O Napoleão de Notting Hill

Part 6

Chapter 64,060 wordsPublic domain

— Oh, vocês reis! — gritou Adam, em uma explosão de desprezo. — Quão humano são vocês, quão carinhosos, quão atenciosos! Fazem a guerra por uma fronteira, ou pelas importações de um porto estrangeiro! Derramam sangue pelos direitos de impostos, ou como a saudação de um almirante. Mas para as coisas que tornam a vida digna ou miserável, quão humanos são! Digo aqui, e sei bem o que eu falo, nunca houve guerras necessárias, mas as guerras religiosas. Nunca houve guerras justas, mas as guerras religiosas. Havia nunca nenhuma guerra humana, mas as guerras religiosas. Pois estes homens estavam lutando por algo que afirmava, pelo menos, ser para a felicidade do homem, a virtude do homem. Um cruzado pensou, pelo menos, que o Islã feria a alma de cada homem, rei ou funileiro, tudo o que poderia cair em seu domínio. Acho que Buck, Barker e estes abutres ricos ferem a alma de cada homem, ferem cada centímetro do chão, ferem cada tijolo das casas, tudo o que cai em seus domínios. Acha que não tenho o direito de lutar por Notting Hill, quando seu governo inglês tantas vezes lutou por tolices? Se, ​​como dizem seus amigos ricos, não há deuses, e acima de nós há somente os céus escuros, para o que deve lutar o homem, mas pelo lugar onde teve o Éden da infância e o curto céu do primeiro amor? Se não houver templos e não são sagradas as escrituras, o que é sagrado, senão a própria juventude do homem?

O rei andou um pouco inquieto para cima e para baixo no estrado.

— É difícil — disse ele, mordendo os lábios — ser favorável a uma visão tão desesperada, tão responsável

Enquanto falava, a porta da sala de audiência abriu entreaberta, e pela abertura veio, como um súbito trino de um pássaro, a voz alta, nasal, mas bem-educada de Barker:

— Eu disse a ele de forma muito clara, o interesse público...

Auberon se voltou para Wayne com violência:

— Que diabos é isso? O que estou dizendo? O que você está dizendo? Você me hipnotizou? Malditos sejam seus misteriosos olhos azuis! Deixe-me ir. Devolva-me o meu senso de humor. Devolva-me, eu digo!

— Eu lhe asseguro solenemente — disse Wayne, inquieto, com um gesto, como sentindo sobre si — que não o tenho.

O rei caiu para trás em sua cadeira, e com uma gargalhada rabelaisiana:

— Não acho que tenha — exclamou.

Livro III

A condição mental de Adam Wayne

Um pouco depois da ascensão do Rei apareceu um pequeno livro de poemas, chamado “Hinos no Monte”. Não eram bons poemas, nem um livro de sucesso, mas que atraiu uma certa atenção de uma particular escola de críticos. O próprio Rei, que era um membro desta escola, o avaliou na qualidade de crítico literário para “Direto dos Estábulos”, um jornal esportivo. Eles eram conhecidos como a Escola da Rede, porque um inimigo havia calculado malignamente que não menos do que 13 de suas delicadas críticas tinham começado com as palavras: “Li este livro deitado em uma rede: meio adormecido na sonolenta luz solar, Sob estas condições, gostavam de tudo, mas especialmente bobagens. “Depois de um livro autentico bom (e que, infelizmente, nunca encontramos), queremos um ricamente ruim.” Assim aconteceu que o seu louvor (como indicando a presença de uma riqueza ruim) não era universalmente procurado, e os autores se tornavam um pouco inquietos quando encontravam o olhar favorável da Escola da Rede.

A peculiaridade de “Hinos no Monte” foi a celebração da poesia de Londres como distinta da poesia do campo. Este sentimento ou afetação, naturalmente, não é incomum no século XX, e, embora às vezes exagerada, às vezes artificial, apresenta uma grande verdade na sua raiz, pois há um aspecto em que uma cidade deve ser mais poética do que o campo, uma vez que é mais próxima do espírito do homem, pois Londres, se não é uma das obras-primas do homem, pelo menos é um de seus pecados. A rua é muito mais poética do que um prado, porque a rua tem um segredo. A rua está indo para algum lugar, e um prado a lugar nenhum. Mas, no caso do livro chamado “Hinos no Monte” havia outra particularidade, que o rei apontou com grande perspicácia em seu comentário. Ele era naturalmente interessado no assunto, pois ele próprio tinha publicado um volume de letras sobre Londres sob o pseudônimo de “Margarida Sonhadora”.

