O Olho de Vidro

Chapter 10

Chapter 103,664 wordsPublic domain

Soror Josepha não vellou o rosto, porque já não entendera o aviso da prioreza.

Braz Luiz deu de olhos fitos na sua companheira de quinze annos. Ressumou-lhe ao rosto um suor frio, cambaleou, e amparou-se á ombreira da porta.

Depois, tornou em si; invocou a força dos santos, compoz o semblante, acercou-se do catre da moribunda, e balbuciou:

--Soror Josepha da Cruz!

A enferma estremeceu, despregou as palpebras, circumvagou as pupilas esgazeadas, e retrahiu-as logo, como se a face do padre lhe fulminasse faiscas de raio aos olhos.

--Os aprestos para a extrema-uncção--disse o syndico.

--Venha o capellão ministrar-lh'a--ajuntou a prioreza.

--Não, nossa madre: serei eu--disse o padre Braz.

Accorreram os aprestos, emquanto Braz Luiz desceu á egreja a envergar uma cotta com estola roxa. Deu signal o sino, ajuntaram-se as freiras acolytas, uma com a cruz, outras com velas, outra com a caldeirinha, e muitas cantando alternadamente os versos do psalmo _Miserere mei Deus_. Entrou á cella o padre, precedido da cruz e da caldeira. A prioreza observou que as uncções deviam ser feitas com presteza, omittindo-se as ceremonias usadas quando não ha receio de que o enfermo expire antes de ungir-se. Principiou o padre a ungir-lhe os olhos; e logo notaram que os dedos lhe tremiam convulsivamente. Esteve com a mão suspensa, esperando que o tremor aquietasse. Desfitou os olhos da face da moribunda, e viu as cinco filhas ajoelhadas em carreira com os cirios empunhados, e os rostos caídos sobre os seios. Contemplou-as com olhar embaciado de lagrimas, e na bocca um sorriso triste, que poderia ser qualquer coisa do usual sorrir dos santos, e tambem poderia ser a expressão vulgar da insania. Esta equivoca expressão, porém, sumiu-se, e as lagrimas saltaram a quatro. Depois, foi um conflicto aquelle para ser visto dos que apenas conhecem alguns milhares de flagellos n'esta vida! Caiu em joelhos, pegou das mãos ambas da enferma, e exclamou:

--Leva-me comtigo, leva-me comtigo, ó santa, ó martyr!

As cinco meninas levantaram um alarido de gemidos, e romperam por entre as freiras a cobrirem com os braços a moribunda... a morta.

Braz Luiz arquejava encostado ao leito. Não ousavam pôr-lhe as freiras as suas mãos para o retrairem d'alli; mas, todas a um tempo, lhe pediam que offerecesse a Deus, em beneficio da alma de Soror Josepha, as angustias por que tão santa e heroicamente quizera passar e ser provado.

O padre levantou-se de impeto, olhou em torno de si, e disse:

--E que me dá Deus? Sim! que me dá Deus?

As freiras contemplaram-se estarrecidas e frias de religioso medo.

--Pois então!--proseguiu elle com tregeitos de louco e semblante descomposto--pois então, não houve um raio de graça para esta santa mulher! não seria divina justiça que ella achasse aqui as alegrias de uma consciencia pura, de um coração sem mancha! Por fim... é certo que eu te matei minha innocente victima?

E, dizendo, acurvou-se sobre o cadaver, beijou-lhe os olhos soffregamente e cobriu-lhe a testa de lagrimas.

Era isto já uma vertigem, que terminou pelo deliquio.

Foi chamado o capellão e alguns frades visinhos de Santo Antonio. Levaram d'alli o padre para accommodarem logo os escrupulos das freiras escandalisadas. Ia sem accordo, nos braços dos antoninos. As filhas viram-no ir sem lastima. Estavam em volta da barra de sua mãe. Aquelle homem fazia-lhes terror, senão odio. Poderia ser que elle tivesse por si a côrte celestial; mas n'este mundo não havia alma que o pranteasse. Propriamente os frades incriminavam-no de pusillanime e vacillante na reforma de vida. As freiras--santo nome de Deus!--davam como perdida a alma d'aquella que morrera sem confissão; e, porque eram santas, foram em côro exorar ao Senhor que não pesasse na sua balança sem o contrapeso da misericordia, as palavras blasphemas do padre syndico.

