O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias
Part 9
Ali, em Malta, os movimentos da condessa e do official não estavam tanto sob o dominio da minha vista. Eu, ás vezes, não via a condessa um dia, dois dias, absorto na companhia de alguns officiaes inglezes, em passeios no mar, no campo, em ceias e no jogo. Comprehendia porém que aquella paixão da condessa a dominava absolutamente. Rytmel parecia-me tambem perdidamente namorado.
Não lhe quero dizer, senhor redactor, os raciocinios interiores, que me determinaram a ser indifferente áquella situação. Comprehenderá claramente os motivos por que resolvi não saber, não olhar, não perceber, isolar-me n'uma discripção completa e delicada.
Pouco tempo depois de chegarmos a Malta, tinhamo-nos relacionado com lord Grenley, que estava ali passando o inverno e curando os seus _blue devils_. Tinha vindo de Inglaterra n'um lindo _yacht_, chamado _The Romantic_, que nós viamos todos os dias na bahia bordejar, fazendo reluzir ao sol os seus cobres polidos e o seu esvelto costado branco. Lord Grenley ligára-se muito com o conde. Era tambem o Intimo de Rytmel.
Carmen tinha-se encontrado pouco com a condessa, a não ser no theatro, onde a crivava de olhares impertinentes, em plena e altiva indifferença da condessa. Carmen, irritada, não vivendo nas relações de _ladies_, não a encontrando, como nos sete metros do tombadilho do paquete, sob a acção dos seus largos gestos e das suas asperas ironias, desforrava-se á mesa de Clarence-Hotel, envolvendo indirectamente Rytmel em toda a sorte de allusões e de palavras causticas. A sua ultima tactica era instigar sempre Mr. Perny contra o official, arremessal-o contra todas as idéas, todas as opiniões de Rytmel; não sei se com a esperança perversa de um duello, se apenas pelo gosto de o vêr contrariado...
Um dia fallava-se da India. Rytmel dizia a transformação fecunda que a Inglaterra lhe tinha feito. Uma grande risada interrompeu-o. Era Perny.
--Ri-se? disse Rytmel, levemente pallido.
--Rio-me? Estalo de riso, tenho apoplexias de riso. Que _transformação fecunda_ fez a Inglaterra á India? A transformação da poesia, da imaginação, do sol, n'uma coisa chata, trivial e cheia de carvão. Eu estive na India, meus senhores. Sabem o que fizeram os transformadores inglezes? A traducção da India, poema mysterioso, na prosa mercantil do _Morning Post_. Na sombra dos pagodes põem fardos de pimenta; tratam a grande raça india, mãe do ideal, como cães irlandezes; fazem navegar no divino Ganges paquetes a tres _schellings_ por cabeça; fazem beber ás _bayaderas_, _pale ale_, e ensinam-lhes o jogo do _criket_; abrem _squares_ a gaz na floresta sagrada; e, sobre tudo isto, meus senhores, desthronam antigos reis, mysteriosos, e quasi de marfim, e substituem-n'os por sujeitos de suissas, crivados de dividas, rubros de _porter_, que quando não vão ser forçados em _Botany-Bay_, vão ser governadores da India! E quem faz tudo isto? Uma ilha feita metade de gelo e metade de rosbeef, habitada por piratas de collarinhos altos, odres de cerveja!
Captain Rytmel ergueu-se risonho, approximou-se de mim, e disse:
--Peço-lhe que no fim do jantar pergunte áquelle engraçado doido o seu logar, a sua hora e as suas armas.
E foi sentar-se serenamente. Eu, á sobremesa, affastei-me com Perny, e transmitti-lhe as palavras do meu amigo.
Perny riu, disse que estimava os inglezes, que apreciava os seus serviços na India, que tinha sido instigado por Carmen a contrariar Rytmel, que o achava um adoravel _gentleman_, que pedia das suas palavras as mais humildes desculpas, que o seu logar era por toda a parte, as suas armas quaesquer...