Esta diferença, como o Rei apontou, consistiu no fato de que, enquanto artífices como “Margarida Sonhadora” (a cujo elaborado estilo, o Rei, com a assinatura de "Thunderbolt", foi talvez demasiado severo) pensavam em elogiar Londres comparando-a com a natureza do campo, ou seja, como um fundo a partir do qual todas as imagens poéticas devem acontecer, o robusto autor de “Hinos no Monte” elogiou a natureza do campo comparando-a com a cidade, e utilizado a própria cidade como um fundo. — Pegue — disse o crítico — as linhas tipicamente femininas de ‘Para o inventor do cabriolé’: “Poeta, cuja astúcia esculpiu esta concha amorosa, Onde dois habitam.” — Certamente — escreveu o rei —, ninguém, mas uma mulher poderia ter escrito essas linhas. Uma mulher tem sempre uma fraqueza por natureza, sua arte é apenas bela como um eco ou sombra desta. Ela está louvando o cabriolé por tema e teoria, mas sua alma ainda é de uma criança à beira-mar, pegando conchas. Ela nunca pode ser totalmente da cidade, como um homem pode; na verdade, não falamos (com sagrada propriedade) de ‘um homem da cidade’? Quem já falou de uma mulher da cidade? Por mais que, fisicamente, uma mulher possa estar na cidade, ela ainda se modela pela natureza, ela tenta levar a natureza com ela, ela imagina grama crescendo em sua cabeça, e... animais peludos para mordê-la na garganta. No coração de uma cidade escura, ela modela o chapéu como um flamejante jardim de flores de uma cabana. Nós, com o nosso sentimento cívico nobre, modelamos o nosso como um pote de chaminé, o estandarte da civilização. Para não ficar sem pássaros, ela prefere cometer um massacre, para que ela possa transformar a cabeça numa árvore, com aves mortas cantando para ela.

Esse tipo de coisa continuou por várias páginas, e depois o crítico se lembrou de seu assunto, e voltou para ele. “Poeta, cuja astúcia esculpiu esta concha amorosa, Onde dois habitam.” — A peculiaridade dessas boas embora femininas linhas — continuou “Thunderbolt” — é, como já disse, que elogiam o cabriolé, comparando a uma concha, a uma coisa natural. Agora, ouça o autor de ‘Hinos no Monte’, e como ele lida com o mesmo assunto. Em seu belo noturno, intitulado ‘O Último Ônibus’, ele alivia a melancolia rica e comovente do tema através de uma súbita sensação de pressa ao fim: “O vento em volta na esquina da velha rua Balança súbito e rápido como um táxi.” — Aqui a distinção é óbvia. ‘Margarida Sonhadora’ pensa que é um grande elogio a um cabriolé ser comparado a uma das câmaras em espiral do mar. E o autor de ‘Hinos no Monte’ pensa que é um grande elogio para o imortal turbilhão ser comparado a um carro de praça. Ele certamente é o real admirador de Londres. Não temos espaço para falar de todas as suas aplicações perfeitas da ideia; do poema em que, por exemplo, os olhos de uma senhora são comparados, não às estrelas, mas a duas perfeitas lâmpadas de rua que orientam os andarilhos. Não temos espaço para falar da fina letra, recordando o espírito elisabetano, em que o poeta, em vez de dizer que a rosa e o lírio lutam em sua pele, diz Quão perfeita é a imagem de dois ônibus em disputa!