Braz Luiz, quando cobrou sentimento, achou-se na sua pobre alcova, com dois frades á cabeceira. Escutou-os. O que elles diziam eram coisas formidaveis sobre o inferno sem fim. Stygmatisavam-lhe a fraqueza, a impenitencia, a temeridade de se aproximar da religiosa moribunda, se não ia santamente disposto a dar um exemplo de desprendimento dos affectos que havia renunciado no acto da sua sagração a Deus.

O padre pediu perdão do escandalo, e rogou que o deixassem só para examinar sua consciencia.

Deixaram-n'o os frades e foram-se ao seu convento, d'onde tinham saído em jejum.

Braz Luiz de Abreu soffria tanto, que duvidava do poder da oração ou não sabia orar. Punha os olhos na face do Christo, e logo os descia como aterrado do pensamento sacrilego que a intercadencias lhe agonisava a alma.

Aquella religiosidade, que, horas antes, parecia robusta e sentida como a dos martyres, estava a desfazer-se miseravelmente na incerteza, no desprezo, na negação das mais santas coisas do christianismo! Alli se estava vendo o que em verdade é o homem, e quanto são morredoiras as phantasias do espirito arrancado ás leis da humanidade, quando a mão da desgraça descarrega a maça de bronze no peito que tem dentro sangue e fibras. O grande edificio d'aquelle selvagem ascetismo estava a derruir-se. O coração de quarenta e tres annos dava pulos como para espedaçar o arnez apertado com arcos de ferro debaixo do habito franciscano. A imagem de Francisco Luiz perpassava-lhe execrandissima por diante dos olhos, cravados n'um revolutear de visões extravagantes que o assediavam, á volta do cadaver d'aquella mulher assassinada sem culpa nem fé para aceitar de boamente uma tão grande quanto immerecida penitencia.

Fez-se em volta d'elle a solidão dos grandes desgraçados, que já nem sequer podem captar a benevolencia dos grandes hypocritas, nem a estima dos ferventes devotos. Os mais virtuosos frades fugiam d'elle, desde que do convento de S. Bernardino sairam peioradas em blasphemia as phrases do syndico ao pé do corpo ainda quente de sua mulher. Além d'isto, entraram em averiguações os mais escrupulosos sobre os factos antecedentes á resolução de entrar aquella mulher na religião e elle no sacerdocio. O prior dos antoninos esquadrinhou em Lisboa no secreto gabinete da nunciatura, e vingou descobrir que o rompimento fôra sequencia de um casamento incestuoso.

Calou o frade a infanda noticia, por caridade; apenas a revelou a metade dos seus conventuaes; e estes, por caridade tambem, disseram-n'a á outra metade, sentindo não ter mais a quem a revelassem.

Por isso, á volta d'elle se fez a solidão dos grandes desgraçados.

Entregaram-lhe os dois filhos, que estudavam humanidades no convento, para que elle lhes désse destino. O padre levou-os para si, e desde esse momento principiou a sentir quebrarem-se os aguilhões que o cravejavam e atiravam impenitente á sepultura.

Cogitou em mudar-se com elles para algum ermo, onde lhe ignorassem o nome e os infortunios. Mas alli, ao pé da sepultura de Josepha, estavam as cinco filhas, que elle, se podesse, tiraria do convento. Era aloucada fantasia similhante intento. Aquellas meninas estavam perdidas para elle e para Deus; porque já não podiam amar o algoz de sua mãe; e, diante do poder do Altissimo, apenas podiam tremer de medo, medo sem amor. Nem pae, nem Deus!

E d'este modo, com a alma assim vasia, sem embrião de esperança n'algum reconcavo d'ella, não ha vida.