--Mas, dadas essas explicações, disse eu, nada temos que vêr com as armas...
--Ah! perdão; disse o francez, ha ainda uma pequena cousa: é que eu acho que o penteado de Captain Rytmel é profundamente offensivo do meu caracter e da dignidade da França. Isto é que exige reparação.
Nomearam-se padrinhos n'essa noite. Combinou-se que o duello não fosse em Malta: Rytmel era official, e os duellos nas praças d'armas têem as mais severas penalidades. Era difficil, porém, estando n'uma ilha ingleza, não se baterem em territorio inglez. Resolveu-se então que o duello fosse no alto mar, a um tiro de canhão da costa ingleza. Lord Grenley emprestou o seu _yacht_ e partimos de madrugada com um vento fresco e um sol alegre. As cousas foram rapidas. Puzemo-nos á capa a 5 milhas de Malta, arriámos o pavilhão inglez, a marinhagem subiu ás vergas, e como havia egualdade de nivel, um dos adversarios foi collocado á pôpa e outro á prôa. O sol davanos de estibordo. Éram 7 horas, pequenas nuvens brancas esbatiam-se no ar. O duello era ao primeiro tiro, havendo ferimento grave. Lord Grenley deu o signal, os dois adversarios fizeram fogo. Perny deixou cahir a pistola, e abateu-se sobre os joelhos. Estava gravemente ferido com a clavicula partida. Foi deitado n'uma _cabine_ preparada. Levantou-se o pavilhão inglez e navegámos para Malta. Vinha cahindo a tarde.
Eu dirigi-me logo aos quartos de D. Nicazio. Carmen estava só.
--Sabe o que fez? disse-lhe eu. Perny está ferido.
--Isso cura-se, eu mesma o curarei... agora o que é sério, é o que se está tramando aqui dentro d'este hotel... Eu não sei bem o que é, desconfio apenas... Diga ao conde que vigie a condessa!
Eu encolhi os hombros, dirigi-me ao quarto da condessa: estava o conde, Rytmel, e Lord Grenley. O ferimento de Perny fôra declarado sem perigo, o capitão estava tranquillo. Conversava-se alegremente. Combinava-se uma visita á ilha de Gozzo, a oito kilometros de Malta. Grenley tinha proposto a excursão, e offerecia o seu _yacht_. O conde esquivava-se, dizendo que o mar o incommodava, no estado nervoso em que estava.
--Menino, é aquella maldita Rize! veio-me elle dizer em voz baixa, tenho-lhe para amanhã promettido um passeio a Bengama.
--Mas, então?
--Acompanha tu a condessa. Vae Grenley e Rytmel. Faze-me isto. Bem vês! Mademoiselle Rize é exigente, mas pobresinha d'ella, tem o sangue maltez!
Mais tarde, quando eu atravessava para o meu quarto, um vulto veiu a mim no corredor e tomou-me pela mão.
--Escute, disse-me uma voz subtil como um sopro.
Era Carmen.
--Se é um homem de honra, cautella amanhã com o passeio a Gozzo.
E desappareceu.
VIII
No outro dia ás seis da manhã fui a casa de Rytmel. A condessa havia estado durante a noite sob o dominio d'uma extrema agitação nervosa, mas não queria renunciar ao passeio de Gozzo. Encontrei Lord Grenley com Rytmel, tomando chá.
Pareceu-me pela fadiga das suas physionomias, que se não tinham deitado: lord Grenley decerto que não, porque estava de casaca, como na vespera, e tinha ainda na _boutonniêre_ um jasmim do Cabo, murcho e amarellado.
--Bonita madrugada! disse Rytmel.
Tinham aberto a janella, o ar fresco entrava; nas arvores do jardim cantavam os passaros.
