Part 3
— É muito simples — respondeu o outro. — Até então era a ruína de uma piada que as pessoas não a entendessem. Agora é a vitória sublime de uma piada que as pessoas não a entendam. Humor, meus amigos, é a santidade que restou para a humanidade. É a única coisa que causa medo. Olhe para a árvore.
Seus interlocutores olharam vagamente para uma faia que se inclinava em direção a eles a partir do cume da colina.
— Se — disse o Sr. Quin — eu dissesse que não viram as grandes verdades da ciência exibidas por aquela árvore, embora estejam escancaradas para um homem de intelecto, o que pensariam ou diriam? Simplesmente me considerariam como um pedante com uma teoria irrelevante sobre algumas células vegetais. Se dissesse que não veem naquela árvore a vil má gestão da política local, iriam me repudiar como um socialista maluco com alguma mania particular sobre parques públicos. Se dissesse que vocês são culpados da blasfêmia suprema de olhar para a árvore e não ver nela uma nova religião, uma revelação especial de Deus, poderiam simplesmente dizer que sou um místico, e não pensar mais em mim. Mas — e levantando uma mão pontifical — se digo que não podem ver o humor daquela árvore, e que eu vejo o humor dela, meu Deus! Poriam-se sob os meus pés.
Parou um momento, e depois retomou.
— Sim; um senso de humor, um estranho e delicado senso de humor, é a nova religião da humanidade! É para onde os homens vão se dirigir com o ascetismo dos santos. Farão exercícios, exercícios espirituais. Perguntarão: “Consegue ver o humor desta grade de ferro?” ou “Pode ver o humor deste campo de milho? Pode ver o humor das estrelas? Pode ver o humor dos pores do sol?” Quantas vezes ri sozinho até dormir por causa de um por do sol violeta.
— Isso mesmo — disse Barker, com um inteligente embaraço.
— Deixe-me contar uma outra história. Quantas vezes acontece que os deputado de Essex são menos pontuais do que se poderia supor. O deputado menos pontual de Essex foi, talvez, James Wilson, que disse, no instante de arrancar uma papoula...
De repente, Lambert se voltou e bateu sua bengala no chão numa atitude desafiadora.
— Auberon, pare. Não suporto isso. É tudo tolice.
Os dois homens olharam para ele, pois havia algo muito explosivo nas palavras, como se estivessem entaladas penosamente por um longo tempo.
— Você — começou Quin — não tem..
— Não me importo com uma maldição — disse Lambert, violentamente — se tenho “um senso de humor delicado” ou não. Não vou suportar isso. É tudo uma fraude para confundir-nos. Não há nenhuma piada naqueles contos infernais. Você sabe disso tão bem quanto eu.
— Bem — respondeu Quin, lentamente —, é verdade que eu, com meu processo mental gradual, não vi nenhuma piada neles. Mas, Barker, com seu sentido mais sutil, achou engraçado.
Baker ficou bem vermelho, mas continuou a olhar para o horizonte.
— Seu idiota – disse Lambert — por que você não pode ser como as outras pessoas? Por que não pode dizer algo realmente engraçado, ou segurar a sua língua? O homem que se senta em um chapéu em pantomina é uma visão muito mais engraçada do que você.
Quin o considerou firmemente. Eles haviam chegado ao topo da serra e o vento atingiu seus rostos.
— Lambert — disse Auberon —, você é um grande e bom homem, embora que eu seja enforcado se você aparenta isso. Mais ainda. É um grande revolucionário ou um salvador do mundo, e estou ansioso para vê-lo esculpido em mármore entre Lutero e Danton, se possível na sua atitude atual, o chapéu ligeiramente para o lado. Eu disse enquanto subia o morro que o novo humor era a última das religiões. Você fez do humor a última das superstições. Mas deixe-me dar-lhe um aviso muito sério. Tenha cuidado ao me pedir para fazer algo outré, como imitar o homem da pantomima, e me sentar no meu chapéu. Porque eu sou um homem cuja alma foi esvaziada de todos os prazeres, exceto a loucura . E por dois pence faria isso.