A mais velha das meninas, Anna Maria, sobreviveu dois mezes a sua mãe, e acabou em phrenesis, não obstante os exorcismos com que valentes demonifugos de todos os conventos de Aveiro lhe medicavam a alma. Expirou com reputação de precíta aquella gentil creatura com dezoito annos incompletos, a mansissima menina que seus paes quatro annos antes denominavam, á conta da sua indole branda e sujeita, a pomba da familia, o exemplo angelico de suas irmãs.

Quando o padre Braz recebeu a nova da morte de sua filha, quizera a Providencia que ao lado d'elle estivesse um peito que lhe désse amparo.

Francisco Luiz de Abreu, n'aquelles dias, descêra dos arrabaldes de Bragança, onde fôra despedir-se do seu amigo José de Barredo, e passára por Aveiro, onde conjecturava encontrar ditoso e embevecido nas delicias do céo o sacerdote de Jesus.

XVIII

Catequeze

Francisco Luiz planeou mover o filho de Antonio de Sá Mourão a saír de Aveiro, sob pretexto de fazer entrar na carreira das lettras ou das armas os dois moços, já habilitados para as começarem.

O padre passou a consultar os filhos sobre a escolha de seu futuro. Tinham-se os meninos habituado a pensar no destino para que o pae os encaminhára, desde que os entregou aos frades de Santo Antonio. N'aquelles dias, as carreiras abertas aos espiritos mais arremessados em esperanças e cobiça de nomeada gloriosa, eram a milicia, já então decadente, e a companhia de Jesus, ou a ordem de S. Domingos, as duas mais poderosas e florentes hostes evangelicas n'estes reinos, e as mais conjuradas em realisar o absolutismo theocratico.

Os filhos de Braz não entendiam nada d'estes intentos; mas entreviam a grandiosa estatura do jesuita e do dominicano, em cujas frontes se estavam sempre cerzindo as mytras, e no interior d'essas frontes se elaborava o pensamento dos reis, a palavra directora dos governos, o enlace mystico do céo com a absoluta soberania da terra.

Portanto, os dois netos do hebreu da Guarda, respondendo á consulta de seu pae, disseram que entrariam em conventos. Agostinho escolheu a companhia de Jesus, e Pedro a ordem de S. Domingos.

Francisco Luiz encarou n'elles com desprezo: não podia ser de piedade, nem de odio aquelle sorriso que entre-abriu os beiços do velho judeu de Ourem.

Passados momentos, murmurou, sorrindo ainda:

--Este Pedro já não virá a tempo de me queimar... nem eu lhe deixo filhos ou netos, cujos ossos lhe sirvam de degráos para escalar a bem-aventurança dos carnifices... Se o avô d'este menino se lembraria de que um seu neto seria frade dominicano!...

E, voltado ao padre Braz, continuou com mal fingida serenidade:

--Conjecturava eu, senhor Braz Luiz, que um homem de sua indole e saber, vestido com as insignias de uma religião qualquer, e mormente da christã, se empenharia em lavar-lhe com lagrimas as nodoas de sangue, e no amaciar-lhe as cruezas que ella trouxe das tradições pagãs. O homem de grande entendimento e muitas luzes devia ser lustre e honra de qualquer religião que elle assentasse de converter em policiamento e bem-fazer da humanidade. Não lhe perguntei ainda, meu amigo, se applaudia o proceder da christandade portugueza contra os paes de Antonio de Sá, contra Maria Cabral, contra Heitor Dias da Paz. Pergunto-lh'o agora, na occasião em que vossemecê manda um filho alistar-se nos aprendizes do santo officio, e estudar as physionomias das antigas rezes do açougue dominicano penduradas na galilé da egreja de S. Domingos. Bem póde ser que lá veja retratos de seus avós.

--Basta! que me está mortificando, senhor!--atalhou o padre.--Sou um desgraçado, á volta de quem se assanham todas as tentações! Quem vem contender em pontos de religião com um homem tão quebrado de espiritos? Oh! deixem-me como a um leproso, abandonado de Deus e dos homens...