--Adoravel! disse eu. A condessa esteve toda a noite doente, mas não se transtorna o passeio... Outra cousa: tem um rewolver, Rytmel?
--Para quê?
--Disseram-me que era muito curioso atirar aos passaros que se escondem nas cavernas, em Gozzo. Ha um echo excentrico. Precisamos de uma arma.
Rytmel deu-me um pequeno rewolver marchetado.
--Leve-o: eu tenho as algibeiras cheias da albuns e de canetas para tirar desenhos... Ah! Sabe que este Grenley não vae?
--Porque? como assim, mylord?
--Um jantar official com o governador disse Lord Grenley, é horrivel. Tenho uma pena immensa...
Ás sete horas fomos buscar a condessa. O marido acompanhou-nos até o caes Marsa-Muscheto.
Notei ao entrar no _yacht_ que a equipagem estava augmentada e havia um piloto arabe.
Largámos com um vento fresco, ás oito horas da manhã; as gaivotas voavam em roda das velas, as casas brancas de _La Valette_ tinham uma côr rosada, ouviam-se as musicas militares, o ceu estava d'uma pureza encantadora.
A condessa, um pouco excitada, olhava com uma alegria avida, para o vasto mar azul, livre, infinito, coberto de luz.
--O que são as mulheres! pensava eu. Esta, tão altiva e tão discreta, está encantada por se vêr só, com rapazes, n'um _yacht_, no alto mar. É para ella quasi uma aventura!
Eu, confesso, estava embaraçado. A minha situação era um pouco pedante. Representar eu alli o marido, a familia, o dever, diante de duas creaturas moças, bellas, namoradas, e ser eu, aos vinte e quatro annos, ardente e apaixonado, o encarregado de fazer a policia d'aquelle romance sympathico! _Á la grace de Dieu!_ O mar é largo, o ceu profundo, a honra existe, daqui a duas horas estamos em Gozzo, passeamos, rimos, jantamos, e ao anoitecer, quando Deus espalhar o seu rebanho de estrellas, voltaremos na viração e na phosphorescencia, calados, ouvindo o piloto arabe cantar as doces melopeas da Syria, ao ruido languido da maresia...
Rytmel tinha descido a dar as ordens para o almoço. A condessa ficara de pé, á prôa, com um vestido curto de xadrez, botinas altas, envolta n'uma manta escoceza, de largas pregas. Nunca eu a vira tão linda.
Costeavamos Malta com vento oeste.
Approximamo-nos da ilha de Cumino. Rytmel veio-nos dizer que deveriamos almoçar, e que ao fim de meia hora desembarcavamos em Gozzo, na _Calle Maggiara_; iriamos vêr as curiosidades da ilha, tornariamos a embarcar para tornear Gozzo, e vêr as terriveis cavernas, onde o mar se abysma e se perde, e ao anoitecer tocariamos o caes de La Valette.
O almoço foi muito alegre. Havia Champagne, um Rheno adoravel, um guizado arabe e um piano na camara. Captain Rytmel, cujo aspecto me parecia ter uma preoccupação inexplicavel, fez ao piano depois do almoço interminaveis improvisações. Caminhavamos sempre. Casualmente, tirei o relogio, e tive um sobresalto! Havia duas horas e meia que tinhamos descido! Ora quando o almoço começára, faltava-nos meia hora para desembarcar em Maggiara! Porque seguiamos então? Subi rapidamente á tolda. O piloto arabe estava ao leme. Não se via quasi a terra: iamos no mar alto, navegando com uma extraordinaria velocidade sob o vento.
--Onde está Gozzo? gritei ao arabe em inglez, depois em francez, depois em italiano.
O arabe nem sequer se dignou olhar-me. N'este momento Rytmel e a condessa subiam.
--Onde está Gozzo? perguntei eu a Rytmel.
--Ha talvez uma bruma, respondeu elle vagamente e voltando o rosto.