Aqui, um pouco abruptamente, a revisão concluiu, provavelmente porque o rei teve de enviar a sua cópia, naquele momento, já que estava com alguma falta de dinheiro. Mas o Rei era um crítico muito bom, mesmo que não fosse como Rei, e tinha, em grande medida, acertado na mosca. “Hinos no Monte” não era nada como os poemas publicados originalmente em louvor da poesia de Londres. E a razão é que foi realmente escrito por um homem que não tinha visto nada além de Londres, e que ele a considerava, portanto, como o universo. Ele foi escrito por um bruto rapaz ruivo de 17, chamado Adam Wayne, que tinha nascido em Notting Hill. Um acidente em seu sétimo ano o impediu de ser levado para o litoral, assim, toda a sua vida se passou em Pump Street e na sua vizinhança. E a consequência foi que ele via as lâmpadas de rua como tão eternas quanto as estrelas, os dois fogos misturados. Ele via as casas resistindo como as montanhas, e assim escreveu sobre elas, como se escreveria sobre montanhas. A natureza coloca um disfarce quando fala a todo homem, e para este homem vestiu o disfarce de Notting Hill. A natureza significaria para um poeta nascido nas colinas Cumberland, um céu tempestuoso e rochas abruptas. A natureza significaria a um poeta nascido nos planos de Essex, um desperdício de esplêndidas águas e esplêndidos pores do sol. Portanto, a natureza significava para este homem Wayne uma linha de telhados violetas e lâmpadas cor de limão, o claro-escuro da cidade. Ele não acha inteligente ou engraçado elogiar as sombras e as cores da cidade, ele não tinha visto outras sombras ou cores, e assim as elogiou, porque eram sombras e cores. Ele viu tudo isso, porque era um poeta, embora na prática, um mau poeta. Muitos esquecem que, assim como um homem mau é ainda um homem, um mau poeta é ainda um poeta.

O pequeno volume de versos do sr. Wayne foi um fracasso completo, e ele se submeteu à decisão do destino com uma humildade muito racional, voltou para o seu trabalho, que era o de assistente numa loja de roupas, e não escreveu mais. Ele ainda manteve o seu sentimento sobre a cidade de Notting Hill, porque ele não poderia ter qualquer outro sentimento, porque era a parte de trás e a base de seu cérebro. Mas ele não parece ter feito mais nenhuma tentativa particular de expressá-lo ou insistir nisso.

Ele era um verdadeiro místico natural, um dos que vivem na fronteira do país das fadas. Mas ele foi talvez o primeiro a perceber o quão frequentemente os limites do país das fadas atravessam uma cidade lotada. Vinte metros dele (pois era muito míope) os sóis vermelhos, brancos e amarelos dos postes de luz se aglomeravam e se derretiam um nos outros como um pomar de árvores de fogo, o início do bosque da terra dos elfos.

Mas, curiosamente, foi porque ele era um pequeno poeta que teve o seu triunfo estranho e isolado. Foi porque foi um fracasso na literatura que ele se tornou um portento na história inglesa. Ele era um daqueles a quem a natureza havia dado o desejo sem o poder da expressão artística. Ele havia sido um poeta mudo desde do seu berço. Ele poderia ter sido tal até o seu túmulo, e levar na escuridão um tesouro não expresso de música nova e sensacional. Mas nasceu sob a estrela da sorte de uma coincidência única. Passou a ser a cabeça de seu município encardido num momento de brincadeira do Rei, no momento em que todos os municípios foram ordenados subitamente a irromper em bandeiras e flores. Fora da longa procissão dos poetas silenciosos, que passa desde o início do mundo, este homem se viu no meio de uma visão heráldica, onde ele poderia agir, falar e viver liricamente. Enquanto o autor e as vítimas igualmente tratavam a questão toda como uma farsa pública tola, este homem, por levá-la a sério, surgiu de repente num trono de onipotência artística. Armadura, música, estandartes, fogo da guarda, barulho dos tambores, todas as propriedades teatrais foram jogados na sua frente. Este pobre rimador, tendo queimado as suas próprias rimas, começou a viver essa vida de ar livre e poesia em ação que todos os poetas da terra sonharam em vão, a vida para qual a Ilíada é apenas um substituto barato.