--Abandonado de Deus! como assim?--accudiu o israelita.--Pois as tres divindades christãs, o Padre, o Filho e o Espirito Santo assim abandonam quem tanto lhes sacrifica! Onde está a compensação das suas afflicções, meu amigo? Que bem aventuranças infinitas são bastantes a galardoar uma só das suas torturadas noites? Por minha fé! Consterna ver o desamparo em que o Moloch d'estas voluntarias hostias deixa affogar-se em lagrimas e derreter-se ao fogo da desesperação um homem que tinha direito a receber consolações analogas á devoção com que se deixa esmagar na carne e no espirito!... Ah! eu cuidei que, na minha retirada de Portugal, o deixaria enlevado na beatifica visão e antegosto da eterna e perennal mão direita do Deus-Padre! E a minha consciencia sabe que eu muitas vezes pensei em me converter ao christianismo, se Braz Luiz de Abreu estivesse, a esta hora, conformado e alegre sobre o peso da sua cruz!...

--É que eu sou lodo... atalhou o padre.

--É que eu não vi ainda bem remunerada a renunciação dos direitos do homem, em hecatomba de uma equidade convencional, chamada a justiça das religiões. São todas muito artificiaes para que alguma d'ellas possa ser verdadeira. As menos sobre-humanas são as mais equitativas; e estas mesmas estão manchadas pela miseria do homem, que não comprehende a virtude aconselhada pela razão; carece de a ouvir trovejada no Sinay, legislada pelo alfange mahometano, ou introduzida no cerebro das nações selvagens com o gume da espada dos Cabraes e dos Pizarros. Pois está Deus n'estas carniçarias? O creador das florestas e dos mares, do oução e do elefante, se quizesse revelar-se mais sensivelmente ao homem, careceria de morrer n'uma cruz ignominiosa, ou permittiria que aos pobres cegos, que o não sabem ver, lhes queimassem os olhos nas lavaredas do santo officio?!

--Jesus, soccorrei-me! exclamou o padre, tapando com as mãos a fronte, em que as palavras d'aquelle homem coavam luz de infernal claridade.

Depois murmurou palavras inaudiveis que deviam ser orações efficazes contra a tentação da heresia, da philosophia, da razão indocil, do demonio, que é tudo um.

O hebreu era pertinaz, porque o estimulo, a razão nua, sem minima compostura de fé, lhe espicaçava a consciencia. O homem vinha dos focos da heresia. Comprehendêra a loucura do hebraismo e a loucura dos heresiarcas. Reformara-se na philosophia de Spinosa, e facilmente derivara do pantheismo á completa abstinencia de deuses, coisas desnecessarias para explicar a ordem do universo, e inintelligiveis para as fazer presidir á creação. A causa das causas parecia-lhe sempre effeito dos effeitos. O atheismo, se o não consolava, tambem lhe não mettia em trabalhos as molas da imaginação.

As expansivas demonstrações de sua incredulidade eram todavia inefficazes para apagarem a luz do calvario no coração do padre. O dique do terror de Deus represava as torrentes de sabedoria rebelde com que o hebreu pretendia levar de rojo o amigo, cuja victoria estaria indecisa; se o christão convicto aceitasse o cartel. Não. Braz Luiz vencia com o silencio. O argumento triumphal é o calar-se aquelle, cujo coração bafejou o Senhor.

Não obstante, as asperezas da vida, os jejuns, as penitencias, as orações mentaes e exercicios fatigantes de piedade foram diminuindo de dia para dia. No fim de tres mezes, o padre fallava ainda tres horas á milagrosa imagem de S. Francisco, e conversava seis horas com Francisco Luiz de Abreu.

Estava, pois, reduzido á piedade rasoavel. Não mortificava a carne para manter o espirito na energia que se lhe requer em meditação das coisas divinas. Tinha horas regulares de oração, de alimento, de visitar os seus enfermos, e de procurar no locutorio de S. Bernardino as quatro freiras.

Foi para Lisboa com o hebreu e com os filhos. Renovou a consulta sobre o destino d'elles. Permaneciam constantes na sua resolução. Um entrou no noviciado da ordem dominicana em Bemfica; e outro no collegio de Santo Antão.