O horisonte porém estava limpo, puro, sem mysterio, a perder de vista. Ao longe via-se uma sombra indefinida que denunciava a terra: e nós affastavamo-nos d'ella!
Corri á bussola. Navegavamos para Oeste.
--Navegamos para Oeste, Captain Rytmel! affastámo-nos de Malta! Que é isto? Para onde vamos?
Rytmel olhou longamente a condessa, depois a mim e disse:
--Vamos para Alexandria.
Num relance comprehendi tudo. Rytmel fugia com a Condessa!...
Eu fitei Rytmel, e disse-lhe tremendo todo:
--Isso é uma infamia!
Elle empallideceu terrivelmente; mas a condessa, interpondo-se, com uma voz vibrante:
--Não! sou eu! Sou eu que vou para Alexandria.
--N'esse caso sou eu o infame, prima.
Houve um silencio. Os olhos da condessa estavam humidos. Correu para mim, tomou-me uma das mãos, murmurou entre soluços:
--Que quer? Ninguem tem culpa. Amo este homem, fujo com elle.
Rytmel tomara-me a outra mão.
--Agora, dizia, é impossivel voltar. É um passo dado, irreparavel...
Eu estava succumbido: aquella situação imprevista, deixava-me sem raciocinio, sem voz, sem vontade.
Eu, amigo do conde!... Eu, cumplice d'aquella fuga! Além d'isso, alli, no meio d'aquelles dois amantes encantadores, que me supplicavam apertando-me as mãos, eu sentia-me ridiculo--e isto augmentava o meu desespero. A condessa, no entanto, continuava:
--Primo, disse ella, que importa? Estou deshonrada, bem sei. Mas que queria? que eu ficasse ao lado de meu marido, amando este, n'uma mentira perpetua, vivendo alegremente instalada na infamia? Essa situação nunca! É suja! Ao menos isto é franco. Rompo com o mundo, sou uma aventureira, fico sendo uma mulher perdida, mas conservo-me para um só e sendo pura para elle.
--Captain Rytmel, disse eu, então mande deitar uma lancha ao mar.
--Que quer fazer? gritou a condessa.
--Eu? ganhar a terra. Acha que tambem não é uma infamia installar-me n'este navio?
--Está louco, disse Rytmel, ha só um escaler a bordo. O vento cresce, o mar incha. O escaler não se aguentará dez minutos.
--Melhor! Um escaler ao mar! gritei eu.
--Ninguem se mecha! bradou Rytmel.
E voltando-se para a condessa:
--Mas diga-lhe que é a morte! Que cumplicidade tem elle? Foi forçado, foi levado. Não responde por nada.
--Um escaler ao mar! gritava eu.
Mas, de repente, Rytmel tomando um machado correu ao bordo d'onde pendia o escaler, cortou as correias de suspensão; o barco cahiu na agua com um ruido surdo, ficou jogando sobre as ondas meio voltado, sobrenadando como um corpo morto.
Eu bati o pé, desesperado.
--Ah que infamia! capitão Rytmel! Que infamia!
E por uma inspiração absurda, querendo desabafar, fazendo alguma cousa de violento, gritei para alguns marinheiros que estavam á prôa:
--Ha algum inglez ahi que preze a sua bandeira?
Todos se voltaram admirados, mas sem comprehender.
--Pois bem! gritei eu, declaro que esta bandeira cobre uma torpeza, tem a cumplicidade da deshonra, e que é sobre toda a face ingleza que eu cuspo, cuspindo no pavilhão inglez.
E correndo á popa cuspi, ou fiz o gesto de cuspir sobre a larga bandeira ingleza. Um dos marujos então de certo comprehendeu porque teve um movimento de ameaça.
--Ninguem se mova! gritou Rytmel. Eu sou o offendido. Meu amigo, disse elle com a voz suffocada, tem razão: desde que abandonei Malta, deixei de ser official inglez. Sou um aventureiro. Esta bandeira, com effeito, não tem que fazer aqui!