Desde sua abstraída infância, Adam Wayne tinha desenvolvido fortemente e silenciosamente uma determinada qualidade ou capacidade, que nas cidades modernas é quase inteiramente artificial, mas que pode ser natural, e era primeiramente quase brutalmente natural nele, a qualidade ou capacidade do patriotismo. Ela existe, assim como as outras virtudes e vícios, em uma certa realidade não diluída. Ela não se confunde com outros tipos de coisas. Uma criança falando de seu país ou a sua aldeia pode cometer cada erro de Mandeville ou dizer cada mentira de Munchausen, mas em sua declaração não haverá mais mentiras psicológicas do que pode haver em uma boa música. Adam Wayne, como um menino, tinha por suas ruas sem graça em Notting Hill o mesmo sentimento antigo e último que veio de Atenas ou Jerusalém. Ele sabia o segredo da paixão, os segredos que tornam reais as antigas canções nacionais que soam tão estranhas para a nossa civilização. Ele sabia que o real patriotismo tende a cantar sobre as dores e esperanças desamparados muito mais do que a vitória. Sabia que nos nomes próprios está metade da poesia de todos os poemas nacionais. E acima de tudo, sabia o fato psicológico supremo sobre patriotismo, tão certamente conectado com este como a timidez que acomete todos os amantes, o fato de que o patriota nunca em nenhuma circunstância se orgulha da grandeza de seu país, mas sempre, e por necessidade, se orgulha da pequenez dele.

Tudo isso ele sabia, não porque ele era um filósofo ou um gênio, mas porque ele era uma criança. Qualquer um que queira subir num cortiço como Pump Street, pode ver um pequeno Adão alegando ser rei de um pavimento de pedra. E sempre vai estar mais orgulhoso se ​​a pedra é quase demasiado estreita para manter os pés dentro dela.

Foi enquanto estava num sonho de batalha defensiva, marcando alguma faixa de rua ou uma fortaleza de passos como o limite do seu clamor arrogante, que o rei o tinha encontrado, e, com algumas palavras atiradas em zombaria, ratificaria por sempre os limites estranhos de sua alma. Daí em diante a ideia fantasiosa da defesa de Notting Hill em guerra tornou-se para ele uma coisa tão sólida como comer, beber ou acender um cachimbo. Ele eliminou suas refeições por isso, alterou seus planos por isso, ficou acordado no meio de várias noites. Duas ou três lojas eram para ele um arsenal, uma área era um fosso; cantos de varandas e voltas de degraus de pedra eram pontos para a localização de uma colubrina ou um arqueiro. É quase impossível transmitir a qualquer imaginação comum o grau em que ele havia transformado a paisagem de chumbo de Londres em ouro romântico. O processo começou quase na primeira infância, e tornou-se habitual como uma loucura literal. Sentiu mais intensamente à noite, quando Londres é realmente ela mesma, quando suas luzes brilham no escuro como os olhos de gatos inumeráveis, e o contorno das casas escuras tem a ousada simplicidade de colinas azuis. Mas para ele a noite revelou, em vez de esconder, e ele leu todas as horas em branco da manhã e à tarde, em uma frase contraditória, à luz da escuridão. Para este homem, de qualquer forma, o inconcebível havia acontecido. A cidade artificial tinha se tornado para ele a natureza, e sentiu as pedras do meio-fio e as lâmpadas de gás como coisas tão antigas quanto o céu.

Um exemplo pode ser suficiente. Caminhando ao longo de Pump Street com um amigo, ele disse, enquanto olhava sonhadoramente para a grade de ferro de um jardim pouco a frente:

— Como aquelas cercas agitam o sangue de uma pessoa!

Seu amigo, que também era um grande admirador intelectual, olhou diligentemente, mas sem qualquer emoção particular. Ficou tão preocupado com isso que voltou um grande número de vezes em noites calmas e olhou para a cerca, esperando que algo acontecesse com o seu sangue, mas sem sucesso. Por fim, perguntou a Wayne. Ele descobriu que o êxtase estava num ponto que nunca tinha notado a respeito da cerca, mesmo depois de suas seis visitas, o fato de que eram, como a grande maioria em Londres, afiadas no topo, à maneira de uma lança. Quando uma criança, Wayne tinha inconscientemente as comparada com as lanças nas imagens de Lancelot e St. George, e cresceu sob a sombra desta associação gráfica. Agora, sempre que olhava para elas, eram simplesmente as armas cerradas que faziam uma cobertura de aço em volta das casas sagradas de Notting Hill. Ele não podia limpar a sua mente deste significado mesmo que tentasse. Não era uma comparação fantasiosa, ou algo assim. Não é que as familiares cercas lembravam lanças, seria muito mais verdadeiro dizer que as familiares lanças ocasionalmente lembravam cercas.