— Então faça — disse Lambert, balançando com impaciência sua bengala. — Seria mais engraçado do que a bobagem que conta.
Quin, de pé no alto do morro, estendeu a mão em direção à avenida principal do Jardim de Kensington.
— A duzentos metros de distância, estão todos os seus conhecidos elegantes com nada para fazer na terra exceto olhar para si mesmos e para nós. Estamos de pé sobre uma elevação sob o céu aberto, como se fosse um pico de fantasia, um Sinai de humor. Estamos num grande púlpito ou plataforma, iluminado com a luz solar, e metade de Londres pode nos ver. Tenha cuidado com o que sugerir para mim. Porque há em mim uma loucura que vai além do martírio, a loucura de um homem completamente ocioso.
— Não sei do que você está falando — disse Lambert, com desprezo. — Só sei que prefiro você preso na sua cabeça tola, do que falando tanto.
— Auberon! Pelo amor de Deus.... — gritou Barker, saltando para a frente, mas foi muito tarde. Faces de todos os bancos e avenidas se viraram em sua direção. Grupos pararam e pequenas multidões se reuniram, e a luz do forte sol pegou a cena toda em azul, verde e preto, como uma imagem em uma livro infantil. E no topo da colina o pequeno Sr. Auberon Quin estava, com destreza atlética considerável, de ponta cabeça, e acenando com suas botas de couro no ar.
— Pelo amor de Deus, Quin, levante-se e não seja um idiota — gritou Barker, torcendo as mãos — teremos a cidade inteira aqui.
— Sim, levante, levante-se, homem — disse Lambert, divertido e irritado. — Eu só estava brincando, levante-se.
Auberon o fez com um salto, e atirando seu chapéu acima das árvores, começou a pular em uma perna com uma expressão séria. Barker passou a bater o pé no solo descontroladamente.
— Oh, vamos para casa, Barker, e deixá-lo — disse Lambert —, alguns policiais adequados e corretos vão cuidar dele. Aí vêm eles!
Dois homens de aparência séria com uniformes discretos vieram até o morro na direção deles. Um deles trazia um papel na mão.
— Lá está ele, oficial — disse Lambert, alegremente. — Não somos responsáveis por ele.
O oficial virou-se para o travesso sr. Quin com um olhar silencioso.
— Meus senhores, não viemos aqui por causa do que acredito estão aludindo. Nós viemos do quartel-general anunciar a seleção de Sua Majestade, o Rei. É a regra, herdada o antigo regime, que a notícia deve ser trazida para o novo soberano imediatamente, onde quer que esteja; então o seguimos até o jardim de Kensington.
Os olhos de Barker estavam em chamas no seu rosto pálido. Ele era consumido com a ambição por toda sua vida. Com a magnanimidade embrutecida do intelecto, realmente acreditava no método de seleção de déspotas pelo acaso. Mas esta sugestão súbita, que a seleção poderia ter caído em cima dele, o enervou com prazer.
— Qual de nós — começou, mas o respeitoso funcionário o interrompeu.
— Não o senhor, sinto informar. Se me é permitido dizê-lo, sabemos de seus serviços para o governo, e seriamos gratos se fosse. A escolha recaiu ....
— Deus abençoe a minha alma! — disse Lambert, saltando dois passos para trás. — Não eu. Não diga que eu sou o autocrata de todas as Rússias.
— Não, senhor — disse o oficial, com uma leve tosse e um olhar para Auberon, que estava, naquele momento, colocando a cabeça entre as pernas e fazendo um barulho como uma vaca. — No momento, o cavalheiro a quem temos que parabenizar parece estar -er-er- ocupado.
— Quin? Não! — gritou Barker, correndo até ele — não pode ser. Auberon, pelo amor de Deus, componha-se. Você foi escolhido Rei!
Com a cabeça ainda de cabeça para baixo entre as pernas, o sr. Quin respondeu modestamente:
— Não sou digno. Não posso razoavelmente pretender me igualar aos grandes homens que já empunharam o cetro da Grã-Bretanha. Talvez a única peculiaridade que posso afirmar é que sou provavelmente o primeiro monarca que expressou sua alma ao povo de Inglaterra com a cabeça e corpo na presente posição. Isto pode dar-me, para citar um poema que escrevi na minha juventude: Um ofício mais nobre na terra Do que por valor, poder cerebral, ou nascimento Poderiam dar aos reis guerreiros antigos. Assim, com o intelecto esclarecido por essa postura...