Adeantou-se, arreou o pavilhão de tope da popa.
E n'uma exaltação tão insensata como a minha, arremessou o pavilhão ao mar; as ondas envolveram-n'o, e por um estranho acaso, no encontro das aguas, a bandeira desdobrou-se, e ficou estendida sem movimento, serena, immovel, á superficie do mar, até que se afundou.
Rytmel, então, por um impulso romanesco e apaixonado, tomou um lenço das mãos da condessa, amarrou-o á corda da bandeira, e içando-o rapidamente, gritou:
--De ora em diante o nosso pavilhão é este!
Eu achava-me no meio de todas aquellas scenas violentas, como entre as incoherencias d'um sonho.
N'um movimento que fiz, senti no bolso o rewolver: não sei que desvairadas ideias de honra me hallucinaram, tirei-o, engatilhei-o, brandi-o, gritei:
--Boa viagem!
--Jesus! bradou a condessa.
IX
Rytmel precipitou-se sobre mim e arrancou-me o rewolver.
Eu murmurei simplesmente:
--Bem! Será no primeiro porto a que chegarmos.
A condessa então adiantou-se, livida como a cal e disse (nunca me esqueceu o som da sua voz):
--Rytmel, voltemos para Malta.
--Voltar para Malta! Voltar para Malta! Para quê, santo Deus!
Eu interpuz-me, disse as cousas mais loucas:
--Rytmel, dê-me esse rewolver, sejamos homens. Que as nossas acções tenham a altura dos nossos caracteres. Nada mais simples. Nem a paixão póde retroceder, nem a honra condescender. A solução é a morte. Eu mato-me, fugi vós para bem longe...
Mas a condessa, que era a unica que parecia ter ainda uma luz de razão dentro de si, repetiu, com a mesma firmeza, onde se sentia a dôr oculta:
--Rytmel, voltemos para Malta.
Elle olhou-a um momento: a consciencia da nossa odiosa situação pareceu então invadil-o, subjugal-o; vergou os hombros, obedeceu, foi dizer algumas palavras ao capitão do _yacht_.
D'ahi a um instante corriamos sobre Malta.
Houve um grande silencio, como o cançasso d'aquella lucta da paixão. Rytmel passeava rapidamente pelo convez, e sob a serenidade do seu rosto, sentia-se a tormenta que lhe ia dentro.
--Aqui está! disse elle de repente, parando e cruzando os braços, com um extranho fogo nos olhos. Acabou tudo! Voltamos para Malta. Que mais querem? Que nos resta agora? Dizer-nos adeus para sempre, para sempre! Iamos a Alexandria; estavamos salvos, sós, novos, felizes! E agora? Felicidade, amor, paixão, esperança, alegria, acabou tudo. Ah, pobre ingenuo! Fallam-te na honra! Que honra a que me vae matar todos os dias, a que me arranca do meu paraiso, a que me torna o ultimo desditoso! Honra! Que me resta a mim? Uma bala na India. Morrer para ali, só, como um cão.
A condessa não dizia nada, com os olhos perdidos no mar.
E Rytmel vindo para mim, tomando-me o braço, com um gesto desesperado:
--Vês tu! Vês isto? Eu soffria tudo por ella; a deshonra, a infamia, o desprezo; abandonava o mundo, renegava a minha farda, queria a pobreza, o escarneo, tudo por ella. Diz-se a um homem--amo-te, vae-se fugir com elle, está-se n'um navio, e de repente, a meia hora da felicidade e do paraiso, quando já se não vê terra, vem um escrupulo, uma mágoa, uma saudade do marido talvez, uma lembrança d'um baile, ou d'uma flôr que ficava bem--e adeus para sempre! e quer-se voltar; e tu, miseravel, soffre, chora, arrepella-te, e morre para ahi como um cão. Meu amigo, eu não tenho voz, nem força: previna o piloto: a senhora condessa tem pressa de chegar a terra!...