Alguns dias depois de sua entrevista com o Rei, Adam Wayne andava como um leão enjaulado na frente de cinco lojas que ocupavam a extremidade superior da disputada rua. Eram uma mercearia, uma farmácia, uma barbearia, uma loja de velhas curiosidades e uma loja de brinquedos, que também vendia jornais. Foram estas cinco lojas que sua meticulosidade infantil selecionou pela primeira vez como os pontos essenciais da campanha de Notting Hill, a cidadela da cidade. Se Notting Hill era o coração do universo, e Pump Street era o coração de Notting Hill, este era o coração de Pump Street. O fato delas serem todas pequenas e uma ao das outras realizava o sentimento de conforto formidável e compacto que, como já dissemos, era o coração do seu patriotismo, e de todo o patriotismo. O merceeiro (que tinha licença para vinho e aguardentes) foi incluído porque podia fornecer provisões à guarnição; a loja de velhas curiosidades porque continha espadas suficientes, pistolas, alabardas, bestas e bacamartes para armar um regimento irregular inteiro; a loja de brinquedos e jornais porque Wayne considerava uma imprensa livre um centro essencial para a alma de Pump Street; a farmácia para lidar com surtos de doenças entre os sitiados; e o barbeiro porque estava no meio de todo o resto, e filho do barbeiro era um amigo íntimo com afinidade espiritual.

Era uma noite sem nuvens de outubro passando do púrpura até a pura prata ao redor dos telhados e chaminés da rua pouco íngreme, que parecia preta, afiada e dramática. Nas sombras profundas as frentes iluminadas a gás as lojas brilhavam como cinco fogos em uma fileira e, antes deles, obscuramente esboçado como um fantasma contra fornos do purgatório, passava de lá para cá a alta figura, como um pássaro com nariz de águia, de Adam Wayne.

Ele balançava seu bastão inquieto e parecia intermitentemente falar sozinho:

— Há, afinal, enigmas, mesmo para o homem que tem fé. Há dúvidas que permanecem mesmo depois que a verdadeira filosofia é concluída em cada degrau e rebite. E este é um deles. Será que a necessidade do ser humano normal, a condição humana normal, é maior ou menor do que os estados especiais da alma que clamam por uma glória duvidosa e perigosa? Esses poderes especiais do conhecimento ou do sacrifício que são possíveis apenas pela existência do mal? Qual deve vir primeiro para a nossas afeições, as sanidades duradouras da paz ou as virtudes meio maníacas de batalha? O que deve vir em primeiro lugar, o grande homem no cotidiano ou o grande homem na emergência? O que deve vir em primeiro lugar, para voltar ao enigma diante de mim, o dono da mercearia ou da farmácia? O que é mais certamente a estadia da cidade, o rápido cavalheiresco farmacêutico ou o benigno provedor merceeiro? Nessas últimas dúvidas espirituais, só é possível escolher um lado pelos instintos mais elevados, e para terminar a questão. Em qualquer caso, fiz a minha escolha. Que seja perdoado se escolho errado, mas escolho o merceeiro.

— Bom dia, senhor — disse o merceeiro, que era um homem de meia-idade, parcialmente calvo, com duros bigodes vermelhos e barba, a testa alinhada com todos os cuidados de um pequeno comerciante. — O que eu posso fazer por você, senhor?

Wayne tirou o chapéu ao entrar na loja, com um gesto cerimonioso, que, embora ligeiro, fez o comerciante olhá-lo com um pouco de espanto.

— Venho, Senhor — disse ele sobriamente —, apelar ao seu patriotismo.

— Por que, senhor — disse o dono da mercearia —? Isto soa como os tempos em que era um menino e estávamos habituados a ter eleições.