Lambert e Barker foram encima dele.
— Não entende? — gritou Lambert. — Não é uma piada. Eles realmente te escolheram rei. Por Deus! Devem ter gostos extravagantes.
— Os grandes bispos da Idade Média — disse Quin, chutando as pernas no ar, enquanto era arrastado mais ou menos de cabeça para baixo — tinham o hábito de recusar a honra da eleição três vezes e depois aceitá-la. Uma mera questão de detalhes me separa desses grandes homens. Aceitarei o cargo três vezes e recusá-lo depois. Oh! vou trabalhar duro para vocês, meus fiéis! Terão um banquete de humor.
Por então, já havia sido aterrizado de cabeça para cima, e os dois homens ainda estavam tentando em vão impressioná-lo com a gravidade da situação.
— Não me disse, Wilfrid Lambert, que eu teria mais valor público se adotasse uma forma mais popular de humor? E quando uma forma popular de humor deveria ser mais firmemente pregada senão agora, quando me tornei o queridinho de todo um povo? Oficial, — continuou ele, dirigindo-se para o mensageiro assustado — não existem cerimônias para comemorar a minha entrada na cidade?
— Cerimônias — começou o oficial, com constrangimento — foram mais ou menos esquecidas por algum tempo, e...
Auberon Quin começou a gradualmente tirar o casaco.
— Toda cerimônia — disse ele — consiste na inversão do óbvio. Assim, os homens, quando desejam ser padres ou juízes, vestem-se como mulheres. Por favor, me ajude com este casaco — e o segurou.
— Mas, Majestade — disse o oficial, depois de um momento de confusão e manipulação — está colocando-o com as caudas na frente.
— A inversão do óbvio — disse o rei, com calma — é o mais próximo a que podemos chegar de um ritual com nosso imperfeito aparato. Pode continuar.
O resto da tarde e noite foi para Barker e Lambert um pesadelo, que não poderiam apropriadamente compreender ou recordar. O rei, com seu casaco invertido, foi para as ruas que estavam à espera dele, e para o antigo palácio de Kensington, que era a residência real. Enquanto passava pequenos grupos de homens, os grupos se transformou em multidões, e emitiam sons que pareciam estranhos para acolher um autocrata. Barker andou atrás, seu cérebro cambaleando, e, enquanto a multidão crescia mais espessa, os sons se tornaram ainda mais incomuns. E quando alcançou o grande mercado local em frente à igreja, Barker sabia que tinha chegado, embora estivesse bem atrás, porque subiu uma gritaria como nunca antes havia recebido nenhum dos reis da terra.
Livro II
A Carta das Cidades
Lambert estava de pé no lado de fora da porta dos aposentos do rei, atônico em meio a aquela agitação de espanto e ridículo. Estava de passagem para a rua, atordoado, quando James Barker cruzou com ele.
— Onde vai? — perguntou ele.
— Parar com toda essa tolice, é claro — respondeu Barker, e desapareceu dentro do quarto.
Entrou de cabeça, batendo a porta, e colocando seu incomparável chapéu de seda sobre a mesa. Sua boca se abriu, mas antes que pudesse falar, o rei disse:
— Seu chapéu, por favor.
Revolvendo os dedos, e mal sabendo o que estava fazendo, o jovem político o entregou.
O rei colocou-o em sua própria cadeira, e sentou-se nele.
— Um curioso costume antigo — explicou ele, sorrindo acima das ruínas. — Quando o Rei recebe os representantes da casa de Barker, o chapéu do último é imediatamente destruído dessa maneira. Representa a finalidade absoluta do ato de homenagem expressa na remoção do mesmo. Ele declara que nunca, até que o chapéu surja mais uma vez em sua cabeça (uma contingência que acredito firmemente ser remota), poderá a casa de Barker rebelar-se contra a coroa da Inglaterra.