--William! William! gritou a condessa, precipitando-se, tomando-lhe as mãos. Mas tu não percebes nada? Em Malta, como em Alexandria, eu sou tua, só tua... tua deante de Deus, tua deante dos homens...
N'este momento ouviu-se a voz distante de um sino!
Eram os sinos de Malta. A terra ficava defronte.
A suavidade da hora era extrema; o ar estava ineffavelmente limpido. Viam-se já as aldeias brancas, o altivo perfil de la Valette. O sol descia. Os seus ultimos raios obliquos faziam scintilar os _miradouros_. Distinguiam-se no caes os vendedores de flores. Duas gondolas corriam para nós. Houve um grande ruido nas velas, assobios de manobras, o navio parou, e a ancora caiu na agua! Tinhamos chegado. Os sinos de Malta continuavam repicando.
X
Quando desembarcámos corri ao hotel. O conde ainda não tinha vindo do seu passeio a Bengama com Mademoiselle Rize. Rytmel foi encerrar-se em casa, n'um triste estado de exaltação e de paixão.
Carmen veio logo procurar-me ao meu quarto. Entrou rapidamente, perguntou-me:
--Voltaram? como foi?
--Sabia então alguma cousa? interroguei admirado.
--Tudo. Por um acaso. Sabia que queriam fugir. Durante toda a noite Rytmel andou fazendo preparativos. Era uma combinação de ha trez dias. Lord Grenley sabia. E agora?
--Agora, disse eu, tudo terminou. A condessa naturalmente parte no primeiro paquete.
--Duvido. Mas se não partem, ha uma desgraça. É uma fatalidade, bem o sei, mas que quer? Amo aquelle homem, amo Rytmel. Demais é uma obrigação, salvou-me a vida. É sobretudo uma paixão estupida que me roe, que me mata. E ainda me não mata tão depressa como eu queria. Faço tudo para me matar. Ponho-me a suar, levanto-me e vou apanhar o orvalho para o terraço. Para que vivo eu? Vivia d'esta paixão. Cresceu desde que o vi agora. E diga-me quem o não ha de adorar? Ás vezes lembra-me matal-o!...
Conversámos algum tempo. A pobre creatura tinha nos olhos um fulgor febril, na face uma pallidez de marmore. Eu procurei calmal-a. Começava a sympathizar com ella...
A condessa não sahiu do seu quarto dois dias. Eu contei ao conde que ella tivera em Gozzo um susto terrivel, porque tinhamos estado em perigo, na visita ás cavernas da costa, onde a navegação é cheia de desastres. Estive quasi sempre, depois, com Rytmel. Lentamente a esperança renascia no seu espirito. Accommodava-se, ainda que com certas repugnancias, a uma situação mais racional, ainda que menos pura. Era um convalescente da paixão. E, ao fim de cinco dias, senhor redactor (tanto a natureza humana é cheia de conciliações!) ao fim de cinco dias a condessa appareceu no theatro, fresca, radiante, e ao lado da brancura dos seus hombros reluziam as dragonas de ouro de Captain Rytmel!
Entrámos então n'uma vida serena, sem romance e sem lucta. Os corações tinham calmado, e fallavam baixo. O conde passeava no campo com mademoiselle Rize; lord Grenley fumava, cheio de tédio, o seu cachimbo de opio; eu jogava as armas com os officiaes inglezes; D. Nicazio negociava; Rytmel tinha um ar feliz e mysterioso; a condessa recebia, guiava os seus poneys, e todas as noites, no theatro, fazia reluzir ao gaz o louro esplendor dos seus cabellos e a pallidez preciosa das suas perolas. Santa paz!
O tempo estava adoravel. Malta resplandecia, a bahia reluzia ao sol, os jardins floresciam, os olhos das maltezas suspiravam. Era o tempo das flôres da laranjeira. Só Carmen emmagrecia e vivia retirada.