O padre Braz foi beijar a mão de el-rei, que se compungiu da extemporanea velhice do celebre Olho de Vidro. Ouviu-lhe a historia pathetica da morte de soror Josepha e da filha, saudosa de sua mãe, e o definhar-se das quatro meninas para quem a vida claustral fôra sempre incessante martyrio e desesperação de que a misericordia divina talvez pedisse contas a elle pae. Observou-lhe D. João V que levasse para sua companhia as quatro meninas.

--São freiras, são professas, real senhor!... murmurou o padre.

El-rei mandou-o voltar no dia seguinte, e ordenou que lhe entregassem provisão regia e breve do nuncio para que as quatro freiras de S. Bernardino vivessem por tempo illimitado na companhia de seu pae.

Voltou o padre a Aveiro, e Francisco Luiz de Abreu acompanhou-o.

N'este homem andava encavalgado o Lucifer da mais desenfreada philosophia que viu aquelle seculo. O pensamento que o esporeava era generoso; mas no inferno iria um dia de festa se elle vingasse a idéa execravel. Venceram os anjos custodios, que faziam guarda ao espirito do padre e das quatro filhas, promettidas esposas de quatro serafins que as esperavam, posto que nem todas correspondessem ao convite amoroso dos serafins.

Queria Francisco Luiz de Abreu restituir a felicidade áquellas meninas, a felicidade terreal, mentira em que o hebreu ainda acreditava. Preparava o animo do filho de Antonio de Sá, inoculando-lhe a peçonha da duvida no dogma, e pelo conseguinte na moral. Discutia os chamados sacramentos da egreja. Dizia que o sacerdocio era a mais convencional e estupida das instituições humanas, com grave ultrage de Deus, chamado a sanccional-a, se Deus por acaso podesse existir e ser ultrajado por affrontas do homem, chamado irrisoriamente o rei da creação, á mingua de besta-fera que se proclame com eguaes direitos á mesma realeza. Dizia que esta bestial instituição cedia a primasia a outra, que era a da profissão da mulher; e que de estupida passava a ferocissima quando a professa era violentada a jurar a perdição das suas alegrias de mocidade, e das suas esperanças de familia nas tristezas da velhice.

Amartelladas por largo tempo estas e similhantes idéas sobremodo impias, o hebreu puzera a pontaria em tirar de Portugal o padre e as freiras, leval-os onde rasgassem os habitos, e se vissem de repente restituidos á simpleza de creaturas formadas á imagem e similhança do Creador, o qual, a ter existido, formára certamente homens e não padres, mulheres e não freiras: gente, no dizer de Moysés, apta e escorreita para formar individuos, aldeias, cidades, reinos, mundos.

Ouviu o padre as theses do seu amigo, defendidas por longo tempo com erudição digna de melhor serventia. Prodigioso poder da fé, quanto eu te admiro e venero! O padre resistiu nervosamente á seducção, e por pouco, no calor da refesta, não apresentou uma idéa que destruisse os preconceitos do judeu luciferino. Prodigioso poder da fé! exclamava tambem Francisco Luiz, quando, inventariando os argumentos do seu amigo, não topava um que merecesse redarguição grave. E perguntava elle a si mesmo como era que aquelle homem tão embotado em agudezas de dialectica pudera escrever as «Aguias que voavam sobre a lua, e o sol nascido no occidente e posto ao nascer do sol!»

Desistiu: mas já lhe foi grandissimo contentamento ver á beira de seu pae as quatro meninas, quatro exhumadas da lobrega crypta do convento, onde deixaram sem lagrimas as grammas que rastejavam na claustra sobre a campa de sua mãe.

Dizia elle, todavia, ao pae:

--Crê que as caras marmóreas d'estas meninas tornem a reflorir?

--Espero que sim.

--Nunca mais. Estão mortas. Se as quer vivas, rasgue-lhes a mortalha, Braz Luiz!--exclamou elle abraçando-as todas contra o seio.--Dê-me estas meninas, deixe-me salval-as, deixe-me fugir com ellas para o ar abençoado da liberdade! Eu prometto aviventar-lhes o coração, e depois estão salvas. Dê-m'as que eu ainda, sou bastante rico para deixal-as ricas. E, se eu fosse pobre, dar-lhe-ia a cada uma um amor para o coração resuscitado, um esteio para a alma, um companheiro para toda a vida!