Barker estava com o punho cerrado, e os lábios agitados.
— Suas piadas — começou ele — e minha propriedade.. — e, em seguida, explodiu com um palavrão, e parou de novo.
— Continue, continue — disse o Rei, acenando com as mãos.
— O que significa tudo isso? — exclamou o outro, com um gesto de racionalidade passional. — Está louco?
— Nem um pouco — respondeu o rei, agradavelmente. — Os loucos são sempre graves, enlouquecem por falta de humor. Está ficando muito sério, James.
— Por que não pode manter isso na sua vida privada? — queixou-se o outro. — Agora, tem muito dinheiro, e abundância de casas para bancar o tolo, mas no interesse público...
— Epigramático — disse o rei, apontando o dedo, infelizmente para ele. — Nenhuma de suas ousadas cintilações aqui. Quanto ao porquê de não fazer isso em particular, não consigo entender a sua pergunta. A resposta é de comparativa limpidez. Não o faço em particular, porque é mais engraçado fazê-lo em público. Parece pensar que seria divertido ser dignificado no salão de banquetes e na rua, e na minha própria lareira (eu poderia adquirir uma lareira) manter todos rindo. Mas isso é o que todos fazem. Todo mundo é sério em público, e engraçado em privado. Meu senso de humor sugere a inversão desta; sugere que se deve ser engraçado em público e solene em particular. Desejo fazer das funções de Estado, os parlamentos, coroações, e assim por diante, uma antiquada pantomina para o riso. Por outro lado, eu me tranquei sozinho em uma pequena despensa por duas horas por dia, onde sou tão digno que me sinto mal.
Por esta altura, Barker andava para cima e para baixo da sala, sua sobrecasaca batendo como as asas de um pássaro preto.
— Bem, você vai arruinar o país — disse secamente.
— Parece-me — disse Auberon — que a tradição de dez séculos está sendo quebrada, e a casa dos Barker está se rebelando contra a Coroa da Inglaterra. Seria com pesar (porque admiro a sua aparência) que seria obrigado a decorar a sua cabeça com os restos deste chapéu, mas...
— O que eu não consigo entender — disse Barker levando os dedos com um movimento frenético bem americano — é porque não se importa com nada exceto seus jogos.
O rei parou bruscamente o ato de levantar os restos de seda, deixou-os cair, e caminhou até Barker, olhando-o firmemente.
— Fiz uma espécie de voto de que não iria falar sério, o que sempre significa responder perguntas tolas. Mas o homem forte será sempre gentil com os políticos. “A forma de meus olhares desdenhosos a ridicularizar, Foi preciso um Deus para moldar” se assim posso exprimir-me teologicamente. E por alguma razão que não posso compreender minimamente, sinto-me impelido a responder a essa pergunta de vocês, e para respondê-la como se realmente houvesse tal coisa no mundo como um assunto sério. Pergunta-me por que não ligo para nada mais. Pode dizer-me, em nome de todos os deuses que você não acredita, por que deveria me importar com outra coisa?
— Não percebe as necessidades públicas comuns? — gritou Barker. — Como é possível que um homem da sua inteligência não percebe que é do interesse de todos...
— Você não acredita em Zoroastro? É possível que negligencie Mumbo-Jumbo? — devolveu o Rei, com animação surpreendente. — Um homem de sua inteligência me vêm com esses malditos princípios de ética vitoriana? Se, ao estudar as minhas características e maneiras, você detectar qualquer semelhança especial com o príncipe consorte, lhe asseguro que está enganado. Será que Herbert Spencer o convenceu, ele nunca convence ninguém, ele nunca por um momento louco convenceu a si mesmo, que é do interesse do indivíduo se sentir um espírito público? Acredita que, se você governa seu departamento mal, terá alguma chance, ou a metade da chance, de ser guilhotinado, que um pescador sendo puxado de dentro do rio por um pique forte? Herbert Spencer absteve-se de roubo, pela mesma razão que ele se absteve de usar penas em seus cabelos, porque era um cavalheiro inglês com gostos diferenciados. Eu sou um cavalheiro inglês, com gostos diferenciados. Ele gostava de filosofia. Eu gosto de arte. Ele gostaria de escrever dez livros sobre a natureza da sociedade humana. Eu gostaria de ver o Lorde Chamberlain andando na minha frente com um pedaço de papel preso ao rabo do paletó. É o meu humor. Entendeu minha resposta? De qualquer forma, disse a minha última palavra séria hoje, e minha última palavra séria confio para o resto da minha vida a este paraíso dos tolos. No restante da minha conversa com vocês hoje, que espero ser longa e estimulante, proponho conduzir em uma nova linguagem de minha criação baseado em movimentos rápidos e simbólicos da perna esquerda — e ele começou a piruetar lentamente em volta da sala com uma expressão preocupada.