— Vamos tê-las novamente — disse Wayne, com firmeza — e coisas muito maiores. Escute, Sr. Mead. Sei as tentações decorrentes da filosofia muito cosmopolita de um merceeiro. Posso imaginar o que é sentar todos os dias cercado com mercadorias de todos os confins da terra, dos mares estranhos que nunca navegamos e florestas estranhas que não poderia mesmo visualizar. Nenhum rei Oriental já teve tais navios ou tais cargas provenientes do nascer e do pôr do sol, e Salomão, em toda a sua glória, não era rico como um de vocês. A Índia está em seu cotovelo — gritou ele, levantando a voz e apontando seu bastão para uma gaveta de arroz, enquanto o dono da mercearia fazia um movimento de algum alarme —, a China está diante de você, Demerara atrás de você, a América acima de sua cabeça e, neste momento, como um velho almirante espanhol, tem Túnis em suas mãos.

O sr. Mead deixou cair a caixa de tâmaras que estava levantando, e depois pegou-a novamente vagamente.

Wayne continuou com uma cor intensa, mas voz baixa:

— Digo, sei das tentações da visão de uma riqueza tão internacional, tão universal. Sei que não periga cair na estreiteza mecânica e empoeirada, como muitos comerciantes, mas sim ser muito amplo, ser muito geral, muito liberal. Se um nacionalismo estreito é o perigo do pasteleiro, que faz suas próprias mercadorias sob seus próprios céus, não menos é o cosmopolitismo o perigo do merceeiro. Mas venho a ti em nome do patriotismo que nem andanças ou iluminações nunca devem extinguir completamente, e peço que se lembre de Notting Hill. Pois, afinal, nesta magnificência cosmopolita, ela tem desempenhado um papel importante. As tâmaras podem vir das palmeiras da Berberia, o açúcar das ilhas estranhas dos trópicos, o seu chá das aldeias secretas do Império do Dragão. Para que este quarto fosse mobiliado, florestas podem ter sido devastadas sob o Cruzeiro do Sul, e leviatãs trespassados sob a Estrela Polar. Mas você mesmo, certamente não desprezível tesouro, o cérebro que maneja estes vastos interesses, ganhou pelo menos força e sabedoria entre essas casas cinzentas e sob este céu chuvoso. Esta cidade que lhe fez e, assim, que fez sua fortuna, está ameaçada de guerra. Venha e diga para os confins da terra esta lição. O petróleo é do Norte e frutos do Sul; o arroz da Índia e especiarias do Ceilão; ovelhas da Nova Zelândia e os homens de Notting Hill.

O merceeiro sentou-se por alguns momentos, com olhos fracos e boca aberta, parecendo um pouco um peixe. Em seguida, coçou a parte de trás de sua cabeça, e não disse nada. Então disse:

— Algo da loja, senhor?

Wayne olhou em volta de uma maneira confusa. Vendo uma pilha de latas de pedaços de abacaxi, apontou com o bastão em direção a elas.

— Sim — ele disse. — Vou levar estes.

— Todos estes, senhor? — disse o dono da mercearia, com interesse muito maior.

— Sim, sim, todos estes — respondeu Wayne, ainda um pouco confuso, como um homem que recebeu um banho de água fria.

— Muito bem, senhor, muito obrigado, senhor — disse o dono da mercearia com animação. — Pode contar com o meu patriotismo, senhor.

— Já conto com ele — disse Wayne, e saiu para se encontrar com a noite.

O merceeiro colocou a caixa de tâmaras de volta no seu lugar.

— Que pessoa agradável! É estranho como muitas vezes eles são agradáveis. Muito mais agradáveis do que aqueles que estão bem.

Enquanto isso, Adam Wayne ficou de fora na farmácia brilhante, vacilando de forma inconfundível.

— Que fraqueza! — murmurou. — Nunca me livrei dela desde a infância - o medo desta loja mágica. O merceeiro é rico, romântico, poético, no verdadeiro sentido, mas não é sobrenatural. Mas o farmacêutico! Todas as outras lojas estão em Notting Hill, mas esta está na terra dos elfos. Olhe para essas grandes taças coloridas queimando. Deve ser com elas que Deus pinta o pôr do sol. Ele é sobre-humano e o sobre-humano é tanto mais estranho quando é beneficente. Essa é a raiz do medo de Deus. Estou com medo. Mas devo ser um homem e entrar.

Ele era um homem, e entrou. Um rapaz baixo e moreno estava atrás do balcão com os óculos, e o cumprimentou com um sorriso brilhante mas inteiramente comercial.

— Uma boa noite, senhor — disse ele.