beber senão á noite, como dito é; e usando de particulares vocabulos e palavras para se entender com outras pessoas quando fazia ou havia de fazer os ditos jejuns, sem que fossem entendidos ordinariamente, por o sentido comum das ditas palavras ser mui differente, communicando estas coisas com pessoas da sua nação apartadas da fé, com as quaes se declarava por judeu, perseverando na dita crença até certo tempo, que declarou.
«E que por andar apartado da fé, no dito livro que compuzera, detrahira em alguns logares no procedimento do santo officio, e se accommodara com algumas opiniões politicas com que o via usar e praticar em certo reino; e que tambem usava de livros prohibidos, e que de tudo estava muito arrependido e pedia perdão e misericordia. E por o réo não satisfazer á informação da justiça nem declarar todas as ceremonias e jejuns que havia feito por guarda da dita lei, sendo para o fazer por vezes admoestado, na fórma do estylo do santo officio, o promotor fiscal do santo officio veio com libello criminal e accusatorio contra elle, que lhe foi recebido, e o réo o contestou pela materia de suas culpas e confissões, e não quiz usar de contrariedade. E sendo lançado da com que podera vir, e sendo ratificadas as testemunhas da justiça na fórma de direito, se lhe fez publicação de seus ditos, conforme o estylo do santo officio. E veio com contraditas, que lhe foram recebidas e não provou coisa relevante; e guardados os termos de direito, e feitas as diligencias necessarias, seu feito se processou até final conclusão, sendo o réo por muitas vezes advertido de suas diminuições e admoestado com muita caridade da parte de Christo nosso Salvador as quizesse declarar, para se poder usar com elle de misericordia, que a santa madre egreja manda conceder aos bons e verdadeiros confitentes sem o réo o querer fazer. E visto seu processo, na mesa do santo officio se assentou que pela prova da justiça e por sua confissão estava convencido no crime de heresia e que a dita sua confissão não estava em termos de ser recebida, e por hereje e apostata da santa fé catholica, feito falso, simulado, confitente diminuto e impenitente foi julgado e pronunciado.