Barker percorreu a sala, depois dele, bombardeando-o com as exigências e súplicas. Mas não recebeu nenhuma resposta, exceto no novo idioma. Ele saiu batendo a porta novamente, e doente como um homem vindo em terra. Como ele caminhou pelas ruas se viu de repente em frente ao restaurante Cicconani, e por algum motivo levantou-se diante dele a fantástica figura verde do general espanhol, de pé, como tinha visto ele pela última vez, na porta, com as palavras em sua lábios: “Não se pode argumentar com a escolha da alma.”
O rei saiu de sua dança com o ar de um homem de negócios legitimamente cansado. Ele vestiu um casaco, acendeu um charuto, e saiu para a noite purpura.
Eu sou o rei do castelo. “Eu sou o rei do castelo.” ------------------------------------------------------------------------
— Irei me misturar com o povo.
Passou rapidamente por uma rua no bairro de Notting Hill, quando de repente sentiu um objeto duro batendo em seu colete. Parou, colocou o seu monóculo, e viu um rapaz com uma espada de madeira e um chapéu de papel armado, usando aquela expressão de temor satisfeito com que uma criança contempla a sua obra quando bate alguém de forma dura. O rei olhou pensativo por algum tempo o seu agressor, e lentamente pegou um caderno do bolso no peito.
— Tenho algumas notas para o meu discurso fúnebre — e virou as folhas. — Discurso fúnebre por assassinato político; idem, se por ex-amigo... hum, hum. Discurso fúnebre por morte nas mãos de um marido afrontado (e arrependido), discurso fúnebre para o mesmo (mas cínico). Não estou certo de qual seria adequado para o presente ....
— Eu sou o rei do castelo — disse o menino, de forma truculenta, e muito satisfeito por alguma razão.
O rei era um homem bondoso, e gostava muito de crianças, como todas as pessoas que gostam do ridículo.
— Infante, estou contente por ser tão valente defensor da antiga e inviolável Notting Hill. Toda noite olhe acima, meu filho, onde levanta-se entre as estrelas, tão antiga, tão solitária, tão indizivelmente Notting. Enquanto estiver pronto para morrer pela montanha sagrada, mesmo que cercado por todos os exércitos de Bayswater...
O rei parou de repente, e seus olhos brilhavam.
— Talvez, talvez a mais nobre de todas as minhas concepções. Um reavivamento da arrogância das antigas cidades medievais aplicadas aos nossos gloriosos subúrbios. Clapham com uma guarda citadina. Wimbledon com uma muralha. Surbiton tocando o sino para chamar seus cidadãos. West Hampstead para a batalha com sua própria bandeira. Deveria ser feito. Eu, o rei, digo isso — e apressadamente presentou o menino com meia coroa, observando: — Para o fundo de guerra de Notting Hill — e então correu violentamente para casa com tal velocidade que as multidões o seguiam por milhas. Ao chegar a seu escritório, pediu uma xícara de café, e mergulhou em profunda meditação sobre o projeto. Finalmente, ele chamou o seu escudeiro favorito, o capitão Bowler, por quem tinha uma afeição profunda, fundada principalmente pela forma de seus bigodes.
— Bowler — disse ele —, não existe uma sociedade de pesquisa histórica, ou algo do qual sou membro honorário?