O padre ergueu-se de repellão, travou das filhas, arrancando-as aos braços do hebreu, e exclamou:

--Que maldição traz comsigo este homem!... Quer perder-me as minhas filhas!... Ha infernal predestinação na sua mensagem ao seio da minha familia, homem da horrivel fatalidade!

XIX

O velho da ermida

Em uma aldeia, chamada Verdimilho, a uma legua d'Aveiro, vivia em 1738 um ancião, reputado justo porque á volta da sua casa, colmada e desguarnecida da mais trivial mediania, se ajuntavam os pobres da freguezia, em dias determinados, e recebiam esmolas que lhes bastavam á alimentação parca da semana. Chamavam ao incognito o «velho da ermida» porque, ao lado da choupana d'elle, estava uma capella. Os pobres, favorecidos d'este homem, paravam ao cair da tarde nas visinhanças da ermida, para o verem sentado no tezo de um oiteirinho, com os olhos enlevados no transmontar do sol; e, se o viam passar a mão por elles como quem enchuga lagrimas, diziam entre si:

«Um homem que dá tanto aos pobres, e chora!...»

Em 1739 saiu elle caminho d'Aveiro, pela primeira vez. Os pobres seguiram-n'o, e disseram-lhe:

--Não voltaes mais aqui, nosso bemfeitor?

--Voltarei, filhos. Á noite serei comvosco.

E caminhava a pé, abordoado n'um cajado que lhe dera um dos seus pobres.

Chegado a Aveiro, entrou na egreja de S. Bernardino, acantoou-se no mais escuro d'ella, e assistiu aos responsorios da segunda filha de Braz Luiz de Abreu, a qual estava sobre a eça.

Saiu, parou á porta do pae da defunta, subiu, entrou á saleta em que elle recebia os pesames, apertou-o nos braços e disse-lhe:

--Dá-me a vida das tres filhas que te restam, e vem tu com ellas.

O padre derramou copiosas lagrimas, e não respondeu.

Voltou Francisco Luiz á sua cabana da ermida, e os pobres, ao outro dia, confluiram das suas aldeias a dar-lhe as boas vindas.

Em 1740 fez o hebreu a mesma caminhada, entrou na mesma egreja onde se resavam responsos, na mesma saleta onde chorava um velho, e disse-lhe:

--Dá-me a vida das duas filhas que te restam, e vem tu com ellas. Rasga-lhe as mortalhas, antes que o coveiro as esconda, e o sino dobre por ellas.

O padre chorou muito, inclinado ao peito do velho, e não respondeu.

Voltou o caminheiro á sua cabana, e os pobres olharam-n'o com muita amargura, porque a sombra d'elle era como de arejo vindo da região dos sepulchros.

Uma tarde, não longe d'aquelle dia em que se finára a quarta professa de S. Bernardino, appareceu em Verdimilho o padre Braz Luiz, atirou-se esbofado aos braços do hebreu, e disse-lhe:

--Dê-me as minhas filhas!

--Pede-m'as a mim?! É a Deus que as deve pedir... ao seu Deus, que resuscitou muitas...

--Não peço as mortas; quero as vivas.

--Que sei eu das vivas? Esperava que morresse uma para lhe ir pedir a ultima.

--Pois minhas filhas não estão aqui? exclamou Braz Luiz de Abreu.

--Aqui?! não vê que toda a minha casa é esta cabana?

--Meu Deus! bradou o padre.

--Que é de suas filhas? acudiu o hebreu.

--Fugiram! perderam-se!...

--Salvar-se-iam? Encaminhal-as-ia qualquer providencia que eu desconheço?...

--Roubaram-m'as!

E o padre, guardando silencio por alguns minutos, continuou com intermittentes de gemidos e ancias offegantes:

--Perdi-as... e perderam-se!... Pois que nome tem isto senão é prostituição?... A justiça lançará mão d'ellas... e d'elles...

--D'elles quem?--atalhou o israelita.

--De relance os vi: eram militares, vinham de Coimbra a Aveiro, hospedavam-se nas mais nobres casas, e minhas filhas sabiam da existencia d'estes homens...