Mr. Perny entrava em convalescença: passava o tempo deitado n'um _sophá_, de dia compondo uma opera comica, á noite jogando com alguns officiaes, e salpicando a gravidade britannica de _calembourgs_ bonapartistas.
Uma occasião, ao sair de casa d'elle, onde tinha perdido algumas duzias de libras, recolhia eu a Clarence-Hotel levemente irritado, e sentindo um prazer excentrico em cantar o _fado_ pela ruas de Malta, a mil legoas do Bairro Alto. O pavilhão que nós habitavamos em Clarence-Hotel dava sobre um jardim todo escuro d'arvores e de moitas de flôres.
Ordinariamente o conde e eu entravamos pelo jardim. Tinhamos uma pequena chave que abria a portinha verde no muro, todo coberto de musgo e de copas d'arbustos orientaes. N'essa noite, ao abrir a porta, cantando em voz alta, senti sumir-se rapidamente na espessura das folhagens um vulto. O ar estava sereno, accendi um phosphoro, e áquella luz trémula, entrei na sombra, para descobrir o vulto, entre as ramagens. Mas a pessoa, vendo-se seguida, e sentindo a impossibilidade de se esquivar rapidamente, retrocedeu, com uma naturalidade visivelmente artificial, e proferiu o meu nome. Era Carmen.
--Que faz aqui? disse eu.
--Mato-me. Não lhe disse que sempre que suava de noite, me erguia e vinha apanhar o orvalho?
Mas ella estava completamente vestida de seda preta, e tinha sobre os hombros uma larga capa escura, de fórma arabe, com grande capuz!
--Ah! minha cara, disse eu, mata-se mas é d'amores. A esta hora, com essa _toillette_, n'este jardim, com este aroma de laranjeiras!... Que historia me vem contar d'orvalhos e de suor?
--Digo-lhe a verdade. Imagina que eu não preferiria aqui n'esta sombra encontrar alguem?...
--E D. Nicazio? Peça a D. Nicazio que lhe faça a côrte. Que lhe dê uma serenada, que suba por uma escada de corda, que a seduza n'este jardim...
Emquanto eu fallava, davam horas na Igreja de S. João, e Carmen mostrava uma agitação impaciente. A todo o momento olhava para a porta do jardim, torcendo freneticamente uma luva descalçada.
Eu comprehendi que ella esperava _alguem_. Alguem, isto é, _el querido, el precioso, el saleroso, el niño_ de toda a legitima andaluza. Affastei-me discretamente, como um confidente, e no momento que pisava a rua areada que levava ao pavilhão, senti a porta do jardim ranger com uma ternura plangente.
--É elle, pensei eu. É o _niño_. Pobre Carmen! Bebe vinagre, apanha os orvalhos por causa de Rytmel, e mal chega a noite, não póde ser superior a vir receber debaixo das laranjeiras algum cabelleireiro francez com voz de tenor, ou algum tenor maltez com bigodes de cabelleireiro.
Subi ao meu quarto, mas não tinha somno; a noite era suave e languida, mordia-me uma aspera curiosidade, e com a astucia d'um ladrão napolitano, desci as escadas, costeei o muro do jardim, debrucei-me, espreitei, e vi Carmen. Estava só! Extrema surpreza!
--E _el querido?_ perguntei-lhe eu rindo.
Ella voltou-se em sobresalto e perguntou-me com a voz agitada:
--Qual _querido_?
--O que entrou agora?
--Não entrou ninguem.
--Eu vi.
--Conheceu?
--Não, onde está?
--Abriu as asas, voou! disse ella rindo-se e affastando-se em direcção aos seus quartos.
--Diabo! pensei eu. É uma segunda edição da Torre de Nesle. Recebe-os, parte-os aos bocadinhos e enterra-os na areia!