— Sim, senhor — disse o capitão Bowler, esfregando o nariz —, é um membro dos “Incentivadores do Renascimento Egípcio”, “Clube dos Túmulos Teutônico” , “Sociedade para a Recuperação de Antiguidades de Londres”, e …
— Admirável! — disse o rei. — O de “Antiguidades de Londres” é adequado. Vá para a “Sociedade para a Recuperação de Antiguidades de Londres” e fale com seu secretário, seu sub-secretário, seu presidente, e seu vice-presidente, dizendo: ’O rei da Inglaterra é orgulhoso, mas o membro honorário da Sociedade de Recuperação de Antiguidades de Londres é mais orgulhoso do que reis. Gostaria de dizer-lhe de certas descobertas que fiz no tocante as tradições negligenciadas dos bairros de Londres. As revelações podem causar alguma emoção, agitando memórias ardentes e tocar em velhas feridas em Shepherd’s Bush e Bayswater, em Pimlico e South Kensington. O rei hesita, mas o membro honorário é firme. Aproximo-me invocando os votos de minha iniciação, os Sagrados Sete Gatos, o Poker de Perfeição, e a Provação do Instante Indescritível (perdoem-me se misturá-los com o Clã-na-Gael ou algum outro clube a que pertenço), e peço que me permitam ler um artigo em sua próxima reunião: "As guerras dos bairros de Londres".’ Diga tudo isso para a sociedade, Bowler. Lembre-se com muito cuidado, pois é importante, e esqueci tudo completamente, e envia-me uma xícara de café e alguns dos charutos que mantemos para pessoas bem sucedidas e vulgares. Vou escrever o meu artigo.
A Sociedade para a Recuperação de Antiguidades de Londres encontrou-se um mês depois em um salão de ferro corrugado, nos arredores de um dos subúrbios ao sul de Londres. Um grande número de pessoas tinha se ajuntado lá sob grossos e flamejantes jatos de gases, quando o rei chegou, suado e genial. Ao tirar o sobretudo, perceberam que estava em traje de noite, com a liga da Jarreteira. Sua aparição na pequena mesa, adornada apenas com um copo de água, foi recebida com aplausos respeitosos.
O presidente (Sr. Huggins) disse que tinha certeza de que todos já tiveram o prazer de ouvir tais professores ilustres já há algum tempo (bravo, bravo). O sr. Burton (bravo, bravo), o sr. Cambridge, o professor King (uma exortação continuada), o velho amigo Peter Jessop, sir William White (gargalhadas), e outros homens eminentes que honram este pequeno empreendimento (aplausos). Mas havia outras circunstâncias que emprestam uma certa qualidade exclusiva para a ocasião presente (bravo, bravo). Até onde vai sua lembrança, e em relação a Sociedade de Recuperação de Antiguidades de Londres vai muito longe (aplausos altos), não se lembrava de que qualquer um de seus palestrantes que tivesse o título de rei. Ele iria, portanto, chamar o rei Auberon brevemente para tratar da palestra.
O rei começou por dizer que este discurso pode ser considerado como a primeira declaração de sua nova política para a nação.
— Nesta hora suprema da minha vida sinto que a ninguém, senão aos membros da Sociedade para a Recuperação de Antiguidades de Londres posso abrir meu coração (aplausos). Se o mundo ir contra minha política, e as tempestades de hostilidade popular começarem a subir (não, não), sinto que é aqui, com meus bravos recuperadores em torno de mim, que posso combatê-los melhor, com a espada na mão (altos aplausos).
Sua Majestade, em seguida, passou a explicar que, agora que a velhice se aproxima, propôs-se a dedicar sua força restante para trazer um sentido mais agudo de patriotismo local nos diferentes municípios de Londres. Como tão poucos deles conheciam as lendas de seus bairros próprios! Quantos havia que nunca tinha ouvido falar da verdadeira origem do Wink de Wandsworth! E que uma grande parte da geração mais jovem em Chelsea deixou de interpretar o velho Chuff Chelsea! Pimlico já não bombeava os Pimlies. Battersea tinha esquecido o nome de Blick.
Houve um breve silêncio, e então uma voz disse:
— Que vergonha!
O rei continuou: